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“Me tornar

feminina me deixou

mais satisfeita”

L AERTE

C OUTIN H O

FAL A SOBRE TRANSIÇÃO, POLÍTICA E O MUNDO DA ARTE

Cozinhas Estreladas As CHEFS à frente das cozinhas dos principais restaurantes de São Paulo

Um novo olhar sobre a beleza Um ensaio fotográfico nspirador, retrata uma forma de enxergar a beleza além dos padrões

ELAS VÃO HACKER O MUNDO

As Hackers que usam o ativismo digital pela igualdade de gênero e outras causas urgentes


Cursos rápidos de formação em pequenos reparos domésticos, instalações elétricas e civis, manutenção de computadores, defesa pessoal, entre outros, proporcionando autonomia e independência às mulheres

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ESPORTE


ELÉTRICA

MARCENARIA

Sabe quando quebra uma tomada, queima uma lâmpada, um chuveiro, ou você quer instalar um interruptor novo e vê que não é difícil resolver, mas não sabe como? Então, esse curso vai te ensinar a fazer tudo isso de uma forma bem prática e dinâmica, com painéis e ferramentas! Aprendendo não somente isso mas também: • Conceitos de Eletricidade • Segurança e Proteção • Quadros de Energia e Disjuntores • Condutores e Eletrodutos • Tomadas, Interruptores e Chuveiros • Circuitos de Iluminação

Vamos te ensinar todas as noções básicas de marcenaria que você precisa ter para por em prática pequenos projetos! E o melhor de tudo, você vai aprender COM A MÃO NA MASSA! Cada aluna vai construir uma peça projetada pelas nossas instrutoras e vai poder levá-la para casa ao final do curso! Aprendendo não somente isso mas também: • Metrologia • Esquadrejamento • Nivelação • Transformações de Unidades • Noções de Desenho • Substratos de Madeira • Fixação • Acabamento

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EDUCAÇÃO

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HIDRÁULICA

MECÂNICA

Chega do pinga-pinga da toreira e do chuveiro, água escorendo pelo cano, pia entupida, caixa dágua transbordando, mau cheiro no encanamento e vários outros problemas Aprendendo não somente isso mas também: • Conceitos básicos e simbologia • Registros • Tubos • Sifão, Ralos e Torneiras • Chuveiros • Bacias Sanitárias • Caixas D’água

Uma ótima oportunidade para você entender sobre manutenção preventiva e possíveis problemas decorrentes do tempo de uso do veículo, e assim, garantir ainda mais segurança e independência. Aprendendo não somente isso mas também: • Metrologia • Esquadrejamento • Nivelação • Transformações de Unidades • Noções de Desenho • Substratos de Madeira • Furação • Fixação • Cortes • Acabamento

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EDUCAÇÃO

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INFORMÁTICA

DEFESA PESSOAL

Chegou a hora de dominar a internet e o seu computador, impressionando seus clientes e/ou chefes, agregando conhecimento e experiencia na vida pessoal, aprendendo: • Fundamentos de HTML • Power Point • Excel • Word • Mecanismos Windows e Mac • Principais problemas de conexão e suas soluções

Na rua a noite com pouca iluminação e um homem logo á frente olhando para você, seu primeiro pensamento será? enfrentar o homem! Aprendendo no curso: • Puxão de Cabelo por Trás • Soco ou Tapa na Cara • Como sair de um agarramento • Cabeçada no rosto • Ameaçada com arma branca • Mulher sendo enforcada • Mobilizando o agressor

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EDUCAÇÃO

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PORQUÊ, LAERTE? Laerte Coutinho conta como foi o seu processo de transição, seu posicionamento político, representatividade e como tudo isso afetou sua vida profissional. POR GABRIELE DUARTE | FOTOS FONTES


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aerte Coutinho, 66 anos, só se assumiu transgênero para o mundo depois dos 58. Apesar de recente, o acontecimento garantiu à artista o título de ícone das pessoas trans no Brasil. Não sem antes se firmar como chargista e cartunista reconhecida no Brasil e no mundo, com mais de 20 livros publicados – o próximo, em fase de roteiro, vai abordar sexualidade e política –, além de presença diária nos maiores jornais do país.

Esse é um momento de escassez ou riqueza de ideias? Eu não penso muito nessa parte de um ambiente mais favorável ou menos favorável. O meu modo de existir é por meio desse trabalho que eu faço. E eu faço isso em qualquer situação política ou social em que eu viva.

Mais recentemente, com documentário LaerteTem algum projeto paralelo a ser lançado se, da rede de streaming Netflix, tornou-se mais em breve? próxima daqueles que já conheciam Sônia, o alEm breve, não. Mas estou fazendo uma história ter ego representado por ela nos quadrinhos. muito grande com a Editora Todavia, de São Paulo, mas não sei quanto tempo vai levar. É algo Como é o seu processo de criação? que vai ser extraído de uma narrativa de quase Eu não tenho exatamente um ritual. Mas depois 40 anos. Não é autobiografia, mas tem materide 40 e tantos anos desenhando, tenho alguns al da minha vida, lógico. Não estou nomeando procedimentos que são a minha forma de trapessoas que existem, mas criando personagens. balhar. Eu meio que sei as minhas dificuldades, Quero vasculhar o que aconteceu nesses 40 e me conheço razoavelmente e sei onde me socortantos anos na área do sexo e da política. Estou rer quando as ideias parecem estar difíceis ou fazendo o roteiro ainda. meio áridas. Tenho algumas anotações de ideias mais ou menos em estado larval (risos). E tenho Em meio à polêmica das manifestações contambém o meu próprio acervo, né? Quer dizer, tra exposições em museus (Queermuseu, em eu acho que as ideias em geral vêm de outras Porto Alegre, e La Bête, em São Paulo), você ideias, de outras pessoas e também das próprias publicou uma tirinha na internet que foi ideias, entendeu? Nesse sentido, quanto mais a amplamente compartilhada. Ela tratava da gente tem uma história de produção, mais tem questão do ânus. um potencial de continuar produzindo. Porque o que a gente faz também é comida, também Eu dei uma engrossada um pouco provocaabastece as ideias futuras. Agora, como rotina, da pela truculência com que os fascistas estão eu gosto de separar a parte da manhã para me avançando sobre o corpo da cultura brasileira. situar no dia, no mundo, no país. Mas isso se alNão é um corpo no sentido de cadáver, mas é um tera com certa facilidade. É só entrar outra coisa corpo, que está sendo devorado e atacado por na pauta que muda tudo. esta sanha fascista que busca a censura. Busca ferir, né? Eu fiz meio com raiva. Eu não gosto muito de trabalhar com raiva porque, em geral, eu não produzo coisas muito boas. Mas aí me vem essa questão de como existe essa vigilância. O outro fala que o juiz julgou com a bunda. É tudo uma obsessão com questões anais que essa gente tem que, sinceramente, eu quis fazer uma resposta grossa.

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Foi uma resposta aos casos de censura nos museus? É, foi por isso que eu comecei a fazer. Lembrei de um cartum muito antigo, dos anos 70 que saiu na Charlie Hebdo ou na Hara Kiri, talvez. Não lembro o autor. Era uma coisa que envolvia também essa situação do médico examinando uma pessoa e encontrava uma coisa inusitada lá dentro. Era uma imagem de uma santa (risos). Eu sabia que ia ter uma boa repercussão, porque as pessoas estão um pouco ansiosas e nesses momentos essas engrossadas costumam repercutir. Mas eu não me arrependi. Achei que naquele momento era o que eu precisava fazer e fiz. Você sente que desempenha um papel nesse momento de tanta polaridade? Mas isso é muito pequeno. O que é uma grande repercussão para mim? Para os meus padrões é, sei lá, 3 mil, 4 mil curtidas ou compartilhamentos, retuítes. Isso é uma besteira perto do alcance que tem qualquer um desses comediantes de direita ou esses pseudo pensadores de direita. A presença desse pensamento conservador nas redes sociais é muito grande. A Eliane deixa claro que no início você demonstrou resistência em participar do seu documentário. Por que, ao final, você acabou topando? Ah, eu acabei topando porque a Eliane é uma pessoa que me inspira muita confiança. A Eliane e a Lygia [Barbosa da Silva] são pessoas que me deixaram confiantes em relação a isso. Porque, ao contrário do que muita gente diz, eu não sou uma exibicionista (risos).

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Por que, Laerte? Porque, na verdade, é uma má compreensão do que se entende por gênero. Eu acredito que existe sexo e existe gênero. Sexo são as questões biológicas. Há uma história biológica que você não tem como controlar, porque ela já aconteceu. Gênero é outra coisa. É algo cultural.

O amor é algo negado às pessoas trans, especialmente às mulheres trans, que são sempre sexualizadas e até violentadas. Isso quem me disse foi uma mulher trans de Florianópolis e me marcou. Você concorda que, como mulher trans, é mais difícil viver um amor? Eu acho que sim. A dificuldade que a nossa cultura tem de admitir que gênero pode ser uma identidade, uma expressão livre, ela conduz a um pensamento binário e a um pensamento em termos de gênero muito opressivo. A opressão patriarcal se manifesta nesse contexto em que a transgeneridade também se apresenta. Então, as pessoas trans acabaram historicamente sendo recusadas de um convívio. Em termos de um convívio normal, social, digno e foram empurradas para situações de aperto ou mesmo de risco. Existe uma quantidade estupidamente grande de pessoas trans na prostituição, em subempregos e em situações periféricas na economia e da vida econômica. E nesse sentido elas se inscrevem dentro do modo como as prostitutas são vistas também. Quer dizer, as pessoas trans são encaradas como um objeto sexual, e assim como as mulheres prostitutas, a elas também é negado espaços de dignidade humana, né?


variadas. Eu nunca quis mudar minha genitália. Nem quero. Mas a ideia de ter seios não só já me seduziu, como ainda me seduz.

É evidente que quanto mais velha fico, mais distante isso se torna, porque enfrentar uma operação, ainda que seja relativamente simples, não é tão leve. Quem me disse isso foi o João Nery [primeiro homem trans a ser operado no Brasil]. Ele falou: olha, cuidado! João Nery tem E como você chegou até a sua transgeneria minha idade. A gente tem 60 e poucos anos. dade? Não é moleza. Agora, eu vou fazer o processo de É um caminho meio tortuoso. Eu acho que hormonização, com o devido cuidado, com a ascomeça pela minha orientação sexual, que eu sistência de uma endócrino, e acho que por esse demorei muitos anos para aceitar e conviver caminho vou entender um pouco melhor. com a minha homossexualidade. Quando isso aconteceu, acho que eu entrei num período de Por que você escreve e desenha hoje? paz interna e que me permitiu perceber mais Isso já foi objeto de muitas obras mesmo. Muicoisas sobre o meu modo de ver a vida, inclutos escritores e escritoras, incluindo uma de indo a forma de ver gênero. E, depois de um minhas preferidas, que é a Margareth Atwood, tempo, até usando, inclusive, a ferramenta proela escreveu um livro que se chama Negociando spectiva do meu trabalho, quer dizer, usando os com os mortos. Ela fala: esse livro é uma tentameus personagens, eu descobri que essa coisa tiva de responder a essa pergunta. Por que você de querer ser feminina não era só um recurso de escreve? É encantador. O que ela fala é isso: a neroteiro, era também um desejo meu. E daí, ligancessidade que o autor ou a autora tem. O que é do pontinhos e conhecendo pessoas que já vivescrever? O que é produzir? Ela resume no final: iam a transgeneridade, eu fui me aproximando. é fazer uma viagem, voltar e contar. Por que eu desenho? Não sei. É onde eu me reconheço mais Nesse caminho, você optou pelos seios, mas bem equipada para me exprimir. Acho que esrejeitou a cirurgia de redesignação sexual. crevo de forma muito difícil, quer dizer, é difícil Qual que é a importância desses simbolispara mim escrever. O resultado é muito insatismos, sejam os seios ou a vagina e a vulva, fatório. Eu nunca me dei muito bem em música, para a afirmação de uma pessoa como mulque eu gostava também. Enfim, acabei achando her? que o desenho era onde eu estava mais firme e Não é bem símbolo. Quando a pessoa chega a acho que vou desenhar até conseguir segurar, produzir transformações físicas no corpo não né? Eu já me aposentei, inclusive, mas isso não está mais lidando com questões simbólicas, mas quer dizer que eu vá parar de trabalhar (risos). de essência. Então, a pessoa está tentando interCom R$ 1 mil não dá. V vir de uma forma profunda em um desarranjo pessoal. Essas maneiras de intervir são muito

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NOVO OLHAR SOBRE A BELEZA Lindas, perfeitas e exuberantes do jeito que cada uma é, sendo unica. Aqui a camera não liga para os padroes de beleza ela capta a essencia de cada uma dando a visão da sensualidade daquelas consideradas diferentes e ocultas.

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ELAS VÃO HACKEAR O MUND Como mulheres hackers e o ativismo digital podem trazer mudanças revelantes par as questões femininas e modificar a internet como a conhecemos hoje. POR MARCELA MORGADO

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nvadir sistemas, controlar câmeras e ter acesso a perfis e senhas de qualquer pessoa que esteja conectada. Dados como esses são facilmente acessados por uma hacker, e conseguir informação através de códigos é uma arma poderosíssima. Mas é o que se faz com os dados em mãos que realmente pode modificar profundamente a forma como utilizamos a internet. É nesse campo da transformação que se localiza o trabalho das hackers feministas, que, com o domínio da programação e a capacidade de ler e escrever códigos, fazem do ativismo digital um instrumento para buscar impactos para além do mundo virtual. Há muitas maneiras de agir na rede e o uso que cada hacker faz de seu conhecimento é o que a diferencia. O tipo que frequenta o imaginário leigo é o BlackHat, ou cracker, que usa suas habilidades em benefício próprio, normalmente invadindo sistemas para roubar algo ou simplesmente para infectá-lo, sempre a partir de técnicas ilícitas. Essas mesmas técnicas, no entanto, são usadas por quem se identifica como GreyHat. Uma hacker brasileira, que trabalha em uma multinacional de desenvolvimento de software e prefere não se identificar, invade computadores de homens que estão compartilhando

nudes de alguma mulher e deleta todos os arquivos de computadores e de celulares dos abusadores. “As mulheres procuram a gente porque é mais fácil e eficiente do que recorrer à polícia. Apagar um nude que vazou pode salvar a vida de uma menina que estaria completamente taxada em seu ambiente de estudo ou de trabalho caso algo não fosse feito rapidamente. Já vi mulheres terem suas vidas destruídas por um nude que vazou”, explica a GreyHat de São Paulo. As GreyHats também levam sua atuação a sites com conteúdos machistas e até mesmo a crimes que usam a rede para se propagar. A missão passa por descobrir dados de perfis falsos de homens que praticam pedofilia e assédio sexual na rede. “Conseguimos identificar pedófilos e juntar material contra eles para entregar à polícia.” Elas também combatem o “ciber abuso”, situação em que hackers propagam discursos de ódio para praticar terror psicológico através de mensagens encriptadas, muitas vezes tentando atingir especificamente ciberativistas trans, feministas e negras. “Normalmente, o discurso de preconceito desses grupos é somente uma fachada para continuarem rodando seus negócios de pedofilia e tráfico de menores”,

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Elas querem uma internet diferente O poder de quem codifica não se limita a interferir na internet, há a possibilidade de recriá-la. A capacidade das hackers de construir novas ferramentas, adaptar programas já existentes e desenhar maneiras diferentes de comunicação e difusão de informação criaram o ambiente perfeito para a inserção do feminismo no ativismo digital, o ciberfeminismo. Reconhecendo que as redes sociais e sites foram criados por homens dentro de multinacionais, as redes de código fechado reproduzem o discurso machista e criam reações contrárias às desejadas pelas ciberfeministas. O objetivo é que as mulheres programem suas próprias regras e criem redes sociais seguras para discussão e troca de informação, que gerem conhecimento através de códigos. O lema é claro: “Hackeando o patriarcado”. O empoderamento da mulher através da tecnologia está até mesmo em uma ação da ONU, no projeto The 17 Goals, conjunto de 17 transformações necessárias para termos um mundo melhor em 2030. A igualdade de gênero entra em quinto lugar de prioridade, depois de temas como fome e saúde, e, dentro deste módulo, uma das premissas é inserir a mulher na tecnologia.

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Ela quer quebrar a internet “A faculdade te dá uma base, mas é nas comunidades que você aprende como usá-la. Ninguém vira hacker com um diploma”, decreta Ingrid Spangler, 20, uma das oito garotas (são 40 alunos) de sua sala no curso de ciência da computação da Universidade Federal de São Paulo. A garota é conhecida por ganhar campeonatos de Capture the Flag (CTF) – jogo que simula problemas de programação reais e ganha quem conseguir hackear primeiro –, competindo em categorias mistas, tanto individualmente quanto com seu grupo, HexQueens, composto somente de mulheres Ingrid cogitou estudar arte, mas entendeu que gosta mesmo é de “quebrar as coisas”. “Quebrar é explorar algo que os desenvolvedores não queriam que fosse explorado, é descobrir falhas e modificar programas para que eles trabalhem de uma maneira diferente.” Ela diz que perdeu amigos ao dizer que era hacker, e que o problema está na visão errada que as pessoas ainda têm da atividade. “Um hacker é uma pessoa que quer pensar fora da caixinha, estamos interessados em entender como as coisas funcionam”, explica. “Gostaria que as pessoas começassem a fazer tudo com código aberto e por si mesma. Assim, você poderia usar seu celular sem se preocupar com a venda de seus dados.”


“AS MULHERES PROCURAM A GENTE PORQUE É MAIS FACIL E EFICIENTE DO QUE RECORRER À POLÍCIA” HACKER GREYHAT BRASILEIRA

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Elas não querem a informação como privilégio Na Europa, a ideia que ganha cada vez mais força é compartilhar conhecimento e ampliar o impacto e a visibilidade do ciberfeminismo. O coletivo catalão Donnastech é referência na Espanha ao misturar tecnologia a diversas outras áreas de conhecimento, da realização de oficinas de programação a ações que misturam arte e ativismo digital. Elas também publicam sistematicamente projetos desenvolvidos por mulheres e perfis de hackers mulheres que fizeram a diferença no mundo. No MediaLab, centro de pesquisa digital de Madri, na Espanha, surgiu o grupo Akelarre Ciberfeminista, fundado por meninas que não sabiam programar, mas tinham a curiosidade de entender o que a tecnologia poderia oferecer de diferente às causas que defendiam. Realizaram uma oficina com especialistas, que resultou em um kit de autodefesa ciberfeminista. O coletivo também tenta desenvolver um bot contra “maschitrolls”. “Nosso intuito é parar de fazer o trabalho mecânico. Deixar que o robô faça o trabalho enquanto pensamos nos próximos passos”, diz a fundadora Virginia Díez. O ciberfeminismo é cada vez mais uma alternativa relevante dentro das batalhas diárias do feminismo, capaz de transformações na estrutura da sociedade atual a partir da sociedade digital. E não

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atividade voltada para crimes. Os códigos estão aí, é preciso não estarmos alheias ao controle deles. Para isso acontecer, é preciso que a distância entre a garota e a tecnologia seja diminuída desde cedo. “Conheço poucas mulheres que abriram um computador pra trocar a ventoinha, e isso é ruim porque você se distancia da tecnologia, gerando desinteresse e afastamento”, reflete Silvana Bahia. Outra iniciativa que tem se destacado é o PretaLab, voltado para estudos de tecnologia entre mulheres negras e indígenas. O laboratório vem realizando dois mapeamentos: um de negras que trabalham com tecnologia e outro de histórias e desafios enfrentados por elas. Hoje, são mais de 500 perfis. Elas também criaram o projeto Minas de Dados, que selecionou cinco mulheres negras (trans ou cis) para passar um mês elaborando projetos de tecnologia a partir de dados abertos por governos. Existem também movimentos mundiais como as PyLadies, com mulheres que programam phyton e open source. A ideia é unir programadoras para trocar conhecimento e aumentar a rede de mulheres dentro de softwares livres. Estão em diversos países do mundo, incluindo o Brasil. V


“O Vale do Silício tem apenas 4% de mulheres negras. O que queremos saber é o que muda quando uma mulher negra pensa em um aplicativo.” Silvana Bahia

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GIRL POWER GOURMET Conheça 10 mulheres que comandam a gastronomia em São Paulo Texto: Adriana Douglas e Juliana Bestetti | Fotos: Alexandre Schneider e Bruno Geraldi

Helena Rizzo, Gabriela Barretto, Paola Carosella, Janaína Rueda, Ana Soares e Ana Luiza Trajano são algumas das chefs que esbanjam talento e competência na cozinha profissional. Elas enfrentam a pressão, suam com o calor intenso dos fornos, encaram longas jornadas de trabalho e ainda desafiam diariamente o machismo histórico que existe na profissão de chef de cozinha. Ser mulher no universo da gastronomia não é fácil, mas nem por isso elas desistiram do sonho de trabalhar como cozinheiras profissionais. Com muita competência e talento, as mulheres vêm conquistando cada vez mais espaço e reconhecimento no cenário gourmet a nível global. Prova disso foi a criação do prêmio de melhor chef mulher do mundo (Ainda polêmico por dividir a categoria «melhor chef mulher» e « melhor chef» para os profissionais masculinos), em 2014, pela célebre revista britânica Restaurant – entregue à gaúcha Helena Rizzo, do restaurante Maní, de São Paulo. E falando em Brasil, São Paulo é onde as mulheres estão ganhando destaque na cozinha. Comandando restaurantes renomados, Roberta Sudbrack, Ana Luiza Trajano, Renata Vanzetto, Paola Carosella e Janaína Rueda são algumas das chefs que lideram a gastronomia do país.


Ana Luiza Trajano

Ana Soares

Paola Carosella

Da mesma família dona das lojas Magazine Luiza, Ana Luiza Trajano preferiu não seguir os passos no ramo do varejo. Formada em administração pela FAAP, ela fez as malas e viajou para estudar gastronomia na Itália e aprender parte dos conhecimentos que ela aplica no restaurante Brasil a Gosto, inaugurado em 2006 em São Paulo. Em 2012, ela levou o prêmio Paladar, do jornal O Estado de São Paulo, na categoria Trivial, e, no final de 2013, seu trabalho deu origem ao livro “Cardápios do Brasil”, com receitas e experiências culinárias. Além de comandar a cozinha do estabelecimento, ela é também curadora da pós-graduação em gastronomia brasileira do SENAC.

Há cerca de 20 anos trabalhando como chef, a arquiteta formada pela USP e cozinheira autodidata Ana Soares é outro destaque da gastronomia brasileira. Ela comanda a cozinha da rotisseria Mesa III, em São Paulo, desde 1995, e já foi chef do Bar Nabuco e do Restaurante Badaró. Como se não bastasse o sucesso, ela ainda atua como consultora e já criou a implantou mais de 60 cardápios em estabelecimentos espalhados pelo país. Essa trajetória foi reconhecida pelo prêmio Paladar de Personalidade do Ano, que Ana recebeu em 2009.

Ela é argentina, mas adotou o Brasil como seu lar e, assim conquistou o paladar dos brasileiros. Paulo Carosella, que lidera o Arturito e o La Guapa, em São Paulo, aprendeu a cozinhar com a prática e já trabalhou com nomes de peso da alta gastronomia, dentre eles Francis Mallmann. Antes de adotar São Paulo como sua casa, atuou na França e na Inglaterra. Já no Brasil, ajudou a abrir o Figueira Rubaiyat e recebeu diversos prêmios. Entre seus troféus estão o de chef revelação, em 2005, pela revista Gula, chef do ano, em 2010, pela revista Veja São Paulo Comer e Beber e melhor restaurante variado pela mesma revista, em 2009 e 2010.

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Gabriela Barretto

Helena Rizzo

Janaína Rueda

A chef Gabriela Barretto é a mente e as mãos por trás do cardápio do restaurante Chou, em São Paulo, e se consagrou como uma das melhores do país. Antes de adentrar no caminho dos sabores, ela estudou e se formou em Letras, pela Unicamp, mas seu talento para a cozinha falou mais alto. Durante um ano e meio, viveu na Europa, onde aprendeu mais sobre a arte da gastronomia com estágios em restaurantes de renome. No Brasil, seu currículo também inclui uma passagem de cinco meses pelo Julia Cocina, primeiro estabelecimento aberto pela argentina Paola Carosella. Em 2012, recebeu das mãos de Marília Gabriela (centro) o prêmio da revista Veja São Paulo Comer e Beber de melhor restaurante variado, ao lado da subchefe de cozinha Luisa Frateschi (dir.).

Helena Rizzo, gaúcha que já foi modelo e estudou arquitetura, se encontrou na gastronomia e se tornou o maior nome feminino do Brasil nesta área. Em 2013, o Maní, restaurante que comanda ao lado do marido e chef Daniel Redondo, ficou em 46º lugar na lista dos 50 melhores do mundo, da revista Restaurant, que deu a Helena o troféu de melhor chef mulher da América Latina. Agora, a profissional foi condecorada com o prêmio Veuve Clicquot, que homenageia a melhor chef mulher do planeta.

O currículo de Janaína Rueda, chef do Bar da Dona Onça, em São Paulo, tem importantes conquistas, como o prêmio de melhor bar, segundo as edições de 2008 e 2009 da Veja São Paulo Comer e Beber, o troféu de bar do ano na edição de Melhores do Ano da Revista Prazeres da Mesa em 2009, e o de melhor feijoada no ranking Melhor de São Paulo 2010-2011, da revista Época São Paulo. Sua formação em gastronomia começou desde pequena, com a ajuda da intuição. Já adulta, foi consultora de vinhos na multinacional Pernod Ricard e, em 2008, conseguiu realizar o sonho de abrir um bar, projeto realizado com a ajuda de seu marido Jefferson Rueda, que também é chef. V

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ELAS

tambĂŠm

COMPETEM

Bia Figueiredo, unica mulher a competir na Formula 1, Stock Car e na Indy.


Bia Figueiredo, em novo contrato com a Ipiranga Racing

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a pista representando nós mulheres, e paulistas, temos a maravilhosa Ana Beatriz Caselato Gomes de Figueiredo, primeira brasileira a correr em uma categoria top do automobilismo mundial, a Fórmula Indy, Ana Beatriz Figueiredo – ou Bia Figueiredo – foi a primeira mulher do mundo a vencer na Firestone Indy Lights, e a única a vencer na Fórmula Renault, a conquistar uma pole position na Fórmula 3, e a disputar e vencer o Desafio das Estrelas. Bia sabe que está sempre em evidência, e lida bem com o fato de ser a única piloto no grid da Stock. A situação foi comum ao longo de toda a sua passagem no esporte, algo que, para ela, deixa clara a falta de apoio para que outras mulheres sigam carreira nas corridas. –Desde pequena, sempre demonstrei paixão pelo automobilismo e sempre tive o apoio da minha família. Mas, na maioria das vezes, eu era a única menina – explicou Bia antes da segunda etapa da Stock Car, no Velopark, em Nova Santa Rita. – Só quando fui para os Estados Unidos é que vi mais mulheres correndo. Acho que isso vai muito da cultura das famílias. O Brasil ainda é um pouco machista, e, se a família for apoiar alguém no esporte, vai ser o menino.

O Brasil ainda é um pouco machista, e, se a família for apoiar alguém no esporte, vai ser o menino.

Nos EUA, isso está mais avançado. cias das empresas, como CEOs, em uma porcentagem bem maior do que aqui. Mas a partir do momento em que coloco o capacete, é todo mundo igual. Eu não lembro que estou de unha pintada, o foco é o mesmo para todos. A única coisa diferente é que, provavelmente, eu me cuido mais do que eles fora daqui (risos).

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im, Rugby, o esporte coletivo de intenso contato físico, sendo muito bem representado pelas mulheres, aqui em São Paulo, por quatro grupos distintos, Band, SPAC, Pasteur e da USP. Em destaque pela SPAC, temos a paulistana Paula Ishibashi, que recebeu em cerimônia de gala no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o prêmio de atleta do ano do rugby oferecido pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB). Paulinha, como é conhecida no mundo do rugby, contou em uma entrevista exclusiva na sede da CBRu, sobre o começo de sua carreira e tudo o que já passou com o rugby no Brasil.

“ajudei no desenvolvimento

da modalidade feminina no clube, que na época não tinha sequer sete atletas para compor um treino.

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Meninas do SPAC, a Paula Ishibashi é a segunda em pé da esquerda para a direita.

Foi por intermédio de alguns colegas que Paulinha conheceu o Hugby aos 15 anos, ajudando no desenvolvimento da modalidade feminina no clube, que na época não tinha sequer sete atletas para compor um treino. “Estou há 13 anos no SPAC. Vi o time crescer e faço parte dele até hoje. Devo todo o meu conhecimento de rugby ao clube, onde aprendi tudo o que sei”, completou a atleta. Em 2004, o primeiro título sul-americano – O início na seleção brasileira aconteceu em 2004 e logo disputou seu primeiro campeonato Sul-Americano. Na ocasião, as meninas do Brasil surpreenderam e garantiram o primeiro título da categoria. Quando o assunto é o prêmio de atleta do ano no rugby oferecido pelo Comitê Olímpico Brasileiro, Paulinha, com muita humildade, responde: “Não vejo a premiação para mim. É apenas mais um passo para o rugby feminino. Eu estive lá somente para representar todas as meninas que estão na luta comigo. Poderia ser qualquer uma de nós”.


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IM DIM, e no ringue agora, com 25 anos ,Pesando 75kg, direto de São Paulo e numero 1 do peso médio do Brasil, Flávia Figueiredo de Figueiredo!! Se os Jogos Olímpicos fossem hoje, ela seria a representante brasileira no boxe feminino. Mas até chegar a esse nível ela sofreu bastante. Aos 15 anos ela perdeu o pai, que a apresentara ao boxe, depois teve que se revezar entre as sessões de treinamentos e vários empregos diferentes como assistente de cozinha, garçonete, caixa, professora de boxe e atendente de telemarketing.

Campeã brasileira e sul-americana, Flávia é o orgulho de sua família e se dedica a treinar forte no centro da seleção brasileira de boxe, em São Paulo, com o objetivo de brilhar na categoria meio-pesado no Rio-2016. - Todo boxeador tem uma história muito bonita. Não é a toa que chamam de nobre arte – conclui Flávia.

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Vênus  

Projeto de faculdade com influencia feministas

Vênus  

Projeto de faculdade com influencia feministas

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