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ave trepadora

da América Central, que morre quando privada de liberdade; raiz e origem da Quetzalcoatl (serpente emplumada com penas de quetzal), divindade dos Toltecas, cuja alma, segundo reza a lenda, teria subido ao céu sob a forma de Estrela da Manhã.


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Tinha deixado de chover há um bocado, mas a atmosfera continuava húmida e pesada, parecia que em volta tudo germinava, crescia e se espessava. Dezoito anos depois, Roger, entre as imagens desordenadas que a febre fazia revoar na sua cabeça, recordava o olhar inquiridor, surpreendido, por momentos trocista, com que Henry Morton Stanley o inspeccionou. – A África não se fez para os fracos – disse ele por fim, como se falasse consigo mesmo. – As coisas que o preocupam são um sinal de fraqueza.


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O Sonho do Celta Tradução de Cristina Rodriguez

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Título: O Sonho do Celta Título original: El Sueño del Celta Autor: Mario Vargas Llosa Tradução: Cristina Rodriguez Revisão: Pedro Ernesto Ferreira Projecto gráfico original: RPVP Designers Design da capa: Rui Rodrigues . Quetzal Editores Composição: José Campos de Carvalho Execução gráfica: Bloco Gráfico, Lda. Unidade Industrial da Maia © 2010 Quetzal Editores [Todos os direitos para publicação desta obra em língua portuguesa, excepto Brasil, reservados por Quetzal Editores]

© Mario Vargas Llosa, 2010 ISBN: 978-972-564-919-0 Depósito legal: 318536/10 Quetzal Editores Rua Prof. Jorge da Silva Horta, 1 1500-499 Lisboa PORTUGAL quetzal@quetzaleditores.pt Tel. 21 7626000 • Fax 21 7625400

A cópia ilegal viola os direitos dos autores. Os prejudicados somos todos nós.


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Para Ă lvaro, Gonzalo e Morgana. E para Josefina, Leandro, Ariadna, Aitana, Isabella e AnaĂ­s.


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«Cada um de nós é, sucessivamente, não um, mas muitos. E estas personalidades sucessivas, que emergem umas das outras, costumam oferecer entre si os mais estranhos e assombrosos contrastes.» JOSÉ ENRIQUE RODÓ, Motivos de Proteo


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QUANDO ABRIRAM A PORTA DA CELA, com o jorro de luz e um golpe de vento entrou também o barulho da rua que as paredes de pedra abafavam e Roger acordou, assustado. Pestanejando, ainda confuso, esforçando-se por se acalmar, vislumbrou, recostada no vão da porta, a silhueta do xerife. A sua cara flácida, de louros bigodes e olhinhos maldizentes, contemplava-o com a antipatia que nunca tinha tentado disfarçar. Eis aqui alguém que sofreria se o Governo inglês lhe concedesse o pedido de clemência. – Visita – murmurou o xerife, sem tirar os olhos de cima dele. Pôs-se de pé, esfregando os braços. Quanto teria dormido? Um dos suplícios da prisão de Pentonville era não se saber as horas. No cárcere de Brixton e na Torre de Londres ouvia as badaladas que marcavam as meias horas e as horas; aqui, as espessas paredes não deixavam chegar ao interior da prisão o alvoroço dos sinos das igrejas de Caledonian Road nem o bulício do mercado de Islington e os guardas perfilados na porta cumpriam estritamente a ordem de não lhe dirigir a palavra. O xerife pôs-lhe as algemas e indicou-lhe que saísse à sua frente. Traria o seu advogado alguma boa notícia? O gabinete ter-se-ia reunido e tomado uma decisão? Talvez o olhar do xerife, mais carregado do que nunca com a aversão que ele lhe inspirava, se devesse a terem-lhe comutado a pena. Ia a caminhar pelo


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longo corredor de tijolos vermelhos enegrecidos pela sujidade, entre as portas metálicas das celas e umas paredes descoloridas nas quais a cada vinte ou vinte e cinco passos havia uma alta janela com grades através da qual conseguia avistar um bocadinho de céu acinzentado. Porque é que tinha tanto frio? Era Julho, o coração do Verão, não havia razão para aquele gelo que lhe eriçava a pele. Ao entrar no estreito parlatório das visitas, afligiu-se. Quem o esperava ali não era o seu advogado, maître George Gavan Duffy, mas sim um dos seus ajudantes, um jovem louro e desengonçado, de maçãs do rosto salientes, vestido como um peralvilho, a quem ele tinha visto durante os quatro dias do julgamento a levar e a trazer papéis aos advogados de defesa. Porque é que o maître Gavan Duffy, em vez de vir em pessoa, mandava um dos seus estagiários? O jovem atirou-lhe um olhar frio. Nas suas pupilas havia irritação e repugnância. O que é que aquele imbecil estaria a pensar? «Olha para mim como se eu fosse uma besta», pensou Roger. – Alguma novidade? O jovem negou com a cabeça. Inspirou antes de falar: – Sobre o pedido de indulto, ainda não – murmurou, com secura, fazendo um esgar que ainda o desengonçava mais. – É preciso esperar que o Conselho de Ministros se reúna. A Roger incomodava-o a presença do xerife e do outro guarda no pequeno parlatório. Embora permanecessem silenciosos e imóveis, sabia que estavam suspensos de tudo o que diziam. Essa ideia oprimia-lhe o peito e dificultava-lhe a respiração. – Mas, tendo em conta os últimos acontecimentos – acrescentou o jovem louro, pestanejando pela primeira vez e abrindo e fechando a boca com exagero –, tudo se tornou agora mais difícil. – À prisão de Pentonville não chegam as notícias do exterior. O que é que aconteceu?


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E se o Almirantado alemão tivesse decidido por fim atacar a Grã-Bretanha a partir das costas da Irlanda? E se a sonhada invasão estivesse a acontecer e os canhões do Kaiser vingassem naqueles mesmos instantes os patriotas irlandeses fuzilados pelos Ingleses na Revolta da Páscoa? Se a guerra tivesse tomado aquele rumo, os seus planos realizavam-se, apesar de tudo. – Agora tornou-se difícil, talvez impossível, ter êxito – repetiu o estagiário. Estava pálido, continha a sua indignação e Roger adivinhava sob a pele esbranquiçada da sua tez a sua caveira. Pressentiu que, atrás de si, o xerife sorria. – De que é que está a falar? O senhor Gavan Duffy estava optimista relativamente à petição. O que é que aconteceu para que mudasse de opinião? – Os seus diários – soletrou o jovem, com outra careta de desagrado. Baixara a voz e Roger tinha alguma dificuldade em ouvi-lo. – Foi a Scotland Yard que os descobriu, na sua casa de Ebury Street. Fez uma longa pausa, esperando que Roger dissesse alguma coisa. Mas como este tinha emudecido, deu rédea solta à sua indignação e franziu a boca: – Como é que pôde ser tão insensato, homem de Deus? – falava com uma lentidão que tornava mais patente a sua raiva. – Como é que pôde pôr em tinta e papel semelhantes coisas, homem de Deus? E, se o fez, como é que não tomou a precaução elementar de destruir aqueles diários antes de se pôr a conspirar contra o Império Britânico? «É um insulto este imberbe chamar-me “homem de Deus”», pensou Roger. Era um mal-educado, porque ele tinha pelo menos o dobro da idade daquele rapazola amaneirado. – Circulam agora por todo o lado fragmentos desses diários – acrescentou o estagiário, mais sereno, embora sempre desagradado, agora sem olhar para ele. – No Almirantado, o porta-voz do ministro, o capitão-de-mar-e-guerra Reginald Hall em pessoa, entregou cópias a dezenas de jornalistas. Estão por toda a Londres. No Parlamento, na Câmara dos Lordes, nos clubes


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liberais e conservadores, nas redacções e nas igrejas. Não se fala de outra coisa na cidade. Roger não dizia nada. Não se mexia. Tinha, outra vez, aquela estranha sensação que se havia apoderado dele muitas vezes nos últimos meses, desde aquela manhã cinzenta e chuvosa de Abril de 1916 em que, transido de frio, fora detido entre as ruínas do Forte McKenna, no Sul da Irlanda: não se tratava dele, era doutro que falavam, doutro a quem aconteciam aquelas coisas. – Já sei que a sua vida privada não é um assunto meu, nem do senhor Gavan Duffy, nem de ninguém – acrescentou o jovem estagiário, esforçando-se por baixar a cólera que impregnava a sua voz. – Trata-se de um assunto estritamente profissional. O senhor Gavan Duffy quis pô-lo ao corrente da situação. E preveni-lo. A petição de clemência pode ver-se comprometida. Esta manhã, nalguns jornais, já há protestos, inconfidências, rumores sobre o conteúdo dos seus diários. A opinião pública favorável à petição poderá ver-se afectada. Uma mera suposição, claro. O senhor Gavan Duffy mantê-lo-á informado. Deseja que lhe transmita alguma mensagem? O prisioneiro negou, com um movimento quase imperceptível da cabeça. No mesmo instante, girou sobre si mesmo, encarando a porta do parlatório. O xerife deu uma indicação com a sua cara bochechuda ao guarda. Este correu o pesado ferrolho e a porta abriu-se. O regresso à cela pareceu-lhe interminável. Durante o percurso pelo longo corredor de pétreas paredes de tijolos vermelhos enegrecidos teve a sensação de que a qualquer momento tropeçaria e cairia de bruços sobre aquelas pedras húmidas e não voltaria a levantar-se. Ao chegar à porta metálica da cela, recordou: no dia em que o trouxeram para a prisão de Pentonville, o xerife disse-lhe que todos os réus que ocuparam aquela cela, sem excepção, tinham acabado no patíbulo. – Poderei tomar um banho, hoje? – perguntou ele, antes de entrar.


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O obeso carcereiro negou com a cabeça, olhando-o nos olhos com a mesma repugnância que Roger tinha notado no olhar do estagiário. – Não poderá tomar banho até ao dia da execução – disse o xerife, saboreando cada palavra. – E, nesse dia, só se for a sua última vontade. Outros, em vez do banho, preferem uma boa refeição. Um mau negócio para Mr. Ellis, porque então, quando sentem a corda, cagam-se. E deixam o lugar feito uma porcaria. Mr. Ellis é o verdugo, para o caso de não saber. Quando sentiu a porta fechar-se atrás de si, foi deitar-se de barriga para cima no pequeno catre. Fechou os olhos. Teria sido bom sentir a água fria daquele cano a arrepiar-lhe a pele e a azulá-la de frio. Na prisão de Pentonville, os réus, com excepção dos condenados à morte, podiam tomar banho com sabão uma vez por semana naquele jorro de água fria. E as condições das celas eram sofríveis. Em contrapartida, recordou com um calafrio a sujidade do cárcere de Brixton, onde se tinha enchido de piolhos e pulgas que pululavam no colchão do seu catre e o tinham coberto de picadas nas costas, nas pernas e nos braços. Procurava pensar nisso, mas voltavam várias vezes à sua memória a cara descontente e a voz odiosa do louro estagiário ataviado como um janota que maître Gavan Duffy lhe tinha enviado em vez de vir ele em pessoa dar-lhe as más notícias.


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DO SEU NASCIMENTO, A 1 DE SETEMBRO DE 1864, em Doyle’s Cottage, Lawson Terrace, no subúrbio Sandycove de Dublin, não se lembrava de nada, é claro. Embora sempre tenha sabido que tinha sido dado à luz na capital da Irlanda, uma boa parte da sua vida deu como assente o que o seu pai, o capitão Roger Casement, que tinha servido oito anos com distinção no Terceiro Regimento de Dragões Ligeiros, na Índia, lhe inculcou: que o seu verdadeiro berço era o condado de Antrim, no coração do Ulster, na Irlanda protestante e pró-britânica, onde a linhagem dos Casement estava estabelecida desde o século XVIII. Roger foi criado e educado como anglicano da Igreja Irlandesa, tal como os seus irmãos Agnes (Nina), Charles e Tom – os três mais velhos que ele –, mas intuiu, ainda antes de ter o uso da razão, que em matéria de religião nem tudo na sua família era tão harmonioso como no resto. Até para um menino de poucos anos era impossível não reparar que a mãe, quando estava com as suas irmãs e primos da Escócia, agia de maneira que parecia esconder alguma coisa. Já adolescente, descobriria que, Anne Jephson, embora aparentemente, se tinha convertido ao protestantismo para casar com o seu pai, e às escondidas do marido continuava a ser católica («papista» teria dito o capitão Casement), confessando-se, ouvindo missa e comungando, e, no mais cioso dos segredos, ele próprio tinha sido baptizado como católico quando fez quatro anos, durante uma viagem de


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férias que ele e os seus irmãos fizeram com a mãe a Rhyl, no Norte do País de Gales, a casa das tias e tios maternos que lá viviam. Naqueles anos, em Dublin, ou nos períodos que passaram em Londres e em Jersey, Roger não lhe interessava nada a religião, ainda que, para não desgostar o pai, durante o ofício dominical rezasse, cantasse e seguisse o serviço com respeito. A mãe havia-lhe dado aulas de piano e tinha uma voz clara e temperada que costumava granjear-lhe aplausos nas reuniões familiares em que entoava velhas baladas irlandesas. O que verdadeiramente lhe interessava naquele tempo eram as histórias que, quando estava bem-disposto, o capitão Casement lhe contava a ele e aos seus irmãos. Histórias da Índia e do Afeganistão, sobretudo as suas batalhas contra os Afegãos e os Siques. Aqueles nomes e paisagens exóticos, aquelas viagens atravessando florestas e montanhas que escondiam tesouros, feras, alimárias, povos antiquíssimos de estranhos costumes, deuses bárbaros, disparavam-lhe a imaginação. Os seus irmãos, às vezes, aborreciam-se com aqueles relatos, mas o pequeno Roger poderia ter passado horas e dias a escutar as aventuras do seu pai nas remotas fronteiras do Império. Quando aprendeu a ler, gostava de mergulhar nas histórias dos grandes navegadores, viquingues, portugueses, ingleses e espanhóis que tinham sulcado os mares do planeta volatilizando os mitos segundo os quais, chegadas a um certo ponto, as águas marinhas começavam a ferver, abriam-se abismos e apareciam monstros cujas fauces podiam engolir um barco inteiro. Contudo, entre as aventuras ouvidas e as lidas, Roger sempre havia preferido escutar as da boca do pai. O capitão Casement tinha uma voz quente, descrevia com rico vocabulário e animação as florestas da Índia ou os rochedos de Khyber Pass, no Afeganistão, onde a sua companhia de Dragões Ligeiros foi uma vez emboscada por uma massa de enturbantados fanáticos que os bravos soldados ingleses enfrentaram, primeiro a balázios, depois a baioneta, e, por fim, com punhais e com mãos nuas, até os obrigarem a retirar-se derrotados. Mas não eram os


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feitos de armas o que mais deslumbrava a imaginação do pequeno Roger, mas sim as viagens, abrir caminhos por paisagens nunca pisadas pelo homem branco, as proezas físicas de resistência, vencer os obstáculos da natureza. O seu pai era agradável, mas severíssimo e não vacilava em açoitar os filhos quando se portavam mal, mesmo Nina, a mulherzinha, pois assim se castigavam os erros no Exército e ele tinha verificado que só aquela forma de castigo era eficaz. Embora admirasse o pai, de quem Roger verdadeiramente gostava era da mãe, aquela mulher esbelta que parecia flutuar em vez de andar, de olhos e cabelos claros e cujas mãos, tão suaves, quando se enredavam nos seus caracóis ou lhe acariciavam o corpo na hora do banho o enchiam de felicidade. Uma das primeiras coisas que aprenderia foi – teria cinco, seis anos? – que só podia correr a atirar-se para os braços da mãe quando o capitão não estava por perto. Este, fiel à tradição puritana da sua família, não era partidário de que as crianças crescessem com muitos mimos, pois isso tornava-os moles para a luta pela vida. Diante do pai, Roger mantinha-se à distância da pálida e delicada Anne Jephson. Mas quando aquele partia para se juntar aos amigos no seu clube ou para dar um passeio, corria para ela, que o cobria de beijos e carícias. Às vezes, Charles, Nina e Tom protestavam: «Gostas mais do Roger que de nós.» A mãe garantia-lhes que não, que gostava igualmente de todos, só que Roger era muito pequeno e precisava de mais atenção e carinho que os mais velhos. Quando a mãe morreu, em 1873, Roger tinha nove anos. Aprendera a nadar e ganhava todas as corridas com meninos da sua idade e até mais velhos. Ao contrário de Nina, Charles e Tom, que derramaram muitas lágrimas durante o velório e o enterro de Anne Jephson, Roger não chorou nem uma única vez. Naqueles dias tétricos, o lar dos Casement converteu-se numa capela funerária, cheia de gente vestida de luto, que falava em voz baixa e abraçava o capitão Casement e as quatro crianças com caras pesarosas, pronunciando palavras de pêsames.


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Durante muitos dias não conseguiu pronunciar uma frase, como se tivesse ficado mudo. Respondia com movimentos de cabeça ou gestos às perguntas e permanecia sério, cabisbaixo e com o olhar perdido, até mesmo de noite no quarto às escuras, sem conseguir dormir. Desde então e para o resto da sua vida, de quando em quando, nos seus sonhos, a figura de Anne Jephson viria visitá-lo com aquele sorriso convidativo, abrindo-lhe os braços, onde ele se ia encolher, sentindo-se protegido e feliz com aqueles dedos finos na sua cabeça, nas suas costas, nas suas faces, uma sensação que parecia defendê-lo das maldades do mundo. Os irmãos depressa se conformaram. E Roger também, aparentemente. Porque, embora tivesse recuperado a fala, era um tema que ele nunca referia. Quando algum familiar lhe recordava a mãe, emudecia e mantinha-se encerrado no seu mutismo até aquela pessoa mudar de tema. Nas suas insónias, pressentia na escuridão, olhando para ele com tristeza, o semblante da infortunada Anne Jephson. Quem não se conformou nem voltou a ser o mesmo foi o capitão Roger Casement. Como não era efusivo e nem Roger nem os irmãos o tinham visto alguma vez ser pródigo em gentilezas para com a mãe, as quatro crianças ficaram surpreendidas com o cataclismo que o desaparecimento da esposa significou para o pai. Ele, tão bem ataviado, andava agora vestido de qualquer maneira, com a barba crescida, o sobrolho franzido e um olhar de ressentimento como se os filhos tivessem a culpa da sua viuvez. Pouco tempo depois da morte de Anne, decidiu deixar Dublin e despachou as quatro crianças para o Ulster, para Magherintemple House, a casa de família, onde, a partir de então, o tio-avô paterno John Casement e a sua esposa Charlotte se encarregariam da educação dos quatro irmãos. O pai, como que a querer desinteressar-se deles, foi viver a quarenta quilómetros dali, no Adair Arms Hotel de Ballymena, onde, como às vezes o tio-avô John acabava por dizer, o capitão Casement, «meio louco de dor e solidão», dedicava os seus dias e


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noites ao espiritismo, tentando comunicar com a mulher morta através de médiuns, cartas e bolas de cristal. Desde então, Roger raramente viu o pai e nunca mais o ouviu voltar a contar aquelas histórias da Índia e do Afeganistão. O capitão Roger Casement morreu de tuberculose em 1876, três anos depois da esposa. Roger acabava de fazer doze anos. Na Escola Diocesana de Ballymena, onde esteve três anos, foi um estudante distraído, que tirava notas regulares, excepto a Latim, Francês e História Antiga, disciplinas em que se destacou. Escrevia poesia, parecia sempre metido consigo mesmo e devorava livros de viagens pela África e pelo Extremo Oriente. Praticava desporto, sobretudo natação. Aos fins-de-semana ia ao Castelo de Galgorm, dos Young, para onde um colega da turma o convidava. Mas Roger passava ainda mais tempo com Rose Maud Young, bela, culta e escritora, que percorria as aldeias de pescadores e camponeses do Antrim, recolhendo poemas, lendas e canções em gaélico. Da sua boca ouviu pela primeira vez os épicos conflitos da mitologia irlandesa. O castelo, de pedras negras, torreões, escudos, lareiras e uma fachada catedralesca tinha sido construído no século XVII por Alexander Colville, um teólogo de cara maldisposta – segundo o seu retrato do vestíbulo – que, dizia-se em Ballymena, tinha feito um pacto com o Diabo e o seu fantasma deambulava pelo lugar. Tremendo, nalgumas noites de luar, Roger atreveu-se a procurá-lo pelos passadiços e aposentos vazios, mas nunca o encontrou. Só muitos anos mais tarde aprenderia a sentir-se confortável em Magherintemple House, o solar dos Casement, que antes se tinha chamado Churchfield e fora uma reitoria da paróquia anglicana de Culfeightrin. Porque nos seis anos que ali viveu, entre os nove e os quinze anos, com o tio-avô John e a tia-avó Charlotte, e restantes parentes paternos, sempre se sentiu um pouco estranho naquela imponente mansão de pedras cinzentas, de três andares, altos tectos lisos, muros cobertos de hera, telhados de falso gótico e cortinados que pareciam ocultar fantasmas. Os vastos aposentos, os longos corredores e as


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escadas com gastos corrimãos de madeira e degraus que gemiam aumentavam a sua solidão. Em compensação, tinha prazer ao ar livre, entre os robustos olmos, sicômoros e pessegueiros que resistiam aos ventos ciclónicos e as suaves colinas com vacas e ovelhas das quais se avistava a localidade de Ballycastle, o mar, os escolhos que investiam contra a ilha de Rathlin e, nos dias claros, a esbatida silhueta da Escócia. Ia com frequência às aldeias vizinhas de Cushendum e Cushendall que pareciam o cenário de antigas lendas irlandesas, e aos nove glens da Irlanda do Norte, aqueles estreitos vales cercados de colinas e ladeiras rochosas em cujos cumes as águias traçavam círculos, espectáculo que o fazia sentir-se corajoso e exaltado. A sua diversão preferida eram as excursões por aquela terra áspera, de camponeses tão velhos como a paisagem, alguns dos quais falavam entre eles o irlandês antigo, acerca do qual o seu tio-avô John e os amigos faziam às vezes cruéis chacotas. Nem Charles nem Tom partilhavam o seu entusiasmo pela vida ao ar livre, nem tiravam prazer das caminhadas pelos campos ou a escalar as lombas escarpadas do Antrim; Nina, pelo contrário, e por isso mesmo, apesar de ser oito anos mais velha do que ele, foi a sua preferida e com quem sempre se daria melhor. Com ela fez várias excursões até à baía de Murlough, eriçada de rochas negras e com a sua praiazinha pedregosa, junto do Glenshesk, cuja recordação o acompanharia toda a vida e à qual sempre se referiria, nas suas cartas à família, como «aquele recanto do Paraíso». Mas ainda mais que dos passeios pelo campo, Roger gostava das férias de Verão. Passava-as em Liverpool, junto da tia Grace, irmã da sua mãe, em cuja casa se sentia querido e acolhido: pela tia Grace, claro, mas também pelo seu esposo, o tio Edward Bannister, que tinha corrido muito mundo e fazia viagens de negócios a África. Trabalhava para a companhia de navegação Elder Dempster Line, que transportava carga e passageiros entre a Grã-Bretanha e a África Ocidental. Os filhos da tia Grace e do tio Edward, os seus primos, foram melhores companheiros de brincadeira de Roger do que os seus próprios


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irmãos, sobretudo a sua prima Gertrude Bannister, Gee, com a qual, desde muito pequeno, teve uma proximidade que nunca foi manchada por um só desgosto. Eram tão unidos que uma vez Nina brincou com eles: «Vocês ainda vão acabar por casar.» Gee riu-se, mas Roger corou até à ponta dos cabelos. Não se atrevia a erguer o olhar e balbuciava: «Não, não, porque é que dizes essa palermice?» Quando estava em Liverpool, junto dos primos, Roger vencia por vezes a sua timidez e fazia perguntas ao tio Edward sobre África, um continente cuja simples referência lhe enchia a cabeça de florestas, feras, aventuras e homens intrépidos. Graças ao tio Edward Bannister ouviu falar pela primeira vez do doutor David Livingstone, o médico e evangelista escocês que andava há anos a explorar o continente africano, percorrendo rios como o Zambeze e o Chire, baptizando montanhas, paragens desconhecidas e levando o cristianismo às tribos de selvagens. Tinha sido o primeiro europeu a atravessar a África de costa a costa, o primeiro a percorrer o deserto do Calaári e tinha-se convertido no herói mais popular do Império Britânico. Roger sonhava com ele, lia os folhetos que descreviam as suas proezas e ansiava por fazer parte das suas expedições, enfrentar os perigos a seu lado, ajudá-lo a levar a religião cristã àqueles pagãos que não tinham saído da Idade da Pedra. Quando o doutor Livingstone, procurando as fontes do Nilo, desapareceu engolido pelas selvas africanas, Roger tinha dois anos. Quando, em 1872, outro aventureiro e explorador lendário, Henry Morton Stanley, jornalista de origem galesa empregado por um jornal de Nova Iorque, emergiu da selva a anunciar ao mundo que tinha encontrado vivo o doutor Livingstone, acabava de fazer oito. O menino viveu a história novelesca com assombro e inveja. E quando, um ano mais tarde, se soube que o doutor Livingstone, que nunca quis abandonar o solo africano nem voltar a Inglaterra, falecera, Roger sentiu que tinha perdido um familiar muito querido. Quando fosse crescido, também ele seria explorador, como aqueles titãs, Livingstone e


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Stanley, que estavam a alargar as fronteiras do Ocidente e a viver umas vidas tão extraordinárias. Ao fazer quinze anos, o tio-avô John Casement decidiu que Roger devia abandonar os estudos e procurar um trabalho, dado que nem ele nem os irmãos tinham rendas das quais podiam viver. Aceitou de boa vontade. Decidiram de comum acordo que Roger iria para Liverpool, onde havia mais possibilidades de trabalho que na Irlanda do Norte. Com efeito, pouco depois de chegar junto dos Bannister, o tio Edward arranjou-lhe um lugar na mesma companhia onde ele tinha laborado tantos anos. Começou os seus trabalhos de aprendiz na companhia de navegação logo a seguir a fazer os quinze anos. Parecia mais velho. Era muito alto, de profundos olhos cinzentos, magro, de cabelos negros encaracolados, pele muito clara e dentes certos, frugal, discreto, ajuizado, amável e serviçal. Falava um inglês marcado por um toque irlandês, motivo de zombarias entre os seus primos. Era um rapaz sério, empenhado, lacónico, não muito preparado intelectualmente, mas esforçado. Levou as suas obrigações na companhia muito a sério, decidido a aprender. Colocaram-no no departamento de administração e contabilidade. A princípio, as suas tarefas eram as de um mensageiro. Levava e trazia documentos de um escritório para o outro e ia ao porto fazer os trâmites entre barcos, alfândegas e depósitos. Os seus chefes tinham-no em boa consideração. Nos quatro anos em que trabalhou na Elder Dempster Line não chegou a ser íntimo de ninguém, devido à sua maneira de ser retraída e aos seus costumes austeros: inimigo de festarolas, quase não bebia e nunca o viram frequentar os bares e lupanares do porto. Desde então, foi um fumador empedernido. A sua paixão por África e o seu empenho em conquistar mérito na companhia levavam-no a ler com cuidado, enchendo-os de anotações, os folhetos e as publicações que circulavam pelos escritórios relacionados com o comércio marítimo entre o Império Britânico e a África Ocidental. Depois, repetia, convencido, as ideias que impregnavam aqueles textos. Levar para África os produtos


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Mario Vargas Llosa

europeus e importar as matérias-primas que o solo africano produzia era, mais que uma operação mercantil, um empreendimento a favor do progresso de povos parados na Pré-História, imersos no canibalismo e no tráfico de escravos. O comércio levava para lá a religião, a moral, a lei, os valores da Europa moderna, culta, livre e democrática, um progresso que acabaria por transformar os infelizes das tribos em homens e mulheres do nosso tempo. Neste empreendimento, o Império Britânico estava na vanguarda da Europa e as pessoas tinham de se sentir orgulhosas por fazerem parte dele e do trabalho que realizavam na Elder Dempster Line. Os seus colegas de escritório trocavam olhares trocistas, interrogando-se se o jovem Roger Casement seria um tonto ou um espertalhão, se acreditava naquelas palermices ou as proclamava para ter mérito perante os seus chefes. Nos quatro anos em que trabalhou em Liverpool, Roger continuou a viver com os seus tios Grace e Edward, a quem entregava parte do seu salário e eles tratavam-no como um filho. Dava-se bem com os primos, sobretudo com Gertrude, com a qual aos domingos e dias feriados ia remar, pescar, se estivesse bom tempo, ou ficava em casa a ler em voz alta junto à lareira, se chovia. A sua relação era fraterna, sem pitada de malícia ou de sedução. Gertrude foi a primeira pessoa a quem mostrou os poemas que escrevia em segredo. Roger chegou a conhecer de cor o movimento da companhia e, sem nunca ter posto os pés nos portos africanos, falava deles como se tivesse passado a vida entre os seus escritórios, lojas, diligências, costumes e gentes que os povoavam. Fez três viagens à África Ocidental no SS Bounty e a experiência entusiasmou-o tanto que, depois da terceira, renunciou ao seu emprego e anunciou aos irmãos, tios e primos, que tinha decidido ir para África. Fê-lo de uma maneira exaltada e, segundo lhe disse o tio Edward, «como aqueles cruzados que na Idade Média partiam para o Oriente para libertar Jerusalém». A família foi despedir-se ao porto e Gee e Nina deitaram grossas lágrimas. Roger acabava de fazer vinte anos.

Sonho do Celta  

romance de Mario Vargas Llosa, premiado com o Nobel da Literatura.

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