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– Olá. – Mas, o que é que eu estou aqui a fazer? E tu, quem és? – Sabes muito bem quem eu sou. – Tu és… – Vá, diz lá. – Tu és… Deus? – Estás a ver, não é assim tão difícil! Obviamente que sou Deus. Era assim que tu me imaginavas, não? – Sim, mas daí a ver-te verda… Então, mas tu existes mesmo? – É óbvio que existo! – Não, não, não acredito. Não é possível… – Por favor, não faças como os outros, que passam horas a questionar-se se é um sonho ou se estão mortos. Não, tu não estás morto; sim, eu sou Deus, sim, eu existo, sim estás mesmo a falar comigo. Olha que isto não é para a televisão, não sou nenhum actor com uma barba branca, nem há nenhuma câmara escondida. Que chatos que vocês andam! Antes era, de facto, menos complicado… Então, estás mais calmo agora? – Não sei, acho que estou a alucinar… – Oh! Que canseira! Vai, vou mandar-te para casa, chama-me quando estiveres menos desconfiado. Ele fez um pequeno gesto com a mão e eis-me na minha sala, sentado no meu sofá, exactamente como há pouco, antes de me encontrar no céu. Ah, sim, acabo de me dar conta de que falei com Deus e que ele mora nas nuvens. Bom, Deus é superimpressionante, a sério, é o máximo. Acho melhor fazer o ponto da situação: tenho trinta anos, nunca tive problemas do foro psiquiátrico, hoje não bebi álcool

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– Olá. – Mas, o que é que eu estou aqui a fazer? E tu, quem és? – Sabes muito bem quem eu sou. – Tu és… – Vá, diz lá. – Tu és… Deus? – Estás a ver, não é assim tão difícil! Obviamente que sou Deus. Era assim que tu me imaginavas, não? – Sim, mas daí a ver-te verda… Então, mas tu existes mesmo? – É óbvio que existo! – Não, não, não acredito. Não é possível… – Por favor, não faças como os outros, que passam horas a questionar-se se é um sonho ou se estão mortos. Não, tu não estás morto; sim, eu sou Deus, sim, eu existo, sim estás mesmo a falar comigo. Olha que isto não é para a televisão, não sou nenhum actor com uma barba branca, nem há nenhuma câmara escondida. Que chatos que vocês andam! Antes era, de facto, menos complicado… Então, estás mais calmo agora? – Não sei, acho que estou a alucinar… – Oh! Que canseira! Vai, vou mandar-te para casa, chama-me quando estiveres menos desconfiado. Ele fez um pequeno gesto com a mão e eis-me na minha sala, sentado no meu sofá, exactamente como há pouco, antes de me encontrar no céu. Ah, sim, acabo de me dar conta de que falei com Deus e que ele mora nas nuvens. Bom, Deus é superimpressionante, a sério, é o máximo. Acho melhor fazer o ponto da situação: tenho trinta anos, nunca tive problemas do foro psiquiátrico, hoje não bebi álcool

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e já não consumo drogas há muito tempo. Então, o que é que aconteceu? Estava em frente da televisão sem fazer nada e, de repente, fiquei cego por um flache e, em menos de um segundo, estava no céu a falar com um cota que, ao que parece, é Deus. Em todo o caso, é o tipo mais parecido com Deus que já encontrei na minha vida. E, depois, há que admitir: não vejo quem é que poderia fazer uma coisa destas, com o teletransporte e o cenário… É verdade, é, sem dúvida, ele. Mas a melhor parte ainda está para vir! Deus chamou-me, fez com que eu fosse até ele e falou comigo! Incrível! Serei algum tipo de profeta ou qualquer coisa do género? Certamente, ele quer transmitir-me uma mensagem para difundir ao resto da humanidade ou algo semelhante… É necessário que eu saiba. Vou chamá-lo como ele me disse para fazer: – Ei… Deus? O mesmo flache de há pouco e eis-me diante dele: – Então, estás mais calmo? – Espera, põe-te no meu lugar, encontrar Deus não é brincadeira nenhuma! É um pouco como daquela vez em que vi a Brigitte Bardot ao vivo na rua… – Muito obrigado pela comparação… – Não, espera, tu compreendes o que quero dizer! Não é que te esteja a comparar, foi só para dar um exemplo! – Sim, sim, eu compreendi, mas posso brincar um pouco ou não? – Mas, este Deus brinca? – Não digas «este» quando falares de mim, se fazes favor, não sou nenhum objecto. Mas, de facto, eu gosto de brincar, como tu dizes. Até me divirto e também prego partidas! Vais ver com o tempo que não sou nada como tu me imaginas. – Confesso que de ti espero tudo… A propósito, talvez prefiras que te trate por você, não? – Não é necessário, de qualquer maneira já te habituaste a tratar-me por tu. Como sabes, não me ofendo com a falta de respeito, porque não tenho, de facto, os mesmos sentimentos que vocês, Homens, têm a esse nível. Não tenho problemas de

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ego, uma vez que eu sou Tudo. Enfim, isto é uma maneira de falar, como é que te vou explicar?… Vê bem, o meu maior problema quando escolho falar com alguém é abstrair-me de tudo o que sei para simplesmente conseguir fazer-me compreender. Olha que é um exercício de estilo muito fatigante. – Ah! Então ressentes-te, física e moralmente, dos teus truques? – Evidentemente. Mas, se achares melhor, podemos falar mais tarde, quando estiveres preparado. – E quando é que estarei preparado? – Tem calma, dentro de pouco tempo. – Isto não deixa de ser bué marado… ah, desculpa, bué marado quer dizer que é uma loucura, é calão. Ah, desculpa, calão quer dizer… – Ouve lá, por quem me tomas? Pelo teu vizinho do lado, por um vendedor de aspiradores ao domicílio? Recordo-te que sou Deus. Falo todas as línguas, todos os dialectos, compreendo e sei tudo o que sai da boca de todos os homens. Eis a lição número Um: no que respeita a vocês, homens, eu sou omnisciente. Sabes o que isto quer dizer? – A priori, tu sabes tudo sobre nós. – Bravo! Já interiorizaste a lição número Um. – Yaa, fixe, e o que é que eu ganho com isso? – Posso alongar o teu sexo alguns centímetros quando te fores embora? Bom, isso não será muito… – Isso é um bocado ordinário, não? Não sei, faz qualquer coisa, tu deves ter, de alguma maneira, uma espécie de hierarquia. Não há uma deontologia para deuses, um comportamento adequado? – Bom, eis duas coisas mais que deves reter: lição número Dois, não há nenhum outro Deus senão eu; lição número Três, tudo o que diz respeito aos homens, sou eu, portanto, posso permitir-me tudo. O amor, sou eu; a poesia, sou eu; a vulgaridade, também sou eu; a literatura, sou eu; a música, sou eu; o humor, sou eu… – A modéstia, aparentemente, é outra pessoa…

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– Tu és mesmo como eu pensava. Fazes comparações com Deus sem o mínimo escrúpulo. Vê lá se entendes o que estás a fazer: estás a gozar com Deus! – Mas, ao mesmo tempo, sinto-me bastante à vontade contigo, como se já nos conhecêssemos… – É normal, todos os que me encontram têm essa impressão. Sempre velei por ti, assim como por todos os outros, conheço-te melhor do que tu te conheces a ti próprio. Sou um pouco o teu pai, um pouco os teus amigos, estamos em família quando estamos juntos. – E isso quer dizer? – Isso quer dizer que tu também me conheces. Tu existes, logo conheces-me. Eu sou um pouco de ti e tu és um pouco de mim. Mas vou deixar-te sozinho e poderás pensar em tudo isto com calma. Antes de te deixar ir embora, vou dar-te a lição número Quatro, que é também a última: não deves atribuir muito mais importância ao nosso encontro do que aquela que realmente tem. Irás compreender com o tempo, assim como o resto. Vai, até breve.

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