Issuu on Google+

Meio ambiente 80 ok ht.qxd:Layout 1

3/31/07

3:28 PM

Page 1

DESMATAMENTO - Santarém (Pará), dezembro de 2003 O desmatamento no mundo todo gera cerca de 25% das emissões mundiais de gases de efeito estufa. No Brasil, este índice chega a 75%. Somente entre 2002 e 2005, mais de 70 mil quilômetros quadrados de florestas foram destruídos na Amazônia. Por causa principalmente do desmatamento, o Brasil é o 4º maior emissor de gases de efeito estufa ©Greenpeace/Steve Morgan

Texto: André Piva

E EU COM ISSO? O aquecimento global já causa catástrofe, destruição e morte. E o vilão da história é o próprio homem. Aqui você vai saber como reagir, se adaptar e sobreviver a essa nova realidade. A mudança no clima do planeta está em plena transformação. Não tem mais caminho de volta. Em pleno século XXI, estamos condenados a vivenciar o aumento da temperatura, a extinção de milhares de espécies da fauna e flora e, assim, conviver com nossa própria destruição. As conseqüências da industrialização e da ganância da sociedade para manter o alto padrão de vida estão levando o planeta para uma realidade sem precedentes. O fato é que já estamos sentindo os efeitos e agora temos que nos adaptar. O tema a seguir é bastante complexo e delicado. No entanto, o fato do nosso público-alvo ser ciclistas ou, no mínimo, entusiastas ajuda a abordar o assunto de forma consciente e inteligente. Nosso objetivo é que de alguma forma você, após ler esta reportagem, possa persuadir os menos informados e perceptivos às causas ambientais. TUDO DEPENDE DE VOCÊ Se você dirige até o trabalho, escova os dentes e toma banho desperdiçando água, não separa o lixo e outros inúmeros detalhes da vida moderna, pode mudar para uma atitude mais consciente. Muitas das ações diárias estão condicionadas para contribuir para o acúmulo de lixo e aumento dos gases poluentes, ameaçando a própria vida humana. Um dos principais problemas que vamos enfrentar nos próximos anos é a escassez de água. Muitas comunidades atualmente vivem em dificuldade com o racionamento de água, como é o caso grave da região semi-árida (chuva numa parte do ano e seca noutro). Cada vez mais essas áreas ficam secas. Outra região afetada é o sul. Desde 2004, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná sofrem com a falta de água, principalmente na zona rural, matando toda a colheita. Em 46 bikeaction

2006, a seca foi tão forte que atingiu até as Cataratas do Iguaçu, que registraram o nível mais baixo em vinte anos, segundo pesquisadores ligados ao Greenpeace. Com a falta de recursos naturais necessários, como a água da chuva, as plantações não vingam, a estiagem prevalece e os agricultores vão à falência. A tendência é tudo ficar mais raro e caro. E não pense que isso vai acontecer daqui a dezenas de anos. Apesar de toda a atenção dada pela imprensa com o agravamento dos efeitos do aquecimento global, a comunidade científica está há muitos anos alertando sobre tais perigos. No entanto, só agora os países mais ricos (maiores poluentes) têm sentido uma pressão da sociedade para mudar a postura diante do problema. Como registro, vale a pena mencionar o Protocolo de Kyoto, criado no Japão em 1997, mas posto em prática apenas em 2005. A meta proposta foi reduzir em 5,2% as emissões de gases poluentes até 2012. Pena que os Estados Unidos, principal causador desses males, não entraram no acordo. AQUECIMENTO A TODO VAPOR Seca, estiagem, calor sufocante, derretimento das geleiras na Antártica, furacões, terremotos, Tsunami, guerras por petróleo. Parece que já estamos acostumados a viver numa era com tanta tragédia e destruição. Em julho de 2006, Santa Catarina decretou estado de emergência em 195 municípios por causa da estiagem. Cenário alarmante. Nos últimos dez anos, 40 tornados atingiram o estado. Em março de 2004, o sul do Brasil foi surpreendido pelo primeiro furacão da história. O fenômeno, batizado de “Catarina”, causou espanto na comunidade científica, que considerava o Atlântico Sul um paraíso de ventos calmos. Resultado:


Meio ambiente 80 ok ht.qxd:Layout 1

3/31/07

3:29 PM

Page 2

MASSA DE GELO - Groelândia, julho de 2005 Nos últimos 50 anos, as regiões polares registraram um aumento de temperatura de até 3,5 graus. O derretimento de gelo causado por esse aquecimento provoca, entre outros efeitos, a elevação do nível dos oceanos com efeitos trágicos para todas ilhas e regiões costeiras ©Greenpeace/Steve Morgan

bairros arrasados, 32 mil desabrigados, 11 mortos e um prejuízo de mais de um bilhão de reais. “Isso é urgente. Porque são milhões de reais na preparação, no plantio, nos cuidados, na colheita. E a população inteira do Brasil precisa de alimentos bons e baratos. O quadro de mudanças climáticas traz alimentos ruins e caros. Há pragas, as coisas madurecem antes do tempo, é uma inversão das condições climáticas à alimentação. Isso vai repercutir em toda a cadeia econômica, desde a compra na feira ao supermercado. E todo custo de vida encarece. Em um país como o nosso, que luta pela fome, miséria e desigualdade social, isso é realmente importante. E o país de farta alimentação e barato, se esse quadro prevalecer, não será mais farto nem barato”, reflete o geógrafo Francisco Aquino, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em entrevista ao Greenpeace. A extinção da biodiversidade é outro problema que surge com o aquecimento global. O Brasil pode ser afetado com a morte e o desaparecimento de milhares de espécies. A elevação dos oceanos também é preocupante. Se o mar subir apenas um metro, 40% da população global que vive na costa será afetada. No caso do Brasil, o porcentual é ainda maior, pois 65% do litoral é ocupado – o que pode trazer prejuízos incalculáveis. O desmatamento da Amazônia é uma ameaça para a população de 20 milhões de amazonenses. A região da maior bacia hidrográfica do mundo também está sofrendo com a estiagem e a grilagem de terra para a expansão de pasto, gado e plantações. Se o desmatamento continuar no ritmo que está, a projeção para o ano 2100 (daqui a 93 anos), com a alta de até 5 graus na temperatura global, é bastante negativa para a Amazônia. Metade da floresta vai se transformar rapidamente em cerrado, afetando o clima de todos os países da América Central. O

Brasil passa sede sendo o país da água, uma realidade contraditória. “Existem muitas vulnerabilidades com o desmatamento ainda mais descontrolado. Temos que parar de acabar com a Amazônia”, diz o ativista Carlos Ritti, da campanha do clima do Greenpeace. Para minimizar os efeitos já provocados ao planeta, Carlos

TORNADOS NO SUL - Muitos Capões (RS), outubro de 2005. Um tornado com ventos de mais de 200 quilômetros por hora atingiu a cidade gaúcha de Muitos Capões, deixando 21 casas e prédios públicos completamente destruídos. Estudos indicam que parte do Sudeste e principalmente o Sul do Brasil são a segunda região do planeta mais propícia à formação de tornados, que serão mais freqüentes com o aquecimento - ©Greenpeace/Rodrigo Baleia

bikeaction 47


Meio ambiente 80 ok ht.qxd:Layout 1

3/31/07

3:30 PM

Page 3

BARREIRINHA (AM), outubro de 2005. Devido a sua enorme biodiversidade, o Brasil é um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas. Com o aquecimento global e as conseqüentes secas severas, a exuberante floresta poderá ser substituída por um ecossistema mais seco e mais pobre: as savanas - ©Greenpeace/Daniel Beltrá

Nobre, pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), acredita que a ordem é reduzir em 50% a emissão de gases nocivos ao ambiente. AINDA TEM SOLUÇÃO? Talvez sim, mas isso se rolar uma conscientização política e popular. Começando com o uso de energias alternativas, como o meio de transporte movido à propulsão humana – ou seja: a bicicleta nas grandes cidades. Além de reduzir os congestionamentos, diminui a emissão de gás carbônico dos veículos, deixando a cidade mais limpa e humana. Vale lembrar que o Brasil (ainda) tem uma fonte rica em recursos naturais: rios, ventos e muito sol. Apenas esses elementos, se explorados corretamente, propiciam a produção de energia solar e eólica (movida ao vento). Por último, o tão falado biocombustível, outra fonte renovável que surgiu na época da criação do Pro-álcool. Recentemente o assunto rendeu até a visita do poderoso presidente dos Estados Unidos (que, todos sabemos, está em guerra até hoje por causa do esgotamento do petróleo). Um detalhe sobre

SECA AMAZÔNIA - Manaquiri (Amazonas), outubro de 2005. Em 2005, a Amazônia registrou uma seca dramática, que afetou os Estados do Acre, Rondônia, Amazonas e Pará. Rios e lagos se transformaram em córregos de águas contaminadas pela morte de milhões de peixes, tornando crítica a situação de milhares de famílias - ©Greenpeace/Alberto César

48 bikeaction

essa questão do biocombustível é o acordo comercial – muitas vezes, nocivo ao próprio país e ao meio ambiente; porém, aceitável por ser rentável para o bolso de oportunistas corruptos. MEIO AMBIENTE E TRANSPORTE URBANO Diante de tantos problemas, como aliviar o tráfego e dissuadir o uso do automóvel em regiões metropolitanas? A cidade de Londres, por exemplo, conseguiu, mas precisou dispor de uma ampla rede de faixas especiais para uso exclusivo de táxis e bicicletas em horário de rush, enquanto cobra um pedágio salgado (aproximadamente 32 reais) para quem quiser circular no centro de automóvel. A China, como a maioria dos países asiáticos, é outro exemplo a ser seguido, com um enorme parque ciclístico. Nas áreas urbanas, a metade dos residentes é proprietária de bicicletas. Apesar desse volumoso quadro de usuários e tráfego intenso (até com engarrafamento de bicicletas), o meioambiente e a qualidade do ar por lá são poupados graças ao uso da bike. Portanto, já ficou explícito que a bicicleta como transporte não poluente deve ser adotada como alternativa nos deslocamentos urbanos. Ou seja: pedalar é uma simples maneira de combater o efeito estufa, proteger a camada de ozônio e amenizar outros tantos problemas ecológicos da atualidade. TRANSPORTE SUSTENTÁVEL EM SÃO PAULO Em fevereiro, aconteceu a liberação do transporte da bicicleta em vagões do metrô e trens da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). O projeto “Ciclista Cidadão” é uma ação conjunta das duas empresas, por intermédio da Secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos. O acesso acontece apenas nos finais de semana e feriados, mas já representa um grande passo. A iniciativa é baseada em experiências adotadas nos metrôs de importantes cidades como Nova York (EUA), Berlim (Alemanha), Madri e Barcelona (Espanha), Milão e Nápoles (Itália), Hong Kong (China), além do MetroRio (RJ). A medida faz parte da lei 14.266, que cria o Sistema Cicloviário do Município de São Paulo, contribuindo para o desenvolvimento de mobilidade sustentável. A integração da bicicleta na cidade visa incentivar o uso desse meio de transporte – que, a exemplo do trem, não polui. Além disso, a bicicleta tem baixo custo e favorece o acesso da população a equipamentos de lazer, saúde, educação e serviços. Outras ações e metas que já vêm sendo desenvolvidas: criação de ciclofai-


Meio ambiente 80 ok ht.qxd:Layout 1

3/31/07

8:49 PM

Page 4

xas e ciclovias, estabelecimento de locais específicos para estacionamento de bicicletas, articulação do transporte por bicicleta com o Sistema Integrado de Transporte de Passageiros, infra-estrutura apropriada para guardar bicicletas nos terminais de transporte coletivo urbano. Enquanto isso, podemos pressionar nossos deputados e aguardar pelas melhorias... Em São Paulo, são realizadas cerca de 130 mil viagens de bicicleta, segundo dados de uma pesquisa realizada pelo metrô em 2002 – o que corresponde a um aumento de 0,6% em relação à pesquisa anterior. Se conside- rada como modo de transporte complementar, associada a outros meios de locomoção, a participação da bicicleta no quadro de viagens diárias tende a aumentar significativamente. A instalação de bicicletários seguros em estações de metrô e trem, terminais de ônibus e locais com grande fluxo de pessoas vem sendo defendida pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) desde o início de 2005. REALIDADE OBSCURA Um novo olhar para a bicicleta e para a cidade foi o tema discutido no último workshop realizado pela prefeitura de São Paulo, no dia 14 de março, reunindo especialistas e personalidades políticas. O encontro para discussões foi positivo, já que aconteceu num momento crucial para a sobrevivência da própria cidade. Segundo dados publicados pelo jornal O Estado de São Paulo do dia 18 de março, em matéria assinada por Eduardo Nunomura, a realidade paulistana é desesperadora. A frota de veículos cresce oito vezes mais que a população da cidade. Imagine que em 1976 São Paulo tinha 13 mil quilômetros de ruas e avenidas e 1,4 milhão de veículos... Se fossem alinhados, ocupariam um espaço de 5,2 mil quilômetros. Logo, 60% do asfalto e da terra daquela época estariam desimpedidos. Estamos em 2007: são 5,6 milhões de veículos. Pára-choque a pára-choque, eles precisariam de 21,4 mil quilômetros de vias públicas. E sabe quanto há? 17,2 mil quilômetros. Uma das leis da física é irrevogável: dois corpos não ocupam o mesmo espaço. Quinhentos novos carros entram em circulação em São Paulo por dia. Acrescente a esse número 160 outros veículos, de motos a ônibus e caminhões. Em um ano, cerca de 3.300 pessoas morrem por causa da poluição e 1.500 em acidentes (atropeladas ou dentro dos carros). “Qualquer coisa que signifique um uso mais racional e regrado do automóvel causa comoção na cidade e atinge até os 80% que não têm carro”, diz o secretário Eduardo Jorge. Como médico, vê o trânsito, a poluição e o carro como uma questão de saúde pública. Ele propõe algo? Ciclovias. Há 300 quilômetros de ciclovias planejadas na cidade, dez vezes a extensão existente. Nos planos dele, um ciclista-passageiro não pagaria para andar no transporte público. Receberia um bilhete ou passaria direto na catraca do metrô, trem ou ônibus se deixasse a bike num bicicletário da estação ou terminal. Mas se um secretário municipal pensa assim, por que a idéia não é posta em prática? “Quando falo com autoridades, governo, prefeitura e secretário de transportes, todos acham a idéia prioritária. Mas as respostas demoram.” Bogotá fez isso. Construiu mais de 300 quilômetros de ciclovias. Na periferia da cidade colombiana, são asfaltadas e correm paralelas a largas calçadas. No fim, acesso a terminais. Espremidas e ainda no chão de terra, ficam as pistas para automóveis. Os carros enfrentam um rodízio mais rigoroso que o paulistano: 40% não circulam no horário de pico duas vezes por semana. Lição de casa: assista documentários sobre meio ambiente. Duas sugestões: Mudanças de Clima, Mudanças de Vidas (Greenpeace, 2006) e Uma Verdade Inconveniente (Al Gore, 2006). REPENSE, RECUSE, REDUZA, REUSE, RECICLE, PEDALE! Agradecimentos: para a elaboração dessa reportagem, um agradecimento especial àqueles especialistas que de algum modo contribuíram com dados, conversas, mensagens e reflexões valiosas sobre o tema: Eldon Jung (ABC), Cristiano Hickel, Mateus Manzini (Cicloviável), Giselle Xavier (Udesc Viacilo), Miguel Altieri, Fritjof Capra, Thomas Lovejoy, Jornal da Ciência, Jornal O Estado de São Paulo, Acaprena (Associação Catarinense de Preservação da Natureza), Greenpeace, Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo.

CHEIA AMAZÔNIA - Caireiro da Várzes (AM), junho de 2006. Amazônia: vilã e vítima das mudanças climáticas. O desmatamento contribui para o aquecimento global, que acaba obrigando a população local a viver entre extremos: grandes enchentes e secas devastadoras - ©Greenpeace/Alberto César


Meio ambiente 80 ok ht.qxd:Layout 1