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China Comissário:

IGNATIUS

T. P.

PAO

Exposição organizada pelo National Museum of History, TAIWAN.

SALA Chu-Teh-Chun

o que seduz hoje na escrita pictórica de Chu-Teh-Chun é seu "à vontade". A continuidade que se nota no pioneirismo de um pintor ou de um escritor - não se caracteriza pelo abandono de temas antigos e acolhida de novos, nem pela negação do antigo pelo moderno, mas pela maneira como a escrita se afirma, isto é, abandona-se a si mesma, desembaraçando-se, desligando-se ... Na continuidade da obra de Chu-Teh-Chun, não há hiatos entre esta mostra eas precedentes, reduzindo-se apenas o que, até então, prolongava um hieratismo um tanto duro. Esta pintura livre, alarga seu horizonte. Obedece apenas ao que vem de si mesma. Não mais se curva à palavra de ordem da escola, às barreiras do aprendido. A poesia do fugaz, da paisagem entrevista, do interior da floresta impressionista, da montanha mergulhada em bruma, que provêm de uma sensibilidade viva e inteiramente dedicada ao instante que fere como um raio, à luz que arrasa o coração, tudo isso se inscreve em côres púdicas, veladas, em formas caprichosas e encobertas. A pintura de Chu-Teh-Chun, hoje, apresenta uma qualidade poética extrema. Recusa falar alto. Não tem confidências senão para os que sabem apurar o ouvido. Enfeita-se de mistério por um· movimento de coquetterie e não por duvidosa vontade. Somente o que é natural tem escrúpulos semelhantes. Acreditariam que é orgulhosa? ~ humilde. O caminhar do pintor - aqui - é um caminhar de acolhimento: abre-se diante do mundo, deixa-se imbuir pelos ínfimos detalhes do universo, convencido de que "tudo está em tudo" e de que quando o pássaro voa, riscando o céu azul, dá a mesma lição de Heráclito. A busca particular que mais e mais se torna a de Chu-Teh-Chun é a do sabor do mundo. Melhor: dêste instante perecível (se designado) que, como a águia da fábula, tem o sabor cativo de seus penhascos. Na época em que a tendência é trocar o real e os milagres do visível pelo pensamento abstrato, pelos seus meandros desnudos e suas margens desoladoras, é bom que um pintor reate relações com os verdadeiros segredos da beleza. Não há beleza senão perseguida, perecível, emocionante. O que é necessário reter, à margem do tempo, é êste breve momento que aparece no mesmo gesto em que se põe em fuga. O aparecimento é lacônico. O panorama é bastante para justificar o deslumbramento pelo qual o homem rende graças por estar vivo. No azul do céu vazio as nuvens escrevem o mais humano dos poemas. Hubert luin

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Profile for Bienal São Paulo

10ª Bienal de São Paulo (1969) - Catálogo I  

Primeira parte do Catálogo da 10ª Bienal de São Paulo (1969).

10ª Bienal de São Paulo (1969) - Catálogo I  

Primeira parte do Catálogo da 10ª Bienal de São Paulo (1969).

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