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Brasil Sala Especial Fantoches, Bonecos e Marionetes No Teatro com "T" maiúsculo, os fantoches, os bonecos e as marionetes ocupam um lugar muito especial, olhados como são com respeito, encantamento e superioridade ao mesmo tempo; um pouco à maneira dos fenômenos que fogem à lógica cotidiana,"concreta", e que o homem comum procura explicar baseando-se em suas pequenas verdades corriqueiras, Sem por isso fechar a porta a "outras" possibilidades. E tal fato depende, talvez; do caráter fetichista, do ,potencial de valôres que a personagem mudll! carrega, de seu silêncio· que contém tôdas as respostas e provoca tôdas as perguntas. O fantoche é a projeção do sub-consciente do homem que, desde suas primeirll!S manifestações gráficas, tenta fixar num círculo mal desenhado e em quatro traços ramificados a "Sua" idéia do homem. Brinquedo ou Símbolo, imagem sagrada ou fixação de caracteres, o fantoche dominll!. a vida do homem e assume valôres e feições que transcendem o primeiro impulso criador para assumir personalidade própria e dominadora. Daí, talvez,. uma atitude de superioridade complacente - por parte do homem - procurando deslocar para o plano da curiosidade divertida uma atração que é autêntica, ou a tentativa de "humanizar" o "objeto" para aproximá-lo de todos mais reconhecíveis - e inferiores - cujo resultado inevitável é o desvirtuamento do fantoche, sua dominação e o triunfo do instinto "colonialista" do próprio homem. Brinquedo, o boneco é estraçalhado pela criança que, possivelmente, se irrita com sua passividade ou com a impossibilidade de se apoderar de seus "Segredos". Mas, por incrível que pareça, uma vez destruído, sem um ôlho. sem um braço e com a barrigll! aberta, êle passa a assumir um valor inestimável acompanhando a criança, agora adulta, por anos e anos. A verdade é que um boneco não pode nem deve ser muito perfeito. As marionetes de Podrecca, por exemplo, que tanto sucesso fizeram, eram muito menos empolgantes - de qualquer ponto de vista que se olhe o problema - do que certos anõezinhos que, nos anos idos, com um simples e permanente balançar de cabeça, atraiam o olhar dos transeuntes para as vitrinas onde estavam colocados. A verdade é que a fôrça do boneco está em sua própria limitação aparente. ~ ela que domina (pelll! fôrça de sua síntese, como uma máscara que fixa definitivamente um caráter) a mais complexa ação do mais sutil ator: num espetáculo de ventriloquia os olha-res vão todos ao boneco e não ao movimentador. Por isso, o boneco não precisll! de mágicos: êle é o "mágico" e nós os aprendizes. Gaston Baty, depois de uma grande carreira de diretor, manifestou sua revolta contra o meio teatral dedicando-se ao teatro de fantoches; Gordon Craig, quando falava na "Supermarioneta", devill! pensar, acho, menos na docilidade de um tal instrumento e mais no poder de sugestão que dela emanll!rÍa. Stanislawski as adorava e, penso, tinha um certo mêdo delas. E a literatura popular, desde a Sicília até o Nordeste brasileiro, é carregada de valôres épicos e transcendentais. É a primeira vez se estou certo - que numa exposição oficial e internacional, como a Bienal de São Paulo, se dá a êste aspecto do Teatro a atenção que merece - Um setor inteiro é dedicado aos fantoches brasileiros. Parece-me fato de invulgar importância que no momento em que o homem vive sob o pesadelo dos robôs que poderão substituí-lo, percebe-se que a imobilidade de um rosto carregado de poesia pode devolver a êsse mesmo homem uma confiança em si mesmo que estava esmorecendo. Gianni Rato

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10ª Bienal de São Paulo (1969) - Catálogo I  

Primeira parte do Catálogo da 10ª Bienal de São Paulo (1969).

10ª Bienal de São Paulo (1969) - Catálogo I  

Primeira parte do Catálogo da 10ª Bienal de São Paulo (1969).

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