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Guatemala Exposição organizada pela Dirección General de Cultura y Bellas Artes. GUATEMALA.

Sem dúvida alguma uma olimpíada plástica como a X Bienal injeta otimismo no corpo às vêzes esgotado da Senhora Cultura. À margem dos mercados comuns econômicos, as artes, por motivos óbvios, não seguem o mesmo ritmo de intercâmbio. A maioria não pode recorrer a seu Museu Imaginário a Malraux e mesmo o mais bem intencionado mini-texto corre o risco de confundir em lugar de apresentar. A pujança de três pintores deu à luz em 1968 ao Grupo Vértebra cujos alicerces apoiam-se solidamente em uma guatemalidade cada dia mais consciente. De um mesmo ponto de partida, Roberto Cabrera, Marco Augusto Quiroa e Elmar René Rojas seguiram caminhos distintos para reencontrarem-se e, sem sacrificar sua liberdade, afirmarem-se em um "neofigurativismo crítico cortante humano, apaixonado, real, catártico, direto, dentro da inquietação do homem contemporâneo". Cabrera faz pensar nos iconoclastas, aquêles que quebram as imagens, os objetos dedicados ao culto e o próprio homem e que, depois, como que arrependidos, recolhem um a um os pedaços de civilização e de ilusões, colocando-os sôbre uma tela virgem. E seguindo assim os passos do Bosco, tiram vantagem de cada acidente. Hoje cobre suas colagens com côres tiradas do livro aberto do trópico, tais como "morado-pitahaya" ou "verdes-selva-delPetén". No mundo mágico dos Maias, a poesia de Miguel Angel Asturias dialoga em voz alta com os momentos mais altos da plástica desenhada com soberbia por Cabrera. Olhos, espêlhos, chaves, parecem flutuar no fundo misterioso dos mares de um planêta que sabemos nosso mas que relutamos em aceitar. Da carne viva dos arrabaldes, isto é, do próprio coração do povo, Quiroa capta sêres rodeados de objetos que formam o horizonte exíguo que o progresso houve por bem conceder-lhes. Sôbre sua tela, de fundo sempre brilhante, sabe fixar um traço simples, o instante mais propício para seu propósito. Na série de fotos em branco e prêto da rotina cotidiana, insere repentinamente uma transparência em côres. Sabe que no desenrolar da vida há cantos de aniversário, cerimônias de confrarías, anjos rebeldes, etc. Sabe que existem também sêres fossilizados pelo mMo, pela fome ou pela morte. E mortos. Sabe também, que a escola dos Bons Samaritanos foi fechada por falta de alunos. Quiroa, em seus quadros atuais, esfola os mortos. Porém, é düícil arrancar a pele sem tocar na alma, nas almas, em todos nós. Esta talvez uma das razões da emoção que provoca. O sorriso enigmático de Rojas traduz mal a chama que o devora. Quer pinte crianças inocentes, homens aguerridos ou mulheres chorando, sua terra brota por todos os poros. Seu agudo espírito de observação sabe fazer ressaltar a nota do torrão natal que encanta o espectador. Atrás do social vê o humano. Seu lirismo envolve de poesia até os mais trágicos instantes do viver e morrer cotidiano. Não sabemos se seu anjo amarelo de sol nos trás uma mensagem de esperança ou se vai cair vítima inocente de uma luta fratricida ... Dagoberto Vasquez, da geração chamada "de 44", destaca-se pela sobriedade de suas linhas, tanto no desenho como na escultura. É alérgico ao adôrno. Agora, abandonando o mármore, o bronze, o concreto de seus monumentais relêvos, dedicou-se a soldar pedaços de lâminas de metal, a criar uma abstração que poderia ter como predecessores, em uma metempsicóse plástica, destroços de aviões abatidos ou carrocerias acidentadas de veículos camuflados.

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Profile for Bienal São Paulo

10ª Bienal de São Paulo (1969) - Catálogo I  

Primeira parte do Catálogo da 10ª Bienal de São Paulo (1969).

10ª Bienal de São Paulo (1969) - Catálogo I  

Primeira parte do Catálogo da 10ª Bienal de São Paulo (1969).

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