Page 110

Nascido em 1934, John Hoyland pertence à geração de pintores inglêses, cujas carreiras foram decisivamente afetadas, no fim dos anos cinqüenta e no início dos sessenta, pelo impacto da pintura americana de após guerra. É, ainda, um dos raríssimos membros dessa geração, cujo trabalho não assume ar provinciano quando colocado ao lado das obras dos americanos. Onde muitos artistas britânicos, lutando para preservar a sua independência, apenas conseguiram dar realce a qualidades que não sobrevivem sozinhas, Hoyland aceitou e absorveu, de bom grado, influências que alargaram a sua arte mas não lhe alteraram a identidade. O exemplo de Rothko tem sido particularmente importante em sugerir a possibilidade de obras de forte carga emocional, nas quais o processo, segundo podemos reconstituí-Io, e a imagem, como a percebemos, são inseparáveis como um meio de personificar a sensação humana numa escala humana literal. Certas condições dominaram a pintura abstrata nos anos sessenta: a compreensão de que a côr é o ingrediente mais imediatamente expressivo (uma verdade aprendida principalmente de Matisse); a compreensão de que, para conseguir potencial pleno, as exigências do colorido determinam a forma e não são por ela circunscritas; que, para obter independência, a côr deve ter a liberdade de estabelecer o seu próprio espaço e não ser usada para criar espaço ilusório; que, para atingir a expressão máxima, a côr deve situar-se numa área com a qual sintamos ligação física, em têrmos de nossa própria dimensão e movimento. Nas pinturas de Hoyland de 1961, a côr era a fôrça galvanizadora através da qual composições essencialmente lineares tornaram-se tensas e emotivas. Desde então o elemento de desenho e de composição de formas tem sido subjugado progressivamente pela expansão da côr. Nas obras de 1964· a 1967, a linha se tornou tão grossa que a côr, com que estava carregado o pincel, se impunha como forma independente. Alternativamente, em obras do mesmo períOdO (por exemplo, 21.2.66), os blocos de côr são colocados em correlação num espaçoso campo tingido de vermelho ou verde. Forma e fundo se interpenetravam onde a tinta escorria e os contornos se suavizavam. Os contrastes mais marcantes eram proporcionados mais pela contigüidade de côres complementares - geralmente vermelhos e verdes - do que pela rigidez do contôrno. Ao contrário das tintas de 6leo, as acrílicas permitem a combinação de côres extremamente líquidas, mas profundamente saturadas, com a textura da tela, dando potencial e complexidade a uma superfície independente. Grande parte da hist6ria recente da pintura pode ser situada no espaço incomensurável entre a superfície real da tessitura da tela e os planos intangíveis em que repousam. Em alguns trabalhQs de Hoyland, nos anos 1966-67, assim como na obra de Morris Louis, em 1960-61, a tinta é tão fluida que uína mudança de côr não traz consigo qualquer alteração muito perceptível de textura ou densidade. Uma larga faixa de vermelho ou laranja é sentida como tendo um certo pêso e densidade emocionais, mais como côr do que como forma sólida (a exemplo de 16.7.67). Esta impressão é intensificada pela freqüente suavidade dos cantos, onde uma côr amplamente diluída se confunde com outra. O perigo da pintura abstrata é que, buscando independência para a côr, o artista acaba prêso a uma gama estreita de formas e relações formais; Ao explorar novas experiências em côres, passará a depender dessas situações formais, dentro das quais encontrou soluções anteriores. A saída de Hoyland dêsse dilema é trabalhar depressa e em série, explorando com rapidez as possibilidades expressivas, dentro de um círculo formal e depois invadindo outro, muitas vêzes por meio de uma mudança de formato, para forçar novas disposições de forma e, portanto, novas relações e novas quantidades de côr. Recentemente Hoyland produziu uma série de quadros grandes (198 x 310 cm e 214 x 366cm), nos quais áreas de côres profundamente saturadas repousam sôbre campos neutros, cinzentos ou castanhos. O preparo do fundo, com camadas leves de tinta altamente diluída, age de diversas formas: neutraliza a área vazia do quadro; priva a tela de sua transparência, compelindo o pintor a usar suas côres como substância e não como meio para criar atmosfera; e proporciona uma primeira fase valiosa, separada no tempo e diferente no processo, durante a qual vários elementos podem ser introduzidos na obra, incrementando sua complexidade e âmbito, uma vez completada. Desconfio que Hoyland se preocupa menos com os efeitos obtidos pela aplicação de uma côr sôbre a outra do que com.a necessidade constante de

90

Profile for Bienal São Paulo

10ª Bienal de São Paulo (1969) - Catálogo I  

Primeira parte do Catálogo da 10ª Bienal de São Paulo (1969).

10ª Bienal de São Paulo (1969) - Catálogo I  

Primeira parte do Catálogo da 10ª Bienal de São Paulo (1969).

Profile for bienal