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reorganização a partir de diferentes pontos de vista. É uma poderosa, ainda que sutil, sintaxe para refletir sobre os processos de descolonização – ainda que a vejamos como um processo confuso, isso não deve nos levar à inação. A casa-grande não pode ser desmantelada com as ferramentas do patrão, para citar a poeta e ativista afro-americana Audre Lorde. Este deve ser um espaço para novas propostas. Podemos nos valer do exemplo das ocupações dos secundaristas que ocorrem no Brasil no momento e de figuras como Ana Júlia, a adolescente cujo vídeo em que se dirige à Assembleia Legislativa do Paraná, no final de 2016, viralizou com a questão “De quem é a escola?”.9 Essa pergunta ecoará ainda por muito tempo, em virtude de sua relevância atemporal. Em seu discurso, Ana Júlia se mostra ciente do aparentemente impossível processo de descolonização, ao declarar que “É um processo difícil, não é fácil para estudantes simplesmente decidirem pelo que devem lutar. Ainda assim, erguemos a cabeça e estamos enfrentando isso”. O mesmo ocorre no mundo todo, para fazer referência a mais um trabalho de Marcelle, que nos remete a outros momentos históricos no Brasil e no mundo: em maio de 1968, no Ocidente, e em junho de 1976, à rebelião dos estudantes de Soweto, além dos atuais esforços estudantis que afloram em tantas partes do globo. Sobre este mesmo mundo (2009) é uma instalação que consiste de um longo quadro-negro com montanhas de pó de giz acumulado no processo de apagamento, e que traz a proposta de começar do quadro em branco de novo, de novo, e mais uma vez. A lousa (o quadro-negro), porém, nunca está limpa, pois preserva sempre resíduos de suas fórmulas anteriores, aquelas já sem relevância para os problemas atuais e que precisam ser atualizadas para abordar as questões do mundo à medida em que elas ocorrem. É um trabalho que ativa a curiosidade e as questões necessárias, embora sejam ainda inalcançáveis. Aquelas que serão acessíveis apenas quando a poeira finalmente assentar, quando formos capazes de enterrar o antigo – da terra à terra, das cinzas às cinzas, do pó ao pó.

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9  Disponível em: www.youtube.com/ watch?v=2XGEyai HWpk. Acesso em 2017.

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57ª Bienal de Veneza - Catálogo  

Catálogo da 57ª Bienal de Veneza

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