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apresentam-se em posições distintas. Um punhado de pedras e uma garrafa de vidro transparente estão sobre uma estante que a artista nomeia alternadamente de Pinóquio, burro e monstro. Em uma primeira aparição, as pedras estão diante da garrafa. Em outro ambiente, elas estão dentro dela, sobre uma estante similar, e, por fim, num terceiro local, as pedras estão atrás da garrafa, fazendo que o olhar duvide e resgate à memória mais desatenta o sentido de estar diante da mentira, da ignorância ou do medo, como formas de viver o enigma proposto, que, nesse caso, funciona como um procedimento. Outra equação de simplicidade e força – Educação v. pó, poeira e pedra são materiais pela pedra (2016) – foi apresentada no mesmo ano na Duplex Gallery, no MoMA PS1, em Nova York, na qual já funcionou uma escola. Na sala com paredes de blocos de tijolo sem revestimento, milhares de bastões de giz são acomodados nas frestas entre um tijolo e outro. O pé-direito alto do espaço proporciona a contundência na visão da instalação, que contraria o gesto simples com a repetição improvável. O giz está colocado horizontalmente, o que institui às paredes a vocação de páginas, cujas pautas seriam o próprio objeto da escrita. Se a discussão acerca do trabalho atravessa quase duas décadas de produção da artista, assim também o faz o assunto da educação, quase sempre emulado por objetos de seu universo, como metonímias. Na obra Sobre este mesmo mundo (2009), apresentada na 29a Bienal de São Paulo, via-se uma grande lousa, ou quadro-negro escrito com giz e sucessivamente apagado, restando montes de pó de giz em sua base e no chão. Nada se lê: o que permanece como imagem é o movimento da lição suprimida e o acúmulo impermanente do conhecimento. De volta aos tijolos e ao giz, não é à toa que o tema da instalação em Nova York encontra o título do livro e do poema de João Cabral de Melo Neto e nomeia também sua obra. Diz o poeta no verso de abertura: “Uma educação pela pedra: por lições; / para aprender da pedra, frequentá-la; / captar sua voz inenfática, impessoal / (pela de dicção ela começa as aulas)”. Dita em voz alta, palavra no som, a pedra é a matéria de que parte este texto, mas é também onde e em que desembocamos. Uma pedra presa na grade. A contraforma (antiforma) encaixada, que lacera a fôrma rígida e controlada do metal, a pedra que, na inadequação, se alia e, na resistência, se fixa. Até que se tornam inseparáveis: a ordem natural, bruta e caótica, e aquela construída, lisa e ordeira. A lição da pedra, pelo poeta, passa pela carnadura concreta – poética – e seu adensar-se compacta – economia. E se a pedra assim está, de fora para dentro, a educar, há sempre o sertão onde ela é de dentro para fora, e a lição não versa sobre a pedra, pois é ela própria. Pó, poeira e pedra são materiais da obra de Cinthia Marcelle.

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57ª Bienal de Veneza - Catálogo  

Catálogo da 57ª Bienal de Veneza

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