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Edição 1 – novembro de 2013 – edição especial

O Primo Basílio e o século XIX Da polemica ao sucesso

Machadadas

eça

revista

ESPECIAL O PRIMO BASÍLIO

Rayana da Costa Teles Barreto – Gabriel Reis Calisto – Bruno Spada


http://www.posfacio.com.br/2011/03/23/o-primo-basilio-eca-de-queiros/


capa http://purl.pt/93/1/iconografia/imagens/res523a/res523_eca_3.jpg


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Geração de 70

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O Primo Basílio

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por dentro da história

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entrelinhas

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personagens

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recepção brasileira

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burburinho

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Machadadas

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repercussão

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adaptações

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Dispepsia

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atualmente

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edições

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traduções

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consagração

http://amigodeisrael.blogspot.com.br/2013/11/eca-de-quer.html

Daguerreótipo

http://listas.20minutos.es/lista/inicios-de-novelas-ycuentos-extraordinarios-260875/

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eça de Queirós


Nascido em 25 de novembro de 1845 em Póvoa do Varzim, José Maria de Eça de Queirós foi um escritor português de renome. Quando jovem, estudou Direito na Universidade de Coimbra. Mudouse para Lisboa e começa a publicar seus primeiros textos em folhetim na Gazeta de Portugal, em 1866. Começou a atividade de advogado em Évora, mas logo se mudou para Lisboa, onde colaborou n'A Gazeta de Portugal. Em 1870 ingressou na carreira consular, servindo em Havana, Newcastle, Bristol (foi na Inglaterra, aliás, em que escreveu O Crime do Padre Amaro, A Tragédia da Rua das Flores e O Primo Basílio) e Paris. Viajou para diversos países, inclusive no Oriente Médio. Faleceu em 16 de agosto de 1900, na sua casa em Neuilly-sur-Seine, e recebeu funeral de estado.

http://www.arqnet.pt/portal/pessoais/eca_suez.html

[ daguerreótipo ]

http://educarparacrescer.abril.com.br/leitura/resumo-eca-de-queiros-647337.shtml

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[ Geração de 70 ]

Eça de Queirós pertenceu à segunda geração portuguesa do século XIX, ao lado de escritores como Antero de Quental, Teófilo Braga e Oliveira Martins – defensores de uma revolução na vida política e cultual portuguesa. Para compreender as causas que a Geração de 70 defendia faz-se necessário voltar um pouco no tempo. Em 1808, Portugal vive uma situação inusitada: a família real foge para o Brasil por conta das invasões napoleônicas. Com a transferência de poder, as relações de dependência entre metrópole e colônia são invertidas. Entretanto, esse processo fortaleceu o Liberalismo português que resultou na Revolução do Porto, em 1820. A implantação da nova ideologia foi conflituosa, mas se consolidou em um novo plano político denominado Constitucionalismo. Na literatura, as transformações do período foram representadas pelo Romantismo de Almeida

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Garret (1799-1854) e de Alexandre Herculano (1810-1877) – principais escritores da primeira geração intelectual portuguesa. O período foi marcado por um processo de modernização, com esforços para a construção de uma cultura liberal de novas tradições e instituições. Entretanto, os resultados da modernização não foram satisfatórios. Segundo a Geração de 70, Portugal estava em decadência econômica, política e social e, para tanto, as instituições religiosa e governamental, além da burguesia portuguesa, eram os principais alvos dos novos escritores. Os marcos dessa geração foram : a Questão Coimbrã, em 1865 – uma intriga entre Antero

http://faceaovento.com/2009/12/21/o-movimento-constitucionalista-luso-brasileiro-e-a-revolucao-do-porto/

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e.


de Quental e o escritor romântico Antônio Feliciano de Castilho; e as Conferências do Cassino Lisbonense, em que Eça de Queirós propõe, em "A Nova Literatura ou O Realismo como Expressão de Arte", uma literatura engajada, observadora e analítica, tendo em vista a vida contemporânea como tema. http://purl.pt/93/1/iconografia/imagens/Res2174_geral/Res2174_geral.html

http://www.anossaescola.com/cr/AdvHTML_Upload/Gera%C3%A770.jpg

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Nesse período, o esforço do escritor em modificar a literatura portuguesa nota-se, por exemplo, em carta a Rodrigues de Freitas, um crítico que elogiou a obra O Primo Basílio em Portugal: "(...) o que importa é o triunfo do Realismo – que, ainda hoje méconnu e caluniado, é todavia a grande evolução literária do século, e destinado a ter na sociedade e nos costumes uma influencia profunda. O que queremos nós com o Realismo? fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele é mau, por persistir em se educar segundo o passado; queremos fazer a fotografia, e quase a dizer a caricatura do velho mundo burguês, sentimental, devoto, católico, explorador, aristocrático, etc. E apontando-o ao escárnio, à gargalhada, ao desprezo do mundo modernos e democrático – preparar a sua ruína.” (30 de Março de 1878) A década de 1870, portanto, representou um período de mudanças ideológicas em Portugal, em que a segunda geração intelectual teve papel fundamental para a formação de novas concepções na literatura portuguesa.

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e.

[ O Primo Basílio ]

O Primo Basílio:

episódio doméstico,

tem todos os elementos para uma história de amor ideal: o bom rapaz, o sedutor asqueroso, a mocinha bela e sonhadora e a vilã assustadora. Entretanto, o escritor subverte esse sistema romanesco. Os personagens para os quais torcemos, já nos repelem, e a vilã má pode ser considerada uma vítima da história. 8


Frontispício da 2ª edição de O Primo Basílio, 1878

O romance do século XIX, que surgiu como uma crítica à média burguesia lisboeta, é recheado de ironia e detalhes que, certamente, deixaram os moralistas da época no mínimo incomodados. O certo é que podemos, a partir dele, compreender vários pensamentos e discussões acerca de um século marcante em todos os sentidos – artístico, filosófico, político. 9


e. L

[ por dentro da história ]

uísa era uma moça elegante e bonita. Sempre dada à leitura, emocionava-se com uma boa aventura e os amores impossíveis das histórias. E quando

terminou de ler a Dama das Camélias, até mesmo chorou. Era sentimental e volúvel, além de um tanto fútil. Jorge era engenheiro de minas, um marido dedicado, tranquilo e sem sentimentalismos. O rapaz viajaria ao Alentejo a trabalho por quinze dias, contudo a viagem demorou mais do que o previsto. O Casal, casados a três anos, tinha alguns amigos íntimos:

Jorge contava com ele para que cuidasse de Luísa em sua ausência, já que a moça era amiga de Leopoldina, uma mulher bonita, dada às aventuras extraconjugais tal como as heroínas dos romances. Leopoldina era conhecida por seus amantes, vícios e um casamento frustrado. No entanto, Luísa a admirava. Mas Jorge não gostava dela e não queria que difamassem a sua casa por conta da presença da amiga de Luís, já que a vizinhança estava sempre pronta a fazer mexericos.

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D. Felicidade, uma senhora de seus cinquenta anos, inquieta e frustrada, que sofria de sepsia, de gazes e de amores pelo Conselheiro Acácio. O homem, já um senhor de idade, era um constitucionalista, patriota, de discurso empolado e muitos clichês. Comportava-se sempre com indiferença aos flertes de d. Felicidade. Havia também Julião, um parente distante, médico, malsucedido e azedo, de ar revolucionário, além de bastante invejoso. E Ernestinho, primo de Jorge, um dramaturgo de sucesso, sempre atarantado com as questões do teatro. Havia ainda Sebastião, amigo de infância de Jorge, tímido e solitário. O rapaz era músico e tinha um gênio antiquado.

Luísa, entretanto, não ficaria sozinha com a ausência do marido. Um primo, que a namorou quando mais nova, a visitaria com constância. Era Basílio, um janota sedutor, que estava em Portugal a negócios. O primo aos olhos de Luísa ganhou ares de herói, de homem ideal, semelhante aos das histórias de amor que arrancavam os suspiros dela. E Luísa passou a achar todos de seu círculo social piegas, inclusive Jorge. O marido já não lhe tinha mais o mesmo ar interessante, apenas representava o conforto de uma vida caseira. Ela desejava emoções fortes, daquelas que apenas as paixões proibidas têm.


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Quando tudo parecia aquietar-se e Luísa se sentia mais aliviada, Basílio enviou uma carta resposta – a moça, quando desesperada por ajuda para se livrar das ameaças da criada, escreveu para o primo. Jorge, curioso, leu a carta de Basílio e descobriu o adultério. A notícia o deixou muito atormentado. E, então, confessou a Luísa o que sabia. A moça, ainda adoentada, teve uma recaída e morreu.

Mas as coisas se complicariam quando a criada da casa passou a ter em mãos as correspondências dos amantes e, cansada da rispidez de Luísa, passou a chantageá-la. Tratase de Juliana, uma mulher curiosa, de seus quarenta anos, magrela amarelada, que sofria do coração. Desde pequena trabalhou muito sob péssimas condições. Isso a fez uma figura amarga, cheia de ódio e inveja, especialmente das patroas. Era também gulosa e sonhava em montar sua própria venda. Luísa, assustada, achou apenas uma saída: fugir com Basílio. Mas então teve um novo choque. O primo não aceitou a ideia, explicoulhe que o problema era apenas de dinheiro. Mas Luísa, decepcionada, tornou-se orgulhosa e não aceitou qualquer quantia oferecida pelo primo para se livrar da criada. Após o choque, sua vida só tendeu a complicações. Juliana queria 600 mil reis, entretanto Luísa não tinha essa quantia. Deste então, a criada tornou-se o martírio da patroa, ficou exigente e já não trabalhava mais como antes.

E o primo Basílio? Um pouco depois do ocorrido, voltou a Portugal. Ao procurar Luísa a fim de retomar a aventura amorosa, descobriu sobre a morte da prima e lastimou, sobretudo, por não ter trazido outra companhia.

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Jorge, ao retornar do Alentejo, percebeu os desleixos de Juliana e a passividade da esposa diante da criada. Decide, então, despedi-la. Mas Juliana, diante disso, ameaça Luísa dizendo que contaria a Jorge sobre o adultério. Com a possibilidade do rapaz descobrir, Luísa enfim toma coragem e pede ajuda a Sebastião. O rapaz, muito amigo da família, decide ajudar a moça, e diante das ameaças que faz a Juliana, a criada não resiste e sucumbe.


e.

[ entrelinhas ]

O

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O subtítulo Episódio Doméstico anuncia o assunto da obra: retratar a família lisbonense e, por extensão, a sociedade burguesa do século XIX. Eça de Queirós explica a sua proposta em carta ao escritor português Teófilo Braga:

O período posterior a Revolução Francesa teve as consequentes Guerras Napoleônicas, o que disseminou pelo mundo a filosofia iluminista e um grande interesse pela ciência. O romance Frankenstein, de Mary Shelley, foi escrito neste momento. Conhecido hoje, principalmente por suas adaptações para o cinema, o livro critica as pesquisas científicas do período de sua publicação (1818). Narrado em forma de memórias, Frankenstein segue uma tendência de romances que, desde sua construção como gênero literário, fez uso da narrativa em primeira pessoa (em formato de Memórias ou Epistolar). Já O Primo Basílio possui, como plano de fundo, a ciência cujas ideias já estão mais consolidadas. Assim como muitas expressões artísticas passam a utilizar uma estética mais “científica”, o romance de Eça tem um narrador em terceira pessoa, que seria mais analítico.

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“A minha ambição seria pintar a Sociedade portuguesa, tal qual a fez o Constitucionalismo desde 1830 – e mostrar-lhe, como num espelho, que triste país eles formaram – eles e elas.” (12 de março de 1878) A escrita engajada do autor se desdobra em uma narrativa de estilo refinado, cheia de ironia e sutilezas, que favorecem e acentuam o discurso crítico da obra, a começar pelos personagens. Eça procura construir a sua obra sob os preceitos realistas: um narrador observador, distanciado, em oposição aos demais narradores que capturam o interesse do leitor de forma explícita, comuns ao movimento romântico.


Entretanto, essa proposta não se sustenta. Em O Primo Basílio, mesmo com a narração em terceira pessoa não intervindo explicitamente, há o uso de recursos literários como o discurso livre indireto, a ironia refinada e as descrições detalhadas que conduzem o leitor. Esses elementos também ajudam a intensificar as tensões e o drama na história. Já as descrições pormenorizadas ditam o ritmo da narrativa que, geralmente, é lento, mas não compromete o interesse pelo texto, pois os detalhes são bem amarrados na trama - mesmo com alguns críticos da época caracterizando como um romance abundante em descrições e, consequentemente, com a ação comprometida. Haviam também aqueles que elogiavam as descrições por detalhar o ambiente, os objetos, a aparência e comportamento dos personagens, associando-os a uma "fotografia social". Outro elemento abundante na obra são os diálogos que, entre outras possibilidades, dão ares cotidianos a obra, tal qual Eça propôs como tema para a literatura: a vida contemporânea.

“Sebastião entrou preocupado. Todo o mundo começava a reparar, heim! Pudera! Um rapaz novo, janota, vir todos os dias de trem, estar duas, três horas! Uma vizinhança tão chegada, tão maligna!...” (capítulo IV)

“E no centro, muito proeminentemente numa travessa, enroscava-se uma lampreia de ovos medonha e bojuda, com o ventre dum amarelo ascoroso; o dorso malhado de arabescos de açúcar, a boca escancarada; na sua cabeça grossa esbugalhavam-se dois horríveis olhos de chocolates; os seus dentes de amêndoa ferravam-se numa tangerina de chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoaçavam.” (capítulo IV)

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a “burguesinha da Baixa [Pombalina]”, representa a ociosidade da mulher burguesa de Lisboa. A leitura de romances histórico e moderno, como Ivanhoé (Walter Scott) e A Dama das Camélias (Alexandre Dumas Filho), influencia seu caráter e suas ações, além de marcar a moral feminina durante a trama, já que os desejos e as curiosidades de Luísa levam-na a uma relação extraconjugal com o primo, tal como as heroínas dos livros. Assim parece, portanto, que a concepção de leitura perigosa, como corrupção da moral feminina, é trabalhada na composição da personagem. O escritor também pode estar fazendo uma crítica a literatura idealizada, do devaneio, que tinha o passado histórico como tema, ao invés do presente.

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O personagem Jorge também é marcado por suas leituras: de Luís Figuier (cientificista), de Frederic Bastiat (político antissocialista liberal) e de Antônio Feliciano de Castilho (escritor romântico português). As três leituras revelam um misto de conservadorismo e reformismo ilustrado que Eça de Queiroz e a Geração de 70 queriam combater. http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/1/19/Louis_Figuier.jpg/180px-Louis_Figuier.jpg

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Luísa,

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[ personagens ] http://www.medievalists.net/wp-content/uploads/2013/11/Ivanhoe.jpg

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e.


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O Conselheiro Acácio representa o Constitucionalismo português. Um homem aparentemente pudico, mas que lê Bocage e nutre um relacionamento com a criada em segredo. A sua figura ganhou destaque entre os críticos, a começar por Ramalho Ortigão, que elogiou a construção do personagem:

“Entre as figuras do segundo plano da obra, deve ser citado o conselheiro Acácio, uma verdadeira pérola de sensaboria pomposa, de banalidade solene, extraída das profundidades da burocracia nacional, pelo mergulhar mais intrépido e feliz.” (folhetim “Cartas Portuguesas”, Gazeta de Notícias, 25 de Março de 1878)

Acacianismo: O Conselheiro, com toda a sua pompa, chegou à gramática. A sua figura ridícula, tornou-se adjetivo. Acaciano caracteriza aquele que fala ou age como o personagem, símbolo da vacuidade solene, de caráter grave e ridículo. O Conselheiro ficou famoso entre os literatos. Nelson Rodrigues, inclusive, nomeia um de seus contos do personagem: “Sem Medo do Conselheiro Acácio”, em O Óbvio Ululante.

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Juliana, a criada da casa, é uma mulher feia, invejosa e gulosa, odeia os patrões e revolta-se, em segredo, contra a sua condição precária. Embora Luísa seja sua oposta em aparência, elas possuem algo em comum: sonhar com um mundo improvável. Luísa, como já mencionado, queria o universo sublime das estórias. Juliana sonhava em se tornar proprietária de uma loja de capelista – mudar de vida – e mesmo assim, ela desejava trabalhar, característica oposta a figura da mulher burguesa. Mas morre nas mesmas condições em que nasceu. Juliana seria o símbolo da desigualdade na sociedade portuguesa.

pobre – depois, tornou-se apenas um pulha rico”. Caracterizado como um “brasileiro”, ou seja, o português da aristocracia que empobrece e vem ao Brasil a fim de enriquecer. Era Vaidoso, vivia por uma aventura amorosa, e pouco se incomodou com a notícia da morte da prima.

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Basílio, segundo Eça, “era um pulha antes, um pulha


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e.


[ recepção brasileira ]

“É já prurido e têm notado os malignos que foi acabar a febre amarela e logo surgir o basilismo. É bom O primo Basílio? É mau? É sério? É decente? É imoral? Tudo é problema, e como todos discutem, nenhum se entende.” (“Folhetim A Semana”, 28 de abril de 1878, Gazeta de Notícias)

A

citação acima, do “Folhetim A Semana”, sintetiza a sensação que foi O Primo Basílio no Brasil, em em 1878. O romance foi marcante para

a literatura brasileira e “esquentou” a crítica na imprensa, especialmente a carioca. A obra foi anunciada por Ramalho Ortigão, em “Castas Portuguesas”, da Gazeta de Notícias, no dia 25 de março de 1878. Com o folhetim, o escritor e crítico português, amigo de Eça, inaugura uma seria de discussões que se seguirão nos principais periódicos do Rio de Janeiro, como a Gazeta de Notícias, o Cruzeiro e o Jornal do Comércio, para citar alguns. As críticas, que muito atacavam e, não obstante, defendiam O Primo Basílio, eram temperadas de intrigas entre os críticos cujos pensamentos e opções estéticas eram divergentes, além das

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rivalidades entre os periódicos. Em “Folhetim Sem Malícia”, de 27 de maço no Jornal do Comércio, por exemplo, o crítico discorda de Ramalho Ortigão quanto à veracidade do personagem Basílio. E em “Folhetim A Semana”, de 28 de Abril na Gazeta de Notícias, diz-se: “Há até quem, para chamar leitores, jura que escreve sem malícia, isto é, sem sal e de fato cumpre a palavra”. Mas não era apenas de alfinetadas que se seguia a polêmica. Com muito humor e ironia, a imprensa brasileira adotou o assunto nas mais diversas situações e comparações com outros temas polêmicos da época. A Revista Ilustrada sintetiza no artigo “As Três Questões”, de 27 de Abril, a importância e as impressões que o romance português representou para a literatura nacional.


e.

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Revista Ilustrada, de 27 de Abril de 1878 19


Burburinho Em um cenário em que os críticos muito falavam, mas pouco se entendiam, a avaliação de todos era orientada por alguns critérios bem definidos. Seguem alguns deles: As críticas quanto às descrições pormenorizadas, por exemplo, eram ambíguas, inclusive sob o ponto de vista de um mesmo escritor, como acontece no “Folhetim Sem Malicia”, de 27 de março. O crítico do Jornal do Comércio, após transcrever uma passagem da obra, elogia: “o trecho descritivo admirável de verdade e observação, em que não sabemos qual mais há a admirar, se a delicadeza das minúcias, se a exatidão do colorido.” Mas em seguida comenta que a obra está cheia de descrições e que elas “espalham por toda a ação do romance uma sensação pesarosa e sufocante, que acaba a fatigar o leitor.”. Essa observação não é exclusiva dessa crítica. As descrições, de um modo geral no período, eram consideradas muitas vezes retardadoras do enredo, e o próprio Eça, em carta para Teófilo Braga de 12 de março de 1878, diz: “Eu acho no primo Basílio uma superabundância de detalhes, que obstruem e abafam um pouco a ação: o meu processo precisa simplificar-se, condensar-se – e estudo isso.”. Entretanto, de um modo geral, o estilo de Eça era elogiado, tido como vigoroso, criativo, espirituoso. No folhetim de Ramalho Ortigão, por exemplo, o crítico faz um apanhado sobre o que foi O Primo Basílio para ele, elogiando o escritor e amigo Eça de Queirós ao afirmar: “ninguém possui uma mais alta compreensão do processo e da perfeição artística”.

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Porém, questionou, por exemplo, a veracidade de Basílio. Ele não acreditava que a sedução do personagem sobre Luísa condiz com um homem de negócios, um trabalhador. Em contra partida, Carlos de Laet (possível escritor do “Folhetim Sem Malícia”), afirma conhecer “não um [negociante], mas muitos que, apesar dos seus múltiplos afazeres, são capazes de fazer a corte a duas primas, e mesmo três, se tanto for preciso”,

elogiando a construção do personagem, que para ele “são verdadeiras fotografias (...) naturais, simples e modestos”. O ritmo da polêmica seguia aproximadamente como nos exemplos agora citados. Embora houvesse critérios de avaliação bem definidos, a crítica era muito influenciada pelas rixas entre os jornais, por desavenças entre os críticos e mesmo por impressões mais pessoais do que técnicas.

“Escola Realista ou Basilesca” (“Folhetim da Semana, de 28 de abril de 1878) A linguagem simples, sem rebuscamentos, afetações e idealismo também era muitas vezes elogiada. E, assim como os critérios citados anteriormente, as análises eram feitas a partir da grande novidade que foi O Primo Basílio no Brasil. Com o romance, o país estava tendo um contato maior com um novo modo de pensar e isso se refletia na imprensa, de forma combativa ou afirmativa.

A discussão sobre a obra do escritor geralmente passava pelas concepções de realismo. A exemplo, os “Folhetim Sem Malícia”, de 27 de março, 10 e 17 de abril, que discutiram com maior veemência o tema, a fim até de desfazer possível ambiguidade entre realismo e naturalismo.

A (i)moralidade de O Primo Basílio Entretanto, os mesmos três folhetins comentados acima assim como a maioria das críticas sobre a obra tratavam-na como imoral. E a discussão seguia muitas vezes sobre esses termos: “As cenas de alcova são reproduzidas na sua nudez mais impudica e mais asquerosa” (“As Castas Portuguesas”) ou; “O Primo Basílio é hoje o assunto exclusivo das conversações, não as do lar doméstico, que não tem lá entrada livros dessa ordem;” (“Folhetim Sem Malícia”, 10 de abril);

O Burburinho pode perder o seu ritmo frenético após alguns meses, mas a impressão quanto a moral que a obra deixou repercutiu pelas próximas décadas, especialmente nos jornais mais conservadores: “Como as produções que conhecemos de Eça de Queirós, como O Primo Basílio e O Crime do Padre Amaro. A Relíquia peca pela imoralidade, pelo seu princípio subversivo.”(O Apostolo, 18 de maio de 1887).

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Até mesmo José Maria Teixeira de Queirós, pai do escritor, após elogiar o romance do filho, reserva as ultimas linhas de sua carta (de 22 de junho de 1878) a criticar a pagina 320 – ápice dos detalhes considerados sórdidos do livro, inadmissíveis à época. De volta a 1878. Um crítico, cuja assinatura era L., em folhetim “O Primo Basílio”, da Gazeta de Notícia de 12 de abril, defende a moralidade da obra, pois segundo ele o escritor teve o cuidado de ter uma observação mais individual dos personagens nos últimos capítulos, em que caem as mascaras sociais sendo “aqui que Luísa sucumbe ao remorso, que Jorge despreza as conveniências do meio para apenas lembrar que é um homem que ama uma mulher, (...) [e o] egoísmo de Julião é substituído pela dedicação do médico”. Entretanto, o crítico não deixa de citar o “Paraíso” como um aspecto imoral da obra. Isso se deve, provavelmente, à nova concepção estética em que Eça se empenhou nesse período, em que os muitos críticos o associaram, elogiosamente ou não, ao “realismo de Flaubert”, considerado vulgar e muitas vezes chocante. A moral, portanto, foi um dos critérios mais impactantes na discussão da obra. Para todos os críticos havia um ponto desfavorável no livro por conta de detalhes considerados imorais e que o narrador da história não reprovava com veemência. A moral era, portanto, um critério muito forte à época, pois, de um modo geral, as sociedades desse período ainda viviam sob uma sistema patriarcal e conservador.

(...) Nesta parte lembro-te como espécimen o que se lê a pág. 320. Hás-de concordar em que é um realismo cru! Aqui tens em poucas palavras o meu juízo sobre o romance, que acho admirável, e como em Portugal não se fez. De resto deixo falar, ou não falar os invejosos, e vai por diante. Recomendo-te só que em tudo o que escreveres evites descrições que senhoras não possam ler sem corar. Saudades de todos

Teu pai J. 22


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e.

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[ Machadadas ]

O escritor Machado de Assis foi um dos críticos que participou do debate de recepção de O Primo Basílio no país. Nesse período, o crítico de O Cruzeiro publicou em folhetim “O Primo Basílio por Eça de Queirós”, de 16 de Abril, e “O Primo Basílio”, de 30 de abril com o pseudônimo Eleazar. Assim como os demais críticos, Machado valeuse dos critérios textuais e ideológicos da época. Elogiou o estilo “vigoroso e brilhante” de Eça de Queirós como a maioria dos outros críticos e também a personagem Juliana, como a única viva do romance. Entretanto, atacou a heroína Luísa chamando-a de “personagem títere”. Quanto às opções artísticas de Eça, o crítico posicionou-se contra a novidade estética na literatura portuguesa: o realismo. “Se o autor, visto que o realismo também inculca vocação social e apostólica, intentou dar o seu romance algum ensinamento ou demonstrar com ele alguma tese, força é confessar que o não conseguia, a menos de supor que a tese ou ensinamento seja isso: - A Boa escolha dos

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fâmulos é uma condição de paz no adultério.” (16 de abril de 1878) O trecho demonstra a relação realismo e ensinamento moral, que segundo Machado não existia dentro do romance. A moralidade nas obras literárias não era apenas uma questão de censura sobre os detalhes e situações moralmente inadequadas descritas nos textos, mas também perpassava pelo efeito que a leitura produzia nos leitores. Por esse aspecto, assim como os outros críticos, Machado via a imoralidade da obra como inconcebível. As críticas Machadianas repercutiram de forma rápida. S. Saraiva e Amenófis Efendi criticaram Eleazar em folhetins, na Gazeta de Notícias. Entretanto, o assunto Machado e Eça repercute até hoje. Varias teses discutem a relação literária entre os dois grandes escritores da língua portuguesa, como em O Primo Basílio e na Imprensa Brasileira do Século XIX, de José Çeonardo do Nascimento e “Eça e Machado: crítica de ultramar”, de Paulo Franchetti.


[ repercussão ]

“(...) se os Brasileiros têm fome do Primo Basílio – dê-lhes Primo Basílio” (Eça de Queirós em carta para Ernestro Chardron, de 04 de Julho de 1878)

http://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx

O Mequetrefe, de 05 de abril de 1878

Os ecos da crítica brasileira sobre O Primo Basílio foi um dos motivos de sucesso do romance. O assunto polêmico , geralmente, discutido em folhetim ganhou outros espaços na imprensa. Surgiram poemas, piadas, cartas de primos para primas, propagandas de outros livros considerados licenciosos utilizando-se do sucesso do romance como publicidade . Além do nome Basílio passar a ser parâmetro para identificar a moral em algum assunto ou acontecimento. Quando as suas próximas obras, elas seriam recebidas sempre sob o foco das primeiras: O Primo Basílio e o Crime do Padre Amaro. E Eça, passara ria a ser reconhecido desde então a partir desses dois romances. O sucesso, no caso de Eça, o consagrou. O escritor, bastante popular, não deixou de ser canonizado e permanece até hoje como uma das maiores referencias literárias da língua portuguesa.

http://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx Eça de Queirós também foi apontado como pertencente à Literatura Industrial, o que poderia ter negativado a sua imagem. Um critério de avaliação que, geralmente, colocava o escritor na chamada Baixa Literatura. As características que os críticos costumavam dar aos autores eram as de produzir muitas obras em um curto espaço de tempo, geralmente folhetinescas, e que despendiam pouco tempo e pesquisa aos seus escritos, o que não foi o caso de Eça de Queirós.

Ilustração do Brazil, 08 de Agosto de 1878

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O Mequetrefe, de 11 de Junho de 1878

Revista Ilustrada, de 27 de Maio de 1878

É caso de Saúde O desenvolvimento do gênero romance ocorreu ao mesmo tempo em que a burguesa ascendia ao poder, entre os séculos XVIII e XIX. Com o crescimento dos centros urbanos, o investimento em educação e a produção dos impressos a partir do desenvolvimento tecnológico surgiu um novo publico leitor – maior e com interesses diferentes. Nesse processo gradual, o jovem formato literário tratava de temas universais tais como o amor, o casamento e a moral. Esses assuntos aliados à estrutura em prosa favoreceram a aproximação do leitor com a escrita, especialmente em França, Inglaterra e Alemanha. Os novos temas e leitores geraram discussões acerca da leitura. O romance passou a ser

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considerado nocivo à saúde mental e física, além de ensinar o caminho aos vícios. E o perigo era maior para jovens e pessoas desfavorecidas economicamente, mas especialmente para mulheres, como é o caso de Luísa (personagem de O Primo Basílio). Entretanto, os defensores do romance consideravam importante a identificação do vício e, dessa forma, ensinar a virtude. Embora houvesse essa oposição, ambas as críticas concordam quanto à funcionalidade da leitura, nunca considerada inócua. Essa concepção é a base das críticas literárias do século XIX e fortalece a importância da moral dentro da literatura, pois se a leitura influencia no caráter e nas ações, o critério moral torna-se um dos mais importantes e discutidos em torno de uma obra literária.


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Quanto custa uma muda do romance?

Nesta mesma página do jornal Gazeta de Noticias há o anuncio de uma adaptação para o teatro de O Primo Basílio, ainda quando o romance era considerado uma novidade. Vale destacar o valor do livro por 3$000 em um anuncio mais "tímido" em comparação ao de mudas importadas de café: 2$000 cada pé. Gazeta de Noticias 05 de Julho de 1878

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e.

[ adaptações ]

http://purl.pt/93/1/iconografia/primo_basilio/pp4807_1884_p57_fic.html

O teatro n’O Primo Basílio tem papel fundamental para o enredo, favorecendo o mistério e as tensões na trama. Quando no segundo capítulo a figura do teatrólogo Ernestinho, primo de Jorge, se reúne aos demais personagens, ele apresenta um dilema: matar ou não a adultera? Essa questão prenuncia o momento ápice em que a história mudaria de rumo: a traição de Luísa. Mas, para além de um elemento interno ao enredo, o escritor conseguiu descrever a importância do teatro para a época. A aproximação com a vida real lisboeta favoreceu a formação da crítica social por trás do romance, inclusive sobre a popularidade do teatro que Eça chamou de “literaturinha acéfala” (carta a Teófilo Braga, de 12 de Março de 1787). E, de fato, até a primeira metade do século XIX, o teatro gozava de maior prestígio na imprensa dos países por seu caráter popular. Somente com as obras naturalistas, uma novidade à época, que a crítica literária passou a dar maior atenção ao romance na imprensa.

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Adaptações Brasileiras Com o frenesi de O Primo Basílio no Brasil, o romance recepcionado em março, dois meses depois foi adaptado para o teatro por Ferreira de Araújo, diretor fundador da Gazeta de Notícias. Entretanto, a adaptação que repercutiu foi a do teatrólogo Antônio Frederico Cardoso de Menezes e Souza (1849-1915). A peça teatral foi considerada um fracasso pela impressa. Os principais motivos em que os críticos se apoiaram foram: a impossibilidade de adaptação do romance para o teatro, julgando a obra por sua pouca ação para ser interpretado em muitos atos; a liberdade que o dramaturgo modificou a história foi reprovada; as ações não eram conectadas. Destaque para a crítica negativa de S.Saraiva, em a Revista Dramática.


[Dispepsia ]

Esta crônica, assinada por alguém que se identifica como X.Y.Z., critica a considerada péssima adaptação para o teatro de O Primo Basílio. O texto também faz uma comparação de um dos preços que o romance era vendido (2,600 réis), com o valor que o autor possuía nos bolsos. De forma irônica questiona se comeria ou não no hotel da Europa (localizado na rua Direita, era conhecidamente frequentado por Machado de Assis [1]).

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Decidido a correr do lugar, pela sua péssima reputação de serviço, acaba preferindo comer no hotel Broxado. Contrastando ambos os estabelecimentos e seus respectivos atendimentos, a crônica também revela a popularidade do romance em várias classes sociais. [1] fonte: http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/rio-janeiro-escritormachado-assis-436275.shtml

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http://3.bp.blogspot.com/-pTfn5tpj1Uk/T_xjagRsEOI/AAAAAAAAB54/BHMLExFSaMU/s1600/amaro1.jpeg

Abaixo a adaptação mexicana de O Crime do Padre Amaro (2002) e uma versão de O Primo Basílio (1959)

João Botelho irá dirigir uma adaptação de Os Maias para a TV portuguesa em 2014 http://sicnoticias.sapo.pt/incoming/2011/12/15/ap-joao-botelho.jpg/ALTERNATES/w960/AP+Jo%C3%A3o+Botelho.jpg

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http://sp1.imgs.sapo.pt/0005/46/8b/f7/468bf775840c4ce0bd2cb52e4a000cd4.jpg

A obra de Eça de Queirós foi adaptada diversas vezes para a televisão e para o cinema, não apenas em países lusófonos mas também por cineastas mexicanos e espanhóis. De fato, na adaptação mexicana de O Crime do Padre Amaro, lançada em 2002, a trama é adaptada para se passar em um vilarejo do México. O Tesouro também recebeu uma adaptação em língua espanhola em um episódio da série Hora once, na Espanha. Entre as obras que se tornaram séries estão O Primo Basílio, O Conde de Abranhos, A Tragédia da Rua das Flores, O Mandarim e Os Maias. Embora O Primo Basílio seja o mais célebre trabalho de Eça e, consequentemente, o mais adaptado, muitos de seus livros e contos tornaram-se filmes, em sua maioria, exibidos não nos cinemas mas na televisão. É o caso de A Relíquia e O Defunto, filmados em 1987 e 1981. Este último foi também uma das primeiras obras de Eça a ser filmada, em 1954. Em quesito de idade, porém, O Primo Basílio é vencedor, com duas adaptações, uma de 1935 e outra de 1923. As adaptações, em geral, tomam certas liberdades com o conteúdo; além do já citado filme mexicano, o romance Alves & Companhia tornou-se uma comédia que ignora muitas das nuances do livro e torna-se superficial.

http://www.casasbahia-imagens.com.br/Control/ArquivoExibir.aspx?IdArquivo=5225902

e.

Adaptação da obra A Relíquia para os quadrinhos, realizada pelo cartunista Marcatti.

[ atualmente ]


Está prevista para ser lançada em 2014 uma adaptação de Os Maias, uma novela dirigida por João Botelho, coprodução luso-brasileira. O diretor afirma que a obra permanece atual mesmo um século depois de ser escrita, característica marcante de muitos dos escritos de Eça de Queirós.

O Crime do Padre Amaro inserido na colecção de Clássicos da Literatura Portuguesa Contados às Crianças (2008)

Atualmente, as adaptações não são exclusivas para a "telinha" ou para a "telona". As obras de Eça ainda não deixaram de ser adaptadas para o teatro, como em 2012, com a criação de um musical de O Primo Basílio, produzido por Lígia Machado. A novidade dessa peça é a transfiguração da história para o cenário carioca de 1959, no período da Bossa Nova. http://www.reporterdiario.com.br/Noticia/364105/ o-primo-basilio-vira-musical E, não obstante do mundo literário, as obras do escritor tão são adaptadas para o publico infantil e, também, para os HQs. A Relíquia é um dos romances que foi transferido para os quadrinhos. Esse universo de adaptações confirmam a importância que o escritor adquiriu em sua época e que ecoa até hoje. Considerado um dos principais escritores portuguesas de todos os tempos, Eça é consagrado na literatura portuguesa.

Adaptação itinerante do romance de Eça de Queirós

O Primo Baíslio também saiu na colecção de Clássicos da Literatura Portuguesa Contados às Crianças

Mini-Serie O Primo Basílio (1988)

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e.

[ edições]

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Gráfico de Edições - pesquisa com base em: www.wordcat.org; www.theeuropeanlibrary.org/tel4; www.bn.br; www.realgabinete.com.br; www.porbase.org.

Período pesquisado: Século XIX (até 1914)

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5

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Lançado em 1878 com uma tiragem de 3000 exemplares, e publicado a segunda edição no mesmo ano, O Primo Basílio pode ser considerado o best-seller de Eça de Queirós. As suas obras passaram a ser visadas a partir de então. O Crime do Padre Amaro, cuja primeira edição é de 1875, foi reeditado no Brasil em 1878, durante o sucessor de O Primo Basílio, assim como O Mistério da Estrada de Cintra – uma obra produzida em conjunto com Ramalho Ortigão, publicada em folhetim no Diário de Notícias de Lisboa pela primeira vez em 1870. Outros romances do autor tiveram a sua primeira edição em folhetim: O Crime do Padre Amaro na Revista Ocidental em 1875; O Mandarim no Diário de Portugal em 1880; A Relíquia, que teve sua estreia no jornal brasileiro Gazeta de Notícias, em 1887; e A Ilustre Casa de Ramires na Revista Moderna de Paris, em 1897. Quanto às publicações dos romances, a diferença no numero de edições entre eles não é discrepante. O próprio best-seller empata em edições oficiais com O Mandarim, e O Crime do Padre Amaro tem uma edição a mais. Mesmo assim, foi o sucesso de O Primo Basílio que consagrou o romance como best-seller e, consequentemente, o escritor português. As publicações dos romances durante a vida de Eça não foram muitas e, mesmo sob o sucesso de venda que teve O Primo Basílio, o escritor ficou reconhecido como laborioso, pesquisador e exímio observador. Esses são critérios extratextuais que influenciavam a crítica da época. Eça não era um escritor que produziu e editou muitos romances em um pequeno espaço de tempo, como faziam os chamados e criticados “escritores comerciais”. Esse critério de avaliação, iniciado no século XIX e fortalecido após o surgimento e sucesso dos romances folhetins em 1836 na França, prevalece até hoje no universo literário. Os escritores consagrados geralmente não são populares ainda hoje.

Versão Brasileira

http://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx

A editora-livreiro de Ernesto Chardron, posteriormente Lello e Irmão, teve o predomínio sobre as publicações das obras de Eça de Queirós no século XIX, especialmente durante a vida do autor. Entretanto, após a “febre” de O Primo Basílio no Brasil em 1878, a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro editou, no mesmo ano, O Crime do Padre Amaro. A obra foi dividida em 35 cadernetas a preços populares, cada qual no valor de 40 reis. E no mesmo ano, já em setembro, estava à venda o romance completo por Mil Reis.

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e.

[ traduções? ] Gráfico de Traduções - pesquisa com base em: www.wordcat.org; www.theeuropeanlibrary.org/tel4; www.bn.br; www.realgabinete.com.br; www.porbase.org. Período pesquisado: Século XIX (até 1914)

1 Los Maias

3 La Reliquia

2 La Ilustre Casa de Ramires

1 El Madarin

1 Epistolario de Fradique Mendes

1 El Primo Basilio 1 El Crimen de un Clerigo

2 Dragon's Teeth

2 Le Mandarin

1 2 El Misterio de la Carretera La ciudad e las Sierras de Cintra

http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k5739017k/f1.image.r=mandarin%20eça%20de% 20queiroz.langPT

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preocupava em exportar impressos. Entretanto, dava pouca importância à literatura estrangeira, ou seja, de certo modo os franceses liam apenas eles mesmos. Em contra partida, os países considerados periféricos tinham acesso às literaturas de varias regiões do mundo. Isso se reflete na quantidade de tradições para as línguas francesa e inglesa que Eça de Queiroz teve durante o século XIX. Se compararmos com as traduções para o espanhol, percebemos essa discrepância. Dentro da pesquisa que resultou no gráfico de traduções, a Espanha ganha nas traduções. Entretanto, em inglês, entre os romances do escritor, apenas o best-seller foi traduzido com o peculiar nome: Dragon’s Teeth: a novel from the Portugueses, por Mary Jane Cristie Serrano. E editado duas vezes. A primeira em Boston (Massachusetts) e a segunda em New York, Estados Unidos. Em francês, o romance O Mandarin foi possivelmente traduzido duas vezes. A primeira em 1884, na Revue Universelle Internationalle. A segunda em 1911, traduzida pelos franceses Claude Frazac e Jacques Crépet para o periódico La Revue, segundo Paulo Osório em Les Annales Politiques et Litteraires, de 24 de janeiro de 1926.

“Pena Amiga” Eça de Queirós agradece em carta o escritor Jaime Batalha Reis por incentivar à Revue Universelle a traduzir O Mandarim,sobre as seguintes palavras: “O Ramalho, já dias antes, me tinha escrito que um diabo que assinava Viriato com h fazia na Revue um esboço do estado presente do romance português, com singular finura crítica.” (10 de Maio de 1884). “A Propos du Mandarin” é o prefácio que o escritor dedicou a revista a fim de explicar a obra. Esse acontecimento pode representar a importância dos círculos de amizades entre os letrados , comuns no século XIX e, também, da circulação de ideias, pessoas e obras entre os países que também acontecia nesse período. O escritor Eça foi um dos letrados que colaborou com as transferências culturais do século XIX, aspectos que o torna um exemplo de passeur.

http://purl.pt/93/1/iconografia/imagens/l40665p/l40665p_1_3.jpg

No século XIX, as conexões culturais intercontinentais viviam em um fluxo muito dinâmico, ao contrário do que algumas instâncias de consagração, como os livros didáticos e dicionários de literatura, incutem até hoje. As relações de dependência e atraso dos países americanos e de alguns europeus em relação a uma possível hegemonia literária inglesa e, especialmente, francesa não procedem. A circulação de impressos, ideias e pessoas era transnacional e, portanto, simultânea. Entretanto, havia, de fato, uma centralidade francesa, mas em relação às condições matérias de impresso. A França era o país que tinha o maior dinamismo editorial. A produção e circulação hegemônica de impressos ocorreram por alguns motivos: a Revolução Francesa e sua importância no cenário mundial, o francês como língua universal e, consequentemente, o respeito que adquiriram as instâncias de legitimação francesa. Por esses motivos, criou-se a ideia de dominação e subordinação literária que repercutem até hoje nas instâncias de legitimação. Se nesse quesito a França poderia estar um passo a frente dos demais países, as consequências dessa hegemonia não eram tão favoráveis a ela. Nesse período, o país se

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http://purl.pt/93/1/iconografia/imagens/j1567b_19000726_292/j1567b_19000726_292.html

e.

Caricatura do funeral de E莽a de Queir贸s

O funeral...

Grav., R. Bordalo Pinheiro


e.

[ consagração ] .

Com grande inspiração do romance A Cidade e as Serras, a fundação possui inclusive como sede, uma propriedade chamada de Casa de Tormes. A promoção de visitas guiadas a esta região, possui a intenção de propagar o legado do escritor, além de aproxima-lo de quem ainda não o conheça, seja em Portugal ou em qualquer outro país. Como o próprio site da organização indica, são promovidos os mais variados eventos para a perpetuação da obra e a vida do escritor. Entre outras iniciativas da fundação, está a “PROMOÇÃO DA GASTRONOMIA QUEIROSIANA”. De forma independente, ou com a interação de restaurantes da região, há a criação de um variado cardápio baseado nas descrições dos romances de Eça. O que inclui uma produção de vinhos da própria fundação, o vinho de Tormes.

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ESTATUETA DE EÇA DE QUEIROZ vendida no site

Tornando Eça de Queirós uma espécie de marca, a fundação possui também uma loja com os mais variados produtos. De livros, vinhos, produtos em porcelana, material de escrita, blocos de notas, marcadores de livros, porta-chaves, velas, marmeladas e compotas, até bonecos de trapos dos personagens de A Cidade e as Serras, o autor hoje possui um lugar no cânone e nas promoções.

Bonecos de trapos, alusivos às personagens d’ A Cidade e as Serras também são vendidos http://www.feq.pt/index.html

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Para saber mais sobre Eça de Queirós Referencias Bibliográficas:

RODRIGUES, ERNESTO. Mágico Folhetim Literatura e Jornalismo em Portugal. Lisboa: Notícias Editorial, 1998. QUEIROZ, EÇA DE & MARTINS, OLIVEIRA. Correspondência. Campinas: Editora da Unicamp, 1995. NASCIMENTO, JOSÉ LEONARDO DO. O primo Basílio na imprensa brasileira do século XIX. São Paulo: Editora Unesp, 2008. QUEIRÓS, EÇA DE. Correspondência. Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1983. QUEIRÓS, EÇA DE. O Primo Basílio: episódio doméstico. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007.

AMARAL, Emília et al. Língua Portuguesa Coleção Novas Palavras. São Paulo: Editora FTD, 2010. (1ª Edição) pp. 119-123, 127-130. DA SILVA, Innocencio Francisco. Diccionario Bibliographico Portuguez. Lisboa: Impresso Nacional, Tomo XIII, 1885, p.94. DA SILVA, Innocencio Francisco. Diccionario Bibliographico Portuguez. Lisboa: Impresso Nacional, Tomo XII, 1885, p.301. LOPES, Óscar & SARAIVA, Antônio José. História da Literatura Portuguesa. 17ª edição. Porto, Porto Editora, 2001. www.fec.pt/ http://purl.pt/93/1/ http://memoria.bn.br/hdb/periodico.aspx


Eça revista  
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