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VERMELHO

Raabe Emy Souza Lima

Ele vinha com a Maria do Romã pra boca do rio. A mulher ligeira de felicidade tinha olhos enfeitiçados com a façanha daquele homem, nunca havia encontrado por essas bandas do Mamori beleza igual aquela, nem Juscelino que era o moreno mais bonito da região, seu homem, tinha aqueles olhos de perdição. O loiro alto e muito branco, da pele macia, sorria com aqueles dentes perfeitos pra Maria e ela se perdia cada vez mais. Deitou com ele ali na beira do rio, fechava os olhos e nem se lembrava de Juscelino, só conseguia ver aquele bicho bonito todo vestido de branco, parecia até uma aparição diante dos olhos dela. Era fato quase consumado. Mas Juscelino se lembrava da morena, vinha acompanhando aquela safadeza de longe, reunira todos os amigos e jurava pra eles de pé junto que o loiro era boto. Convenceu. Naquela noite de fim de junho foi acompanhando a Maria e viu quando ela saiu com o loiro da festa junina da comunidade. Foi atrás e levava consigo o facão, quando viu a mulher se abrindo toda para o boto sabia que era hora de agir. Aquela seria a primeira vez que o homem venceria a criatura dos rios. Maria se ria inteira pro loiro bonito e se distraia quando o facão atravessou o homem e quase a atingiu, despertava do acontecido enquanto o corpo em cima dela se transformava em boto, e o sangue do bicho derramava nela inteira, a penetrava. Juscelino tirou o corpo da criatura de cima dela. O sangue escorria pela areia e chegava ao rio dando a notícia da morte do seu. O negro se levantou e veio lavar o lugar, levava o corpo do boto pra dentro de si e convidava Maria pra se lavar. A mulher entrou no rio se limpava do sangue do bicho enquanto o negro consumava o ato, balançava entre as


pernas de Maria. Juscelino pegou a morena pelo braço e levou dali, depois isso tudo passou a ser lenda de novo. Maria do Romã quase se deitara com o boto. *** Os pescadores sempre tinham que adentrar bem fundo no rio pra ver vestígios de peixe. A pesca no Mamori há alguns anos quase não dava peixe, era inexplicável a escassez aos redores da comunidade. Algumas das crendices do povo diziam que era por conta do Juscelino da Maria, que assassinara um boto há alguns anos atrás, mas a história não tinha confirmação. Tudo era boato e ninguém explicava a revolta do rio por aquelas bandas. Fazia dez anos que Juscelino remoia aquela ideia, carregava ele e Maria, em silêncio, a culpa do deboche do rio em permitir que os peixes nadassem pelo Mamori. Depois daquele assassinato Maria do Romã sangrou por cinco dias, aquele sangue fértil que saia do meio de suas pernas não era dela, era do boto e fora levado pelo rio ali pra dentro. Mas a mulher não contou isso para Juscelino, viveu com ele assim, como se nada tivesse acontecido, durante aqueles dias dizia que o sangue era seu. Estancou. E aí veio à notícia da gravidez de Maria, todos ao redor ficaram encantados com o acontecido. O amor de Maria do Romã e Juscelino tinha dado um fruto. E a mulher gestou aquela criança, era sim filha de Juscelino, e ela dizia isso com tanta fé que chegou a acreditar. O nascimento da criança criou a confusão. Branca, toda rosada. Filha de boto, diziam as más línguas. Mas Juscelino sabia que era dele, “pai é quem cria, e todo criança nasce rosa, merda!”, ele dizia. — Nunca vi boto criar o filho das mulheres que emprenha na boca do rio. — E no mais não podia ser, o ato do boto não fora consumado e Juscelino bem lembrava da sensação de enfiar o facão pelas costas do bicho do rio, então criou a menina assim. Sua. Sua e de Maria. Amana, esse era o nome dela. Uma rosinha com beleza de Iara, cabelos longos e cacheados, olhos profundos e tão negros quanto o fundo do rio. Adorava água e o Negro sempre a recebia de braços abertos. Tinha fama, a menina, e quanto mais crescia, mais a história do boto tomava conta do falar do povo. Filha de boto. Rosinha. Algumas mulheres falavam pela comunidade que Maria tinha parido um boto e com o passar dos dias a criatura foi tomando forma de menina e ficou assim, rosa.


A menina já fazia dez anos. Dez anos também em que o rio se recusava a dar peixe pro Mamori. Dez anos em que nenhum boto subia pra terra na festa junina. Dez anos em que na comunidade ninguém mais era filho de boto, só Amana. E a caboclinha passava a vida assim, sendo cochichada na feira de domingo e quanto mais crescia mais aumentavam as histórias do povo em volta dela e da escassez do rio. Maria do Romã padecia do falatório do povo, sucumbia quando via aquela menina que pariu, desgostava-se na lembrança do boto e do sangue vermelho dento dela. O desprazer da mulher foi tanto que pegou suas coisas e foi embora. Deixou a menina ali com o pai. E Juscelino criava Amana. Amava a menina. Era castigado pelo rio. Depois que a menina completou quinze anos a comunidade se reuniu pra discutir o que fazer para o rio dar peixe, as conversas sobre Amana só haviam crescido nesse tempo. Juscelino não foi convidado pra reunião da comunidade. O Mamori inteiro falava como Maria do Romã tinha ido embora pra não olhar pra menina boto que pariu, e Juscelino, que era o homem mais forte e conhecido da região, parecia definhar de tristeza depois que a Maria se foi. As conversas que rodavam por ali naquele dia convergiam na ideia da menina ser a causa do rio não dar peixe, muitos discutiam sobre devolver a Amana pro rio negro. Parecia que o assassinato do boto tinha deixado a comunidade interia enlouquecida e ela também queria ser banhada com o vermelho do sangue do bicho. Disseram então — Daremos Juscelino pro rio. Ele matou o boto. Ele seja o sacrifício. E assim seguiram, esperando o último dia do mês de Junho, o dia do assassinato do boto pra pegar o homem na emboscada. No dia da festa junina da comunidade Juscelino resolveu, depois das quituteiras da festa tanto insistirem, que ia passar por ali, só pra mexer o corpo. Dia desgraçado aquele, o homem pensava, dia que pegou Maria do Romã nas graças do boto. Mas saiu, caminhou para a própria desgraça. Levou Amana consigo. E a comunidade fez com Juscelino igualzinho o homem um dia fizera com Maria do Romã. Repetiam a história, passo por passo e se tudo aquilo servisse, Juscelino terminaria no fundo do rio e o Mamori com peixes outra vez. Porém o povo não contava com a botinha ali na festa, de cola no pai. Seguia-se o plano e enquanto a


menina se divertia, uma caboclinha se apresentava aos risos para Juscelino. O homem seguiu a mulher pros fundos do lugar caminhava com ela na direção da boca do rio e lá estavam os homens preparados pra emboscada. Juscelino foi pego e arrastado, assustado e quase sacrificado. Amana deu falta do pai. Foi caminhando ligeira pra perto do rio, onde havia burburinhos. Escondida atrás das palafitas de uma casa velha viu tudo. Entendeu que Juscelino seria recebido pelo rio em troca dos peixes. Uma vida pela outra. E a rosinha esperou. Juscelino parecia aceitar a sina. Conformado se deixava levar, o sangue dele pelo do boto... O facão que atravessou Juscelino, cravado em seu peito errou o coração. O homem foi jogado ainda vivo no rio, que ficava avermelhado. Amana correu e se jogou ali pra salvar o pai. Sacrifício de boto pelo homem. As pessoas apenas assistiam aquilo, ninguém teve piedade, só o rio. O Negro recebeu a menina de braços abertos e Juscelino viu que em sua direção vinha uma Iara, sua filha. Metade boto. Amana tirou o homem das águas. O povo calou. O Mamori voltou a ter peixe.

Vermelho  

Autor: Raabe Emy Souza Lima

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