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UMAS E OUTRAS DO BEIRADÃO: CRÔNICAS CABOCLAS NEM COM PITI DE BODÓ Arivelto Marical1 Paulo Cabral Barboza Junior2

RESUMO A captação e utilização de água da chuva é prática comum de nossos ribeirinhos. Por essa razão, o Governo do Amazonas executou entre 2007/09 um programa denominado PROCHUVA, que consistia na instalação de sistemas de captação e armazenamento de águas pluviais em comunidades localizadas no interior do Estado. Os depoimentos que seguem retratam parte da história dos habitantes desses povoamentos que foram beneficiados por essa iniciativa. Palavras-chave: Comunidade; Ribeirinhos; Comunitários; Água da chuva; Prochuva; Agente comunitário de saúde; Farinha.

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INTRODUÇÃO O Programa de Melhorias Sanitárias Domiciliares, Aproveitamento e

Armazenamento de Água da Chuva (PROCHUVA) consistiu-se de um programa simples que utilizou a técnica milenar de captar água da chuva, transformando a vida dos moradores da maior bacia hidrográfica do mundo. Apesar da região norte do país possuir grandes volumes de água, nossos ribeirinhos sofrem uma contradição, pois na época da vazante os rios desaparecem e a escassez de água atormenta a vida de todos. E a água, que é importante para realizar afazeres domésticos e tomar banho, desaparece quase que por completo; os igarapés muitas vezes ficam reduzidos a fios de água. Ainda assim, a curva histórica de precipitação anual no Estado mostra que não há um mês sem chuva, razão que garantiu a sustentabilidade da proposta. Os reservatórios instalados nas comunidades interioranas, acompanhado da tubulação e conexões em PVC e a calha em chapa galvanizada, é que como se fosse a nossa já conhecida bica feita com alumínio ou flange, com a água da chuva deslizando para o camburão ou tambor, sendo que bem mais estruturado. A ação foi precedida de levantamento socioeconômico e Agência Amazonense de Desenvolvimento Econômico e Social – Programa Águas para Todos no Amazonas - Tecnólogo em Saneamento Ambiental – ariveltoarteeducador@hotmail.com 2 Agência Amazonense de Desenvolvimento Econômico e Social – Programa de Implantação das Unidades de Conservação do Amazonas – Tecnólogo em Construção Civil, Especialista em Gestão Ambiental, Mestrando em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos – paulocabraljr@hotmail.com 1


ambiental desses povoamentos, constituindo-se em uma oportunidade de ouvir essa gente. As histórias que seguem contam uma parte desse registro. Hoje a iniciativa tem continuidade com o nome de Programa Água para Todos. Nem com piti de bodó significa que o caboclo não desiste tão fácil de suas opiniões.

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OS RELATOS DE UMA EXPERIÊNCIA COM RIBEIRINHOS

O FURA DEDO A saga da equipe do PROCHUVA desta vez estava no município de Manaquiri, na comunidade Piauí do Janauacá. Como era de costume, nosso primeiro contato era com o presidente/liderança ou o vice do lugar. Mas naquele momento nenhum deles se encontravam, nem o líder religioso, nem o professor. Ficamos por quase 40 minutos a procura de alguém que representasse a comunidade para que nos ajudasse a identificar as casas dos comunitários, pois as casas eram na sua maioria flutuantes e distantes uma das outras. Resolvemos então parar em uma delas para obtermos mais informações, sendo recebidos por uma jovem comunitária a quem falamos da nossa peregrinação em encontrar algum representante da comunidade. Perguntei a ela: - Vocês têm Agente Comunitário de Saúde (ACS)? Ela me respondeu com desconfiança: - Nós não temos isso aqui não moço! Fiz outra pergunta: - Vocês têm por aqui agente de saúde? A jovem responde: - De jeito nenhum moço! Insisti e voltei a perguntar: - Quem é que cuida das pessoas quando estão doentes e faz prevenção de doenças aqui? A jovem então respondeu com uma vontade real de nos ajudar: - Ah! O senhor tá falando do fura dedo, do homem que fura o dedo da gente quando nós temos febre. Ele mora ali naquela casa verde e branca, até ele tá lá! A equipe rapidamente ligou o nome dado pela jovem à pessoa do agente de saúde, que também colhia lâminas para fazer exames de malária. A jovem nos ajudou e muito a fazermos nosso trabalho e o agente também. Valeu fura!


AINDA VOLTO Na comunidade Sempre Viva no Município de Manacapuru, existe uma personagem da vida real dono de um depoimento surpreendente, o qual tivemos prazer em conhecê-lo e compartilhar de uma deliciosa caldeirada de ruelo na sua casa. Atendendo pelo nome de Francisco Vital, era interiorano até debaixo da bóia do flutuante, como dizia ele. Foi levado, a convite de um tio, pra passar uma temporada em Manaus, e, de repente, até ficar por lá. Deixou seu habitat natural aos 18 anos e ao chegar à Capital do Amazonas se deparou com outra realidade do seu dia-a-dia das barrancas do Solimões. Logo arranjou um emprego de segurança numa firma que tinha a fama de pagar muito bem seus funcionários. Fazia suas guarnições diárias no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes, e logo foi fazendo seu pé de meia. Comprou sua casa e móveis sempre com muita dignidade e trabalho. Mas, segundo ele, dos 11 anos que passou na capital amazonense, nunca, jamais se esqueceu de pensar um dia sequer no seu lugar de origem. Relata ele que às vezes, à noite, nas solitárias guarnições, chorava de saudade do povo da terrinha. Chegava a sentir o cheiro do Paraná do Paratarí, seu rio onde adorava se banhar depois das peladas de fim de tarde, e do mato verde, além de apertar no peito a saudade de ver o pôr do sol trepado no pé de uma goiabeira que tinha próximo ao rio. Certo dia não suportou mais. Foi até o setor pessoal da firma e pediu sua dispensa do emprego. Por ser um funcionário nota 10, seu gerente pediu que fosse pra casa e pensasse melhor; que lhe daria uns dias de folga se quisesse ir visitar sua gente. Mas não; o que ele queria era ir e não voltar mais. Apenas consultou sua mulher da decisão e não pensou duas vezes. Foi logo vendendo tudo, arranjou dinheiro suficiente e saiu cortando as águas do rio Solimões. Sua direção era a felicidade. - “Hoje é isso que eu sinto: felicidade”, diz seu Francisco com um grande sorriso estampado no rosto - “aqui sim, é meu lugar!”, afirma ele com emoção: - “Manaus só em caso de doença e grave ou por muita necessidade. Jamais quero falar mal da capital do meu Estado. Lá consegui muitas coisas. Mas prefiro ficar aqui no meu lago, olhando minha casoera todos os dias, comer meu peixinho moqueado, fresquinho e assado na palha da bananeira na beira do lago. Não deixo isso aqui nem com piti de bodó!”.


ENERGIA SÓ LÁ Visitamos uma comunidade chamada Ilha da Paciência na área do município do Iranduba. Ao entrevistar um comunitário perguntei a ele se já tinha chegado à comunidade a energia elétrica do Programa Luz Para Todos do Governo Federal. Seu Nicolau já aborrecido de tanta promessa respondeu: - “Olha seu mano, eu já tô é curtido de tanta conversa fiada. Primeiro disseram que nós não ia ganhar rede elédriga, por causa da lonjura das casas uma das outra, por isso não vinha mais. Mas que iam mandar fazer uma tal de energia solar. Já ouvi dizer que lá pra baixo já inter tinha, mais pra cá nem com piti de bodó. Acho que esse nome dessa energia tá certo; energia só lá, porque até aqui ainda não veio não”. (Tá pensando que o povo tá bestinha é?). FEDERAL Nossa equipe estava sempre muito bem humorada e feliz por estar fazendo um trabalho importante pra nossos amigos interioranos. Foi justamente na comunidade Paratarizinho, no município da Manacapuru, que chegamos à casa flutuante de um comunitário e nos identificamos como agentes do IBAMA, e tinha havido uma denúncia que naquela casa, embaixo do assoalho, tinha bicho de casco escondido (quelônios). Fechamos a cara e demos voz de prisão para todos. Por um momento todos os moradores que se faziam ali presentes ficaram cabreiro do susto. Mas logo um membro da família que já tinha ouvido falar da nossa presença na área, vindo da cozinha da casa falou: -“Se tão prendendo galinha ou casco de ovos de galinha podem me prender; acabei de quebrar quatro pra fazer uma farofa prá comer com café. São servido?”. Os risos tomaram conta da casa, e, claro, participamos da farofa! SANTO PROTETOR Ao visitar uma família no Município de Nhamundá, mais precisamente na comunidade Sapucaia Conceição, entrevistei o chefe da família de acordo como pedia o formulário do programa. Na parte de colocar os membros da residência é que deu origem a essa história, pois quando o Senhor Toinho me disse o nome do seu filho mais novo é que começou a encrenca que vou contar em detalhes.


Dona Francisca, sua estimada esposa, teve uma gestação de risco; como dizem por lá, ela passou baixo. Mas, sendo ela uma mulher religiosa e devota de São Francisco de Assis se apegou logo com seu santo protetor, afirmando em suas orações que assim que a criança nascesse e não acontecesse nada com ela e nem com o curumim, o nome de seu filho seria Francisco em homenagem ao Santo. Mas, por outro lado, seu Toinho era também forte na fé cum borra, mas com Santo Antônio, e pediu ao seu santo protetor pela saúde de sua companheira e de seu filho, prometendo ao seu Santo Protetor que, conforme as providências divinas, daria o nome de seu esperado filho de Antônio, em consideração ao santo de sua devoção. Tudo bem, tudo certo. A hora do parto chegou, a criança nasceu, todo mundo se salvou, todos ficaram felizes. Mas, já era um mês contado no dedo e a definição do nome do curumim ainda não era fato consumado: uma hora chamavam o arrupiadinho de Francisco por vontade da mãe, outra hora chamavam de Antônio pela vontade do pai. A confusão tava pronta. No dia do batizado o padre chegou à comunidade fazendo trabalhos paroquiais, junto com o cartório itinerante; o cenário estava armado. Todos reunidos na sedia da comunidade, chega aquele casal trazendo a criança pelo braço sem o nome definido. O pai falou logo na frente: “quero tirar o batistério desse daqui e o nome dele é Ontônio”. Dona Francisca na hora replicou: “nada disso o nome dele é Francisco”. O impasse durou algumas horas, ambas as partes defendiam como foi feita cada promessa. Tia Zuca, conhecida e respeitada parteira daquela localidade, já muída de ver aquela intriga falou pela primeira e única vez: “mais que confronte é esse: Ontônio e Chico. Chega. O curumim já tá inté leso de tanto nome, égua. Por que não coloca o nome desse daí de Francistônio, assim agrada os dois santo e acaba com essa bestagi”. Assim foi feito. Todos os presentes gostaram do nome dado à criança, inclusive os pais: Francistonio Pereira da Silva, o curumim mais protegido do beiradão. SANTO DA SALA DE ESTAR DE DONA CARMITA A equipe desta vez tem uma grata surpresa. Tivemos o privilégio de conhecer uma típica família interiorana: a casa de dona Carmita é simplesmente demais. Na decoração da parede da sala é possível visualizar na fotografia do Santo Protetor. A preferência por São Sebastião e São Francisco divide a família; mais seja lá qual for à imagem a devoção tá garantida.


O calendário, que marca o dia de receber a tão esperada aposentadoria, também marca as comemorações festivas da comunidade. Os quadros com fotografias lembram o companheiro já falecido e a juventude dos filhos e irmãos. O relógio de parede marca o tempo de vida do povo de lá; a máquina de costura ainda resiste ao tempo e sobre a mesa da sala há um vaso com flores de plástico. Por fim, não deixaria de descrever o tamanho do carinho, a simpatia de cada um; a simplicidade chega a impressionar, sem falar de um delicioso vinho de açaí com farrinha puba que nos foi servido. Tudo isso é cagado e cuspido paisagem do interior. VAMOS FAZER UMA FARINHADA - SANTA FARINHA DO PIRÃO Vamos fazer a farinhada todo mundo vai gostar (bis) Só quem gosta de farinha venha peneirar aqui (bis) Os amigos visitantes venham peneirar aqui (bis)

Essa é a parte de uma música bastante cantada nas comunidades do beiradão, principalmente quando estão produzindo de forma artesanal a farinha. Quando chegamos a essa comunidade os comunitários estavam cantando essa música e dedicaram a parte dos visitantes para nós. Todo o processo que acontece na produção de uma saca de farinha é cansativo só de olhar, imaginem participar do processo. Mas, naquela casa de farinha, a alegria tomava conta de todos, pois cantarolando, contando causos e piadas, o esforço desaparece em meio ao trabalho. A estrutura do local onde é feito à fabricação e bastante interessante, refiro-me a casa de farinha tradicional. Lá existe gamela, prensa, peneira, e geralmente tem uma canoa desativada que serve de depósito para pubar a mandioca. Também tem paneiros, tipitis, remo de forniar (também conhecido como tabubá) e o forno de torrar massa, e claro, como ninguém é de ferro, tem sempre uma rede preguiçosa, uma indispensável garrafa de café, um cachorro vira lata pra se coçar, o terçado 128 amolado no balde, a panela no fogo preparando uma caldeirada de piranha pra mode se alimentar e a água geladinha no pote pra puba desentalar, afinal sem a puba não vai! CORTANDO ÁGUAS A CAMINHO DE UM AJURI A equipe deslocava-se para fazer entregas de filtros em comunidades do Município de Coari, outra atividade do PROCHUVA. Nossa embarcação foi ultrapassada por um barquinho regional com uma velocidade incrível. Aquele não era


um transporte fluvial comum. Junto com aqueles passageiros havia sonhos, esperanças e a certeza de dias melhores. No leme o comando traz a segurança, Uma conversa informal, um dominó pra distrair. O caboclo pensa na Maria que deixou no tapirí com os curumins. O barquinho vai cortando águas. Na imponência das bandeiras ele vai à procura de um grande ajuri que a hora é chegada. Lá vai o barquinho; grandioso é o sonho da tua tripulação. Ainda acenam fazendo que está tudo bem. Vão senhores de seus tempos a procura de novos tempos, novas águas, novos sonhos.... É como dizem por lá: inté mais ver.

LAVADEIRAS DA BEIRA DO RIO As lavadeiras da beira do rio são sorridentes e bem dispostas. Mas não é nada fácil lavar baciadas de roupas usando a força dos punhos. Entretanto é comum ver homens e mulheres, cuidando de suas vestimentas; se não é cantando é assobiando. O importante é lavar o cueiro sujo do menino novo e a roupa suja do trabalho no campo. Na maioria das comunidades onde ainda não tem distribuição de água canalizada, as lavadeiras esfregam, escovam e dão porretadas com seus famosos porretes; a água do rio faz o resto, levando para bem longe o que foi lavado. As lavadeiras também lavam sonhos e estendem esperanças de dias melhores, afinal nunca se sabe o que tem dentro dos rios. Assim fica registrado que as lavadeiras da beira do rio são mães e filhas da Amazônia, gente que cuida de seus afazeres domésticos. São felizes assim, demonstrando asseio apesar do estilo de vida humilde. Simpáticas, elas nos desejam boa viagem e deixam em aberto o dia em que quisermos voltar. Nos despedimos desejando sucesso e força para enfrentar o dia-a-dia de ser lavadeiras da beira do rio. O TREM DE TODAS AS HORAS - MEU RIO, MINHA CANOA! Enquanto nas grandes cidades a luta pra comprar o carrão zero km é o sonho de muitos, no meio rural a velha e preciosa canoa é o sonho de consumo dos interioranos. Seja ela movida a remo, motor rabeta ou motozinho de centro, é necessário ter pelo menos uma no porto, mesmo aquele quem já tem um motor quinze ou um quarenta. A canoa mais parece um complemento do corpo do ribeirinho, que um


simples objeto de locomoção. Um acoplamento que casa perfeitamente com a habilidade e agilidade de remar, e que vai se direcionando com auxílio da quilha. Lá vai o canoeiro pegar mais um banzeiro... Nas águas barrentas minha canoa passa fazendo caminhos; O trem de todas as horas vai e vem e a cuia tira a água que sempre tem. O curumim é habilidoso na arte de remar, afinal isso não é pra qualquer um, tem que ter afinidade e praticar muito. No meu rio minha canoa vai a passeio ou a negócio; ela é a identidade do ribeirinho. SAI DAQUI MENINO - COISAS DE MENINO DO MUNICÍPIO DE NHAMUNDÁ A equipe do PROCHUVA avança para a comunidade Sapucaia de Cima no período da seca. Em virtude disso nosso possante quarentão ficou impossibilitado de entrar no igarapé que dá acesso à localidade. Nosso experiente piloteiro ficou às margens do lago do Aduacá enquanto o restante da equipe encarou cinco horas e meia de ida e volta na pernada até à comunidade, e ainda tivemos 10 minutos de carona em uma canoa que suportava duas pessoas e éramos três. Conosco havia o comunitário que nos arranjou o casco para atravessarmos um laguinho de 400 metros de extensão e um metro e meio de profundidade até o tucupi de jacaré; e dos grandes. Mas de acordo com as providências divinas, deu pra chegar por volta de 11h30min a uma casa isolada, onde fomos recebidos por um casal muito simpáticos que nos deram água, e aproveitamos para descansar um pouco debaixo de uma árvore. Foi aí que o Sr. Julinaldo nos fez o convite de almoçarmos junto com eles. Em virtude de não termos levado comida por causa do peso, porque no almoço oferecido tinha até guisado de carneiro e para não fazer desfeita, aceitamos. Assim, deixamos o tucunaré assado de lado e preferimos comer o guisado, que por sinal estava uma delícia. Ao final agradecemos ao casal e elogiamos a refeição... Mas, um curumim de nove anos, filho do casal, abriu a boca e disse: - “É... o papai achou o carneirinho enforcado em rede de malhadeira ontem e ele já tava fede!”. Seu Julinaldo imediatamente disse: “nada curumim, sai daqui menino. Mulher, leva esse menino daqui, tá se metendo na conversa de gente grande”. Nós fingimos que não ouvimos nada, agradecemos por tudo e saímos em direção ao nosso objetivo. O mais interessante era a cara dos pais do curumim olhando pro pestinha depois que ele falou aquilo. Realmente o que vale é a intenção, e a carne tava realmente saborosa.


REZA TRADICIONAL - CURA PELA FÉ REGIONAL É tradição ter em comunidades ribeirinhas, uma parteira, um compadre mentiroso, um bebum chato, um contador de piadas e um benzedeiro comunitário, e é sobre o benzedeiro que iremos falar. Esse personagem da vida real que exerce um papel importante nas comunidades. Tratamos em especial um senhorzinho conhecido como Quichito, da comunidade Paratarizinho no município de Manacapuru. Ele é famoso por fazer rezas para qualquer tipo de doenças, e ainda recomenda chás de folhas e raízes de plantas da região. Diz ser um homem abençoado por Deus para ajudar as pessoas nos momentos difíceis da saúde; a conhecida reza pra crianças recém-nascidas contra mal olhado, quebranto, dentição e vento caído. Tem reza pra tudo quanto é de problema: espantar o mal olhado, espinhela caída, espinha na guela, peito aberto, reumatismo, mãe do corpo, constipação, perturbação no juízo, furada de prego, olho gordo, dismitidura nos quartos, rasgadura na virilha ou em outros cantos do corpo. Em nossas viagens a equipe precisou, e muito, de remédios caseiros preparados por esses personagens. Compadre Quichito, como é conhecido por todos, é bem requisitado até mesmo por outras comunidades, insistindo em dizer que não é ele quem cura: quem cura é Deus. Além do mais, sabemos do poder da medicina tradicional: o chá da cidreira, da casca da laranja, quebra corrente, quebra pedra, pata de vaca, folhas de hortelã e cabacinha entre outros tantos. Também não podemos esquecer dos necessários banhos. Seja com um raminho de arruda ou com galhinhos de pião roxo, a reza silenciosa e concentrada tem bom êxodo quando invocamos os poderes de Deus. FESTA NO INTERIOR - A POEIRA SOBE E O SUOR DESCE Como sabemos ninguém vive só de trabalho. Quando tem festança na comunidade sai de baixo; que tem raízes interioranas sabe muito o quanto é pai d’égua festa no interior, e seja lá qual for à comemoração, a festança tá garantida. Tudo começa com o torneio de dupla no pênalti valendo dois garrotes, ou quando é na carreira (partida de futebol) como dizem por lá. Tudo vira festa na beira do campo. As comunidades convidadas trazem suas duplas e times para torcerem e a competição fica mais animada, e quando chega às 16 horas começa à tarde dançante com a chamada de som “o tocador quer tocar”, feita pelo saxofonista que é a atração da festa. Essa levada geralmente dura até às 20 horas, com um intervalo de 1 hora, recomeçando em seguida sem hora para terminar.


É animador ver as comitivas comunitárias chegando, o povo da cidade e até da capital. Os fogos anunciam que tem festa nas barrancas. A cachorrada late assustada e a passarinhada foge dos galhos. O rabetão encosta, a meninada gosta, e a cachaça rola. No salão, a caboquinha se enrosca; o tira gosto é comprado na birosca. Chega o vereador pagando tudo e prometendo mundos e fundos. Tem a escolha da boneca viva; começa o leilão de uma porca gorda. Tem licor de jenipapo e batida de maracujá. O curumim novo tá debaixo do mosqueteiro pra carapanã não picar. Tem até um cabo delegado que faz a segurança! Mais não demora e o bebo chato canta a mulher do compadre, e a confusão se agiganta. Tem a turma do deixa disso; aparta daqui, aparta ali, e recomeça o forró bodó. Os passos dançantes são engraçados e criativos, Chega a chiar na paxiúba. “A poeira sobe e o suor desce” e sanfoneiro toca até o sol raiar.

ESCOLINHA RURAL Muitas personagens importantes da sociedade de hoje, tiveram o início de seu aprendizado nas tradicionais escolinhas das comunidades. As primeiras palavras escritas e faladas, a ajuda da mão da professorinha na coordenação motora, o primeiro dia de aula, o pote de água no canto da sala, a lousa de giz, o primeiro apelido, o primeiro caderno encapado com a embalagem da bolacha PAPAGUARA, lápis e apontador, o livro “Caminho Suave” de português, os pés descalços por causa da lama, as travessuras na hora do recreio e régua da professora, e os primeiros coleguinhas, Joãozinho, Pedrinho, Martinha e Joaninha, traz a lembrança do que disse o poeta – “Oh! que saudades que tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais...”. Hoje professoras e professores se esforçam para escrevem suas marcas na história, sendo responsáveis pela educação escolar de milhões de ribeirinhos, formando cidadãos de pés no chão. De A a Z o alfabeto era lido, depois as vogais, aí sim as junções das palavras. Obrigado professorinha que me ensinou o BÊ a BA.


OLHARES DE ÁGUIAS - CASA PALAFITA DO CABOCLO Com concentrada visão o caboclo observa o movimento do ar, da terra e da água, refletindo a conhecida frase do grande poeta português Fernando Pessoa - da minha aldeia consigo ver o mundo. O caboclo com olhos de águia também ver de forma natural e respeitosa seu mundo. Sem ambição e sem ódio, ele sabe que é muito pequeno fisicamente perante o mundo. Mas, o que tem dentro dele o torna grande: Ele é do tamanho do que ver. No seu mundo não há espaço para passo maior que perna. Por vontade própria opta em ficar bem longe das guerras, das ambições que destrói coisas belas. O ribeirinho ver da janela o verde da vida, o cardume que passa, o vôo da garça, o boto que bóia. A canoa que passa, o prateado da lua na maresia do rio. No terreiro o cachorro corre, a galinha cacareja. A florida mangueira e a flor de laranjeira da janela, nosso ribeirinho ver. Sente o vento que sopra livre e forte, causando a fúria do rio sem cor. O banzeiro às vezes chega a assustar até quem já é acostumado com ele. O caboclo não ver a hora de o tempo passar para que ele vá olhar se caiu na rede o seu alimentar. A boca da noite chega e é hora de jantar. Come cedo por mode a carapanã não incomodar. Da janela, pela manhã, o caboclo se revigora com a harmonia que tem com a natureza. COISAS DO INTERIOR - EU TAVA DE BRINCADEIRA Era costume até algum tempo atrás nas comunidades rurais, os pais mais velhos, quando não dava pra ir por algum motivo, deixarem suas filhas moças irem às festas em outras comunidades desde que a localidade fosse perto e acompanhadas por alguém adulto e de confiança. Essa história foi contada pelo povo de lá e dizem que foi fato real, numa comunidade próxima ao município de Manacapuru, onde teria acontecido uma grandiosa festa já tradicional naquela época, e todas as comunidades circunvizinhas foram convidadas a participarem desse grandioso e esperado evento. Um personagem bastante conhecido por ser um cabra trabalhador e de confiança, ficou responsável de acompanhar 10 moças de famílias para a festa dançante. Bodoroca, como era apelidado, se arrumou e todo perfumado pegou uma canoa grande com capacidade para doze pessoas adultas e saiu porto a porto dando uma de canoa lotação, certo que cada uma das belas moças também tinha seus remos e iriam ajudá-lo a remar até o local da festa. Chegaram e encostaram no porto da comunidade em festa, e, guardando os remos em lugar seguro, subiram. Bodoroca sempre deixavam as moças à


vontade para se divertirem. Isso era por volta das 22 horas e a festa rolava com grande animação. Com 15 minutos que tinha chegado, nosso amigo Bodoroca foi ao bar comprar refrigerantes para as moças e uma cerveja para ele, mas teve uma surpresa com atendimento: o serviço de bar estava vendendo só refrigerante, pois todas as bebidas alcoólicas já estavam vendidas para uma só pessoa. O comprador de todas as bebidas era um famoso regatão de produtos do beiradão, um forte comerciante da época por nome de Milton Fonte. Então nosso amigo Bodoroca foi tentar comprar do conhecido comerciante duas cervejas, mas seu Milton, dando pouca atenção, disse que não ia vender porque toda a bebida era só dos clientes e convidados dele. Bodoroca então deu meia volta e decidiu ir embora. Chamou as moças, explicou a situação e deu voz de saído do recito para todas. Uma moça ainda tentou falar, mas Bodoroca disse que quem ficasse na outra vez não viria mais com ele. Na mesma hora todas pegaram seus remos e foram direto pra canoa. Nesse momento seu Milton ia chegando na sede pra mode dançar e tinha poucas damas. Reclamando disse: “Cadê as mulheres dessa festa, festa sem mulher não tem graça”. Na hora o dono da festa disse: “Bodoroca acabou de descer com 10 belas damas, já estão até dentro da canoa”. Seu Milton disse: “quem é esse tal de Bodoroca? Manda ele subi e trazer as meninas”. Alguém foi lá e voltou sem sucesso. Então seu Milton foi até a canoa e perguntou ao dito cujo o porquê da decisão. Bodoroca disse que uma festa sem bebida não tinha graça; seu Milton disse a ele: “não camarada, eu tava brincando. Nesse caso tem cerveja para o senhor também”. Bodoroca, já muído, subindo na canoa e emproando pro meio disse: “É né seu Milton, mais quando eu falei que queria ir eu não tava brincando não; minha palavra é um tiro”. É, o conhecido ditado ainda alerta “Quem fala o que quer, ouvi o que não quer”. RAPIDINHA (SE LASQUEI!). Na entrevista do cadastro debaixo de uma árvore perguntei admirado para uma comunitária da comunidade Costa do Jandira próximo ao município do Iranduba sobre a quantidade de filhos que ela tinha: treze. Perguntei: Ô senhora, lá na sua casa não tem televisão? Ela respondeu: Tem mais nós disliga! (Mais credo!)

Umas e outras do beiradão  

Autor: Arivelto Marical e Paulo Cabral Barboza Junior

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