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UMA ANÁLISE DOS CONTOS “DAS DORES” E “ALZERINDA” DE VERA DO VAL

Rosa Maria Tavares Fonseca

RESUMO Apresenta-se neste texto uma análise de dois contos de Vera do Val, “Das Dores” e “Alzerinda” que fazem parte do livro Histórias do Rio Negro. Duas mulheres dão nome aos contos aqui analisados. Duas historias de vida interligadas com seus dramas e tristezas. As

protagonistas são mulheres fortes em um ambiente inóspito, quase hostil, mas que sobrevivem, apesar de tudo!

o. Palavras-chave: Comparacäo; Relacionamentos conturbados; Mulheres.

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INTRODUÇÃO Realizarei a análise dos contos Das Dores e Alzerinda como se estivesse vendo

um rio correr. Nesse sentido pode-se dizer que o método usado na análise chama-se “go with the flow” pois segue o ritmo natural da narrativa ou de um rio que passa, um rio em seu percurso natural que flui levando com ele escombros, destroços, objetos. Os elementos da narrativa, técnicas, temas e outras características importantes serão analisados à medida que aparecerem no decorrer dos contos. 1


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A escolha dos contos foi motivada pelo fato deles trazerem mulheres fortes como protagonistas em um mesmo ambiente ficcional o que permitiu que fosse feita uma comparação entre as duas heroinas. Este foi um trabalho apresentado durante a graduação em lingua portuguesa que fiz na UEA no ano de 2008. Como a revista pede temas relacionados ao ambiente amazônico o texto é mais do que pertinente. Em um sentido mais universal os contos mostram a condiçãoo humana de pessoas que muitas vezes vivem em um estado à parte, um mundo totalmente diferente do qual as pessoas das cidades grandes estao acostumadas.

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“DAS DORES” E “ALZERINDA”: UMA ANÁLISE Iniciaremos aqui com a primeira cena de Das Dores. A mulher, neste caso a

protagonista, aparece bela e sensual descendo um barranco para lavar a roupa de seu homem. Dá-se aí a primeira descrição de Das Dores e logo em seguida, a explicação do apelido que carregava na zona, “saúva”, devido ao grande tamanho de suas nádegas. A aparição de Das Dores não passa despercebida. Todos que bebiam num bar em frente ao rio ficaram “mudos, embevecidos”, com a visão da mestiça. Segundo as explicações do narrador descobrimos que a Saúva já tinha “dono” e ninguém se engraçava com ela por medo da peixeira afiada do gigante gaúcho chamado Chico. Este havia achado ouro e assim podia bancar a Saúva que tinha permissão para exercer seu “ofício”nas tardes quentes do prostíbulo da Sarará. Como a própria Das Dores dizia, “gostava da Sarará, gostava do cheiro da casa e da putaria” (DO VAL, p.18) A única exigência do homem “fixo” era que ela “não se dedicasse a um só, que distribuísse os cheiros e os carinhos” (Ibid, p.19) entre vários. Com essas regras estabelecidas a vida corria pacificamente. Pelas manhãs e à noite era Das Dores, mulher de Chico. Às tardes era Saúva, companhia de qualquer um que pagasse por seus serviços. Seguindo o curso da narrativa, Das Dores conversava com “a vizinha Alzerinda que vivia de olho na vida e na cozinha da Saúva” (Ibid, p.19). Das Dores falava pouco, era mais ouvidos, mas um dia comentou com Alzerinda que botava os bichos pra fora ao bater a roupa na beira do rio. De que bichos falava? Já sabemos por Chico que 2


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aceitava dividir a mulher porque temia o mau gênio dela (Ibid, p.18). Mas será que era só isso? Não é possível que Das Dores se referisse ao bicho da insatisfação amorosa? Por que uma pessoa que vive com outra tem a necessidade de ver ou sentir outros homens? Não acredito que fosse o gosto pela vida mundana que Saúva alegara. Penso que “botar os bichos pra fora” era uma maneira de Saúva aplacar o grande desejo que sentia por um amor arrebatador, coisa que aparentemente não sentia por ninguém. Saúva era prática como as formigas: aceitava a vida confortável que Chico lhe dava ao mesmo tempo que queria as tardes livres para procurar, mesmo que somente no imaginário, o grande amor que faltava em sua vida. Todos pareciam satisfeitos com o acordo até o dia que apareceu no lugarejo um gringo de olho espichado para o lado de Das Dores. Esta que só ria de gracejos e rebolava as ancas na casa da Sarará (“era uma puta séria” p. 18) no dia em que viu o moço claro chegando no hotel da cidade “riu por dentro [...] passou a mão nos cabelos, coçou o decote, se esmerou no gingado, deu um balanço de ombro e desfilou altaneira, quase roçando o corpo suado naquela loirice estrangeira” (p.20). Ainda por cima olhou pelo rabo do olho para ver a reação que causara no rapaz. Desde o primeiro momento Das Dores flertou deliberadamente com seu futuro amante. Todos os dias passava diante da tentação do “diabo louro” e requebrava as cadeiras descuidadosamente, o suor descendo pelo corpo. São imagens altamente sugestivas, cheias de sensualidade e desejo de ambas as partes. O gringo chegava a engasgar com o peixe que comia, tal era a visão. Depois de muitos flertes, trocas de olhares e pequenos sorrisos, Saúva finalmente levou o gringo aturdido para uma tarde de amor na casa da Sarará. Começam então os presságios de uma morte anunciada. A partir de investigações, Chico descobre que Saúva delirava e gemia como um bicho quando estava com o amante. O desenlace é violento: o gigante ferido com a “infidelidade” da prostituta pôs-se a espreitar no bar a troca de olhares entre os amantes. Quando Saúva vai passando em frente a este, pula e desfecha uma punhalada no peito do rival. A cena é dramática. Antes de morrer, o estrangeiro agonizante consegue dizer seu nome, Frederico, até o momento desconhecido pela morena. Das Dores, ensopada de sangue, fecha os olhos do moço. 3


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O segundo conto, que é a continuação do primeiro, nos apresenta Alzerinda. A encontramos observando a chuva cair num ambiente desolador de casinholas açoitadas e submersas. Recorda-se da cena dramática, dos gritos de Chico e do sofrer da amiga. A chuva que não parava começa na hora que o amante de Saúva morre, como se chorasse com ela, transformando-se depois em dilúvio “para lavar tanto sangue e aflição” (p.2p8). Saúva passara dias imobilizada pela dor da perda até tomar a decisão de partir dali. Com apenas um olhar comprido em direção de Alzerinda informou que partia. Chico estava na cadeia. Alzerinda apossou-se da casa de mansinho. Foi chegando, limpando, lustrando até chegar nos armários de roupa. Maravilhou-se com os vestidos, brincos e sandálias deixados pela amiga. Passou a transfigurar-se trancada no quarto, imaginando ser a outra. Vestia-se, desfilava, chegou até a criar um homem de panos com quem se esfregava e gemia de prazer. Alzerinda foi “água mole em pedra dura”. Persistiu em visitar Chico na cadeia. “Levava-lhe quitutes, roupa limpa [...] contava do zelo com a casa” (p.31). Chico nada dizia. Alzerinda esperou dez anos vivendo a fantasia do quarto trancado. Enfim, Chico saiu da cadeia. Alzerinda esmerou-se no almoço, na sobremesa e, Chico, como um sonâmbulo deixou-se levar até o quarto onde Alzerinda satisfez seu desejo de tê-lo como homem. Sabemos, no entanto, que Chico pensava em Das Dores, “perdido no tempo”. A paciente Alzerinda tinha de contentar-se com as sobras. Da mesma maneira que Chico um dia aceitou dividir Das Dores com outros homens, porque “achou melhor menos do que nada” (p.18), Alzerinda aceitou aquele arremedo de homem que não a desejava, mas a satisfazia, afinal, “não se podia ter tudo nesta vida” (p.32). Neste ponto é conveniente comentar um tema abordado nos dois contos: o desejo e a maneira que as pessoas encontram para satisfazê-lo. Em Das Dores, Chico desejava Saúva somente para si, porém não podia controlá-la. Das Dores deseja o estrangeiro e tem a sorte de ser correspondida, porém o casal tem um empecilho de nome Chico. É como se a vida dos três se encontrasse numa encruzilhada, ou melhor, num delta, e num ato passional todos vêem seus desejos correndo rio abaixo.

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No segundo conto, Alzerinda deseja um homem que por sua vez sonha com a mulher que o deixou. Cada qual com seus anseios e sem a possibilidade de concretizálos. Para conseguir o amor de Chico Alzerinda deseja ser Das Dores, disfarçando-se com roupas, maquiagens, adornos que a outra deixou para trás. Obviamente seus esforços não são reconhecidos, pois como já foi dito antes, Chico está presente na casa apenas fisicamente. Vive alheio a este mundo desde que perdeu sua Das Dores. O que pode então ser observado nesse aspecto é a impossibilidade dos personagens terem seus desejos realizados. Essa não é a única forma pela qual os contos se relacionam. Alzerinda, que no primeiro conto era personagem secundária, passa a ser personagem principal no conto que leva seu nome. Também chama atenção o fato dos personagens principais em ambos os contos serem mulheres. Mas também há diferenças, a começar com as características das protagonistas. No primeiro conto, Das Dores é uma mulher forte, sólida, “frondosa”. Alzerinda era o oposto: murchinha e frágil como uma uva-passa, “o corpo estorricado, os seios murchos, as pernas finas (p.30). Apesar da grande diferença física, essas duas mulheres exalam sensualidade e erotismo, cada uma a sua maneira, por todos os poros. Observamos isso em várias passagens do texto quando o narrador comenta o requebrar das cadeiras de Das Dores, o suor escorrendo pelo corpo, “toda ela uma deusa” (p.20) “de andar dengoso” (p.24). A sensualidade latente na deusa cabocla converte-se em erotismo no prostíbulo da Sarará onde Das Dores é prata da casa, a mais disputada de todas e a que fazia o sujeito sair “babado e de olhos perdidos” (p.18). Alzerinda não fica para trás num erotismo encurralado pela solidão que a faz fabricar um boneco com almofadas da sala. Com esse boneco “se esvaía toda”(p.31). O ápice do erotismo de Alzerinda manifesta-se no final do conto quando seduziu Chico: “quando ela, no escuro, o cavalgou sôfrega” (p.32), Tanto tempo de espera rendeu-lhe algo, afinal, quem espera sempre alcança, se não tudo, ao menos uma parte. Parece que a correnteza da narrativa transforma o texto num turbilhão de temas, idéias e significados. Transpondo esse turbilhão e antes de entrar nas 5


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considerações técnicas, penso em comentar mais uma maneira como os contos estão entrelaçados. A dor de Das Dores e de Chico é tratada no segundo conto. Um jogo de palavras é usado para introduzir o sofrimento de Das Dores: “parecia que a dor das dores se erguia do sol [...] entranhada nos olhos dela” (p.28). Enfurna-se em casa “e lá fica, pasmada, sem palavras” (p.28). Não queria conversar, nem comer, era “só aquele olhar perdido, impassível, como se o gringo tivesse partido levando as duas almas, a dela e a dele” (p.28). “Parecia um fantasma [...], o cabelo ainda emaranhado de dor, o peito mudo sem lamento nem lágrima”. Tudo era dor. Não é a toa que se chamava Das Dores. No segundo conto, Chico também se vê destroçado pela dor, “ele não tugia nem mugia [...] ouvia alheado o desfiar de um assunto depois do outro” (p.31) quando Alzerinda o visitava na cadeia. Ganhou liberdade não tanto por bom comportamento, mas por “pasmaceira” (p.31). Quando voltou para casa “só suspirou, meio cego [...]. Chico mirou aquela mulher meio sem ver e se deixou levar” (p.31). O comportamento de Chico era como o de um sonâmbulo. Desinteressado pela vida deixava-se levar “sem chiar” (p.31). Ponto para Alzerinda que gozava nas sobras da outra. Não me deterei no lado puramente técnico da narrativa, mas alguns detalhes não podem ser omitidos. O leitor já deve ter notado o uso das palavras “protagonista, personagem principal, personagem secundário” para mencionar as duas mulheres que dão seus nomes aos contos. Uma pergunta deve aflorar em muitas mentes: Quem transformou essas mulheres protagonistas? A resposta é simples: o narrador das histórias. Ele narra os fatos em terceira pessoa e posiciona-se fora dos fatos narrados. É, pois, um observador. Além disso, identifica-se com certos personagens (Das Dores e Alzerinda). Isso não quer dizer que as defenda abertamente, mas que permite que elas tenham mais destaque na história. Em termos técnicos o narrador poderia ser chamado, além de observador, de narrador parcial (GANCHO,2006) No que se refere ao lugar (espaço) da narrativa, tudo indica que seja um povoado encravado no meio da floresta. Na beira de um rio, o lugarejo situa-se um pouco acima deste. Lembre-se que Das Dores necessita descer um barranco para lavar roupa. A menção de ouro, homens bebendo num bar, uma casa de “mulheres da vida”

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nos levam a pensar que seja uma área de garimpo. No conto Alzerinda a localização é a mesma. Quando se fala do tempo da narrativa temos a indeterminação deste. O tempo passado desde o momento que Saúva conhece seu gringo até o dia que Chico o mata diante de todos pode ser alguns dias, talvez semanas ou até meses. Sabemos que o tempo passa, mas não sabemos com segurança a duração desse intervalo. Fica a cargo da imaginação de cada um já que o narrador não é específico. Isso, no entanto, não afeta a compreensão dos fatos, muito menos diminui o interesse do leitor que, pelo contrário, parece ver o tempo fluir rapidamente, como o correr dos rios caudalosos, deixando-o quase sem fôlego, até emborcar num precipício (no caso de Das Dores) ou numa lagoa de águas tranqüilas (Alzerinda), isto é, momento que chega ao desfecho da narrativa. O tempo em Alzerinda nos é fornecido de uma maneira mais concreta. Ficamos sabendo que Alzerinda brinca trancada no quarto de Saúva durante dez anos, período que Chico passa na cadeia. Incrível pensar que seis páginas incluem um espaço de tempo tão longo. São as mágicas das técnicas da narrativa que a autora dos contos domina com destreza e as usa para nos encantar. É o canto da Iara de Vera do Val.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS As diretrizes para a construção de um entendimento mais amplo das realidades

desses contos foram buscadas em Bakhtin. O fazer científico para ele consiste em gestos interpretativos onde o universo da cultura se apresenta num grande e infinito diálogo, (FARACO, 2003) como o diálogo travado entre os dois contos de Vera do Val. A compreensão do texto é um posicionamento diante dele, que não é uma coisa muda, um objeto sem voz. Pelo contrário, quem se depara diante de um texto deve saber que

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este é a expressão de um sujeito social e historicamente localizado. Há uma visão de mundo, um universo de valores sobre os quais nos debruçamos em busca da compreensão. A compreensão aponta para o possível e não para verdades absolutas. Tudo que foi dito até agora são possíveis interpretações dentre uma infinitude delas, trazendo à tona a dimensão da pluralidade. O método “go with the flow” (seguir a corrente) por mim adotado foi uma tentativa de fazer uma análise literária seguindo as recomendações de Bakhtin, que ironicamente, não recomenda nenhum método. Por isso optei por descer o rio do texto apresentando/comentando os fatos à medida que emergiam dele. Ás vezes seguia o ritmo da corrente, outras vezes quedava-me emaranhada nos obstáculos e redemoinhos que apareciam no percurso. Creio, no entanto, que consegui fazer o trajeto com a cabeça fora d’água a maior parte do tempo. O rio que observamos num momento não é o mesmo nos próximos segundos. Como as águas que se renovam a cada instante, nos sentimos renovados depois de ler Das Dores e Alzerinda. Arrebatados por um vendaval de palavras e situações hipnotizantes não somos mais os mesmos depois dessas leituras. Observamos vidas desprovidas de artifícios que igualam-se às nossas, repletas de virtudes e fraquezas. Os personagens desses contos têm desejos, sentem solidão, alegrias e tristezas, o que faz com que, muitas vezes, nos identifiquemos com eles e solidarizemos com suas dores e penas. Somos as Das Dores, as Alzerindas, os Chicos e os gringos da beira do rio. Todos com a esperança de um lugar ao sol às margens das águas plácidas de um lago ou igarapé bonito, afinal, depois da chuva vem o sol. E depois do sol vem a chuva outra vez. Pra lá e pra cá, numa insustentável leveza, num doce, mas às vezes acre e nem sempre suave, balanço de um rio em eterno movimento.

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Referências BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2010

DO VAL, Vera. Histórias do Rio Negro. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

FARACO, Carlos Alberto. Linguagem e Diálogo: as idéias lingüísticas do círculo de Bakhtin.*

GANCHO, Cândida V. Como analisar narrativas. 9.ed. São Paulo: Ática, 2006.

TADIÉ, Jean-Yves. A crítica literária no século XX. Rio de Janeiro: Bertrand,1992.

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Uma análise dos contos das dores e alzerinda de vera do val  

Autor: Rosa Maria Tavares Fonseca