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SEU JUVENAL E O BANQUETE DOS URUBUS

SIDNEY BARATA DE AGUIAR

Seu Juvenal chorava copiosamente. As lágrimas escorriam soltas em sua tez cansada e amorenada pelos incandescentes raios solares que iluminam a Linha do Equador. O líquido salgado que despontava dos olhos era capaz de encher uma pequena cuia de tacacá. Nem mesmo a experiência de mais de meio século de labuta pesada, o impedia de emocionar-se profundamente. Praticamente nasceu com a enxada e o terçado nas mãos. A coivara, o roçado e as plantações de mandioca foram suas atividades laborais diárias, fatigantes e extenuantes. Mestre especialista na arte secular de torrar farinha d’agua. Doutor na captura e abate de animais silvestres, privilegiado por uma mira milimétrica. Ph.D. na atividade de pescar pacus e jaraquis, utilizando apenas uma rede de malhadeira remendada. Seu Juvenal conhecia a misteriosa natureza da região. Não por ter estudado nas faculdades da capital ou no exterior, aprendeu os segredos da Floresta Amazônica e o regime totalitário das águas fluviais com o avô materno. Conhecimentos transmitidos hereditariamente por gerações em gerações. Percebia que o equilíbrio da chamada ‘Mãe Natureza’ estava comprometido. Na Amazônia, essencialmente, existem duas estações climáticas no ano.


O inverno, onde a incidência das chuvas é constante, o firmamento desaba quase todos os dias, provocando a enchente nos rios. Nos outros seis meses, temos o verão causticante conhecido como Vazante e nesta época o volume das águas dos rios, igarapés, igapós e lagos perdem tamanho significativo. Dominar estas informações é vital para a sobrevivência dos caboclos, ribeirinhos, quilombolas e indígenas da região. Seu Juvenal é um verdadeiro ‘Homem-anfíbio’, sua vida e a de sua extensa família dependem diretamente desta dualidade (Cheia/Vazante). Seu Juvenal nunca presenciou tamanha estiagem na região do rio Pakuá Aratiku (Banana Preta), mais um dos incontáveis pequenos afluentes do poderoso Rio Amazonas. Segundo alguns cientistas e homens letrados, o flúmen já havia secado aproximadamente três metros, apontados pela última mensuração. Nos relatórios de regime hidrológico responsabilizaram a poluição e o desmatamento acelerado das florestas por estas mudanças climáticas calamitosas. No lago Maracujá de Menina em menos de uma semana os Flutuantes residências de madeira construídas sobre troncos de árvores que boiam - estavam estacionados no solo ressequido e rachado. A navegação dos barcos regionais estava comprometida, somente as canoas percorriam algumas áreas ainda alagadas. Seu Juvenal chora e soluça. Fazia meses que uma única gota de chuva não desabava do céu. Água, apenas no rosto sofrido do ancião. Os animais fugiram em direção aos mananciais de águas cristalinas e frias dentro da mata distante. A revoada dos pássaros foi ruidosa e amedrontada. As plantações não resistiram ao calor intenso, abrasador e castigador.


As crianças em prantos por causa da fome que não espera e nem pede licença para adentrar nas taperas. Os peixes morreram sufocados nas águas escaldantes. Cardumes inteiros se debateram desesperados no lamaçal efervescente formado pelo esgotamento do líquido vital. Doía o coração do caboclo e pai. Dois dias depois, o pescado apodrecido exalava um olor insuportável. As nuvens de mosquitos e moscas marcaram presença neste cenário desolador. Vinte quatro horas mais tarde, as centenas de urubus alimentaram-se de toda a carne em decomposição. Foi um espetáculo de fartura para as aves de cabeças nuas. Enquanto isto, Seu Juvenal lacrimejava entristecido e faminto sob um sol de cinquenta graus. Seu Juvenal fitava o horizonte, assombrado com tamanha secura no ventre da Amazônia.

Seu Juvenal e o Banquete dos Urubus  

Autor: Sidney Barata de Aguiar

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