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O VELHO NUTA (Dedicado ao Senhor Nuta Pecher). Abner Viana I Entre as raízes e folhas dos solos agrestes da Rumânia, nasceu o andarilho navegador. De olhar paciente e rosto solene, foi circundado pela paz. Filho da destreza, do Leão e do ofício da criação. Lobo plumado da sombra de séculos guardados... Um artesão. II O cheiro dos campos ermos da Bucovina... Encantavam o menino. A contemplação o fazia caminhar em moradias que o tempo abandonou. As bandeiras de fogo do crepúsculo anunciavam sua vitalidade. E as luzes do Pôntico... Que um dia o despertou. III E bramia... Chovia... E fremia Colerismos sanguinários. A cruz de ferro que asereiava os eslavos, maltratava o bichinho de Yacov. O câncer da besta do martelo assolava o Velho Mundo com o seu opróbrio. E quando emergiu das tempesnoites e tempesdias, já eram tempestardes. IV Do inferno, o lobo corria para não morrer, e rezava em espírito. Pensou consigo: Noch Veiter!!! Noch Veiter... O odre de suas lembranças já não era o mesmo. E com o ardor do sol, ao seu redor tudo era efêmero e fugaz. Sabia que o importante era viver sem ter medo do medo que abrolhava. V O lobo de Hannah e Aaron se tornou arauto-fanal de outros mares. Com a prece da Shemá em sua testa atravessou Gibraltar.


Avistando o brilho das novas águas transpassou por onde o mar bebe o Capibaribe. Seguiu o girassol dos ventos e aportou numa caribenha nação... Bem longe do Caribe. VI Ouviu um batuque que abalava o firmamento de um som fluminense de além-mar. Trouxe consigo um alarido oriental de um povo que se reinventa. De pescoço esguio era um Caliban num país Nagô, mas, seguiu a rota da Rosa Celeste. Cruzou La Tierra del Fuego e encontrou-se com o atemporal Pacífico. VII No Além-Verde penetrou num vulto ancestral de Ecolemas. Sob a lua de marfim conheceu o seu amor e gerou um Roffé. Esculpia verdades e vivências em suas mágicas garrafas. Sua arte não chegou somente aos olhos e ouvidos vivistos, mas, nos corações. VIII E, em meio aos infortúnios e alegrias o descendente de Rabinos criava sua história. As alegorias garrafeiras nunca se repetiam... Palpitava-se a cada glória. Antes de partir pra o Além-mundo viu sua arte percorrer todos os mares. O velho Lobo, o paciente menino, o Nuta de todos os ares.

O Velho Nuta  

Autor: Abner Viana

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