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MITOLOGIA E CULTURA MATERIAL NAS MOEDAS ANTIGAS DO MUSEU DE NUMISMÁTICA BERNARDO RAMOS Eriksen Amaral de Sousa1

RESUMO

Este artigo tem a intenção de fazer uma análise das representações mitológicas nas moedas antigas pertencentes ao acervo do Museu de Numismática Bernardo Ramos, evidenciando que a moeda, como documento, pode informar sobre os mais variados aspectos de uma sociedade. Tanto político e estatal, como jurídico, religioso, mitológico, estético.

Palavras-chave: Numismática; Mitologia Grega; Cultura Numismática Bernardo Ramos.

material; Museu de

1 Bacharel em Filosofia e, atualmente, aluno finalista do curso de Licenciatura Plena em História, ambos pela Universidade Federal do Amazonas. Integrante do Laboratório de Estudos em História Cultural (LEHC/UFAM). E-mail: eriksen_amaral@hotmail.com


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INTRODUÇÃO As moedas podem nos ajudar a compreender melhor o contexto que se

encontrava a sociedade estudada. Segundo Marc Bloch, “nunca se explica plenamente um fenômeno histórico fora de seu momento” (BLOCH, 2002: 60). Milhões de moedas antigas sobreviveram até hoje. Você encontrará uma coleção magnífica no Museu de Numismática Bernardo Ramos, maravilhosamente exibida no que já foi a sede do Comando Geral da Polícia Militar na capital do Estado do Amazonas, hoje o atual Palacete Provincial, localizado na Praça Heliodoro Balbi, no centro da cidade. No entanto, fato é que existem muitas mais moedas do que cabem nos museus, como evidenciado pelas vendas ocasionais de museus que possuem vários espécimes repetidos em suas coleções. A Internet faz milhares de moedas gregas antigas em leilões acessíveis a todos com apenas um clique. As descrições das moedas apenas revelam histórias sobre temas tão diversos e representações de símbolos que detinham certo aspecto mitológico como deuses, deusas, guerras e conquistas, migrações e colonização, filósofos e matemáticos, o exílio de crianças ilegítimas, a extinção, a imitação de arte, as vitórias olímpicas, como também a mortalidade humana ou imortalidade, em alguns casos. Tais são as invenções dos gregos antigos, golpeando em pequenos discos de prata, ouro, bronze e electrum (uma liga de ouro e prata) cujo propósito original era econômico, para simplificar as transações. Chartier destaca a importância da interpretação dessa simbologia, chamada por ele de “signos do poder”. Daí a necessidade de constituir séries homogêneas desses signos do poder: sejam as insígnias que distinguem o soberano dos outros homens (coroas, cetros, vestes, selos, etc.), os monumentos que, ao identificarem o rei, identificam também o Estado, até mesmo a nação (as moedas, as armas, as cores), ou os programas que têm por objetivo representar simbolicamente o poder do Estado, como os emblemas, as medalhas, os programas arquitetônicos, os grandes ciclos de pintura (CHARTIER, 1990: 220). Segundo o historiador francês Jacques Le Goff, os monumentos, herança do passado, e os documentos, escolha do historiador (LE GOFF: 1983, 101). Cabe ao historiador identificar e definir as suas fontes, pois o documento não é inócuo é uma montagem consciente ou inconsciente, da história, da época, das sociedades que o


produziram. Um esforço para as sociedades históricas impor ao futuro determinando imagem de si próprias. É necessário haver uma interdisciplinaridade para ser realizada uma desmontagem da ambivalência documento / monumento, através do próprio ambiente que o produziu, auxiliado pela arqueologia, e não baseado em uma única crítica histórica. O dever do historiador é ampliar a noção de documento: O novo documento, alargado para além dos textos tradicionais, transformado - sempre que a história quantitativa é possível e pertinente – em dado, deve ser tratado como um documento/monumento. De onde a urgência de elaborar uma nova erudição capaz de transferir este documento/monumento do campo da memória para o da ciência histórica‖. (LE GOFF: 1983, 177).

2 BERNARDO RAMOS E SEU ACERVO NUMISMÁTICO A origem da coleção de numismática de Bernardo Ramos se deu no final do século XIX, quando este passou a colecionar moedas que lhe pareciam diferentes. Posteriormente, se iniciou a compra de moedas raras do Brasil e de outros países. Autodidata e interessado pelas antigas civilizações, viajou pela Europa e Oriente Médio, percorreu a Palestina e o Egito, numa época em que isto significava uma viagem de barco de quase 20 dias somente para se cruzar o Oceano Atlântico. Para poder compreender as legendas das moedas que adquiria, Bernardo tornou-se ainda um profundo conhecedor das línguas bastante incomuns, como o hebraico, o fenício e o sânscrito. Em 1898, adquiriu a valiosa coleção de numismática e biblioteca do pernambucano Manoel Cícero Peregrino da Silva, tornando assim ainda mais valioso o seu acervo, o que veio despertar o interesse do Governo do Estado do Amazonas, que, através da Lei nº 296 de 6 de outubro de 1899, autoriza a aquisição pelo estado, através de compra, da Coleção de Bernardo d’Azevedo da Silva Ramos. Quando adquirida, a coleção era considerada como a primeira da América Latina e a quarta do mundo em valor e importância histórica. Após noventa e seis anos (1997), o Governo voltou a adquirir peças, comprando uma importante coleção de moedas de ouro e, mais recentemente, uma coleção de cédulas flor de estampa de vários países.


2.1. BREVE HISTÓRICO DO MUSEU DE NUMISMÁTICA O Museu de Numismática do Amazonas tem sua origem na coleção de moedas, medalhas, cédulas, e documentos históricos, organizada pelo comerciante amazonense Bernardo d’Azevedo da Silva Ramos. Estudioso e fascinado pela Numismática, viajou por vários países, seguidas vezes, adquirindo peças para sua coleção particular. O Governo do Amazonas, através da Lei n0 296, de 6 de outubro de 1899, autorizou a compra da coleção numismática de Bernardo Ramos para o Estado e pelo Decreto no. 402, de 20 de fevereiro de 1900, “abre um crédito de trezentos contos de réis para ocorrer as despesas com a aquisição da Coleção Numismática do Coronel Bernardo d’Azevedo da Silva Ramos”. Em 1900, por ocasião das festividades do quarto centenário do Descobrimento do Brasil, realizadas no Rio de Janeiro, então capital da República, a Coleção Numismática foi exposta, no período de 05 a 31 de maio de 1900, no salão nobre do Externato do Ginásio Nacional, hoje Museu Nacional. A exposição, ao ser visitada pelo então presidente da República, Dr. Campos Salles, despertou neste um grande interesse devido ao valor histórico e raridade das peças levando-o a fazer uma oferta de compra da coleção para que ela integrasse o acervo do Museu Nacional, no que foi recusado pelo amazonense. Ao vendê-la para o Governo do Amazonas, Bernardo Ramos perdeu a importância de cem contos de réis, visto que o preço ofertado por Campos Salles era de quatrocentos contos de reis. Mas assegurou que o acervo permanecesse em sua terra natal, onde se encontra até hoje. Em 30 de novembro de 1900, o Decreto Estadual no. 460 cria a Seção Numismática na Imprensa Oficial e seu Regulamento, dando origem legal ao Museu. A coleção foi dividida em 24 vitrines, em madeira de lei, com cristal bisotado, e foi aberta á visitação na sede da Imprensa Oficial, que funcionava na Av. Sete de Setembro atual prédio do Banco Bradesco. Anos depois o Museu foi instalado no Palácio Rio Branco, sede da Secretaria do Interior e Justiça, posteriormente Assembleia Legislativa do Estado, atual Centro Cultural Palácio Rio Branco, na Praça D. Pedro II.


Em 15 de junho de 1965 foi transferido, desta vez para o prédio do Banco do Estado do Amazonas, onde permaneceu até 1970 transferido em 30 de maio para imóvel alugado, na Rua Henrique Martins, onde permaneceu por dez anos. Por Decreto, em novembro de 1980, o Museu foi desativado e seu acervo recolhido aos cofres do Banco do Estado do Amazonas onde permaneceu por dez anos. Em 30 de novembro de 1990, a Superintendência Cultural do Amazonas nomeou comissão para a reativação do Museu sendo reaberto à visitação no Comando Geral da Policia Militar (atual Palacete Provincial), na Praça Heliodoro Balbi. Em 2000, transferido para o complexo do Centro Cultural Palácio Rio Negro, no prédio da Villa Ninita, o Museu de Numismática passa a integrar o conjunto de bens e serviços culturais como Museu da Imagem e do Som, a Pinacoteca, o Espaço de Referência Cultural e o Cine Teatro Guarany. 2.2.

RELEVÂNCIA HISTÓRICA DO ACERVO E DO MUSEU

Esta coleção pode ser considerada como o maior acervo numismático da Região Norte do Brasil. Entre moedas, cédulas, medalhas, condecorações, acervo bibliográficos, pedras litográficas e documentos históricos, o acervo conta com 18.030 peças (em exposição e na reserva técnica). Só em moedas, o acervo tem 9100 itens. Dentre esses, merece destaque a presença de várias moedas brasileiras e estrangeiras contramarcadas. Além da coleção exposta permanentemente, o museu organiza também algumas exposições numismáticas temporárias. O acervo conta ainda com algumas cédulas e outros itens numismáticos bastante interessantes. Em exposição, existe uma guia de barra de ouro aparentemente cancelada através de duas linhas paralelas e transversais ao texto da guia. A impressionante abrangência do acervo (que vai desde as primeiras moedas na Ásia Menor até moedas diversas do início do Século XX, contando ainda com várias cédulas e outros materiais de grande interesse numismático), reforça a importância dessa coleção. Não se pode esquecer que todo este rico acervo foi formado numa época em que as viagens internacionais eram extremamente raras e difíceis, quando toda


correspondência se dava através de cartas-postais. Uma moeda arrematada em um leilão poderia levar meses para chegar da Europa até Manaus através de uma carta. Daí a importância das constantes viagens internacionais de Bernardo, e necessidade de maior reconhecimento de seus esforços para montagem da coleção. Deve ser ressaltada também a grande importância didática do acervo, que é visitado anualmente por milhares de alunos das escolas de Manaus.

3 AS REPRESENTAÇÕES MITOLÓGICAS NAS MOEDAS ANTIGAS DO MUSEU DE NUMISMÁTICA BERNARDO RAMOS O homem desenvolve diversas formas simbólicas, tanto artísticas quanto linguísticas, expressas pela sua consciência. Podemos afirmar que “os símbolos políticos são definidos como símbolos que funcionam até um ponto significativo na prática do poder” (DICIONÁRIO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, 1987: 1115). A impressão iconográfica das moedas, deixando-se de lado as inscrições revela figuras diversas: animais, vegetais, brasões, objetos, edifícios e emblemas mais ou menos estilizados. Geralmente, estas figuras referem-se ao local de cunhagem e a respectiva autoridade, designada de um modo claro para que os seus contemporâneos identificassem, por uma figura, uma atitude, ou atributos cujos significados hoje muitas vezes nos escapam. O estudioso da moeda se tem preocupado mais com o corpo econômico e social a que ela servia do que com o metal que a produzia e a informava. Estruturalmente este ultrapassava os limites geográficos do poder que a emitia e definia ideologicamente não só um povo, mas também a civilização a que este pertencia. A moeda como fonte histórica tem sido estudada sob o prisma de mercadoria ou objeto de troca. Procurou-se ligá-la com a história social, ou seja, com os reflexos que a mutação monetária produzia na sociedade em relação a salários, custo de vida e os consequentes comportamentos coletivos perante estes. O homem contemporâneo dificilmente poderia ligar a moeda, ou as representações antigas, como um meio de comunicação entre povos distantes. Ao possuidor de uma determinada espécie monetária estranha, esta falava-lhe pelo metal nobre ou não em que era cunhada, pelo tipo e pela legenda. O primeiro informava a


riqueza de um reino e os outros dois elementos diziam-lhes algo sobre a arte, ou seja, o maior ou menor aperfeiçoamento técnico usado no fabrico do numerário circulante, sobre o poder emissor e, sobretudo, a ideologia político-religiosa que lhe dava corpo. É dentro deste último aspecto que pretendemos explorar a fonte numismática.

3.1. ANÁLISE DE ALGUMAS MOEDAS ANTIGAS DO MUSEU De maneira geral, o estudo das moedas, na Antiguidade, se divide em dois estágios: teórico, que analisa os fundamentos da ciência, como a nomenclatura, as bases de classificação e outras generalidades (CLAIN-STEFANELLI, 1984: 121); e histórico e descritivo, que identifica o papel da moeda nas diferentes civilizações do mundo, descrevendo e classificando as mais complexas emissões monetárias (GRIERSON, 1979: 35). O período clássico viu a cunhagem grega alcançar um alto nível de qualidade técnica e estética. As maiores cidades neste período produziram uma variedade de moedas finas de prata e ouro, a maioria com um retrato de seu deus ou deusa ou um herói lendário de um lado e um símbolo da cidade do outro. O uso de inscrições sobre moedas também teve seu início, geralmente, com o nome da cidade emissora. Desde a sua primeira cunhagem, segundo Heródoto, na Lídia, durante o século VII a.C., a moeda passou a ter um valor mais político e religioso que econômico.

Figura 1 - Lydia (domínio Persa), Kroisos, 561-546 aC. Siglo Duplo (10,38 g). Verso: entalhada um leão e touro. Fonte: Catálogo de Moedas antigas e Medievais do Museu de Numismática Bernardo Ramos.

As primeiras moedas se parecem mais com esculturas em miniatura do que as moedas modernas produzidas industrialmente, e ao contrário da Coruja de Atenas, a maioria era usada localmente. Por exemplo, os siglos simples e os siglos duplos de Lydia, onde a cunhagem começou, são encontrados em reservas desenterradas em torno de Lydia, mas não muito além. O mesmo é verdade para as moedas da maioria das


cidades-estados gregas (polis).

Apenas era importante que as pessoas locais

concordassem com o valor dessas moedas. À medida que o comércio e o império ateniense se expandiam, surgiu a necessidade de moedas cuja legitimidade fosse facilmente reconhecida em uma área geográfica cada vez maior, de modo que os comerciantes de Atenas, por exemplo, pudessem facilmente comprar algodão do Egito ou cereais do Mar Negro ou da Itália, e Atenas poderia pagar seus marinheiros e manter sua frota distante. Para Florenzano, a moeda é a imagem reduzida de uma ideia, que tem os seus objetivos ideológico e políticos, não apenas comerciais. Por esse motivo, os grandes depósitos monetários eram feitos em templos, santuários ou locais sagrados. A imagem do reverso (coroa) teria o poder de afastar o mal. Já a moeda falsa teria um poder maligno, sendo assim evitada (FLORENZANO, 2002: 59). As moedas não apenas são instrumentos importantes para estabelecer a datação de documentos e eventos que chegaram até nós sem seu contexto original, como são de grande valia na nossa compreensão das imagens que contêm. Num mundo onde não existiam meios de informações comparáveis aos nossos, o analfabetismo se estendia a numerosas camadas da população. A moeda é um objeto palpável, que abre todas as portas e proporciona bem estar. Nela pode-se contemplar o busto do soberano, enquanto os reversos mostram suas virtudes e a prosperidade da época: Felicitas Temporavm, Restitvtio Orbis, Victoria e Pax Augusta, são slogans, propaganda. (ROLDÁN HERVÁS: 1975, 166). Fazendo parte assim da máquina estatal, onde a numismática entra como um monumento de legitimação do Estado, uma tentativa de manter inalterado o statvs qvo. A moeda, como documento, pode informar sobre os mais variados aspectos de uma sociedade. Tanto político e estatal, como jurídico, religioso, mitológico, estético. Alexandre III, o Grande, é considerado pela maioria dos numismatas o primeiro a cunhar moedas com o seu busto, no anverso (cara). Anteriormente eram representadas divindades ou personagens ligadas à mitologia. Setenta anos após a queda de Atenas na Guerra do Peloponeso, o próprio Alexandre reconheceu a importância de uma moeda uniforme. Ele cunhou grande parte do tesouro persa que capturou em um


único conjunto de tipos de moedas de ouro e prata que foram usados em todo o seu império, desde a Macedônia até a Babilônia e o Egito. No entanto, via, nesse propósito, uma oportunidade de personificar sua forma divinizada, pois “as moedas que ele mandou cunhar no ateliê de Alexandria, todas, as insígnias dessa ‘divinização’: os chifres de Amon, a égide e o diadema, com a efígie de Alexandre substituindo a de Héracles” (MOSSÉ, 2001: 177-178). Dessa descrição podemos tirar três elementos: os chifres deAmon, a égide e o diadema (tiara). O simbolismo dos chifres de Amon está “ligado a Apolo Karneios, a Dionísio. Foi usado por Alexandre, o Grande, que se apropriou do emblema de Amon, o carneiro, a que o Livro dos Mortos egípcio chama de Senhor dos Chifres” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 2009: 234). A égide primeiramente “representa um símbolo de poder do soberano, e, depois, da proteção ou do patrocínio de um personagem importante. É uma arma psicológica, dissuasiva, cujo objetivo é o de inspirar o temor e incitar os mortais a não depositarem sua confiança senão naquele que a merece: o Deus todo-poderoso” (id.: 357). O porte do diadema ou tiara tinha sido privilégio dos grandes reis persas: a tríplice coroa fechada simbolizava o número de seus reinos e a totalidade de seus poderes (id.: 883). O poder não pode ser apreendido pelo estudo do conflito, da luta e da resistência, a não ser em suas manifestações mais restritas. O poder não é característico de uma classe ou de uma elite dominante, nem pode ser atribuído a uma delas. Para Foucault, o poder é uma estratégia atribuída às funções. O poder não se origina nem na política, nem na economia, e não é ali que se encontram suas bases. Ele existe como uma rede infinitamente complexa de micropoderes, de relações de poder que permeiam todos os aspectos sociais. O poder não só reprime, mas também cria. Entre todos esses aspectos, o mais polêmico é a constatação de que o poder cria a verdade e, portanto, a sua própria legitimação. Cabe aos historiadores identificar essa produção da verdade como uma função do poder (HUNT, 1995: 46). A mais famosa dentre as moedas antigas, o Tetradrachma de prata (valendo 4 dracmas) de Atenas, pode ser considerado o primeiro Euro do mundo. Ele carregava a


imagem de Athena de um lado e, por outro lado, a coruja com quem Athena estava associada.

Figura 2 - Tetradrachma de prata com cabeça de Athena; E coruja, Attica (Atenas), c.393-339 aC. . Fonte: Catálogo de Moedas antigas e Medievais do Museu de Numismática Bernardo Ramos.

As "corujas" de Atenas aparecem nas comédias de Aristófanes no final do século 5 aC, e sua presença em tesouros descobertos ao redor do Mediterrâneo, da Sicília ao Egito, testemunham o enorme alcance comercial e militar de Atenas durante esse período. As corujas estavam entre as primeiras moedas para ter imagens em ambos os lados e tais símbolos iconográficos representavam a polis ateniense, com um raminho de azeitona e uma lua crescente. Seu significado é celebrado em moedas contemporâneas de euro cunhadas na Grécia, que tem uma réplica da coruja no reverso. No meu trabalho como estagiário, onde catalogava e classificava a maior parte destas moedas, percebi que muito teve a ver com os problemas de superação dos custos de fazer transações. As corujas de Atenas habilitaram comerciantes e exércitos a superar os maiores custos de transação de seu tempo. Mas eles eram muito mais do que isso. Nas palavras de Burton Y. Berry: "Os gregos de há muito tempo viram em suas moedas mais do que um meio de troca. Eles eram isso, mas também eram considerados trabalhos de arte em miniatura". Ele continua dizendo que hoje não são apenas obras de arte, mas também "Testemunhos de episódios nas vidas de democracias e reinos". A Ática( ou Atenas) foi uma das regiões mais importantes do mundo grego antigo. Athena, deusa da sabedoria, era sua divindade patrona. Atenas foi concedida a Athena por Zeus após uma competição para determinar quem seria o protetor da cidade. Athena e Poseidon competiram para as afeições dos gregos, cada uma fornecendo um presente: Poseidon deu um Cavalo e Athena deram a oliveira. Os gregos preferiram seu


presente e nomeou a cidade depois dela. O ramo de oliveira representa a prosperidade econômica de Atenas e simbolizava a vitória. A única mudança importante para o tipo de Corinto em toda a sua história foi a adição do chefe de Athena ao contrário em torno de 515 aC (Kraay, página 82), embora o design do Pegasus tenha evoluído artisticamente. Isto é ilustrado pela comparação dos estatutos do século 6 acima desta moeda do século 4. Uma característica incomum desta moeda é as duas asas do Pegasus no anverso.

Figura 3 - CORINTIA, Corinto. Por volta de 350-338 aC. Silver Stater (6,06 g) com a cabeça de Athena usando o capacete de Corinto; Pegasus voando, Acarnania, c.250-167 aC. Fonte: Catálogo de Moedas antigas e Medievais do Museu de Numismática Bernardo Ramos.

Na antiguidade, Corintia era uma cidade-estado importante, localizada no Istmo de Corinto, o estreito trecho de terra que une o Peloponeso ao continente da Grécia. De acordo com a mitologia, a cidade foi fundada por Corinthos, descendente do deus Helios (o sol). Uma característica da cunhagem coríntia é a representação de Pegasus. Na mitologia grega, Pegasus era um cavalo alado nascido da cabeça cortada da Gorgon Medusa quando estava grávida de Poseidon. Pegasus foi capturado e domesticado em Corinto por Bellerophonte. Athena no capacete do Corinthia também aparece na cunhagem de Corinto. Corinto ocupou uma localização estratégica perto do Istmo que formou o eixo do comércio Norte-Sul, entre o Peloponeso e a Grécia do Norte, bem como o comércio entre o leste e o oeste, entre a Jônia e a Magna Grécia (sul da Itália e da Sicília). Assim, não é surpreendente que ele desenvolva uma das primeiras e mais importantes amoedações dos períodos clássico.


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CONSIDERAÇÕES FINAIS A Numismática procura colecionar medalhas e moedas, no entanto, não

podemos esquecer que a numismática deve ser definida como uma disciplina científica, pois através dela podem ser estudados muitos aspectos de uma determinada sociedade, como registros de crenças religiosas, eventos sociais e culturais, meios de subsistência econômica e relações entre cidades-estados e lutas políticas. O acervo do Museu de Numismática, como um todo, fornece rica fonte de pesquisas para a exploração de questões em torno da questão do porquê do passado , possibilitando o desenvolvimento de formas inovadoras de fazer as moedas e as ideias e imagens representadas nelas, relevantes para pesquisadores acadêmicos, como também aos mais curiosos que sentem-se atraídos por esta parcela da História que está contida nas moedas. Cabe a nós, historiadores e profissionais que as utilizam como fonte históricas, desenvolver atividades de engajamento curricular estão sendo desenvolvidas em áreas como a própria antiguidade clássica, arqueologia, educação, história e história da arte, etc.

Um aspecto muito importante desta coleção é o de que existem registros bastante precisos desde a data de sua formação. Com essas informações, e a partir de uma análise das moedas antigas, como foi proposto neste artigo, que existem no acervo, é possível se fazer uma avaliação bastante crítica e precisa sobre a autenticidade, datando, de forma precisa, eventuais marcações e procedência da cunhagem arcaica. De fato se trata de uma fonte de informações preciosa e única para um tema sempre tão controverso. A classificação detalhada de todas as peças, principalmente nas moedas pertencentes à antiguidade clássica e medievais, nos forneceu material e surpresas agradáveis ao longo dos anos que permaneci catalogando o acervo, durante meu estágio.

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REFERÊNCIAS


BITTENCOURT, Agnello. Dicionário Amazonense de Biografias: Vultos do Passado. Rio de Janeiro: Conquista, 1973. BLOCH, Marc. Apologia da História ou o ofício do historiador. Tradução de André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. BLOCH, Raymond; COUSIN, Jean. Roma e o seu destino. Rio de Janeiro: Cosmos, 1964. CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand, 1990. CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. 23. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009. CLAIN-STEFANELLII, Elvira E. Numismatic Bibliography. Monaco: Battenberg, 1984. DICIONÁRIO DE CIÊNCIAS SOCIAIS. Fundação Getúlio Vargas, Instituto de Documentação. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1987.

MOSSÉ, Claude. Alexandre, o Grande. Tradução: Anamaria Skinner. São Paulo: Estação Liberdade, 2004.

HUNT, Lynn. A Nova História Cultural. Tradução de Jefferson Luís Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1992. FLORENZANO, Maria Beatriz B. “O outro lado da moeda” na Grécia Antiga. In: O OUTRO LADO DA MOEDA. Livro do Seminário Internacional. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2001. JENKINS, Keith. A história repensada. Tradução Mário Vilela. Revisão Técnica Margareth Rago. São Paulo: Contexto, 2001.

Mitologia e cultura material nas moedas antigas do museu de numismática bernado ramos  

Autor: Eriksen Amaral de Sousa

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