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INTRIGA Mateus da Silva Bento1

Prólogo

- O Serviço de Inteligência do Estado afirmou em nota que está investigando o caso. Também disse que uma agente conhecida por resolver alguns dos crimes mais complexos já ocorridos no Amazonas foi designada para o caso do menino Caiã, assim como está sendo chamado o crime que gerou uma sensação de insegurança entre os alunos do Centro de Educação em Tempo Integral no qual a vítima estudava. – A repórter fala ao vivo para o jornal televisivo matinal. Ela está na Praça do Congresso, situada entre as ruas Ramos Ferreira e Monsenhor Coutinho, em Manaus. Ao fundo, a clássica fachada da escola pública famosa no Amazonas por seus mais de cem anos de existência. A escadaria na frente da escola onde alunos costumam sentar-se está vazia. O dia é de luto. - Imagine como estão os pais do garoto agora. – Uma jovem telespectadora sentada próxima ao balcão de uma panificadora puxa conversa com um senhor que aparenta ter sessenta anos de idade. Ele acabara de chegar e pedira um copo de café amargo. A moça aguarda a resposta, porém recebe apenas um olhar abatido, profundo. Ela fica sem entender. - Está tudo bem, Sr Carlos? – A atendente pergunta preocupada enquanto serve o cliente. Ele apenas acena a cabeça que sim. – Sinto muito pelo senhor. A jovem ao lado do senhor termina o café e se dirige à recepção para pagar a conta. - Você sabe quem é aquele senhor sentado ali? – Ela pergunta à atendente, apontando discretamente para o Sr Carlos. - Ele é o pai de Caiã. – A atendente responde em tom baixo, disfarçado. A resposta provoca uma reação de surpresa na cliente, que decide dar os pêsames ao senhor. Mateus Bento é finalista do curso de Relações Públicas na Universidade Federal do Amazonas, autor de 14 artigos publicados e apresentados em eventos científicos regionais e nacionais e 2 artigos aceitos para publicação na Revista Temática (UFPB) e Cadernos de Comunicação (UFSM).


- Sinto muito pela sua perda. – A jovem lamenta a morte de Caiã, pondo a mão sobre o ombro do senhor. - Obrigado. – Sr Carlos agradece, virando-se para a jovem.

Um carro preto atravessa a rua em alta velocidade, chamando a atenção dos clientes da panificadora. Sr Carlos acompanha o carro com os olhos. - Em breve, voltamos com mais notícias sobre o caso do menino Caiã. Fique com a gente. – A voz do locutor é transmitida através do rádio do carro. O semáforo fica vermelho. Uma mão feminina desliga o rádio e arruma uma foto que estava prestes a cair do painel do carro. O celular da mulher toca. - Estou a caminho. – A motorista fala com tom sério ao celular, olhando para a foto que tem um grupo de crianças felizes. – Não se preocupe. Chamarei um agente que tem muita experiência em casos como este. Acho que você já sabe quem é. – A mulher desliga o celular. O semáforo fica verde.

Chamada inesperada

Desperto na escuridão do quarto com o ruído trêmulo do celular. Eram por volta das três horas da manhã quando recebi o telefonema de uma mulher cuja voz me pareceu conhecida. Atendo o celular, ainda coçando os olhos: - Alô. Quem tem a audácia de me ligar a essa hora da noite? - Oi, preciso de sua ajuda! Aconteceu um fato terrível... Uma criança morreu, foi assassinada... Não sei dizer ao certo o que ocorreu. – a voz trêmula do outro lado da linha era bastante familiar. - Desculpe, mas com quem estou falando? – questionei curioso. Sentei-me na cama ainda cambaleando por causa do sono. Acendi o abajur e a súbita iluminação me fez fechar os olhos com força. - Não se lembra de mim? Sou a agente G.


Neste momento, caiu a ficha. Percebi que o que acontecera não poderia ser algo bom. A última vez que necessitei da ajuda da agente foi em um assassinato meticuloso. Um idoso morrera naturalmente, segundo o médico da família. Mentira encenada com tanta esperteza que quase me deixei enganar. No entanto, com o apoio da Srta G pude descobrir os autores do crime: o próprio médico e o filho do falecido. Os conhecimentos do filho sobre a vida particular do então proprietário de uma das empresas mais lucrativas no ramo de eletrodomésticos no Amazonas, aliados à perícia do médico para esconder provas que ligassem os culpados à morte provocada por uma planta venenosa pouco conhecida, dificultaram a resolução do caso. Pensei que esta seria a hora de ajudar a agente G. Uma retribuição de um amigo pela sugestão da viagem de férias à Inglaterra. Srta. G suspirou e lançou a interrogação em tom de expectativa: - Você virá? - Para onde? - Ora onde!? Para Manaus. Há um caso que precisa ser resolvido. – O tom apreensivo da agente tornou-se confiante. - Vou sim, mas antes preciso saber o que realmente aconteceu. - Conto os detalhes assim que você chegar. Por telefone não posso. Vou aguardá-lo. - Tudo bem. – A resposta dela era óbvia para mim. Dificilmente se comenta sobre os casos por telefone. Afinal, nunca se sabe quando seu celular está grampeado. Comprarei a passagem o mais rápido possível. – Imaginei o trabalho necessário para adquirir a passagem aérea. Ainda nem tirei a carteira do bolso do terno. O cartão de crédito deve estar lá. - Não se preocupe, já providenciei isso. Um contato estará o esperando no aeroporto às seis da manhã. - Você é incrível. - Sorri olhando para o pequeno abajur acesso sob a mesa à direita da cama. – agora posso cochilar por algumas horas? -Sim – A agente não disfarça a risada estridente, consequência do elogio. - Até mais. - Até.


Desligo o celular e o ponho sobre a mesa de madeira que brilhava devido ao excesso de verniz. Permaneço sentado e por três ou quatro minutos reflito sobre o caso que chegara aos meus ouvidos através de Srta G. Não é uma situação agradável. Entendo que minhas férias chegaram ao fim de maneira abrupta. Estava tudo dentro do planejado. Na manhã seguinte, pretendia realizar uma visita ao Big Ben. Infelizmente, as coisas boas costumam durar pouco. Contudo, acreditava que as férias interrompidas seriam por uma causa importante. Volto a deitar. Fecho os olhos e penso no que pode ter acontecido e no que ainda irá ocorrer neste novo caso. Tento relaxar, mas as palavras da Srta G não saem da minha mente. Uma criança pode ter sido assassinada e preciso agir de forma cautelosa, pois os familiares ainda devem estar abalados. Isso, sem dúvida, os torna mais suscetíveis ao estresse após a morte do ente querido. Não posso deixá-los ainda mais indignados com uma aproximação brusca.

De volta a Manaus

Amanhece rapidamente. Os raios solares começam a entrar no apartamento através das fendas na janela. A movimentação dos automóveis nas ruas se intensifica. Nesse momento, desperto do sono e visualizo a partir do relógio antigo, rústico, posto na parede quadriculada de madeira, que cochilei por uma hora e meia. Pareceu-me que fora em um piscar de olhos. De todo modo, estava atrasado. Pulo da cama procurando uma roupa apresentável. Encontro um terno cinza e, talvez, a melhor vestimenta do guarda-roupa de duas portas. Corro arrumando-me e vendo para o relógio que parece acelerar com a minha pressa. Desço as escadas da hospedaria da forma mais silenciosa possível. Mesmo assim, uma senhora nota minha presença e sorri levemente. Ela fala em tom baixo: - Bonito terno rapaz. Vai a um encontro? Não poderia mencionar o caso em que me metera. Assenti: - Sim senhora. Obrigado. - Moça de sorte, adeus. Não pude conter o sorriso enquanto a simpática senhora recebia seu desjejum na porta. Imaginei as longas conversas que teria com aquela senhora. Desde pequeno,


ouço muitas histórias contadas por familiares e pessoas mais velhas. Algumas parecem roteiros de filmes de ficção ou fantasia; outras são verdadeiras lições que precisamos levar para a vida. Ao sair do hotel parei o primeiro táxi que vi. Assim que entro o motorista pergunta, em inglês: - Vai para onde, meu jovem? - Aeroporto, por favor. - Viagem a negócios, não é? - Sim. Grandes negócios. – Respondo reduzindo o tom de voz. O motorista articula na maior parte do percurso, apontando os pontos turísticos e intrigantes da cidade. Ele trabalha há bastante tempo para conhecer tão bem o lado obscuro de uma bela vista. Lembro-me dele apontar para uma viela repleta de pessoas, vendedores ambulantes e pequenos estabelecimentos comerciais, comentando que à noite aquele espaço se torna o palco para usuários de drogas, meretrizes e amantes de violência contra pessoas que ousem passar pela viela. -É ainda pior saber que muitos desses indivíduos que se esgueiram pela noite são crianças. – O motorista comenta olhando-me pelo retrovisor. Ele passa a ter um semblante abatido. Realmente, é difícil aceitar essa situação. Sabemos que é um fato, porém ou não podemos fazer muita coisa ou não agimos simplesmente por falta de vontade. Volto a pensar neste caso, cuja vítima é uma criança. Finalmente chego ao aeroporto. Faltavam oito minutos para as seis da manhã. Pensei que me atrasaria, porém tudo ocorreu conforme o planejado. Um homem de aproximadamente trinta e cinco anos, vestindo terno preto e gravata azul marinho, vem ao meu encontro. Cumprimento-o amistosamente. - Srta. G o enviou? – Pergunto para tirar a dúvida. - Sim. Partiremos em breve num voo fretado. Acompanharei você até Manaus. - Certo. Então, vamos! – Exclamo. O agente consente e parte à frente. Ao contrário do motorista de táxi, o agente enviado por Srta G conversa pouco. É um homem sério, com feição já desgastada pelas noites sem sono. Notam-se as olheiras dele a uma distância considerável.


Já no interior da aeronave, o agente retira do bolso esquerdo do terno um envelope marrom, lacrado somente por uma pequena fita preta. Ele me oferece o envelope e logo questiono curioso: - O que é? – Viro o envelope à procura de algo escrito. - Não sei. Agente G pediu que lhe entregasse. Não comentou mais nada a respeito. - Deve ser algo importante. – Mantenho os olhos fixos no envelope. - Vou ao banheiro, com licença. – O agente sente a tensão que se segue. - Tudo bem. Quando ele se retira, abro ligeiramente o envelope. São fotos de um garoto de faixa etária entre treze e dezesseis anos. Numa foto, ele está sorrindo, provavelmente com familiares de sua idade ou colegas de classe. Viro a fotografia e leio uma frase escrita à caneta preta - aniversário de Caiã. Caiã deve ser o nome da vítima do crime, penso. Esse só pode ser o motivo de ter recebido o envelope. Guardo as fotos no mesmo lugar de onde as tirara e percebo os passos de alguém no corredor da aeronave. É o agente vindo sentar-se ao meu lado. Ele diz satisfeito: - Chegaremos logo. Estamos em voo direto a Manaus. Consinto balançando a cabeça. Vejo pela janela arredondada e pequena à minha esquerda, durante alguns segundos, o oceano Atlântico. Talvez seja o momento para cochilar. Cerro os olhos lentamente e penso no que espera por mim. De repente, o agente me acorda exclamando: - Estamos novamente em Manaus. Agora retornarei à Europa para outros assuntos. Até mais. - Obrigado. Até mais. – Digo sem acreditar que passei um bom tempo dormindo como uma criança. Deixara-me vencer pelo sono. Olhei novamente pela janela e o cenário completamente azulado do oceano dera lugar à mistura de cores no aeroporto. A cor verde da área de preservação ambiental nas redondezas, as cores branca e cinza que revestem a enorme estrutura que comporta o aeroporto e a cor preta do asfalto que cobre a pista de pouso. O azul estava agora apenas na pintura de algumas aeronaves que aguardavam o embarque dos passageiros e no céu límpido, com poucas nuvens. O tempo estava ótimo.


Encontro: Srta. G expõe os fatos

Desço a escada rolante no Aeroporto Internacional Eduardo Gomes. Srta G aguarda-me sentada num banco no saguão do aeroporto com o olhar sério e pernas cruzadas, usando os óculos que afinam mais o seu rosto. Ela estava com uma vestimenta típica de uma executiva. Penso que poderia ser uma distração do que ela realmente era: uma agente do Serviço de Inteligência do Estado. Ela me nota caminhando em sua direção. Procuro algo em minha mente para falar, um cumprimento inicial. A distância entre nós diminui até que a encontro. Inicio com um leve sorriso: - Olá. Como estão as férias? - Nada boas. – Percebo a seriedade do problema. Esse não seria o melhor momento para piadas. - É algo relacionado à Caiã, certo?- Pergunto já sabendo a resposta. - Sim. Caiã foi vítima de um crime o qual ainda não descobrimos o culpado. Para isso você está aqui. - Compreendo perfeitamente, mas terei sua companhia? O apoio de sua pessoa ajuda bastante. Além do mais, é difícil acreditar em certas pessoas. -Sim. Conte comigo!- Ela demonstra mais animosidade. Talvez ela tenha sorrido, mesmo se fora um curto mostrar de dentes. A atitude me fez entender que a agente ficara mais à vontade. Ela continua: - Quanto aos fatos, o que sei inicialmente é que um garoto de nome Caiã morreu no dia oito de Julho. O local da fatalidade é a escola em que ele estudava: um centro de educação em tempo integral. - Era um sábado. As escolas não costumam ter aulas aos sábados. – Intervi curioso. Nas escolas, as aulas são de segunda a sexta. É raro ter aulas nos finais de semana, a não ser que ocorra algo de importante na semana que exija a reposição das aulas aos sábados. - Mas neste sábado, por algum motivo, a escola funcionou. – A agente empurrou os óculos para mais próximo de seus olhos.


- Interessante. – Pensei que precisaríamos descobrir o porquê da aula no fim de semana. Talvez não fosse coincidência a morte de Caiã ter acontecido justamente nesse dia. Srta G franziu a testa como em um gesto de estar procurando um fato em sua memória. Ela pôs o dedo sobre os lábios e falou serenamente: - O corpo de Caiã foi encontrado no corredor, segundo depoimento de funcionários da escola. Ele tinha 15 anos. Era uma criança. - Srta G eleva o tom de voz. Sinto que ela fica nervosa. – Por que motivo alguém o causaria mal a ponto de matá-lo? - Devemos levar em consideração qualquer hipótese. – Falo em seguida, sem notar que ela fizera uma pergunta. Ela concorda acenando a cabeça. Prossigo: - O que os médicos comentaram? - A autopsia sairá em breve. Enquanto isso queira tomar o café da manhã. Há uns biscoitos deliciosos o esperando. O carro nos aguarda em frente ao aeroporto. - Biscoitos. – sorri.

Neste momento, tenho um devaneio. Mais de cinco anos como companheiros no Serviço de Inteligência do Estado permitiram que eu conhecesse a fundo os anseios da Srta G, ao mesmo tempo em que ela descobriu o meu gosto peculiar por biscoitos de chocolate e um copo de leite bem forte. Por alguma razão, essa combinação matinal me lembrava da infância e me convidava a ser criança novamente. Acredito que a imaginação é essencial para um investigador. Afinal, trabalhamos com especulação. As provas, quando não imaginamos suas ligações com o caso, tornam-se apenas objetos sem vida. Por isso, ter a imaginação de uma criança ajuda. - Vamos. O aeroporto está ficando cheio. –Srta G começa a caminhar para a saída do aeroporto. - Tudo bem. – Acelero os passos. O devaneio cessa e um fato me vem à mente. Certa vez, Srta G viu-se cercada por jornalistas. De modo algum ela gostou. Os jornalistas costumam questionar demais para arrancar uma informação negativa sobre alguém, principalmente de agentes de Estado. O aeroporto é um ótimo lugar para um


fotógrafo se camuflar entre as pessoas e registrar um momento que irá distorcer e pôr em uma manchete de jornal. Saímos do aeroporto e entramos no carro de cor escura. Ainda estava amanhecendo e o trânsito não era o caos da hora do rush. Enquanto o carro seguia na Avenida Constantino Nery, observei a Arena da Amazônia pela janela à direita. De fato, é um estádio bonito, cujo projeto arquitetônico remete a um cesto de palha indígena, revestido por uma membrana na cor branca que reduz a sua temperatura interna. Dentro desse cesto indígena, os assentos representam frutas tropicais típicas da região amazônica, distribuídos em sete cores diferentes. Chegamos sem demora à central da agência: um prédio branco com vidraças na frente. Parecia o prédio da Receita Federal, ou algo do tipo. Srta G entrou primeiro. Não havia curiosidade por parte de ninguém. Era como se não estivéssemos naquele lugar. Entrei depois visualizando os detalhes: agentes em frente aos computadores, alternando com os telefones em meio a papeis e jornais. Raramente podia se ter silêncio na agência. O movimento era intenso. Passamos pelo corredor. Alguns senhores pararam de conversar e cumprimentaram-nos com a mão direita levantada e sorrisos tímidos. Também acenei com a mão direita e prossegui. Chegamos a um escritório, onde havia biscoitos e uma xícara de leite arrumada em cima de uma bandeja dourada. Não resisti e sentei-me na cadeira posta à frente da mesa da Srta G. Desabotoei o terno e disse satisfeito: - Permita-me agente G. Estou realmente com fome. E estes biscoitos estão irresistíveis. - Vá em frente. –Srta G fala com um sorriso bem destacado no rosto. Peguei a xícara de leite. Tomei um gole e festejei mentalmente. Muito bom. Os biscoitos também merecem consideração. Enquanto saboreava o desjejum, Srta G recebe a ligação de alguém. Ela parece atenciosa e deduzo que seja algum fato relacionado ao caso. Ouço-a dizer: - Sim, iremos urgentemente. É de extrema importância sabermos a causa da morte.


A morte citada só poderia ser de Caiã. Percebo que vamos ter que deixar o escritório. Logo, acelero comendo. Não poderia desperdiçar biscoitos tão gostosos. Srta G permanece com os ouvidos no telefone, concordando com algo. Antes de desligar o telefone, ela diz: - Sim, aguarde-nos Dr. Thomas. E vira-se para mim, esperando eu terminar de mastigar o último biscoito. Terminada a ação, Srta G olha-me e diz: - Vamos ao IML. O Dr. Thomas tem a causa da morte. A autopsia não foi esclarecida a ninguém. Seremos os primeiros a saber. Balancei a cabeça, sério. - Ótimo, um ponto a nosso favor. Vamos ao IML.

Dr. Thomas esclarece a morte

Chegamos ao IML. Eram aproximadamente oito horas e quarenta e cinco minutos da manhã. Pude ter certeza olhando para meu relógio de pulso. Srta G foi quem saiu primeiro do carro. Acompanhei-a com certo temor. O Instituto Médico Legal é um lugar assustadoramente mórbido. Na frente, vi um grupo de dez pessoas chorando. Entre elas, algumas estavam soluçando constantemente. Passamos diretamente pela entrada. Um homem olhou-nos vagamente. Acenei a cabeça e disse: - Bom dia, senhor. Ele não disse nada. Somente repreendeu-me com outro aceno de cabeça. Srta G virou-se para mim e disse com tom grave: - Vamos. O Dr. Thomas não tem muito tempo. Neste momento, apressei o passo. Viramos à direita e senti um arrepio com a visão: um longo corredor escuro. Algumas lâmpadas no fim do corredor piscavam a cada dois segundos. As paredes de gesso contribuíam para o sentimento de solidão; misturado com um frio de hospital. Você deseja rapidamente dar meia volta e correr o mais depressa possível. O IML é um dos piores ambientes em que se pode estar. Srta G começa: - Esse lugar dá calafrios. –ela põe os braços no corpo, abraçando-se.


- Está certa nisso. –comentei olhando fixo para ela. Após passarmos pelo corredor alucinante, Srta G bate duas vezes na porta branca que possui uma placa com os dizeres “Dr. L. Thomas” e entra na sala. Adentro em seguida e vejo um homem, aparentando 50 anos de idade, com barba por fazer e cabelos grisalhos. Já quase careca. Srta G me apresenta: - Doutor Thomas, este é o agente encarregado do caso. Dr. Thomas olha-me e diz, saudosamente: - Muito prazer em conhecê-lo. Balancei a cabeça positivamente e disse: - Creio que o Senhor tem algo a dizer sobre a morte do garoto Caiã. Precisamos de cada detalhe. - Sim, tenho algo a dizer-lhes. Mas antes, sentem-se. Eu e Srta G sentamo-nos nas cadeiras em frente à mesa em que o Dr. Thomas estava. Ele abriu uma gaveta na mesa e retirou um laudo médico. Ofereceu-me o papel e começou a falar: - A morte de Caiã intriga-me bastante. Parece que alguém tentou enforcá-lo com as mãos. Há sinais não muito claros no pescoço. - Quanto ao exame toxicológico?-questionei. - Bom lembrar. O exame apontou o uso de uma droga, um sonífero para ser mais exato. Pode ter sido overdose. Os garotos de hoje usam coisas ruins demais para o corpo. - Momento da morte?-Srta G pergunta arrumando-se na cadeira. - Entre nove e dez horas da manhã. O laudo contém mais informações que podem ser úteis. - Sim. -levantei-me. – obrigado por sua ajuda Dr. Thomas. - Obrigada Doutor. –Srta G levantou-se em seguida, ajeitando os óculos. –se tiver mais algo a dizer... - É só o que tenho a dizer. –o médico levantou a mão como se estivesse dando sua palavra. É só isso. Prometo. Então, deu-nos um cumprimento de adeus. Fixei-me nos olhos azuis do Dr. Thomas e notei uma gota de suor começando a formar-se em sua testa calva.


Saímos da sala e retornamos ao carro pelo mesmo caminho em que fomos. O corredor não parecia mais sombrio. Talvez porque fiquei a maior parte do tempo pensando na atitude do Dr. Thomas. Viro-me para a Srta. G e pergunto para ver se ela percebera algo fora do comum: - Acha que o Dr. Thomas tem mais coisa a dizer do que realmente disse? Ela continua com o rosto imóvel para frente. - Sim, mas você certamente já sabe disso. –Srta G olha-me de lado. - Mas queria saber de você. É bom ouvir o que uma agente de Estado tem a dizer. – Às vezes, provoco a agente G propositalmente. Saiba ela ou não, isso a faz pensar mais nos detalhes que compõem um caso. Com a nossa experiência na resolução de inúmeros casos sucessivos, percebi o aumento da atenção dela em relação aos detalhes. - Se quer ouvir, percebi que o Dr. Thomas estava tenso. Até certo ponto, nervoso. - Verdade. – Concordei. Olhei para o relógio de cor preta no meu pulso esquerdo e os ponteiros marcavam nove horas e treze minutos da manhã. Ao sair do IML, observei à esquerda as mesmas mulheres que havia visto na entrada. Já não estavam tão deprimidas. Entramos no carro e fomos à agência. No caminho, conversamos pouco. Apenas havia uma rápida troca de olhares. Lembro-me de ter visto através da janela escura um grupo de crianças num ônibus escolar. Comentei com a agente G. -Bem que Caiã poderia estar com aqueles garotos. -É, mas a verdade é que não está. Senti a melancolia nas palavras da agente. Acredito que sua essência materna havia sido despertada. Toda mulher sabe o que é a morte de um menino de 15 anos: uma mágoa que não é facilmente curada. E Srta G também sentira isso. Após doze minutos no trânsito, chegamos à agência e caminhamos diretamente para o escritório de Srta G. Antes, um senhor com cabelos bem penteados e um sorriso simpático parou-nos para saber de algo. - Como está o caso do menino Caiã?- O homem perguntou.


- Estamos progredindo. –Srta G responde com tom de voz de alguém que não está com vontade de conversar. - Boa sorte a vocês!- O agente exclama. Entendo que o senhor fora sincero em suas palavras. E continuamos rumo ao escritório. Ao chegar, Srta G entra na frente e eu fecho a porta para nos dar mais privacidade. Sento-me e pergunto: - Quem é aquele senhor? - É o agente Tom. Já era para estar aposentado, mas continua aqui, farejando as coisas. - Ele gosta do que faz, não é?- Sorri. - Parece que sim. – Ela responde sem alterar o semblante sério. Pensei no que o agente Tom poderia ser útil. Talvez ajudasse a encontrar pistas para o caso do menino Caiã. A experiência dele reduziria suspeitas de alguém a nosso respeito. Parei para ver a agente G revirando papeis em cima de sua mesa. Ela se levantou e abriu as persianas da janela vidrada. Olhou ligeiramente para mim e suspirou apreensiva. Ajeitou os óculos como de hábito e sentou-se novamente. - Está tudo bem? – Questionei. Antes da resposta da agente, uma moça com cabelos loiros entra subitamente no escritório e rompe o silêncio. - Agente G, desculpe, mas tenho notícias da escola para você. – A moça está empolgada. Ela percebe minha presença. – Ah, olá agente... - Que notícias?- Srta. G interrompe a moça, ansiosa. - Ligaram informando que hoje a escola estará à disposição para o caso. - A que horas? – Agente G prossegue, agora menos ansiosa. - Quando quiser. - Certo! Obrigada. –Srta G disse com um leve sorriso de agradecimento. A outra agente retribui o sorriso, vira-se e se retira do escritório. Olho para meu relógio e eram onze horas e vinte e um minutos. Srta. G questiona: - Você irá comigo? - Logo após o almoço. – Respondo levantando-me e abotoando o terno. - Sim. – Ela concorda. - Vamos almoçar.


Cena do crime: funcionários são interrogados

Guardei o laudo médico do Dr. Thomas no bolso esquerdo do terno. Fomos a pé ao restaurante na esquina de uma das mais movimentadas ruas da cidade, próximo à agência. Recepcionaram-nos de uma maneira bem simpática. Lembro-me de uma senhora com o sorriso no rosto dando boas vindas. Era um restaurante self-service, o que me agradou bastante. Servimo-nos e sentamos em uma mesa com dois lugares no canto pouco chamativo. Tive que tirar o terno e pôr no encosto da cadeira. Manaus é muito conhecida pelas temperaturas elevadas. Neste dia, o tempo estava ameno devido à chuva do dia anterior. Ao terminarmos a refeição, Srta G pediu a uma mulher para que trouxesse suco. A mulher perguntou: - Suco de quê? Srta G olhou-me insinuando que eu teria a reposta. - Uva. – Exclamei. Srta G volta-se para a mulher e diz: - Traga-nos o suco de uva, por favor. A mulher retirou-se e voltou rapidamente com dois copos de suco. Enquanto tomávamos, pensei na importância que seria investigar a escola do menino Caiã e interrogar os funcionários. Possivelmente, eles teriam algo a dizer. Terminamos o suco e descontraímos-nos falando das férias interrompidas com o surgimento do caso. Estava realmente bem em Londres e o meu desejo era permanecer lá por mais tempo. Quem sabe conversaria mais com aquela senhora hospedada no quarto ao lado do meu. Finalmente, decidimos sair do restaurante e ir à escola de Caiã. Parei o primeiro táxi que vi e pedi ao motorista para que nos levasse à escola de tempo integral, no centro. O motorista olhou-nos pelo espelho retrovisor e comentou:


- Parece que mataram um menino lá. O jornal está destacando a morte ao uso de droga. - Os jornais distorcem os fatos. – Falei em tom grave. Srta. G permaneceu em silêncio até a entrada da escola. Ela disse a um segurança: - Com licença, somos os agentes encarregados do caso do menino Caiã. - Sim, a diretora Morel disse que viriam. – O segurança fala sério. E entramos na escola de aparência clássica. Era grande e de dois pisos. Na porta da frente, notava-se uma escada descendo para os corredores da direita e esquerda. Vasos com plantas bem regadas e quadros com paisagens nas paredes cor de marfim ornamentavam o lugar. Viramos à direita e caminhamos até encontrarmos a diretora Morel, em pé em frente a um quadro informativo. Ela devia ter 43 anos, 1,60 metros de altura e olhos castanho-escuros que se destacavam diante dos cabelos ruivos. Após saudações e apertos de mãos a diretora Morel fala: - Os funcionários estão no auditório. Eles podem ajudá-los em alguma coisa. - Sim. –falei seriamente. – Creio que a senhora também tem algo a nos dizer. - Sim, direi o que sei. –a Sra. Morel pôs a mão direita nos cabelos ruivos. – Vamos à minha sala. Seguimos a diretora até a última sala do corredor. Ao entrar, visualizei armários e dois pequenos quadros com fotos da Sra. Morel sorrindo, rodeada de alunos. Ao sentarmos, Srta G começa: - Então Sra. Morel, o que sabe sobre Caiã? - Era um bom aluno. Não tinha problemas. – A diretora fala calmamente. Não demonstra nervosismo. - Ele já esteve na diretoria por algum motivo? – Perguntei. - Não. Espere. –Sra. Morel se esforça para lembrar. – Uma vez ele veio aqui, falando que um colega de classe o estava perturbando. - E quem perturbaria Caiã?- Srta G questiona, curiosa. -Um menino chamado... Ben. Isso, o nome dele é Benjamim. - E quando foi que ocorreu o desentendimento?- Questionei.


- Há duas semanas. Eu chamei Ben e ele fez a promessa de que não implicaria mais com Caiã. - E quanto ao sábado Sra. Morel? –eu queria saber por que a escola funcionou naquele dia. –Poderia me explicar o motivo de ter havido aula? - Sim. A escola foi dedetizada na quinta-feira e precisávamos repor a aula. O que foi possível no sábado. Srta G olhou-me e eu finalizei o interrogatório com a diretora Morel: - Obrigado, Sra. Morel. Agora vamos interrogar os funcionários da escola. - Sim, espero ter ajudado. - Ajudou muito. –Srta G falou satisfeita. Saímos da diretoria e a Sra. Morel apontou para a porta que dava acesso ao auditório, onde estavam os funcionários. Fomos e, ao abrir a porta de madeira rústica, as pessoas que estavam conversando se calaram. Fixei-me nos rostos pálidos. Havia duas mulheres e dois homens. Comecei o interrogatório de forma casual: - Bom dia. - Bom dia. – Eles responderam em um coro. Srta G apenas acenou a cabeça e empurrou os óculos para mais perto dos olhos castanho-escuros. Continuei com as perguntas de rotina para deixá-los mais a vontade. Anotei o nome de cada um e a função que exerciam na escola. Claudia e Ana são as zeladoras. Claudia é mais alta, de rosto fino e amigável. Ana não é muito diferente. Se usassem uma touca escondendo os cabelos, facilmente seriam confundidas à distância. John e Robert são os que auxiliam na cozinha, tendo mais outros funcionários, que não se encontravam no momento da morte. John é mais forte e baixo, quase sem cabelos. Robert é esguio e modesto, com cabelos penteados e negros como a sombra. Após pedir gentilmente aos funcionários para se sentarem, Srta G pergunta: - Onde estavam no momento do incidente? - Eu e Ana estávamos lavando os banheiros. –Claudia fala com clareza. Srta G vira-se para os homens. John responde: - Eu estava carregando caixas com a comida que foi servida no almoço. É a vez de Robert. Ele diz:


- Eu arrumava as caixas na dispensa da escola para o John. -Sim, é verdade. –John confirma. Olho bem para as ações dos funcionários, procurando qualquer suspeita de que estavam mentindo. Srta G continua: - E quem foi que encontrou o garoto? Ana responde olhando-nos fixamente: - Fui eu. - Como o fato ocorreu?-resolvi meter-me no questionário. - Eu tinha acabado de limpar o banheiro, como fazemos diariamente, e quando saí vi o corpo do menino no corredor. Vi Claudia e gritei pedindo ajuda. - Certo. E você?- Perguntei olhando para Claudia. - Eu estava limpando o outro banheiro e corri para ver o que Ana estava fazendo. Quando vi Caiã, liguei para a emergência. Balancei a cabeça em um sinal de que havia entendido. Viro-me para John e Robert. Eles falam juntos, mas foi Robert quem continuou: - Nós. – Ele aponta para si e para John. –Estávamos na cozinha tirando a comida das caixas. Srta G pôs a mão nos cabelos e virou-se para mim: - Tem mais alguma pergunta? - Não, já é o suficiente. – Exclamei. - Então. –Srta G suspirou virando-se para os funcionários. – Obrigada pela ajuda de vocês. - Por nada. –Claudia falou por todos. - Até mais. - Falei sabendo que talvez voltasse a vê-los, ao menos perante o juiz. Saímos e os funcionários permaneceram no auditório. A diretora Morel, vendonos, foi ao nosso encontro para se despedir. Perguntei à diretora sobre o local onde fora encontrado o menino Caiã. Ela apontou. Srta G fixou-se no lugar enquanto eu falava com a Sra. Morel: - Antes de partir, gostaria de ir ao banheiro. - Sim, fique à vontade. –Sra. Morel sorri levemente.


Fui ao banheiro e, ao sair, parei um pouco para ver a distância entre o banheiro masculino, o feminino e o lugar onde a vítima fora encontrada por Ana. Caminhei no corredor até a saída, onde Srta G e diretora Morel estavam. Ouvi parte da conversa entre ambas: - É uma pena mesmo. Poderia esclarecer mais o caso. –Srta G disse vendo-me. - O que é uma pena?-perguntei franzindo a testa. - A escola não ter câmeras de segurança. Suspirei pensando na importância que seria um vídeo gravado no momento do crime. Há câmeras em todo o lugar, menos na cena de um crime. Despedimo-nos da Sra. Morel e sentamos em um banco da praça em frente à escola. As árvores transmitiam a sensação de conforto, com a brisa suave e agradável. Srta G cruzou os braços e suspirou. Parecia inconformada com algo. Resolvi questionar: - Você está bem, agente G? - Não muito. Não conseguimos progredir com o interrogatório dos funcionários. - Seja otimista. Conseguimos uma coisa. – Pus minha mão esquerda sobre o ombro da agente, a fim de acalmá-la. Srta G olhou-me. Começou a ficar irritada. - O quê? – Ela perguntou com ironia. - Não notou a fala de Claudia? - Sim. E não ouvi nada relevante. - Será? Após sair do banheiro e ir em direção à Ana, quem Claudia viu?Queria que a agente raciocinasse. - Caiã. Quem mais? – Ela disse ainda irritada. - Isso. Claudia falou que viu Caiã. O que sugere que ela conhecia a vítima. - Ah. Como não percebi?- Srta G perguntou-se estupefata. Ela ficara boquiaberta por alguns segundos. Preste atenção aos detalhes, agente G. Olhei para meu relógio e eram quase três horas da tarde. Srta G se recompôs e parou o táxi. Ela pediu ao motorista para nos levar ao endereço da agência.


Noite de descanso

Sem demora, chegamos à agência. Coincidência o trânsito não estar congestionado. Srta G saiu primeiro do táxi. Saí em seguida e aguardei-a pagar o motorista. Ao entrarmos, o agente Tom conversava com alguns rapazes. Novatos. Antes de chegar ao escritório, Srta G foi cumprimentada por um agente. Ela tem uma reputação bem reconhecida na agência devido aos anos de dedicação à resolução de casos considerados indecifráveis por muitos. Isso evidenciou a relevância em descobrirmos a solução deste caso, não importassem os meios que utilizaríamos. Entramos no escritório e vi rapidamente para o relógio. Faltavam poucos minutos para as cinco horas da tarde. Srta G percebeu e começou: - Já anoitece. Creio que você terá de descansar. – A agente aparentou preocupação. - Sim. É sempre bom dormir para manter o cérebro ativo. – falei confiante, embora minhas horas de sono tenham se reduzido pela metade desde que decidi ser agente do estado. Crimes não se resolvem sozinhos. E quanto maior o tempo que precisamos para solucioná-los, maiores serão as chances de fuga dos culpados. - Certo. – Ela balançou a cabeça. - Há um quarto para você neste endereço. Srta G estendeu a mão, dando-me um bilhete com um endereço escrito à caneta de cor azul. Fitei-o e disse: - Está na hora de eu ir. – Levantei-me para me despedir. - Ah. – interrompeu a agente. – Percebi que gosta de uva. Talvez queira degustar o vinho de boa safra que tenho. O convite seria inusitado pouco tempo atrás, mas já estávamos habituados a quebrar os momentos de tensão dos casos com algo imprevisto. Desta vez, seria com uma boa bebida. - Não. –Falei quase sorrindo. – Prefiro champanhe. Srta G não pôde conter o riso. - Por acaso tem alguma garrafa sobrando? – Perguntei intrigado.


- Claro. Espere. –Srta G foi até um frigobar no canto escondido do escritório e retirou uma garrafa escura com rótulo dourado. O nome estava destacado em letras cursivas. Champagne Perrier Jouët - Magnum Brut. Trouxe-me ainda sorrindo. - Tem um frigobar no escritório?- Perguntei atônito. - Sim, mas é segredo. – Ela pôs o dedo nos lábios em um sinal para eu não contar a ninguém. Segurei a garrafa. Srta G apanhou duas taças de um lugar que não me lembro. Pensei no que mais ela estaria escondendo no escritório. Servimo-nos e aproveitamos o momento. Há anos que não bebia algo tão revigorante. Ao terminarmos, falei: - Obrigado pelo champanhe. Até mais. - Até mais. – a agente balançou a cabeça, ainda com a taça em mãos. - O funeral de Caiã é amanhã. Se quiser ir... - Sim, irei. – A conversa voltou a ser séria. - Venha à agência. Sairemos às sete e quinze da manhã. - Tudo bem. Saí do escritório e notei que a agência não estava como antes - pessoas conversando e ocupadas com alguma coisa. Estava quase vazia. Notei o agente Tom lendo um jornal tranquilamente. Ele percebeu minha presença e acenou positivamente com a cabeça. Retribuí. Abri a porta vidrada da agência e decidi ir caminhando ao meu aposento, pois não ficara longe. O movimento nas ruas ainda era intenso. Pessoas com sacolas de lojas ou supermercados, estudantes com mochilas abarrotadas de livros. Vendedores ambulantes nas esquinas pedindo a atenção daqueles que passavam. Veículos subindo a Avenida Eduardo Ribeiro rumo à Praça do Congresso. A imponente cúpula do Teatro Amazonas se sobressaía perante os edifícios. Um século se passou desde a Belle Époque manauara, porém os resquícios ainda podem ser vistos na cidade. Muitos dos pontos mais belos da época áurea da borracha se definharam com o decorrer dos anos e o descuido da população. Mas a imaginação é a melhor máquina do tempo que existe. Imagine e verás que o encanto ainda existe; ele apenas está encoberto por uma camada de ignorância.


Cheguei ao endereço indicado no bilhete que Srta G me dera e visualizei a fachada do prédio, com bandeiras hasteadas e arquitetura elegante. Entrei e subi as escadas, meu quarto era no segundo piso. Tirei uma chave do bolso direito da calça. Enquanto bebíamos, a agente G dera-me esta chave. Abri a porta e contemplei o quarto: um lugar pequeno, mas bem organizado. As paredes pintadas de branco, sem muitos detalhes. Dei uma volta no quarto como de costume e abri o guarda-roupa cinza de duas portas. Havia vestimentas parecidas com as que eu trouxe de viagem. -Mas como?- Indaguei em tom baixo – eles trouxeram minhas roupas para cá. Tomei um longo banho, refletindo sobre o caso. Permaneci inerte embaixo do chuveiro por cinco minutos, abrindo e cerrando os olhos. Algumas hipóteses, poucas conexões. Talvez ir ao funeral ajude. Será tão angustiante ver o garoto. Troquei de roupas. Fui à janela ver o movimento na rua. Os carros paravam de transitar à medida que anoitecia. Voltei e me estirei na cama. O suspiro de cansaço foi seguido por um pesado fechar de olhos.

Manhã do funeral

Desperto com alguém batendo à porta. Olho para o relógio e são seis horas e trinta minutos da manhã. Abro a porta e um rapaz diz: - Senhor, agente G pediu-me para trazer isso. Deve ter me visto na agência. - Sim. –Lembrei-me dele. – Obrigado. O rapaz balançou a cabeça e partiu. Abri a bolsa térmica e tinha um copo plástico tampado, contendo algum líquido e um saco com bolinhos recheados. Retirei a tampa do copo e descobri o que tinha: leite. - Ela acertou. – Falei com a voz baixa. Comi o desjejum e arrumei-me para ir à agência. Assim que terminei, fechei a porta do quarto e voltei à agência pelo mesmo caminho que viera. Cheguei e Srta G estava esperando-me à porta. - O que achou do café da manhã? – Ela perguntou sorrindo levemente. - Estava ótimo. Obrigado.


Ela mudou de assunto: - O carro chegará em breve. Balancei a cabeça positivamente. O carro não tardou a chegar. Era um carro preto, como a maioria dos automóveis da agência. Entramos no carro e o motorista saudou-nos: - Bom dia, agentes. - Bom dia. –Falamos em coro. Regressamos a falar somente quando chegamos ao funeral. Havia pessoas na frente da igreja tradicional, com aparência clássica e colunas destacadas de cor cinza. No topo da torre, um sino. Lembro-me de duas senhoras chorando e um homem vindo para consolá-las. Um homem com idade avançada nos encontrou na entrada da igreja. Fixei-me nele. Tinha olhos verdes e cabelos grisalhos. - Obrigado pela ajuda. – O senhor falou vagarosamente, olhando para a agente G. - Não precisa agradecer. Este – Srta G apontou para mim. – É o agente que está contribuindo para desvendar o criminoso. - Prazer, Senhor?- Apertei-lhe a mão. - Carlos. O prazer é meu. - Sr Carlos. – Continuei. –Tenha convicção de que encontraremos quem causou esse mal ao seu filho. - Por favor. – Ele disse seriamente olhando-me nos olhos. –Achem o assassino do meu filho. Percebi o semblante entristecido, enquanto Srta G colocava a mão sobre ombro do homem já idoso. Olhei à minha volta e notei uma mulher, aparentando 40 anos, sentada em um dos bancos. Algo nela me chamou a atenção. Após o Sr. Carlos despedir-se angustiado, perguntei à agente G com tom de voz baixo: - Quem é aquela, sentada? – Olhei ligeiramente para a mulher, que não percebeu. - É a dona Nilde, esposa do Sr. Carlos. - Ela não parece abalada com a morte do filho. – Comentei. - Ela não é a mãe de Caiã, é a madrasta.


Suspirei colocando a mão no queixo. Mesmo uma madrasta sentiria a melancolia que é ver um garoto de quinze anos morto por algum motivo. Caiã tinha uma vida grandiosa à frente. Poderia herdar os bens paternos e seguir a sua vida perfeitamente. Decidi conhecer mais a dona Nilde. - Vamos lá com a dona Nilde. – Sussurrei para a Srta G. - Sim, pode ter algo a dizer, não é? – Ela demonstrou animosidade. - Isso. Atravessamos o corredor da igreja que dava ao caixão e encontramo-nos com a dona Nilde. Ela estava parada e calma. Quando nos viu, cumprimentei-a: - Olá dona Nilde. É um prazer conhecê-la. - Vocês são os encarregados do caso, não? – A madrasta perguntou, argumentando em seguida. - Carlos me falou de vocês. - Sim, está certa. – Foi a vez de Srta G. - Posso fazer uma pergunta? – Questionei. - Disponha. Desde que não seja difícil de responder... - É fácil. Como era sua relação com o menino Caiã? - Era boa. Nunca tivemos desavenças. – Dona Nilde falou olhando rapidamente para a esquerda. – Sei que não posso me intrometer na investigação de vocês, mas suspeito de alguém. - Quem? –Srta G abaixou-se para escutar. - O médico, que não me lembro do nome. – Dona Nilde disse com a voz quase imperceptível. - Por que acha que ele é criminoso? –Indaguei. - Não sei. Tem alguma coisa nele que... Mas foi só uma opinião. - Sim, compreendo. –Falei balançando a cabeça. - Não sei se ajudei ou atrapalhei. – Dona Nilde pôs a mão nos cabelos enrolados, escuros. - Ajudou dona Nilde. –Srta G repreendeu. Neste momento, Srta G retirou o celular do bolso para atender uma ligação. Duas palavras dela fizeram-me descobrir quem estava no outro lado da linha: sua mãe. Após desligar o celular, Srta G virou-se para nós:


- Tenho que me encontrar com a minha mãe. Terei que sair. Você virá? – Ela me perguntou. - Sim, irei à agência, conversar com o agente Tom. - Tudo bem. Adeus dona Nilde. - Adeus. – Dona Nilde despediu-se. - Até mais. – Completei. E saímos da igreja rapidamente. O carro estava esperando-nos. Entramos. Srta G permaneceu comigo até a agência, quando desci e ela seguiu viagem para encontrarse com a mãe.

Troca de favores

Entrei na agência e rapidamente me dirigi ao Sr. Tom. Ele será de grande ajuda no caso. O agente estava sentado, em frente ao computador. Parecia entediado. Cumprimentei-o: - Agente Tom, como está? - Não muito bem, mas é melhor do que ficar em casa, vendo TV. - Compreendo. Srta G me falou de você. Por isso estou aqui. Preciso de sua ajuda no caso do menino Caiã. - Será um prazer. – Ele levantou o braço com um lápis na mão. –Eu já li a respeito do caso. Como posso ajudá-lo? - Preciso que pesquise alguns nomes. - Sim. Não será difícil, pois conheço vários contatos pela cidade. Mas, sabe que nada é grátis, certo? - Sei. O que deseja em troca desse favor? - Vê aquela bela moça ali? –Sr Tom apontou para uma senhora de cabelos grisalhos e uma feição meiga. Percebi que ela não era uma moça. Tentei não sorrir. - Sim. – Falei em seguida. - Quero sair com ela, mas não sou muito de papo. Convença-la e terá as informações que almeja. - Certo. –Fui encontrar-me com a senhora. Não parece algo difícil.


Cumprimentei-a e ela pediu para que a chamasse de agente A. fui direto ao ponto: - Agente A, vim deixar um recado do Sr Tom. – Abaixei-me para falar. – Ele gostaria de chamá-la para um jantar. Ela sorriu e disse: - Sim, mas por que ele mesmo não vem aqui? - É tímido. - Foi a primeira frase que me veio à mente. Ela suspirou e levantou da cadeira, ainda sorrindo. Fiquei vendo-a ir em direção ao agente Tom. Eles trocaram palavras cordiais e a agente A retornou feliz. - É, preciso sair mesmo. Adeus meu rapaz. Não falei nada e regressei para conversar com o Sr Tom que, agora mais animado, exclamou: - Jovem, conseguiu um amigo. Anote os nomes que deseja saber. – Ele ofereceu-me uma página do caderninho que arrancara. Anotei os nomes. As funcionárias da escola- Claudia e Ana. A madrasta de Caiã- dona Nilde. O médico- Dr. Thomas- e o pai- Sr Carlos. Ofereci o papel ao agente e me retirei. O relógio marcava onze horas e trinta minutos da manhã e estava no momento de almoçar. Fui ao mesmo restaurante que fora com Srta G no dia anterior. Servi-me e sentei na mesma mesa com dois lugares. Enquanto comia, lembrei-me do desentendimento de Caiã com Ben, um colega de classe. Ben era um jovem de dezesseis anos, porém não se pode confiar em ninguém até ter certeza de que não fez parte do crime. Precisava interrogar Ben. Liguei para a Srta G e seu celular estava na caixa postal. Deixei um recado para ela: - Agente G, preciso conversar com Ben. Talvez ele tenha algo a dizer. Mande uma mensagem com a localização do garoto. Desliguei o celular e aguardei a resposta. Um minuto depois, recebi uma mensagem. Estava escrito: Ben está na aula. A escola já está funcionando normalmente. Conte-me o que descobrir. Terminei o almoço e peguei o táxi para ir à escola. Durante o caminho, ouvi uma voz no rádio comentando a morte do menino Caiam. O motorista falou-me:


- Mais uma vítima desse mundo cruel. Acha que encontrarão o autor do crime? - Espero que sim. Estamos trabalhando para isso. – Por um momento de descuido deixei o motorista saber quem estava encarregado do caso. - Você é o agente que vai resolver o caso? – O taxista me olhou pelo canto do olho. Pude sentir a ironia em suas palavras. - Sim. Eu e outra agente. – Demorei em perceber a ironia. Avistei a escola e pedi ao motorista para parar. Depois de pagá-lo, ele disse: - Boa sorte aí no caso! - Obrigado. – Falei secamente. Não acredito fielmente em sorte. Para mim, um caso se resolve, na maioria das vezes, através de buscas a respeito de todos os envolvidos. Coincidências são possíveis. Entrei na escola e vi a diretora Morel conversando com um homem, possivelmente um segurança da escola. Ela encerrou a conversa com o guarda: - Tá bom. –E virou-se para mim. – Olá agente. O que o traz aqui? - Preciso conversar com um aluno. - Quem? –Sra. Morel estava pasma. - É só para ajudar no caso. – Confortei-a. - Preciso falar com Ben. - Ah, sim. Mandarei chamá-lo. – A diretora retirou-se e entrou na secretaria da escola. Em seguida, saiu uma mulher que, a me ver, sorriu levemente. Retribuí o sorriso. Olhei à direita e havia uma cadeira. Sentei-me. Passaram-se cinco minutos e uma mulher veio com o menino de cabelos desgrenhados, desânimo nos olhos e mais forte que Caiã. A mulher me disse: - Este é o Ben. - Oi, Ben. – Tentei ser cortez e jovial com o garoto. Ele balançou a cabeça positivamente. Perguntei à mulher se eu poderia conversar a sós com o garoto, em um lugar mais reservado. Ela disse que iria perguntar à diretora Morel e entrou na secretaria. A Sra. Morel saiu e disse: - Vocês podem ir à diretoria. É naquela sala. – Ela apontou para a mesma porta que eu entrara com a Srta G para interrogá-la.


- Vamos Ben. – Estava esforçando-me para falar com o menino, sem assustálo. –Precisamos conversar de homem para homem. Finalmente Ben sorriu, embora fosse um sorriso retraído. Entramos na sala. Sentei-me na cadeira que era da diretora e pedi a ele para sentar-se na cadeira à frente da mesa. Ele se sentou e comecei o interrogatório: - Você sabe o motivo de estar aqui? Ele balançou a cabeça que não. Continuei: - Vamos, pode falar agora. Não contarei nada da nossa conversa a ninguém. – Eu prometo! –Levantei a mão direita em sinal de voto. - Promete mesmo? –Ben perguntou timidamente. - Claro. – Fiquei sério. –Não falei que teríamos uma conversa de homem para homem? - Sim, você disse. – O garoto começou a expressar-se melhor. - Então. Você conhecia Caiã? - Conhecia. - Vocês eram amigos? - Acho que não. –Ben baixou o tom de voz. - Por quê? Ele parecia legal. - É, mas... - O garoto procurava a palavra certa. - Mas você não gostava dele. Ben balançou a cabeça que não, flexionando os lábios. - Pode dizer como ele (Caiã) era na sala? – Fixei-me no garoto. - Era... – O garoto gaguejou. - Só tinha nota alta. - Notas são notas. Não dizem nada sobre a inteligência de alguém. - Mas ele era inteligente. O mais inteligente da sala. – Bem pareceu mais sincero agora. - E por isso encrencou com ele? O garoto pensou um pouco para dizer: - Sim. - E Caiã veio à diretoria. Sra. Morel conversou com vocês dois e você afirmou que não voltaria a perturbar Caiam, certo? Ben concordou.


- E voltou a perturbá-lo? – Continuei. - Não! – O garoto exclamou. - Ok. Você é um aluno comportado não é? – Insinuei que Ben era um bully, um aluno que não se esforçava e aprontava sempre que podia. Um motivo para não gostar de Caiã, o típico aluno esforçado e sereno. - Não sou, mas tenho notas boas. – O garoto falou gloriando-se. - Creio que sabe o que aconteceu com Caiã. –Prossegui, aguardando uma resposta. - Não. O que aconteceu? – Ele estava curioso. - Ele – Pensei por alguns segundos em qual palavra usar. - faleceu. Ben pulou da cadeira, surpreso. Pedi para ele se sentar novamente. Ele o fez, porém não disfarçava o espanto. - Como? Onde? –Ele perguntava atônito. - Foi aqui na escola. Realmente não sabe nada? – Questionei. - Não, não. Nunca toquei nele. - Você veio à escola no sábado passado? - Não. Eu acordei tarde. - Tem certeza? - Tenho. Estou falando a verdade! Embora Ben tenha exagerado dizendo que nunca tocou em Caiam, ele não poderia ter cometido o crime, pois não estava na escola no dia em que Caiã morreu. Ele estava determinado a provar que não cometera o ato, pedindo para perguntar aos professores e colegas de classe para eu ter certeza de que ele realmente não fora no sábado. Encerrei a conversa: - Não precisa. Sei que você não teve relação com o fato ocorrido no sábado. Pode ficar tranquilo. – Levantei-me e tentei acalmar o garoto. - Obrigado Ben. Peço-lhe que não conte a ninguém desta conversa. O garoto balançou a cabeça positivamente. Pedi a ele para que retornasse à sala de aula. Enquanto Ben saía, analisei a probabilidade de encontrar o criminoso. Por enquanto só podia afirmar que o que antes era um mistério, estava a poucos passos de ser descoberto.


Fiquei alguns minutos na sala e então saí. Antes de partir, fui à secretaria agradecer à diretora Morel por ter me deixado conversar com o aluno. Ela mostrou-se disposta a contribuir no caso. Peguei o táxi e fui à agência. Talvez Srta G estivesse no escritório. Estava ansioso para saber o que o agente Tom havia encontrado a respeito das pessoas que o pedira para pesquisar.

Quem são os envolvidos?

Cheguei à agência e bati na porta do escritório de Srta G. Bati duas vezes repetidamente e ninguém atendeu. Decidi ir ao encontro do Sr Tom. Passando pelo corredor, vi a agente A, que, reconhecendo-me, sorriu. Sr Tom estava sentado e percebeu minha chegada. Ele começou: - Sei por que está aqui. Acenei a cabeça positivamente. Ele continuou: - Encontrei fatos curiosos que o interessam. - Sim, e quais são? – Indaguei. Neste momento, uma agente passou pelo corredor onde estávamos. - É melhor irmos para outro lugar. – Comentei, olhando de lado. - Sim, tem razão. – O agente concordou. –Vamos ao meu escritório? Ele retirou-se e eu o segui. Enquanto isso pensava em como seria o escritório do agente Tom. Nem havia passado por minha cabeça que ele tinha um. Seguimos pelo corredor e viramos à direita. Sr Tom abriu a porta com uma chave que tirara do bolso do terno. Olhava para os lados, talvez para ver se havia alguém, além de mim, que o estava assistindo. Entramos e ele me pediu para sentar. Analisei o escritório: era agradável, sem muitas bugigangas ou ornamentações. Na mesa, havia alguns papeis e um porta-caneta. Sentei-me e ele indagou: - Bem, por onde começamos? - Que tal pela madrasta? – Insinuei. - Certo. A madrasta, Dona Nilde, conheceu o Sr. Carlos há 14 anos.


- Caiã tinha um ano de nascido quando a Sra. Nilde conheceu o pai dele. – Liguei os fatos. - Sim, ela conheceu o Sr. Carlos e decidiu ajudá-lo com o Caiã. - E quanto à mãe de Caiam? – Perguntei com expectativa. - Morreu durante o parto. Ela tinha duas escolhas: ou a sua vida ou a vida de Caiã. Escolheu dar a vida ao filho. - Que situação complicada. – Comentei. –Mas ela fez a escolha que qualquer mãe que ama muito o filho faria. - Verdade. –Sr. Tom continuou. –E após o acontecimento, o Sr. Carlos ficou viúvo e com um filho para criar. Balancei a cabeça seriamente. O agente Tom prossegue: - E apareceu Dona Nilde, como um anjo para o Sr. Carlos. Ele precisava de ajuda, e ela fez o papel de uma mãe. - E quanto ao Sr. Carlos? –Questionei. - Podemos dizer que é um homem rico. Mesmo assim, não gostava muito de empregados em casa. Só há dois anos e meio que contratou uma babá para ajudar Caiã nos deveres de casa. Mas a demitiu. Não descobri o motivo. – Agente Tom revirou os papeis. - E qual era o nome da babá? - Claudia. Parei por alguns segundos para pensar. Como poderia ser ela? Agente Tom percebeu minha inquietação e concluiu: - É isso. Claudia agora é faxineira da escola que Caiam estudara. Intriguei-me com o fato de uma ex-empregada do Sr. Carlos está envolvida e presente no dia do crime. No entanto, não podia compartilhar minha opinião. - E a outra faxineira, Ana? – Perguntei. - Ela chegou recentemente a Manaus. Veio do interior do estado com a família. Procurando uma vida melhor, creio eu. O senhor Tom revirou alguns papeis em cima da mesa. Pegou um, dando uma espiada, e continuou:


- Ah! O Dr. Thomas. Não encontrei muito a respeito dele. – O agente franziu a testa. - Nasceu aqui em Manaus. Formou-se em Medicina e teve a má sorte de estar no caso. - Há quanto tempo ele trabalha no IML? –Pergunto. - Há um bom tempo. Dez anos. – O agente falou lendo o papel. – Fez concurso público e passou facilmente. Poucas pessoas gostariam de trabalhar no IML. - Verdade. – Concordei. – Deve ser o dinheiro. - Sim, as pessoas fazem muitas coisas por dinheiro. Quanto a John e Robert? – O agente voltou a revirar os papeis. - Ambos trabalham na escola há mais de sete anos. Realmente não descobri nenhuma relação deles com o crime. Eu já imaginava que os dois funcionários da escola não tinham relação com a morte, porém não poderia descartá-los. - Bem. – O agente prossegue. – É o que eu pude encontrar. – Sr. Tom estende a mão para cumprimentar-me. Apertei-lhe a mão e questionei, mudando de assunto: - E o jantar com a agente A? - Meu jovem. Estou a poucos passos de conquistá-la. – Agente Tom diz sorrindo. - Que bom. Até mais. Retirei-me do escritório. Olhei para o corredor e lá estava a agente G, atravessando-o a passos rápidos. Apressei-me para encontrá-la, tentando não provocar alvoroço. Encontrei-a e ela não demonstrou surpresa. Apenas afirmou: - Continue andando. Vamos ao escritório. Preciso saber o que descobriu. Segui-a e entramos no escritório. Ela ofereceu-me água. Aceitei agradecendo. Sentamo-nos e eu iniciei: - Conseguiu resolver o problema com a mãe? - Sim, sim. E você, o que descobriu? – Srta G perguntou curiosa. - Ben não tem relação com o crime. Claudia, a faxineira da escola, trabalhou para o Sr. Carlos há dois anos e meio. - E suspeita dela? – Ela pergunta, arrumando os óculos. – É bem estranho. - Na verdade, sim. No entanto, não é só dela que suspeito.


Srta G fixou-se em mim, perguntando com tom de voz baixo: - E quem é a outra pessoa? - A madrasta. - O quê? –Agente G questionou. – Mas ela criou Caiã. Como pôde? - São só suspeitas. Não estou afirmando. – Amenizei. - Sim, mas será mesmo? Dona Nilde? – A agente estava cética. - É uma hipótese. Não podemos esquecer-nos dos outros. O Dr. Thomas poderia não ter esclarecido tudo o que sabe. Olhei para o relógio e faltavam dois minutos para as cinco da tarde. Passaria mais uma noite sem ter certeza de que o criminoso estava preso. Pior, sem a certeza de quem era o culpado do crime. Todavia, as suspeitas me fizeram pensar que a morte do menino Caiã fora bem planejada.

Contra o tempo

Srta G permaneceu inerte por alguns segundos, pensando, talvez, no desenrolar dos fatos. Interrompi o silêncio: - Segundo o laudo médico, a morte pode ter sido causada pelo uso de alguma droga. Sabe se Caiã tinha alguma doença? - O Dr.Thomas me disse que ele tinha. Deixe-me lembrar. - Srta G esforçava-se para lembrar. – Sim. Ele tinha asma. - Então poderia estar tomando algum remédio. – Coloquei a mão no bolso do terno, procurando a folha do laudo médico que o Dr. Thomas me dera. Não encontrei. Lembrei que deixara no apartamento, escondido debaixo das gavetas do guarda-roupa. Não poderia correr o risco de deixá-lo à vista, pois poderia cair nas mãos erradas. - Acha que ele teria uma overdose com o remédio que tomava? –Srta G começou a especular. Não descartei essa possibilidade, mas havia outras. - Talvez. E se Caiã tivesse tomado outra pílula, ao invés da certa? Alguém pode ter trocado as pílulas. - Sim. Mas acho que não foi na escola. - Sinceramente, eu também.


No laudo médico constavam os nomes das drogas que Caiã tomara. Decidi ir ao apartamento, pegá-lo e trazê-lo para analisarmos as circunstâncias de uma possível overdose. - Em poucos minutos, estarei de volta. – Falei antes de sair do escritório. – Estamos prestes a elucidar o caso. Eram seis horas e vinte e dois minutos da tarde. Estava anoitecendo. O movimento na agência estava cessando, mas nas ruas continuava intenso, com muitos trabalhadores retornando para suas casas nos ônibus coletivos. Havia um grupo de estudantes conversando numa praça. Eles estavam vestidos com o uniforme da escola onde Caiã estudara. Enquanto chamava o táxi que estava parado próximo à Agência, pude ver o pôr do sol no horizonte. Em outro dia, essa imagem seria como um calmante para um dia agitado. Não desta vez. Cheguei ao apartamento rapidamente e subi correndo as escadas. Abri a porta e fui direto ao guarda-roupa. Tirei as gavetas, jogando-as ao chão. O laudo médico estava lá, na mesma posição em que o deixara. Examinei-o e li em voz alta a doença de Caiã: - Asma crônica. Na linha abaixo estava o remédio que o menino tomava: singulair. Singulair é administrado oralmente e é recomendado por médicos aos pacientes que se sentem constrangidos com a bombinha antiasma. Talvez Caiã não gostasse de ficar inalando o spray na frente dos colegas, principalmente próximo de Ben. Abaixo do nome singulair estavam as duas possibilidades para a morte de Caiã.

Possíveis causas do óbito: Marcas de mãos no pescoço pouco perceptíveis. Possível sufocamento. Suspeita de overdose, decorrente do uso oral de duas pílulas de cianureto, somando 5mg. Causa principal de morte: desconhecida. - Cianureto. Não me lembro de existir esse remédio. – Falei em tom baixo. Decidi ligar para a Srta G. Talvez ela soubesse me dizer que tipo de droga era essa. Também precisava contar-lhe as possíveis soluções para a morte do menino Caiã.


Srta G atende a ligação. Vou direto ao ponto: - Sabe algo sobre cianureto? - Cianureto? – Agente G responde com uma pergunta. – O que tem? - O laudo aponta 5mg de cianureto. Talvez Caiã tivesse tomado uma pílula. - 5mg? –Srta G continuava questionando, enquanto eu esperava por respostas. – Isso é quantidade suficiente para matar uma pessoa. Foram duas pílulas, não é? - Sim. – Olhei o papel em minhas mãos, buscando a confirmação. – O laudo confirma o uso de duas pílulas. Ele tomava singulair para a asma crônica. Talvez tivesse trocado as pílulas, ou alguém fez isso. - É possível. Ah! –Srta G lembrou-se de algo. – Dona Nilde acabou de vim aqui ao meu escritório. - Por quê? – Questionei. A ida da madrasta à agência me pareceu uma atitude estranha. - Acho que para se defender. As coisas não estão muito boas para ela. - Verdade. – Concordei. Porém, será mesmo que Dona Nilde foi para se esclarecer? Duvidei. – Quando Dona Nilde estava aí, você saiu? - Sim, chamaram-me. Eu saí e voltei rapidamente. - E quando retornou, bebeu água? – Algo não estava certo. Anos de experiência em casos complexos me ensinaram a confiar na minha intuição. E desta vez, a minha intuição indicava que algo ruim aconteceu. - Por quê? – Perguntou aflita. – Bebi sim. E o que isso tem a ver com a morte de Caiã? Realmente não tinha muito em comum, porém se Srta G deixou Dona Nilde sozinha no escritório, por alguns instantes, com um copo de água em cima da mesa, seria provável que a madrasta tentasse envenenar a agente, pondo algo no copo d’água. Parece loucura, mas as pessoas são capazes de tudo. Ainda mais quando envolve um crime no qual ela é suspeita. Falei à agente G para deixar o copo intacto, pois poderia ter algo suspeito nele. Ela espantou-se, mas concordou. Sua voz estava perfeitamente audível, o que levava à conclusão de que Srta G não tomara nada de anormal. Eu estava sendo otimista, mas era difícil disfarçar o pessimismo presente em meus pensamentos.


Desci as escadas o mais rápido possível e acenei impetuosamente para o taxista que freou bruscamente. Entrei e sem cumprimentar o motorista solicitei para me deixar no endereço da agência. Os segundos passavam lentamente e a escuridão findava o pôr do sol. Tentei ver as horas, mas minhas mãos estavam trêmulas. Seria a adrenalina decorrente da descida para a rua ou uma premonição do que estava por vir? Cheguei à agência e, ao abrir a porta, percebi o tumulto próximo a algum escritório. Buscava ver onde estavam tão interessados, mas não conseguia. Saiam da frente. Era uma algazarra de pessoas. Vozes e mais vozes chegavam aos meus ouvidos, deixando-me mais nervoso. Corri para ver o que ocorrera. Desviei dos agentes curiosos e entre desculpas e licenças cheguei ao escritório. Um forte temor me abateu. Merda. É o escritório da agente G. Dois paramédicos estavam próximos de Srta G. Ela estirada ao chão, em frente à sua mesa. Não podia fazer nada. Restava-me aguardar os paramédicos tentarem acordá-la. Fiquei na porta, afastando os agentes e pedindo para retornarem ao trabalho. Agente Tom veio à minha ajuda e não permitiu a entrada de mais ninguém. O movimento cessou somente quando Srta G saiu carregada pelos paramédicos. Um deles me disse: - Vamos levá-la ao hospital. Alguém precisa acompanhá-la. Agente Tom foi claro: - Eu irei. – Virou-se para mim. –Investigue o escritório da agente G. Confesso que gostaria de acompanhar a agente G. Queria estar ao seu lado para ajudá-la de alguma forma. No entanto, precisava ver o escritório, tentar encontrar alguma suspeita. Assenti com o Sr. Tom, balançando a cabeça que sim. O paramédico saiu ligeiramente e o agente o acompanhou. Os curiosos voltaram aos seus computadores, porém ainda ouviam-se murmurinhos a respeito do incidente. Entrei no escritório e fechei a porta. Puxei uma cadeira e a pus na porta para evitar que alguém interrompesse a minha investigação. Permaneci parado por alguns minutos, analisando os objetos e móveis. Meu coração ainda palpitava com rapidez. Acalme-se. Pus a mão em meu peito para acompanhar a respiração e comecei a contar.


Um. Dois. Três. Fechei os olhos e inspirei profundamente. Quatro. Cinco. Seis. Expirei abrindo os olhos. Corra agente. O tempo urge. Era a voz da minha consciência, alertando-me para ser ágil. Concentrei-me na mesa e observei um copo de vidro virado, com água escorrendo sobre vários papeis. Ainda havia gotas de água dentro do copo. Eu deveria colher uma amostra do volume. Abri uma gaveta do armário próximo à mesa e retirei um frasco de poucos centímetros de diâmetro. Fui em direção ao copo e coloquei o resto da água no frasco. Guardei-o no bolso do terno. Ninguém precisava saber o que havia naquela amostra, com exceção de Srta G. Almejava que nada mais tivesse ocorrido com ela. Continuei analisando os papeis sobre a mesa. Quando penso ter encontrado somente o copo, algo me chama a atenção. Era uma pequena folha de caderno com as palavras escritas à mão. A caneta esferográfica de cor azul estava ao lado.

Interrogatório com Dona Nilde Amanhã, 9 da manhã.

Tirei a folha do caderno e pus no bolso direito da calça. Eu deveria ir interrogar a madrasta, mesmo sem Srta G, pois ela deveria pensar que estava tudo bem com a agente. Se Dona Nilde tivesse colocado veneno ou outra droga na água, essa notícia não lhe agradaria. Olhei para o relógio e eram nove horas e treze minutos da noite. O tempo voou. Não tinha mais nada a fazer, tanto que saí do escritório e fui ao meu apartamento. Creio que nenhum agente notou minha saída. Muitos já estavam ausentes e o silêncio voltara à agência. Chegando ao apartamento, fechei a porta e estirei-me na cama. Foi um dia turbulento e eu ainda estava preocupado com a situação de Srta G. Esforçava-me para descansar, mas era impossível. Talvez eu tenha cochilado por duas horas. Liguei algumas vezes para o agente Tom, a fim de saber sobre o estado da Srta G. Em todas as vezes, ele me confortava.


Notei o clarão das luzes surgindo aos poucos por entre as frestas da janela. Olhei para o relógio acima da escrivaninha e eram sete horas e dois minutos da manhã. Levantei-me, me arrumei e fiquei alguns minutos na janela, pensando nos próximos passos que eu deveria dar no caso. Vi que tinha uma panificadora próxima à esquina da rua do apartamento. Arrumei-me e fui tomar o café da manhã. Antes de sair, lembrei-me da amostra da água da agente G. Peguei-a e fechei a porta do apartamento.

Interrogando a madrasta

Na panificadora, pedi da atendente uma xícara de café e alguns pãezinhos. Não era minha refeição preferida, mas precisava tomar algo forte. Sentei-me no canto direito do balcão de doces, numa mesa com duas cadeiras. Comia lentamente e entre um gole e outro de café, uma pessoa aparecia em minha frente, não literalmente, mas como um fantasma querendo ser observado. As faxineiras, o médico, o pai, a madrasta. Todos surgiam de repente e desapareciam ao piscar de olhos. Era uma encenação da minha imaginação. Após a refeição, passei um tempo vendo o movimento pela vidraça da panificadora. Observava as crianças entrando e saindo do estabelecimento. Pareciam contentes e com poucas preocupações. Estão numa fase de crescimento físico e espiritual na vida de qualquer pessoa. Ainda têm um caminho infinito de descobertas, frustrações e tentativas. Infelizmente, para Caiã isso não seria mais possível. Após o devaneio, levanto-me e me dirijo à recepção para pagar a conta. Quando estou prestes a sair da panificadora, surge uma pessoa a qual não esperava. Sr Carlos. Ele vem em minha direção e me cumprimenta: - Olá agente. – Falou com tom sério. Percebo que ele ainda está abalado. - Senhor Carlos. – Aperto-lhe a mão. O pai de Caiã faz o pedido, explicando que comeria em casa. Então, continua: - Veio tomar café? - Sim. – Respondo, balançando a cabeça positivamente. - E vai para onde agente?


- Na verdade, irei para sua casa. Preciso conversar com Dona Nilde. – Tentei não deixá-lo preocupado, mas não adiantou. - É algo sério? – Ele pergunta ansioso. -Não. É só uma conversa. Ela pode ajudar no caso. - Sabe, faz alguns dias que ele partiu. - Sr Carlos fala com a voz carregada de mágoa, os olhos brilhando. – E nada vai preencher esse vazio. A minha vontade é caçar o cretino que fez isso. Mas não posso. Só quero vê-lo apodrecer na cadeia. O senhor foi profundo em suas palavras. Se eu fosse pai, provavelmente estaria sentindo o mesmo. Você não deseja ter um filho morto, principalmente quando ele tem apenas quinze anos. Caso encontre o criminoso, dificilmente terá outro sentimento senão ódio. Se não conseguir controlar as emoções, tentará se vingar por conta própria, ainda mais se for rico como o senhor Carlos. Um rapaz trouxe o pedido do senhor, que o pagou e virou-se para me dizer: - Vamos. Vou te dar uma carona. Consenti e saímos. Um carro preto luxuoso esperava à frente da panificadora. Ao entrarmos, Sr Carlos apresentou-me ao motorista, um homem de quase trinta e quatro anos. Enquanto íamos à sua casa, pensei no quanto a riqueza de senhor Carlos poderia se tornar motivo para um crime. Às vezes, a briga por herança perde o controle e acaba de maneira trágica. Levamos quinze minutos para chegar à casa do senhor. Enquanto caminhávamos para a porta, observei à volta. Não era uma mansão, porém era uma casa bonita, com azulejos na cor azul marinho decorando a fachada. Vários vasos com begônias e violetas e uma árvore de pequeno porte situavam-se no quintal, ao lado do espaço onde o carro estacionara. Senhor Carlos entrou primeiro e me pediu para esperar na sala de estar. Senteime e aguardei Dona Nilde. Era um lugar confortável. Na parede cor marfim, dois quadros cubistas que pareciam réplicas de obras feitas por Pablo Picasso e uma réplica do quadro Os Operários, de Tarsila do Amaral, se destacavam. Entretanto, a mesa marrom com revistas e jornais no centro da sala foi o que mais me chamou a atenção, especialmente a manchete de um dos jornais locais.


Caso do menino Caiã continua sem culpado

Revirei as páginas do jornal em busca da matéria sobre o caso. Eu precisava ser ágil. Dona Nilde poderia aparecer a qualquer momento. Ao encontrar a matéria, li rapidamente. Entre as pessoas suspeitas, o jornal apontava a madrasta. O motivo seria a herança do senhor Carlos. Será? Não sabia como o jornal chegara àquela conclusão, mas não estava muito distante de minhas especulações. De repente, ouvi um barulho no outro cômodo. Alguém está vindo. Enrolei o jornal e o guardei no bolso do terno por precaução. Não queria que alguém que estivesse na casa o lê-se, principalmente Dona Nilde. Ela estava sob suspeita e um jornal mostrando justamente isso não ajudaria. A madrasta apareceu se desculpando pelo atraso. Falei que estava tudo bem. - Onde está a agente G? - Ela questionou, sentando-se no sofá. Sentei-me em seguida numa poltrona próxima. Confesso que não sabia o que dizer. Lembrei-me de agente G, na igreja, falando que se encontraria com a mãe. - Teve que ir à casa da mãe. – Respondi. Ufa. - Está tudo bem com ela? -Dona Nilde continuou referindo-se a Srta. G. Achei o momento adequado para retrucar. - Sim, claro. Por que não estaria?- Lancei-lhe a indireta. Veremos até onde você consegue chegar. Dona Nilde calou-se. Uma resposta poderia complicá-la. - Soube que ontem a senhora esteve no escritório da agente G. – Prossegui. - Sim. – Ela disse balançando a cabeça positivamente. - Posso saber o motivo da visita? – Fixei-me nos olhos da madrasta de Caiã. - Soube que ela estava disponível. – Dona Nilde fala calmamente. – E fui me esclarecer. - Sobre o quê? – Tentei parecer curioso.


- Sobre o crime. Eu tenho o direito de me declarar, não? – Ela permanecia calma, mas no fundo havia uma sombra de frustração. - Sim. – Respondi. – Falando nisso, ainda desconfia do Dr. Thomas? - Desconfio, mas pode ter sido outra pessoa. Não gosto do Doutor, ele não me é agradável. Mesmo que o Dr. Thomas não fosse agradável, eu não tinha provas refutáveis para pô-lo entre os possíveis criminosos. Talvez, apenas, como um suspeito. Continuo interrogando: - Como era seu relacionamento com Caiã? – Refiz a pergunta que havia feito na igreja, só para me esclarecer. - Era bom. Ele gostava de mim e eu gostava dele. – Ela foi incisiva. Essa resposta não me convenceu. Esperava algo a mais. Se você gostava do garoto, quer dizer que deixou de gostar? Dona Nilde devia ser vista por Caiã como uma mãe, mesmo que ela não tenha o concebido. Ele viveu todos os anos de sua vida com a madrasta, visto que sua mãe falecera ao dar à luz. Por isso, a resposta dela me pareceu seca. Pensei em perguntar se ela realmente gostava do garoto, mas traria incômodo. - Caiã já teve alguma babá? - Questionei. - Já, uma. – Dona Nilde disse claramente. Eu sabia que era Claudia, contudo não queria dar satisfação. - Como ela se chamava? - Claudia. Realmente Dona Nilde não queria conversar. Ela estava tentando ser o mais breve possível em suas respostas. - A mesma que é faxineira da escola? – Continuei. - Não sei. Não conheço os empregados da escola de Caiã. A madrasta se acolhia a respostas pré-definidas, como se tivesse decorado o que dizer. Contei-lhe que Claudia era, agora, faxineira da escola e a madrasta não demonstrou surpresa. Perguntei há quanto tempo Claudia trabalhara na casa, cuidando de Caiã. - Há dois anos e meio. Eu estava trabalhando pela manhã e Carlos passava a metade do dia no trabalho. Caiã não poderia ficar só.


- E por que a demitiram? - Eu mudei para o turno vespertino e Carlos se aposentou. Não precisávamos mais da ajuda dela. - E não falou com Claudia durante esse tempo? – Questionei referindo-me ao tempo após a demissão. - Não. –Dona Nilde pensou por alguns segundos. –Não. - A senhora que ia às reuniões de pais na escola? – Mudei de assunto. - Sim. Sempre ia. Por que a pergunta? – Ela não entendeu. - Só para saber. – Respondi brevemente, porém pensava em como a madrasta não vira Claudia, em tantos meses indo às reuniões de pais da escola de Caiã. A cada bimestre, há uma reunião. Com quatro bimestres no ano e dois anos de Claudia como faxineira, são oito reuniões. Mesmo assim, Dona Nilde não vira nem soubera de Claudia. - Caiã tomava algum remédio? – Decidi focar no garoto, pois Dona Nilde começara a ficar impaciente com as perguntas relacionadas à Claudia. - Sim. Ele tinha asma crônica. Mencionei a bombinha antiasma que os médicos costumam receitar. A madrasta me disse que o garoto não gostava de levar o spray para a escola, tal que o médico mandou-lhe tomar um comprimido de singulair por dia. O mesmo que pensei, aconteceu. Os fatos estavam se organizando da maneira certa. - Somente esse remédio que o médico receitou? – Prossegui. - Com toda certeza, sim. Hesitei por um instante, mas perguntei: - Dona Nilde, desculpa a pergunta, mas... – Agachei-me para próximo dela. – Caiã já usou algum tipo de droga? - Não! – Ela exclamou. – Ele nunca usou droga. Não provou nem mesmo uma gota de bebida alcoólica. Posso lhe afirmar, agente, que Caiã jamais teve contato com qualquer droga. - Certo. Acredito em suas palavras. – Falei com sinceridade, até porque o laudo médico apontara somente o singulair e o cianureto.


Não havia mais perguntas a fazer. Posso dizer que o interrogatório foi satisfatório, apesar de ter criado novas dúvidas, como Dona Nilde não ter visto Claudia durante esse tempo em que esta trabalhara na escola. - Obrigado, Dona Nilde. – Agradeci cumprimentado a madrasta, que permanecia em seu posto de seriedade. Ela levantou-se e foi abrir a porta para mim. Antes de sair, disse: - Até mais, Dona Nilde. - Espero ter ajudado.

Parando para pensar

Enquanto caminhava para pegar o táxi, recebo uma ligação do agente Tom. Após saudações iniciais, ele fala: - Srta. G está bem. O que os médicos me disseram foi que ela tomou um determinado veneno. Só não me lembro do nome. Por sorte, foi uma dose pequena, não suficiente para matá-la. Deram o antídoto e ela está se recuperando. À tarde, receberá alta do hospital. - Que ótima notícia. Eu posso visitá-la? - Sim. Ainda há pouco a mãe dela estava aqui. Eu preciso almoçar hoje com a agente A. Não posso perder tempo, sabe? - Claro. – Sorri, pensando no relacionamento do Sr. Tom com a agente A. - Certo. Receberá uma mensagem com o endereço do hospital e o leito em que Srta. G se encontra. Irei esperá-lo na saída. Despedi-me. Passaram-se vinte segundos até que recebi a mensagem. Virei uma esquina à esquerda e percebi o táxi vindo não muito longe. Acenei e o motorista parou. Ao entrar, informei o endereço e o motorista confirmou o nome do hospital. Quase quinze minutos depois, cheguei e vi o agente Tom inerte na saída do hospital. Apressei-me e o encontrei. Saudei-o, apertando-lhe a mão, e ele foi estreitar o relacionamento com a agente A. Adentrei no hospital e perguntei a uma enfermeira sobre o leito. Ela me disse que deveria ir de elevador ao quarto andar, onde estaria numerado o leito. Assim o fiz.


Acima da porta do quarto, havia uma placa com o número, não apenas do leito da agente, mas também de outros dois pacientes. Abri a porta e lá estava Srta. G, deitada. Aproximei-me dela e parecia que a mesma estava dormindo. Falei em tom baixo, próximo ao seu ouvido: - Agente G? Ela abre os olhos e demonstra disposição, como se nada tivesse ocorrido. - É bom revê-lo. –A agente fala com a voz suave. - Eu digo o mesmo. - E como está o caso do menino Caiã? – Embora quase tenha morrido, a agente se mostra bastante preocupada com a resolução do caso. - Progredindo. – Respondo animado. - Interroguei Dona Nilde e ela me disse que não ver Claudia desde quando a demitiu. Sinceramente, creio que ela mentiu. - Sabia que iria ver o papel sobre a mesa. – Agente G comenta. Em seguida, ela me disse que deixara propositalmente o papel do interrogatório com Dona Nilde sobre a mesa. - Leia isso. – Retiro do bolso o jornal que peguei na residência do Sr Carlos. Agente G analisa o artigo. Dois minutos depois, ela levanta os olhos e diz: - Sr Carlos realmente é um homem rico e sua herança talvez fosse para seu filho. Caiã é seu único filho e sem ele somente a Dona Nilde tem direito a herança. Isso se não houvesse testamento. - Após a morte de Caiã restou apenas a madrasta. – Insinuei. Perante a lei, os descendentes – isto é, os filhos - têm direito à herança e o cônjuge pode reivindicar por parte do dinheiro. Entretanto, se não houver descendentes, o cônjuge fica com toda a herança. Além disso, os pais do Sr Carlos também têm direito aos bens do filho. - Os pais do Sr Carlos faleceram há um bom tempo. –Srta. G comentou. Então, Dona Nilde ficaria com tudo. Contudo, ela mataria Caiã somente pelo mero motivo de querer herdar todos os bens do Sr Carlos? Ela teria parte dos bens de qualquer forma. - Ganância. Para que ficar com parte se você pode ficar com tudo? Matar um garoto considerado um filho é realmente inaceitável, porém a ganância fecha os olhos


das pessoas para o que é de fato importante e os direciona ao que se almeja. Um menino se torna apenas um obstáculo que pode ser ultrapassado. - Ou... –Srta. G interrompeu. Parecia pasma. Logo continuou. – morto. Silenciamos por um minuto. Estávamos interligando os fatos encontrados e a madrasta definitivamente se tornara a antagonista do caso. No entanto, Caiã estava na aula e Dona Nilde não estava lá. Havia um cúmplice da madrasta na escola e este comparsa teria estado no momento da fatalidade para assegurar a morte do garoto. John e Robert estavam na dispensa e Claudia, juntamente com Ana, estava no banheiro. Lembrei-me de quando fui ao banheiro e, na saída, vi a distância entre os banheiros e o local onde Caiã fora encontrado por Ana. - Ana foi quem achou Caiã, mas ela não conhece Dona Nilde e possivelmente, também não conhece o garoto. Já Claudia trabalhou na casa do Sr Carlos e estava no outro banheiro. – Eu montava o quebra-cabeça, tentando encaixar as peças nos lugares certos. - Temos que interrogar Claudia e Ana. – Agente G exclamou. – Mas separadamente. O depoimento de uma pode contradizer o de outra. – A agente, mesmo deitada em um leito hospital, conseguia raciocinar perfeitamente. Ela continuou: - O crime ocorreu entre nove e dez da manhã. Se não foi diretamente Dona Nilde, alguém na escola o fez. - Certamente. Espere. – Pensei no remédio que Caiã tomava todos os dias, pela manhã. – Antes de Caiã tomar o comprimido de singulair, ele teria que pedir à professora para sair de sala, pois não daria para o garoto engolir a pílula a seco. Precisaria beber água para não engasgar. - Então, – Srta. G prosseguiu à minha fala. – se a professora o deixou sair, ela sabe ao certo o horário em que isso se sucedeu. Temos que saber quando Caiã foi ao bebedouro. Concordei de que conversaríamos com a professora, a fim de esclarecer o estado de Caiã antes do crime. Srta. G me prometeu que estaria melhor até o fim da tarde e que no dia seguinte iria comigo à escola para interrogar as faxineiras. Passavamse das onze horas da manhã e ambos precisávamos almoçar. A agente me devolveu o jornal. Eu iria ao restaurante que sempre almoçara. Antes, perguntei se alguém ficaria


com ela durante sua permanência no hospital. Ela me respondeu que a mãe dela estava a caminho e que não precisava me preocupar. Ao deixar o hospital, observei uma mulher entrando. Ela aparentava ter um pouco mais de cinquenta anos. Algo nela me era conveniente. Talvez fosse a mãe de Srta. G.

Passara-se uma hora e meia e eu já havia terminado a refeição, quando o celular vibra em meu bolso. Atendi: - Alô! - Oi, já saí do hospital. – Era a voz de Srta. G. Foi uma surpresa, pois pensava que ela deixaria o hospital somente no fim da tarde. - Como? Pode me explicar? – Questionei estupefato. - A mamãe chegou assim que você saiu e conseguiu convencer o médico de que eu estava em boas condições. E eu estou mesmo. Pode ir à agência, para organizarmos o caso? - Sim. Chego em trinta minutos. - Certo. Tentarei marcar o interrogatório com as faxineiras da escola para hoje. - Ótimo. Até mais. – Despedimo-nos. Lembrei-me daquela mulher que havia visto entrando no hospital. De fato, era a mãe de Srta. G. Após pagar a refeição, fui caminhando à agência. Era um horário movimentado. Havia muitas pessoas nos restaurantes e lojas no caminho por onde passei. Nas ruas, automóveis e ônibus a todo o instante. Essa é uma das consequências do crescimento urbano desenfreado: um caos de edifícios, indivíduos e máquinas. No entanto, existe ordem nesse caos. Como prometido, cheguei à agência em trinta minutos. Talvez até menos. Adentrei e me dirigi ao escritório. Girei a maçaneta da porta. Estava trancada. Havia um banco ao lado da porta. Sentei-me e aguardei. Passados dois minutos, Srta. G apareceu. Enquanto ela caminhava ao seu escritório, olhos de agentes a acompanhavam. Tal surpresa se explicava pela mudança súbita de estado da agente. Em menos de um dia, ela se recuperou. Como o agente Tom me afirmou, a causa do incidente foi envenenamento. O estudo da água que eu coletara na noite passada poderia revelar qual foi o veneno.


Agente G acenou para mim. Ela abriu a porta do escritório com a chave que carregara na mão. Entramos em silêncio e ela, a meio caminho de sentar-se, iniciou: - Falta só confirmar o interrogatório. A diretora irá me ligar para irmos à escola. - Tudo bem. – Falei em seguida, sentando-me. Percebi que o escritório já estava limpo. – E o que os médicos apontaram como a causa do incidente de ontem? - Algo que comi me fez desmaiar. –Arrumou os óculos, pondo a mão esquerda sobre a mesa. – Mas eu não comi nada. Só bebi. –Ela parou por dois segundos. - Aquela água. Eu deixei Dona Nilde aqui e saí. Quando voltei, bebi a água e me despedi de Dona Nilde. Ela parecia estar com pressa e sugeriu o encontro hoje. Minutos depois, você ligou e falou do cianureto e das marcas no pescoço de Caiã. Tudo bem, até que comecei a sentir uma leve queimação na boca e tentei pedir ajuda a alguém. O agente Tom deve ter me visto na porta quando. Não lembro nitidamente. – A agente massageou a testa, esforçando-se para se lembrar da cena. - Socorreram-me. Srta. G cessou. Lembrei-me do frasco. - Precisa examinar isso. –Falei, tirando o frasco do bolso e oferecendo-o à agente. Ela questionou sobre o volume. Eu respondi dizendo que era o resto da água do copo que estava virado sobre sua mesa. - Vou pedir para examinarem. - A agente segurou o frasco. - Em breve, teremos a confirmação. Olhei para o relógio e eram uma hora e dois minutos da tarde. Seria o momento adequado para ir à escola. Srta. G percebeu. - Vou telefonar para a diretora Morel. Pode esperar? - Sim. –Respondi. A agente saiu com o recipiente de água na mão. Enquanto ela não voltava, eu pensava como a madrasta tentara envenenar a agente. O tempo seria suficiente para pôr algo no copo, mas talvez não o suficiente para colocar todo o veneno, pois ouvi o som de passos se aproximando. Se Srta. G tivesse deixado Dona Nilde sozinha pelo mesmo período de tempo em que me deixou, meu raciocínio estaria certo. A agente regressou ao escritório. - Vamos à escola! – Falou, satisfeita.


Levantei-me e a acompanhei. Havia um carro à frente da agência. Srta. G perguntou se eu gostaria de ir dirigindo. Aceitei. Às vezes, dirigir pode ser relaxante. E o trânsito estava tranquilo. Brevemente chegamos. Estacionei o carro próximo à escola e andamos cerca de dez metros. O dia estava ensolarado, com poucas nuvens. Apenas a ventania repentina e a sombra das árvores plantadas na calçada amenizava o calor típico de Manaus. Aliás, é inacreditável a escassez de árvores que vemos na cidade, situada no centro da floresta amazônica. Ao entrarmos pela enorme porta de madeira de lei, notamos que os alunos já estavam em sala de aula. Havia somente um guarda na recepção, o qual nos cumprimentou. Srta G foi à diretoria e eu aguardei no corredor. Em um minuto, ela retornou. - Ana está nos esperando no laboratório. –Agente G se referiu à sala de informática. Logo, fomos interrogar a faxineira novamente. Bati duas vezes antes de entrar. Ana estava sentada de costas para uma das mesas com computadores. Com as pernas cruzadas, não aparentava nervosismo. - Boa tarde. –Disse agente G para a faxineira. Desejei-lhe o mesmo. Ana balançou a cabeça, retribuindo a saudação. Puxei uma cadeira que estava voltada para o computador sob uma mesa, próxima à que Srta. G acabara de se sentar. Sentei-me e começamos o interrogatório: - Estamos aqui para saber o que tem a nos contar. –Falei sério. –Você encontrou Caiã no corredor, desmaiado. Havia algo diferente no garoto? Qualquer sinal que pareceu estranho a você? - Quando eu toquei nele, a cor da sua pele estava rosada, esverdeada. Não sei o que era, mas com certeza não era tinta. Gravei as palavras de Ana em minha mente. Cor rosada, esverdeada. Poderia ser o efeito colateral da pílula que Caiã tomara. - Conte-nos exatamente como encontrou Caiã. –Agente G prosseguiu, aproximando-se da mesa. - Está bem. –Ana consentiu. – Eu tinha terminado de limpar o banheiro quando saí e me assustei com o menino estirado no chão do corredor. Corri para tentar reanimá-


lo. Ele nem sequer abria os olhos, mesmo com todo esforço que eu fazia. Então, apareceu Claudia para ajudar. Ela me pediu para buscar ajuda e eu fui chamar alguém. - Está dizendo que Claudia ficou sozinha com Caiã? –Srta. G questionou. - Não. –Ana respondeu rapidamente. – Mas ela ficou sim. Eu estava fixado nos gestos da faxineira. Qualquer atitude que causasse suspeita seria vista. Com a clareza em suas palavras, dava-se a entender que Ana não estava mentindo. - Demorou a encontrar ajuda? –Perguntei. - Não. Havia alguns professores conversando perto da saída. Eles correram para ajudar. Enquanto isso, eu ligava para a emergência. - E depois? – Srta. G não tirava os olhos da faxineira. - Os professores carregaram o garoto até lá fora. A ambulância chegou e o levaram para o hospital. A Sra Morel telefonou para o pai do menino e falou o que aconteceu e que ele devia ir ao hospital. - Lembra a que horas isso tudo ocorreu? –Perguntei curioso. - Foi após a merenda. Eram mais ou menos nove e quarenta e cinco. Eu e agente G trocamos olhares. Não tínhamos mais perguntas a fazer. Então, dispensamos a faxineira. Ana encontrou Caiã e teve tempo para fazer algo. Todavia, Claudia ficou sozinha com o garoto, enquanto Ana procurava ajuda. Eu tentava associar os fatos. Permanecemos em silêncio por quase um minuto. Seria melhor não conversarmos sobre nosso ponto de vista naquele lugar. Fui à porta verificar se Claudia já havia chegado. Ela vinha acompanhada com a diretora Morel, que acenou ao perceber que eu estava na porta. Retribuí o aceno erguendo a mão direita. Sra Morel mudou de rumo, virando-se para uma sala, e a faxineira seguiu em minha direção. - Boa tarde. – Claudia me cumprimentou. Eu disse o mesmo e a pedi para entrar. As duas se cumprimentaram. Pude sentir o ambiente inconveniente. Srta. G começou: - Conte-nos como encontrou Caiã.


- Eu estava lavando o banheiro e saí para ver se Ana já havia acabado. Então, a vi no chão com alguém. Quando me aproximei, notei que era Caiã. - Você conhece Caiã? –Perguntei, sabendo qual seria a resposta. - Eu fui babá dele há um tempo. - Conheceu a mãe dele? – Prossegui. - Madrasta. Somos amigas desde o colegial. Interessante. A resposta de Claudia me fez pensar. Ela e Dona Nilde são amigas. Isso torna a faxineira uma possível comparsa. Questionei se Claudia já havia se encontrado com a madrasta nesse período em que trabalhava na escola de Caiã. - Sim. – Ela responde prontamente. Contudo, atrapalhou-se em suas palavras. – Quero dizer, acho que a encontrei. Srta G mudou de assunto: - O que fez quando encontrou Ana junto com o garoto desmaiado? - Eu tentei acordá-lo. –A faxineira engoliu em seco. – E pedi para Ana procurar ajuda. - E ficou só com o garoto? –A agente continuou. - Nã. –Claudia corta a resposta. –Sim, fiquei. Mas tentando acordá-lo. Observei como Claudia foi imprecisa. Ao contrário de Ana, ela parecia menos à vontade. Um agente reconhece quando alguém está mentindo. Basta observar seus gestos e o modo como fala. - Ana demorou a voltar? –Interroguei. Claudia precisaria de tempo para cometer algo sem ser apanhada de surpresa. - Não muito. –A resposta da faxineira me fez entender que ela realmente tivera tempo. Se tivesse respondido apenas com um “não”, talvez eu compreendesse que Ana fora buscar ajuda e retornado com rapidez. Uma palavra muda o sentido de uma frase. - Quando estava a sós com o garoto, não apareceu ninguém no corredor? – Eu queria saber de uma vez por todas se a faxineira ficara sozinha com Caiã tempo suficiente para agir. Aproximei-me dela. - Não. – Claudia respondeu com tom claro. Bingo. Era o que eu aguardava. Claudia realmente teve tempo. No entanto, ainda faltava interrogar a professora que liberou Caiã para tomar o remédio. Ou seria o veneno?


Vire-me para Srta G. Ela me devolveu o olhar como se não tivesse mais perguntas a fazer. Agradeci à Claudia. - Obrigada. –Agente G se despediu, indo em direção à porta. A faxineira apenas acenou a cabeça e se retirou. Srta G fechou a porta e permanecemos em silêncio no laboratório por dois minutos, apenas pensando nas possibilidades para a resolução do caso. Até que alguém bateu à porta. A agente foi atender. - Dona Morel pediu para vir aqui. Desculpe-me. Sou Liz, professora de Caiã. - Sim. Entre, por favor. –Srta. G cumprimentou a professora. Liz era alta, tinha cabelos castanho-escuros. Ela se sentou na mesma cadeira em que Claudia e Ana se sentaram e me saudou: - Olá agente. –Ela sorriu. - Boa tarde. –Acenei a cabeça que sim. –Você está aqui porque queremos saber algumas informações a respeito do incidente com Caiã. Agente G voltou ao seu lugar e começou o questionário: - Enquanto Caiã estava na sala, ele pediu para tomar algum remédio? - Sim. Foi uns quinze minutos após a merenda. Ele me mostrou as pílulas e o deixei sair. - Por acaso, se lembra de quantas pílulas eram? – Perguntei. Eu queria saber se foi somente uma pílula. - Duas. Eu vi duas na mão dele. –O tom de voz da professora era claro. Continuei: - O garoto mencionou que remédio era? - Não. Só perguntou se podia ir tomar e eu o liberei. Caiã não saía da sala nas minhas aulas. Ele não poderia estar brincando. - Entendo. – Senti que a solução para o caso estava se aproximando. As respostas estavam aparecendo. –Tem mais perguntas? – Virei-me para a agente G. - Não. Já é o suficiente. – A agente disse, satisfeita. - Pois bem. Obrigado professora. –Levantei-me e me despedi. Acompanhei-a até a porta. Depois que Srta Liz saiu, fechei a porta e balancei a cabeça para a agente. - Já tem a solução? - Ela perguntou, ajeitando os óculos.


- Ainda não. - Respirei fundo. Falta pouco. - Resta uma pergunta. E o senhor Carlos irá responder. E quanto a você? - Tenho algumas dúvidas. - Não se preocupe. Findaremos suas dúvidas no escritório. Esse não é o lugar apropriado. - Sim. – A agente concordou. - Vamos à agência. Lá, telefonarei para o Senhor Carlos. Saímos do laboratório. Caminhávamos para a saída quando encontramo-nos com a diretora Morel no corredor. Ela estava curiosa. - Conseguiram descobrir o que aconteceu? – A diretora perguntou ansiosa. Srta. G respondeu por nós dois: - Em breve terá notícias. Sra. Morel assentiu, despedindo-se.

Fim das dúvidas

Eu dirijo no retorno taciturno à agência. Entramos e fomos direto ao escritório. O agente Tom não estava presente, porém pude ver a agente A ao longe, conversando com uma mulher. Chegamos ao escritório e Srta. G rapidamente pegou o telefone. Sentei-me e aguardei. - Senhor Carlos. -A agente falou ao telefone. –Poderia vir ao escritório? – Houve uma pausa. Srta. G ouvia. – Não se preocupe. Só temos uma pergunta. A agente se despediu e desligou o telefone. - Senhor Carlos chegará dentro de alguns minutos. – Ela se virou para mim. Balancei a cabeça que sim. - Por enquanto, o que temos? –Srta. G continua. – O menino Caiã saiu aproximadamente 15 minutos após a merenda com duas pílulas, que poderiam ser singulair ou cianureto. - Vamos aos sintomas. –Levantei-me. - Ana disse que o garoto estava com uma cor rosada ou esverdeada. Não pode ter sido pelo uso do remédio para asma. Então envenenamento é o mais provável. O laudo aponta 5mg de cianureto.


- Duas pílulas! –Ela exclamou. – Essa quantidade de cianureto causa parada respiratória. - Então, Caiã foi ao bebedouro. Assim que tomou as pílulas, sofreu uma overdose. – Olhei para Srta G. Ela concordou acenando a cabeça. - Mas não foi só isso. Também havia marcas de mãos no pescoço. - Verdade. Sabemos que Ana e Claudia tiveram tempo, mas Ana não conhecia Caiã. Logo... – O telefone começa a tocar, interrompendo a agente. Ela atende: - Sim. –Srta. G escutou e em seguida disse. – Está bem. Obrigada. Ela desliga e me diz que a análise da amostra de água do copo que eu coletara já estava pronta. - Eu vou descobri o que era. – A agente foi clara. – Pode esperar? - Sim. E Srta. G saiu. Fiquei pensando nas marcas de mãos. Era como um jogo de xadrez; cada peça deveria estar no lugar certo e o objetivo era derrubar Caiã. A rainha não pode permanecer à amostra, mas escondida, à espreita para atacar. Além do mais, é preciso conhecer as peças do tabuleiro, mas para fazer uma jogada equivocada. A rainha precisa de escolta. Se alguém notar sua posição, logo perceberá que também há outra peça, servindo de segurança, caso o inimigo ouse atacar. O rei pode fugir de uma peça, mas não de duas. - Isso! –Exclamei para mim mesmo. - Foi um xeque duplo. O veneno e o sufocamento para uma única morte. Como não se pode jogar com as peças que não conhece, você jogará apenas com aquelas que conhece. Ouvi um barulho na porta. Era Srta. G. - Cianureto. – Ela entrou afirmando. – O resultado do laudo da água apontou cianureto. Ela tentou me matar, pondo o veneno na água. - Então a madrasta usou o mesmo ingrediente que matou Caiã para tentar tirarlhe do caso. - É obvio. – A agente parecia mais impaciente. - Mas não temos como provar que Dona Nilde deu o veneno a Caiã. - Mas temos uma testemunha ocular. É...


Antes que eu diga o nome da testemunha, senhor Carlos bate à porta. Sento-me enquanto Srta. G o recepciona e pede para ele se sentar. Assim ele o faz. Trocamos cumprimentos e então o senhor questiona: - O que iriam perguntar? Srta. G permanece em pé, com os braços cruzados. - Quem administrava os remédios que Caiã levava à escola? –Pergunto, olhando para o Sr Carlos. - Nilde. Ela fazia questão de dar os remédios. Mas qual o motivo da pergunta? – O pai de Caiã fica curioso. - No dia oito de julho, o dia em que aconteceu o... –Pensei numa palavra menos pesada para o crime. Não queria deixá-lo mais abatido com a morte do filho. – incidente, Dona Nilde não deu o singulair, que é o remédio para asma. Ao invés disso, deu duas pílulas de cianureto, um veneno que em alta dose é fatal. - Como assim? –O pai estava perplexo. Srta. G foi clara: - Caiã teve uma overdose e acabou falecendo. As lágrimas começaram a escorrer dos olhos do Sr. Carlos. Ele apertava as mãos fortemente. - Mas há marcas de mãos no pescoço. -Srta. G lembrou. - Sim. – Concordei. – Mas o senhor terá que ser forte para ouvir como tudo aconteceu. Se não quiser... - Conte. – Ele tocou na minha mão direita, ainda limpando as lágrimas. – Quero saber do acidente. Observei o semblante de Srta. G, amargurada. Decidi poupá-la de contar os fatos. - Na realidade, não foi acidente. – Comecei. – Dona Nilde trocou as pílulas propositalmente. Caiã levou para a aula e, passados quinze minutos após a merenda, por volta das nove horas e quarenta e cinco minutos, ele pediu à professora para ir tomá-los. Logo, ele foi ao bebedouro. Assim que tomou, como a dose era muito alta, principalmente para alguém da idade dele, acabou por ter uma parada respiratória, caindo no corredor. – Pausei por alguns segundos. Sr Carlos enxugou as lágrimas com um lenço que tirara do bolso. Ele acenou a cabeça para que eu continuasse. - Ana, que é


faxineira da escola e tinha acabado de limpar o banheiro, viu o garoto e correu para socorrê-lo. Claudia, que já trabalhou em sua casa e conhece muito bem Dona Nilde, foi ajudar e pediu para Ana buscar socorro. Como ela ficou sozinha com o garoto, teve tempo para sufocá-lo, mesmo se Caiã já estivesse morto. Claudia serviu de garantia para que o crime ocorresse conforme o plano de Dona Nilde. Se Caiã demonstrasse sinal de vida, ela faria o necessário para acabar com o empecilho. Os olhos tristes de senhor Carlos se preenchiam cada vez mais de lágrimas. Chorava de dor e ira. Ele havia confiado fielmente em Dona Nilde. No entanto, não enxergava a malícia e a ganância em uma mulher que passou mais de quatorze anos sendo uma mãe para seu filho, seu jovem e sonhador filho. Srta G confortou o pai do garoto, pondo a mão sob o seu ombro. Continuei: - Dona Nilde ainda tentou forjar um álibi, dizendo que suspeitava do Dr. Thomas. Porém, apenas em seu olhar - Lembrei-me da madrasta na igreja, dirigindo os olhos à esquerda ao responder à minha pergunta. – pude perceber a mentira. O seu desconforto quando mencionei Claudia. As suas respostas nada satisfatórias. Tudo indicava que fora ela quem planejou o crime. - Desgraçada. Como pôde fazer isso com meu filho? – Sr. Carlos começara a se enfurecer, porém permanecia com os olhos encharcados de lágrimas – E aquela babá? Como? Assassina. Srta G acariciou o senhor com mais afago. Ela me olhou com complacência. Vá com calma. - Quanto a Claudia. – Prossegui. - O nervosismo a tornava mais suspeita a cada interrogatório. Ela respondeu que viu Dona Nilde desde que a demitiram. Já Dona Nilde disse que não. Claudia teve tempo para fazer o que fez e simplesmente não havia provas que incriminassem Ana. - E por que mataram meu filho? – Ele questionou com tristeza. - Dinheiro. – Srta. G respondeu. – Apenas dinheiro. Ela sabia da herança e que teria somente uma parte ou, dependendo do testamento, nada. O senhor poderia ser o próximo. Após isso, ela daria uma parte à Claudia e terminaria tudo bem. - Dona Nilde tentou, sem sucesso, tirar agente G do jogo. – Complementei. – Sem a agente, eu seria impedido de continuar o caso, visto que o caso é seu. – Olhei para Srta. G.


Senhor Carlos permanece em silêncio, processando todas as informações que acabaram de chegar aos seus ouvidos. Até que diz: - Deviam jogá-las aos lobos. – Ele demonstra estar realmente abalado com todo esse desfecho. Sinto que chegou a hora. Levanto-me, dou meus pêsames e desejo força ao Sr. Carlos, seguido de um aperto de mão. Acaricio o braço direito de Srta. G, enquanto ela conforta o senhor que está em prantos. O caso está solucionado. Viro-me e saio do escritório. No caminho para a saída da agência, meus olhos começam a brilhar diante da complexidade que o caso. Estou perplexo. O que acabo de desvendar me assusta e me entristece. Até onde a ganância, o egoísmo, o amor ao dinheiro, pode nos levar? Dessa vez, os culpados foram descobertos, mas e quanto aos diversos outros casos similares a este? E quanto às inúmeras crianças que todos os dias têm suas vidas ceifadas pelo ódio e pela cobiça? O pranto do pai do menino Caiã no escritório me faz refletir sobre qual caminho a humanidade está seguindo. Onde tudo isso irá acabar?

Epílogo

Uma semana se passou e finalmente pude dormir tranquilamente. Eu estava na panificadora, sentado no mesmo lugar onde estivera no dia em que o Sr. Carlos me encontrou, quando Srta. G surge na entrada. - Como vai? – Ela pergunta, sentando-se e pondo o jornal sobre a mesa, à minha vista. Tomo um gole de café e respondo: - Bem. Agora que o caso está resolvido acho que irei retornar para as minhas férias. Srta. G balança a cabeça que sim. Observo o jornal. O artigo em destaque me chama a atenção.

Madrasta é condenada por envenenar Caiã


A agente interrompe: - O julgamento foi ontem. – Ela ajeita os óculos. – Dona Nilde foi condenada por trinta e dois anos por homicídio qualificado. - E a faxineira? - Claudia confessou que sufocou Caiã e que receberia uma recompensa da Dona Nilde. Por isso, reduziram a pena dela para vinte e cinco anos. - E o Sr Carlos está melhor? – Deixo o jornal sobre a mesa e me fixo nos olhos da agente. Ela parece melhor. Casos como este nos consome fisicamente e espiritualmente. Com Srta G foi pior. Afinal, a madrasta quase a matara. Ainda bem que já está tudo resolvido. - Sim, mas nada irá trazer Caiã de volta à vida. Eu espero que ele consiga superar essa perda. Concordo. Eu também esperava que o Sr. Carlos superasse a morte do filho, mesmo parecendo impossível. - Preciso ir. – Srta. G se despede, deixando o jornal comigo. - Até mais. - Tudo bem. Até mais. Lendo a matéria, tive mais conhecimento do que acontecera à madrasta e à faxineira. Dona Nilde cometeu homicídio por cupidez, ou seja, envenenou o garoto para obter a herança do Sr. Carlos. É compreensível não mencionarem a tentativa de homicídio, pois a agente G não gosta de se expor. Claudia, como recebeu a promessa de recompensa, cometeu homicídio qualificado, asfixiando Caiã. Não se sabe se o garoto já estava morto ou não, porém a faxineira teve intenção de matá-lo. Ambas não podem pagar fiança, visto que homicídio qualificado é um crime hediondo, isto é, inafiançável e sem direito à liberdade provisória. Em tempos remotos, elas seriam punidas com a morte. Elas se uniram para tomar a riqueza que seria de Caiã, contudo, deixaram pistas e não tiveram controle emocional para disfarçar seu plano maléfico. Qualquer crime, por mais elaborado que seja, no fim acaba por ser descoberto, pois sempre será cometido por meras pessoas. E as pessoas erram. É necessário apenas encontrar o erro, seja através das pistas, seja simplesmente por meio de gestos. Caminhando para o apartamento, encontrei-me com o Sr. Tom. Ele me saudou: - Parabéns, agente.


- Obrigado. – Agradeci, apertando-lhe a mão. – Mas sua ajuda foi importante para o caso. - Eu fico lisonjeado. – O agente sorri. – Estou investigando um esquema de sedução e corrupção de menores. Um agente como você seria um auxílio e tanto. - Desculpe-me, mas nesse momento estou precisando de férias. – Afirmei. O caso do menino Caiã me demandou muito esforço. Não última vez que tentei resolver muitos casos simultaneamente fiquei doente. Desde então, decidi resolver um por vez, com um período de descanso entre um e outro. Melhor resolver um por vez com a mente em equilíbrio do que não conseguir resolver nenhum por estar muito cansado. - Compreendo. – Sr. Tom tira um cartão do bolso e me oferece. – Se mudar de ideia, pode telefonar para esse número. - Tudo bem. – Seguro o cartão. Nele, havia o contato do agente Tom. Despeço-me do agente e prossigo ao apartamento. Ao entrar no meu quarto, abro a janela. O dia estava ameno, com o céu nublado e a temperatura mais baixa. Na rua em frente ao prédio onde eu estava ainda havia muitos carros circulando. Muitas pessoas iam e viam num ritmo frenético, mas foquei os olhos em um grupo caminhando no outro lado da calçada. Parecia uma família. Pai. Mãe. Duas filhas. Algumas sacolas de supermercado. As garotinhas aparentavam ter entre dez e doze anos. A filha menor percebe minha presença na janela. Ela me observa por três segundos e então acelera os passos para agarrar a mão da mãe. Procuro o celular em meu bolso, mas a primeira coisa que apanho é o cartão do agente Tom. Lembro-me da garotinha com a família. As férias podem esperar. Vou abrir uma exceção. Fim

Duas linhas abaixo do nome do a

Intriga  
Intriga  

Escrito por Mateus da Silva Bento

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