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O SONHO Felipe Lopes de Lima

Acordou suada. Os lençóis estavam molhados de rios criados pelo desespero sonífero. Se sonhou algo ruim ou bom, ainda não sabia. Recordou-se apenas de rostos estranhos e embaralhados. Ainda tonta, chegava a ouvir sons misturados a gritos ensurdecedores. Ligou a luz e bebeu um gole d’água, pensando se tivera passado por um temporal daqueles que ocorrem de vez em quando em Manaus. Taciturna, pairou na dúvida. Talvez o suor fosse explicado por gotas que caíram na sua pele, e o vento quiçá a tivesse salvado de um afogamento. “Mas como alguém se afogaria em gotas de chuva e ainda por cima seria salva pelo vento?”. Lembrou-se dos rostos embaralhados de um homem e de uma mulher que se mexiam. Em princípio, não compreendeu os movimentos, ora giratórios ora de vaivém. A mulher, ela, dançava com um bonito homem de olhos claros. “Como assim!? Nem sei dançar valsa! Eu danço é Boi!”, pensou a jovem, vendo seu reflexo no espelho de frente a sua cama. Novamente os olhos claros vieram a sua mente trazendo-lhe a lembrança de um primo do qual tinha repugnância, raiva ou mágoa. “Como alguém tão pouco quisto pode ocupar meu sonho e atrapalhar meu sono? É pra acabar, olha!”. À medida que descortinava o cenário, ficavam mais claras as fisionomias das personagens notívagas que a perturbaram. Estavam eles lá, nus numa cama rodeada por pétalas de rosas brancas e amarelas. A mulher, sorvida pelo homem parecido com uma criança pedinte, derramou leite criando uma novel Via Láctea. As pétalas que os rodeavam transformaram-se em estrelas, cometas e planetas, compondo uma distinta galáxia repleta de corpos distintos, até mesmo de corpos que, estranhamente, ocupavam o mesmo lugar, assim como faziam o homem e a mulher, tornando-se um só corpo. Ele, orgulhoso de si e se sentindo o próprio Narciso a beijava, tendo-lhe como a ninfa Eco, querendo que aquele momento ecoasse nas fantasias de quem ama. A moçoila, louca para dormir mais cinco minutinhos, tomou outro gole d’água e rememorou uma cobra, percebendo que já era tarde demais quando o ser rastejante lhe oferecera uma pupunha e umas fatias de tucumã. Pelo espelho, viu seus olhos se cerrando e entendeu que o casal inventava maneiras sem olhar para o relógio. Não havia


relógio. Os dois corpos mais e mais se unificaram, havendo uma implosão, tamanha era força que formaram. Ela e ele se tornaram pequeninos, incapazes de serem vistos a olho nu. Os dois se reduziram a uma simples e brilhante peteca, bolinha que sugava tudo a sua volta: as estrelas, os planetas, os cometas, toda a nova Via Láctea, a pupunha, o tucumã, a cobra, o leite derramado, o relógio que nem presente se fazia e até o espelho no qual a moça havia-se mirado. Então, a jovem viu que a pequena bola começou a inchar, e a crescer, e a expandir. De repente, Luíza abriu os olhos. Algo simples e nada fantástico havia beliscado sua memória. A mulher era ela mesma, moça de 25 anos, estudante de Química, e o homem era um mendigo com que havia topado na rua enquanto voltava da faculdade debaixo de um Sol que ardia que só. O homem, franzindo a testa e apertando seus olhos bastante azuis, pedira dela dinheiro para matar a sede. Não fosse a acidez do bafo dele, Luíza até poderia acreditar naquele pedido ingênuo. Solidária e também sarcástica, a moça parou em frente a uma taberna e comprou-lhe um saquinho d’água. O mendigo antes de sair correndo, não tardou para mostrar sua raiva. Lançou o saco contra Luíza, molhando a barra de seu vestido, que ora virava para dentro, ora virava para fora, por causa do vento forte do ventilador de teto. “Que bêbado ordinário!”. A moça, soltando fogo pelas ventas, seguiu para casa sem esquecer do abuso do mendigo e dos olhos expressivos do mal-agradecido, os quais muito pareciam com os de seu primo Daniel. Depois desse insight, Luíza não quis mais nada além de dormir mais uns minutinhos e tentar ver suas vontades latentes florescerem. Encostou as pestanas de novo, sem se esquecer de que os gritos eram, na verdade, os de sua mãe, nas insistentes tentativas de fazê-la acordar na hora certa. Duas linhas abaixo do nome do autor devem aparecer o RESUMO. Ele deve c


Sonho, O  
Sonho, O  

Conto escrito por Felipe Lopes de Lima

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