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CONHECIMENTOS DA MEDICINA TRADICIONAL AMAZÔNICA

Luana da Costa Pinto1 Samuel Lucena de Medeiros2

RESUMO Procura-se através deste artigo discutir o abrangente tema que se tornou o uso das propriedades medicinais de plantas amazônicas. Por ser um conhecimento puramente tradicional (ancestral), traz-se à tona todo o arcabouço do saber amazônida, sendo os ribeirinhos os seus guardiões. Assim, a importância e relevância deste conhecimento, que surge no berço amazônico, tornamse o principal intento deste trabalho. Palavras-chave: Medicina Tradicional; Amazônia; Flora Amazônica; Ribeirinho;

1 INTRODUÇÃO A Amazônia se caracteriza, do ponto de vista sócio-antropológico, como local da habitação de vários grupos humanos ao longo de milênios. Estes precisaram se adaptar às condições da imensa floresta para sobreviverem e se desenvolverem como sociedade. Diversos mecanismos sociais foram se consolidando, e as preocupações vigentes de qualquer grupo humano, entre elas a saúde, foram essenciais para a busca do conhecimento do ambiente em sua volta. As necessidades levaram o nativo, verdadeiro morador da maior floresta tropical do mundo, a tentar descobrir os benefícios disponíveis na riqueza da biodiversidade circundante. Deu-se, então, a elaboração de conhecimentos ancestrais, que passaram de geração em geração3. 1

Universidade do Estado do Amazonas (UEA), acadêmica do curso de Bacharelado em Arqueologia (Manaus), pesquisadora e bolsista pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM); email: luanacostapinto@gmail.com 2 Universidade do Estado do Amazonas (UEA), acadêmico do curso de Bacharelado em Arqueologia (Manaus), pesquisador integrante do grupo de pesquisa pelo CNPq: Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Arqueológicas da Bacia Amazônica (NIPAAM); pesquisador e bolsista pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM); pesquisador voluntário em Arqueologia Histórica e Arqueologia Amazônica; email: samuca_slm@hotmail.com 3 Para a elaboração deste trabalho utilizou-se o método de pesquisa a artigos científicos e acadêmicos, bem como obras de renomados especialistas em flora médica Amazônica. Consultou-se também o conhecimento popular de alguns amazônidas.


A produção de conhecimento no contexto amazônico estende-se até a atualidade, quando o saber herdado é posto em prática pela população, tanto a moradora da beira dos rios quanto a que se encontra em ambiente urbano. Sabe-se que um dos principais elementos que estes povos (pretéritos) deixaram para as populações modernas foi o cuidado da saúde de maneira completamente natural. Isto tem sido altamente valorizado nos dias de hoje, dado o aumento de efeitos colaterais e contraindicações presentes nos medicamentos sintéticos produzidos pela indústria mundial. O agravante desta crescente rejeição a medicamentos processados vem dos altos preços em que são vendidos, muitas vezes ficando fora do alcance econômico de boa parte da população em geral. 2 HERANÇA ANCESTRAL A região amazônica, especificamente, possui a capacidade de chamar a atenção por sua biodiversidade e oferta de espécimes, principalmente vegetais, que são os mais usados nas práticas curativas tradicionais. Desde os primeiros momentos de invasão estrangeira, as muitas formas de tratamento e prevenção nativas foram notadas e descritas pelos viajantes e cronistas. O imenso adensamento populacional que existia na Amazônia quando da entrada de europeus pelo imenso “Rio-mar” (Amazonas), estava sustentado por organismos sociais que funcionavam como um sistema autossustentável e ecológico, onde a utilização dos recursos naturais, feita de maneira planejada e pensada, não causava impactos irreversíveis ao meio ambiente. Exemplos disso são os métodos de obtenção de alimentos: pesca, caça, apresamento de espécies animais e consequente domesticação ou “proto-domesticação”; obtenção de terras férteis para o uso nos plantios: áreas de várzea (naturalmente enriquecidas pelo material deposicional das águas dos rios), escolha de locais específicos e de reutilização em sistema de pousio, como a prática da coivara; obtenção de material vegetal para construções e indústrias materiais: conhecimento e conseguinte uso de palmeiras e cascas de árvores, no uso das fibras vegetais; também as formas de obtenção dos materiais e matérias-primas para o uso medicinal em comunidade: demarcação de espécies vegetais para a coleta de partes da planta, criação de “hortas” para manter a disponibilidade de remédios a serem oportunamente utilizados.


Este passado, cada vez mais distanciado pela falta de conhecimento e interesse nas tradições amazônicas (com algumas exceções), sobreviveu de forma quase latente, mas sempre se fazendo presente no dia a dia do amazônida, principalmente daqueles que ainda mantém um contato direto com a floresta. Esta se torna a provedora de saúde, também da subsistência, das famílias ribeirinhas, que em sua maioria não possui condições de se consultar em escritórios médicos. No entanto, não ficam à deriva na espera do pior, pois, assim como seus ascendentes familiares, os avós e bisavós, aprenderam a como curar os males da saúde com as ervas e essências naturais da mata. 3 AMAZÔNIDAS E PLANTAS MEDICINAIS A área de estudo da Etnoarqueologia procura resgatar os conhecimentos antigos e produzir novos, a partir da tentativa de revalorização dos mesmos, ao passo que uma vez passaram a fazer parte da história cultural das sociedades amazônicas, sejam elas anteriores ou presentes ao nosso tempo. Aqui serão tratados conhecimentos etnoarqueológicos, mais especificamente de etnobotânica, através da apresentação de duas espécies vegetais utilizadas hoje na medicina popular: a Andiroba e o PinhãoRoxo 4 . Estas espécies podem ser encontradas tanto em quintais, áreas próximas às casas, ou mesmo em hortas. A conhecida Andiroba (Carapa guyanensis) vem sendo empregada em tratamentos na medicina popular há séculos. Comum é ouvir de alguém mais velho sobre como sua avó utilizava a Andiroba, ou Andirobeira, para tratar de doenças e transtornos da saúde. A outra espécie, Pinhão-Roxo (Jatropha gossypufolia), é também de conhecimento de quase que a maioria dos interioranos. É empregada toda a planta, sem exceção de partes, sendo utilizada em: úlceras pépticas, diabetes, neoplasias, diarreias, como cicatrizante e diurético. Na Venezuela em prega-se a raiz para o tratamento da Hanseníase. É de igual uso como para “limpeza” do sistema digestório, mas é purgante fortíssimo, de uso perigoso sem o conhecimento necessário. Mais uma vez fica claro que, para o uso adequado dos remédios naturais, o ato de dar prosseguimento ao saber recebido dos mais velhos, guardiões do conhecimento tradicional, é de suma importância.

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Entenda-se “popular”, neste trabalho, como sendo semelhante a “tradicional”, no contexto amazônico.


Figura 1: Frutos do pinhão-roxo.

Figura 2: Folha do pinhão-roxo.

Fonte: ileoyabale.xpg.uol.com.br

Fonte: chicopoeta.com.br

Já da Andirobeira, empregam-se as cascas das hastes para infusões, as amêndoas (sementes), e o óleo extraído das sementes. A extração é feita de maneira artesanal, onde as sementes são coletadas, lavadas e preparadas, e postas ao ar livre para que sofram a ação da radiação solar. Assim as substâncias oleaginosas são expelidas pelo calor, sendo captadas por recipientes, onde serão conservadas para uso eventual. As doenças que podem ser tratadas são: úlceras, herpes (alguns tipos), parasitas, ferimentos em geral, doenças respiratórias, e também serve como repelente. Este último uso é milenar e identificado ao longo de toda a extensão da floresta amazônica, não apenas no Brasil. Alguns povos indígenas ainda fazem esta utilização como modo de espantar os mosquitos. Há um número crescente de estudos, que têm sido feitos para a catalogação e registro de outras espécies vegetais, que são consideradas importantes no universo caboclo, tanto no tratamento da saúde física quanto espiritual. As tradições milenares dos indígenas, no campo dos rituais curativos (“xamânicos”) e de pajelança, têm sido refletidas nas comunidades ribeirinhas. É comum encontrar num povoamento ou vilarejo alguém que é respeitado por todos por deter determinado conhecimento transcendental, que diz ser capaz de curar e espantar o mal das pessoas. Fala-se então da figura das rezadeiras e benzedeiras, que utilizam e cultivam plantas medicinais. O conhecimento é assim repassado aos mais jovens, que assumem a responsabilidade de preservar a tradição cabocla.


Figura 3: Coleta e limpeza da andiroba.

Figura 4: Sementes da andiroba.

Fonte: Ximena Morales Leiva/OPAN

Fonte: belezadacaatinga.blogspot.com.br

Essas duas espécies vegetais, entretanto, começaram a ser utilizadas pelas sociedades amazônicas no período do Pré-contato, antes dos europeus interferirem no modo de vida destas populações. Comumente, em sítios arqueológicos de habitações ou assentamentos, encontra-se significativo número de plantas de uso medicinal, como as citadas anteriormente. O interessante é que os modos de utilização nas curas, tanto caseiras quanto comunitárias, resultam em melhoras significativas no estado de saúde do adoentado. Isto tem sido explicado por estudos em botânica e bioquímica, que mostram e confirmam os benefícios desses remédios naturais, sejam eles chás, infusões, banhos, pastas, loções, alimentos, etc. São demonstrados esses efeitos curativos pela presença de princípios ativos nas plantas, que acabam por reafirmar a validade dos conhecimentos tradicionais. Estes estudos que utilizam a inter e pluridisciplinaridade vêm se tornando cada vez mais comuns, à medida que proporcionam o registro dos conhecimentos e, consequentemente, ajudam a divulgar a riqueza e importância dos mesmos para essas populações tradicionais, tão importantes para a sustentação e manutenção dos seus pilares socioculturais. Há, porém, uma face de aspecto negativo quando da difusão em meio comercial das propriedades medicinais de determinadas das plantas amazônicas. Não é raro ter conhecimento de casos terríveis de exploração ilegal da flora, assim como as estratégias de baixo nível para a obtenção de altos lucros por parte de grandes empresas e laboratórios médicos, quando a própria população, que é detentora do saber acerca dessas plantas, acaba por ser esquecida ou excluída do processo de geração de recursos.


É diante de todos esses problemas que chega o momento do avanço das pesquisas e interesses, até mesmo internacionais. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Grande parte do conhecimento tradicional médico, conhecido na Amazônia, deve-se aos nossos antepassados, tornando o reconhecimento desses saberes necessário para a preservação de nossa memória. A coletividade dessas memórias faz surgir um sentimento de compartilhamento, e constitui um patrimônio que é comum a todos os amazônidas.

REFERÊNCIAS AGUIAR, Madalena Otaviano; FREITAS, Elaine do Nascimento Malheiros. Plantas da ilha de Duraka – São Gabriel da Cachoeira – Amazonas, Estudo etnobotânico. 2ª edição. Manaus: Editora Valer / PPBio – Inpa, 2006. CARNEIRO, Robert L. A base ecológica dos cacicados amazônicos. Revista de Arqueologia, 20: 117 -154, 2007. CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1994. CLEMENT, Charles R., et. al. The domestication of Amazonia before European conquest. Royal Society Publishing, 2015. FERNANDES, Theófilo Santos. Bioatividade de extratos aquosos de Pinhão-Roxo. Programa de Pós-graduação em Agronomia do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Piauí, 2012. LE GOFF, Jacques. Memória. In: Enciclopédia Einaudi. Edição Portuguesa Imprensa Nacional – Casa da Moeda, v. 1, 1984. MARTINS, Alexandro Sozar et al. Avaliação de minerais em plantas medicinais amazônicas. Revista Brasileira de Farmacognosia, 19 (2B): 621- 625, Abr/jun. 2009. MATTA, Alfredo Augusto. Flora médica Brasiliense. Editora Valer, 2003. MENDONÇA, Andreza P.; FERRAZ, Isolde Dorothea Kossmann. Óleo de andiroba: processo tradicional de extração, uso e aspectos sociais no estado do Amazonas, Brasil. Acta Amazônica, 2006. MENDONÇA, Maria Silvia de et al. Etnobotânica e o saber tradicional. Pp. 91-106. In: Comunidades ribeirinhas amazônicas: modos de vida e uso dos recursos naturais. Organizadores: Therezinha de Jesus Pinto Fraxe, Henrique dos Santos Pereira, Antônio Carlos Witkoski. Manaus: EDUA, 2007.


MING, Lin Chau. Plantas medicinais na Reserva Extrativista Chico Mendes (Acre): uma visão etnobotânica. São Paulo: Editora UNESP, 2006. ROOSEVELT, Anna Curtenius. “Arqueologia Amazônica”. In: CUNHA, Manuela C. da. História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. pp. 53-87. SANTOS, Fernando Sergio Dumas. Tradições populares de uso de plantas medicinais na Amazônia. Departamento de Pesquisa da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, 2000. SANTOS, Francisco Jorge. História Geral da Amazônia. 4ª edição, Rio de Janeiro: MEMVAVMEM, 2011.

Conhecimentos da medicina tradicional Amazônica  

Autor: Luana da Costa Pinto e Samuel Lucena de Medeiros

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