Page 1

ARAÇÁ

Samuel Lucena de Medeiros

Araçá da minha roça A saudade chega aqui. Não leve a mal que eu não esteja Mais disposto a suar, É que a vida nova que levo O coração sobrecarrega e faz cansar.

Araçá da minha enxada Quem me dera se o trabalho Pudesse eu faltar. Deixar não é opção, A mulher e as crianças Tenho de sustentar. Mas a saudade da minha terrinha Que tanta alegria me deu Amarga o meu pesar.

Araçá, caboclo meu, Lembra-te das tardes indômitas? A terra rachando sob os pés Inda que a sombra podias me dar.


Aqui onde agora vivo o calor não cessa, Nenhuma árvore encontro Que me esfrie a testa.

Araçá do meu socorro. Quantas vezes foste o suco, O pão, a massa, o sangue Da família minha? Soluçar é o que mais faço Ao lembrar que oportunidade tive De voltar ao meu pequeno lar.

Araçá do meu sustento, Quem me dera pudesse Agora na espelunca de papelão que moro, Desfrutar novamente a tua companhia. A feira que se apresenta a mão amiga Acaba por roubar os pobres. Vi-te um dia, mas, sem dinheiro, Passei desviando. Araçá, infância minha, Estarás ausente da memória De meus pequenos filhos. O que recordarão será o ensurdecedor, Emudecedor barulho dos automóveis, Onde fazem de tudo para conseguir,


Por menor que seja, Um pedaço de pão.

Araçá da minha roça, Traz a simplicidade que eu tinha, Regada de companhia e conversas O sol descendo e o papo indo. Mesmo dura, a vida que eu tinha, Araçá, não se compara ao inferno da cidade. Quero morrer no meu lugar, De velhice, não pelo esgoto, Nem corroído de saudade culposa.

Araçá  

Autor: Samuel Lucena de Medeiros