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A ÚLTIMA ROÇA URBANA DE MANAUS1

Ellza Souza2

RESUMO Aborda um momento ímpar de trabalho pioneiro no Estado do Amazonas, no âmbito da Arqueologia Urbana, que contemplou o Resgate da Memória Oral junto à população de reassentados involuntários, ou não. Nascida e criada num dos bairros mais antigos de Manaus, nunca havia passado pela minha cabeça que ainda pudesse existir em plena área urbana uma “roça” nos moldes tradicionais das comunidades ribeirinhas. E logo ali no bairro da Glória vizinho a São Raimundo, onde nasci. Na ocasião fiz alguns registros: fotográficos, anotações e gravações dos depoimentos das pessoas envolvidas. E escrevi esse texto baseado nas informações e nos relatos da família de Celina e José. Infelizmente durante o processo de revitalização da área em que se encontrava a roça da família em face do Prosamim III, o sonho do casal de ter “uma rocinha” na cidade, foi bruscamente interrompido. Palavras-Chave: Roça Urbana; Prosamim.

Foto 1: Chegada ao local da roça

1 INTRODUÇÃO Registro da Memória Oral realizado em 24 de fevereiro de 2014 em uma das áreas de um dos trezes Sítios Arqueológicos Urbanos do PROSAMIM III, o Sítio MDPCA/KaKo Caminha (AM-MA-122). 1

Texto originalmente escrito, tendo por base o Resgate da Memória Oral, componente do Projeto de Arqueologia realizado no PROSAMIM III. 2 Jornalista, autora de São Raimundo – Do “alto” da minha colina.


Componente da equipe de especialistas, não tenho a pretensão de falar de arqueologia. Pelo contrário, como jornalista de formação, trazendo na bagagem alguns livros e textos publicados, ao receber o convite para assumir a coordenação do Resgate da Memória Oral das comunidades do igarapé de São Raimundo (entendendo-se como tal, seu leito e suas margens), busquei superar a carência de referencial teórico e me lancei à empreitada de ouvir o máximo de moradores atingidos pelo programa de governo, sendo plenamente recompensada com descobertas como a narrada a seguir.

Foto 2: Área de intervenção do Prosamim III no bairro da Glória onde se encontra a roça.

2 A ROÇA Cheguei ao bairro da Glória às 7h30 da manhã de 24/02/2014 na Rua Osvaldo Cruz. Fui até a casa de Celina Gomes Justino, 74 anos e José Frazão Pereira, 73, que é o último número dessa rua, já na beirinha do minúsculo rio formado por águas do igarapé de São Raimundo. A casa é de madeira, estilo palafita com muito lixo embaixo dela. O pequeno rio está completamente poluído pelo excesso de detritos jogados pra todo lado. A ideia era conhecer o casal e fazer o registro com fotos e relatos, mas fui recebida com tristeza. Dona Celina foi hospitalizada e seu José estava com ela. Mesmo assim atravessei o igarapé, curto e sujo, por uma tábua lisa de lodo e cheguei à outra margem onde existe uma plantação de macaxeira. O lugar, apesar da sujeira, tem aquela exuberância do Iranduba marcada pela terra preta com muito húmus. “Aqui plantamos a macaxeira e jerimum e já tivemos milho e outras plantações” disse Francineide, 57 anos, entre uma lágrima e outra, devido à internação de sua mãe. “É muito grave o estado dela”.


Foto 3 Macaxeira e flores no terreno fértil

Foto 4: Casa de Celina e José e a roça

Junto à roça naquela beira de igarapé, num terreno acidentado, a família faz farinha seca e vende terra preta com “paú”, boa para jardinagem. Celina e José vieram há muitos anos de Coari onde tinham roça e vindo para a capital encontraram essa terra fértil para continuar trabalhando na atividade que estavam acostumados. O casal, os cinco filhos do primeiro esposo de dona Celina, genro e os netos que foram chegando, todos ajudam e circulam em meio aquele ambiente de interior. Nas redondezas tem grandes árvores como um taperebazeiro cujas frutinhas alaranjadas misturadas a terra fartamente inundada pelo rio fazem dali um campo próprio para as plantações.

Foto 5: Francineide e o taperebazeiro

Na casa de farinha, ao lado da roça, estavam alguns familiares como o Daniel, 26 anos, que torrava a farinha: “Tem que torrar durante uma hora pelo menos mexendo sem parar”. Essa farinha, disse Daniel, “é uma mistura da macaxeira branca com a mandioca amarela”.


Foto 6: Casa de farinha

Sentadinha, observando, estava uma menininha de uns sete anos, beliscando o frutinho dourado do taperebazeiro. Francineide, filha da Celina, que amassava a polpa da macaxeira, parou um pouco para conversar. Chorava pelo estado crítico de sua mãe. Fátima, a irmã mais velha, também chorando, falou da situação difícil da família. A família coariense está ciente que vai sair dali em face do Prosamim. “Estamos só esperando o pagamento”, disse Fátima. Ao saírem do local, o trator passa, o aterro chega, o igarapé seca, a comunidade muda, as pessoas vão embora. “Nunca recebemos ajuda de ninguém para melhorar a nossa roça”. Portanto o objetivo de mantêla era mesmo a sobrevivência e o amor de seus pais por essa atividade milenar. E o choro deles é, em parte, pelo fim do sonho de sua mãe Celina que não esmoreceu diante das dificuldades na grande cidade mantendo a família unida ao redor de macaxeiras, taperebás e flores. O lixo no rio “vem de longe”, como todos dizem nas beiradas poluídas dos igarapés de Manaus. A família não sabe para onde vai. Alguns dias depois d. Celina faleceu no hospital. Mas tarde a família foi reassentada em local que não sabemos.

A última roça urbana de Manaus  

Autor: Ellza Souza

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