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A OUTRA MARGEM Ecila Lira de Lima Mabelini

(...) amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens. (Guimarães Rosa) Desde que li as primeiras linhas daquele diário não consigo parar de pensar em tudo que havia nos detalhes tão rentes à pele... naquele mundo todo de loucura e de paixão. E o mais estranho disso tudo é que aquele era o mundo de segredos da minha mãe! Afinal, quem seria eu para julgá-la? Para atirar alguma pedra? E tal qual Maria Madalena ela não mereceria perdão? Logo eu que nunca conheci o amor, a entrega... Era impossível não pensar sobre tudo isso diante daquela pintura fauvista que escancarava, com certa inocência, corpos nus e ardentes, ainda pior era não lembrar dos talhes daquelas bocas suadas que tão bem se seguiam em sendas docemente conhecidas! Meu Deus, como mensurar a eternidade de um momento sonhado por dois alucinados que no auge do vacilo amoroso transcendem ao último andar do imaginário e em tom de meiga cumplicidade e tamanha verdade materializam, por meio de palavras, o que não pode ser materializado? E eis que, não contentes, formulam o encontro insólito no plano subterrâneo de uma memória sedenta por armazenar pormenores, de tal modo que os inventa na tentativa de alimentar duas almas perdidas em busca de uma luz capaz de infinitamente iluminar e aquecer como o fogo, mesmo que esse fogo também queime com a mesma intensidade que aquece a essência. Penso que era como o fogo cantado no amor de Camões. E, talvez, seja essa a palavra exata no meio da grande inexatidão de sentimentos aflorados inesperadamente. Lá no fundo ela sabia que viver tudo aquilo não seria fácil, mas se deixou tomar por algo tão inexplicável quanto o encanto dos contos de fada e a promessa de felizes para sempre. Em contrapartida, eu não pude, em momento de desespero, deixar de pensar no belo e no trágico daquele arranjo onírico entre duas pessoas que se queriam, que se desejavam sem medida desde o primeiro momento em que seus ouvidos se tocaram. Não me furtei,


ainda, a pensar que era o encontro improvável entre Francesca e Roberto e que nele havia um toque mágico próprio das grandes narrativas românticas carregadas de poesia. Quem sabe até uma espécie de alusão à força trágica que me reporta ao “Amor de perdição”, cuja descrição amorosa é capaz de levar os mais incrédulos ao choro-borbotão. O certo é que eles não poderiam cumprir aquele acaso na sua plenitude! Não poderiam ser vencidos pela loucura aflitiva de um momento avassalador e quimérico. Não! Subitamente senti o que parecia ser um frio petrificante na espinha, a garganta começou a fechar, doeu-me o peito... chorei. Nessa hora, seguir com a leitura pareceu algo impossível. Afinal, o que eu estava fazendo? Invadindo o mundo sagrado de minha mãe? Maculando aquele espaço encantado? E depois que terminasse a leitura, como eu olharia para ela novamente? Sim, porque agora ela não era mais aquela menina cheia de desenhos coloridos e sonoros na cabeça, mas uma senhora a carregar seu sereno mundo de silêncios no peito. Francesca era essa mulher com o passar calmo-passarinho, cabelos feito nuvens alvas e perfumadas, a de olhos grandes e indecifráveis. Mais que isso: era minha fiel companheira desde a morte de meu pai e o fatídico dia em que minha irmã Josefa resolvera tentar a vida em Manaus e, desde então, sequer mandou qualquer notícia. Zefinha sonhava em trabalhar no Distrito Industrial, passear pela Zona Franca e conhecer o Teatro Amazonas! Talvez tenha gostado tanto da nova vida que até se esquecera de nós... esquecera de voltar. Por um momento esperei acordar e perceber que havia sonhado tudo isso. Mas a essa altura era tarde demais, e eu realmente estava lá, tão atolada naquele mundo particular de minha mãe que era capaz de sentir cada sensação, cada movimento. E foi justo quando deparei com o tamanho da dor que se esgueirava sorrateiramente entre as linhas seguintes desse “país das maravilhas”, descrito com rigor machadiano, que senti uma vontade serena de pegá-la no colo, abraçá-la forte e dizer alguma coisa que a fizesse sorrir luminoso como antes. Talvez não dissesse nada, ainda assim um nada esvaziado de tudo que fizesse doer. Era o meu desejo. A verdade é que minha mãe não saberia viver com o sentimento de fratura. Ela não conseguiria viver com a ideia de traição e abandono. A lealdade, de modo estranho, era muito cara a ela! Além de tudo, a criação castradora havia feito dessa mulher um tipo de adorno de que até se orgulhava, porque apesar das asas ela carregava a triste sina de


um pássaro que aprendera a não voar. Na realidade, agora começo a pensar que ela nunca soubera, de fato, o que era amor ou amar, sentir prazer, gozar... Apenas repetia o que recebera como herança maldita de uma sociedade machista, sexista e carcomida pela hipocrisia alheia das outras gerações. Minha mãe era uma infeliz. Também lamento por isso, como lamento por ela ter vivido toda essa dor sozinha, por não ter podido voar por si. Mas entendo que ela tenha feito isso por mim e por minha irmã. Sei que também pensou muito no meu pai, que apesar de tudo foi um bom homem, embora hoje eu saiba que não era ele o grande amor da vida dela. E, com muita certeza, não é por causa dele que ela ainda caminha todas as tardes, pontualmente às cinco horas, em direção à praça da Igreja Nossa Senhora das Dores da nossa linda cidade Manicoré, senta no banco mais próximo à mureta de proteção, onde se inclina a ver o beiradão, e aprecia com semblante indizível o correr imponente e belo do rio Madeira que se move bem à sua frente. Estranhamente, diante dessa imagem, me pego a pensar nas razões que a levaram a me dar o nome de Alice e em toda a motivação para que eu tomasse o rumo das Letras, me tornasse professora de Literatura. Roberto era diferente. Do tipo adorável idealista, um escritor apaixonado pela vida, pela poesia das cores e dos sabores. Ele pintava palavras com maestria, tinha a escrita como combustível diário. Amava a poesia e achava que ela inundava sua vida inteira. Também tinha uma alma clandestina, e disso minha mãe sabia como ninguém. De qualquer maneira, era impossível não amar pessoa cativante e tão viva! Ele era de São Paulo, um jovem viúvo, e morava em Manaus desde a aprovação em concurso público para carreira no magistério na Universidade Federal do Amazonas, a UFAM. Costumava deixar claro que a razão de ter vindo para o Amazonas se justificava pelo fascínio e curiosidade que cultivava sobre as culturas e diversidades que faziam da Amazônia um mito. Isso tudo me fez pensar na força do acaso e na maneira como este faz seus arranjos, entretece os destinos. Porque, decerto, foi por obra dele que Roberto chegou à nossa cidade para ministrar aulas pela UFAM, trabalhando com sua outra grande paixão, a Literatura! À medida que eu retomava a leitura do diário de minha mãe, notei o que soava como uma espécie de mantra a brotar naquelas linhas... Sibilava uma voz suave e forte tal


qual um lamento: “Bendito dia aquele em que nos conhecemos no acaso dos encontros dos desencontros. Naquela tarde ensolarada na praça central de minha cidade, eu lá olhando a outra margem do rio, ou de mim, talvez... quando ouvi uma voz grave e doce que desaguava em mim e mexia com minha solitária percepção sobre a vida... ”. Seguiase a isso uma pausa extensa que ela fez usando reticências contínuas, simbologia aparentemente estranha, mas que carregava a força e a beleza do rio correndo desenfreadamente para desembocar no seu destino, e nesse caso, tão intencionalmente, desembocava diretamente nos versos de Roberto que ela, ritualisticamente como num canto de celebração indígena, entoava em acordes de invejável memória imperecível ou ainda como se trouxesse aquele canto tatuado no epitáfio de sua memória: A outra margem do rio está lá! Às vezes é possível vê-la... Às vezes ela é como uma ponte kafkiana, Às vezes ela é desmedidamente margem roseana, Às vezes ela é como um muro machadiano, Às vezes ela é um conto rubiano, Às vezes é tão ao estilo euclidiano, Às vezes é tal qual o áporo drummondiano E outras vezes... Tantas vezes: Margem. Ao fim do último verso, sorri. E inundada pela força dessas águas, convenci-me que apesar de tudo ou de qualquer coisa que eu pudesse pensar sobre isso, este fora o “amor de salvação” de minha mãe. Francesca sempre gostou de literatura, mas nunca teve oportunidade de continuar os estudos, pois como é comum na maioria dos municípios do nosso Estado, o que não é uma realidade particular só de nossa região, ela engravidou aos quinze anos (uma criança!) e a família exigiu casamento. Meu pai Misael já era um homem maduro quando a conheceu. Ele não chegou a terminar o ensino médio e trabalhava duro com o pai na agricultura local onde cultivavam banana e melancia, embora fosse na produção de farinha, carro chefe de tudo que enviavam a Manaus, que o trabalho dobrasse. Da mesma forma, minha mãe também não chegou a finalizar o


fundamental. E é em meio a tudo isso que desejo acreditar que, em parte, aquela rudeza e a visão tão curta de meu pai sobre a vida se deva a fatores culturais e ideológicos familiares em que as mulheres eram tratadas como uma espécie de “animal domesticado”. E que era por isso que ele sempre deixava claro que não queria que minha mãe saísse de casa e muito menos que deixasse de cumprir os afazeres por conta de ficar lendo livros que não iam para a lavoura e muito menos colocavam “comida na mesa”. Ela, por sua vez, tinha uma fome inconteste e devorava, escondida, todos os livros que conseguia. Era uma legítima amante da leitura literária e seus arredores que tão bem descortinavam o mundo ao seu entorno descolonizando-a, dando-lhe a serenidade dos livres, mesmo quando se sentia cativa do espaço e do tempo, seus maiores algozes. E foi ainda nessa página que li, com o peito estufado, o relato entusiasmado de minha mãe sobre a origem de seu nome. Contou que minha avó Florência, quando grávida de oito meses, esteve em Manaus na casa de uma irmã e assistira a um filme chamado “As pontes de Madison”, cuja história a deixou em estado de encantamento, foi então que minha avó resolveu dar a minha mãe o nome da protagonista que se chamava Francesca e não Francisca como queria, por força, meu avô Geraldo. Sim, minha mãe se orgulhava desse feito de minha avó, pois mulher, já naquele tempo, não tinha força de decisão. Sem contar que no longo caminho até o cartório, meu avô poderia ter mudado o nome dela, como fizera com os nomes dos outros cinco filhos, escolhidos, como se sabe, sem sucesso por minha avó. Minha mãe, diante do silêncio ensurdecedor de minha avó sobre a história do filme, claro, ficou muito aguçada por assisti-lo. Afinal, era o filme do seu nome, mas o certo é que ela nunca o fizera. Nesse espaço, ainda notei, em caixa alta, bem ao lado do nome de minha avó a palavra ROMÂNTICA. Acho que ela deveria ser mesmo, e minha mãe talvez tenha puxado a ela. Na página seguinte fui transportada para um momento de simplicidade e magia. Descobri que todas as tardes, naquela semana do ano de 1955, em que meu pai viajou a Porto Velho, minha mãe esteve na praça. E foi num desses dias, quando já quase engolida pela distração diante da beleza do rio, que conhecera Roberto! Desde então cumpre seu ritual de despedida. Ela nunca mais deixou de olhar o rio e a outra margem. Francesca e Roberto, um amor que durou a eternidade num único encontro! E que encontro! Eles


correram o risco. Ela planou num voo único e responsável por lembranças para uma vida inteira. Pensativa, fecho o diário, são quatro horas da manhã. De maneira estranha acordo com uma sensação de leveza, e porque o dia amanheceu mais luminoso, resolvo caminhar até a praça e sentar no banco das lembranças de minha mãe para ler as últimas linhas daquela história de rios e margens. Estremeço ao ver o marcador de página. Toco-o. E meus olhos sensivelmente acariciam as primeiras palavras. Foi com o coração acelerado, confesso, que cheguei aos últimos dizeres sobre os nobres amantes. Aqueles davam conta de que passados alguns anos sem notícias de Roberto, minha mãe recebera uma carta dele. Nela dizia o quanto ele estava doente. E que em fase terminal resolvera voltar a morar em São Paulo para ficar perto dos seus. Dizia ainda que nunca havia esquecido de minha mãe. E preso por um clipe dourado em formato de pássaro, nessa mesma carta, havia outro escrito. Agora tocada, abro-o lentamente e resolvo silenciar para fora: Cinco horas! As almas murmuram num átimo. Todavia, três é ímpar e é desigual ao que o instante cala e constrói em meio a um silêncio ensurdecedor... E, nesse contexto em que tudo se repete, mas nunca é igual, três deixa de ser apenas matematicamente racional, pelo fato (ou acaso!) de ímpar, mesmo, ser a idealização da loucura prescrita no querer estar junto. Então, realidade e racionalidade se rendem ao momento de alucinação consciente dada a ver em doses homeopáticas de inconsequência e absurdos de um amor sem fim. De repente, não mais que de repente tempo e espaço estão suspensos, tal qual no conto de fadas em que o era uma vez, embora marcado/determinado pelo verbo, apaga a cruel realidade da temporalidade e da espacialidade e suspende-as, indetermina-as, propositadamente, para garantir a duração anunciada pelo tão esperado fim sem final: felizes para sempre como uma espécie de prêmio irônico àqueles que não tiveram medo de correr o risco e aceitaram a prova, mesmo que para subverter o cânone da história em que os bons são premiados e os maus castigados. Nesse caso, e somente nesse, a materialização do onírico é concedida aos que burlaram a convenção do ser e estar e mostraram que uma coisa pode ser outra coisa. Coisa só de contos de fada? Não! Coisa de quem acredita que o amor está em tudo e não num espaço previsto. Coisa de quem no auge da alucinação necessária se


permite a fluidez e sabe que nesse delírio de almas inquietas, o gosto gostoso do absurdo prevalece uníssono a clamar: ‘Que minha loucura seja perdoada, porque parte de mim é amor... E a outra parte também’. E eis que, finalmente, as partes explodem em desvarios santos, que só os loucos sabem, enquanto a Razão se desata a sussurrar no ouvido mouco dos amantes: “Deus não só joga dados, mas Ele ainda os esconde!” Ao final da leitura resolvi que deveria falar... dizer alguma coisa. Retratar-me, de alguma forma. Então prendi com o mesmo clipe da carta de Roberto, um outro bilhete: Ela enterrou todo os sonhos para viver uma vida de detalhes e talhes cotidianos. Por muito tempo viveu sob os escombros das migalhas de si. Apagou-se como mulher, esquecendo-se que carregava um corpo desejoso de insanos gozos. E eis que o acaso, disfarçado de fada madrinha, atravessou as pontes e fim. Não, ela não viveu feliz para sempre... Mas conheceu um tipo de certeza que só se tem uma vez na vida! É certo que em tempo algum fui capaz de falar sobre nada disso com minha mãe... tampouco ela comigo. Mas é verdade também que nunca mais me privei de dar-lhe abraços bem apertados como forma de agradecimento por ter me ensinado a acreditar nos acasos do amor, tão manso e misterioso quanto o rio e sua outra margem.

A Outra Margem  

Autor: Ecila Lira de Lima Mabelini