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A Crise do sistema de produção gomífera na Amazônia (1908-1945) Fábio Augusto de Carvalho Pedrosa1

RESUMO As crises econômicas são uma constante na história da humanidade, trazendo consigo desdobramentos que afetam, além do meio econômico propriamente dito, o social e o político. A crise da economia gomífera, que atingiu a Amazônia em meados do século XX, marcou – e ainda marca – profundamente a região, que se alicerçou por mais de três décadas na exportação de um único produto, sofrendo com a perda de seu monopólio. Não só o Norte, como o restante do país sentiu seus efeitos, pois a região era responsável por uma fatia considerável da arrecadação nacional. Este artigo científico tem como objetivo analisar a crise da economia gomífera na Amazônia, os agentes envolvidos no processo e seus desdobramentos em nível regional e nacional e as tentativas de recuperação, bem como as produções historiográficas e sociológicas sobre o período em questão. Palavras-chave: Economia gomífera; Crise; Historiografia; Sociologia; Amazônia

1 INTRODUÇÃO O presente artigo é fruto de uma pesquisa realizada no final de 2016 e foi originalmente publicado no blog História Inteligente com o título “A economia gomífera na Amazônia III: A crise” em março de 2017, integrante da série de postagens “A Economia Gomífera na Amazônia”, dividida em três partes. Desde o final do século XIX que a Amazônia, ou melhor dizendo, as principais cidades  dela, vinham experimentando um crescimento econômico jamais antes visto. O trabalho   semiescravo   do   seringueiro   deu   origem   a   um   dos   mais   importantes   processos econômicos   do   Brasil   moderno,   e   tornou   a   região   Norte   uma   das   principais   fontes   de arrecadação   pública.   O   que   ficava   da   arrecadação   de   impostos   das   movimentações econômicas   sustentou   as   elites   de   Belém   e   Manaus,   que   utilizaram   essas   divisas   para modernizar, de forma parcial, suas capitais. Em meio ao sofrimento do seringueiro e o furor das capitais, a borracha asiática começara a aparecer de forma expressiva no mercado mundial, atingindo, em 1908, cerca de 1.800 toneladas. Na Europa, o excesso de produtos fabricados com a borracha e a falta de mercados consumidores fez as importações da borracha brasileira caírem pela primeira vez. A partir de 1910, começara a crise que culminou na estagnação da região até 1960, quando outras alternativas surgiram, com destaque para a Zona Franca. Embora ainda seja bastante utilizada, há um bom tempo a ideia de Ciclo Econômico está ultrapassada. De acordo com João Pacheco de Oliveira Filho (1979, p. 102), […] a noção   de   ciclo   impôs­se   como  modelo   de   organização  dos   fatos   históricos   ligados   à


produção da borracha na Amazônia”. Essa noção de ciclo é generalizante e omite outras categorias de análises, como as diferentes forças e trabalho e as relações produtivas no interior do seringal. Desse modo, optou­se pela utilização do termo  sistema de produção gomífera. A princípio buscou­se falar da crise apenas a nível local, seu desenvolvimento na região. Mas a partir de outras leituras e de fontes da época, percebeu­se a necessidade de se enfatizar seus efeitos no restante do país, na medida em que a borracha amazônica foi o segundo produto mais exportado, atrás apenas do café. Também procurou­se apresentar um breve panorama das produções historiográficas e sociológicas sobre o período, de forma a mostrar as diferentes interpretações que este teve através do tempo. O recorte cronológico utilizado é baseado na entrada, no mercado internacional, das primeiras levas expressivas de borracha asiática, que passou a comprometer o monopólio amazônico, além do excesso de manufaturados na Europa, que sem mercados consumidores diminui a importação do produto; e a delimitação estabelecida pela historiografia clássica que vê em 1945 o fim do segundo e último sistema de produção gomífera (1942­1945), ainda que existam ressalvas sobre tal recorte. As fontes utilizadas nessa pesquisa foram bibliográficas   (livros,   revistas,   artigos)   e   primárias   (atas   de   associações   comerciais, relatórios e jornais).  2 BUSCANDO CAUSAS E CULPADOS Quando uma crise assola uma cidade, estado ou país, em paralelo às buscas por soluções, está também a busca pelas causas e culpados. A dimensão da economia gomífera torna a busca passível de diferentes interpretações, e esta se pretende ser apenas mais uma. Henry Wickham? Estado brasileiro? Elites  locais? De quem  é a culpa? Na História da Amazônia aprendemos que cada um deles tem sua contribuição no processo. Vamos por partes. Sir Henry Alexander Wickham (1846­1928) foi um botânico e aventureiro inglês ativo na América Latina. Aos 20 anos foi para a Nicarágua em busca de plumas para a chapelaria de sua mãe. Durante a viagem, produziu um diário com informações sobre a região e, principalmente, sobre o crescimento e as possibilidades do comércio da borracha. Seu   diário   se   tornou   conhecido,   na   Inglaterra,   pelo   diretor   do   Kew   Gardens,   que   lhe ofereceu “dez libras para cada mil sementes de seringueira coletadas” (FORLINE, 2013). Com sua família, Wickham se dirigiu para Santarém, no Pará, em 1871, onde conseguiu, mediante   o   escambo   com   indígenas   e   caboclos,   cerca   de   70.000   sementes.   Bem acondicionadas   em   recipientes   para   não   estragarem   e   nem   despertar   maiores   suspeitas, passaram facilmente pela fiscalização e atingiram o exterior graças às manobras do cônsul inglês no Pará. A “encomenda” de Kew Gardens chegou em 1876, sendo que apenas 7.000 das 70.000 sementes brotaram no jardim. Depois, as mudas foram transportadas para o Ceilão, Malásia, Índia, Birmânia e Bornéo Britânico. O Império Britânico também enviou algumas mudas para o Jardim Botânico de Java, domínio das Índias Orientais Holandesas. Assim,   a   Holanda   também   entrava   no   processo   de   plantio   ordenado   das   seringueiras, expandindo o cultivo para as ilhas de Java, Bornéu e Sumatra. No contexto da corrida


imperialista e industrial, as principais potências da Europa buscavam, de qualquer forma, seja   por   intervenção   militar   ou   econômica,   a   autossuficiência   de   matérias­primas.   No entanto, da chegada das sementes à Inglaterra, em 1876, levaria pouco mais de 30 anos para que a produção europeia ultrapassasse a produção brasileira e quebrasse seu monopólio. Não foi apenas a Amazônia a beneficiada com o sistema de produção gomífera. Os governos imperial e, mais tarde, republicano, souberam aproveitar as benesses do período. A   relação   dos   seringalistas   amazônicos   com   negociantes   ingleses   tornava   abundante   a entrada da libra esterlina, a moeda mais valorizada na  época, nos portos brasileiros. No entanto,   mesmo   se   beneficiando   dessa   situação,   o   governo   federal   tomou   medidas tardiamente, quando o panorama da região já não era dos melhores.  Os principais comerciantes do Amazonas e do Pará, vendo a cada dia os preços caindo vertiginosamente, com a entrada de toneladas de borracha de produções asiáticas racionalizadas, há muito pediam ajuda do governo federal para a implantação de plantações de seringueiras e capitais  do Banco do Brasil para manter os preços  estáveis. Nenhum desses pedidos teve resposta. Os cafeicultores de São Paulo, quando a cotação do mercado era desfavorável ao seu produto, recebiam da União grandes somas em ajuda. Em 1912, quando o Brasil já não era mais o principal exportador mundial de borracha, o Congresso aprovou um plano que, em síntese, era destinado ao investimento na logística da região, para aumentar a competitividade do produto, e incentivos ao cultivo racional. O plano, 'Defesa   Econômica   da   Borracha',   ficou   sediado   no   Rio   de   Janeiro,   distante   da   região problema. Foram feitos gastos exorbitantes em compras e pesquisas desnecessárias, o que fez o Congresso dar fim ao plano em 1913. Warren Dean afirma que A espantosa indiferença do governo federal para com a sorte da economia amazônica   parece   quase   suicida,   considerando­se   que   a   região,   com apenas1/25 da população do país, havia proporcionado um sexto da renda nacional (DEAN, 1989, p. 80).

Ainda segundo Dean, no período entre 1890 e 1912 o governo federal faturou com os Estados do Amazonas e Pará cerca de 656 mil contos de réis, sem contar a renda do território do Acre, que ia diretamente para a União. Já os gastos do governo federal na Amazônia, “como a caríssima ferrovia Madeira­Mamoré […], não eram particularmente eficazes   na   promoção   de   um   crescimento   regional”   (DEAN,   1989,   p.   80).   O   governo federal foi um dos maiores beneficiários da economia gomífera. Algumas obras financiadas com   os   impostos   arrecadados   ainda   podem   ser   vistas   no   Rio   de   Janeiro,   das   quais   se destacam o Teatro Municipal e a Av. Rio Branco. Quando a borracha asiática começou a invadir os antigos mercados brasileiros, e as rendas começaram a cair, esse mesmo governo demorou em tomar medidas para socorrer a região Amazônica e, quando tomou, não teve sucesso na empreitada. Diante   desse   caos   anunciado,   como   reagiram   as   elites   locais,   do   Pará   e   do Amazonas? A elite paraense utilizou boa parte dos impostos da borracha na reestruturação do Estado e, principalmente, da capital Belém. Por reestruturação entende­se a reforma, novas aquisições e modernização da estrutura econômica vigente, com raízes do século


XVIII, dos grandes proprietários de terra. A elite amazonense tratou de estruturar a capital, até aquele momento sem larga tradição comercial como a capital vizinha. As oligarquias do Norte, no contexto da República Velha, […] Gastavam mais do que arrecadavam, tomando empréstimos a esmo, na esperança de obter uma constante renda crescente, e nunca pagavam as dívidas.   Impuseram   taxas   de   exportação   (reservadas   aos   Estados   pela Constituição)   que   se   aproximavam   de   um   estulto   patamar   de   20%   e dilapidaram a maior parte dessas rendas – que alcançaram um montante de 241 mil contos de réis entre 1890 e 1912 – no embelezamento de suas capitais e nos pagamentos de políticos locais (DEAN, 1989, p. 80­81).

Seringalistas e   aviadores,   os   dois   principais   grupos   sociais   das   elites   regionais, mantinham um estreito laço com o poder público. Eram publicados frequentemente, em jornais, revistas e álbuns como o Álbum de Belém do Pará para 15 de novembro de 1902 e Annuário de Manáos para 1910, artigos e notas sobre a situação econômica lisonjeira do Pará e do Amazonas, sobre a abundância da região em recursos e de sua exclusividade como   detentora   natural   das   seringueiras   e   principal   fornecedora   para   os   mercados estrangeiros.   Criou­se   entre   os   dirigentes   e   a   elite   um   mito   da   exclusividade   e   da “eternidade” desse produto. Quando a realidade se mostrou inversa, tudo se tornou possível para salvar a economia […] inclusive alienar para grupos internacionais parte do território de seu país,   como   tentou   fazer   o   governo   do   Amazonas,   que   tomou   um empréstimo   de   um   grupo   americano   garantido   com   terras   públicas, felizmente   vetado   pelo   governo   federal,   de   quem   necessitava   o   aval (SOUZA, 2009, p. 310).

Márcio Souza, em uma perspectiva sociológica, afirma que as elites da região não previram   que   a   atividade   extrativista   demandaria   mão   de   obra   de   outras   áreas,   o   que impediu o surgimento de uma agricultura e indústria fortes ou tornou débil o que já existia. O curioso é que, pelo menos desde os anos 50 do século XIX, os presidentes provinciais denunciavam a fuga de braços  para o extrativismo. No jogo de cadeiras da República, faltava às elites amazônicas a expressividade que tinham as do Sul e Sudeste, o que tornava difícil,   seja   por   manobras   políticas,   distância   ou   ignorância,   qualquer   ajuda.   Seria   um reflexo  dos  tempos  de  um  Grão­Pará  distante  e  fechado  em  uma  relação  direta  com  a metrópole portuguesa? Talvez. Contrabando, omissão do Estado Brasileiro e um cego otimismo por parte das elites locais. Três causas, três culpados. É justo culpar Henry Wickham, um aventureiro sem nada a perder que morreu na miséria? Não seria mais coerente afirmar que ele foi uma marionete do Império Inglês, que buscava autossuficiência de qualquer forma? O Estado Brasileiro, no alvorecer da República, mantinha os mesmos traços do Império, quando era comandado pelas oligarquias latifundiárias de São Paulo e do Rio de Janeiro. Seus dirigentes, na maior parte originários desses grupos de poder, ignoraram a região que por 30 anos lhes garantiu 40% das exportações, no que parece ser mais um fruto de discrepâncias políticas ou a crença de que o café sustentaria o país, pois os cofres estavam sempre abertos quando São


Paulo e Rio de Janeiro precisavam. As elites do Pará e do Amazonas se sustentaram por três   décadas   um   sistema   extrativista   altamente   predatório,   com   resquícios   de   trabalho escravo e voltado exclusivamente para a exportação. Faltou, por parte delas, planejamento antecipado, preocupação  com o desenvolvimento interno  e o desenvolvimento  de  áreas como a agricultura e a indústria. 3 PARÁ E AMAZONAS NO CONTEXTO DA CRISE 1910   é   uma   data   frequentemente   utilizada   para   marcar   o   fim   desse   período econômico.   No   entanto,   o   mercado   não   é   um   elemento   que   pode   ser   apreendido   pela exatidão   de   modelos   estruturalistas   generalizantes,   pois   depende   não   apenas   de   fatores econômicos, mas também sociais e subjetivos. Os preços nunca são estáveis, oscilando para mais e para menos. O primeiro choque econômico da região se deu entre 1907 e 1908, quando   começou   a   entrar   na   competição   a   borracha   asiática,   mais   barata   e   de   melhor qualidade;   a  borracha   recuperada   dos  americanos;  a  borracha  de  guayule  produzida  no México e no Sul dos Estados Unidos; e quando alguns países da Europa, por estarem com excesso de pneus e outros derivados da borracha, diminuíram o nível das importações. No   Pará,   em   1907,   o   governador   Augusto   Montenegro,   representando   a   região Norte,   enviou   ao   presidente   da   República,   Afonso   Pena,   um   telegrama   contendo considerações sobre o comércio da borracha. O conteúdo do telegrama “referia­se à queda nos preços e sugeria a intervenção do governo federal por meio da criação de agências do Banco do Brasil em Belém e Manaus, as quais atuariam como reguladoras do mercado da seringa” (DAOU, 2000, p. 65). No Amazonas, o Jornal do Comércio anunciava, no mesmo ano, que o mercado continuava paralisado, sendo oferecido pela borracha fina 6$600, preço não aceito pelas casas aviadores. Informava também que o estoque era de 55 toneladas2. Essa   primeira   crise   começou   a   ser   superada   em   1908,   quando   a   borracha,   que chegou a valer 6$300 em outubro, chegou a 7$700 em novembro. Essa alta se explica, de acordo com Antônio Loureiro, “pela reorganização da indústria americana, pela resolução do processo sucessório nos Estados Unidos, e, principalmente, pela grande especulação na Bolsa de Nova Iorque, onde todos os “stocks” de borracha estavam sendo comprados, por intermediários, para revenda aos fabricantes” (LOUREIRO, 2008, p. 73). Entre 1909 e 1910 a borracha atinge seu maior preço, chegando a custar 17$000 o quilo da fina. Esse aumento foi fruto da especulação das bolsas de valores da Europa e da compra, ainda no Brasil, da borracha por quilograma, revendida às indústrias por libra­peso. Quando chegava às   bolsas,   a   borracha   chegava   a   valer   o   quádruplo   dos   preços   praticados   em   Belém   e Manaus. O lucro obtido pela especulação da borracha brasileira tinha um destino certo: formar novas empresas plantadoras no Oriente. Em maio de 1910, o governo brasileiro valorizou o mil­réis, baixando a cotação das libras esterlinas de 16$000 para 15$000, fazendo essa moeda entrar cada vez menos no país. Os depósitos  da caixa de conversão contavam com cerca de 20.000.000 de libras esterlinas, sendo emitidos 320.000 mil contos de réis. No entanto, “a quantidade de papel­ moeda não conseguia suprir as necessidades do comércio da região, carente de dinheiro em


espécie” (LOUREIRO,   2008,   p.   78).   Vigorava,   desde   que   se   estabeleceram   as   casas aviadoras e os seringais, o sistema de crédito, no qual os bancos forneciam aos aviadores, comerciantes, ferramentas e gêneros diversos; e estes, por sua vez, forneciam seus produtos aos seringalistas em troca da borracha. O seringalista repassava parte do que obtinha com o aviador para o seringueiro, através do barracão, em um sistema de endividamento sempre crescente. A borracha asiática voltou a figurar no mercado, agora com inúmeras empresas comandando sua produção. A oferta e os preços baixos fizeram a borracha amazônica cair de 17$000 para 7$000. Os anos que se seguiram foram marcados pelo recrudescimento contínuo dos preços; pela fuga de capitais para o Oriente; e pela perda da posição de maior exportadora   mundial.   A   situação   de   Belém,   entre   1912   e   1913,   de   acordo   com   o antropólogo Fábio Fonseca de Castro em a Cidade Sebastiana: Era da borracha, memória e melancolia numa capital da periferia da modernidade, era a seguinte: acumulava cerca de 100 milhões de francos, ou 59.524 contos de réis. Nos dias que se seguiram, cerca de 160 estabelecimentos comerciais fecharam as portas. A prefeitura de Belém devia mais de 2 milhões de libras esterlinas e o governo do Estado devia quase a mesma quantia3. O Amazonas também estava mergulhado em dívidas. Ao todo, somadas as dívidas externas e internas, devia­se cerca de 100.000 contos de réis, um valor, segundo Loureiro, “impossível de ser pago, pois a arrecadação de 1914 fora de apenas 6.900 contos e a de 1915 ficaria entre 4. 250 e 5.800 contos” (LOUREIRO, 2008, p. 14). Parintins, Itacoatiara, Humaitá   e   Maués,   que   no   período   conseguiram   desenvolver   algum   comércio   e   se desenvolver,   se   encontravam   agora   acanhadas,   com   seus   habitantes   vindo   procurar   na capital   mínimas   condições   de   sobrevivência.   A   arrecadação   dos   dois   estados   e   a   do território do Acre caiu de forma significativa, tornando mais grave os quadros sociais e econômicos: A receita do Estado do Pará, que era de 20.255 contos em 1910, reduz­se a 8.887 em 1915 e a 8.517 em 1920; a do Amazonas, de 18.069 cai para 7.428 e 5.888 respectivamente; e a do Acre, de 19.868 baixa para 5.610 em 1915, menos de 1/3 do que fora. A despesa pública teve que cair, mas não na mesma proporção, de modo que o  deficit  orçamentário se torna rotina naqueles anos (SANTOS, 1980, p. 240).

Os relatos de contemporâneos da Grande Crise, fontes primárias, nos mostram com vivacidade o que foram aqueles anos de estagnação. Por meio de artigos, a Revista da ACA noticiava o intenso movimento de abandono da capital amazonense em direção a outras regiões   do   país   ou   ao   exterior.   Um   dos   documentos   mais   interessantes,   não   ligado   a instituições políticas ou econômicas, é a carta do fotógrafo alemão George Huebner, que por muitos anos manteve um estúdio em Manaus. O conteúdo da carta nos dá um panorama de   como   ficou   a   cidade   durante   a   Primeira   Guerra   Mundial,   quando   algumas   rotas comerciais foram temporariamente fechadas e os preços caíram mais bruscamente: O que eu poderia dizer daqui? A situação é desoladora, não poderia ser pior. Tudo isso é o efeito da guerra. Primeiramente, o preço do látex não parou de cair, depois foi o câmbio da moeda, e agora tudo se encontra parado. Você deveria ter visto Manaus antes, tão animada! Atualmente inúmeras casas nas ruas principais estão vazias e cada vapor que vai para


o sul viaja lotado de passageiros que fogem de Manaus. As pessoas sem dinheiro, que não podem pagar a viagem, se retiram para os seus sítios do interior, de maneira que a cidade se torna cada vez mais vazia. Agora não se faz mais negócios. Feliz é aquele que ainda consegue equilibrar suas despesas. Não é, infelizmente, o meu caso (VÂNIA, 2014).

Todos os desdobramentos da Primeira Guerra eram diariamente noticiados pelos jornais. No  Estado do Pará4, lamentava­se que o florescente comércio do Estado e sua pequena indústria, por ausência de recursos, perdia a oportunidade de tirar algum proveito com   o   conflito,   como   estavam   fazendo   outros   países   da   América   Latina,   que impossibilitados de importar produtos manufaturados da Europa, passaram em investir em suas próprias indústrias e a fortalecer o mercado interno. Suicídios motivados por perdas de emprego também eram vez ou outra noticiados. Mas o que realmente ganhava inúmeras páginas   nos   impressos   era   o   isolamento   da   Amazônia,   motivado   pela   crise   marítima ocasionada   pelo   bloqueio   naval   alemão,   iniciado   em   1915.   Um   dos   episódios   mais dramáticos foi torpedeamento, na Costa da Grã­Bretanha, em 1917, do Paquete Antony, de propriedade da Booth & Company, onde foram perdidas 586 toneladas de borracha e 366 de farinha de mandioca5. A crise da economia gomífera atingiu todos os setores da sociedade, seringalistas, comerciantes, profissionais liberais etc. Pará e Amazonas diminuíram as importações de gêneros alimentícios de outros estados; as libras  esterlinas passaram a entrar com mais dificuldade   no   país;   e   uma   fatia   considerável   da   arrecadação   da   União   teve   fim.   O funcionalismo público se tornou uma das poucas alternativas ainda rentáveis para as classes médias  urbanas. Mas, para Márcio Souza, “o fim não significou nenhuma mudança na qualidade de vida dos  seringueiros, dos  operários, dos agricultores” (SOUZA, 2009, p. 310). O Pará, que tinha uma larga tradição comercial desde o século XVIII, resistiu melhor à crise. O Amazonas, no entanto, com comércio e indústria inexpressivas desde os tempos coloniais, tardou a se recuperar, encontrando salvação com a Zona Franca no final dos anos 60 do século XX. A crise tem suas especificidades. Nem todos os empresários faliram, e alguns   chegaram   a   transformar   a   situação   em   oportunidade   de   crescimento.   Joaquim Gonçalves de Araújo, por exemplo, desde fins do século XIX diversificava suas atividades, exportando não apenas borracha, mas castanhas, peles de animais e, algo raro, construindo uma indústria de manufaturas. Suas empresas resistiram às crises de 1910, 1920 e 1945 e só foram extintas no final dos anos 90 do século passado. 4 NEOCOLONIALISMO E GUERRA CRESCIMENTO DURANTE O PÓS-CRISE

COMO

“ESPERANÇAS”

DE

Na década de 20 do século passado, Europa e Estados Unidos controlavam boa parte dos países da África, Ásia, Oceania, Oriente Médio e América. A Amazônia foi economicamente controlada, por 30 anos, por agentes do capital estrangeiro. No entanto, uma   dominação   completa,   característica   do   neocolonialismo   (dominação   política   e econômica), surgiria na região, mais especificamente no Tapajós (PA) a partir do final dos anos 20.


Henry Ford, grande empresário da indústria automobilística do início do século XX, buscava a autossuficiência de matérias­primas para suas indústrias. Não só Henry, mas um grande número de empresários americanos voltariam a depender da borracha brasileira. Durante a Primeira Guerra, o comércio europeu se tornou instável, agravado que fora pelo bloqueio   marítimo   alemão.   A   Inglaterra,   que  detinha   o   monopólio   da   borracha,   viu   os estoques acumularem e os preços  caírem. Visando garantir preços estáveis  e impedir a acumulação do produto durante o pós­guerra, o país adotou, a partir de 1923, o Plano Stevenson, que, basicamente, passa a limitar a cota de cada produtor inglês. Com   menos   matéria­prima   no   mercado   e   os   preços   novamente   favoráveis   aos ingleses, os grandes fabricantes americanos de pneus foram os mais prejudicados. Como reação, as grandes companhias da época (Goodyear, Firestone e Ford) passaram a buscar diferentes locais, da América à África, para implantar seus próprios seringais. José Custódio Alves de Lima, cônsul geral do Brasil nos Estados Unidos, depois de saber  do   interesse   do   empresário   em   criar   um   seringal   em   Everglades,   na  Flórida,   lhe sugeriu a Amazônia como local de implantação para seu projeto. José Custódio, em contato com Dionísio Bentes, governador do Pará, facilitou para Ford a aquisição de um milhão de hectares no Tapajós. A Companhia Ford, através de contrato firmado com o governo do Estado do Pará em 03/01/1927, tinha o direito à exploração das terras, dos minerais e de outras   matérias­primas   nela   encontradas;   de   realizar   a   navegação   nos   rios   Tapajós   e Amazonas;   construir   estradas,   armazéns,   fábricas,   criar   núcleos   de   povoação,   escolas, linhas de comunicação etc, sem necessidade do aval de qualquer autoridade. Poderia criar sua   própria   relação   política,   sem   intervenção   do   governo.   Estava,   também,   isenta   de qualquer imposto pelo prazo de 50 anos. Surgiu um território americano na Amazônia, independente do Brasil, gerido por uma empresa privada. Antigos trabalhadores das cidades do interior, dos seringais e de outras atividades atingidas   pela   grande   crise,   passaram   a   se   dirigir   à   região   que   ficou   conhecida   como Fordlândia.  Xingu,  Madeira,  Purus,  Acre,  Solimões,  Guaporé  e  Jutaí  foram  os  maiores “fornecedores” de mão de obra. Essas pessoas, acostumadas com um tradicional sistema de trabalho   comandado   pelo   aviamento   e   pela   rigidez   do   seringalista,   pela   primeira   vez venderiam suas forças de trabalho através de um sistema de contrato. O funcionário recebia da Companhia uma chapa de alumínio, com seu número de identificação e tipo de serviço, pelo valor de dez mil réis. Através dessa chapa eram controladas as faltas, as licenças para tratamentos médicos, pagamentos de férias e transferências. O regime de trabalho era pesado, indo de 7 da manhã à 17 da tarde, com direito a uma hora de intervalo. Relógios e sirenes ditavam o início e o fim do dia. Nos Estados Unidos   vigorava   a   Lei   Seca,   que   proibia   o   consumo   de   bebidas   alcoólicas   em   todo   o território. Henry Ford, com apoio do governo paraense, implantou a medida em Fordlândia, onde já existia um considerável número de bares e casas  de diversão. Para escapar da rigidez   da   fiscalização,   à   mesma   maneira   que   nos   Estados   Unidos,   surgiu   um   intenso movimento de contrabando de bebidas. Nos barracões onde eram feitas as refeições dos funcionários de patentes mais baixas, peixe e farinha eram substituídos por pão e espinafre,


e servidos em bandejas padronizadas. A imposição dessas mudanças, nos anos 1930, fez surgir movimentos de greve radicais, com a destruição de galpões, tomada de usinas e refeitórios. Os funcionários americanos abandonaram Fordlândia. Foi preciso a intervenção de forças policiais para o fim do movimento. Mas, antes mesmo de qualquer revolta, essa concessão já não mostrava os resultados esperados: A grande distância do porto de Santarém, dificultando a comunicação e o abastecimento comercial, a reduzida força de trabalho, a não seletividade das mudas e sementes de seringueiras e a topografia do local, bastante acidentada,  representavam  um  entrave  para  a   lucratividade  da   empresa (AMORIM, 1995, p. 44).

Soma­se ao fracasso técnico a doença do mal das folhas, que atacava a árvore da seringueira e reduzia a produção do látex. Com o fracasso da primeira concessão de terra, a Ford permutou  com  o governo  uma  parte  de  Fordlândia  por  outra,  dessa vez  Belterra, distante 30 milhas de Santarém. Da mesma forma que na primeira, Belterra recebeu todos os   aparatos   necessários   para   seu   funcionamento:   escolas,   hospitais,   vilas,   instalações industriais, um porto e estradas. Os antigos trabalhadores de Fordlândia foram transferidos para   Belterra,   e   também   foram   realizadas   novas   contratações.   Esse,   que   parecia   ser   o emprego dos sonhos, mostrava sua face mais cruel com a política da empresa para com os funcionários. Um anúncio da companhia em 1943, publicado em O Jornal de Santarém6, oferecia 9 cruzeiros por dia para homens  e 6 para mulheres. As  crianças, que já eram aceitas a partir dos 7 anos, ganhava 0, 50 por hora de serviço. Os fiscais estavam sempre atentos aos afazeres dos funcionários. Por menor que fosse o erro, o trabalhador era expulso da companhia sem o direito de tentar se explicar. Esses problemas, a baixa produtividade das plantações e a invenção da borracha sintética buna, mais barata que a natural, deram fim ao projeto, que durou de 1927 até 1945. Entre 1942 e 1945, o Amazonas se viu inserido no conflito mundial. Em 1941, o Japão atacou bases Aliadas americanas e britânicas no Pacífico, dominando logo depois as colônias asiáticas produtoras de borracha. Sem acesso a essa matéria­prima, útil à indústria bélica e manufatureira, os Aliados voltaram suas atenções para o Amazonas. Em 1942, navios brasileiros foram torpedeados pelos alemães, o que fez o país declarar guerra ao Eixo. O Amazonas, através de acordos firmados entre o Brasil e os Aliados, entrou no conflito  como   fornecedor  de   borracha.  Mais  uma   vez  ocorreria  um   surto   de  imigração nordestina para a Amazônia. Através dos “Acordos de Washington”, ficou estabelecido que os Estados Unidos investiriam no financiamento da produção de borracha na Amazônia, enquanto que o governo brasileiro se encarregaria de recrutar o maior contingente possível de   trabalhadores.   Estima­se   que,   entre   1942   e   1945,   o   governo   conseguiu   enviar   do Nordeste, que passaram por uma terrível seca, cerca de 60.000 retirantes para a região Norte. O sistema de trabalho dos seringueiros continuava sendo o mesmo do início do século: em situação de semi escravidão, preso ao aviamento como devedor de um sistema cíclico.   O   governo   norte­americano   ficou   de   pagar   100$   por   trabalhador   instalado   nos


seringais. Manaus se tornou uma das subsedes da Rubber Development Company, órgão criado   para   administrar   os   serviços   no  Estado.   A   exportação   da  borracha,   a  circulação monetária,   a   construção   de   um   aeroporto,   os   investimentos   na   capital   e   a   especulação imobiliária criaram um momento de recuperação. Enquanto o conflito ia se encaminhando e delineando o mapa político do mundo, os amazonenses   e   paraenses,   inflados   pelas   propagandas   do   governo   de   Getúlio   Vargas, mergulhavam, às de vezes de forma violenta, em um sentimento patriótico. Há registros, em Manaus, da malhação de bonecos de Judas como o nome ‘Xitler’, uma paródia com o nome do ditador alemão Adolf Hitler. Na Vila de Tomé­Açú, no Pará, foi construído um campo de concentração que chegou a receber 480 famílias japonesas, 32 alemãs e algumas italianas,   tanto   do   próprio   Estado   quanto   do   Amazonas.   Essas   famílias,   em   Manaus   e Belém, sofriam perseguição, tinham seus estabelecimentos e residências depredados pelo simples fato de virem dos países que formavam o Eixo. Esse pequeno surto de desenvolvimento, de patriotismo, teve fim com a Segunda Guerra. O antigo mercado asiático estava novamente aberto, novas técnicas aperfeiçoaram o uso de borracha sintética. Já não existia mais a necessidade da borracha amazônica. O conflito acabara e, com ele as esperanças de tirar a região do abismo sem fim do subdesenvolvimento. Os   planos   de   desenvolvimento   concebidos   nos   “Acordos”   foram abandonados,   as   verbas   indenizatórias   dos   trabalhadores   foram descaminhadas, as estruturas do atraso não foram rompidas e tudo voltou como dantes. As atenções do governo federal agora são para as regiões Sul­Sudeste,   por   estas   apresentarem   mais   condições   de   dinamismo econômico. A Amazônia vai ser mesmo esquecida do resto da nação por muito tempo (FIGUEIREDO, 2015).

A Amazônia se viu novamente abandonada. O capital estrangeiro, depois de mais de 40 décadas conseguindo alguns resultados satisfatórios, foi direcionado para mercados mais estáveis. Em socorro à região, a nova Constituição de 1946, no artigo 199, de autoria do deputado federal Leopoldo Péres, instituiu que a União destinaria 3% de sua arrecadação para financiar o Plano de Valorização Econômica da Amazônia. Em 1953 foi criada a Superintendência   de   Valorização   Econômica   da   Amazônia   (SPVEA),   que   visava   o desenvolvimento da agricultura, da extração mineral e da pecuária. Por falta de estrutura, principalmente de estradas, o plano não vingou. A construção da estrada Belém­Brasília, em 1958, atraiu o capital de grandes indústrias que passaram a funcionar no Pará. Em 1966 foi   criada   a   Superintendência   de   Desenvolvimento   da   Amazônia   (SUDAM),   que   criou incentivos   fiscais   para   empresas   nacionais   e   estrangeiras   se   instalarem   na   região.   O resultado desse programa foi a criação da Zona Franca de Manaus, zona de livre comércio. 5 ALGUMAS PERSPECTIVAS HISTORIOGRÁFICAS E SOCIOLÓGICAS (19451999) Existe,   desde   1940,   uma   densa   historiografia   sobre   esse   período   econômico   da região, tanto de autores naturais da terra quanto de outros estados. Institutos Históricos e


Geográficos, Universidades e outros especialistas lançaram uma gama de interpretações na tentativa de compreender o que ocorreu naquele intervalo de tempo entre 1890 e 19207. Caio Prado Júnior, em História Econômica do Brasil (1945), vê de forma negativa o sistema de aviamento, que se aproveitando do baixo ou nulo letramento do seringueiro, o prende a um sistema contínuo de endividamento; e o sistema rudimentar de trabalho, que destruía aos poucos as árvores de seringueira, tornando os espécimes cada vez mais raros. Para o autor, além do contrabando de Wickham, o declínio se deu porque a Amazônia se constituía  em   uma  região  meramente  exportadora  de   matéria­prima,  enquanto  que  suas concorrentes, as colônias asiáticas, eram financiadas, desde a plantação até a distribuição, pela   Inglaterra   e   outras   potências   europeias;   e   porque   as   elites   locais,   políticos   e seringalistas, não construíram algo duradouro, dissipando rapidamente os lucros obtidos com   essa   economia,   cujo   maior   símbolo,   de   “imponência   e   mau   gosto”,   é   o   Teatro Amazonas.   Para   esse   historiador   da   geração   nacionalista   e   progressista,   o   sistema   de produção gomífera foi marcado por uma prosperidade fictícia e superficial, o que torna seu fim “mais um assunto de novela romanesca que de história econômica”. Em  Ordem   e   progresso  (1957),   Gilberto   Freyre   aborda   a   transição   do   período imperial para o Republicano, mostrando como permanecem, nesse novo contexto político, formas   de organização  social  características   da monarquia,  com  o  diferencial  de  que  a República   trouxe   a   industrialização,   a   urbanização   e,   em   menor   proporção,   alguma ascensão social de grupos antes excluídos. É nessa oposição, entre Império e República, que entra Manaus. Para Gilberto Freyre, a cidade foi “uma reação à rotina brasileira”, pois, recebendo   influências   inglesas,   francesas,   americanas   e   espanholas,   se   diferenciava   da maioria das cidades do país, ainda com fortes traços conservadores do Império, acolhendo “desajustados   políticos   e  sociais”   que  se   entregavam   aos   prazeres   em   um   ambiente   de “economia de aventura e de civilização cenográfica”. A   partir   de   1960   autores   da   região   Norte   começaram   a   publicar   obras   sobre   o assunto. Genesino Braga, em  Fastígio e sensibilidade do Amazonas de ontem  (1960), é saudosista   ao   afirmar   que,   naquele   momento,   o   Amazonas   “passava   por   uma   fase alucinante de fausto, de luxo, de esbanjamento e de gastos imoderados, sendo um pequeno centro de ressonância da cultura europeia”. Bradford Burns, professor de História da UCLA e especialista em América Latina, produziu em 1961 uma monografia editada pelo governo do Estado do Amazonas em 1966, com o nome Manaus 1910: retrato de uma cidade em expansão. Sobre a capital, diz ele: “em 1910, Manaus reinava como a capital mundial da borracha. Manaus alardeava com orgulho todas as civilidades de qualquer cidade europeia de seu tamanho ou mesmo maior”. Notou   que,   politicamente,   a   cidade   estava   ligada   ao   Rio   de   Janeiro,   economicamente dependia   de   Londres   e,   culturalmente,   de   Paris.   A   obra,   que   não   possui   maiores informações, não carrega críticas sobre o sistema econômico, as condições de trabalho e as elites. Roteiro   Histórico   e   Sentimental   da   Cidade   do   Rio   Negro  (1969),   de   Luiz   de Miranda Corrêa, tem ares de um elogio saudosista ao período, à influência europeia e à


ação das elites. Manaus se transformava, com obras monumentais e serviços públicos de qualidade. “Uma sociedade inteira passava de um estágio primitivo para os requintes da civilização europeia”. A descrição dos palacetes, bares, hotéis e bordéis são vívidas. As elites elogiadas são aquelas formadas com o nascimento da República, enquanto que “as famílias mais antigas do Amazonas, o pequeno número de privilegiados do Império, […] ou se adaptavam às novas condições de vida da região ou seriam, como vários o foram, tragados pelo redemoinho dos interesses da borracha”. Com exceção da análise de Caio Prado Júnior e, em parte, da de Gilberto Freyre, que ainda tenta ver algum ponto positivo na sociedade republicana do início do século XX, todas as demais são positivas, algumas constituindo­se em verdadeiros elogios saudosistas. A borracha tornou alcançável o ideal de progresso burguês da Europa, sedimentando um passado   amazônico   nativo   e   mestiço,   estagnado   no   marasmo   colonial   e,   logo   depois, imperial. Essa parte denominei de Fase do Elogio à Cultura Burguesa, pois a maioria de seus expoentes eram homens da elite política e intelectual. A segunda parte, a partir de 1978, denominei de Fase da Revisão e da Crítica. O   sociólogo   Márcio   Souza   encerra   essa   linha   de   elogios   e   exaltação   da   cultura burguesa em 1978, com a publicação de  A Expressão Amazonense: do colonialismo ao neocolonialismo. De acordo com Otoni Mesquita, Márcio Souza, em algumas passagens, “mostra  ter alguma influência de Caio  Prado e Gilberto Freyre, mas  tece  críticas  mais radicais”   (MESQUITA,   2006,   p.   157).   Para   o   autor,   durante   o   apogeu   da   borracha,   o Amazonas  esteve bastante alienado, com sua capital sendo “a  única cidade brasileira a mergulhar   de   corpo   e   alma   na   franca   camaradagem   dispendiosa   da   belle   époque”. Acrescenta ainda que ela não era “verdadeiramente uma cidade, mas decoração do sonho e do   delírio,   microcosmo   das   doenças   do   espírito   burguês   com   toques   de   selvageria   e grossura”, cujo novo estilo de vida contrastava com sua linhagem portuguesa, a tornando um verdadeiro cenário para o colonialismo. Essas críticas, em especial ao ideal burguês citadino, também poder ser vistas em sua Breve História da Amazônia (1994) e História da Amazônia (2009). Roberto Santos, com sua História Econômica da Amazônia: 1800­1920 (1980), vê o sistema   de   produção   gomífera   como   uma   fase   de   expansão   da   economia   amazônica, dependente de estímulos externos (industrialização na América do Norte e na Europa). Para ele,   a   força   desses   estímulos   foi   tão   forte   ao   ponto   de   outros   setores   econômicos   não conseguirem   competir   com   a   extração   do   látex,   que   absorveu   mão   de   obra   até   da agricultura   de   subsistência.   O   sistema   de   aviamento   “falseava   o   cálculo   econômico”, estimulando   o   escambo   nos   seringais   e   “limitando   a   liberdade   de   consumo   dos trabalhadores”.   Roberto   divide   o   período   em   quatro   fases:   1830­50   –   elevação   inicial moderada; 1850­70 – melhoria do tirocínio, com aceleramento da produtividade; 1870­90 – adestramento nordestino, com modestíssima elevação da produtividade; e 1890­1910 – A fase acreana. Antônio José Souto Loureiro, em A Grande Crise (1986), com um grande arsenal de dados estatísticos, analisa a derrocada da borracha em uma perspectiva nacional. O Brasil, para o autor, sentiu os efeitos da crise, pois dependia da Amazônia para a obtenção das


libras esterlinas, necessárias para o pagamento da dívida externa, para equilibrar o preço do café  e urbanizar  a capital  federal; mas  continuava  alheio  à região. As  críticas, em  sua maioria, são feitas à omissão da União, que tardiamente tomou medidas que se mostraram ineficazes ao combate da crise; outras são feitas aos empresários e outros trabalhadores que enviavam altas somas de dinheiro para suas terras de origem, descapitalizando a região. Warren   Dean,   americanista   autor   de  A   luta   da   borracha   no   Brasil  (1987), desenvolve   uma   pesquisa   interdisciplinar   entre   a   história   e   a   ecologia,   ou   História Ecológica,   popular   nos   EUA   entre   1970   e   1990.   Dean   levantou   importantes questionamentos, como o porque de o país ter perdido o monopólio; quais os limites da monocultura; e porque as plantações brasileiras falharam. A luta do Brasil se deu após o auge das exportações e no início da decadência, quando começaram as primeiras tentativas de domesticação da seringueira e seu cultivo racional. Sua abordagem ultrapassa o recorte cronológico tradicional, indo de 1855 a 1986. Bárbara   Weinstein,   também   americanista,   produziu  A   borracha   na   Amazônia: expansão   e   decadência,   1850­1920  (1993).   Nesse   estudo   a   autora   mostrou   como   essa matéria­prima  dominava  a região  muito  antes  do  boom  do final  do  século  XIX;  como existia, entre as elites, discursos a favor e contra essa economia extrativa. Ao abordar a figura do seringueiro, Bárbara, dentro do conceito de luta de classes da teoria marxista, foge da historiografia tradicional, que o mostrava apenas como um trabalhador miserável e explorado, o mostrando como um “militante” que usava diferentes formas de resistência contra a opressão dos seringalistas. O ensaio de Edinea Mascarenhas Dias,  A Ilusão do Fausto – Manaus 1890­1920 (1999),   é   um   estudo   que,   ao   mesmo   tempo   em   que   é   esmiuçado   o   processo   de transformação e desenvolvimento da cidade e de suas políticas públicas, são apresentadas as contradições  do espaço urbano pensado pelas  elites  e pelo poder público, que criou mecanismos   que,   ao   mesmo   tempo   em   que   ordenavam   a   urbe,   segregavam   pobres, prostitutas, analfabetos e desocupados. Tem influências de Edward Thompson, com sua crítica ao marxismo estruturalista; e de Max Weber, com seu conceito de estratificação social. O livro é dividido em duas partes: A cidade do Fausto e A falácia do Fausto. 6 CONCLUSÃO A crise da economia gomífera é um período ainda pouco estudado, tanto a nível regional   quanto   seus   reflexos   para   o   resto   do   país.   Existem   trabalhos,   nos   campos   da História, da Sociologia e da Economia, de autores nacionais e estrangeiros, que buscaram diferentes formas de interpretar a Amazônia a partir de 1910. A Amazônia fora incorporada ao capitalismo internacional como fornecedora de matéria­prima. Passou por um surto de progresso, mas ao custo de milhares de vidas humanas e na forma de pequenas ilhas de privilégios   de   seringalistas   e   aviadores.   O   período   não   deve   ser   encarado   como   uma “novela romanesca” de Caio Prado Júnior, pois por 3 décadas fora um dos sustentáculos da economia nacional; nem romantizado como em Luiz de Miranda Corrêa, pois ergueu­se em meio a exploração do seringueiro, à prostituição feminina e a exclusão de grupos menos


favorecidos. Analisar o sistema de produção gomífera e sua crise é levar em conta sua dinâmica, suas especificidades e o contexto da  época, procurando não generalizá­lo em modelos estruturais. REFERÊNCIAS AMORIM, Antônia Terezinha dos Santos. A Dominação norte-americana no Tapajós – A Companhia FORD Industrial do Brasil. Câmara Municipal de Santarém: Santarém (PA), 1995. BRAGA, Genesino. Fastígio e sensibilidade do Amazonas de ontem. Manaus: s/e, 1960. BURNS, Bradford. Manaus, 1910: Retrato em uma cidade em expansão. Manaus: Edições do Governo do Estado do Amazonas, 1966. CORRÊA, Luís de Miranda. Roteiro Histórico e Sentimental da Cidade do Rio Negro. Manaus: Editora Artenova, 1969. DEAN, Warren. A luta da borracha no Brasil. São Paulo: Editora Nobel, 1989. DIAS, Edinea Mascarenhas. A Ilusão do Fausto – Manaus 1890-1920. Manaus: Editora Valer, 1999. OLIVEIRA FILHO, João Pacheco. O caboclo e o brabo: notas sobre duas modalidades de força de trabalho na expansão da fronteira amazônica do século XIX. In: SILVEIRA, E. (Org.). Encontros com a civilização brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p. 101-140. (n. 11). FORLINE, Louis Carlos. O ladrão de sementes. Rio de Janeiro: Revista de História da Biblioteca Nacional, n° 08, abril de 2013. FREYRE, Gilberto. Ordem e Progresso. São Paulo: Global Editora, 6° Ed, 2004. FIGUEIREDO, Aguinaldo. Manaus nos anos 40 (II): A Segunda Guerra Mundial. Disponível em: http://historiainte.blogspot.com.br/2015/10/manaus-nos-anos-40-iisegunda-guerra.html Acesso em 17/03/2017. JÚNIOR, Caio Prado. História Econômica do Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 43° ed, 2012. LOUREIRO, Antônio José Souto. A Grande Crise (1908-1916). Manaus: T. Loureiro, 1986. MESQUITA, Otoni Moreira. Manaus, História e Arquitetura – 1852-1910. Manaus, Editora Valer, 3° ed, 2006.


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A crise do sistema de produção gomífera na amazônia  

Autor: Fábio Augusto de Carvalho Pedrosa