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A CARACTERIZAÇÃO DO PH DE AMOSTRAS DE SOLOS DE HORIZONTES ANTRÓPICOS (TERRA PRETA DE ÍNDIO) DA ESTAÇÃO EXPERIMENTAL DO CALDEIRÃO – IRANDUBA – AM

Adilon Pereira Inuma1

RESUMO O presente trabalho tem como objetivo compreender questões que podem ser tratadas tanto pela Arqueologia quanto pela Pedologia: como a formação da Terra Preta de Índio (TPI), que, por sua vez, tem um papel muito importante na história dos povos pré-coloniais na Amazônia. O seguinte trabalho foi realizado no Campo Experimental da EMBRAPA, localizado na estrada do Caldeirão, aproximadamente 25 km de Manaus, onde foi identificado o Sítio Caldeirão. Nesse trabalho abordaremos questões referentes às áreas de maior potencial para pesquisas arqueológicas e pedológicas através do potencial hidrogeniônico (pH) de áreas diferenciadas do sítio em relação à quantificação das cerâmicas dessas áreas. Sendo que o principal objetivo é o de entender a relação entre a acidez do solo e a presença de vestígios cerâmicos presente no solo, e com isso identificar as áreas com maior potencial para escavações de ambas as disciplinas arqueologia e pedologia. Palavras-chave: Terra Preta de Índio; Interdisciplinaridade; acidez do solo.

1 INTRODUÇÃO Muito antes da era cristã, algumas populações viviam nas terras baixas da Amazônia de modo sedentário, como resultado dessas habitações veio também modificações e transformações do ambiente por eles habitado (Woods, 1995). Uma das principais modificações foi a domesticação de uma série de espécies de plantas. Em adição à especializada manipulação de ambientes específicos, modificações das condições do solo em larga escala também podem ser associadas a estas sociedades. Como resultados são encontradas áreas com elevada fertilidade, solos de origem antrópica que ocorrem por toda a bacia Amazônica. (Woods, 1995). Desde o final do século XIX, a qualidade e a fertilidade desses solos chamaram a atenção de pesquisadores como Hartt e Katzer, mas, foi somente no final do século XX que as Terras Pretas despertaram um grande interesse da comunidade científica (Kern et al., 2005). 1

Bacharel em Arqueologia pela Universidade do Estado do Amazonas


Atualmente estão sendo realizadas pesquisas multi e interdisciplinares por cientistas brasileiros e estrangeiros, oriundos de diversas áreas do conhecimento, como geógrafos,

pedólogos,

geólogos,

geoquímicos,

geoarqueólogos,

arqueólogos,

antropólogos, biólogos, etc., para compreender a criação e as características da TPI (Kern et al. 2005). O projeto Terra Preta desenvolvido no sítio Caldeirão, elaborado pelo Dr. Wenceslau Geraldes Teixeira (Embrapa), é um exemplo de experiência interdisciplinar que está sendo desenvolvido e o qual deu origem á este artigo. Em arqueologia o estudo das Terras Pretas tem sido muito importante para estabelecer os limites da área de atividade de ocupação humana pré-colonial e determinar a espessura do refugo ocupacional do sítio arqueológico (Kern et al., 2005). Porém existem outros fatores para que as TPI sejam importantes na arqueologia. De acordo com Kern, et al. (2005) elas também fornecem informações inestimáveis referentes às estratégias de assentamento e comportamento humano pré-colonial. Este artigo irá apresentar de uma forma bem objetiva, como a caracterização do Potencial Hidrogeniônico (Ph) é importante para a identificação de áreas de grandes potenciais arqueológicos. Sendo que essa pesquisa foi realizada no Sítio Caldeirão no município de Iranduba e fez parte de um grande projeto que buscava a compreensão da criação e evolução da Terra Preta de Índio. Este artigo divide-se em partes que apresentarão um breve histórico das pesquisas arqueológicas na Amazônia, assim como o sítio Caldeirão que foi o objeto de estudo dessa pesquisa, evidencia também as características e cronologias da Terra preta de Índio (TPI) e nos mostra os passos desse afunilamento de análises do Ph do Solo que resultou na identificação de áreas de grande potencial do Sítio Caldeirão, assim como conclusão e discussão do mesmo. 2 HISTÓRICO DAS PESQUISAS Os primeiros pioneiros da arqueologia profissional na Amazônia foram os arqueólogos norte-americanos Betty Meggers e seu esposo C. Evans, que foram fortemente influenciados pelas hipóteses de Julian Steward e Robert Lowie, apresentadas no livro chamado The Handbook of South American Indians em 1948. Essas hipóteses sugeriam categorias para a evolução das populações Sul Americanas: Cultura de Floresta Tropical, marginal, cacicados do circum-caribe e civilizações andinas. Esses modelos foram criados a partir de observações etnográficas tanto das populações quanto do ambiente em que viviam.


A primeira vinda à Amazônia do casal Meggers e Evans tinha como objetivo a coleta, a sistematização de dados em campo e testar o modelo de Cultura de Floresta Tropical definida por Lowie em 1948 (Lima, Costa e Neves, 2007). Porém com a decorrência dos trabalhos na ilha de Marajó observou-se que a ilha estava repleta de materiais extremamente bem elaborados com sítios que continham grandes construções e que ali estavam vestígios de uma sociedade muito mais complexa. Em função desses achados Meggers e Evans formularam novas hipóteses, de acordo com eles os vestígios encontrados em Marajó seriam originários de outra região e teriam perdido sua complexidade no ambiente amazônico (Lima, Costa e Neves, 2007). Meggers também formulou a hipótese do determinismo ecológico, ela definiu dois padrões de assentamento distintos para o ambiente de floresta tropical amazônica, o ambiente de terra firme e o de várzea. Segundo Moraes (2006), Meggers teria usado comparações de estudos de grupos indígenas contemporâneos como os Camayurá, Jívaro, Sirionó, para definir toda área de terra firme como uma área culturalmente idêntica e inferior em produtividade primária á área de várzea. Esses povos seriam oriundos da região andina, o ambiente tropical teria impossibilitado esses grupos de manterem seus padrões culturais, forçando-os a abandonar certas características mais complexas e, se estabilizando na condição de Cultura de Floresta Tropical. Um dos resultados do trabalho produzido pelo casal norte americano foi a criação de fases e tradições regionais como instrumentos cronológicos, definidos a partir de análise cerâmica. Para isso eles utilizaram uma metodologia de seriação onde a cerâmica era agrupada e classificada de acordo com seus traços diagnósticos: as características morfológicas, decorativas e os tipos de temperos utilizados na produção cerâmica (Moraes, 2006). O casal norte-americano também foi responsável pelo primeiro grande projeto de levantamento arqueológico no Brasil o PRONAPA em 1965, que tinha como objetivo o mapeamento de sítios no Brasil, identificação de fases e delimitação de fronteiras culturais. Desse projeto nasceu o PRONAPABA, que por sua vez pretendia dar continuidade às atividades do PRONAPA, mas com ênfase na bacia Amazônica (Moraes, 2006). Na região da Amazônia Central o arqueólogo alemão Peter Paul Hilbert também fez os primeiros trabalhos científicos a partir de 1955, a cronologia estabelecida por ele continua a ser utilizada até os dias atuais (Rapp Py-Daniel, 2009).


A cronologia das ocupações da Amazônia Central foram propostas por Hilbert (1968), que identificou diversas fases e as atribuiu às tradições Borda Incisa e Policroma da Amazônia. Após esse primeiro período de pesquisa sistemática, o arqueólogo Donald Lathrap de certo modo inverte a visão que se fazia da Amazônia e ao invés de enxergála como um “inferno verde” a considerou um “paraíso”. Seguindo uma linha teórica parecida com a de Meggers (o difusionismo), mas influenciado por Carl Sauer, ele propôs que a várzea amazônica seria o local ideal para o desenvolvimento cultural e a domesticação de plantas. (Lathrap, 1970; Neves, 1998). Para ele a maior parte das grandes “inovações” (como o aparecimento da cerâmica policroma) teria surgido na Amazônia Central (confluência dos Amazonas, Negro e Madeira), que teria funcionado como um coração enviando “cultura” para todas as direções (Lathrap, 1977). As pesquisas arqueológicas na Amazônia Central tiveram uma pausa por alguns anos. Para dar continuidade às pesquisas e fechar as lacunas existentes nasceu o Projeto Amazônia Central (PAC), fundado por Eduardo Góes Neves (Museu de Arqueologia e Etnologia/USP), James Petersen (Universidade de Vermont) e Michael Heckenberger (University of Florida). Os trabalhos desenvolvidos pelo projeto trouxeram contribuições para a reconstrução e conhecimento dos modos de vida das populações ceramistas (Neves, 2003; Moraes, 2006; Rapp Py-Daniel, 2009; Rebellato, 2007), e pré-ceramistas (Costa, 2009). A área de pesquisa do Projeto Amazônia Central está delimitada ao sul pelo rio Solimões, ao norte pelo rio Negro e a oeste pelo rio Ariaú e abrange cerca de 900 km² do centro da Amazônia brasileira (Neves et al., 2003). O PAC em sua trajetória teve como um de seus objetivos obterem cronologias das ocupações pré-coloniais na área de estudo, estabelecer o tamanho, a densidade e a duração das ocupações dos sítios identificados no decorrer do projeto (Machado, 2005). Alguns sítios com grandes potenciais foram objetos de estudo para as áreas acadêmicas, como mestrados e doutorados recebendo uma atenção maior por alguns pesquisadores, alguns exemplos são: o sítio Açutuba, o sítio Oswaldo, o sítio Lago Grande, o sítio Hatahara, o sítio Dona Stella, o sítio Laguinho e o sítio Antônio Galo. O PAC catalogou mais de 100 sítios arqueológicos na região de Iranduba nos seus anos de pesquisas, muitos se encontram tanto nas áreas que margeiam o Rio Negro quanto as que margeiam o Rio Solimões.


Machado (2003) relata que os sítios de Iranduba apresentam múltiplas ocupações (marcadas pelas três cerâmicas distintas encontradas na região: as fases Manacapuru, Paredão e Guarita), e possuem diferentes formas de transformação da paisagem, que podem ser vistas pela construção de montículos artificiais, valas defensivas e a própria formação da terra preta antropogênica. Lima et al, (2006) identificaram em alguns sítios cerâmicas que foram diferenciadas da fase Manacapuru nos níveis mais profundos, estas foram reagrupadas como pertencentes à fase Açutuba (Lima, 2008). Segue então as características de alguns sítios arqueológicos estudados na região de Iranduba pelo Projeto Amazônia Central nos últimos anos. O sítio Açutuba Localizado em 1994 por M. Heckenberger está situado na margem direita do rio Negro a aproximadamente 50 km à montante da confluência com o rio Solimões. Está assentado sobre um terraço, que permanece seco em épocas de cheias, ocupando uma extensão de 3,0 X 0,5 km (150 ha), limitado a norte pelo rio Negro, a leste por um grande igarapé e a sul e oeste por uma densa mata secundária (Costa, 2009). Também temos o sítio Dona Stella, localizado em setembro de 2001, durante as prospecções realizadas por Luiz Fernando Erig Lima (Costa, 2009). O sítio está situado no Km 12 da Rodovia AM-070, que liga Manaus e Manacapuru, numa fazenda de mesmo nome, e apresenta dimensões máximas de 100x80m (eixo NE-SW). Trata-se de uma área de solo arenoso, margeada a sul e oeste por dois igarapés, onde aflora arenitos silicificados da unidade Manaus (Costa, 2009). O sitio Hatahara está localizado sobre um terraço na margem esquerda do Solimões (Iranduba/AM), a aproximadamente 30 km da confluência com o Rio Negro. Com uma área de 400x400m, possui uma série de montículos de terra preta, que foram erguidos com grande quantidade de fragmentos cerâmicos, utilizados como material de sustentação dessas estruturas (Costa, 2009). No sítio Hatahara já foram coletadas várias toneladas de material cerâmico, além de 26 sepultamentos em apenas um dos montículos escavados nas etapas de campo realizadas entre 1999 e 2008. Este foi um dos sítios mais estudados pelo PAC nesses últimos anos de pesquisas. Os sítios arqueológicos encontrados na região da Amazônia central são, na sua maioria, multicomponenciais com sobreposição, respectivamente, de cerâmicas das fases Açutuba, Manacapuru, Paredão e Guarita (Lima, 2008).


Estes foram alguns passos da Arqueologia desenvolvida no município de Iranduba, nessa área que ainda guarda grandes conhecimentos a serem desvendados, pelo seu grande potencial em sítios arqueológicos. Dessa forma o objeto de estudo deste artigo é o Sítio Caldeirão que está localizado no campo Experimental da EMBRAPA na comunidade do Caldeirão zona rural do Município de Iranduba AM, onde já foram realizadas diversas pesquisas. A área da EMBRAPA corresponde a 208 hectares, que por sua vez inclui áreas de solos antrópicos (TPI), áreas de solos naturais e uma área de várzea, nas margens do Rio Solimões. Essa área por sua vez está localizada no município de Iranduba - AM, distante 16 km do porto de Cacau Pirêra e das margens do Rio Negro 16 km e 20 km da cidade de Manaus Esse sítio, arqueologicamente é praticamente desconhecido, pois os trabalhos feitos em Julho de 2011, ainda não teve os materiais processado, sendo que várias questões permanecem sem resposta como: Qual(is) sua(s) ocupação(ões)? Quais as áreas com grandes potenciais arqueológicos? Quais os limites do sítio? Nesta pesquisa não foram feitas escavações de grande porte, sendo que a principal metodologia utilizada para penetração do solo foram as tradagens de subsuperfície, utilizadas para a coleta de solos, durante as análises pedológicas. Porém muito antes dessa pesquisa se iniciar, foram escavados alguns perfis estratigráficos em algumas áreas do terreno da Embrapa, com o objetivo de compreender a variabilidade do solo no local já que há nessa área solos diversificados, como foi citado anteriormente. Sendo assim, o que me chamou mais atenção na observação desses perfis foram grandes bolsões encontrados na área de TPI com grande tamanho e espessura, com grande quantidade de material cerâmico, carvão, solo arenoso de baixa compactação e cor do Munsell 10YR 2/1 (Black) e ocorrentes principalmente na área da capoeira onde seria a área mais preservada e provavelmente a área de ocupação mais intensiva. Através dessa observação pude perceber, já que esses bolsões estavam presentes em outros perfis, que provavelmente tem grandes probabilidades de serem lixeiras. 3 CARACTERÍSTICAS E CRONOLOGIA DA TERRA PRETA De acordo com Woods e Denevan (2006) os primeiros relatos de que se tem notícia sobre Terra Preta são dos anos de 1870 e 1871, descritos pelo geólogo Charles


Hartt e Joseph Beal Steere, com poucas informações e usando o termo kitchen middens, para definir o que chamamos de Terra Preta de Índio. De inicio, uma das hipóteses de Hartt para a formação da TPI era que as mesmas seriam solos vegetais, pelas quais os índios eram atraídos devidos sua grande fertilidade, e fundamentou essa hipótese, por ter encontrado fragmentos cerâmicos em toda a camada de refugo ocupacional (Kern et al., 2005). Assim, iniciou-se uma longa jornada em busca de informações que pudessem levar cientistas de diversas áreas a desvendar os mistérios da formação da TPI. Discussão que por sua vez iria gerar um enorme debate muitos anos depois, um exemplo dos debates pôde ser evidenciado quando cientistas de diversas áreas do conhecimento, encontraram-se em Manaus, em um workshop internacional sobre TPI (Kern et al., 2005). Uma das principais características da TPI é a sua cor, essa característica segundo (Woods, 1995) é o resultado do conteúdo de matéria orgânica, dos teores de carbonato de cálcio, da concentração e estado de oxidação do ferro e manganês. A cor também é influenciada pela presença de cinzas, carvão e materiais terrosos oxidados (Woods, 1995) e, também a presença de material orgânico decomposto, em parte na forma de carvão residual de fogueiras domésticas e da queima da vegetação para uso agrícola do solo (Kern et al., 2005). Porém de acordo com Kämpf (2000) as características das TPI podem ser altamente variáveis entre os sítios. E segundo Kern et al. (2005) podem variar também dentro de um mesmo sítio, isso explica porque o termo “Terra Preta” tem significados distintos para diferentes pessoas, dificultando o acordo entre as informações. Além dessas características, a Terra preta é caracterizada também por altas concentrações de determinados elementos químicos, Fosforo, Cálcio, Potássio, Zinco (e.g. P, Ca, K, Zn) que estão associados às atividades humanas, causando elevadas concentrações de matéria orgânica e carbono, e abundantes concentrações de artefatos culturais (Woods, 1977). Os materiais que resultam essas características são: a deposição de cinzas, resíduos de peixes, conchas, caça, dejetos humanos, entre outros compostos orgânicos (Kern et al., 2005). Essas modificações influenciam a fertilidade que a Terra Preta de Índio possui, principalmente para a agricultura, onde a mesma é bastante utilizada no município de Iranduba, para o plantio de algumas plantas como: mamão, mandioca, melancia e também de diversos tipos de hortaliças.


Existem também as áreas que segundo Woods (1995) não era associada às áreas de habitação por apresentar poucos materiais culturais, conhecidas como Terra Mulata. No entanto, esses locais contêm níveis elevados de matéria orgânica e carbono. De acordo com alguns pesquisadores como Sombröek, (1966:175; Glaser et al. 2001, arqueólogos: Herrera et al. 1992; Petersen et al. 2001; botânicos: Prance & Schubart 1977, e geógrafos: Denevan 2001:104-110, 123-124; Woods & McCann 1999 apud Woods, 1995), sua origem pode estar ligada à agricultura intensiva ou semi-intensiva, apesar de que em sua composição a fertilidade, segundo Denevan (2004), estaria ligada a dois fatores: a elevada quantidade de partículas de carvão resultado da combustão incompleta em queimadas frequentes, e a outra um teor elevado de matéria orgânica. As TPI por sua vez (Kern et al., 2005) em sua maioria localizam-se em terra firme, são solos bem drenados, próximos de água corrente e quase sempre em posição topográfica que permite boa visibilidade da área de entorno, fator importante para a estratégia de sobrevivência. Essas características podem ser encontradas nos grandes sítios arqueológicos de Iranduba, como o sítio Hatahara e o sítio Caldeirão, ambos localizados na margem esquerda do Rio Solimões, o sítio Laguinho por sua vez é localizado às margens do Lago do Iranduba. 5 OBJETIVOS Este trabalho teve como objetivo relacionar o potencial hidrogeniônico (pH) e a quantidade de cerâmicas em algumas áreas a fim de compreender o potencial das mesmas para que elas possam ser utilizadas tanto por pesquisas arqueológicas quanto pedológicas, ou seja, saber se em determinada área onde há grande quantidade de fragmentos cerâmicos, o pH é elevado, e interpretar o potencial para as pesquisas das disciplinas relacionadas, ou seja, arqueologia e pedologia. Os objetivos propostos partem do pressuposto que é provável que nas áreas de moradias o pH seja um pouco mais elevado, assim como os elementos químicos que compõem a TPI (Kern et al, 2005). Além disso, esse trabalho visa propor ideias que podem ser utilizadas nas futuras pesquisas de uma maneira mais simplificada. Avaliando se o pH e os fragmentos cerâmicos são um bom indicador da potencialidade do sítio, se tornando assim mais fácil a descoberta de áreas mais relevantes para o andamento de futuras pesquisas. Essa pesquisa nos exige abordar um pouco mais sobre uma grande discussão que vem sendo gerada nas últimas décadas sobre a formação das TPI da Amazônia que em minha opinião é um dos principais fatores para as pesquisas e para o conhecimento


sobre essas populações pré-coloniais. Pois as TPI guardam os principais vestígios utilizados por populações do passado e que ainda estão presentes na mesma, e que causaram essa transformação do solo. 6 METODOLOGIA No sítio Caldeirão elaborou-se um grid parcial de 50 em 50 metros, foram feitos 50 pontos de coleta que se estenderam da área mais impactada pela agricultura, entrando na área de capoeira e sendo finalizada até a área em que se inicia a declividade do terreno, isso ao lado leste do terreno, e ao lado norte foi estendido até a extremidade de um ramal que é pouco utilizado, e ao lado sul, também foi finalizado na estrada principal (estrada do caldeirão). As tradagens foram feitas com boca-de-lobo, com 20 cm de diâmetro e 1m de profundidade, o solo foi recolhido de 20 em 20 centímetros, e nesta etapa o solo foi levado para a sede da EMBRAPA ocidental, onde passou por uma série de análises químicas. Sendo assim como esse trabalho relaciona-se com a acidez do solo e sendo que o pH é a principal metodologia utilizada neste trabalho é importante mencionar suas características. A escala do Ph varia de 0 a 14, em solos podem ser encontrados valores de 3 a 10, com variações mais comuns em solos brasileiros entre 4,0 e 7,5, e que solos com pH abaixo de 7 são considerados ácidos e os com pH acima de 7 são alcalinos, sendo que o pH quanto mais baixa sua numeração mais ácido é o solo. Atualmente as TPI são cultivadas na região por pequenos agricultores, principalmente na forma de agricultura de subsistência, no sistema de agricultura itinerante de corte e queima (Teixeira, 2005). Na segunda parte do trabalho, foi observado um elevado teor de fosfato na área de capoeira, onde seria a área menos impactada pelo uso de agricultura, pois segundo informações orais de comunitários e funcionários da EMBRAPA, essa capoeira teria aproximadamente 40 anos, ou seja, seria o tempo em que a área não estaria sendo utilizada. Sendo assim não seria importante tirar as medidas de pH do sitio inteiro, pois a área de uso atual está muito impactada pelo uso de maquinas agrícolas, ou seja, os primeiros 30 cm que seriam utilizados para as medidas de pH estavam bastante alteradas. E o mais recomendável foi a escolha de uma área dentro ou mais próxima possível da capoeira, onde os primeiros níveis utilizados no projeto estariam provavelmente mais conservados devido ao longo período que não fora utilizado.


Foi escolhida uma área de 50m² onde foram feitas 32 tradagens da mesma forma da primeira etapa, porém com distância de 10 em 10m, e coletados os primeiros 30 cm separando solo e cerâmica, onde seriam analisados e comparados para que o projeto tenha um resultado. Quando foi finalizada a primeira a tapa de trabalho, ou seja, a coleta de dados, o solo foi recolhido levado para o laboratório o da EMBRAPA Amazônia Ocidental, localizado na rodovia AM 010 km 30, onde iria ser preparada para as leituras de pH, pois em campo não foi possível realizar essas medidas pela falta de equipamento no campo experimental do caldeirão, estando esse material disponível apenas na sede da Embrapa. Portanto os procedimentos que foram usados para essas medidas de pH, foram de acordo com o Manual de Métodos de Análises de Solo 1997, onde os materiais seriam, Potenciômetro com eletrodo combinado, onde o mesmo seria ligado aproximadamente 30min antes do uso, água destilada, para que a amostra não sofra alterações. O primeiro passo para a medição do potencial hidrogeniônico (pH), foi então colocar 10 ml de solo em um copo plástico de 100ml, sempre numerado, para que não ocorra erros nas informações. Em seguida se adicionou 25 ml de água destilada, por fim a amostra foi agitada com um bastão de vidro, para depois mergulhar os eletrodos na água e proceder à leitura do pH. Com a cerâmica não foi diferente, como os fragmentos eram muito pequenos decidimos então que não usaríamos números, mais optamos por usar o peso desses fragmentos coletados. 7 RESULTADOS Neste tópico iremos apresentar os dados que foram extraídos com o decorrer desta pesquisa, referentes às analises de leitura do ph e os resultados das cerâmicas. Os resultados obtidos nos forneceram informações bastante homogêneas em comparação ao que se esperava da pesquisa, pois os objetivos eram o de conhecer o pH do solo a intervalos constantes, para caracterizar a acidez do solo e adicionar dados para a análise de contexto arqueológico; verificar a potencialidade das análises de pH para a escolha de locais mais interessantes para escavação arqueológica e pedológica; - Comparar os resultados das análises de pH com a densidade de material cerâmico e profundidade da terra preta, ou seja, onde há muito material cerâmico o pH é sempre mais alto ?


Esses resultados serão amostrados através de figuras ilustrativas, das áreas de onde foram retiradas as amostras e contida neles a densidade de cada um dos resultados, tanto das leituras de pH quanto das cerâmicas. Sendo assim, a área foi escolhida pelo fato de estar sob uma grande capoeira, há aproximadamente 40 anos sem utilização pela Embrapa, sendo então bem mais preservada em relação as áreas que estavam em atividade, cordenadas UTM 20M 807976 E 9640038 S. Os dados de pH está bastante homogêneo, destacando-se um dos pontos (A21) que está fora das estatísticas apresentadas pelos pontos, já que os dados cerâmicos nesta área estão em pequenas quantidades, uma hipótese para essas pequenas diferenças são as distâncias em que elas estão entre si, alem de que é uma área muito pequena em relação à dispersão da mancha de TPI.

Figura 1 - Figura de representação de dados da leitura de pH.

Em seguida a figura apresentada mostra os dados obtidos através do peso das cerâmicas em cada uma das tradagens realizadas, sendo que este também não possui grandes diferenças entre si. Destaco também que foram decididos que usaríamos o peso, pois a quantidade não seria muito favorável, já que os fragmentos eram pequenos e em grande quantidade, dando a entender que o local possui um grande potencial, porém com pouca relevância. (Fig.2)


Figura 2 - Figura de dados de pesos das cerâmicas das sondagens. 8 DISCUSSÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS Com base nos dados obtidos, a conclusão é de que os dados apresentados com as análises foram bem homogêneos em relação ao que era esperado da pesquisa, pois como eu já informei há uma grande relação intima entre os dados das leituras de pH e os dados de peso das cerâmicas. Porém como a área do sítio corresponde a 27 hectares, e os dados foram coletados em 50m², esses dados podem não ser relevantes, levando em consideração que essa área é muito pequena em relação à todo o tamanho do sítio arqueológico, ou seja, esses resultados poderiam ser diferentes com amostragens em todo o sitio, já que o mesmo possui áreas bem diferentes devido ao uso da TPI e também com diferentes tipos de modificação do terreno, onde existem área de capoeira, área de plantações de hortaliças e áreas de pomar, onde a mesma possui diferentes tipos de arvores frutíferas e também áreas mais usadas e outras menos usadas, como por exemplo, a área em que foram coletados as amostras, que seria uma dessas áreas pouco utilizada. Porém, os dados nos levam a levantar questões bem relevantes, pois o projeto inicial tinha como um dos objetivos, discutir questões relacionadas à arqueologia e a pedologia, e sendo assim deve-se discutir também as formas de interpretação de cada uma dessas áreas, ou seja, expressar o olhar de cada uma dessas disciplinas em relação aos dados obtidos, pois cada uma delas tem seu modo de pensar, agir e interpretar. Um arqueólogo ao chegar a um sítio arqueológico, dependendo do foco de sua pesquisa, utiliza a coleta de dados (escavação) em uma área por ele definida por grandes potenciais, ou seja, nas sondagens realizadas são observadas principalmente os vestígios encontrados, e o pacote de TPI. São esses vestígios que dão bastante relevância às áreas


escolhidas, sendo assim os arqueólogos dependendo do foco de sua pesquisa não têm como preferência analisar a qualidades do solo, somente cor e textura, talvez por não poder ter em campo alguns desses equipamentos. Dessa forma afirma-se que um arqueólogo certamente escolheria essa área como um ponto para uma unidade de escavação e possivelmente teria grandes surpresas na interpretação desses vestígios encontrados, pois o sítio Caldeirão tem como vizinho o sítio Hatahara, parecidos em relação a geomorfologia, e que pode ter um contextos tão interessante quanto o mesmo. Outra observação foi feita na área de coleta de solo, ou seja, na capoeira do sítio Caldeirão, em que há uma grande quantidade de bolsões de TPI, localizados nos perfis estratigráficos escavados pelos pesquisadores da Embrapa para coleta de solos. Esses perfis tinham aproximadamente 1m de diâmetro sendo que possuíam coloração Munsell, 10YR 2/1 Black, e possuíam uma grande quantidade de material cerâmico e carvões (Fig.3 ).

Figura 3. Bolsões de TPI, localizado dentro da área de capoeira, próximo de onde foram coletadas as amostras.

Na visão de um pedólogo, sua especialidade está nos estudos dos solos e certamente têm uma visão diferente de como os arqueólogos veem os vestígios, ou seja, seus objetivos vão se relacionar com a qualidade dos solos, diferenciando-se assim do arqueólogo que por sua vez tem diversos fatores que podem ser observado em um sitio, como cerâmica, TPI, formas de assentamento (montículos) ocupações (Açutuba, Manacapuru, Paredão e Guarita), paisagens, entre outros. Sendo assim, um arqueólogo escolheria uma área a ser escavada pelos dados de leitura de Ph, onde entre os dados, como podemos observar há uma das sondagens que


está com o pH bem elevado em comparação às outras leituras, levando a proposta de que provavelmente essa seja uma boa área para uma amostragem, ou seja, abertura de uma unidade de escavação. Falando nesse ponto que se diferenciou surgem também hipóteses a respeito desses dados, pois como vimos na (Fig.1), ela não possui grande quantidade de fragmentos cerâmicos, mas possui um pH bastante elevado, e seria importante a abertura dessas áreas, pois poderíamos nos deparar com algo importante para as pesquisas, como, concentrações de carvões (fogueira), também com uma área de descarte (lixeira) ou até mesmo um sepultamento. Pois nestes lugares os solos são mais alcalinos que os solos adjacentes, lembrando mais uma vez que a área de grandes potenciais, como, muita TPI, e cerâmicas, são extremamente importantes para as pesquisas arqueológicas. Porém, devemos entender o sítio e seu contexto geral para entendermos todos os seus pontos que foram modificados por essas populações do passado.

E no sítio

Caldeirão como foi visto nessa pesquisa possui um grande potencial até então desconhecido arqueologicamente, mas que em breve certamente pode ser estudado pela equipe interdisciplinar do Projeto Terra Preta, e principalmente e futuramente nós os arqueólogos amazônicos e grandes arqueólogos que estão contribuindo para nosso desenvolvimento.

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A Caracterização do PH de amostras de solos de horizontes Antrópicos (terra preta de índio)  

Autor: Adilon Pereira Inuma