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Solidariedade Era uma vez, não há muito tempo, uma palavra que vivia na página de um dicionário. Solidariedade, assim se chamava. Levava uma vida simples, pacata e pouco interessante. Poucas vezes solicitada, muitas vezes ignorada, e até desconhecida para muitos. Poucos a procuravam, por isso passava os dias a falar com as outras palavras ou a observar o comportamento dos homens e tirando conclusões. Tanto tempo livre começou a preocupá-la, pois via o mundo a desmoronar-se sem que ninguém fizesse alguma coisa para o salvar. As pessoas, especialmente as que viviam sem dificuldades, ignoravam-na, o que não acontecia com a palavra vaidade, ostentação, egoísmo e indiferença. Solidariedade descobriu que muito poucos sabiam o seu significado, que era muitas vezes usada só para ostentar poder e riqueza. Tal facto fazia com que se sentisse triste e desvalorizada. Um dia sentiu uma criança aproximar-se, querendo descobrir o seu real significado. Esse gesto comoveu-a e abriu-lhe um sorriso. Sentiu-se feliz por ser procurada por uma criança, o que lhe trouxe esperança, e pensou: "as crianças são o futuro, só elas serão capazes de mudar a mentalidade dos mais velhos, que tanto me ignoram"! Depois de se informar de forma clara, a criança refletiu sobre a explicação encontrada, correu para a sala onde estavam os pais e perguntou-lhes: - Pai, mãe, sabem o que é a solidariedade? Intrigados, os pais olharam-na, e colocando a mão na sua testa, perguntaram-lhe: - Estás doente? Sentes-te bem? Quem pôs essas ideias na tua pequena cabeça? - Foi a professora. Ensinou-nos que devemos ser solidários, que devemos partilhar o que temos com os que mais precisam. – explicou, a medo, a criança. - Tem juízo, rapazinho! Isso é coisa de pobres, não é para ti. Vai estudar, esquece isso! Não te queremos ouvir falar mais de tal assunto – ordenaram os pais. - Desculpem, eu não os queria zangar... Vou estudar para o meu quarto – desculpou-se o rapaz, enquanto se retirava. Já no seu quarto, o menino pensou nos pais e na sua estranha reação à palavra Solidariedade. Deu voltas à cabeça, na esperança de encontrar uma explicação. Não conseguiu e, por isso, começou a estudar. Era melhor obedecer, não queria ver os pais zangados. Da página onde vivia Solidariedade, que assistiu à discussão, notava-se a sua preocupação. Afinal as coisas eram piores do que imaginava! Nesse momento viu a comadre Crise saltar do dicionário, seguida de um enorme exército, e ficou muito aflita. Que iria aquela louca fazer? Pobre humanidade! Com a Crise à solta, ninguém iria 1


escapar, nem mesmo aqueles que até então a tinham ignorado! Aquela louca não poupava nada nem ninguém, tudo iria mudar. Até a atitude daqueles ignorantes pais! A partir desse dia, a Crise tornou-se a personagem mais falada e temida da humanidade: fábricas fecharam, bancos faliram, o emprego foi desaparecendo e a Pobreza começou a destacar-se. Crise e Pobreza passeavam de mãos dadas. Ouviam-se por toda a parte gritos de desespero e apelos à Solidariedade, que não tinha mãos a medir. Queria e precisava de estar em todo o lado. A sua vida nunca mais foi a mesma! Precisava de lutar para que a comadre Miséria não se instalasse e passasse a ser a personagem principal! Um dia, quando se preparava para um curto descanso, foi chamada para acudir uma família em apuros. Passou um pouco de água no rosto e pôs-se a caminho. Tinha de ajudar todos os que dela precisavam. Solidariedade nem imaginava de quem se tratava, por isso ficou boquiaberta quando descobriu que a família em apuros era aquela que tanto a tinha desprezado. O pior tinha acontecido! A criança tinha sido atacada por uma grave doença, os pais tinham perdido o emprego e já nem casas tinham, estavam a viver, por solidariedade, em casa de um familiar de poucos recursos. Viviam na mais pura miséria e, para piorar, a criança precisava de um tratamento urgente fora do país. Comovida, Solidariedade entrou logo em acção! Não havia tempo a perder, tinha de os ajudar. Reuniu esforços, utilizou a comunicação social e conseguiu os meios necessários para a deslocação e tratamento da criança. Conseguiu ainda que a família fosse alojada numa casa e tivesse ajuda para o recheio. Depois da ajuda prestada, Solidariedade olhou fixamente a criança e sorriu-lhe. Em troca recebeu um enorme obrigado e um piscar de olho. Quanto aos pais, esses sentiam-se tão envergonhados e arrependidos que nem conseguiram levantar os olhos do chão! A caminho de casa, Solidariedade, não conseguia parar de pensar na situação de todas as famílias que estavam a ser atingidas pala Crise, Pobreza e Miséria. Preocupavam-na, sobretudo as crianças e os idosos. Era preciso apelar aos governantes e políticos de todo o mundo para que criassem condições em que todos os seres humanos, sem exceção, pudessem viver com dignidade. Que todos tivessem um teto, um prato de comida, emprego e educação, sem que para isso tivessem de se sentir humilhados. Era preciso fazer uma melhor distribuição da riqueza. Perdida nos seus tristes pensamentos, quase tropeçou num casal de idosos semabrigo, que estendiam a mão a quem passava sem que reparassem neles. Mais um caso para resolver! Era urgente ajudar todos os que viviam nas ruas! As noites frias e a má

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alimentação podiam ser fatais. Aquilo não era forma de vida, era mais um caminho para a morte! Graças ao seu trabalho, foi possível levar os idosos para um lar e arranjar-lhes um rendimento, embora modesto, para que não perdessem a pouca dignidade e independência que lhes restava. O casal de idosos sem-abrigo, depois de resgatado, passou a ajudar, com os seus poucos recursos, todos os que viviam em piores condições que eles. Solidariedade não tinha sossego. Todos os dias surgiam novos casos para resolver. Enquanto a comadre Crise não se aposentasse e deixasse os Homens em paz, a Pobreza e a Miséria continuariam a crescer, logo era necessário fazer alguma coisa. Depois de muito pensar, chegou à conclusão que devia organizar uma reunião com a Crise, a Pobreza, aMiséria e alguns políticos, a fim de encontrarem uma solução que permitisse melhorar e ultrapassar as situações mais graves. Mal teve um tempinho, Solidariedade redigiu as convocatórias e enviou-as, esperando uma resposta positiva da parte de todos os convocados, ou de pelo menos alguns. Embora soubesse que tal poderia não acontecer, manteve a esperança até ao fim. No dia da reunião não foi à cama, queria ter tudo organizado para os receber, mas o seu esforço foi em vão. Ninguém apareceu, todos estavam muito ocupados com as suas vidinhas… Triste e desiludida, desabafou com os seus botões: - Assim não pode ser! Se nem mesmo os políticos têm interesse em acabar com esta situação, como é que sozinha posso acudir todos? As forças começam a faltar-me e é cada vez mais difícil encontrar soluções! As fábricas continuam a fechar, o desemprego não pára de crescer… Já não há onde encontrar meios que satisfaçam todas as necessidades! Faltam os bens essenciais à manutenção da vida. Os governantes têm obrigação de fazer alguma coisa, pois um dia a Solidariedade acaba! - Isso não pode acontecer! – gritou uma voz. - Quem grita assim com tanta força? – perguntou Solidariedade. - Sou eu, o Desespero, aquele que vive debaixo do mesmo teto da maioria das famílias da dita classe média. - Ah! O Desespero, aquele que leva as pessoas ao suicídio e ao mundo do crime? - Esse mesmo! A situação é grave, e quando tu não estás por perto, não há outra forma de ajuda. Eu ajudo como posso… Não sou tão altruísta como tu, por isso, sugiro o caminho mais fácil. - explicou o Desespero. - Não tens vergonha? Como podes pensar que o que fazes ajuda quem quer que seja? Não vês que só pioras a situação desses pobres coitados? – indignou-se Solidariedade.

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- Não sejas ingrata, tu não consegues estar em toda a parte. Desde a chegada da Crise que vejo a toda a hora famílias inteiras perder tudo o que conseguiram ao longo de uma vida de trabalho, recusando-se a aceitar a Pobreza e a Miséria que se instalaram nas suas vidas, logo alguém tem que os ajudar. Concluí que só posso ser eu, pois também se recusam a receber-te. Assim sendo, faz o teu trabalho, que eu faço o meu. – aconselhou o Desespero. - Que lindo discurso, sim senhor! Por acaso não te passou pela cabeça que essas famílias só seguem o teu conselho porque eu não cheguei a tempo? Que talvez fosse melhor saíres das suas vidas, enquanto não chego e lhes presto auxílio? – perguntou zangada Solidariedade. - Deixa-te de pieguices! Os homens que morrem não precisam de ti, os que roubam também não. Eu até te facilito o trabalho, ficas com mais tempo para aqueles que abrem os braços e se sentem bem na tua companhia, aqueles que aprendem com o sofrimento, tornando-se melhores e mais solidários – ironizou o Desespero. - Está bem, venceste! Já vi que não vale a pena argumentar contigo. - Ora ainda bem – respondeu Desespero, correndo para se instalar noutra família. A conversa fez com que a Solidariedade ficasse ainda mais preocupada. Pensou em todos os que acreditam nela e nos que, graças às dificuldades criadas pela Crise, passaram a valorizá-la. Sentiu pena dos que se entregaram ao Desespero, pois para esses não havia futuro, estavam mesmo perdidos! Graças à Crise, Solidariedade passou a ser uma palavra que anda de boca em boca e todos sabem o seu significado e a sua importância. Os Homens estão mais humanos, conscientes e solidários. Aprenderam que nos momentos bons devem pensar e ajudar todos os que, por alguma razão, vivem com dificuldades. A Solidariedade nunca mais terá uma vida pacata ou desinteressante, pois passou a fazer parte do vocabulário de toda a Humanidade.

Ana Rita Ribeiro Pereira- 6ºF

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Solidariedade  

Conto candidato ao concurso "Eu conto" do PNL, numa parceria com o BPN.

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