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Há muito, muito tempo, quando ainda reinavam os reis na Alemanha, uma cornucópia, que tinha sido do tetra-tetra-avô do novo rei, fazia história. Tudo começa numa aldeia alemã, agora desaparecida, onde a família de reis Mordane habitava. Estes reis viviam num gigantesco castelo com os seus oito e já crescidos filhos.

Eram uma família feliz, cheia de saúde e de riqueza. Tinham tudo o

Eram uma família feliz, cheia de saúde e de riqueza. Tinham tudo o que sempre desejaram, uma aldeia cheia de comércio e nem um pouco de pobreza.

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Até que um dia, o rei Jorge Mordane adoeceu com um vírus desconhecido e, portanto, sem cura conhecida. Resistiu e, durante muito tempo, não deixou a doença vencer. Aguentou assim durante dois anos, até que morreu.

Então, toda a aldeia ficou aterrorizada. E, por entre as ruas, só se ouviam perguntas, tais como: “Será o fim deste reinado?” Ou até mesmo: “É este o nosso fim?”

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Assim, toda a aldeia sofreu, inclusivamente a família real, que, para além de problemas de Estado, entre outros, viu surgir outra questão: “Mas e agora quem será o novo rei?” Mais uma questão para pôr a cabeça da rainha a trabalhar. Mas o que valeu foi que a resposta veio logo ao de cima, tal como a rainha disse. Com efeito, o rei, dias antes de morrer, escreveu um pequeno testamento, no qual mencionava o novo rei e a riqueza que cada um dos filhos teria. O problema era que ninguém sabia onde o testamento estava. Por isso, durante dias e dias, o castelo foi fechado ao povo para que toda a concentração se focasse em procurar o testamento.

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Conta a história que nada apareceu, nem uma única letra ou um ponto final. Exceto uma velha e pobre cornucópia, encontrada pelo filho mais novo, Martim Mordane. Era uma cornucópia silenciosa na qual nem um “dó, ré, mi” soava.

Martim Mordane soube pela mãe que essa tal cornucópia tinha pertencido ao seu tetra-tetra-avô, Henrique Mordane, e que já não era tocada há 120 anos, desde o último Festival da Castanha do seu tetratetra-avô.

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Martim sentiu-se orgulhoso por ter nas suas mãos algo que tinha sido muito importante para o seu tetra-tetra-avô. Mas qual era a graça de ter uma cornucópia nas suas mãos, se não tocava? Ele queria sentir o que o seu tetra-tetra-avô sentira, por isso, montando um dos seus onze cavalos brancos, dirigiu-se à aldeia.

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A aldeia era o sĂ­tio preferido de Martim, pois adorava sentir o prazer de uma boa compra e o gosto de uma boa venda, o cheiro a pĂŁo fresco e as cores que coloriam as bancas de fruta.

PorĂŠm Martim Mordane nĂŁo estava ali para comprar, mas sim para anunciar um desafio ao povo.

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Em cima da praceta rodeada de escadas, anunciou que quem conseguisse voltar a p么r a cornuc贸pia real a tocar receberia vinte mil reis e uma mina de ouro.

Mal a not铆cia se espalhou, milhares de camponeses encheram os jardins do castelo e at茅 havia habitantes da aldeia vizinha, separada por um rio. Atravessaram-no e mesmo molhados e cansados apresentaram-se no castelo.

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Muitos tentaram e não desistiam, mesmo que já vissem todo o mundo à roda, outros, quando viram que os mais fortes não conseguiam, desistiram, por falta de ânimo. Martim Mordane viu-se num beco sem saída, pois ninguém conseguia tirar daquela cornucópia o “dó, ré, mi” que ele tanto esperava ouvir. Chegou mesmo a querer desistir, pois era impossível fazer aquela coisa velha tocar. Mas não! O príncipe recompôs-se e voltou à aldeia.

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Quando lá chegou, com o pensamento positivo de que conseguiria voltar a encher os salões do castelo com camponeses, deparou-se com a beleza de uns lindos caracóis loiros de uma jovem. Os traços bem definidos daquele belo rosto, os olhos azuis que pareciam água e aquele aberto e cintilante sorriso de quem espera pelo homem certo deixaram-no fascinado. A jovem falava com os pássaros, segredando-lhes que adoraria encontrar o seu príncipe encantado. Martim nunca tinha visto cara mais bela e tão doce voz, bonita de se ouvir falar.

Martim foi então ter com ela. Primeiro apresentou-se: - Bom dia! Eu sou Martim Mordane, e tu? 10


E ela, encantada, mas tambĂŠm envergonhada, respondeu: - Ca-ca-mila Bor-bor-dados.

Martim sabia que era a mulher da sua vida, mas, como tinha assuntos mais importantes a tratar, retirou-se, finalizando a conversa com um simples ÂŤadeusÂť.

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Com ela no seu pensamento, voltou a subir à praceta rodeada de escadas, mas desta vez com outra oferta: «Quem conseguir pôr a minha cornucópia a tocar, desta vez, terá trinta mil reis, duas minas de ouro e estará na lista de convidados do Festival da Castanha».

Convencido de que desta vez terá sucesso, montou o seu cavalo e cavalgou até ao castelo. A meio do caminho, lembrou-se da rapariga que tinha visto e desejou voltar a vê-la na manhã seguinte.

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Quando chegou ao castelo, Martim contou a sua mãe o que lhe tinha acontecido, mas ela estava demasiado ocupada para ouvir contos de fadas. Martim insistiu, contou-lhe que o rosto da jovem era como seda, que o nariz era perfeito, que os seus lábios sedosos e os olhos doces mostravam que ela tinha tudo para fazer um homem feliz.

Mas a mãe dizia que ela não seria a tal só pelo sorriso, mas sim pela sua forma de ser.

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E Martim sabia que, para a mãe, o seu primeiro amor não era um assunto relevante. Para ela o estado da aldeia e o Festival da Castanha eram o centro das atenções, por isso Martim pensou que talvez fosse pedir-lhe de mais e que provavelmente era demasiado novo para saber o significado da palavra “amar”.

Então voltou ao que realmente interessava à mãe, o Festival da Castanha e pôr aquela cornucópia a tocar. Na manhã seguinte, depois do pequeno-almoço, Martim decidiu voltar à aldeia para poder ver Camila Bordados pela última vez. Montou o seu cavalo e lá foi ele.

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Quando chegou à aldeia e a viu, a sua chama voltou a arder tal como da primeira vez que a tinha visto, mas agora era uma chama mais intensa, mais ardente e mais poderosa. Não sabia como realmente a esquecer, pois era difícil voltar a não sonhar com ela. Colocou um sorriso nos lábios e comprou umas rosas tão cheirosas como o seu cabelo. Aproximou-se dela, ergueu-lhe a mão, ajoelhou-se e entregou-lhe as rosas. Mas, com uma lágrima, despediu-se: - Vou ter saudades tuas. E, sem hesitar, virou-lhe a cara e foi-se embora. - Espera! Onde vais? - perguntou ela - Tenho sonhado contigo mesmo acordada! E Martim, percebendo que nela também ardia uma chama, abraçou-a e convidou-a para o Festival da Castanha.

O sol acordou radiante na manhã do Festival. E, naquele dia, abriamse as portas do castelo àqueles corajosos que pretendiam levar para casa os trinta mil reis e as outras ofertas.

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Naquele dia festivo, novos habitantes atravessavam o rio e mantinham a esperança de voltarem vitoriosos. Para a rainha, o Festival não era só mais um dia, mas sim o dia preferido de Jorge Mordane, o seu falecido marido, por isso tudo tinha de estar na perfeição. Às 11 horas, as portas do castelo foram abertas e milhares de pessoas encheram o salão, prontas a responder ao desafio. Eram homens e mulheres de todas as idades, do mais forte ao mais fraco, do mais feio ao mais bonito, do mais rico ao mais pobre, mas todos com o máximo entusiasmo. A rainha desejou boa sorte a todos, e, às 11 horas e 15 minutos, o desafio começou. Novamente muitos tentaram e só desistiam quando já o corpo não pudesse mais.

Mais uma vez, ninguém saiu vitorioso e Martim Mordane ficou novamente devastado. Contudo, a rainha ainda mantinha a fé de que alguém conseguisse trazer de novo o espírito de outono que a cornucópia espalhava quando se ouvia o tetra-tetra-avô a tocá-la. A mãe de Martim animou-o dizendo que no ano seguinte tudo correria melhor e que deviam continuar a praticar as tradições. Mas Martim sabia que nunca seria o mesmo e que o pai fazia muita falta porque era ele quem dava vida ao Festival.

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Camila via todos aqueles participantes a saĂ­rem do castelo, enquanto esperava o seu amado na praceta e jĂĄ sĂł via o sol a adormecer.

Quando a lua nasceu, Martim apareceu no seu cavalo veloz, colocou delicadamente Camila no cavalo e seguiram para o castelo.

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Chegados ao castelo, encontraram duques e mulheres da realeza a danรงar, com os seus vestuรกrios feitos em seda da melhor qualidade.

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Martim convidou Camila para dançar, mas ela foi atraída pela cornucópia que estava exposta. Com delicadeza, encostou os lábios à cornucópia e soprou. Da cornucópia saiu um som maravilhoso que espantou quem estava à sua volta.

A rainha aproximou-se dela e sussurrou ao seu ouvido: “Eu sempre soube que esta cornucópia iria voltar a tocar, mas não por uma menina”. Orgulhosa da pobre rapariga, colocou-lhe a coroa real na cabeça e anunciou os novos reis, Martim e Camila.

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Martim, agora rei, selou a noite com um beijo apaixonado.

FIM

FIM

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Uma melodia apagada  

Participação da turma do 8ºK da Escola Secundária Gaia Nascente. Professora responsável: Eugénia Teixeira

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