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Poetando… Poetas da Sá da Bandeira Se a escrita é um atrevimento, a poesia é ousadia. Os nossos poetas, os que ainda cá estão, alguns que nos deixaram pedaços da imaginação e do sentir – para que todos sintam o espírito livre nestas ‘coisas de versejar’!


Tinhas uns passos calmos e um caminhar seguro, Um cabelo forte, uns olhos doces, Umas costas largas, uns ombros desenhados, Um peito macio, umas mãos cheias, Um sorriso aberto. Gostavas de pôr perfume e escolher o relógio, Conjugar as peças de roupa e fazer o nó da gravata, Comprar botões de punho e aparar a barba. Pela manhã, tinhas por hábito levar-me um beijo à cama com cheiro a café, Depois, seguias para o trabalho, Esquecias as nuvens do céu e desenhavas sóis, Com um ar sério contavas anedotas E a cada criança davas um beijo na testa. Ao vestir a bata branca colocavas asas invisíveis, Esperanças renascidas, forças incontroláveis, vontades indomáveis. Chamava-te cavaleiro das madrugadas e tu sorrias sob lençol da humildade E aquecias-me a circunferência da existência. Não gostavas que eu fumasse, Assustavam-te as minhas loucuras, Não compreendias a minha liberdade mas amava-a ternamente. Juntos trouxemos ao mundo o amor feito carne, Demos-lhe o nome de filho e prometemos-lhe eternamente colo. Como eu gostava de vos ver brincar no campo… Parecia que em cada abrir de braços agarravam a alegria na sua existência sólida E bebiam o ar da liberdade. A casa ia-se transformando connosco, Acompanhando a vinda de cada primavera, O crescimento das nossas flores e o amadurecimento dos nossos frutos. As estações são o mais verdadeiro e puro cenário da vida humana. O teu Inverno chegou cedo E, de braço dado, o meu Outono, As minhas primeiras tempestades, a queda dos meus ramos, O enfraquecimento das minhas raízes, o arrefecimento do meu corpo, A dureza dos meus dias e as minhas noites maiores. Numa manhã, tal como fazíamos quando íamos para a praia, Levantaste-te sem eu me aperceber, Mas senti o teu beijar, Pegaste na mala cheia da vida, Desceste as escadas em silêncio, Abriste a porta, E caminhaste em direcção ao mar sem deixar pegadas, meu cavaleiro das madrugadas. Raquel Botelho 2013

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Coração Quebrado

O amor de nada serve A vingança me quer acolher

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Apenas a sua morte serve A sua amante deve escolher Mas é tão rápida. Como se atreve! Lenta…sim…e dolorosa que a todos faz estremecer Isto o deve ensinar, O meu poder nunca se deve subestimar.

Não estás a entender? Bem vou-te explicar, Decerto sabes que ele vai morrer Como? Não podes acreditar? Depois de me trair ele vai ter de sofrer Pois bem atenta deves estar, Não ouves a sua voz? Ela tem um som tão…atroz!

Miguel Oliveira, 10ºC nº22 – CNL 2013


Recordações Fotografias, memórias, Poemas, histórias, Esquecidas, espalhadas, Entre a parede e as espadas Existentes no meu castelo. Livros fechados no meu chão, Em teus telhados, Nas flores do meu jardim. Tristes, alegres, Marcantes, passageiras, Habitaram e sossegaram em meu peito. Ali ficaram, agarradas a tudo o que as prendia, Embaladas enquanto dormia, Sobressaltadas quando as recordava. As tristes tentei que viajassem com o vento, Mas ele nunca as levou, Deixaram feridas que nem o tempo curou. As alegres resolvi guardá-las, com medo que as tristes pudessem atormentá-las. As marcantes a minha alma tatuaram E as passageiras numa brisa amena passaram. Jamais conseguirei apagá-las, Para mim são algo belo, Do meu chão, do teu telhado, das flores do meu jardim Jamais poderei tirá-las, Pois são elas que formam o meu castelo. Raquel Botelho 2009

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“Encantadora Magia”

O coração aperta O corpo estremece O cérebro desperta E o pensamento aparece. Sem saberes Com a tua encantadora magia Feliz tornas o meu dia. E quando anoite De um sonho descomunal Tu apareces como personagem principal.

Catarina Duarte 10ºD Nº8 CNL 2013

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Deixa-me ser poema Deixa-me contar-te as minhas histórias, Sentar-me a teu colo, dizer-te, Falar-te de tudo o que vivi, das estradas que pisei, Das ondas que me embalam, dos aromas que me adormecem. 5

Deixa-me chorar e beijar-te as mãos, Sentir por um momento que te tenho nesta liberdade prisioneira que é a vida. Deixa-me, Poema, ser tua princesa, Dançar no salão dos teus versos, Usar a tua coroa de palavras, Viver para sempre no teu reino. Poema, quero ter um pouco de ti, Tu que nunca és nem nunca foste de ninguém, Que andaste perdido nas corridas dos dias, Beijando tantas bocas, despindo tantos corpos, gritando tantas vozes, Sossega agora em mim. Deixa-me, Poema, ser tua poetiza, Adormecer e acordar contigo ao lado, Caminhar nos bairros de Lisboa, Olhar-te sobre o Tejo. Ficaríamos sós na tua noite, Na grande escadaria do teu palácio, Viveríamos nas memórias da loucura, Suportar-lhe-íamos as lágrimas e comungávamos seus sorrisos. Poema, deixa-me escrever-te, Deixa-me pertencer-te, Contar-te as minhas histórias, Sentar-me a teu colo, dizer-te, Falar-te de tudo o que vivi, das estradas que pisei, Das ondas que me embalam, dos aromas que me adormecem. Deixa-me chorar e beijar-te as mãos, Sentir por um momento que te tenho nesta liberdade prisioneira que é a vida. Raquel Botelho 2010


“O Mundo gira” O Mundo gira Eu fico parada. Sinto-me perdida, Sinto-me baralhada. Preciso de tempo, Preciso de espaço, Preciso de alento E de pensar no que faço. A noite sucede o dia, O relógio corre na calada, O Mundo gira Eu fico parada.

Catarina D. 10ºD ESSB CNL 2013

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Há em todo o céu um anjo triste Tempestade lá fora Que se instalou cá dentro Ventos fortes Que ateiam labaredas de saudade. Sons estridentes Que acordam vidas antigas Rumores dos rios Que têm pressa de beijar o mar. A Natureza grita Para ascender ao Seu trono E o homem pede Um sítio para ficar. A mãe ordena Para o filho não largar a sua mão E o filho chora Para a mãe a sua mão não largar. Há em toda a terra A intimidade da chuva Que refresca cada cheiro Que lava qualquer alma. Há em todo o céu Um anjo triste Que chora pela solidão Que Deus existe. 19-01-2013 Raquel Botelho

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O TEU EU EM MIM E o tempo pára sem urgência nesse instante, Quando amanhece em nós a euforia do sentimento, Onde faço de ti cativo da infinidade do momento, E te distancio da indiferença de um passado distante.

Nesse momento perco-me na loucura do teu olhar ofuscante, Tu és o vício que torna inexistente o meu tormento, E desde que te encontrei não te consigo tirar do pensamento, Porque à velocidade da luz, no céu do meu mundo és a estrela cintilante.

Quero da tua alma descobrir os códigos secretos, Que me norteiam para decifrar o teu coração E é então que descubro que meu corpo é o rio onde sacias os teus desejos.

Ah! Quero navegar segundo as coordenadas dos teus sonhos e naufragar na inquietude dos teus gestos, Quando anoitece é nesses sublimes movimentos que é refletido o eclipse da nossa paixão, Onde do princípio ao fim respiro da tua boca o brilho dos teus beijos.

Anália Oliveira – 10ºD CNL 2013

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Janeiro Amante Amargo Janeiro, Porque vieste entristecer as ruas da minha cidade, o meu coração? Queimaste as flores do meu jardim e pintaste-o sem piedade. Perco-me na solidão dos teus dias, As minhas memórias voam quando entras em casa E, quando há tempestade, escondo-me de ti por trás da janela, Mas encontro-te no calor da cama. Escuto-te quando choras sozinho… Sei o mistério da tua vida, mas não o entendo… Quando te encontro de manhã, deixo-te passar a meu lado, Sinto o teu cheiro e o vácuo da tua inexistência E permaneço calada. Velho solitário, poderoso e áspero, Conheço-te tão bem quanto a minha alma, Ela comunga contigo na igreja e acompanha-te na procissão, Toma café aos domingos na mesa do teu salão E já viu onde guardas os lençóis dos campos e das estradas. A minha alma está gélida porque a beijaste eternamente, Os lábios são violetas e o rosto é papel, O coração num vento da tua voz voou E o olhar nunca mais sentiu paisagem, O amor… nunca mais amou. Raquel Botelho 2012

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Poema ao Mar. Ó Mar, ó Mar! Azul como és, Devolve as vidas que tiraste A pais, mães, bebés. Brilhante como o céu, Escuro como a noite, Ó Mar, belo Mar! Não há ninguém que te açoite! Por favor, por favor, Ainda são novos de idade, Ó Mar, ó Mar! Tem piedade! E agora estou a perguntar: Por te contemplar, serei pecador? Ó Mar, ó Mar, Leva-me ao meu amor!

Filipe Batista 7ºB, Nº 10 2013

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História de ser humano Todos nascem. Todos morrem. Todos viajam. Entre um e outro acto inconsciente e involuntário Todos vivem. Todos percorrem um espaço indefinido E andam sobre a sua superfície tentando tocar o seu inexistente limite, Procurando explorar tudo o que não pertence ao corpo, mas a ele está ligado, Ditando leis em seu próprio nome escondido, Condenando os foragidos, na busca de um ideal considerado o melhor para todos, Esquecendo-se que o “todos” não é unidade. Os seus passos fazem mover a roda alimentar a um ritmo acentuadamente marcado, Calam as melodias e gritam o hino da razão, Afirmando-se estar a fazer História. E, como em todas as histórias, Os maus e os bons, Os dominantes e os dominados, As ambiguidades, simplesmente complexas, inerentes a esta espécie animal, designada humanidade E os refrões da canção “vida”. E, como em todas as histórias, As personagens não sabem que não existem, Que os seus mundos são cenários, Que a sua vida é construída por mente alheia numa noite de inspiração, Que os seus passos são contados e as palavras colocadas minuciosamente na sua boca, E o escritor brinca com esta ignorância, É a mãe, É o coveiro, É o piloto. Raquel Botelho 2013

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Correndo, desesperado, Pelo planalto empoeirado Foge o soldado, vã vítima De uma batalha perdida Na qual tantos perderam a vida. Cercado por canhões ribombantes Relembra a pátria, doce lugar De rios gorgolejantes e pássaros Cantantes Vales verdejantes e veados bramantes Aí não voltará mais. Rasa-lhe um tiro a face Uma sonora explosão Que o mundo emudece Qual fogo que consome o soldado Caído a seu lado. Disparam os canhões, implacáveis, Os projécteis portadores da morte Sofrem os homens, incansáveis, A sua terrível sorte. E por fim, chegada a hora, Despede-se o soldado, sem demora Com gritos dilacerantes E o peito assolado Por dores flamejantes. E assim morrem, lentamente, Vítimas da incompreensão As gentes do Afeganistão.

António Violante - 2010

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Sonho

Nuvens indistintas vagueiam 13

Errantes, no limiar do pensamento. Sobre elas, etéreas figuras despontam: Doces anjos cantando ao som da lira E negras quimeras agitando os grilhões da culpa…

Navego, sem porto nem rumo, O solitário oceano da Vida. Suporto a violência das tempestades E a incerteza da falta de vento, Olhando o horizonte, esperando o amanhecer.

Erguem-se palácios dourados, Palácios de ventura e felicidade, Soberbos, brilhantes e majestosos. E eu, caminheiro empoeirado, Contemplo a majestade, aspiro a ela, ao mundo…

Sob os altares da razão, Suprema luz da humanidade, Perante velas e névoas de incenso, Peço a graça e a suprema virtude De olhar o mundo com os olhos da Verdade. João Francisco Diogo – 2010


O “S”

O “S” é de Saber 14

Saber escrever. É de Sentir, Sentir o que se escreve. É de Saborear, Saborear a vida, Mas não chega, O Saber, O Sentir e O Saborear, Tem de se saber, Sim, Mas saber Sonhar, Sonhar tudo Sem ter medo, Sonhar o Abecedário, Não sonhar apenas o “S”.

Marta Santana – 2010


Momentaneamente Como queria congelar um momento Ser uma fotografia Viver para ti… Existir apenas porque tu existes! Não ter mais nada… Ser um espectro feliz, só contigo… Não ser, mas ser, Não pensar, apenas sentir Que te amo… Um momento que pode ser tudo Que pode ser nada Um momento em que sei Que estou apaixonada Em que não entendo quem sou Ou porque não estás aqui… Um segundo… um sorriso Um sentimento que rebenta Um beijo que sustenta O meu sonho, Ser em ti o que em mim já era! Ser tudo o que não sou Ou que só sou porque não sei Porque não sei onde ir Sem te ter aqui, Não sei sequer olhar para o céu…

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Rita Constantino - 2010


A Vida é um mistério A vida é um segredo, Que pode ferir, Que pode magoar o coração, Que pode matar a nossa compaixão… Vida…Sim, É como um filósofo a declarar a sua teoria, Em que se pode amar, saber e viver… Em que se pode perder tudo… Em que se pode pedir mil desculpas,.. Mas, Não adianta, Vida é um futuro imperfeito… Tem contratempos, Não sabemos se vivemos, Não sabemos se a nossa vida tem certos caminhos, O que é a vida? Será um segredo, Será um futuro imperfeito… Não, A vida é um mistério, Em que ninguém sabe o seu futuro…

João Rodolfo Montez – 2010

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Uma folha branca, vazia Ali à minha espera Grande, grande, grande… Sobre que hei-de escrever? Natureza, crianças, amizade Oh! Amor! Não! Pois não hei-de escrever sobre isso outra vez! Olho para a folha. Nada. Papel. Branco. Vazio. À minha espera. Eis então que vinda de longe Ela chega. Envolve-me Qual melodia com seus suaves acordes. Preenche-me até ao mais ínfimo do meu ser E lá dentro vibra, ressalta, tilinta, canta Inspiração! Veio do céu azul, das árvores Do rio que corre pelos campos, Veio do riso das crianças, Da coragem dos soldados em guerra, Do amor que a mãe sente pelo filho. Correu, leve, pelos campos verdejantes, Pelas flores de cores delicadas, pela relva, Desconhecida, pelas vastas praias de Areia branca, pelo imenso oceano Cruzou-me com o sol quente e acolhedor Com a temível e cruel tempestade, Com a suave e doce brisa, Com a inocência dos avanços, A ignorância dos adultos, a sabedoria dos idosos, A impetuosidade dos jovens E trouxe-me tudo isso. Em suaves cambiantes, em cores vistosas, E agora, eis que canta dentro de mim. Aquece-me, reconforta-me, espanta-me, maravilha-me. Admira-me. Entristece-me e alegra-me. Preenche-me! Olho para a folha à minha frente Oh, que folha tão pequena que me deram Pequena, pequena, pequena…! Matilde Lobo da Silveira – 2010

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Liberdade...Gostava de ser livre, Gostava de ter asas e voar, Encontrar-me com Deus Em cada lugar onde a Natureza Pudesse estar! Eu agradecia-lhe... 18

Agradecia cada ávore, cada pedra, Cada flor...E, principalmente, Agradecia o facto de Ele Proporcionar ao ser humano O sentimento que provoca dor E ao mesmo tempo a felicidade absoluta: o Amor! Falava e pedia-lhe que parasse As guerras! Pedia-lhe que me Acariciasse nos momentos Que eu mais preciso E, naturalmente, me provocasse o sorriso! Pedia-lhe, também, e sem querer Abusar...que me desse asas Para eu voar e poder Contemplá-lo a toda a hora, A cada instante...em locais Impensáveis e distantes! No final do dia, sentava-me No colo Dele, agradecia-lhe Cada momento que me proporcionou! Por momentos...senti uma aragem fria Que se fez sentir no meu rosto... Ouvi o vento e o chilrear dos pássaros... Deus acariciou-me Com a sua mão delicada E embalou-me com os sons da natureza. Fechei os olhos e adormeci... Michelle Tomás – 2010

Poetando na Sá da Bandeira  

Se a escrita é um atrevimento, a poesia é ousadia. Os nossos poetas, os que ainda cá estão, alguns que nos deixaram pedaços da imaginação e...

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