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Carolina Antas

Num mundo cheio de crueldade, viva a solidariedade!

STAR BOOK


Março de 2012

Querido Diário: Olá! Chamo-me Carolina. Não sou muito de escrever diários, nem cartas, nem nada do género. Mas decidi experimentar! Vou falar-te um pouco sobre mim, só para ficarmos a conhecer-nos melhor. Bom, já sabes o meu nome, tenho doze anos, sou loura de olhos azuis e muito alta para a minha idade! Pelo menos é o que me dizem sempre. Sou muito divertida e adoro desenhar e ajudar quem mais precisa. Tenho uma vida feliz e sem problemas! Bem, antes fosse! Há sempre aqueles problemas chatos de adolescentes e que me deixam completamente à toa. Por exemplo, os testes, às vezes, a família (mais os meus irmãos mais novos…). Hoje foi um dia estranho! O meu primeiro dia de férias. Não estou nada habituada! Depois de mais 3 meses de escola, não admira. Acordei como se houvesse aulas. Ia para me começar a vestir quando me apercebi que o despertador não tocou e me lembrei que estava de férias. Voltei a tentar adormecer, mas não consegui. Acabei por perder a minha paciência e vesti-me. Como sempre, todas as manhãs em que não tenho aula, faço uma corridinha até ao pinhal com a minha cadela e volto. Vesti as minhas calças de fato de treino cinzentas, uma t-shirt azul petróleo e um casaco cinzento às riscas azuis. Desci à cozinha, completamente deserta, limpa e silenciosa, e tomei o pequeno-almoço. Duas fatias de pão com manteiga e fiambre, uma caneca de leite morno com meia colher de chocolate em pó e uma maçã. Depois, fui lavar os dentes e dar de comer ao gato. Às oito e


meia, peguei nas chaves, fui ao jardim buscar a Olívia, a minha cadela de pelo amarelo bege, com uma mancha à volta do olho esquerdo, tão azul como o direito, e saí. Corri lentamente no princípio para aquecer. Para uma manhã de inverno, não estava tanto frio como esperava, talvez porque não eram sete da manhã, mas mesmo assim continuei. É relaxante correr de manhãzinha, ouvir o chilrear dos pássaros madrugadores, dos automóveis a passar, do comboio e das ovelhas que pastavam, ao longe, num monte. Eu chamo-lhe o monte “Pintarola”, porque as ovelhas parecem pontos brancos numa vasta paisagem verdejante. Adorava estas manhãs e ainda adoro! Já tinha percorrido alguns quilómetros quando parei num café para encher a minha garrafa de água que já se encontrava vazia. Passados uns minutos, continuei a minha corrida. Mas eis que algo acontece… Uma senhora idosa estava a tentar passar a estrada, mas nenhum dos carros parava. Fiquei a observar e comecei a estranhar, pois os carros eram sempre o mesmo. Fui ter com a senhora e perguntei: - Bom dia! Precisa de ajuda? - Oh, sim! Muito obrigada! Estou a tentar chegar à minha casa onde me aguarda o meu marido. – apontou o seu dedo comprido e esquelético para aquilo que pareciam ser umas ruínas. - Ali? Muito bem. Espere um bocado. – Fui para o meio da estrada, enquanto um opel corsa vermelho ainda se avistava ao longe, mas se aproximava rapidamente. - Sai da estrada! – Gritava o condutor. – Sai da frente, pirralha!


Eu não me mexi. Até que o carro foi obrigado a parar. O condutor era um homem alto, corpulento e moreno. Tinha uma camisola de cavas branca muito suja e com remendos e umas calças rasgadas e esburacadas também em muito mau estado. - Hei! Miúda! O que é que te deu?! – Gritava ele como se fosse meio surdo. - Peço desculpa, mas o senhor parecia perdido, pois andava às voltas nestas ruelas e não deixava esta senhora atravessar. – Fiz um gesto à senhora para passar. – Agora vou sair do seu caminho e o senhor pode seguir a sua vida. - Desta vez deixo passar, mas para a próxima passo por cima de ti! O homem não disse mais nada, fechou o vidro, acendeu um cigarro e acelerou. Saiu de tal maneira “disparado”, que deixou marcas de pneus negras e com cheiro a borracha queimada no meio da estrada. - Obrigada, minha menina! Se precisar de alguma coisa que eu possa fazer, diga-me! Mas para a próxima tenha mais cuidado. Aquilo que fez foi perigoso! Aquele fulano não é para brincadeiras. Bem, o meu marido encontra-se ali ao fundo. Muito obrigada, adeus. - Espere! A senhora mora naquelas … naquele lugar com o seu marido? - Sim, querida. Sabes, neste mundo cruel a que chamamos Terra, a vida nem sempre é fácil! Mas há que ver sempre o lado bom da coisa. Eu sou pobre, velha e doente, mas tenho o meu marido, que nunca me desiludiu, que me faz feliz, que sei que nunca me vai deixar e que é alguém por quem eu faria qualquer coisa. Sem ele, eu seria apenas mais uma velha. Um


conselho, há quem diga que a situação em que se encontram se deve ao destino ou a Deus, mas eu sempre acreditei que a vida é o que fazemos dela. Aproveita-a, vive-a e não a desperdices porque nós só temos uma. Não tinha palavras para dizer o que sentia. Eu que sempre tive tudo o que queria, uma vida boa, dinheiro, família, amigos, casa, comida… E nunca me apercebi daquilo por que muitos passam. Então tive uma ideia. Disse à senhora que fosse ter com o marido e que já vinha ter com ela. Chamei a Olívia que estava brincar com um gato malhado e vadio. Obediente, veio ao meu encontro, fitou-me com os seus lindos olhos azuis turquesas, embora me parecesse um tanto ou quanto zangada por lhe ter estragado a brincadeira, mas eu não podia adiar. Corri outra vez para casa, entrei e ainda estavam todos a dormir. Fui buscar uma mochila e fui à cozinha buscar comida. Peguei em meia dúzia de pães, arranjei um garrafão com um litro e meio de água, peguei numas madalenas embrulhadas individualmente, arranjei umas mantas velhas, umas roupas dos meus falecidos avós e arrumei tudo bem organizado na mala verde clara e branca. Pu-la às costas e voltei a sair de casa, mas desta vez sem a cadela. - Voltei! Senhora? Está aí? – Perguntei quando cheguei às ruínas e destroços que me pareciam sobrar de uma casa. - Menina? És tu? – Respondeu uma voz rouca que reconheci logo como sendo a da senhora. - Sim! Sou eu! Voltei e trouxe algumas coisas. - Diz-me, querida, como te chamas?


- Carolina. Tenho doze anos. - Oh! Carolina. Muito obrigada por tudo isto. – Agradeceu quase lavada em lágrimas. – Eu chamo-me Raquel e o meu marido chama-se João. - Onde está? Adorava conhecê-lo! - Também nós a ti! João, anda cá! Um senhor muito magro, cheio de cicatrizes na cara e bolhas nas mãos, muito mal agasalhado para aguentar um inverno tão rigoroso, apareceu do meio de uns destroços. Tinha uma camisa velha, suja e rota de um verdeescuro com um bolso do lado esquerdo e umas calças cheias de remendos. - Sim, querida? – Disse. A sua voz era muito rouca e ouvia-se muito mal. - Olha, esta é a Carolina. Vê o que nos trouxe. O senhor

João

aproximou-se

da

senhora

Raquel

e ambos

contemplavam os presentes com lágrimas nos olhos. Nunca me sentira tão bem. Ver aquele velho casal daquela forma, felizes com coisas que para mim eram “tralha” e que não me serviam para nada. - Muito obrigado. Como é que te podemos agradecer? Isto é…. Não tenho palavras para te agradecer… - Disse o senhor. - A partir de agora virei visitá-los todas as manhãs cedinho. E aproveitarei estes destroços e construirei um abrigo para vós e trarei comida e roupas sempre que puder! - Não sei o que dizer! – Disse a senhora lavada em lágrimas. - Não diga. Amanhã volto, mas agora tenho de ir. Adeus. Despedi-me e voltei para casa, onde os meus irmãos já se encontravam vestidos e a comer. Cumprimentei-os e fui tomar banho.


De resto, o dia foi normal, mas não conseguia deixar de pensar no pobre casal. Bem, tenho de ir, até amanhã, querido diário.

Beijos Carolina

Abril 2012 Querido Diário: As últimas semanas foram uma correria! Mas finalmente arranjei tempo para te escrever. Tenho ido todas as manhãs bem cedinho ter com o casal e aprendi muito e conhecemo-nos muito melhor. São ótimas pessoas. Agora parecem muito melhores, mas depois de amanhã a escola recomeça e não os poderei visitar. Não sei o que fazer. Mas acho que terei de falar com eles. Certo? Espero que compreendam. Quem me dera poder continuar a ajudá-los. Vou sentir imensa falta deles. Agora tenho de ir. Depois conto-te como foi.

Beijos Carolina


Abril de 2012 Querido Diário: Como disse, fui lá hoje. Levava a mochila cheia de coisas, incluindo uma caixa de sopa quentinha que tinha sobrado do jantar, mas eles não estavam lá. Procurei por todo o lado. Fui aos cafés, aos becos e até cheguei a perguntar ao homem do outro dia. Mas este não os tinha visto. Não sei se foi pelo facto de ele parecer ter tomado banho ou por estar mais calmo, mas pareceu dizer a verdade. Continuei à procura. Fui ao pinhal e também a um riacho ali perto. Não os encontrei. Senti-me estranha e um pensamento sombrio e triste veio-me à cabeça. Não quis acreditar, mas parecia ser verdade. Achas que os voltarei a ver? Achas que partiram? Bem, nunca saberei, mas sei que posso ficar de consciência tranquila. Fiz o que pude e agora sei que tenho mais alguém a olhar por mim lá em cima. Bem, esta será a minha última carta para ti. Agora tenho mais uma razão para não gostar de escrever cartas e diários. É uma maneira de relembrar memórias e guardar segredos e às vezes sentimentos. Mas, neste caso, não quero relembrar esta sensação de perder alguém com quem criamos laços, mesmo sendo com alguém mais velho. Mas estou consciente de que não será a última vez que morrerá alguém que me é querido. E também sei que o tempo nos ajudará a ultrapassar tudo. Não temos outro remédio, certo? É sempre assim que ultrapassamos um trauma ou a tristeza, não porque sabemos que vai passar, mas porque não temos escolha. Bem, adeus. Esta é a última vez que escrevo. Beijos Carolina

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Diário de uma Rapariga  

Texto da aluna Carolina Antas

Diário de uma Rapariga  

Texto da aluna Carolina Antas