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VIDA A VIDA Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches nasceu a 19 de Julho de 1885, em Cabanas de Viriato, Carregal do Sal. Em 1907, após ter finalizado a licenciatura em Direito, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi viver para Lisboa, onde enveredou pela carreira consular. Aristides ocupou diversas delegações consulares portuguesas pelo mundo. São alguns exemplos a Guiana Britânica, Zanzibar, Curitiba (Brasil), S. Francisco (Estados Unidos da América) e S. Luís do Maranhão (Brasil). Em 1926, regressa a Lisboa para prestar serviço na Direcção-Geral dos Negócios Comerciais e Consulares. Após a revolução militar de 28 de Maio de 1926, Aristides foi nomeado cônsul em Vigo, apoiando e servindo desde o início o regime ditatorial. Aristides era monárquico e nacionalista e colaborava com o Estado Novo na aniquilação das manobras dos refugiados políticos. Aristides teve sempre uma carreira atribulada e com vários incidentes, sobretudo por abandono de posto sem autorização e por utilização abusiva de dinheiros públicos. Aristides nem sempre seguia regras e protocolos, mas apesar de todos os precalços, conseguiu manter a sua carreira, passando por vários cargos secundários. Após dez anos de serviço na Bélgica, Salazar, que era presidente do Conselho de Ministros e ministro dos negócios estrangeiros, escolhe Sousa Mendes para cônsul em Bordéus, França, durante a Segunda Guerra Mundial. Durante a Segunda Guerra Mundial, estava no governo alemão o partido Nazi, liderado por Adolf Hitler, que tinha como principais ideologias o nacionalismo, o anticomunismo e o tradicionalismo. Dado estas ideologias, o judaísmo sempre sofreu uma enorme discriminação em relação às outras religiões.


VIDA O holocausto foi o assassinato em massa de cerca de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial, através de um programa sistemático de extermínio étnico patrocinado pelo Estado Nazi, que ocorreu nos territórios ocupados pelos alemães durante a guerra. A morte de todas estas pessoas provocou uma grande sensibilidade nas consciências de alguns inApesar da emissão destes

divíduos. Embora Aristides de Sousa Mendes tivesse

vistos ser proibida pelo go-

ordens explícitas de Salazar, vindas de Portugal, pa-

verno de Salazar, Aristides

ra não passar vistos a judeus, fez com que mais de

continuou a fazê-lo, mes-

trinta mil refugiados, dos quais cerca de dez mil

mo tendo conhecimento de

eram judeus, conseguissem passar a fronteira espa-

todas as consequências a

nhola, emitindo vistos que o permitiam, e seguirem

que estava sujeito. Acabou

depois para a América, com o objetivo de viverem as

por ser afastado do seu car-

suas vidas sem serem perseguidos ou assassinados.

go como cônsul, perdendo o poder de continuar a emitir vistos e todos aqueles que havia emitido ficaram sem efeito. Ao perder o emprego, sofreu todos os efeitos da guerra tal como todos os outros. Acabou por morrer na miséria, aos 68 anos, a 3 de Abril de 1954, em Lisboa.


REFLEXÃO O judaísmo é uma religião, e como tal define uma cultura. É, portanto, fruto da ação humana. A existência da cultura é dependente do Homem, visto que este é um ser biopsicossocial. O Homem é caraterizado como produtor e produto da cultura, pois é ele que a cria e é influenciado pela cultura a que pertence. A socialização é o processo de assimilação e interiorização das normas e padrões culturais de determinada sociedade que promova a integração bem sucedida de um indivíduo na sociedade em que se insere. Como nesta época a sociedade alemã era multicultural, coexistiam pessoas completamente diferentes. Cada cultura tem a sua identidade própria, sendo isso que marca as diferenças e destaca as suas exclusividades e aquilo que é único nessa cultura. O partido alemão nazi, durante a Segunda Guerra Mundial, tomou uma posição etnocentrista, ou seja, uma perspetiva centrada na sua cultura, tomando-a como sendo central, superior, perfeita e intocável, sendo as outras inferiores, erradas e perigosas. O preconceito crescia então na Alemanha de modo muito rápido contra o povo judeu. A Alemanha e todos os territórios dominados por ela durante a guerra, bem como países aliados com a mesma, como Portugal e Espanha, entraram num movimento contra os judeus, privando-os de todos os Direitos Humanos que deveriam possuir, aprisionando-os em campos de concentração, que era na maior parte das vezes onde perdiam a vida, de formas extremamente cruéis e insensíveis.

ARTIGO 1.º “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de Os judeus foram discriminados devido à sua religião, o que revela a violação deste primeiro artigo, pois todos temos o dever de tratarmo-nos de igual forma, devendo existir uma ideia de fraternidade e todos devemos considerarmo-nos irmãos do próximo.


REFLEXÃO ARTIGO 2.º “Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação. Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela, autónomo ou sujeito a alguma limitação de soberania.”

Mais uma vez, neste artigo a universalidade é mencionada e que qualquer forma de discriminação é errada e deve ser confrontada e relatada. Não há ninguém que tenha o direito de discriminar o outro, seja por que razão for. Aquele que discrimina não tem a capacidade de pensar de forma autónoma, não sendo capaz de, consequente-

ARTIGO 3.º “Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.”

mente, tomar as decisões que acha corretas, mas sim aquelas que os seus valores lhe apontam como sendo as certas.

A universalidade continua a ser referida. Somos todos iguais, e não deve haver distinções entre ninguém. Não há direitos exclusivos de alguém da mesma forma que não existem deveres só de alguns. Estes três artigos demonstram ideias éticas daquilo que é o ser humano e que não existe uma pessoa ou um grupo destas, superior ou inferior a outra/outro, e aqueles que se comportarem contrariamente a estes direitos, não são conscientemente autónomos, regem-se apenas pelo que lhes é dito, sem se questionarem se o que estão a fazer é ou não correto, quer para si, quer para com os outros.


REFLEXÃO No caso da SEGUNDA GUERRA MUNDIAL, existem três tipos de indivíduos, ou seja, três consciências diferentemente moldadas:

- O observador passivo, o indivíduo a quem lhe é indiferente tudo o que se passa à sua volta e, como tal, não toma posição perante o que o rodeia; - O que comete o crime e assume a sua posição como a correta; - O que desobedece e ignora as regras que lhe são impostas, pois reflete sobre a situação em causa, deliberando qual será a melhor posição ética a tomar. Isto leva-nos para o plano dos valores e da ética, provocando dilemas e, consequentemente, escolhas, pela parte daqueles que refletiram sobre o sucedido. No plano da ética, o dilema, enquanto conceito, não existe, isto é, a nossa consciência opta sempre pela escolha que lhe parece correta ou mais certa em relação a todas as outras, que, do mesmo ponto de vista do indivíduo, são eticamente erradas, sendo que as regras que lhe são impostas não interferem quando chega a altura de decidir. Na Segunda Guerra Mundial, um exemplo deste indivíduo poderia ser sem qualquer dúvida, Aristides de Sousa Mendes. Perante o dilema que enfrentou, optou pelo que a sua consciência considerou correto e decidiu não seguir ordens, pôs em risco a sua reputação, o seu trabalho, a sua vida, com o único objetivo de salvar todos aqueles que lhe recorreram em último recurso, mesmo sabendo que existiam outras escolhas, ele não se preocupou com o facto de poder destruir a sua vida e a dos seus entes mais próximos.


REFLEXÃO Aristides, por um lado, tinha a afluência de milhares de refugiados que, com a invasão da França pelas tropas alemãs, afluíram a Bordéus na esperança de conseguir um visto para a liberdade (queria ir para as Américas do Norte e do Sul, principalmente).

Por outro lado, tinha as ordens do seu próprio Governo, e mais precisamente a Circular 14, que o impedia de passar vistos à maior parte dos refugiados, nomeadamente judeus, exilados políticos e cidadãos provenientes de países do Leste Europeu, sob pena de vir a ser castigado. Decidiu obedecer à sua consciência, passando vistos a todos os que o solicitassem, independentemente da sua religião, raça ou credo político. Mesmo depois de ser avisado por Salazar e receber ordens para se apresentar em Portugal (anexo 2), Sousa Mendes continuou a passar vistos, acabando por perder o seu cargo como cônsul. Mesmo assim, não desistiu de continuar a ajudar os refugiados, levandoos a uma fronteira onde as comunicações estavam cortadas, conseguindo que todos os que o acompanhavam passassem a fronteira. O corajoso ato que Aristides tomou demonstra a sua autonomia de consciência, visto que passou por um processo de reflexão sobre tudo o que o rodeava e, perante todas as opções que poderiam tomar, algo o fez agir por si próprio. Mas será que houve realmente algo interior que o ordenou a seguir tal caminho? Ou será que foi algo instintivo? Aristides não cedeu perante as consequências dos seus atos e, por isso teve de arcar com as mesmas. Apesar de ele saber que poucos o iriam compreender ou ajudar, de nada se arrependeu e provavelmente tudo faria de novo se assim fosse necessário.


REFLEXÃO Existem imensos testemunhos do altruísmo de Aristides, de entre os quais se destaca o Rabino Kruger, que conheceu Aristides em Bordéus a 15 de junho de 1940, tendo recebido um visto para si e para a sua família fugirem, mas não o fazendo sem que fossem passados vistos a todos os refugiados em Bordéus.

VIDAS

Há ainda imensas listas e passaportes carimbados e assinados por Aristides de Sousa Mendes, que comprovam que este realmente ajudou milhares de pessoas a fugir de França para não serem mortas. São, de facto, imensas as testemunhas da bondade e altruísmo de Aristides, na ordem das 30.000 pessoas, um dos casos em que mais pessoas foram salvas.

São também testemunho importantes Salvador Dalí, famoso pintor que, depois de receber o visto emitido por Aristides foi para Nova Iorque, Charles Oulmont, professor que, para além da sua vida e da sua esposa, lhe devia o facto de ter conseguido evitar a destruição de todos os seus manuscritos, Charlotte de Luxemburgo (princesa de Luxemburgo) e seus entes, Móises Elias, senhor que se torna mais tarde responsável pela Yad Vashem e Ilja Dijour, que se torna responsável da UNITED HIAS SERVICE em Nova York (Agência Mundial das Migrações Judaicas).

T E S T E M U N H O S

The Face of War, Salvador Dalí


CONCLUSÃO Por tudo o fez por estas pessoas, ARISTIDES DE SOUSA MENDES recebeu o título de “JUSTO ENTRE AS NAÇÕES”, uma vez que preenchia todos os requisitos impostos para tal: não era judeu, salvou vários judeus que se encontravam ameaçados e em perigo de vida e de deportação para os campos de extermínio, colocando-se em risco de vida, sem a intenção de fazê-lo em troca de qualquer tipo de pagamento ou outra recompensa. Este título foi-lhe concedido pela Yad Vashem (memorial oficial de Israel para lembrar as vítimas judaicas do Holocausto, bem como os “Justos entre as Nações”) em 1966, tendo já anteriormente sido plantadas vinte árvores em sua homenagem, no museu da mesma organização. Não há qualquer dúvida de que Aristides de Sousa Mendes tomou a posição mais ética, embora parecesse a errada para os outros, perdendo o seu estatuto social, o seu emprego, ficando na miséria, vindo a morrer só, em Lisboa, com 68 anos. A sua memória foi apenas reabilitada em 1988 em Portugal, e pouco reconhecimento tem no seu país de origem nos tempos que correm, sendo muito mais homenageado em países como Canadá e Estados Unidos da América, onde permanecem ainda alguns descendentes de exilados salvos por Aristides. “A memória é fundamental na medida em que só conhecendo o passado estaremos mais aptos para compreender o presente e estruturar o futuro (Knox, 2006)”.Tal como Aristides, já se confirmaram pela Yad Vashem 21.758 casos de “Justos entre a Nação”, de entre os quais apenas dois foram portugueses (sendo o outro caso Sampayo Garrido). É essencial prestar homenagem a todas estas pessoas e como tal, a Yad Vashem trabalha intensivamente para conseguir fazê-lo com todos estes indivíduos que, ao correrem perigo de vida, salvaram outra(s).

10º A - HUGO FAUSTINO; JOANA DO Ó; MARIANA CARVALHO; MARIANA PILÓ; RUTE GRANADO


Aristides «O Justo» português II