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O rei cego

Havia um rei e uma rainha que tinham três filhos. Viviam muito satisfeitos com os meninos. Já eram homens, adoeceu o pai com uma grande inflamação nos olhos e cegou. Vinham médicos de fora dos reinos; foi debalde, que não recobrou a vista. Passado muito tempo, veio um pobre pedir à porta do palácio. Perguntou à guarda se Sua Majestade ainda era cego. Disseram-lhe os guardas que sim. Diz o pobre: — Se pudessem alcançar uma garrafa de água do palácio do gigante, no reino de tal parte, era só aplicar-lhe aos olhos, ficava logo com a sua vista natural. O capitão da guarda ouviu isto e foi dizer aos príncipes. Respondeu o mais velho: — lsso muito fácil é de alcançar, manda-se um soldado por ela. O mais novo respondeu: — lsso não; pode dizer que é água de lá e ser de outra parte. É melhor ir um de nós. O mais velho respondeu: — Pois vou eu. 2


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Determinou-se a saída e saiu com um criado. Quando chegava às cidades, por onde ia correndo, escrevia sempre. Assim ia seguindo a sua jornada. Chegou a um reino e viu um defunto no meio de uma praça, e uma bandeja ao pé em cima de uma cadeira. Disse: — Então este homem, depois de morto, está pedindo esmola? — É para se enterrar. No nosso reino, ninguém se enterra sem pagar ao pároco; e, como ele é pobre, está tirando esmola para se enterrar. Ele não respondeu, meteu esporas ao seu cavalo e foi seguindo a sua jornada. Chegando ao reino do gigante, estava na estrada uma estalagem. Apeou-se e entrou. Pediu de jantar; logo se pôs a mesa e o comer sobre ela. Sentouse, veio uma madama muito linda sentar-se ao lado. Nunca mais se lembrou nem de ir buscar a água, nem dos pais, nem de ninguém. Passado o tempo marcado em que havia de ir e vir, como não tinha escrito, os pais e os irmãos disseram que era porque ele tinha 3


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morrido. Mas, ansiosos pela água,d isse o do meio: — Vou eu e hei-de trazer a água e não heide morrer por lá. O rei antes queria estar cego, que perder os filhos; mas ele sempre teimou e saiu. Montou a cavalo e não levou criado. Seguindo os mesmos passos da jornada do mano, chegou ao reino onde se não enterravam sem dinheiro. Viu uma defunta; perguntou que fazia aquele corpo ali, que se não enterrava? Que não tinha fortuna, que estava tirando esmolas para se enterrar. Ele não respondeu e foi andando. Chegou à estalagem. Saiu o irmão a falar-lhe; perguntoulhe porque não tinha ido buscar a água ao pai. Que, chegando ali, respondeu ele, nunca mais se lembrou de nada com aquela madama que se lhe sentou ao lado. Entrou para dentro e pôs-se à mesa a jantar; veio outra ainda mais formosa e sentou-se-lhe ao lado. Nunca mais se lembrou da água. 4


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Muito tempo depois de passar a hora marcada, disse o mais novo para o rei: — Os manos sem dúvida morreram, vou eu, quero antes morrer, fazendo a diligência para meu pai ter vista. Divulgou-se logo esta notícia no palácio e a corte opôs-se a isso; mas ele, na noite seguinte, foi ao erário,trouxe uma grande soma de dinheiro, montou num cavalo, de madrugada, e saiu; mas ia sempre escrevendo. Chegou ao reino onde se não enterrava sem dinheiro; chegou a uma cidade onde viu um defunto à porta (da cidade). Perguntou porque não enterravam aquele homem. Disseram-lhe que não se podia enterrar sem pagar ao pároco; mas, como ele devia muito, havia dois dias que ali estava e ninguém lhe dava esmola. O príncipe disse: — Este homem não tem mulher nem casa? — Tem mulher e um filho. — Levem-no lá para casa da mulher, que eu pago o enterro.

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Levaram-no para casa da mulher. Ela, coitadinha, desfechou a chorar muito. O príncipe entrou; perguntou quem era a viúva. Depois disse-lhe que fizesse o enterro ao seu homem, que ele pagava a despesa. Depois do enterro sair, olhou para a viúva e disse-lhe que mandasse chamar todos os seus credores. Depois de estarem juntos, disse-lhes o príncipe que, como eles tinham a sua dívida perdida, se quisessem estar pela sua proposta, não perdiam tudo. Se queriam eles metade da dívida que aquele homem lhes devia, perdoando a outra metade? Todos disseram que sim. Pagou a todos por metade da dívida e, depois que eles saíram, deu uma soma à viúva e disse-lhe que rogasse a Deus que efe fosse feliz na sua jornada; que também ela havia de ser. Montou a cavalo e seguiu o seu caminho. Chegando à estalagem, viu os irmãos, muito satisfeitos assim que o encontraram; mas ele não estava contente de os ver ali. Ele não se queria apear. Que não seguisse a jornada sem jantar, que estava a mesa posta. Assim que se sentou à mesa, veio outra madama ainda mais bonita e 6


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sentou-se-lhe ao lado. Ele levantou-se, deu um pulo no cavalo e seguiu seu caminho. Os irmãos pediram-lhe que viesse por ali de torna-volta. Chegando ao palácio do gigante, puxou a campainha e veio ele. Perguntou-lhe o que queria. Disse que vinha ali buscar uma garrafa de água da sua fonte, que tinha seu pai cego. O gigante disse que sim, mas numa condição. Levou-o a uma janela: — Vês aquele palácio? Se me fores lá buscar uma espada que eu lá tenho, logo te dou a água. Ele, satisfeito com a proposta, abalou. Subindo um outeiro, viu um rio de água. Pôs-se de roda dele sem saber como havia de passar. Apareceu-lhe uma raposa e falou-lhe: — Tu tens medo da água? Fecha os olhos e passa, que não te hás-de molhar. Em lá chegando hás-de ver dois exércitos num grande combate, muitos mortos, muitos feridos; não tenhas susto. Passa pelo meio deles. A porta do palácio está aberta; no primeiro quarto está uma mesa e a espada em cima. Pega na bainha e vemte embora. 7


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Ele fechou os olhos e chegou à porta do palácio sem ser molhado. Assim que chegou ao pé do exército, passou por ele, entrou, pegou na bainha e saiu. Quando saiu, não viu nem exércitos, nem feridos, nem mortos, nem coisa nenhuma, nem resto de nada. Sentiu um estalo no braço; olha, vê a espada dentro da bainha. Não viu o rio. Chegou ao palácio, entregou a espada. Ficou muito satisfeito. — Assim como foste capaz de me ir buscar a espada, hás-de ir buscar um cavalo que eu lá tenho. Ele já ia mais triste, mas foi. Encontrou o rio e a raposa lá. Ainda cá te mandou. O que ele quer é matar-te, mas não hás-de ter perigo. Fecha os olhos e passa, que hás-de ver na primeira casa uma grande cavalariça com manjedouras dum e doutro lado. Os cavalos estão aos coices e encalham as pernas umas nas outras; mas não te assustes, passa pelo meio deles. O último cavalo, que está à tua direita, tem um freio de prata. Tira-o da argola da estaca e vem-te embora. 8


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Ele assim fez. Chegando lá, eram os cavalos aos coices que não o deixaram passar; mas mesmo assim rompeu. Tirou-o da prisão; veio-se embora. Ao sair da porta, o cavalo ao pé dele. Veio, entregou-o ao gigante: — lnda tornas lá outra vez a buscar uma filha que eu lá tenho. Ele foi. Outra vez o rio. A raposa disse-lhe: — Já te cá não manda senão esta vez. Entra, que à tua direita está uma porta. Levanta a aldraba e entra. Hás-de vê-la sentada com doze serpentes, que é a sua guarda, mas não tenhas medo; que elas hão-de levantar a gala direito a ti. Não faças caso. Lá está uma cómoda, abre a primeira gaveta, vês uma saia encarnada. Tira-a, iguala o cós com a contrapiza e deita-lha ao pescoço. Vem-te embora e não vás para casa de teus irmãos. Ele entrou; as serpentes levantaram gala; mas ele foi à gaveta, tirou a saia, deitou-lha ao pescoço. Veio-se embora, mas já não viu as serpentes. Quando saiu da porta do palácio, já ela estava ao pé dele, dando-lhe o braço. Era 9


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muito linda. Veio e entregou-a ao pai. Já tinha a garrafa cheia de água; agradeceu-lhe muito o favor e dlsse-lhe que pedisse o que quisesse. Ele pediu a espada; deu-lha de muito boa mente. Despediu-se dele e saiu. Depois ouviu um tropel muito grande atrás de si; era ela montada num cavalo, com uma espada para o matar. Que assim pagava a quem a tinha desencantado, disse ele. Respondeu-lhe que quando seu pai disse que pedisse o que quisesse porque não a pediu a ela? — Mas como não pediste senão a espada, aqui me tens a mim e ao cavalo. Seguiu a sua jornada; como o cavalo não sabia senão aquele caminho, veio dar à estalagem. Os irmãos, assim que o viram, ficaram com uma grande inveja. Com a água, com a espada, com o cavalo e com uma madama melhor que a deles, mas mostraram-se multo satisfeitos com ele. Tencionaram fazer todos juntos a jornada para o palácio: seguiram a sua jornada todos três com as suas madamas. O calor era muito, levavam todos muita sede, sem 10


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verem nem fonte, nem poço, nem monte. Afinal acharam um poço, mas não tinham com que tirar água. Os dois mais velhos disseram: — Ora isto faz-se bem, atando as nossas bandas todas três e vai um de nós lá abaixo com um chapéu, enche-o de água e traz-se para cima. Pois vá o mano que é mais leve. Ataram as bandas à cintura do irmão; levou o chapéu e encheu-o de água. Beberam; ainda tinham mais sede, tornou a ir para baixo: trouxe mais água e depois foi outra vez. Fingiram que lhes tinha escapado a banda da mão e ele ficou enterrado na água até à cintura. Muitos gritos, muitas finezas, mas não podiam tirá-lo de maneira nenhuma. Assim, que iam para diante ver se encontravam alguém para os ajudar a tirar. A mulher, quando o viu cair, deu um grito e ficou muda, e o cavalo deitou a correr, que nunca mais lhe puseram a vista em cima. Seguiram a sua jornada e, chegando ao seu palácio, pegaram logo na garrafa e foram direitos ao quarto do pai; mas não puderam destapar a garrafa, de maneira nenhuma. Não podendo, 11


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foram buscar uma bacia e um martelo, mas não se partiu. Puseram-na para o lado, a ver se alguém a ia abrir. Todo o trabalho foi baldado. A espada nunca a puderam tirar da bainha e o cavalo apareceu lá num outeiro muito longe. Disseram aos picadeiros que, picando os cavalos, podia ser que apanhassem aquele. O príncipe, que estava no poço, lembrou-se da raposa: Ai, que tantas vezes me livraste da morte! Bem me dizias tu que não viesse por casa de meus irmãos! Neste tempo apareceu ela ao bocal do poço: — Agora não sei; não te posso tirar daí. — Anda lá, raposinha, tira-me daqui desta desgraça, senão eu morro aqui. — Eu não; só se me deres metade do que for teu, dentro de um ano. — Não te dou metade, dou-te tudo quanto me pedires. Tirou-o do poço. Estava ele já com o fato roto, com uma barba muito grande. 12


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— Vai ao palácio, que teu pai ainda está cego. A garrafa ainda não se desrolhou, nem se partiu a martelo. O cavalo, nunca mais lhe puseram a mão em cima; e a tua mulher está muda, nunca mais falou. Vai, hás-de gastar muito tempo; mas não te esqueças do que me prometeste. Desapareceu a raposinha e ele pegou a seguir o seu caminho muito devagarinho, estava muito debilitado. Chegou a um monte, pediu alguma esmolinha para comer. A poder de dias chegou à corte, sentou-se numa pedra, perto dos picadeiros que andavam picando os cavalos. Olhou e viu o cavalo. Disse: — Oh! Que cavalo tão bonito? — Por mor dele é que nós andamos aqui picando nestes, para ver se o podemos apanhar; mas ele não dá mão a ninguém. — Ora eu sou capaz de o ir buscar. — Ora! Outros com mais pano no colarinho não podem, quanto mais você. — Pois vamos ver. 13


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Levantou-se, e assim que foi direito ao cavalo, veio ele direito ao dono. Pegou-lhe na rédea e trouxe-o. Levaram-no ao palácio, dizendo que não o tinham apanhado; que um homem que ali estava é que o trouxera. — Talvez ele também seja capaz de tirar a espada da bainha. — Vão lá chamá-lo. Eles foram. Disseram-lhe se ele era capaz de tirar aquela espada da bainha. Deram-lha; mas ele não quis: — Não preciso isso. Pegou na espada mesmo na mão do irmão e puxou por ela, mesmo sem força nenhuma. Foram buscar a garrafa. Que talvez fosse capaz de tirar a rolha. — Mas para quê, senhor? — Porque é um remédio que temos aqui para meu pai. — Então, aqui não; é preciso tirar-se mesmo ao pé da cama dele. 14


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Levaram-no ao quarto, pediu uma bacia, tirou a rolha, deitou água nas mãos e lavou os olhos do pai. Logo ficou com a sua vista clara como dantes. Como houve algum barulho no quarto, acudiram; eram a rainha e a rapariga. E ela, assim que o viu, deitou-lhe os braços ao pescoço: — Eu já te fazia morto; graças ao Altíssimo, que ainda te vejo. A estas palavras, os infantes olharam com mais atenção para ele. Pediu a benção ao pai, falou a todos. O pai, vendo isto, perguntou-lhe o que aquilo era, porque lhe tinham dito que ele tinha morrido. Ele contou tudo. O pai mandou logo matar os filhos; as madamas ficaram criadas da outra. Depois tratou-se o casamento e casou com ela. Ao cabo de onze meses, tiveram um menino. No dia do baptizo, estando à noite, ao chá, de repente apagaram-se as luzes das salas. Apareceu um fantasma ao pé do príncipe; todos se assustaram muito. Falou o fantasma. Que não tivessem medo, que ele vinha ali buscar o que o 15


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príncipe lhe tinha prometido: metade daquilo que era seu. Ele levantou-se, foi buscar um alfange, chegou-se ao berço do menino e levantou o braço. Mas o fantasma segurou-lhe nele e disse-lhe que não matasse o seu filho, porque ele era a alma daquele homem a quem ele mandou enterrar e pagar as dívidas, que tinha vindo por Deus, livrado de tantos perigos. Assim, que fizesse o que tinha prometido a sua mulher de a fazer feliz. Desapareceu; ficaram todos muito satisfeitos e ele, no outro dia, mandou duas aias e uma escolta buscar a mulher. O filho já tinha morrido. Meteu-a no convento com grande tença. Acabou-se.

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Conto tradicional

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