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O mergulhador Angelo Venosa, Panorama, MAM-RJ

“O que agora eu conto é a combinação daquilo que ele me contou e da minha imaginação (...) Foi assim que imaginei o seu sonho e o seu pesadelo. O paraíso e o inferno.” Bernardo Carvalho, Nove noites

Angelo Venosa já descreveu seu processo de trabalho na escultura como o de alguém que “vai aprendendo a nadar depois que se jogou na água”. A exposição panorâmica sobre seus quase 30 anos de carreira, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, poderia ter esta autodefinição como síntese, não apenas pela ênfase que ela dá ao gesto, ao corpo e à experiência – essenciais para a compreensão da trajetória do artista -, mas também pelo meio em que ela ocorre: a água. Dono de um caminho absolutamente peculiar na história recente da escultura brasileira, Venosa evidencia o quanto é possível haver vida inteligente em um mundo de referências paralelo ao da herança neoconcreta. Nosso patrimônio construtivo é indiscutível, mas muitas vezes asfixiou e embotou a visão da crítica, cujo ponto de partida deve ser sempre o diálogo com cada obra. E o que podem me dizer as esculturas de Venosa? Estruturada como uma espécie de galáxia em expansão, a montagem da mostra no MAM é uma obra à parte. Um núcleo denso e seminal se abre para as relações visuais entre peças de vários períodos, aproximando as feitas com ossos e dentes daquelas quase imateriais, que criam volumes a partir do desenho no acrílico. Neste eixo central estão os trabalhos negros do início da carreira, alguns deles oriundos da participação do artista na Bienal de São Paulo de 1987 e outros datados de um ano antes. Feitos a partir de uma estrutura de madeira envolvida com tecido e tinta, eles são como esqueletos enfaixados com atadura, corpos inertes que parecem ganhar vigor depois de reinventados pelo artista. O “núcleo negro” aponta, já nos primeiros anos de produção de Venosa, para seu interesse pela antítese vida-morte e pelas formas e materiais orgânicos, vestígios daquilo que um dia pode ter sido um ser pulsante e identificável. A efemeridade da matéria, que causa desconforto para a maioria de nós, tem sido para ele um objeto de fascínio e obsessão, no melhor dos sentidos. Os trabalhos que nos apresentam este primeiro Venosa sugerem ainda o início de referências a formas de um mundo aquático e abissal. Sua obra mais conhecida é uma escultura monumental em aço corten, criada em 1990 para a Praça Mauá e hoje instalada na orla do Leme. Originalmente sem título, recebeu o apelido popular de “Baleia”, que acabou sendo incorporado pelo autor como um nome possível. As crianças que têm visitado o MAM enxergam polvos e lulas nas esculturas negras. Mesmo sabendo que não há qualquer intenção narrativa no trabalho do artista, eu permitiria que minha imaginação


encontrasse corais, um peixe-falo-faca e anêmonas no espaço expositivo. Todos eles apresentados como vizinhos de uma escultura sem título de 1998, em que desenhos foram feitos com água salgada em lâminas de vidro. Esta obra “respira” como se fosse um animal vivo, redefinindo o traçado original do artista à medida que o sal reage com o oxigênio, fazendo a “tinta” escorrer pela superfície transparente. Em Illuminations, Hannah Arendt compara Walter Benjamin a um pescador de pérolas, que vai ao fundo do mar para recolher aquilo que é “rico e estranho”. Transporta para superfície ecos de um passado esquecido, dando a ele outra vida a partir de uma “cristalização” sob novas perspectivas. Venosa também é mergulhador. No MAM, desbravamos sua obra náufraga. Neste “Panorama”, é possível perceber claramente um inventário sobrevivente ao tsunami de imagens fugidias que caracteriza o mundo contemporâneo. Ao longo dos anos, o artista construiu um glossário que dá âncoras a estes corpos à deriva. O mar – o literal e aquele de imagens, que hoje acessamos pela rede - é sempre um território fluido e em movimento. Ele pertence e não pertence a este nosso mundo; é e não é deste nosso tempo. Venosa traz à tona estes seres híbridos; familiares e estrangeiros, eles foram pescados no agora e são simultaneamente jurássicos. Evaporada a água, eles também se “cristalizam” e são conservados no sal, algumas vezes fatiados e guardados às camadas, como o charque que alimentava as tripulações ultramarinas. As fatias ou camadas que permeiam a produção do artista são, aliás, um indício de que seus mergulhos não se dão apenas na direção da imagem. A constituição da forma, assim como a pesquisa material que vai transformá-la em escultura, têm sido profundezas exploradas de maneira ainda mais evidente. Taxidermista às avessas, Venosa, em vez de dar forma à pele, revela aquilo que está por baixo dela. Não faz isso, é claro, de maneira mecânica e comum. Os arranjos destas lâminas – em vidro, aço, madeira ou acrílico – tiram partido do espaço negativo, como um elogio ao vazio, ao oco, à forma que existe no que é cheio e em seu oposto; no que é opaco e no que é transparente; no que contém e no incontido. Nos trabalhos da série Turdus, de 2011, esta ambiguidade é enfatizada. Venosa fez a ressonância magnética de um crânio de sabiá e seccionou o resultado em lâminas. Em uma destas peças, a cabeça da ave é vista como um sólido em uma caixa de acrílico, mas o volume é como uma grande holografia, projetada a partir da minuciosa junção das linhas da ressonância desenhadas nas plaquinhas transparentes. Em outra obra, o crânio só é visto de um determinado ângulo: é preciso ficar a 45 graus das placas de vidro, instaladas em uma quina da parede, para perceber o volume. A escultura exige que mexamos o nosso corpo para se revelar em um quase-espelho como a lembrança de outro corpo. Uma das obras inéditas que estão no MAM inquieta justamente por esta relação com os outros corpos à sua volta. Parece um meteorito negro, e nos mantém na sensação de que, apesar de ser reconhecível, poderia ter vindo de uma galáxia distante. As camadas são agora fragmentos. O raciocínio em seções permanece, mas a exigência de que se entenda o trabalho aos pedaços se dá de uma forma menos sequencial e muito menos direta, o que parece representar um novo caminho de pesquisa para Venosa.


As chapas de alumínio composto que constituem esta peça não são indiferentes à luz e vão criando matizes de cor: o preto é transformado em cinzas, marrons, verdes e azuis. Este prisma camaleônico filtra e reflete a paisagem, as outras esculturas mais próximas e seus espectadores, mas é modificado por aquilo que absorve. A luz sublinha ainda suas reentrâncias e seus eixos mais pontiagudos, vertendo a geometria em corpo. Costurada com lacres de plástico, esta escultura parece cicatrizar uma antiga ferida: o artista flerta, de modo viril e nada reverente, com nossa herança geométrica construtiva, sem no entanto abandonar o caminho da expressão. Só percebe este encontro de águas tão distintas aquele que se mexe em volta e na direção do trabalho. Assim como acontecia com as esculturas de ossos e dentes do início deste percurso, para ser levado por esta obra é preciso aceitar a estranheza, o incômodo e até certo enjoo como sinais de riqueza. Com Venosa, só mergulha quem mareia.

Daniela Name, julho-agosto de 2012.


Angelo Venosa - Panorama - Texto de Daniela Name