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«Era Dezembro...estava frio...muito frio, normal para a época. O Natal aproximava-se a uma velocidade galopante. As pessoas corriam de loja em loja na azáfama das compras, dos presentes. Em cada manhã quando se levantava, a tristeza invadia-lhe o rosto. Eram bem visíveis, no seu rosto, as marcas do sofrimento, da angústia...da tristeza. Não tinha dinheiro. Vivia um período muito difícil. Tinha perdido o emprego há três meses e o subsídio de desemprego ainda não tinha chegado, com todas as consequências nefastas para o seu dia-a-dia.....» BE da ESN - De que me basta ser dotado de conhecimentos, se ninguém me olha no rosto quando peço abrigo ou procuro emprego? – perguntou-se,

lamentando-se

enquanto

fugia

da

chuva,

que

começara a cair. Vagueava há vários dias, sem rumo certo. Procurava abrigo, já não pedia muito, apenas abrigo. Já não sabia o que era uma cama há longas semanas, e do lar lembrava-se dele no seu tempo de Romeu triunfante. Os sapatos rotos mostravam as meias velhas e as negras unhas. Arrastou-se pela rua acima. A última vez que ali tinha estado fora quando o seu pai morrera. Entrou no café transbordando de vergonha. Não se escondeu, pois teve a certeza que assim que entrasse todos o olhariam, mas nenhum o reconheceria. Assim que pisou o tapete de entrada, tirou o chapéu, segurando-o junto ao peito como forma de cumprimentar, tal qual seu pai o ensinara. Sentou-se a um canto, junto à janela. Olhou lá para fora. Começara a nevar e miúdos brincavam entusiasmados. Aquela alegria fazia-o recordar os tempos de outrora, os tempos de uma felicidade, de uma prosperidade que não fazia prever o tempo de miséria, de pobreza que agora vivia. É verdade, perdera tudo: mulher e filhos, amigos até! Assim, nada fazia sentido. Como pudera isto acontecer?! [Maria João, 10º A] Perguntava-se vezes sem conta o que teria feito para ter como castigo passar o resto da sua vida sozinho. Mas, por mais que pensasse, por mais explicações que tentasse arranjar, nenhuma


parecia agradar-lhe. Não conseguia aceitar a ideia de uma pessoa como ele, que sempre fora um bom pai, marido e amigo, acabar sozinho. Passou-lhe muitas vezes pela cabeça acabar com a sua própria vida, mas, nesses momentos, havia uma voz dentro dele que lhe dizia para não desistir, pois viriam tempos melhores. Era a fé nessa voz que o fazia continuar a viver. - O que deseja? _ Perguntou educadamente o empregado do café, interrompendo-lhe os pensamentos. - Eu não quero nada, obrigada. Simplesmente me vim refugiar do

frio. Espero que não se

importe… _ Disse o

homem,

envergonhado e com receio de o mandarem sair. - Por mim, podia ficar, mas o meu patrão diz que quem não consome não pode permanecer. Tenho muita pena, mas vou ter de lhe pedir que se retire. _ Respondeu o empregado, olhando lentamente para o patrão que se encontrava no balcão. O homem levantou-se, retirou novamente o chapéu e saiu. Esperava-o mais uma fria e escura noite de Dezembro. Sentado num banco da cidade, observava as pessoas a saírem e entrarem nas lojas. As ruas enchiam-se de luz, brilho e alegria, mas para o mendigo, aquela era mais uma fria noite de Dezembro. Enquanto toda a gente andava com casacos de pelo, cachecóis, luvas e gorros, o pobre mendigo tinha apenas um casaco todo roto. Enquanto os seus pensamentos atormentavam a sua mente, olhava a multidão na correria das compras. Foi então que algo despertou a sua atenção: uma caixa de cartão preto caída no chão! (Ana Sofia, 10º A) -“Que será?”- pensou para com os seus botões. – “Uma simples caixa vazia ou terá conteúdo?” Resolveu ir ver do que realmente se tratava… Aquela caixa que estava ali, tinha uns sapatos… Uns sapatos completamente novos! Aquele homem, que passou a ser um mendigo de um dia para o outro, ficou felicíssimo, tinha encontrado a sua prenda de Natal… Naquele momento, só pensava que era um sinal. Uma força transcendente tinha-lhe enviado aqueles sapatos como sinal!


Emocionou-se… Ele sabia que nunca tinha estado sozinho e, naquela noite de Dezembro, teve a certeza! Sentiu uma emoção que lhe abanou o espírito, que lhe estremeceu a alma e que, simplesmente, lhe derreteu o coração. Sentiu uma força que o fez nascer de novo! Levantou a cabeça, ergueu as mãos no ar e gritou: “Eu não vou desistir!”. Percorreu ruas e ruas, becos e avenidas na tentativa de encontrar a felicidade, de encontrar a todo o custo a vida que anteriormente tivera. Mas agora sentira que não era isso o mais importante! Descobrira que a esperança de viver com um mínimo de dignidade estava a renascer...Isso fortalecia-o. Afinal a felicidade não está onde cada um a põe?! Não dizem que a felicidade pode estar ao virar da esquina?! Ele aprendeu que nada é mais importante que ele próprio. Egoísta? Talvez, mas se não nos preocuparmos connosco próprios, quem se irá preocupar? O homem já não se sentia culpado… De nada! Afinal a culpa de ter perdido o emprego não era sua! Era já manhã. No Céu surgiu uma ténue luz. Ao longe o Sol nascia a medo. Mas fazia prever um dia claro e luminoso. Olhou à sua volta e reparou na perfeição de tudo! Tudo maravilhosamente bem feito. Adorava ver a forma como as árvores se movimentam com o vento; como aquela brisa o fazia sentir vivo; como os pássaros esvoaçam pelo céu sem se perderem naquela imensidão de azul; como a mais pequena coisa, a mais pequena palavra, o mais pequeno gesto eram importantes! Adorava a vida e queria vivê-la!


Era Dezembro