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Semana da Leitura 21 – 30 de Março de 2011 A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas [ONU] declarou 2011 Ano Internacional das Florestas [AIF] com o intuito de despertar a consciência das pessoas para o papel central que devem desempenhar na gestão, na conservação e no desenvolvimento sustentado de todos os tipos de floresta. Por esta razão, o mote escolhido para o AIF é «Florestas para todos». Os elementos iconográficos que compõem o logótipo do Ano Internacional das Florestas representam, numa perspectiva global, alguns dos benefícios proporcionados pelas florestas: as florestas dão abrigo às populações, são reservas de biodiversidade da flora e da fauna, são fonte de água pura, de alimento, de substâncias curativas e de outras matérias-primas e contribuem decisivamente para a estabilidade do clima e do ambiente… Assim se compreenderá a importância vital das florestas para a sobrevivência e o bem-estar dos cerca de sete mil milhões de habitantes do nosso planeta!

Arvoredos: brevíssima antologia da árvore em poesia e em prosa Uma co-produção das Bibliotecas Escolares da Escola Secundária José Régio [Vila do Conde] e da Escola Básica dos 2.º e 3.º Ciclos Dr. Carlos Pinto Ferreira [Junqueira] Imagem da capa CESARE DA SESTO [Itália, 1477 – 1523] Estudo de Árvore Pena e tinta sobre giz preto em papel azul, 392 x 265 mm Royal Collection, Windsor, Inglaterra, Reino Unido URL: http://www.wga.hu/art/c/cesare/ztree.jpg Logótipo do Ano Internacional das Florestas URL: http://www.florestas2011.org.pt/images/stories/aif.jpg


À SOMBRA DE ÁRVORES COM HISTÓRIA [Prefácio]

LA FORÊT

São seres silenciosos que, a nosso lado, partilham quotidianamente a mesma única vida, a sua e a nossa vida. Mal damos por elas, as árvores, tão comum e familiar é a sua antiquíssima presença perto de nós, e tão anónima. A maior parte das vezes pouco mais somos capazes de dizer do que «árvore», ou «árvores», porque também as nossas palavras se foram, pouco a pouco, tornando silenciosas. E, no entanto, cada árvore, como cada um de nós, é um ser absoluto e irrepetível, idêntico apenas mutantemente a si mesmo, uma vida única com uma história única, um passado para sempre atado, de forma única, ao nosso próprio passado. […]

La forêt est une magicienne, Mille espèces, mille couleurs, Mille sensations fantastiques Essentielles pour les êtres vivants.

Manuel António Pina [Portugal, 1943]

A FERMOSURA DESTA FRESCA SERRA A fermosura desta fresca serra, e a sombra dos verdes castanheiros, o manso caminhar destes ribeiros, donde toda a tristeza se desterra; o rouco som do mar, a estranha terra, o esconder do sol pelos outeiros, o recolher dos gados derradeiros, das nuvens pelo ar a branda guerra; enfim, tudo o que a rara natureza com tanta variedade nos of’rece me está (se te não vejo) magoando. Sem ti, tudo m’enoja e m’avorrece; sem ti, perpetuamente estou passando nas mores alegrias, mor tristeza. Luís Vaz de Camões [Portugal, ca. 1524 - 1580]

SOBRE AS ÁRVORES Eu espero, sim, que essas árvores cresçam. Adormeço com elas todas as noites, embalado pela sua sombra. Lembro-as de memória, sobre a relva verde. Lembro as suas folhas, caindo de noite. Mesmo as que ainda não vi, eu espero que cresçam, que me esperem, que me abriguem nesse dia em que mais precisarei delas, ouvindo o ruído do mar não muito longe. Tenho, a cada minuto, saudades dessas árvores. Francisco José Viegas [Portugal, 1962]

CANÇÃO INFANTIL Era um amieiro. Depois uma azenha. E junto um ribeiro. Tudo tão parado. Que devia fazer? Meti tudo no bolso para os não perder. Eugénio de Andrade [Portugal, 1923 – 2005]

Mais ce joli conte de fées Est détruit. Plus d’arbres détruits, Moins d’oxygène, Moins d’espèces, Moins d’espaces verts. Vanessa Azevedo, Elvira Camardi, Eleanora Kuzina [ 8ºB, Escola Secundária José Régio]

ÁRVORES Árvores negras que falais ao meu ouvido, Folhas que não dormis, cheias de febre, Que adeus é este adeus que me despede E este pedido sem fim que o vento perde E esta voz que implora, implora sempre Sem que ninguém lhe tenha respondido? Sophia de Mello Breyner Andresen

[EU NUNCA GUARDEI REBANHOS] […]

Saúdo todos os que me lerem, Tirando-lhes o chapéu largo Quando me vêm à minha porta Mal a diligência levanta no cimo do outeiro. Saúdo-os e desejo-lhes sol, E chuva, quando a chuva é precisa, E que as suas casas tenham Ao pé duma janela aberta Uma cadeira predilecta Onde se sentem, lendo os meus versos. E ao lerem os meus versos pensem Que sou qualquer coisa natural ― Por exemplo, a árvore antiga À sombra da qual quando crianças Se sentavam com um baque, cansados de brincar, E limpavam o suor da testa quente Com a manga do bibe riscado. Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa

OS LIVROS QUE DEVORARAM O MEU PAI […] Para uns, a raiz é a parte invisível que permite à árvore crescer. Para mim, a raiz é a parte invisível que a impede de voar como os pássaros. Na verdade, uma árvore é um pássaro falhado. […] Afonso Cruz [Portugal, 1971]


TREES I think that I shall never see A poem lovely as a tree. A tree whose hungry mouth is prest Against the earth's sweet flowing breast; A tree that looks at God all day, And lifts her leafy arms to pray; A tree that may in summer wear A nest of robins in her hair; Upon whose bosom snow has lain; Who intimately lives with rain. Poems are made by fools like me, But only God can make a tree. Alfred Joyce Kilmer [E.U.A., 1886 – França, 1918]

ÁRVORES Parece-me que nunca ninguém há-de Ver poema tão belo como a árvore. Árvore que sua boca não desferra Do seio doce e liberal da terra; Árvore, sempre de Deus a ver imagem E erguendo em reza os braços de folhagem; Árvore que pode usar, como capelo, Ninhos de pintarroxo no cabelo; Em cujo peito a neve esteve assente; Que vive com a chuva intimamente. Os tontos, como eu, fazem poesia; Uma árvore, só Deus é que a faria. Alfred Joyce Kilmer Versão portuguesa de autor anónimo

PEDRO ALECRIM […] Acabaram as aulas. […] Fui à escola no último dia, embora soubesse que não ia haver aulas. […] Deitei uns baldes de água à tília que eu e o Nicolau plantámos no Dia da Árvore. Gosto da tília. É a mais forte de todas as árvores que foram plantadas. Oxalá ninguém se lembre de a partir. O Dia da Árvore foi um dos mais bonitos da escola. Os funcionários da Câmara trouxeram as plantas e fizeram os buracos. Nós não quisemos que nos ajudassem, estávamos habituados a fazer buracos com um metro de largura e outro de fundo para plantar videiras. Gosto da tília. Sei que vai demorar muitos anos a ficar vistosa. Mas quando for alta e grossa e quando os pássaros fizerem ninhos nos seus ramos, deve ser bom dizer: ―esta tília foi plantada por mim!‖. […] António Mota [Portugal, 1957]

A CIDADE E AS SERRAS […] ― E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparável beleza daquela serra bendita! Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o Divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado! A grandeza igualava a graça. Para os vales, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, de um verde tão moço, que eram como um musgo macio onde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, largas ramarias estendiam o seu toldo amável, a que o esvoaçar leve dos pássaros sacudia a fragrância. Através dos muros seculares, que sustêm as terras liados pelas heras, rompiam grossas raízes coleantes a que mais hera se enroscava. Em todo o torrão, de cada fenda, brotavam flores silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a sólida nudez do seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de líquen e de silvados floridos, avançavam como proas de galeras enfeitadas: e, de entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para lá galgara, todo machucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semeara nas telhas. Por toda a parte a água sussurrante, a água fecundante… Espertos regatinhos fugiam, rindo com os seixos, de entre as patas da égua e do burro; grossos ribeiros açodados saltavam com fragor de pedra em pedra; fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das alturas aos barrancos; e muita fonte, posta à beira das veredas, jorrava por uma bica, beneficamente, à espera dos homens e dos gados… Todo um cabeço por vezes era uma seara, onde um vasto carvalho ancestral, solitário, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam laranjais rescendentes. Caminhos de lajes soltas circundavam fartos prados com carneiros e vacas retouçando ― ou mais estreitos, entalados em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, numa penumbra de repouso e frescura. Trepávamos então alguma ruazinha de aldeia, dez ou doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaçava, fugindo do lar pela telha vã, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos, por cima da negrura pensativa dos pinheirais, branquejavam ermidas. O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e força. Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas… Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava: ― Que beleza! E eu atrás, no burro de Sancho, murmurava: ― Que beleza! […] José Maria Eça de Queirós [Portugal, 1845 – França, 1900]

ÁRVORE Oh árvore bela! a mais bela árvore que já vi até Camões escreveu sobre ela um poema que agora percebi. E tu, só tu, oh árvore, és: diversidade animal, beleza primaveril, coloração outonal, e encanto subtil. Então eu digo! Maldita seja a humanidade que te corta sem fim pois quando teus ramos se perdem por maldade perde-se um pouco de ar em mim… João Lobo [10º CT5, Escola Secundária José Régio]


PLANTAR UMA FLORESTA

UM REINO MARAVILHOSO (TRÁS-OS-MONTES)

Quem planta uma floresta planta uma festa.

[…] Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. […] De figos, nozes, amêndoas, maçãs, peras, cerejas e laranjas nem vale a pena falar. São mimos de um pomar variegado, que nenhuma imaginação descreve quando a primavera estala nos ramos. Ver uma encosta de Barca de Alva coberta de flores de amendoeira, ou o solar de Mateus a emergir dum mar de corolas sortidas, é contemplar o inefável. Mas o fruto dos frutos, o único que ao mesmo tempo alimenta e simboliza, cai dumas árvores altas, imensas, centenárias, que, como puras vestais, parecem encarnar a virgindade da própria paisagem. Só em Novembro as agita uma inquietação funda, dolorosa, que as faz lançar ao chão lágrimas que são ouriços. Abrindo-as, essas lágrimas eriçadas de espinhos deixam ver numa cama fofa a maravilha singular de que falo, tão desafectada que até no próprio nome é modesta ― a castanha. Assada, no S. Martinho, serve de lastro à prova do vinho novo. Cozida, no Janeiro glacial, aquece as mãos e a boca de pobres e ricos. Crua, engorda os porcos, com a vossa licença… […]

Planta a música e os ninhos, faz saltar os coelhinhos. Planta o verde vertical, verte o verde, vário verde vegetal. Planta o perfume das seivas e flores, solta borboletas de todas as cores. Planta abelhas, planta pinhões e os piqueniques das excursões. Planta a cama mais a mesa. Planta o calor da lareira acesa. Planta a folha de papel, A girafa do carrocel. Planta barcos para navegar, E a floresta flutua no mar. Planta carroças para rodar, Muito a floresta vai transportar. Planta bancos de avenida, Descansa a floresta de tanta corrida. Planta um pião Na mão de uma criança: A floresta ri, rodopia e avança. Luísa Ducla Soares [Portugal, 1939]

Miguel Torga

CANÇÃO NOCTURNA DO VIANDANTE - II Sobre todos os montes Há paz, Em todas as frondes Quase não dás que passe a aragem. Calam-se as aves no arvoredo. Espera! Bem cedo É o fim da viagem. Johann Wolfgang von Goethe [Alemanha, 1749 – 1832] Versão portuguesa de Jorge de Sena

AS ÁRVORES E OS LIVROS As árvores como os livros têm folhas e margens lisas ou recortadas, e capas (isto é copas) e capítulos de flores e letras de oiro nas lombadas. E são histórias de reis, histórias de fadas, as mais fantásticas aventuras, que se podem ler nas suas páginas, no pecíolo, no limbo, nas nervuras. As florestas são imensas bibliotecas, e até há florestas especializadas, com faias, bétulas e um letreiro a dizer: «Floresta das zonas temperadas». É evidente que não podes plantar no teu quarto, plátanos ou azinheiras. Para começar a construir uma biblioteca, basta um vaso de sardinheiras.

PRIMAVERA Primavera! Recuperação de todas as coisas, todas as flores abertas… Primavera! O verde chorão, o pêssego vermelho o canto do rouxinol, a dança das andorinhas... Primavera! Dos ramos brotaram novas folhas e flores novas, perfumadas. Primavera! Esperamos a luz no seu voo de sonho. Qiqi Ye [10º CT3, Escola Secundária José Régio]

Jorge Sousa Braga [Portugal, 1957]

ÁRVORE

SÚBITO AGUACEIRO

Se os poemas nascessem das árvores Então nós, sentados à sua sombra Veríamos nos seus ramos Os seus frutos Transformarem-se em versos.

Súbito aguaceiro: chapéu de chuva farei deste castanheiro. Jorge Vilhena Mesquita [Portugal, 1960]

Sara Oliveira [10º SE, Escola Secundária José Régio]


POEMA DAS ÁRVORES

A FLORESTA

As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Era uma vez uma quinta toda cercada de muros. Tinha arvoredos maravilhosos e antigos, lagos, fontes, jardins, pomares, bosques, campos e um grande parque seguido por um pinhal que avançava quase até ao mar. A quinta ficava nos arredores de uma cidade. O seu pesado portão era de ferro forjado pintado de verde. Quem entrava via logo uma grande casa rodeada por tílias altíssimas cujas folhas, de um lado verdes e de outro lado quase brancas, palpitavam na brisa. Era nessa casa que morava Isabel. […] Isabel não tinha irmãos e por isso sabia brincar sozinha e conversar com as árvores, com as pedras e com as flores. Todos os dias ela percorria a quinta. No Outono apanhava castanhas esmagando com o pé os ouriços verdes. No Inverno colhia violetas e camélias. Na Primavera trepava às cerejeiras para comer as primeiras cerejas doces, escuras e vermelhas. E também subia às árvores onde todos os anos havia ninhos, ninhos redondos feitos de ervas, folhas secas e penas e que tinham lá dentro quatro ovos verdes sarapintados de castanho. Caminhava entre o trigo que era como um doce mar, aéreo e leve. Às vezes passava horas a ler sob o caramanchão onde as flores lilases das glicínias pendiam em grandes cachos perfumados rodeados de abelhas. Ou caminhava devagar na luz verde do parque escutando o rumor das altas copas dos plátanos. E conhecia o lugar onde, escondidos entre as ervas e folhas, cresciam os morangos selvagens. […]

Começam por ser nada. Pouco a pouco se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo. Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos, e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se. Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores, e então crescem as flores, e as flores produzem frutos, e os frutos dão sementes, e as sementes preparam novas árvores. E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas. Sem verem, sem ouvirem, sem falarem. Sós. De dia e de noite. Sempre sós. Os animais são outra coisa. Contactam-se, penetram-se, trespassam-se, fazem amor e ódio, e vão à vida como se nada fosse. As árvores, não. Solitárias, as árvores, Exauram terra e sol silenciosamente. Não pensam, não suspiram, não se queixam. Estendem os braços como se implorassem; com o vento soltam ais como se suspirassem; e gemem, mas a queixa não é sua. Sós, sempre sós. Nas planícies, nos montes, nas florestas, a crescer e a florir sem consciência. Virtude vegetal viver a sós e entretanto dar flores. António Gedeão [Portugal, 1906-1997]

ACASO VISTE A CHAMA BRANCA Acaso viste a chama branca onde o perfume dorme? — o botão da magnólia. Jorge Vilhena Mesquita

O FREIXO Alto freixo redondo apazigua Entre verdes pinhais a minha aldeia, E, toucado de pássaros, à lua, Parece uma mulher que se penteia. Pede-lhe o vento norte segurança, Toca-lhe o pé água de fresco poço; Eu, tornado a meus olhos de criança, Em seu casto perfil me sinto moço. Seus ramos vejo como via os anjos Que à vida me trouxeram pequenino. Ó imaginação, que altos arranjos Fazes às coisas simples transtornadas: Vinhas em flor, um breve freixo fino, Cães, colmeias sem mel, águas passadas! Vitorino Nemésio [Portugal, 1901 - 1978]

Sophia de Mello Breyner Andresen [Portugal, 1919 – 2004]

ARQUIVOS DO NORTE […] Contemplemos antes este mundo que ainda não atravancamos, estas léguas de floresta cortadas por charnecas que se estende quase ininterrompida de Portugal até à Noruega, das dunas às futuras estepes russas. Recriemos em nós este oceano verde, não imóvel, como é a maioria das nossas representações do passado, mas em movimento e mudança no decorrer das horas, dos dias e das estações que fluem sem terem sido medidos pelos nossos calendários nem pelos nossos relógios. Vejamos as árvores de folha caduca ficarem encarnadas no Outono e os pinheiros balançarem na Primavera as suas agulhas novas ainda cobertas por uma fina cápsula castanha. Mergulhemos neste silêncio quase virgem de barulhos e de utensílios humanos, onde se ouvem apenas os bandos de aves ou o seu chamamento de aviso quando um inimigo, doninha ou esquilo, se aproxima, o zumbido de miríades de mosquitos, ao mesmo tempo predadores e presas, o rugido de um urso que procura na fenda de um tronco um favo de mel que as abelhas defendem a zumbir, ou ainda o estertor de um veado despedaçado por um lince. […] O Sol aquece a ténue crosta viva, faz sair os rebentos e fermentar os cadáveres, puxa do solo um vapor que a seguir dissipa. Depois, grandes bancos de bruma velam as cores, abafam os ruídos, recobrem as planuras da terra e as ondulações do mar com uma única e espessa toalha cinzenta. A chuva sucede-lhe, ressoando sobre biliões de folhas, bebida pela terra, sugada pelas raízes; o vento dobra as árvores novas, abate os velhos troncos, varre tudo com um imenso rumor. Enfim, voltando de novo, o silêncio, a neve imóvel sem outra marca na sua superfície que não seja a dos cascos, das patas ou das garras, ou as estrelas que os pássaros gravam quando nelas poisam. […] Marguerite Yourcenar [Bélgica, 1903 – E.U.A., 1987] Versão portuguesa de Helena Vaz da Silva e Alberto Vaz da Silva


ODISSEIA

RAÍZES

[…] Fora do pátio, começando junto às portas, estendia-se o enorme pomar, com uma sebe de cada um dos lados. Nele crescem altas árvores, muito frondosas, pereiras, romãzeiras e macieiras de frutos brilhantes; figueiras que davam figos doces e viçosas oliveiras. Destas árvores não murcha o fruto, nem deixa de crescer no inverno nem no verão, mas dura todo o ano. Continuamente o Zéfiro faz crescer uns, amadurecendo [outros. A pêra amadurece sobre outra pêra; a maçã sobre outra [maçã; Cacho de uvas sobre outro cacho; figo sobre figo.

Quem me dera ter raízes, que me prendessem ao chão. Que não me deixassem dar um passo que fosse em vão.

Aí está também enraizada a vinha com muitas videiras: parte dela é em local plano de temperatura amena, seco pelo sol; na outra, homens apanham uvas. Outras uvas são pisadas. À frente estão uvas verdes que deixam cair a sua flor; outras se tornam escuras. Junto à última fila da vinha crescem canteiros de flores de toda a espécie, em maravilhosa abundância. Há duas nascentes de água: uma espalha-se por todo o jardim; do outro lado, a outra flui sob o limiar do pátio em direcção ao alto palácio: dela tirava o povo a sua água. Tais eram os belos dons dos deuses em casa de Alcínoo. […]

Que me deixassem crescer silencioso e erecto, como um pinheiro de riga, uma faia ou um abeto. Quem me dera ter raízes, raízes em vez de pés. Como o lódão, o aloendro, o ácer e o aloés. Sentir a copa vergar, quando passasse um tufão. E ficar bem agarrado, pelas raízes, ao chão. Jorge Sousa Braga

EM BELEZA A NATUREZA FLORESCE

Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa [Portugal, 1888 - 1935]

Em beleza a natureza floresce Floresce a nossa vida, Vida que nós temos de conservar e amar Amar e cuidar… Cuidar porque dela dependemos, Dependemos e mudámos… Mudámos a vida humana, animal e vegetal, Vegetal que pertence ao mundo natural… Natural porque toda a natureza o é. È como se a natureza fosse a nossa casa, Casa que temos de amar, cuidar e preservar… Preservar pois é uma das fontes da nossa vida, Vida essa que se deve aproveitar da melhor maneira, Maneira essa que passa por cuidar da Natureza, Natureza que é tudo o que nos rodeia … Rodeia de vida e saúde, Saúde pois as árvores são como os nossos pulmões, Pulmões que nos garantem a vida neste mundo, Mundo muito poluído, Poluído devido ao homem!

A UM NEGRILHO

E agora o Homem tem que o preservar Custe o que custar!

Homero [Grécia Antiga, ca. século VIII a.C.] Versão portuguesa de Frederico Lourenço

[NOS ALTOS RAMOS DE ÁRVORES FRONDOSAS] Nos altos ramos de árvores frondosas O vento faz um rumor frio e alto, Nesta floresta, em este som me perco E sozinho medito. Assim no mundo, acima do que sinto, Um vento faz a vida, e a deixa, e a toma, E nada tem sentido ― nem a alma Com que penso sozinho.

Na terra onde nasci há um só poeta. Os meus versos são folhas dos seus ramos. Quando chego de longe e conversamos, É ele que me revela o mundo visitado. Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada, E a luz do Sol aceso ou apagado É nos seus olhos que se vê pousada. Esse poeta és tu, mestre da inquietação Serena! Tu, imortal avena Que harmonizas o vento e adormeces o imenso Redil de estrelas ao luar maninho. Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso Onde os pássaros e o tempo fazem ninho. Miguel Torga [Portugal, 1907 – 1995]

Poema Colectivo da Turma 10º CT4 [Escola Secundária José Régio]

A UMA ÁRVORE AMIGA De muito pequenina te conheço. Lembras-te de brincarmos ao crescer? Tu me ganhavas sempre, que mais baixa fiquei eu sempre sendo, de assim ser. De muito amedrontada te conheço. Lembras-te das geadas e dos frios? Eu te ganhava sempre que fugindo em casa aconchegava os arrepios. De muito pequenina te conheço. E se algum dia me esquecer de ti, é de mim que me esqueço. Maria Alberta Menéres [Portugal, 1930]


ÁRBOLES

ÁRVORES

Las hojas caen de los árboles Yo las veo cayendo Pero, cuando llega la primavera Las veo naciendo.

Sobre as árvores Nem sei o que dizer Mas sem elas Não íamos conseguir viver.

Cuando se piensa en Naturaleza, Todos tenemos una certeza Tenemos que proteger el ambiente Para crear una fortaleza.

Olha à tua volta Sente o vento soprar E não te esqueças De as árvores ajudar.

Tenemos una misión, Es una obligación cumplirla Acabar con la contaminación Para que todo el mundo sonría.

Ariana Helena Barbosa [10º AV2, Escola Secundária José Régio]

No destruyas la floresta Porque yo quiero vivir Y si sigues destruyéndola ¿Cómo vamos a resistir? Poema colectivo da turma 12ºLH2 [Escola Secundária José Régio]

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL […] ― Pronto ― disse Hagrid. ― Então ouçam bem, porque o que vamos fazer esta noite é perigoso e eu não quero que ninguém corra riscos. Sigam-me por um momento. Conduziu-os à orla da floresta. Segurando a lanterna acima da cabeça mostrou-lhes um caminho estreito de terra batida que desaparecia no meio das árvores negras e espessas. Uma leve brisa roçou-lhes os cabelos enquanto olhavam para a floresta. […] A floresta estava negra e silenciosa. Pouco adiante havia uma bifurcação. Harry, Hermione e Hagrid tomaram o caminho da esquerda; Malfoy, Neville e Fang, o da direita. Caminharam em silêncio, com os olhos no chão. Aqui e ali um raio de luar, passando através dos ramos das árvores, deixava ver uma mancha de sangue prateado sobre as folhas caídas. Harry apercebeu-se da grande preocupação que dominava Hagrid. ― Achas que um lobisomem poderia andar a matar unicórnios? ― perguntou o Harry. ― Dificilmente ― disse Hagrid. ― Não é fácil agarrar um unicórnio. São criaturas mágicas muito poderosas. Nunca soube de nenhum que tivesse sido ferido até agora. Passaram por um tronco de árvore cortado e coberto de musgo. Harry ouviu nitidamente água corrente, devia haver ali por perto um riacho. Continuavam a ver-se manchas de sangue de unicórnio ao longo do caminho tortuoso. […] Hagrid agarrou Harry e Hermione e fê-los sair do caminho, escondendo-se todos atrás de um carvalho muito alto. Puxou de uma seta e meteu-a no arco, pronto a disparar. Os três ouviam atentamente. Algo arrastava as folhas secas ali perto, parecia um manto, varrendo o chão. Hagrid olhava fixamente o caminho escuro mas passados alguns segundos o som desapareceu. ― Eu sabia ― murmurou. ― Anda por aí alguém que não é daqui. […] J. K. Rowling [Inglaterra, 1965] Versão portuguesa de Isabel Fraga

PLANTEMOS EL ÁRBOL Abramos la tierra, plantemos el árbol, será nuestro amigo y aquí crecerá, y un día vendremos buscando su abrigo y flores y frutas y sombra dará. El cielo benigno dé riego a su planta, el sol de setiembre le dé su calor, la tierra su jugo dará a sus raíces y tengan sus hojas verdura y frescor. Plantemos el árbol, el árbol amigo ; sus ramas frondosas aquí extenderá, y un día vendremos buscando sus flores y sombras y frutas y flores dará. Enrique E. Rivarola [Argentina, 1862 - 1931]

ALGUMAS PROPOSIÇÕES COM PÁSSAROS E ÁRVORES QUE O POETA REMATA COM UMA REFERÊNCIA AO CORAÇÃO Os pássaros nascem na ponta das árvores As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores Os pássaros começam onde as árvores acabam Os pássaros fazem cantar as árvores Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal Como pássaros poisam as folhas na terra quando o outono desce veladamente sobre os campos Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores mas deixo essa forma de dizer ao romancista é complicada e não se dá bem na poesia não foi ainda isolada da filosofia Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros Quem é que lá os pendura nos ramos? De quem é a mão a inúmera mão? Eu passo e muda-se-me o coração Ruy Belo [Portugal, 1933 - 1978]

CARTA A MARCO TERÊNCIO VARRÃO […] Se tens um jardim na biblioteca, nada te falta. Marco Túlio Cícero [Roma Antiga, 106 a.C. – 43 a.C.]


ALEGRES CAMPOS

LA FORÊT

Alegres campos, verdes arvoredos, Claras e frescas águas de cristal, Que em vós os debuxais ao natural, Discorrendo da altura dos rochedos;

L’agréable Agitation des

Silvestres montem, ásperos penedos, Compostos em concerto desigual: Sabei que, sem licença de meu mal, Já não podeis fazer meus olhos ledos. E, pois me já não vedes como vistes, Não me alegrem verduras deleitosas Nem águas que correndo alegres vêm. Semearei em vós lembranças tristes, Renegando-vos com lágrimas saudosas, E nascerão saudades de meu bem. Luís de Camões LES ARBRES

Les arbres Et les fleurs Sauvent la planète ! Arbres et fleurs Rajeunissent Beaucoup de paysages. Rafraîchissent Et Sauvent la planète ! Poema colectivo da turma 8ºB [Escola Secundária José Régio]

A UMA CEREJEIRA EM FLOR Acordar, ser na manhã de Abril a brancura desta cerejeira; arder das folhas à raiz, dar versos ou florir desta maneira. o vento, a luz, ou o quer que seja; sentir o tempo, fibra a fibra, a tecer o coração de uma cereja. Eugénio de Andrade

NATUREZA A natureza é brilhante, Como o mar é cintilante, Para preservar, O mundo vamos ajudar! É preciosa como um diamante, É única como um cristal, É bela e colorida Como uma floresta tropical

Feuilles Offre aux Rameaux un Être Triomphal. Inês Costa, Francisca Cruz, Andreia Marques [8ºB, Escola Secundária José Régio]

VIDA A natureza é tão bela E nasce vida dentro dela Está a morrer a floresta Vamos salvar o que resta![…] O ciclo da vida Tem de continuar A terra é nossa amiga E nós temos de a ajudar. Daniela, Márcia Novo, Natacha [7ºC, Escola Secundária José Régio]

HAIKU Escondido sob a folhagem mesmo o apanhador de chá pára para escutar o cuco. Matsuo Bashô [Japão, 1644 – 1694] Versão portuguesa de Jorge Sousa Braga

VELHAS ÁRVORES Olha estas velhas árvores, mais belas Do que as árvores novas, mais amigas: Tanto mais belas quanto mais antigas, Vencedoras da idade e das procelas… O homem, a fera e o insecto à sombra delas Vivem, livres de fomes e fadigas; E em seus galhos abrigam-se as cantigas E os amores das aves tagarelas. Não choremos, amigo, a mocidade! Envelheçamos rindo! Envelheçamos Como as árvores fortes envelhecem: Na glória da alegria e da bondade, Agasalhando os pássaros nos ramos, Dando sombra e consolo aos que padecem! Olavo Bilac [Brasil, 1865 – 1918]

PASTORAL

As árvores são nossas amigas Temos que as ajudar Não as podemos cortar Porque morremos sem ar. […]

Não há, não, duas folhas iguais em toda a criação. Ou nervura a menos, ou célula a mais, não há, de certeza, duas folhas iguais. […]

Ana Filipa, Lúcia, Verónica [7ºA, Escola Secundária José Régio]

António Gedeão


Arvoredos