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Aqui estamos para partilhar o que nesta biblioteca está guardado desde 2010 ‐ dois  anos. Escrito a muitas mãos, a muitas vontades ‐ aquelas que em 2010, caminharam  até Beja e em forma de carta deixaram “ UM ABRAÇO A ANTÓNIO TORRADO” .                               

            


Caro António   Liguei‐lhe  há  dias  para  lhe  dar  os  parabéns  e  esqueci‐me  do  mais  importante:  Dizer‐lhe que estamos prontos para lhe devolver finalmente o Abraço que foi deixado  ao nosso cuidado.   Levámos  tanto  tempo  para  o  fazer,  que  aposto  que  todos  pensaram  que  estávamos esquecidos.  Juntámos ao abraço, outros braços* e aqui estamos para partilhar o que foi escrito  a muitas mãos, a muitas vontades: aquelas que em 2010, caminharam até Beja e em  forma de carta deixaram este “ ABRAÇO A ANTÓNIO TORRADO” .  Nas centenas de linhas de textos que lerá já de seguida, faltavam ainda estas, as  minhas, as nossas. Pedimos desculpa pela demora. Temos andado numa “ fona”. Tanto  que fazer, tanto que lutar, tanto que pensar. Minorar estragos, encher vazios, cuidar  da  semente  e  sempre  com  livros  na  mão  é  um  trabalho  imenso,  especialmente  em  contextos de crise. Está cada vez mais difícil para as bibliotecas continuarem a servir os  leitores sem se enredarem na penúria de meios, no desânimo, na chicana, na bravata –  os leitores e até os não leitores, dentro e cada vez mais, fora da biblioteca. Há tanta  coisa  por  fazer  fora  das  bibliotecas meu  amigo,  que  nem  20  vidas  chegariam.  Temos  andado perdidos em casas de papel, parques de poetas, buscando o destino das fadas,  fazendo  de  laboratórios  da  língua,  verdadeiras  escolas  de  sentidos.  O  António  tem  estado, sem saber, muitas vezes presente nestas sessões, no que lemos para adultos,  idosos,  crianças,  jovens,  mas  sobretudo  presente  no  olhar  que  fomos  construindo  sobre a infância, a tradição, a escola, a leitura, a literatura.   A homenagem que lhe fizemos e que agora celebramos com este abraço ‐ nosso e  de todas as bibliotecas que no meio do ruído mais ou menos para literário, das modas,  dos mídias, ainda assim o conseguiram escutar a sua voz – é apenas isso, um Abraço. O  António tem uma voz muito especial, única… a carta que aqui lhe deixo, lhe deixamos,  é sobretudo uma forma de celebrar a nossa amizade.    Pelas Palavras Andarilhas    Cristina Taquelim       

               


O Serviço  de  Educação  e  Bolsas  da  Fundação  Calouste  Gulbenkian  não  podia  deixar  de  se  associar  à  homenagem  que  a  Biblioteca  Municipal  de  Beja  vai  prestar  a  António Torrado.   Um dos mais importantes escritores para crianças do nosso país, António Torrado  mantém,  desde  há  longos  anos,  uma  estreita  ligação  à  Fundação,  tendo  sempre  acedido aos diversos convites que lhe foram feitos, fosse para emprestar o seu brilho  de  comunicador  a  algum  dos  muitos  congressos  organizados,  fosse  para  nos  ajudar  com o seu brilhantismo imaginativo na organização de um encontro, fosse ainda para,  misturando  memória  e  ficção,  descrever  o  encontro  de  Calouste  Sarkis  Gulbenkian  com José Azeredo Perdigão. Este convite culminou no livro O Mundo dá muita volta,  com  desenhos  de  António  Modesto,  onde,  cruzando  as  biografias  do  milionário  arménio com o advogado português, narra, para os leitores mais jovens, a génese da  criação da Fundação Calouste Gulbenkian.  O  Grande  Prémio  Calouste  Gulbenkian  de  Literatura  para  Crianças,  que  lhe  foi  atribuído  em  1988,  consagrou  o  conjunto  da  sua  obra  para  aquela  faixa  etária  e  inscreveu  o  seu  nome  no  rol  dos  escritores  nacionais  inequivocamente  apreciados  pelos seus pares e pelos seus leitores.  Fazemos  votos  para  que  António  Torrado  continue  a  encantar  e  a  estimular  a  imaginação das crianças deste país, contribuindo, com a magia das suas palavras, para  a formação de mais leitores, e, consequentemente, de melhores cidadãos.    Lisboa, 15 de Setembro de 2010    Pelo Serviço de Educação e Bolsas da Fundação Calouste Gulbenkian    Manuel Carmelo Rosa 

              Maria Helena Melim Borges         

            


Homenagem a António Torrado              Em  nome  da  Direcção  e  da  Administração  da  Sociedade  Portuguesa  de  Autores,  mas  também  em  meu  nome  pessoal,  associo‐me  à  justíssima  homenagem  que as “Palavras Andarilhas”prestam hoje ao escritor António Torrado, de quem tenho  a honra de  ser amigo há muitos anos e cuja obra e qualidade humana e cívica tanto  admiro.  António  Torrado,  sempre  discreto,  sempre  afastado  da  claridade  intensa  dos  projectores,  é,  como  autor  de  literatura  para  os  mais  jovens,  mas  igualmente  como  dramaturgo, contista e poeta (faceta que faço sempre questão de não esquecer), um  dos nomes mais criativos e destacados da literatura portuguesa contemporânea.  A sua obra extensa e plurifacetada revela e confirma, título a título, um talento  e uma capacidade criadora que nunca deixou de me surpreender e fascinar.  Grande  contador  de  histórias,  mas  também  e  sempre  poeta  inspirado,  António  Torrado  tem  contribuído,  de  forma  decisiva,  para  a  dignificação  e  emancipação  da  literatura para os mais jovens como área maior da criação literária. Todos lhe somos  devedores desse contributo que tem na sua obra exigente, rigorosa e inovadora a sua  máxima e inequívoca expressão.  Não  posso,  por  outro  lado,  nesta  mensagem,  esquecer  o  labor  de  António  Torrado como membro de várias direcções da SPA, função em que sempre evidenciou  um assinalável bom senso, um grande rigor ético e uma dedicação exemplar à luta dos  autores portugueses pelo reconhecimento dos seus direitos no quadro da vida cultural  portuguesa. Também por esse motivo, os autores portugueses em geral têm para com  ele uma dívida de gratidão.  Há anos que me honro de o ter a meu lado nesse combate tão exaltante quanto  desgastante  e  por  vezes  dolorosamente  inglório.  Também  não  esqueço  o  seu  contributo  fundamental  para  a  mudança  operada  na  vida  e  na  história  da  SPA  em  Setembro de 2003 e que iniciou o ciclo de modernização e requalificação da instituição  que se encontra em curso e ao qual ele permanecerá ligado.  Deixo para o fim o que, embora sendo pessoal e consequentemente subjectivo,  é  para  mim,  neste  dia,  o  mais  relevante  e  comovente.  António  Torrado  é  um  amigo  que faz da amizade, da lealdade, da solidariedade e da exigência ética um imperativo  de consciência e uma forma única de estar na vida. É esse querido amigo que hoje, em  nome  dos  autores  portugueses,  eu  saúdo  e  abraço,  felicitando‐o  por  esta  mais  que  merecida homenagem, à qual a SPA se associa por inteiro dizendo‐lhe aquilo que em  poucas  palavras  pode  e  deve  ser  dito  àqueles  de  quem  gostamos  muito  e  muito  admiramos:  obrigado,  António,  por  seres  como  és  e  por  tudo  aquilo  que  nos  tens  dado,  luz  sempre  acrescentada  à  claridade  dos  sonhos  e  das  esperanças  que  se  recusam a morrer  Lisboa, Setembro de 2010  José Jorge Letria  Presidente do Conselho de Administração 

            


Vice‐Presidente da Direcção   

 

Torradíssimo António...     Uma  cartita  que  deveria  ser  o  maior  dos  elogios,  mas,  como  sabes  muito  bem,  isto  de  elogiar  nem  sempre  é  fácil,  sobretudo  quando  o  elogiado  é  bem  maior do que o elogio e o elogiador não tem credenciais para tarefa tão ilustre.   A coisa segue, então, neste gosto, puro e simples, de testemunhar o  quanto mereces meter o elogio no saco, como às violas, fazê‐lo render, como os trigos  das searas, e continuar a largar por aí entre ventos e fantasias, mirando sempre mais  além  onde  pousam,  feitos  pássaros,  os  moinhos  do  Quixote.  Notas,  portanto,  que  a  missiva vai a quente e mais veloz que as falas de Hermes com as suas asinhas nos pés,  mas vai de coração a coração, anunciando‐te que vai daqui o bom abraço.     Boas andanças, meu caro António.                                                              Abel Neves                 

            


Olá Sr. Escritor  Quando a minha filha Mariana era pequena eu contava‐lhe histórias de um escritor  chamado António Torrado e ela um dia perguntou‐me:  “Mãe onde está o Torrado?”  Nunca mais esqueci esta expressão e de cada vez que tropeço neste nome lembro‐ me  da  pergunta  tão  simples  da  pequena  Mariana.  Eu  também  me  apetece  perguntar:  ‐ António onde vai buscar essa imaginação tão fértil? Tão genuína e com um sentido  de humor extraordinário que da mais pequena coisa faz uma história fantástica?  É uma pergunta que todos lhe devem fazer, mas já agora não responda, porque há  perguntas que não merecem resposta. Eu acho que o António tem um Dom e esse  Dom faz com que muita gente fique feliz ao saborear as histórias que ao longo de  toda uma vida o António Torrado nos ofereceu.  Desde  sempre  me  tenho  deliciado  com  a  sua  escrita  simples  e  completa  que  me  tem  feito  sorrir,  gargalhar,  reflectir  e  sonhar  e  porque  sou  mãe  e  professora  de  meninos pequeninos tenho usado e abusado de muitas das suas histórias. Não faz  mal pois não?  Nunca  tive  oportunidade  de  lhe  perguntar  se  as  histórias  em  demasia  costumam  fazer  azia,  mas  já  agora  não  responda  também.  Eu  acho  que  quem  faz  quarenta  anos de carreira deve de ter o direito de responder só ao que lhe apetecer.   Obrigada  António  Torrado  por  ser  assim,  mas  já  agora  responda‐me,  onde  é  que  está o Torrado?    Um abraço de uma leitora  Aida Mira   

            


Olá,    Havia  num  quarto  fechado,  carinhosamente  chamado  quarto  dos  ratos.  Nesse  quarto  em cima de uma cama um caixote de livros.  Eu  estava  nesta  casa  a  morar,  era  inverno,  fazia  frio  e  tínhamos  a  lareira  acesa  e  estávamos  um pouco cansados e sem nada para fazer mas a televisão estava com má  imagem, era um dia de tempestade, vivia, e vivo, num monte.  Nessa  caixa  havia  um  livro  com  as  páginas  coladas  pela  humidade  e  uma  capa  encarquilhada: "histórias da rua do contador para a rua do ouvidor", comecei a descolar  as  páginas  e  a  ler,  em  cada  duas  páginas  havia  uma  pequena  e  original  história  que  líamos lentamente, cuidadosamente, para render, víamos os desenhos e riamos...   Todos! Ratos incluídos... ih! ih! ih!  ‐‐   Ana Carla Gouveia                   

            


Caro António:  Com  os  “  Cinco  Sentidos  e  Outros  “,  mais  ou  menos  atilados,  assim  que  comecei  a  conseguir juntar letras e depois frases, não mais parei de ler.  Ansiosa pelo desenrolar de cada história e pelo seu desfecho, acreditava piamente no  “Coração  das  Coisas  “,  ainda  que  fosse  um  candeeiro  que  tudo  aguenta  ou  uma  janela  que tudo espreita.    Achava muita graça às expressões utilizadas que me deixavam sem entender muito  bem o que aquilo queria dizer, e perguntava ao meu pai ou mãe o seu significado, ao que  me respondiam “ ‐ vai ver ao dicionário. “ Claro que eu ficava irritada e não achava piada  nenhuma àquela perda de tempo e que aumentava a minha ansiedade para chegar ao fim  do livro.    Alguns anos mais tarde só lhes dei razão. Que bom que foi mandarem‐me vasculhar  naquele catrapázio todas as palavras que não conhecia... tanto me enriqueceu... Obrigada  Pai,  obrigada  Mãe...  E  obrigada  a  todos  os  escritores  que  por  mim  passaram  e  ainda  passam e me obrigam a isso.    “ Conto Contigo “ António, no papel que desempenhou e ainda desempenha tal qual  “ O Pagem não se Cala “.    “ Devagar ou a Correr “ foi‐nos brindando com textos tradicionais portugueses, com  textos de raiz popular recolhidos da “ Rua do Ouvidor para a Rua do Contador “e também  com Contos e Poesia. E fê‐lo tão bem... soube mostrar à criançada “ Como se Vence um  Gigante  “.  Aquele  da  hipocrisia,  o  da  opressão,  promovendo  em  cada  mensagem  sua  o  respeito  pela  diferença  e  da  liberdade  de  expressão,  entre  outros.  Soube  fazer‐nos  sonhar, imaginar, entrar nesse rico Mundo da Fantasia...    Agora,  qual  “  Rei  Menino  “  celebra  40  anos  de  uma  carreira  literária  recheada  de  letras  que  se  transformam  em  frases,  de  frases  que  se  transformam  em  histórias  e  histórias  que  se  transformam  em  livros  com  grande  sucesso...  “  Há  Coisas  Assim  “  e  de       “ Fita Verde no Chapéu “ lá vem o António ouvir os merecidos elogios e agradecimentos.    Que  as  “  Estrelas  “  o  continuem  a  alumiar,  que  nós  “  Toca  que  Toca,  Dança  que   Dança “ , cá estamos a fazer‐lhe a merecida festa.      Muito obrigada por tudo o que nos tem oferecido e muitos, muitos PARABÉNS.  A leitora,  Ana Cristina Campos    Biblioteca Municipal João Brandão, em Tábua                                        26/08/2010                


Caro António:

Chapinhar com os pés na água, correr pelo campo e sentir a brisa na cara, ver o pôrdo-sol ao fim de uma tarde de Verão, ouvir os risos das crianças, comer um chocolate quando me sinto triste, subir a uma árvore, ver as estrelas no céu, tomar banho ao luar ou pular um muro é como me sinto de cada vez que leio ou releio as suas histórias com os meus alunos. A sua escrita é e sempre será como um líquido refrescante que nos desce pela garganta num dia de muito calor: um verdadeiro prazer!

Bem-haja e até sempre.

Ana Custódio                

            


Beja, dia  20  do  mês  mais  quente  do  ano,  ano  da  crise,  mas  também  da  ESPERANÇA  andarilha num mundo melhor!  Caro António Torrado,    (Amigo  e  Companheiro,  nas  horas  de  solidão;  Inspirador  nos  momentos  criativos;  tantas vezes Recurso Didáctico quando quero dar uma aula activa, divertida, coerente,  onde  a  ficção  não  contradiz  a  verdade  científica;  Mestre,  que  me  ensina  a  compreender  as  palavras  para  as  saber  usar  com  propriedade;  Artista,    que  sabe  esculpir,  limpar,  cinzelar  as  palavras;  Camponês,  de  olhar  penetrante,  que  sabe  encontrar a palavra certa, derramada na eira do Léxico, como se escolhesse a semente  mais vigorosa e sadia de cada colheita para a semear na história certa, de modo a que  dê fruto biológico e abundante.     Sou  professora,  dessas  que  têm  vagueado,  por  essas  terras  perdidas  do  nosso  Alentejo. Há 57 anos que nasci, mas o meu espírito ficou sempre “imaturo”, “inseguro”  (dizem),  desejoso  de  sonho  e  aventura,  embora  o  meu  corpo  nem  sempre  o  consiga  acompanhar.      Foi através dos meus alunos, das suas leituras e dos seus projectos, que conheci o  António Torrado e a sua paixão pelos temas que mais prendem os jovens: os animais;  as coisas que detestam mas queriam amar (a Matemática, por exemplo); o cómico; o  fantástico e impossível; o real e imprevisível; etc.     Comecei  a  gostar  de  ler  há  muitos,  muitos  anos,  quando  o  Fascismo  não  dava  oportunidades iguais e eu acabei a 4ª classe e fui “despedida” das coisas da cultura e  obrigada a deixar a vila e voltar para o meu Monte, a 5 km da povoação mais próxima.  Livros não tinham, nem os meus pais tinham dinheiro nem motivação para os comprar;  continuar  a  estudar?  Impossível  o  colégio  era  caríssimo  e  a  escola  pública  em  Serpa  terminava ali! Foi então que se deu o “milagre” das primeiras Bibliotecas públicas da  Gulbenkian, que emprestavam livros “sem termos de pagar”! Então é que era, podia  levar  livros  para  o  Monte  e  ler,  ler,  ler,  sonhar,  sonhar,  sonhar,  viajar,  aprender,  dialogar, saborear e cheirar coisas novas e estranhas …     Assim passou o tempo sem dar por isso. Dois anos depois apareceu a 5ª classe e foi o  máximo, eram mais 2 anos para preencher o meu sonho…  Terminada a 6ª classe esboçava‐se a abertura do ciclo Preparatório em Serpa, mas era  só o 1º ano e eu tinha equivalência ao 2º, aí os meus pais “entenderam”o meu sonho e  eu  fui  para  Beja  frequentar  a  Escola  Industrial  e  Comercial.  Aos  17  anos  terminei  e  empreguei‐me  durante  8  anos  mas  o  meu  sonho  continuava  adiado,  foi  então  que  consegui horário especial no emprego e fui tirar o curso de professora. 

            


Foi como professora e como mãe que consegui “viver o meu sonho” (aquele que só  vem  nos  livros),  foi  nas  palavras  ditadas,  lidas,  embaladas,  cantadas  e  semeadas  nos  corações  daqueles  jovens  que  eu  aprecio  e  considero  como  pessoas  a  crescer,  com  todos os direitos! É como se neles e nos sonhos deles eu concretizasse os meus! É nos  seus  projectos  “malucos”,  nas  suas  leituras  inimagináveis,  nos  seus  textos  cheios  de  erros ortográficos, mas repletos de verdades e plenos daquela sabedoria que o tempo  ainda  não  moldou,  nem  encheu  de  poeira,  que  eu  consigo  realizar‐me  e  tornar  concreto  o  meu  sonho!  Obrigado  António  Torrado  por  ter  sido  um  dos  principais  obreiros das “paredes” deste meu sonho!    Até logo, no próximo livrito!   Ana Maria Valente Ferreira                                                 


Beja, 3 de Setembro de 2010   Querido António,    

Tive uma vez o privilégio de o ouvir em pessoa, num daqueles encontros que acabam  por  acontecer  sob  o  patrocínio  da  nossa  querida  biblioteca,  para  que  os  leitores  se  encontrem com o escritor. Hoje, dia 3, dia em que comemoro o nascimento da pessoa  mais  importante  que  passou  na  minha  vida  e  que  me  despertou  para  os  afectos,  através das palavras – a minha avó materna, queria agradecer‐lhe o relembrar‐me esse  relação carinhosa com as palavras expressas através da sua voz macia e doce, cheia de  carinho e ternura que passa para a palavra escrita. Uma não passa, agora, sem a outra,  porque passei a ligar a sua imagem às histórias que leio.   Num tempo em que, cada vez mais, as notícias que ouvimos e lemos nos enchem de  tristeza, maldade, mesquinhez, corrupção, violência … Abrir um livro seu é encontrar  um oásis de paz, de alegria, de luz, de sorrisos, é relembrar os momentos em que, pela  voz da minha avó, eu me deliciava a ouvir histórias e adormecia no embalar daquela  voz maravilhosa.   Obrigada pela graça que me dá de poder encontrar as suas palavras!   Obrigada pelas recordações de infância que me fez redescobrir!   Obrigada pela doçura!   Obrigada, simplesmente, por existir!     Beijo grande e carinhoso duma professora agradecida!   Abraço  apertado  duma  mãe  empenhada  em  fazer  passar  às  suas  filhas  a  doçura  das  palavras!   Bem Haja!     Ana Paula Baptista   

            


Agosto 2010    Querido António.  Escrevo‐lhe na condição de enamorada.  Enamorada  pelos  seus  textos,  pela  sua  simpatia  e  pela  sua  voadora  imaginação  que  nos faz notar as mais simples das coisas como o cotão no chão, os ponteiros do relógio  ou as pedras da calçada.  Depois  de  descobrir  os  seus  textos,  voltei  a  casa  na  expectativa  de  flagrar  os  meus  pratos a darem uma festa na cozinha ou de encontrar a esfregona destrambelhada a  pintar com água suja as paredes da minha sala sobe o olhar reprovador da fotografia  sem cor do meu bisavô materno.  A verdade é que tudo estava aparentemente normal dentro das quatro paredes, mas  dentro de mim não... os seus textos rasgaram horizontes e deram importância vital ás  coisas mais vulgares do dia a dia, e com isso fui‐me apercebendo que assim mesmo é a  vida!    Obrigado querido António, muito obrigada!    Andreia Vidal             

            


O António Torrado já É  Para as futuras gerações e continuará a ser É  Um fabuloso escritor, contador, autor teatral, argumentista  Resumindo:  Constrói com letras sonhos, fantasias.  Realidades  Nunca banalidades  E olha de frente prá gente !       António Casimiro  Setembro 2010                 

            


Carta a António Torrado  Sabes,  Racib…  –  interrompi  o  que  ia  dizer  no  momento  em  que  o  empregado  do  pequeno bar colocava em cima da nossa mesa naquela esplanada à sombra da grande  árvore da praça, num dos dias mais quentes deste verão, as duas canecas de cerveja,  bojudas,  que  tínhamos  pedido  para  refrescar  as  gargantas  e  sem  pensar,  acto  automático e quase instintivo, agarrei uma delas, sorvi dois goles e ali fiquei a sentir  por alguns momentos a gravidade a fazer escorrer aquele líquido fresco para dentro de  mim  enquanto  o  calor  no  interior  do  meu  peito  se  dissipava  lentamente  como  as  brumas da manhã num vale.  Esses  breves  momentos  foram  os  suficientes  para  que  tu,  Racib,  te  libertasses,  te  evadisses  qual  Houdini,  daquele  lugar,  daquele  tempo  e  daquela  situação  e,  com  a  caneca na mão, já estavas a saciar não a sede do teu corpo pela tua boca mas outras  sedes...   Com a caneca alinhada na direcção do sol, contemplavas o nascimento das bolhas de  gás que surgiam no meio da cerveja, umas no fundo da caneca, outras na sua parede  curva, como curvo dizias ser o espaço. Contemplavas a criação das bolhas e pensavas  na  singularidade  de  cada  um  daqueles  pontos,  daquelas  fontes  a  partir  das  quais  as  bolhas  surgiam.  Como  eram  diferentes  todas  aquelas  bolhas.  De  cada  ponto  subiam  todas na vertical, ordenadas como um carreiro de formigas. Por vezes juntavam‐se a  outros carreiros e chegando à superfície ali se aglomeravam e ali, juntas, adquiriam cor  branca como branca é a cor da nata que flutua.  A forma como olhavas para aquelas bolhas mostrava aquilo que tu, Racib, fazes como  ninguém: observas com todo o teu ser, com tudo aquilo que tu foste, és e hás‐de ser.  Estou certo de que com essa forma de olhar o mundo estavas a ver cada uma daquelas  centenas  de  bolhas  desde  que  surgiam  nos  pontos  singulares  até  à  grande  massa  branca que flutuava. Estou certo de que vias a criação, o percurso e a explosão de cada  uma e de todas em simultâneo.  E  quando  estavas  nesse  estado  de  consciência  indagadora,  costumavas  levar  o  indicador aos teus lábios e dizias‐me para observar.  Todas as bolhas sobem, nenhuma desce, nenhuma quebra as leis universais da física.  Se fosses tu uma delas, não sei se Sir Isaac Newton repousaria tranquilo...   

            


E contavas‐me o que vias. Contavas‐me o que viam os teus olhos, tão diferentes dos  meus.  E  tantas  vezes  me  contaste  coisas  tão  diferentes  que  comecei  a  aprender  imitando‐te, Racib. Comecei a observar como observas e foi esse o primeiro passo para  aprender a ler o mundo…  Sabes,  Racib  –  voltei  à  frase  inicial  do  início  desta  página  –  eu  queria  agradecer‐te  e  felicitar‐te.  – Porquê? – Perguntaste admirado, estranhando.  – Olha Racib, por não teres ficado na loja do teu pai a vender tapetes.      António Gouveia  Narrador, membro dos Contabandistas de Estórias                         

            


Vilarelho, 16 de Setembro de 2010  António,  Há muito tempo que não nos carteámos, e acredita que era um imenso prazer ler as  palavras  que  me  enviavas,  feitas  com  letras  miudinhas,  enchendo  duas,  três,  quatro  folhas. E eu lia e voltava a ler aquelas páginas vezes sem conta. E aprendi muito com  elas. E sonhei muito.  O  tempo  passou,  apareceram  os  telemóveis  e  os  e‐mails,  e  eu  engordei  e  ganhei  alguns cabelos brancos.  Escrevo‐te para te oferecer o texto que segue mais abaixo, recordando o sótão que  me mostraste em Lisboa, o livro que me ofereceste, e as nossas Ilse Losa e Matilde.  Gostas?   Um abraço  António Mota     Reencontro  A  história  que  vou  contar  passou‐se  no  dia  quinze  de  Setembro  do  ano  de  2010,  numa  terra  chamada  Lugar  do  Torrado.  Nesse  local,  numa  casa  grande,  pintada  de  branco, com muitas janelas e um sótão espaçoso, mora um senhor que ganha a vida a  escrever histórias. Trabalha muito, esse escritor. Trabalha há muitos anos no sótão da  sua casa.   Todos  os  dias,  antes  de  anoitecer,  o  escritor,  cansado  de  tanto  inventar  e  tanto  corrigir,  calça  umas  velhas  sapatilhas  e  começa  um  longo  passeio  pelo  bosque,  que  está a sul do Lugar do Torrado. Ele adora fazer caminhadas, e nunca contou aos seus  leitores porque nunca foi capaz de tirar a carta de condução. Mas eu sei.    Esse escritor, que usa óculos graduados, redondinhos, apara todas as semanas um  bigode  respeitoso  e  uma  barbicha  que  lembra  a  cor  da  farinha  de  trigo,  tem  muito  medo.  Sim,  ele  tem  pavor  de  atropelar  borboletas  gigantes,  leões  emplumados,  serpentes  luminosas,  cisnes  transparentes  e  elefantes  lunares,  que  são  enormes  e  raríssimos, e costumam aparecer embrulhados numa nuvem de mosquitos verdes com  asas vermelhas.   “Era  terrível  se  eu  atropelasse  os  bichos  que  tanto  me  custaram  a  criar.  É  melhor  não conduzir”, pensa o escritor, horrorizado.  Como é muito distraído, tem muita imaginação e anda muito depressa com as suas  velhas  sapatilhas,  o  escritor  afasta‐se  para  muito  longe  do  Lugar  do  Torrado  e,  por  vezes, desemboca em sítios onde acontecem coisas estranhas. Como aconteceu ontem  à tarde. Estava a escurecer, e ele parou, subitamente, numa floresta silenciosa, com o  chão  coberto  por  um  interminável  tapete  de  musgo.  E  logo  começou  a  contar:  um,  dois, três, quatro, cinco, seis, sete …   “ Extraordinário! “, pensou o escritor, depois de ter contado e recontado.                     


Por entre  as  árvores  estavam  setenta  e  um  veados  a  olhar  para  ele,  com  os  seus  focinhos aguçados, humedecidos de ternura. Nas longas e recortadas hastes que lhes  ornavam as cabeças havia flores brancas, azuis, vermelhas e amarelas.     “ Extraordinário! Há trinta e cinco anos vi um veado florido. Agora encontro setenta  e um…Valeu a pena esperar por este momento “, pensou o escritor antes de atender o  telemóvel. Era a mulher dele, preocupada, a perguntar onde é que ele se tinha metido.                                                      


Querido António Torrado, O Adorável Homem das Neves.  Como  Se  Vence  um  Gigante,  Devagar  ou  a  Correr.  Com  certeza  a  saída  está  na  imaginação  de  um  escritor  lusitano  que  dedica  sua  vida  a  enfeitiçar  crianças  que  tenham a oportunidade de ler suas belas histórias Da Rua do Contador para a Rua do  Ouvidor.  Minha porta de entrada para o universo de Torrado foi Conto Contigo comprado numa  livraria de Lisboa. Naquele distante ano de 1997 pouco conhecia da literatura voltada  para os miúdos escrita em Portugal. Devo ter tomado uma bica enquanto folheava o  livro, mas pensei Este Rapaz Vai Longe.  Mas  reza  a  lenda...  que  eu  ia  conhecer  uma  bruxa  em  Beja  que  tudo  sabe.  E  ao  perguntar a ela sobre os grandes escritores portugueses de literatura infantil e juvenil  comentei sobre António Torrado. A bruxa era íntima amiga dele. Daí foi um pulo para  conhecê‐lo pessoalmente.   Assim  no  ano  de  2004  tive  a  honra  de  recebê‐lo  no  Simpósio  Internacional  de  Contadores de Histórias no Rio de Janeiro para Dez Dedos de Conversa e Ler, Ouvir e  Contar esse talentoso e generoso homem português.  Há  Coisas  Assim  que  acontecem  com  a  gente  como  num  Tabuleiro  das  Surpresas  deixando uma História em Ponto de Contar.  O  Rei  Menino  fascinou  a  todos  com  sua  alegria  e  conhecimento.  Foram  dias  inesquecíveis onde compartilhamos idéias e projetos que ainda vamos fazer.   Agora  éramos  amigos  e  nos  encontramos  também  em  Lisboa  para  continuar  nossos  planos de encontrar A Chave do Castelo Azul.  

               


Já faz  tempo  que  não  falo  com  você,  mas  isso  pouco  importa  quando  os  amigos  são  verdadeiros.     Com carinho,  Benita Prieto  Rio de Janeiro, Inverno de 2010.                                     

            


Carta a António Torrado    Que dizer de um grande escritor numa simples página, para mais sabendo que ele lerá  o  que  escrevemos?  Por  certo  muito  pouco.  E  há  o  risco  de  parecermos  excessivos,  piegas, românticos.             Não saberei por isso dizer‐te de forma aceitável, António, o que com certeza já  muitas crianças te disseram com toda a eloquência: os teus livros ajudam‐nos a ler o  mundo e a viver.            Há  autores  intratáveis  como  pessoas.  Nada  a  opor.  Um  escritor  faz‐se  verdadeiramente  grande  através  dos  seus  textos.  Mas  outros,  como  tu,  são  grandes  escritores e grandes pessoas.  Sabes escrever e dizer histórias; és um criador e dizedor de histórias.            Também  és  um  grande  comunicador,  um  grande  contador  de  histórias  ou  de  episódios  do  quotidiano  no  quotidiano.  Quem,  como  eu,  já  teve  o  privilégio  de  conviver contigo sabe que estas palavras não são meramente protocolares.            Já deves estar a pensar que exagero, que erro no tom; mas eu disse‐te que não  tenho a eloquência de uma criança. Ainda assim, continuo; sei que és um ouvinte e um  leitor  paciente.  Leio  e  gosto  de  falar  dos  teus  livros  porque  a  tua  imaginação  é  prodigiosa  e  inesgotável  e  a  tua  escrita  é  despretensiosa,  límpida,  insinuante,  melódica, e sabe adaptar‐se a formas muito distintas.            É ritmo e música quando assume um tom mais grave e poético: “Contaram‐me  que, lá muito atrás de todos os séculos conhecidos, houve um tempo de maravilha em  que os homens entendiam a fala dos bichos. Quando e como deixaram de perceber o  sussurro  das  formigas,  o  apelo  do  gavião,  o  queixume  do  caracol  ou  o  pausado  discorrer dos tigres, na hora do semicerrar os olhos o sol do meio‐dia, quando e como  os  homens  ensurdeceram  às  outras  vozes  da  terra,  não  sei.  Só  sei  que  foi  pena”  (O  Coelho de Jade, colecção “Contos e Lendas de Macau”).            Mas  também  é  ritmo  e  música  quando  quer  provocar  o  riso  ou  o  sorriso:  “Era  uma  vez  um  macaco  mariola,  que  andava  de  bata  e  sacola,  como  se  fosse  para  a  escola”  (O  Macaco  de  Rabo  Cortado,  colecção  “Histórias  Tradicionais  Portuguesas  Contadas de Novo”).            O  teu  jeito  de  contar  faz  da  leitura  de  cada  texto  um  encontro  de  prazer  e  conhecimento.  Esse  magnetismo  vem  muito  das  atitudes  de  espírito  dos  narradores  ou  das  personagens (no caso dos textos teatrais); penso no humor, na ironia e na sátira que  atravessam muitos dos  teus livros: no riso, afinal, que ora é sobretudo um fim em si  mesmo  (o  que  já  não  é  pouco),  ora  acompanha  uma  das  missões  mais  antigas  e  elevadas da literatura: a crítica social, a denúncia das injustiças e a construção de um  mundo mais humano.            Se  me  pedissem  que  destacasse  uma  das  tuas  obras  mais  recentes,  escolheria  talvez o Milagre de Natal (2008), por ser um livro em que o animal não se limita a dar a  medida  do  humano,  das  suas  virtudes  e  dos  seus  defeitos;  o  animal  não  humano  é  visto  ao  mesmo  tempo  como  um  mundo  em  si  mesmo:  elo  numa  cadeia  de  vida  e  corpo de afectos a quem há que reconhecer a sua dignidade intrínseca.                 


A boa  literatura  é  sempre  a  outra  voz  (Octávio  Paz):  a  voz  que  nos  guia  por  realidades  desconhecidas  ou  apenas  entrevistas,  que  nos  faz  vislumbrar  a  dimensão  oculta e desejada que existe para lá da nossa vida de todos os dias. Milagre de Natal  propõe uma perspectiva sobre o mundo de um cão vadio no mundo dos humanos. E  deste modo dá‐nos uma visão sobre o nosso próprio mundo. Não quer censurar‐nos,  doutrinar‐nos  ou  iluminar‐nos;  não  se  ergue  em  moralismos  mas  mostra‐nos  um  modelo de sociedade.            Milagre  de  Natal  é  enunciado  por  um  narrador  que  poderia  dizer  “Chamo‐me  António  Torrado  e  vou  contar‐vos  uma  das  mais  belas  histórias  de  sempre”.  Este  narrador dá voz à interioridade de um animal cuja vocação parece ser a de encarnar e  dizer o Amor. O pequeno cão é corpo e voz desse Amor que procuramos no Outro. No  Outro que pode ser um cão.               É bom saber que te homenageiam, António. Nada mais justo. “Dificílimo acto é o  de  escrever,  responsabilidade  das  maiores”  (José  Saramago).  A  tua  vida  tem  sido  inteiramente  dedicada  à  formação  cultural  e  intelectual  das  crianças  e  dos  jovens  portugueses  (e  não  só).  Uma  vida  de  serviço  público,  no  sentido  mais  nobre  da  expressão.                                                                                                                          Carlos Nogueira                         

            


Beja, 15 de Setembro de 2010     

O António Torrado  escrevo eu um poema,  o escritor convidado  a esta festa suprema.    As Palavras Andarilhas  só têem a ganhar  por poeta de maravilhas  nos vir aqui visitar.    Poeta que me deu a conhecer  a terra que me viu nascer  através de lendas e histórias  Macau fica nas minhas memórias.    Que continue sempre assim  o escritor António Torrado  com imaginação sem fim  que mora para lá do Sado.                                              Carmen Margarida Fernandes Machado   

                         


Viseu, 12 de Setembro de 2010  Caro António Torrado:    Sinto‐me um pouco constrangida ao escrever estas palavras e até certo ponto, incapaz  de lhe fazer uma justa homenagem. Sei muito pouco sobre si…  Uma  vez,  estava  eu  a  chegar  de  Vila  Nova  de  Paiva,  onde  trabalho,  e  vi  o  sentado,  sozinho,  num  banco  do  Rossio  em  Viseu.  Apeteceu‐me  parar  o  carro  ali  mesmo,  no  meio da estrada, e ir‐me sentar ao seu lado, a ouvi‐lo falar da beleza dos grãos de areia  e  das  gotas  de  água.  Não  parei,  mas  esta  é  uma  das  imagens  mais  bonitas  e  mais  significativas, do Rossio da minha cidade, e muitas vezes, quando o fim do dia chega e  ali passo, sinto que gosto um bocadinho mais dela, só por causa disto.  Penso que o primeiro conto que li seu, foi “O Mercador de Coisa Nenhuma”. Se não foi  o  primeiro,  foi  de  certeza  o  que  me  fez  ter  vontade  de  o  conhecer  melhor,  e  de  o  partilhar com outros olhos, ouvidos e corações. É tão bonita a coragem de fazermos o  nosso caminho e tão maravilhosamente bela a luta pelo sonho, que este se tornou um  dos contos que de alguma forma me caracterizam, me constituem, me compõem.   Mas pensar em António Torrado, também me faz pensar em como é difícil, por vezes,  conseguir a colaboração de professores para fazer um trabalho extra curricular, e em  como, por altura de umas “Olimpíadas da Leitura”, me senti extremamente revoltada  por  não  ter  conseguido  a  ajuda  de  um  único  professor  de  um  agrupamento,  para  dramatizar “Um macaco à solta na minha Rua”. Os alunos queriam tanto oferecer‐lhe  este  presente,  que  foi  com  lágrimas  nos  olhos  que  me  ouviram  dizer  que  não  era  possível.  Felizmente  o  António  Torrado  não  sabia  de  nada  disto  e  foi  a  Vila  Nova  de  Paiva  e  ofereceu‐lhes  momentos  que  serão,  para  muitos,  inesquecíveis.  Podia  falar  também da dificuldade que tenho em fazer perceber às escolas que as coisas têm que  ser pensadas, preparadas e calendarizadas com a devida antecedência, e ciclicamente  lá pego eu no telefone para ouvir dizer do outro lado: “Este ano já não é possível, só se  for para o próximo”. As coisas não acontecem só porque queremos, é preciso fazer por  merece‐las.    Uma  outra  imagem  bonita  que  guardo  se  si  é  em  Beja,  ao  lado  da  Matilde  Rosa  Araújo… Há momentos tão perfeitos, que calam todas as palavras. Fica a ternura toda,  guardada para sempre.  Parabéns!  Que  as  suas  palavras  continuem  a  encher  páginas  e  que  nós  possamos  continuar a lê‐las e a partilha‐las.       Bem haja !! 

                                                                                                                           Cláudia Sousa 

            


De Évora… com calor      O «Torradinho» apresentou‐se um dia de há alguns anos atrás na biblioteca de uma 

escola em Évora e, como é costume seu, derreteu o público, de miúdos e graúdos, e  confidenciou  que  era  assim,  «Torradinho»,  que  lhe  chamavam  quando  era  pequeno.  Verdade ou ficção? Isso agora não interessa nada… O que interessa é que este homem  chamado António e também Torrado nos encanta a todos e em todos os suportes: da  página impressa à página Web ou, com ou sem microfone, a olhar‐nos directamente  nos olhos.     É claro que não foi em Évora que o li pela primeira vez, pois não nasci nesta Cidade  mas  fiz  nela  nascer  os  meus  dois  tesouros  e  foi  nela  que  lhes  li  pela  primeira  vez  os  livros do António Torrado e eles se fizeram seus leitores. Foi nela que pela primeira vez  lhes mostrei que mesmo a ditadura se pode transformar em obra de arte, quando já  cientes  do  que  tinha  sido  esse  mau  momento  do  nosso  País  o  conheceram  pela  metáfora  de  um  veado  que  tinha  hastes  floridas  em  Liberdade  (esse  que  outros  meninos desta mesma geração que ainda está a crescer fez com as suas próprias mãos  e enfeita o recreio de uma escola do bairro da Cidade).    Foi no Verão passado que nos sentámos, em tête‐à‐tête num júri na margem sul do  Tejo, a descobrirmos talentos e a trocarmos sabedorias. E agora, neste Verão quente,  desafiam‐me para escrever ao Escritor… Os elogios serão em uníssono e, por isso, as  únicas palavras que aqui lhe deixo, António Torrado, de Évora e com calor, são «muito  obrigada»!  Cláudia Sousa Pereira  Évora, Julho 2010                 


Querido príncipe!   

Ouso chamar‐lhe querido, porque fará eternamente parte da minha história de vida como  professora,  como  leitora,  como  “contadora  de  histórias”...  Chamo‐lhe  príncipe,  porque  foi  como  Príncipe  de  Todas  as  Histórias  que  o  apelidei  no  encontro  de  Montargil,  no  dia  2  de  Junho  deste  mesmo  ano  –  um  dia  realmente  mágico,  pela  sensibilidade  e,  especialmente,  pela simplicidade que demonstrou perante os seus súbditos no Palácio da Boa‐Vontade.   

Quando soube  que  podia  ter  a  honra  de  participar,  ainda  que  de  longe,  numa  homenagem tão sentida como esta, não hesitei e resolvi enviar‐lhe o texto com que, ao jeito  da História do Dia, o apresentei no início do encontro.   

Despeço‐me com um abraço ‐ revelador da paixão pelas histórias, e com uma vénia que  expressa todo o meu respeito pelo homem, pelo escritor que jamais esquecerei.           A História do Dia é... 

Um Momento Único  No reino longínquo da bela Lisboa, corria o ano de 1939, as fadas Sabedoria, Imaginação e  Vontade alegravam‐se com o nascimento do Príncipe de Todas as Histórias – António era o  seu nome.   Herdeiro do trono das Palavras Mágicas, há muito que era esperado.  Os oráculos diziam que reinaria com o ceptro da Poesia e que elevaria a arte das letras,  dotando‐as de uma vida prenhe de beleza, humor e fantasia.   Não  admirava,  portanto,  que  as  fadas  procurassem,  cada  uma  mais  do  que  a  outra,  disputar a sua atenção e apadrinhar o jovem príncipe...  Com ele teriam a fama e a eternidade... jamais seriam esquecidas...   António,  Príncipe  de  Todas  as  Histórias,  sorria  no  seu  berço  de  fantasia  e  olhava‐as  fascinado.  O destino estava traçado – correria mundo, encantaria os mais pequenos e até os mais  graúdos.   E,  num  desses  momentos  –  partilhados,  encantados  –  o  talento  e  a  fama  levá‐lo‐iam  junto de um Monte apelidado de Montargil onde o esperariam, no Palácio da Boa‐Vontade,  centenas de súbditos, ávidos de Histórias Bem-Dispostas, querendo aprender Como Se faz Cor-de-Laranja e sonhando com Dez Dedos de Conversa.   Por  muito,  muito  tempo...  por  mais  tempo  que  vivessem,  guardariam,  na  alma  e  na  memória, o Príncipe de Todas as Histórias...  ... e, claro, as fadas Sabedoria, Imaginação e Vontade...   E contariam, de geração em geração, esse momento único ‐ A História do Dia.       Cristina Maria Alves dos Santos   Prof. Bibliotecária no Agrupamento de Escolas de Montargil                 


Caro António Torrado  Quando  me  sugeriram  para  lhe  dirigir  uma  carta,  a  minha  primeira  atitude  foi  de  negação.  “Meu  Deus,  como  é  que  eu  vou  escrever  uma  carta  para  um  magnífico  escritor de que admiro tanto, não sou capaz!” Depois pensei, de certeza que António  Torrado tem imensos admiradores e se todos agirem como eu, a Cristina Taquelim não  vai  poder  fazer  esta  surpresa.  E  António  Torrado  bem  que  a  merece!  Decidi  então  tentar. Pois aqui vai!  Sou  Educadora  de  Infância  e  tenho  um  amor  muito  grande  por  livros  (não  falo  de  paixão  porque  geralmente  as  paixões  são  passageiras  e  este  amor  acompanha‐me  desde que eu me lembro) e principalmente pela literatura infantil. Por isso sempre li  muito e sempre utilizei o livro e a leitura no meu trabalho e no meu dia‐a‐dia.   António Torrado esteve muitas vezes presente nas minhas leituras, na minha partilha  do livro com as crianças, nas nossas conversas e imaginações. Assim como foi sempre  uma  referência  para  mim,  o  António  também  se  tornou  uma  referência  para  as  crianças que me escutaram e que me escutam.   A  obra  de  António  Torrado  com  o  humor,  a  simplicidade  dos  textos,  o  trocadilho  de  expressões,  a  grandeza  das  palavras,  a  sensibilidade  para  os  verdadeiros  valores  da  vida,  a  personificação  de  tantos  objectos,  todos  os  sentimentos  intrínsecos,  a  beleza  dos contextos… faz‐nos despertar um novo olhar para tudo o que nos rodeia e nunca  nos poderemos sentir sós.  Parabéns por toda a sua obra e obrigado por partilhá‐la connosco.    Com muito carinho,  Cristina Rebocho       

               


Dois dedos de conversa com «os dedos à conversa» do António Torrado         Desde  que  conheço  os  dias  que  me  conhecem  que  conheço  os  livros.  Os  meus  primeiros  contactos  com  os  livros  fizeram‐se  com  «a  polpa  dos  dedos»  a  separar  umas  das  outras  as  páginas  e  a  lombada  a  que  pertenciam.  Mais  tarde,  ainda  o  tempo  da  escola  não  pertencia  ao  tempo,  chegou  o  tempo  de  viajar  por  entre  as  páginas  para  voltar  uma  e  outra  vez  às  mesmas  páginas  que  os  sentidos  me  guardaram na memória.       A  primeira  viagem  teve  como  destino  «a  ilha  misteriosa»  que  acolheu  «os  náufragos  do  ar».  «O  abandonado»,  que  deu  nome  à  segunda  viagem,  não  viu  nenhuma  das  suas  páginas  votadas  ao  abandono.  E  a  terceira  viagem,  ao  mesmo  tempo  que  revelava  «o  segredo  da  ilha»  via  nascer  o  leitor  que  sonhava  (e  ainda  sonha) descobrir sempre mais e mais ilhas de páginas.       E  neste  périplo  dos  sentidos  movidos  pelos  significados  das  palavras  acontecia  muitas  vezes  encontrar‐me  com  personagens  que  já  tinha  conhecido  noutras  páginas  de  outras  ilhas.  Na  «ilha»  das  «vinte  mil  léguas  submarinas»  onde  mergulhei nas mesmas palavras vezes e vezes sem fim entendi melhor tudo o que  tinha  vivido  na  «ilha  misteriosa».  E  quando  conheci  «os  filhos  do  capitão  Grant»  também me senti de volta à «ilha misteriosa».       E  ao  guia  (Júlio  Verne)  que  povoou  de  palavras  estas  e  muitas  outras  ilhas  de  páginas  devo,  como  ao  António,  sempre  o  que  sou.  E  são  muitos  mais  os  outros  guias de palavras que conheço e reconheço como os autores que me acompanham  para  além  da  leitura  e das  palavras  para  sempre  impressas  na  minha memória  de  leitor.       Ao  «pai  de palavras» que encontrei ao ler «da escola sem sentido à escola dos  sentidos»  gostaria  de  pedir  que  recebesse  estas  outras  palavras  como  um  pai  de  outros pais recebe as suas netas acabadas de nascer. Para estas palavras nascerem,  muitas  centenas/milhares  foram  as  palavras  convocadas  para  se  juntarem  aos  milhares  de  caracteres  e  às  centenas  de  palavras  que  me  contam  a  conversa  dos  dedos.      Olhadas  e  folheadas,  das  páginas  sobram  as  interrogações  que  conduzem  os  sentidos  dos  dedos  ao  sentido  do  mistério  contido  nas  palavras  moradoras  de  páginas.  E  em  novas  páginas  desejo  continuar  todos  os  dias  a  descobrir  novas  interrogações,  sentidas  com  todos  os  sentidos,  com  as  palavras  de  quem,  como  o  António, escreve com muito e muito(s) sentido(s).  

 David Cláudio Messias da Silva Argel                   


Arganil, 13 de Setembro de 2010    Meu querido António Torrado    Somos  um  grupo  de  meninos  de  Arganil  que  cresceu  a  ouvir  as  suas  histórias,  quer em casa com os nossos pais, quer na Biblioteca Municipal Miguel Torga.  Vamo‐nos  sempre  lembrar  das  primeiras  histórias  suas,  que  ouvimos.  Eram  do  livro “da Rua do Contador mora a Rua do Ouvidor” e eram uma delícia!  Mas essas histórias da sua autoria, como por exemplo:    ‐ A Nuvem e o Caracol;  ‐ Hoje há Palhaços;  ‐ Como se faz Cor‐de‐Laranja;  ‐ Os Meus Amigos;  ‐ Uma História em Quadradinhos;  ‐ Dez Contos de Reis;  ‐ Ler, Ouvir e Contar;  ‐ O Elefante Não Entra Na Jogada;  E tantas, tantas outras!    Sabe  António,  nós  sentimos  que  as  personagens  dos  seus  livros  já  fazem  parte  das nossas vidas.  Para  nós,  o  António  Torrado  com  poderes  especiais,  é  um  mágico  que  tem  o  poder de nos transportar para lugares mágicos da nossa imaginação.  Por favor nunca pare! Precisamos de continuar a sonhar.      Um beijinho cheio de Contos!      Diogo Pereira  Mariana Travassos  Fábio Neves                         


Torreira, 28 de Agosto de 2010    Caríssimo amigo:  É  em  férias  que  a  mente  se  liberta  e  o  tempo  se  alonga,  permitindo  fazer  o  que  durante o ano nunca é feito, atribuindo sempre o não fazer à falta de tempo.    O alongar do meu tempo, em férias, levou a que tivesse tempo de lhe escrever esta  carta, um meio de comunicar pouco comum, actualmente. Tal fica‐se a dever ao facto  de ter perdido o meu telemóvel, o que me impede, assim, de o contactar, já que fiquei  sem  o  número  do  seu,  e  devido  ao  meu  computador,  tal  qual  o  relógio  de  um  dos  muitos contos do meu bom amigo, ter decidido descansar…    Tem esta o fim de lhe dar conhecimento de algo de anormal, referente a uma folha  de  papel,  em  branco,  que  se  nega a  ser  utilizada,  ziguezagueando,  continuamente, o  que  impossibilita  qualquer  tipo  de  escrita.  Exige  que  seja  o  meu  prezado  amigo  a  enchê‐la  de  palavras,  sempre  tão  bem  escolhidas,  esmeradamente  agrupadas  em  frases,  que  dão  origem  a  textos  em  prosa  ou  em  verso,  narrativos,  líricos  ou  dramáticos, reveladores do talento que lhe sobra.    Para o efeito, junto a folha em branco, certa de que ela se sentirá muito feliz, pois sei  que o meu caro amigo satisfará gostosamente, o inteligente que decidiu, sabiamente,  aceitar apenas, ser preenchida pela sua escrita que tão suave soa aos nossos ouvidos e  tão bem nos faz ao coração, capaz de cativar os mais exigentes.    Um forte abraço cheio de gratidão e de saudade da amiga    

                      Dolores Tavares 

                     


Se recordar  é  VIVER…Eu  …  vou  mergulhar  nas  minhas  memórias  e  recordar  alguns  acontecimentos,  algumas  das  histórias  de  alguém  muito  especial  que  povoou  o  meu  imaginário à muitos anos atrás e graças a Deus continua a fazer parte dos meus dias.  Esta história começa assim:  Nasci  no  Alentejo  (Valongo),  uma  aldeia  do  concelho  de  Avis,  no  meio  de  árvores,  flores, animais e pessoas que me amavam. Durante o dia brincava com as crianças da  minha  idade,  à  noite,  ouvia  as  corujas,  as  rãs,  as  ovelhas  e  outros  animais  que  não  conseguia identificar. Ficava acordada para os ouvir, sentia‐me triste.   Terminei  a  4ª  classe  como  se  dizia  na  altura  e  não  fui  mais  para  a  escola.  Quantas  vezes, fui para a porta da casa onde vivia, para olhar as outras crianças que iam para a  escola? Ficava preocupada e receosa de não saber comunicar e não ter acesso a livros,  confesso que ficava até com ciúmes dos professores e das pessoas que escreviam os  livros, na altura nem sabia que eram os escritores. Fui aprendendo, tentando aprender  os segredos da infância e da juventude, uma descoberta viva, todos os dias. Tive sorte.   Um dia algo de bom me aconteceu, recebi um livro. “ A Chave do Castelo Azul” que me  ofereceu  o  meu  primo  que  estudava  na  Pontinha,  quase  que  o  “devorava”  naquele  momento.    Rapidamente chegou ao fim. No meu imaginário ficou a chave ferrugenta, o palácio  encantado,  aquele  lugar  maravilhoso,  quem  será  este  senhor,  questionava  eu:  um  autor,  um  escritor,  um  contador  de  histórias?  Permanecia  em  mim  uma  vontade  enorme de conhecer o senhor que escreveu aquela história.    Passaram  mais  de  20  anos  e  finalmente  conheci  o  Grande  Senhor  António  Torrado,  distribuindo  sorrisos,  atenções,  contando  histórias  e  mais  histórias!  Histórias  alegres,  criadas  por  quem  sabe  brincar  com  as  palavras,  que  não  faz  cerimónia  com  os  seus  leitores e sobretudo os respeita tenham estes a idade que tiverem.   Obrigado por tudo o que me transmitiu e transmite.    Um Grande Abraço a António Torrado,      Domicília Rodrigues       

            


Olá, António Torrado;    Algumas palavras soltas sobre o que li:   sonho;   cor;  espanto;  inquietação;  admiração;   caminho … chegada.      Um até breve      Fátima                   

            


Olá, eu  sou  a  Fátima  Costa  e  quero  desde  já  escrever  que  adoro  as  suas  histórias.   A  Imaginação  e  a  Criatividade  são  coisas  que  poucas  pessoas  têm  e  você  faz  parte do grupo das pessoas que tem posse delas. Eu gostaria de ter tanta Imaginação  como a que você tem para os meus livros, sim, porque eu gostaria de ser escritora e os  escritores têm de ter a cabeça carregada de Imaginação para escreverem muito.  Não sei o que mais poderei dizer, mas que este livro é uma boa ideia e que sou  fã dos seus muitos livros.        Fátima Mendes Costa,   Beja, 31/08/2010                         

            


Senhor escritor  Venho por este meio saber como está…. Eu, felizmente estou bem, assim como todos  os meus …não estou a esquecer os “ bichos” que o senhor deixou por aí fora, por esse  país das letras que depois se encontram na “casa das histórias”  Posso  informá‐lo  que  tanto  o  “caracol”  que  quase  se  abrigava  debaixo  de  uma  “nuvem”,  mas  o  que  não  aconteceu,  porque  “nuvens”  são  lágrimas  que  caem  na  terra… e aquele “caranguejo” que devido à crise teve que tocar órgão para ganhar a  vida….vi também “o Veado Florido” cumprimentei‐o…ia a banhos….talvez encontre o  “Pinguim  em  Fundo  Branco”…Ah!  …mas  o  Rato,  o  Rouxinol…  pode  acreditar  que  os  ouvi em amena cavaqueira…histórias…histórias…  Senhor  escritor  como  tem  andado  dos  dedos?  Já  recuperaram  a  inspiração?  Eles  estavam demasiado queixosos…o mesmo aconteceu à menina “ Borracha” (já não faz  nada?)  ou  recuperou?  Deixe‐me  perguntar  o  “caranguejo”  já  regressou  de  férias  do  campo? Foi o que eu ouvi (Da rua do Contador para a rua do Ouvidor) …È verdade?  Mas não me fiquei por aqui, porque no país do senhor escritor conheci o “ Adorável  Homem  das  Neves”,  vi  um”Relógio  que  tinha  uma  janela”….  será  para  o  tempo  cantar?...Conheci  o  “Vizinho  de  Cima”….simpático,  mas  não  deixa  que  o  “Elefante”  entre na jogada, que fazemos  no átrio…paciência a verdade é que continuo a “Contar  Contigo”  e  provavelmente  poderemos  brincar  ao  “Toque  e  Foge”  ou  encontrar  uma  “Flauta sem Mágica”…não é preciso na terra do” Era uma Vez “…AH! Já me esquecia  de dizer que aprendi a fazer”Cor de laranja”… e com todos estes recados tenho que te  falar que também conheci “Verdes Campos”…parecia um verso de Camões…mas não,  são  os  campos  lindos  vergados  ao  peso  dos  choupos  que  se  miram  nas  águas  do  rio  Minho  e  onde  descobriste  lindas  e  antigas  lendas  ….e  como  descobriu  que  “As  coisa  têm  Coração”…ah!  Já  sei  os  escritores  têm  dois  corações;  um  de  homem  outro  de  fazedor  de  palavras.  È  bom,  está  prevenido  e  assim  teve  mais  fôlego  para  dar  uma  “Vassourinha entre Abril e Maio”… “e nesse ano estreava/ novo ano em Abril”  Boa  amigo  eu  também  esperei  por  esse  ano  onde  tudo  parecia  uma  eterna  Primavera….  Penso que já disse muitas coisas que fiz com aquilo que descobri contigo…que as dei  também,  servidas  no  dia  á  dia  de  uma  mestra dum  tempo  onde  as  primaveras  eram  cinzentas….  Agora posso terminar com palavras que tu conheces, “Não se percam na viagem…não  demorem…não se esqueçam de chegar”  E  como  se  fosse  a  “história”…”  A  história  que  vou  contar/ começa  por  um  ponto/ de  uma volta, reviravolta, meio tonto e acaba tal e qual, mesmo ao lado donde tudo tinha  começado.” 

            


Tudo começou,  porque  o  senhor  que  é  homem  é  também  fazedor  das  palavras,  semeou‐as plantou‐as e depois colheu o mundo maravilhoso da fantasia que leva aos  afectos…ao amor.    Obrigada, até à volta do correio,    

Fani      (Fernanda Frazão) 

                                             


O MUNDO DÁ MUITA VOLTA…  Quem  me  diria  a  mim,  acompanhante  cúmplice  pela  mediação  da  leitura  e  mais  tarde pela divulgação militante no meu exercício de educador de infância, que de 40  anos  de  uma  vida  literária  viria  a  ter  o  direito  de  partilhar  na  primeira  pessoa  os  últimos dez.  Ao conseguir colocar Portalegre na rota afectiva de António Torrado, para além de  um formador de características únicas, que ao longo do anos partilhou com centenas  de educadores e professores um saber feito na primeira pessoa, conquistei um amigo  e um companheiro de sonhos e projectos. Para o mundo a face visível deste encontro  chamar‐se‐á seguramente HISTÓRIA DO DIA, e pena que não se possa chamar muitas  outras  coisas  que  em  conversas,  acompanhadas  pela  boa  gastronomia  alentejana,  arquitectámos em conjunto… mas para mim chama‐se tão só ANTÓNIO TORRADO um  amigo.   Povoar o mundo de histórias intemporais, através de uma escrita que convida ao  crescimento  é  como  plantar  sobreiros….  Sabemos  que  ao  longo  de  séculos  serão  refúgio,  riqueza,  sombra,  que  ficam  lá,  que  nos  esperam…  Pois  é…  mas  nem  todos  sabem plantar sobreiros.   Poderia  recordar  aqui  centenas  de  episódios,  conversas…  enfim,  aquelas  coisas  que  de  uma  forma  natural  acontecem  nas  amizades  verdadeiras,  mas  não….  Vou  apenas dizer algumas coisas simples que acabei por retirar das inúmeras dedicatórias  que religiosamente guardo nos livros com que António Torrado me tem enriquecido…  ‐  A  casa  da  lenha  que  pelos  vistos  descobriu  em  Portalegre  está  de  pé  e  recomenda‐se  ‐ A amizade sem sombras que o levou a colocar em letras de forma os nomes da  minha família, enche‐nos de orgulho  ‐ Também acredito que há “estrelas propícias”  A terminar, um agradecimento e uma revindicação:    O agradecimento:  Do muito que tenho para lhe agradecer, elejo hoje a possibilidade que me deu de  os meus filhos terem podido crescer na companhia de um escritor.  A reivindicação:  Se  de  40  anos  de  vida  literária  apenas  me  deu  o  prazer  de  partilhar  na  primeira  pessoa  os  últimos  dez…  contas  feitas  deve‐me  30…  espero  que  me  pague  com  os  próximos  Um abraço amigo de quem neste momento tem pena de não dominar a escrita,  pelo menos um bocadinho, ao jeito de António Torrado    FRANCISCO PACHECO 

            


Caríssimo António Torrado    Cruzámo‐nos pela primeira há muitos anos. Já não consigo recordar exactamente  a  circunstância,  mas  creio  que  teve  a  ver  com  um  interesse  partilhado  –  a  escritora  Virgínia de Castro e Almeida.   E  ao  longo  de  muitos  anos  tenho  tido  o  prazer  de  acompanhar  a  sua  escrita,  sobretudo  a  teatral,  e  a  imensa  satisfação  de  ver  muitas  vezes  essa  escrita  subir  ao  merecido palco – o palco que dá vida às palavras tecidas e corpo aos ambientes apenas  imaginados. Na história da literatura dramática e do teatro ficará sem dúvida registado  o seu contributo decisivo para essa arte da escrita e do espectáculo.  Não posso deixar de registar e agradecer, agora em ”público”, o apreço subjacente  aos diálogos telefónicos que temos trocado ao longo dos tempos – mais por iniciativa  do António, a verdade seja dita. Retenho com imensa satisfação essa presença regular  e  a  sua  amizade  ocupa  um  lugar  especial,  que  as  palavras  não  sabem  exprimir  cabalmente.  Que a força do verbo esteja sempre presente.  Um abraço e muita estima,   Glória Bastos           

            


Eu acreditava  no  menino  Jesus  quando  era  pequenina.  Colocava  o  sapatinho  na  chaminé  e  esperava  ansiosamente  pelo  presente  que  pedia  de  joelhos.  A  magia  era  imensa e cada vez mais exigente, não com brinquedos, mas sim livros. O 1º encanto foi  um  dicionário  de  língua  portuguesa.  Fantástico  e  com  tantas  páginas!  Aos  9  anos  disseram‐me  a  verdade  aterradora,  na  escola.  Que  meninos  eram  esses  que  não  acreditavam na magia do menino Jesus? A magia escapou‐se das minhas mãos e tinha,  rapidamente, que encontrar o deslumbramento perdido.   Consegui  encontrá‐lo  nos  livros,  ao  longo  de  toda  a  minha  vida.  Em  todas  as  ocasiões.  E  que  poderemos  nós  escrever  sobre  essa  fantástica  capacidade  que  têm  os  escritores,  especial  para  crianças  –  porque  são  elas  as  mais  exigentes  –  de  nos  maravilhar, de nos encantar, de nos assustar, de nos fazerem sonhar?  Lembro‐me de umas “andarilhas”, as minhas primeiras e, infelizmente, as minhas  únicas. Estavam tantas pessoas à minha volta e comecei a ouvir uma voz, quentinha,  aconchegante, que me embalava. E sem mais nem menos vi‐me transportada para o  meu quarto de criança e tudo mudou.  Estava deitada e alguém me contava uma história. O espantoso da situação é que  quem o fazia não tinha nenhum livro na mão e eu, criança, achava tão estranho aquele  senhor  saber  tão  bem  a  história  sem  ter  nenhum  livro!  A  voz  continuava  alheia  aos  meus  pensamentos.  Envolvente,  sábia,  aconchegante.  Lembro‐me  de  querer  que  aquele momento nunca terminasse.  Ouvi palmas. Acordei para a realidade. Era tão bom sonhar e são maravilhosas e  únicas as pessoas que nos fazem sonhar. Olhei à minha volta. O senhor que agradecia  as palmas era o mesmo que estava no meu quarto. Acordei. Olhei para o programa e li  de novo o nome: António Torrado.  Não me consegui levantar e só me lembro que as minhas colegas perguntaram:”  Graça  porque  choras?  Vamos  almoçar.”  Senti‐me  perdida  mas  de  alma  cheia.  As  minhas  lágrimas  eram  só  minhas,  não  queria  naquele  momento  partilhá‐las  com  ninguém. Não consegui responder, mas agora posso dizer: OBRIGADA ANTÓNIO.       

                   Graça Martins Caneira                       


Caro António Torrado:    Escrevo‐lhe para agradecer ter‐me enviado A CHAVE DO CASTELO AZUL.   Muito  obrigada,  mas  afinal  vou  continuar  a  viver  nA  CASA  DA  LENHA,  que  fica  no  cruzamento DA RUA DO CONTADOR PARA A RUA DO OUVIDOR.  Estive  no  Castelo,  mas  acabei  por  sair  de  lá  a  correr.  Vou‐lhe  contar  como  tudo  se  passou:   Quando  cheguei  ao  Castelo  Azul  a  primeira  coisa  que  vi  foi  O  TRONO  DO  REI  ESCAMIRO  e  ao  lado  UMA  CADEIRA  QUE  SABE  MÚSICA.  Junto  à  parede  havia  uma  fileira de VASOS DE PÉ FOLGADO.  Não se via ninguém mas ouvia‐se uma música dO TAMBOR‐MOR e vozes que vinham  do andar de cima.  Subi  UMA  ESCADA  EM  CARACOL  e  no  primeiro  andar  estavam  O  REI  MENINO,  O  MERCADOR DE COISA NENHUMA, O ADORÁVEL HOMEM DAS NEVES e O PAJEM QUE  NÃO SE CALA.  Entretinham‐se  os  4  a  jogar  um  jogo  nO  TABULEIRO  DAS  SURPRESAS  enquanto  davam DEZ DEDOS DE CONVERSA.  Quando  notaram  a  minha  presença,  chamaram‐me  para  perto  deles  e  pediram‐me  que  lhes  contasse  uma  história.  Disseram‐me  que  para  além  de  jogar,  LER,  OUVIR  E  CONTAR eram os seus passatempos favoritos.  Recusei‐me a contar uma história porque sou péssima contadora.  Então o PAJEM QUE NUNCA SE CALA disse:  _  Se  quiserem  eu  tenho  UMA  HISTÓRIA  PRONTA  PARA  CONTAR.  É  a  história  dA  NUVEM E do CARACOL.  _ Está bem, então conta lá!! _ disseram os outros.  E o Pajem começou a contar:  A  NUVEM  gostava  de  pintar,  mas  tela  após  tela  só  pintava  PINGUINS  EM  FUNDO  BRANCO. Resultado: todos os seus quadros eram pretos e brancos.  Certo dia O CARACOL perguntou à NUVEM:  _ Porque é que só usas o branco e o preto? Porque é que só fazes pinguins? Se usares  também  o  vermelho  podes  fazer,  por  exemplo  UMA  JOANINHA  À  JANELA.  Ou  se  quiseres posso te ensinar COMO SE FAZ COR DE LARANJA e depois podes pintar uma  cabaça a correr, CORRE, CORRE CABACINHA. E o verde? Porque não o usas? Não sabes  que VERDES SÃO OS CAMPOS? E o amarelo? De que cor eram as ESTRELAS QUANDO  OS REIS MAGOS ERAM PRÍNCIPES?   Então a NUVEM pegou no Arco‐íris e fez UMA HISTÓRIA EM QUADRADINHOS, uma  bela HISTÓRIA COM UM GRILO DENTRO, a que chamou O LIVRO DAS SETE CORES.   O CARACOL ficou tão maravilhado que lhe comprou o livro por DEZ CONTOS DE REIS.  A partir daquele dia NUVEM passou a pintar sempre com o Arco‐íris.   E vitória, vitória acabou‐se a história.       

            


Ninguém gostou  muito  desta  história,  por  isso  voltaram  a  pedir‐me  para  contar  eu  uma história. Voltei a recusar.  Então O MERCADOR DE COISA NENHUMA sugeriu:  _ VAMOS CONTAR UM SEGREDO? Cada um conta o seu segredo.   Todos estiveram de acordo e de imediato notou‐se uma certa electricidade no ar. O  primeiro a começar foi O MERCADOR DE COISA NENHUMA:  _ À noite sonho com A DONZELA GUERREIRA.   Depois foi a vez do PAJEM QUE NUNCA SE CALA:  _ Eu sou UM VEADO FLORIDO. _ disse e ficou muito vermelho.  A seguir foi a vez do REI MENINO:  _ Eu imagino que sei COMO SE VENCE UM GIGANTE e que à minha passagem todos  dizem ESTE RAPAZ VAI LONGE.  Depois falou O ADORÁVEL HOMEM DAS NEVES:  _ OS MEUS AMIGOS não sabem que sou sonâmbulo.  E  ficaram  por  momentos  calados  a  pensar  nos  segredos  revelados  e  a  saborear  a  amizade.  Inevitavelmente acabaram por se voltar para mim e perguntaram‐me qual era o meu  segredo.  Engasguei‐me,  titubeei,  a  situação  era  desesperada:  não  tinha  contado  nenhuma  história e agora não queria partilhar nenhum segredo.  Despedi‐me às pressas e saí dali a correr.  O meu segredo era demasiado cruel para eles ouvirem.   O meu segredo é que me apropriei dos títulos das suas obras António Torrado, para  escrever  esta  carta  em  jeito  de  agradecimento,  pelo  muito  que  tenho  aprendido  consigo na arte de narrar.        Helena Gravato                                         


António,    A sua escrita tem acompanhado, em vários formatos, toda a minha vida. Primeiro,  ainda criança, como simples leitora, altura em que me deliciava com as sua histórias,  imaginando‐me fazendo parte delas. Numa segunda fase, profissionalmente, altura em  que  tive  a  oportunidade  de  o  conhecer.  Afinal,  aquela  pessoa  que  escrevia  histórias  maravilhosas e que fazia o meu imaginário voar, era mesmo real, não era ele também  imaginário.  É certo que só alguém com muita sensibilidade, e imaginação terá capacidade para  chegar ao coração das crianças e fazê‐las sonhar, rir, encantar e imaginar. Mas naquela  altura  eu  pôde  materializar  o  autor  das  histórias,  que  me  proporcionaram  muitos  momentos de felicidade.  Este encontro em que tive o privilégio de me cruzar consigo, teve como base um  pequeno  livro  de  contos  tradicionais  "Ler.  Ouvir  e  Contar",  de  sua  autoria,  onde  constavam histórias como “Corre Corre Cabacinha”; "O Pinto Pintão"; "O rapaz Fino e  Ladino",  que  foi  distribuído  por  todas  as  escolas  do  primeiro  ciclo  do  país,  com  o  intuito de promover o livro e a leitura.  Estou  certa  que  neste  ano  de  2000,  milhares  de  crianças  se  congratularam  ao  serem presenteadas com um livro de sua autoria, e também elas tiveram o privilégio  de “beber” as suas palavras e entregarem‐se à imaginação.  Os  meus  filhos  foram  uns  privilegiados,  li‐lhes  vezes  sem  conta  as  histórias  que  escrevera, naquele livro, e eles ainda muito pequenos apenas com dois e cinco anos, já  as  sabiam  de  cor.  Quando  me  enganava  eles  corrigiam:  “mamã  saltaste...  mamã  enganaste‐te...  mamã  não  estás  a  contar  toda  a  história...  mamã  agora  sou  eu  que  conto.”  Isto só demonstra que o António, tem a capacidade de despertar nas crianças um  interesse cognitivo, que as faz quer ouvir, ler e imaginar o seu imaginário.  Passados  estes  anos,  enquanto  responsável  pelas  Bibliotecas  de  um  concelho  continuo  a  gostar  da  sua  escrita,  mas  sobretudo  continuo  a  ver  que  os  meninos  procuram os seus livros e os sentem como fazendo parte das suas histórias.  A sua missão está longe de acabar, ela está apenas no início, um início sem fim,  porque as suas histórias ficarão para sempre gravadas na nossa memória de criança e  perpetuaram‐se  pela  nossa  vida,  acompanhando‐nos  como  se  fizessem  intrinsecamente parte de cada um de nós.  Que a sua energia chegue sempre até nós através da sua escrita, seja ela infantil,  teatral ou filosófica.     Helena Jardim    Coordenadora do Sector de Bibliotecas e Arquivo Histórico  da Câmara Municipal de Odivelas   

            


Angra do Heroísmo, 6 de Agosto de 2010      Estimado Escritor António Torrado    É com muito gosto que lhe dirijo estas palavras para, em primeiro lugar, elogiar e  enaltecer  o  distinto  trabalho  que  tem  desenvolvido  em  prol  da  Literatura  Infantil  e  Juvenil, onde a sua obra assume um papel preponderante não só pela sua abundante e  profícua produção, onde se enquadram os recontos da tradição oral, que primam pela  presença  da  memória  popular,  enquanto  fonte  viva  de  sabedoria,  mas  também  por  encontrarmos  na  sua  escrita  uma  grande  preocupação  com  o  enaltecimento  de  determinados valores, como a coragem ou a solidariedade, e a crítica de outros, como  a inveja e a vaidade, temperados com uma boa dose de humor.  Gostaria ainda de enaltecer a sua capacidade em adequar a linguagem dos seus  textos  ao  público  mais  jovem,  verificando‐se  um  enorme  respeito  pelo  leitor  e  o  respectivo  reconhecimento  das  suas  qualidades  e  competências,  não  se  assistindo,  contudo, a uma tendência para uma infantilização das histórias.  É provavelmente a proximidade que estabelece regularmente com o seu público  que  lhe  dá  alento  e  virtude  para  continuar  a  escrever  empenhadamente  para  um  auditório  tão  merecedor  e  importante,  pelo  que  não  posso  deixar  passar  esta  oportunidade  sem  manifestar  o  desejo  de  trazê‐lo  um  dia  à  “minha”  Biblioteca  (BPARAH  –  Biblioteca  Pública  e  Arquivo  Regional  de  Angra  do  Heroísmo).  Sei  que  já  visitou a nossa ilha e que também esteve em algumas escolas, mas como a vinda de  escritores  não  é  muito  frequente  e  quando  acontece  não  consegue  cobrir  todas  as  crianças dos dois concelhos, sei que será muito bem acolhido por todos os que tiverem  a felicidade de contatar consigo de perto.   Por  último,  gostaria  de  destacar  um  título,  do  conjunto  da  sua  obra,  que  me  seduziu em particular: Como se faz o cor‐de‐laranja. Penso que neste texto cruza, de  uma  forma  muito  sábia  e  bela,  a  poesia  com  a  realidade,  a  curiosidade  com  a  ingenuidade,  levando‐nos  a  questionar  o  mundo  que  nos  rodeia,  despido  de  sensibilidade e interesse pelas coisas mais simples e mais genuínas da vida.  Desejando que continue a acarinhar‐nos com novas histórias e que continue a ser  reconhecido  pelo  excelente  trabalho  que  desenvolve,  despeço‐me  enviando  cordiais  cumprimentos,                                           Helena Martins                       


Santa Catarina, 10 de Setembro de 2010    Olá António,  Escrevo esta carta como leitora atenta das suas obras que tanto me deliciam.  Desde  pequena  que  fui  habituada  a  histórias,  não  do  livro  propriamente  dito  pois não eram recursos que me entrassem pela casa dentro, mas sim da narração oral,  das memórias mais recônditas dos meus pais e avós.   Na  minha  infância,  os serões  no  Inverno  eram  sempre  passados  em  redor  da  lareira de casa da minha mãe. A minha mãe e o meu pai, sem sequer o saberem, eram,  na  minha  opinião,  excelentes  contadores  de  histórias.  Histórias  do  antigamente,  amores inocentes e os desamores distantes em tempos de guerra. Histórias de gentes  do  campo,  de  crianças  traquinas  com  muita  comédia  à  mistura,  histórias  de  dor,  de  sofrimento…  Situações  a  que  hoje  na  nossa  vida  tão  pouco  sondada  chamamos  de  banalidades,  mas  que  outrora  foram  a  causa  de  muitas  lutas  diárias  e  certamente  a  revelação do carisma de muita gente. Eu e os meus irmãos penetrávamos de tal forma  naquele  mundo  tão  distante,  que  parece  que  flutuávamos  conduzidos  pelo  som  daquela voz, não fosse por vezes o crepitar mais intenso da lenha ou a chuva tocada a  vento que nos acordassem deste estado tão aprazível e profundo.  Lembro‐me de adormecer inúmeras vezes deitada na cama, a contar histórias à  minha irmã que dormia a meu lado. Histórias essas que inventava, sem perceber muito  bem como iriam acabar. Histórias de mundos e de vidas que eu sonhava para mim e de  personagens que me acompanhavam diariamente no meu imaginário de criança. Uma  das muitas histórias que me marcou muito enquanto criança e que ouvi e contei vezes  sem  conta  foi  “O  macaco  de  rabo  cortado”.  Não  posso  esconder  a  minha  alegria,  quando  anos  mais  tarde  encontrei  essa  mesma  história  agora  recuperada  pelo  António.  Talvez  assim,  eu  consiga  dar  a  entender  um  pouco,  de  como  o  gosto  pelas  histórias me ficou de tal forma entranhado, que me abandonei às Palavras Andarilhas.   Cresci, tive os meus filhos e a verdade, é que as histórias  são uma constante  nas prateleiras da minha vida, desta vez, acompanhada por livros, muitos livros.   Tal  como  iniciei  esta  carta,  não  escrevo  por  outro  motivo  que  não  seja  de  o  felicitar  pelo  seu  maravilhoso  percurso  de  gratuidade  e  de  partilha  de  saberes  para  com o público infantil e não só. Admiro a sua capacidade de fazer sonhar qualquer um  que  se  atreva  a  cruzar  no  caminho  dos  seus  livros,  inclusive  aquele  adulto,  por  mais  sisudo que seja. Quero que saiba, que é para mim um autor de referência, por quem  nutro  um  grande  carinho  (apesar  de  ser  uma  leitora  à  distância),  e  deixar  o  meu  profundo agradecimento por me fazer reavivar memórias. Hoje são os meus filhos que  me  pedem  para  contar,  e  eu…eu  volto  de  novo  a  ser  criança  e  a  viajar  pelo  mundo  encantado das letras, das imagens e da voz surda da imaginação.  

            


Um abraço do tamanho de todas as letras que já escreveu…      Hortense Fialho Firme        Desculpem o abuso, mas pedi à minha filha (10 anos) que escrevesse uma mensagem   Ela escreveu o seguinte:     Artista de crianças  iNédito para todos   Todos o apreciam.   Órgulho em si mesmo   Não consegue parar de escrever   Inesquecível   O seu talento é tanto que até descreve o seu encanto.      Márcia Ramos                     

            


Penamacor, 25 de Agosto de 2010     Caro António Torrado,  Espero que esta carta o vá encontrar de boa saúde e disposição. Eu cá estou bem,  tentando manter‐me bem‐disposta e sempre de boa saúde!             Acabei de receber um desafio secreto da Cristina Taquelim, uma ideia linda,  diria  mesmo,  ternurenta:  escrever  secretamente  uma  carta  para  alguém  que  não  só  merece  a  homenagem  que  se  lhe  prepara,  mas  que  merece  também  a  prova  de  carinho proposta.  Aceitei imediatamente o desafio, primeiro, porque adoro escrever cartas, depois,  porque tenho uma grande admiração e carinho pela pessoa em questão.  Em Outubro de 2000, iniciei as minhas funções como bibliotecária em Penamacor,  cheia  de  ideias  e  esperanças,  entusiasmadíssima!  Por  volta  dessa  altura,  mais  dia,  menos  dia,  recebi  a  comunicação  para  participar,  juntamente  com  a  Escola  EB  2,3  Ribeiro Sanches, nas Olimpíadas da Leitura. Escolhemo‐lo a si, António Torrado. Foi a  minha  primeira  grande  actividade.  A  visita  do  escritor  ficou  agendada  para,  salvo  o  erro,  o  dia  25  de  Janeiro  de  2001.  No  desdobrável  que  enviei  para  as  escolas,  informava que esta actividade era para os alunos do 2º ciclo, no entanto, os jardins‐de‐ infância e as escolas do 1º ciclo também marcaram a vinda, eu, com medo de magoar  as professoras e educadoras, não fui capaz de dizer que não, ainda por cima seria um  péssimo  começo…  No  noite  anterior,  com  um  motorista  da  Câmara,  fomos  buscar  o  escritor à estação dos comboios a Castelo Branco, eu ia ansiosa. Encontrei uma pessoa  serena,  comunicativa,  muito  acessível,  que  me  deixou  logo  menos  nervosa  e  à  vontade. Descobri que era desta zona, e que, portanto, conhecia estas nossas bandas  desérticas melhor que eu!  No dia 25 de manhã, um dia frio e chuvoso de Janeiro, a minha Biblioteca, que na  altura  funcionava  nas  velhas  instalações,  no  quartel,  encheu‐se,  melhor,  abarrotava  pelas costuras! de tanta gente que albergava. Não havia espaço para cadeiras, apesar  da  intempérie  lá  fora,  as  crianças  sentaram‐se  no  chão  em  cima  de  jornais.  O  Presidente  da  Câmara  veio  receber  o  escritor  e  dar‐lhe  as  boas  vindas.  A  turma  da  criativa professora Maria de Jesus, preparou uma breve representação dramática para  apresentar  o  escritor.  Um  momento  delicioso  oferecido  pelos  nossos  jovens  ao  escritor. Os miúdos estiveram muito bem! Seguiram‐se quase duas horas de interacção  do escritor com o seu heterogéneo público. Durante essas duas horas, crianças, jovens,  professores, educadores, curiosos, assistiram e responderam quando solicitados, sem  a  mínima  prova  de  cansaço  ou  enfado.  Eu  assistia  com  um  grande  sorriso  e  enorme  admiração  pela  pessoa  que  conseguia  cativar  assim,  desta  forma  hipnotizante,  uma  plateia de muitas cores e feitios, num dia invernoso de Janeiro.  Ao partir, recomendou‐me que evitasse misturar públicos daquela forma, pois era  contraproducente.  Pedi‐lhe  desculpa  e  justifiquei‐me  com  o  facto  de  não  querer  dececionar ninguém… Claro, tornou‐se muito cansativo para si, percebi. Mas para além  de  não  se  notar  nada,  eu  estava  tão  feliz  pela  forma  como  os  cativou!  E,  o  António  Torrado, apesar do cansaço, continuava uma pessoa serena e afável.               


Passando um  ano  ou  dois,  recebi  uma  longa  carta  sua  em  que  era  expresso  o  convite, para ir ver uma peça sua a Lisboa… Arranjei um grupo de amigos e fomos ver a  peça. A peça era infantil, nós éramos todos adultos. Recebeu‐nos com um sorriso e de  braços abertos, para meu espanto, que não esperava que ao fim daquele tempo ainda  me reconhecesse! Fiquei admirada, mais uma vez. Há pessoas que nos surpreendem!  Voltei  a  receber  uma  outra  carta, mais  tarde,  onde  me  comunicava  a  criação  do  site História do dia.   Voltei  a  convidá‐lo  a  visitar  Penamacor,  em  2006,  no  âmbito  do  projecto  de  animação do livro e da leitura À descoberta na Biblionave, mas por motivos de saúde,  o  reencontro  ficou  sem  efeito.  Algumas  crianças  lembravam‐se  de  si  e  estavam  entusiasmadas, mas a vida é mesmo assim!  Nestes  10  anos  de  trabalho  na  Biblioteca,  conheci  vários  escritores  e  escritoras,  mas  o  António  Torrado,  pela  maneira  como  presenteou  o  público  naquele  dia,  pela  forma  serena  como  me  alertou  para  algumas  falhas  –  qualidade  que  poucas  pessoas  exercem  –,  assim  como  pela  gentileza  de  se  recordar  de  alguém  com  quem  tinha  estado uns minutos há uns anos atrás – outra qualidade rara –, tornou‐se para mim,  uma pessoa inesquecível. Um ser humano único, atento, criativo, sensível. Não é fácil,  pelo  menos  para  mim,  dizer  às  pessoas  de  quem  gosto  o  que  sinto  por  elas,  mas  a  Cristina  Taquelim,  também  ela,  seguramente,  alguém  muito  especial,  deu‐me  esta  oportunidade e eu não quis deixar passar…  A  propósito  dos  40  anos  de  carreira,  a  que  eu  posso  dizer  que  assisti,  porque  tenho  mais  um  aninho  ☺,  só  posso  dizer  que…  eu  nem  sei  o  que  dizer…  gosto,  especialmente,  da  Vassourinha  e  do  Caidé,  este  último  porque  lembro‐me  de  uma  menina de sete anos a lê‐lo em voz alta para umas 10‐12 pessoas, cheia de força para  ler logo ali a história toda!  E muitas outras, tantas!   Todas as honras a dedicar‐lhe, serão merecidas.     Com um grande abraço carregado de ternura, despeço‐me, 

                            Ilda Lopes             

            


Na Homenagem a António Torrado        Grande amigo, de humor fino, homem de muitos talentos, grande companheiro  ao longo de quase 15 anos na RTP, em estado permanente de criatividade, sensível, o  António Torrado nasceu fora do seu tempo. Por um lado, o século XIX assenta‐lhe que  nem  uma  luva.  Por  outro,  tem  visão  de  futuro,  um  futuro  para  além  do  tempo,  um  futuro  que  ele  acredita  mais  humano,  como  a  sua  escrita.  Ainda  bem  que  existem  homens como tu, querido amigo. Que as palavras continuem a crescer dos teus dedos,  divertindo‐nos e iluminando‐nos.   Bem hajas por teres cruzado o meu caminho.                                                                                                                   Isabel Medina                                         


Querido António, empresta‐me o menino que tem debaixo do chapéu?    Só  conheço  o  António  Torrado  dos  livros.  Não  o  conheço  de  outras  vidas.  Nem  de  cursos, nem de seminários, nem de idas as escolas ou lançamentos. O mais perto que  estive dele foi num Encontro da Gulbenkian, há alguns anos, onde tive oportunidade  de o ouvir pela primeira (e única) vez e de onde saí absolutamente deliciada.  Não era a única: nessa tarde apercebi‐me de que todas as professoras e bibliotecárias  presentes  no  auditório  (eram  quase  só  mulheres,  como  é  costume  nestes  lugares),  novas  e  velhas,  gordas  e  magras,  contra  o  “eduquês”  ou  a  favor  de  outros  ventos,  tinham um fraquinho pelo António. E com toda a razão, fiquei eu a achar, espantada  por nunca o ter ouvido, por não imaginar que “ao vivo” a voz soasse igualzinha à dos  livros, divertida, nova, empolgante, aqui e ali irónica, quase mordaz, mas sem nunca  perder  a  ternura.  (Parece‐me  que  é  esta  a  primeira  vez  que  escrevo  a  palavra  ternura, já viram isto?)   Em  pequena  tinha  dois  ou  três  livros  assinados  pelo  António.  Aquele  de  que  me  lembro melhor será talvez “O Mercador de Coisa Nenhuma”, de capa azul escura e  ilustrações  a  duas  cores.  No  conto  que  lhe  dá  título,  o  filho  de  um  vendedor  de  tapetes  troca  o  negócio  do  pai,  por  um  outro  mais  arriscado:  propunha‐se  o  rapaz  deixar os tapetes e passar a vender às gentes apressadas do mercado (sem grandes  hábitos  poéticos  ou  contemplativos)  grãos  de  areia,  “à  unidade”  e  gotas  de  água,  “uma à uma”.  O  rapaz  acaba  vendendo  sonhos,  que  é  outra  palavra  para  histórias,  e  até  faz  bom  dinheiro… Mas, como sucede a muitos dos que decidem ganhar o pão neste mundo  da histórias e dos livros, já no final, o rapaz distrai‐se e perde nas areias do deserto  todas as moedas ganhas no decorrer da aventura.  Apesar do desaire financeiro, não há dúvida de que o rapaz conseguiu um feito, foi  assim  uma  espécie  de  Palavras  Andarilhas  por  terras  do  Oriente  em  tempos  já  distantes: imaginava as histórias (ou os sonhos), contava‐as, porventura dinamizava  rodas, serões, gerava diálogo, discussão e é bem provável que assim tenha inspirado  novos contadores, novas histórias… não se sabe.  Em  miúda,  li  outros  livros  do  António,  “A  Nuvem  e  o  Caracol”,  “Pinguim  Em  Fundo  Branco”,  muitos  contos  tradicionais.  Quando  a  certa  altura  fiz  algumas  adaptações  (apressadas)  de  contos  tradicionais  portugueses  tentei  —  sem  grande  consciência,  mas  vejo  agora  que  assim  foi  —  fazer  como  o  António,  falando  directamente  ao  leitor,  interpelando‐o  aqui  e  ali,  procurando  as  palavras  antigas  que  recordava  de  ouvir  à  minha  avó,  sentada  sobre  um  mocho,  junto  ao  lume  ou  enquanto  descascávamos feijão, lá na aldeia onde vivia e onde no Verão passávamos algumas  semanas.   Claro  que  não  cheguei  aos  calcanhares  do  António  (nem  aos  dele,  nem  aos  de  qualquer outro) e isto não é modéstia nenhuma, podem acreditar.  Por  estes  dias  voltei  a  mergulhar  nos  seus  livros.  Fui  a  uma  livraria,  visitei  uma  biblioteca,  vasculhei as prateleiras  lá  de casa,  viajei entre  as  páginas  dessa  “imensa  nave espacial”, como tão bem lhe chamou o António, que é a Internet. Esta viagem  deu‐me  a  oportunidade  de  olhar  mais  demoradamente  para  a  sua  escrita  e  fez‐me  também reflectir um pouco sobre o Estado da Nação…                


Na dita  livraria  encontrei  apenas  três  livros  do  António,  julgo  que  mais  ou  menos  recentes,  mas  não  fiquei  surpreendida:  como  já  terão  reparado,  as  secções  infantis  de algumas lojas têm gradualmente deixado de ser apenas livrarias para se virem a  transformar em pequenos supermercados de lazer e cultura infantil, dando cada vez  mais  destaque  aos  produtos  derivados  das  marcas  que  passam  nos  cinemas  e  na  televisão (livros incluídos e editoras implicadas, claro). E que eu saiba o Torrado não é  produto Disney, não é amigo do Noddy, nem anda de mão dada com a Hello Kitty…  por isso, três livros, confirmam‐me aqui, até que nem é mau…   Mas a mim pareceu‐me pouco. Apesar de a rotatividade do mercado assim o obrigar,  apesar de uma livraria não ter “obrigações” de biblioteca, pareceu‐me pouco... Talvez  haja edições esgotadas, talvez o Torrado esteja a precisar de comemorar com pompa  e  circunstância  não  sei  bem  quantas  décadas  de  escrita  ou  de  inaugurar  uma  pequena rubrica no Canal Panda… fica a ideia.  Na  Biblioteca  de  Oeiras,  a  oferta  era,  felizmente  (e  naturalmente),  consideravelmente maior: aí encontrei dezenas de livros do António Torrado, entre a  secção  de  contos  tradicionais,  a  de  Literatura  e  as  várias  prateleiras  dedicadas  aos  leitores mais novos. Havia edições bastante antigas, outras mais recentes e muito por  onde escolher.   No quarto dos meus filhos, o cenário não me deixou propriamente orgulhosa: entre  alguns  livros  muito  bons,  uma  grande  maioria  de  aceitáveis  e  uma  boa  dezena  de  títulos vergonhosos, encontrei apenas dois livros do António Torrado (menos do que  na FNAC, estão a ver?). E tudo isto me deu também para pensar: porque há por aqui  tantos livros assim‐assim, e alguns mesmo mauzitos? Respondeu‐me a mãe mais ou  menos  liberal:  “ora,  porque  quando  começamos  a  nossa  caminhada  de  leitores,  somos assim: ecléticos, sem preconceitos, pouco pacientes, em certos aspectos ainda  não  muito  exigentes…  Mas  precisamos  de  passar  os  primeiros  degraus  para  chegar  aos lances superiores da escada, não é?”. A esta dúvida, respondeu‐me a outra mãe,  mais analítica, mais exigente, talvez: “será isso ou será antes um sintoma dos tempos  modernos, tipo pressa, preguiça, deixa‐andar?”.   Ficámos nós, a mãe mais liberal e a outra, a discutir, às voltas com a pergunta, e o  caso é sério porque ainda não chegámos a uma conclusão definitiva.   Na Internet, leio as biografias disponíveis – e repetidas até ao infinito – e fico a saber  que António Torrado nasceu em Lisboa, em 1939. É um pouco mais velho do que o  meu pai, penso. Nas fotografias e nos vídeos do Youtube parece ter menos duas ou  três  décadas,  com  o  seu  olhar  que‐brilha‐que‐se‐farta  e  aquele  sorriso  contagioso.  Fiquei sem perceber se as fotografias são antigas se é o António que bebe um elixir  da juventude todas as manhãs, mal põe o pé fora da cama.   Quando não conhecemos um autor, mas imaginamo‐lo a partir da sua obra, depressa  somos tentados a fazer aquilo que se chama “um filme”. E, neste que fiz, vi o António  a  escrever  junto  a  um  cesto  de  cerejas  da  Beira  Baixa,  com  um  cajado  do  bisavô  Germano pendurado na cadeira, estampas orientais nas paredes e várias edições de  contos  de  Andersen  nas  prateleiras  próximas.  Também  vi  livros  de  Filosofia,  de  Teatro,  de  Poesia,  alguns  de  Pedagogia  e  uma  caixa  de  rebuçados  de  ovo  de  Portalegre  (mas  isto  já  sou  eu  a  delirar).  Aos  pés  da  escrivaninha,  pareceu‐me  ver               


uma espécie  de  arca  do  tesouro  com  cartas  dos  leitores  e  alguns  trabalhos  das  escolas. Não cabem todos na arca, mas podem folhear‐se os mais especiais: o filme  continua e vejo uma capa de plástico transparente, e dentro dela uma folha A4 com  um acróstico escrito a feltro de muitas cores por uma menina do 3.º ano:    António, amigo escritor  Não duvides um só dia  Tudo representas para nós  Ontem, hoje e amanhã  Nos teus livros encontramos  Imaginação, humor e vida  O que podemos pedir mais?    Na Wikipédia lê‐se que o António é um escritor português “voltado” para a Literatura  infanto‐juvenil.  Não  simpatizo  por  aí  além  com  a  Wikipédia,  essa  enciclopédia  tão  livre  que  por  vezes  exagera,  mas  não  posso  deixar  de  simpatizar  com  a  expressão:  “voltado”,  pois  sim,  que  se  movimenta  e  dá  uma  volta;  que  roda  em  torno  do  seu  corpo para ver de outra perspectiva; que se vira, brusca ou lentamente, para outro  lado  onde  por  acaso  está  alguém,  neste  caso  uma  multidão  de  crianças,  ávidas  de  peripécias:  “Ah,  ah…  Com  que  então  estavam  aqui  deste  lado?”  diz  o  António  a  recuperar do susto. “Mas que caras são essas? Que ar de enfado é esse? Ah querem  histórias…? Então tomem lá”.  E o António começa a contá‐las, assim voltado para as crianças, bem de frente para  elas,  convocando‐as,  fazendo  com  que  se  sentem  naturalmente  à  sua  volta,  sem  grandes alaridos ou estratégias complicadas. As histórias do António são simples sem  ser  simplórias,  divertem  e  são  próximas  do  leitor,  mas  não  caem  em  facilitismos.  Sentimos  que  não  passa  pelo  texto  aquela  preocupação  um  pouco  bacoca  de  simplificar tudo até à exaustão, não vá o leitor baralhar‐se e tropeçar.  O António confia que o leitor chegará ao sentido da frase porque a história é boa e o  leitor corre atrás de uma boa história. Está envolvido com as personagens e o enredo,  preocupado com o desfecho, curioso, angustiado ou divertido e, por isso, segue o fio,  estica‐se todo para lá chegar, se necessário corre como um louco, salta obstáculos,  atravessa um parágrafo mais escuro para ver a luz no seguinte. O António sabe que é  assim: que quando estamos entusiasmados, vamos a lugares que não ousaríamos. O  António leva‐nos lá e é um pouco como o Pedro Ovelheiro, que pertence à tribo dos  afoitos. “Não fossem eles e não havia histórias que valessem a pena. E o que seria de  nós?”.  O António está voltado para o leitor mas fala‐lhe cá de cima (não por arrogância, mas  porque é apenas mais alto), cá de cima, com respeito. Eu diria até que o António tem  um respeitinho de morte pelo leitor… senão vejamos este caso, relatado no livro “O  Pajem  Não  Se  Cala”  (Livros  Horizonte,  1981,  com  ilustrações  de  Madalena  Raimundo), que António dedica ao filho André:  Estava o escritor tranquilamente sentado num banco do Jardim da Estrela lendo um  livro,  quando  surge  um  menino  que  lhe  interrompe  o  sossego  e  a  leitura  para  lhe  perguntar  o  que  está  ele  a  ler.  A  princípio  o  António  faz  birra  e  não  lhe  responde               


logo... Diz  ele  “tenho,  às  vezes,  destes  amuos  de  pouca  dura”,  mas  deu‐se  que  “o  vento que levantava as folhas do jardim, levantou também as folhas do livro à nossa  frente”  e  o  António  lá  lhe  explica  que  aquele  livro  traz  histórias  de  um  escritor  dinamarquês  chamado  Hans  Christian  Andersen,  que  aquelas  histórias  são  muito  antigas,  mas  que  “as  histórias,  mesmo  as  do  arco‐da‐velha,  têm  sempre  a  mesma  idade.  Nunca  crescem.  A  gente  quando  entra  a  lê‐las,  seja  novo,  não  tanto  assim,  assim‐assim ou mesmo já assim‐assado na curva do tempo, a gente, enquanto as lê, é  que  fica  da  idade  das  histórias.”  Então  o  António  decide‐se  a  contar  aquele  conto  “onde se fala de um rei que perde a cabeça por fatos novos e muitos valiosos” (ainda  os há, reis assim). “No final o tal menino que apareceu no banco do Jardim da Estrela,  fez‐me a pergunta que nunca me tinha ocorrido: E o que é que aconteceu ao menino  que  disse  que  o  rei  ia  nu?”.  E,  já  entusiasmado,  o  António  responde:  “Essa  é  outra  história, uma nova história que eu vou contar. Aí vai!”  E  vai  mesmo.  Mas  o  leitor  é  exigente.  No  final  não  se  contenta  com  o  desfecho  apresentado. Exige justiça, exige tudo explicado tim‐tim‐por‐tim, não tem paciência  para histórias mal contadas. O menino do Jardim da Estrela protesta e diz que ficou  tudo igualzinho ao que era: o menino em casa dos pais e o rei (apesar de aldrabão)  no palácio: “Ainda se o rei mais os gabirus dos cortesãos tivessem apanhado um bom  apertão, vá lá… Isso era giro, aceitava‐se (…)” protesta o menino.  O António aceita a crítica e até agradece a dica: “Finalmente percebi onde é que ele  queria chegar. Achava o fim fraquito, deslavado, poucochinho (…)” e tem finalmente  uma ideia certeira: no final, o povo dispensou o rei e os cortesãos do palácio “e no  lugar deles colocou gente de sua confiança, gente sem vaidades, que não tinha medo  que lhes apontassem as faltas, de que lhes dissessem as verdades duras que todos os  governantes têm de saber ouvir.” O menino do Jardim da Estrela só arredou pé com a  garantia de que aquele final era definitivo e ainda ameaçou: “se eu sei que contas a  história  e  não  metes  esse  fim,  chamo  a  malta  lá  do  meu  sítio,  vamos  atrás  de  ti  e  fazemos‐te uma surriada”. Com leitores assim, um escritor não precisa de mais nada:  pia fininho, dá o seu melhor e mais nada…  O  que  eu  desconfio  é  que  este  menino  –  que  talvez  seja  o  mesmo  que  aparece  na  história “O Cavalo Azul”, o tal que vê um cavalo azul no mar – este menino, dizia eu,  vive  ainda  debaixo  do  chapéu  do  António  ou  no  bolso  da  sua  camisa  (no  caso  do  António não usar chapéu).   Já imagino os títulos nos jornais quando se descobrir o fenómeno: “António Torrado  escreve  com  criança  debaixo  do  chapéu”  ou  “  António  Torrado  guarda  menino  no  bolso da camisa” (e em subtítulo para vender mais jornais “E o menino é que lhe dita  os textos”) ou “Escritor António Torrado ouve vozes enquanto escreve (e estas vozes  discutem e berram entre si)” e, finalmente, uns dias mais tarde “António Torrado dá  um murro na mesa e diz: quem manda aqui sou eu!”.  Ao ler de novo os seus livros (alguns de novo, alguns pela primeira vez) sinto que é  algo assim que acontece – o pequeno leitor ou o grande com exigências de pequeno    – está lá sobre a mesa onde o Torrado escreve, não sei se à mão, se à máquina, se no  computador.  O  leitor  está  lá,  mas  não  está  calado;  o  leitor  está  lá,  mas  não  está  quieto.  Dá‐me  ideia,  até,  que  não  pára,  que  entorna  o  copo  das  canetas,  que  interfere com o movimento do rato de modo cansativo, que tira as folhas da ordem e               


as espalha pelo soalho. E, pior que tudo, o leitor faz perguntas a meio das frases (das  frases  do  António,  claro),  interrompe‐lhe  um  parágrafo  para  tirar  uma  dúvida  ou  sugerir, com olhos doces, “uma alteraçãozinha, se faz favor”.  O  pequeno  leitor  da  mesa  do  Torrado  (e  só  lhe  chamamos  pequeno  porque  ele  é  mesmo uma criatura de pequenas dimensões, portátil, capaz de caber em qualquer  bolso ou chapéu) mete o bedelho, pede explicações, atreve‐se a dizer que o final está  chocho, que podia ter mais piada, enfim que não surpreende por aí além. E o António  estica‐se, esmera‐se, dá o litro. O leitor aplaude e o António fica também mais feliz  porque gosta mais das histórias assim: divertidas, inesperadas, bem construídas.  A mim, já me perguntaram dezenas de vezes se penso nas crianças quando escrevo.  E, na verdade, talvez não pense o suficiente. Há uma ideia que me persegue e que a  partir  de  certa  altura  sou  obrigada  a  agarrar,  mas  sinto  que  muitas  vezes  me  faria  muita falta um menino desses que dormem dentro do chapéu e saltam ao pé coxinho  sobre as teclas do computador (li numa revista que o menino do chapéu do Torrado,  no  outro  dia  encravou o  “S”  do  teclado  e  foi  um  sarilho,  pois  já  nem  “SARILHO” se  podia escrever em condições… e todos sabemos como nas suas histórias o que não  faltam são sarilhos).   É  por  isso,  Professor  António  Torrado,  Querido  António,  Sr.  Escritor,  que  lhe  pedia,  humilde mas encarecidamente, que fizesse o favor de me emprestar (de quando em  quando,  pois  nem chego  a  escrever  que chegue  para  que me chamem  escritora),  o  seu pequeno leitor endiabrado. Desejosa estou que me faça a vida negra, me obrigue  a  suar  as  estopinhas  e  a  ser  exigente  com  os  finais  que,  como  toda  a  gente  que  escreve me confirmará, são a parte mais difícil de qualquer livro.   Acha um abuso ou posso contar consigo?        Um abraço!    Isabel Minhós Martins                   

            


SOU  

Sou como os outros  Sou como os que andam  Como os que apontam  Sou imperfeito.    Como imperfeito estou desertado  Olho para o céu escuro como breu  Nele não posso entrar  E simplesmente desaparecer.    Fiquei sem norte  Mas tenho o sul  Espero que me ajude  Que não me abandone.    Como os imperfeitos  Contra a imperfeição não posso lutar  Por isso vou viver o mundo  Para depois o deixar.    Sou como os outros  Sou como os que andam  Como os que apontam  Sou imperfeito.                                                              José Lança de Matos    António,  Escrevi este poema porque não somos perfeitos e que nos perdemos. Eu também  me perco nos teus livros. Adoro as tuas obras e as que tenho já as li imensas vezes.  Adoro a tua maneira de escrever, utilizando palavras difíceis. Espero que gostes do  poema que escrevi para ti.   Abraços.   

            


«ROSAS CHÁ, as mais lindas!»        No  campo  saborear  livros  eram  pausas  raras  às  soleiras  das  portas.  Uma  prima  soletrava coisas maravilhosas e também assustadoras! Para lá dos caminhos das matas  e  terra  lavrada,  outros  mundos  existiam…  Lobos?  Esses  moravam  lá  na  serra,  pela  certa, mas quem sabe, a Velha da Cabaça, talvez um dia a víssemos a rebolar naquelas  descidas  de  terra  vermelha e  o  João  Pateta  poderia  ser,  um  daqueles  estranhos, dos  dias de feira, comprando uma bilha de barro, que depois arrastaria até casa, atada com  um cordel à asa! Hoje é mais fácil. Reencontro‐me nos contos tradicionais, porque um  escritor, homem de cidade, muito culto, dado às letras, bem vestido e elegante, como  se  as  palavras  simples  o  protegessem  e  iluminassem,  nunca  se  desviando  de  um  mundo poético ancestral. Escreveu de novo esse património da tradição popular. Nisso  se vê, o quanto estuda e investiga! E como transmite as suas descobertas sobretudo às  ‘ensinadoras’  professoras  e  professores  em  conferências  sobre  literatura/livros  para  crianças, a que chama ‘Bosque Mínimo’.     Conheci‐o  nos  anos  oitenta,  rodeado  de  uma  geração  soberana  de  pessoas  escritoras,  Maria  Alberta  Menéres,  Matilde  Rosa  Araújo,  Ricardo  Alberty,  Lúcia  Namorado,  Natércia  Rocha,  Alice  Gomes,  Ilse  Losa,  Adolfo  Simões  Müller,  Madalena  Gomes, Leonoreta Leitão, Luísa Ducla Soares, António Mota, Alice Vieira, etc….  Mas, António Torrado é mais que um escritor, é um mestre. Um dia, descobri‐o numa  oficina para gente grande, fazendo sair de uma taça de vidro um ovo dourado, galinha  dos  ovos  de  ouro,  (?)  talvez!  Tratava‐se  de  um  ciclo  sobre  lendas  de  ouro…  fiquei  fascinada.  Inscrevi‐me  num  curso  sobre  arte  de  narrar,  (não  me  lembro  bem  do  título…), porque o mestre era António Torrado. Num inverno chuvoso lá o frequentei,  infelizmente poucas vezes, mas não perdi a sessão que nos colocou no caminho de um  outro  mestre,  Ítalo  Calvino!  Imaginava  que  tinha  a  sorte  de  estar  na  Grécia  antiga  sendo  discípula  de  um  filósofo.  «Os  três  reis  do  Oriente»  davam‐me  esse  lado  do  escritor,  que  tinha  começado  a  admirar  com  o  «Veado  Florido»,  esse  grito  de  Liberdade,  em  pequeno/grande  formato  saía  à  rua  na  primeira  Feira  do  Livro  para  crianças, que o 25 de Abril trouxe, à então, vila de Alcobaça. Mais tarde encantei‐me  pelos  seus  teatros  e  as  peças  representadas  no  palco.  A  última  que  recordo  é  em  memória de Fernando Lopes Graça.   Um dia houve, que na minha escola do 2.º ciclo, no projecto de visita de escritor, foi  anunciada  a  sua  vinda!  Foi  uma  azáfama  de  preparação.  Andava‐se  na  altura  em  reuniões  para  a  constituição  do  que  agora  de  chama  uma  Agrupamento  de  Escolas.  Quando a notícia chegou à Escola do 1.º ciclo, esta abriu uma guerra com o 2.º ciclo,  afirmando  que  tinha  sido  o  4.º  ano,  que  estava  estudar  a  obra  do  escritor,  quem  primeiro tinha solicitado o escritor A. Torrado. Só se acalmaram porque foram todos  convidados  a  almoçar  com  o  escritor.  Na  hora  do  lanche  houve  flores  e  António  Torrado disse: «São ROSAS CHÁ, as mais lindas!»                                                       

   

            

Lúcia Serralheiro 


Na Homenagem a António Torrado         Como  os  protagonistas  do  “Sr.  Aurélio”,  o  António  também  participou  numa  corrida ao ouro. Mas a um ouro que sai da sua caneta e só nos enriquece o espírito.                                                                                                                         Luís Filipe Costa                                 

            


Caríssimo Amigo,        Pediram‐me  para  lhe  dirigir  uma  carta,  António,  e  acho  que  é  a  primeira,  em  mais  de  50  anos  de  amizade.  Nunca  precisei  de  lhe  escrever  porque  nos  vemos  e  falamos tantas vezes…     Nascemos  no  mesmo  ano,  cursámos  a  mesma  Faculdade  de  Letras,  demos  o  coração  a  amigos  comuns,  partilhámos  as  mesmas  causas,  encaminhámo‐nos  ambos  pelas  veredas  da  literatura  infantil,  apostados  em  não  a  infantilizar,  antes  a  enriquecermos de palavras, imaginação, dignidade.     Eu  poderia  alargar‐me  aqui  a  falar  do  esplendor  da  sua  escrita,  digna  de  antologia, e no entanto capaz de, como flauta mágica, encantar os meninos que ficam  presos à magia das suas histórias.      Poderia falar do seu talento como dramaturgo, das suas qualidades de formador.      Poderia  falar  do  trabalhador  incansável  ao  serviço  da  Cultura  e  da  defesa  dos  seus direitos na Sociedade Portuguesa de Autores.     Poderia falar da sua versatilidade, do excepcional repentismo na criação que lhe  permitiu manter um site na internet com uma história diferente para cada dia.      Poderia  falar  de  uma  sabedoria  milenar  e  extremamente  moderna  que  você  transmite,  da  filosofia  que  mal  transparece  em  certos  textos  mas  é  afinal,  a  sua  essência.      Poderia falar do seu humor divertido mas crítico que nos faz sorrir e pensar.      Poderia  falar  da  generosidade  que  compartilha  com  colegas  de  ofício,  da  simpatia que oferece a toda a gente. Da sua sinceridade.      Não  caberia  num  calhamaço,  daqueles  pesados  e  sem  desenhos,  não  caberia  numa tese tudo o que eu poderia dizer de si.       Mas nesta justa homenagem que lhe prestam, é uma grande alegria que desejo  manifestar. Uma alegria bem sentida porque o António é o meu maior amigo, aquele  com  quem  compartilho  momentos  bons  e  maus,  o  companheiro  a  quem  peço  conselho, falando consigo horas a fio, pelo fio de um telefone.      Obrigada por ser como é!      Um grande abraço, António.              Luísa Ducla Soares           

            


Caro António Torrado,    hoje lembrei‐me de si. Aliás são muitos os dias em que me lembro de si.  Muitas  foram  as  coisas  que  aprendi  consigo  naquela  workshop  em  2007  na  Biblioteca  de  Algés  "Estratégias  da  narrativa  no  conto  tradicional  e  no  conto  para  crianças",  muitas  coisas  interessantes  e  divertidas  e  bonitas.  Como  gosto  de  o  ouvir  falar,  discorrer  sobre  os  contos...  Como  gosto  de  ler  os  seus  contos,  alguns  tão  poéticos, outros tão engraçados, todos tão bem escritos. As crianças portuguesas têm  mesmo muita sorte de existir o António Torrado! Eu, quando era criança não tive essa  sorte, já era adulta quando o descobri.   Também  não  admira,  quando  eu  era  criança  o  António  Torrado  ainda  não  tinha  nascido e assim não tive a sorte de ler os seus contos com olhos de criança.   Mas  o  António  Torrado  sim,  tem  olhos  de  criança.  Aqueles  olhos  que  tudo  admiram e com nada se espantam, que animam os objectos de todos os dias, que vêm  a  alma  das  coisas,  que  compreendem  animais  e  plantas  e  tudo  envolvem  num  turbilhão  de  vida,  sentimentos  e  emoções,  enredos  e  aventuras.  Faz  do  mundo  uma  espécie de baú mágico: é só fechar os olhos e de lá sai tudo o que existe e não existe  mas é como se existisse e nos arrasta consigo num entusiástico faz‐de‐conta. Isto é, só  fechar  os  olhos  às  coisas  prosaicas  e  aborrecidas  mas  abrir  bem  os  olhos  para  ler  as  histórias ‐ os olhos para ler e os olhos para entender e para pensar e para imaginar e  para sentir.  Meu caro António Torrado, obrigada por existir!  E faça‐me um grande favor: exista ainda por muito, muito tempo!    E aceite um grande abraço da     Luísa Rebelo   "Contabandistas de Histórias"                   


11 de Setembro de 2010 |  02:58 |  Mafalda Milhões     ‐Matilde, queres escrever uma carta com a mãe. É para um amigo, para o António  Torrado.  ‐Mãe, o António Torrado é um avô?  ‐É, acho que sim.  ‐E...  tem  as  Histórias  na  cabeça?  Olha  vamos  escrever  uma  carta  porquê?  Está  longe ou porque temos saudades?  ‐Sim...  e  também  porque  todos  os  amigos  estão  a  escrever  cartas  para  lhe  fazer  uma surpresa.  ‐Se ele é amigo pode vir aos meus anos?  ‐Tu gostavas?  ‐Sim... eu não me lembro dele mas assim é que era surpresa e ele gostava mais.  ‐Sabes que história é que ele escreveu? O pato patareco.  ‐Eu sei qual é!...é a dos desenhos que a Cristina andava à procura e fomos nós que  encontramos.    Querido António,     Depois de ter estado à conversa com a Matilde, eu continuei na escrita enquanto  ela  desenhava  uma  história.  No  final  explicou  que  é  uma  rainha  no  seu  castelo  de  letras que é muito bonita mas tinha medo de formigas e de estar longe da mãe e do  pai.   Desenhou,  pensou  e  escreveu  tudo  num  instante.  Quando  acabou  deu  sinal.  Acabei... posso ir brincar agora?  Dei por mim perdida no tempo, resgatando as memórias e a pensar quando é que  nos cruzamos pela primeira vez.  Estive dias até me lembrar que quando o vi pela primeira vez, o António não usava  óculos, não tinha cabelo grisalho nem rosto, era feito de papel.  Lembro‐me que estava sentado na prateleira do armário, ao fundo da sala de aula  da minha escola. Uma escolinha  plantada numa aldeia chamada Sobredo, situada no  coração de Trás‐os‐Montes ao lado da casa da Tia Lurdes ‐ que era tia de toda a gente.  Estava  sentado,  se  não  me  engano,  ao  lado  da  Maria  dos  olhos  grandes  e  do  Zé  Pinpão,  tinha  um  ar  cansado  e  gasto,  só  tinha  capa  da  parte  da  frente  e  as  folhas  estavam presas ao que restava da capa com fita cola amarela muito dura e seca.  Lembro‐me  bem  que  quando  a  minha  mãe  ou  a  professora  Isabel  contavam  histórias nunca liam uma só. Quando se levantavam para ir ao armário aproveitavam a  viagem e ficávamos por ali, na companhia de um soldado chamado João, uma Maria de  olhos  grandes,  uma  menina  que  tinha  um  amigo  que  lhe  dava  presentes  e  mais   presentes...       

            


É... recordo agora, que a biblioteca da minha escola não tinha muitos livros, era apenas  um armário que tinha  o essencial, uma mão cheia de livros que nos  proporcionaram  fantásticas viagens.  Afinal eram feitas por uma mão cheia de autores que liam o mundo de uma ponta à  outra.  Não se esqueça que a nossa casa também é sua... tem bicho e é de conto.    Um beijinho,             Mafalda Milhões, Pedro, Matilde e Maria às voltinhas dentro da barriga da mãe.      Deixo  mais uma  mão  cheia  de  recadinhos,  abraços  e  admiração  de todos  os  que  vivem a leitura aqui no cimo do monte onde os seus livros estão voltados de frente para  o mar.     Um beijinho da     Cris, do António, da Nicole e da Elsa.                           

            


Era uma  vez  um  António  Torrado.  Torrado  de  nome,  não  de  ter  sido  esmagado  dentro de uma torradeira. Chamava‐se assim, é só isso.  Vivia  a  tratar  das  suas  abóboras,  todos  os  dias  regadas  com  imaginação,  humor  e  muita  vontade  de  partilhar.  Mais  não  eram  que  histórias  em  potência,  só  que  o  António ainda não sabia disso, só desconfiava em sonhos…  Conta‐se  que  certo  dia  lhe  apareceu  um  mendigo.  Era  bastante  obstinado,  pois  insistia  em  querer  uma  sopinha  de  abóbora.  O  António  lá  lhe  disse  que  tivera  demasiado trabalho com aquelas abóboras e que não as queria abrir assim… Só que o  mendigo  não  se  calava.  Queria  a  sopinha  de  abóbora  e  não  se  cansava  de  repetir  a  mesma ladainha.  Quem  se  cansou  de  o  ouvir  (enfim,  quem  teve  pena  dele)  foi  o  António  e,  partilhador  como  era,  lá  abriu  uma  para  o  contentar.  Pobre  António!  Nem  queria  acreditar nos seus olhos! Então não era que estavam cheiinhas de inícios de histórias?!  Pasmado,  virou‐se  para  o  mendigo,  a  fim  de  lhe  dizer  qualquer  coisa,  mas  este  desaparecera…  Por cada ideia, lá nascia uma história. Muita história nasceu a partir desse dia!  A notícia deve ter corrido veloz, pois houve cada vez mais gente a tentar conhecer o  produto das abóboras. E o António, partilhador por excelência, nunca se cansou de as  distribuir a todos os que as quisessem. Há mesmo quem diga que dava uma por dia,  imaginem!  O Rei da Literatura resolveu presenteá‐lo – uma generosidade daquelas teria de ser  compensada.  Parece  que  lhe  ofereceu  um  elixir  especial,  que  se  propaga  pelo  horizonte até onde os olhos gostariam de chegar – desta forma, permitiu‐lhe nunca se  cansar de escrever.   E é por isso que o António, Torrado de nome, jamais deixou de dar a todos histórias,  contos e teatros, que nos fazem sorrir, pensar, sonhar, comover.   E  sabe‐se  que  vão  viver  muitos  anos,  estas  histórias,  a  habitar  as  pessoas  que  gostam de as ler e ouvir.                                      Margarida Fonseca Santos   

                       


Uma carta…  E faz mesmo sentido que para o António seja uma carta tanto ele ama esta forma  de comunicação em que as palavras não se diluem ao vento mas permanecem, ainda  que envelhecido o suporte, e permitem que as saboreemos e façamos nossas sempre  que o desejarmos.  Eu,  que  também  ainda  me  emociono  quando  recebo  uma  carta  e  que  tento  reinstaurar  entre  os  amigos  esta  forma  de  contacto,  escrevo  agora  uma  carta  ao  António… Cresci entre cartas, cartas que traziam e levavam notícias e tanto quanto a  memória o permite sentíamos a vida suspensa de uma carta, de uma linha ou até de  uma  palavra  que  nos  chegava.  Além  das  notícias  a  carta  tecia  e  (des)  tecia  afectos,  abria  frestas  para  clareiras  de  luz  ou  transformava  brumas  cinzentas  em  auroras  luminosas.  Hoje  ao  escrever  ao  António  também  tenho  algo  a  transmitir  que  traz  alegria  aos  corações  e  permite  admirar  a  grandeza  do  universo  povoado  de  estrelas  sob cuja quentura nos sentimos aconchegados e confiantes.  O  António,  que  é  sem  qualquer  dúvida  uma  estrela  de  primeiríssima  grandeza,  conquistou um lugar único como artífice da palavra oferecendo a sucessivas gerações  de  crianças  e  jovens  livros  que  permitem  um encontro  encantado  com  o  mundo  das  palavras. O estilo inconfundível deste Mestre não permite a indiferença e cativa para  sempre  quem  o  lê  ou  escuta.  Por  outro  lado  também  se  aprende  a  percorrer  os  caminhos  da  vida  seguindo  os  fios  da  narrativa  de  António  que  numa  oratura  permanente  segredam  subtis  ensinamentos  em  cumplicidades  que  os  ritmos  da  sua  escrita  tornam  sempre  agradáveis.  É  de  facto  uma  escrita  singular:  concisa  sem  esquecer  os  requebros  necessários  à  sedução,  acutilante  sem  perder  a  delicadeza,  erudita preservando a acessibilidade, imaginativa sem perder os elos com o quotidiano  e sempre povoada desse humor distinto a que nos habituou e que maneja com primor  e esta seria característica suficiente para o querermos junto das crianças e jovens. Mas  eu não quero fazer apreciações específicas à obra deste meu Mestre pois este não é o  lugar embora nunca seja demais que se reflicta sobre a mesma…  Também  no  domínio  dos  afectos,  quem  o  conhece  completa  a  veneração  que  a  sua  escrita  provoca.  António  Torrado  é  um  homem  cuja  hombridade  transparece  facilmente para os que têm o privilégio de privar mais de perto com ele; a delicadeza  atenta para é constante e leva‐o a esquecer‐se de si para que outros possam aceder a  um primeiro plano de atenções; pude assistir a até participar em situações concretas  desta lindeza de carácter – provavelmente o António nem se recorda – e também de a  experimentar.   

            


Obrigada pelo carinho sempre manifestado e pelos privilégios concedidos!  Bem haja, António, pelo extraordinário legado com que nos enriquece!  Não espero a resposta na volta do correio – como outrora terminávamos as cartas  – mas espero a continuação de muita saúde e bem‐estar para que possamos saborear  tão agradável presença e usufruir dos frutos de uma pena tão abençoada.  Despeço‐me com muito carinho e apreço  Sempre dedicada     Maria da Conceição Costa   (Lisboa, 3 de Setembro de 2010)                                                   


Caro António Torrado:  Li  às  minhas  filhas  e  aos  meus  alunos  os  seus  livrinhos  iniciais,  publicados  numa  colecção  dirigida  por  Liba  da  Fonseca.  Depois,  recordo‐o  nos  Encontros  de  Literatura  para  Crianças,  organizados  pela  Natércia  Rocha,  amiga  comum.  Mas  estas  são  memórias  comuns  a  desvairadas  gentes  que,  anualmente,  "peregrinavam"  até  à  Gulbenkian para apreenderem e compreenderem o poder da literatura para crianças, e  em especial da oratura, na criação de leitores fiéis....  Neste texto, porém, vou deter‐me apenas numa memória "única“ em que não me  cruzei consigo mas cujas consequências foram devastadoras na minha carreira!  Diz respeito à exposição Imagem do Lobo na Literatura para Crianças organizada  na  Escola  do  2°  Ciclo  da  Trafaria,  pela  nossa  amiga  comum,  Margarida  Leão,  que  ali  ensaiava práticas "manhosas" para caçar leitores rebeldes e incautos. Uma exposição  inovadora, à época, que me deixou pasmada e rendida às artimanhas para fazer vir à  Escola crianças da pele do diabo e que viria a agravar a minha tendência para crer que  a  culpa  do  insucesso  escolar  está  mais  do  lado  do  professor  que  do  aluno!!!  (Que  o  Ministério da Educação leve a sério a formação docente!). Consegui que a exposição  viajasse para a escola em frente, na margem norte do Tejo onde trabalhei longos anos  com  a  Margarida  Leão,  sua  também  criativa  amiga.  Um  dia,  chegou  a  volumoso  encomenda:  as  imensas  folhas  de  papel  de  cenário  que  suportavam  a  história  da  evolução da "imagem" do animal, desde as fábulas escritas em grego, até aos contos  tradicionais, passando por La Fontaine, de farta cabeleira aos caracóis...; os fantoches  de  pasta  de  papel  dos  três  parquinhos,  com  fatiotas  aos  quadrados,  o  lobo  feroz  de  dentes arreganhados, uns cordeiros vestidos de pano de lençol puído, tudo fabricados  pelas mãos inábeis dos absentistas alunos da Trafaria que, no entanto, não faltavam a  estas funções!!!; a listagem de obras a contar e a recriar: O Lobo e os Sete Cabritinhos,  As  Três  Fortunas  do  Lobo  Feroz,  O  Lobo  e  o  Cordeiro,  O  Capuchinho  Vermelho...A  proposta de um "julgamento do lobo" por tantas malfeitorias contra crianças e animais  indefesos...A  biblioteca  da  Escola,  habitualmente  sombria  e  sisuda,  com  os  livros  fechados  atrás  das  grades,  encheu‐se  de  gargalhadas.  Não  consegui  reeditar  o  tal  julgamento onde o António Torrado foi juiz, em terras da outra margem do Tejo. Mas  sei,  de  cor,  o  que  aconteceu  na  Trafaria,  incluindo  a  sentença  que  lavrou  depois  de  ouvidas  as  testemunhas  de  acusação  e  de  defesa  do  Lobo...Pobre  animal  que  até  é  bom  pai  de  família,  como  apuraram  os  alunos  a  quem  coube  demonstrar  que  as  vítimas  das  histórias  carregam  com  os  defeitos  dos  seres  humanos,  para  seu  aviso.  Mais  tarde,  fui  cúmplice  da  introdução,  nos  Programas  de  Língua  Portuguesa  do  2°  Ciclo,  do  seu  nome.  Mais  tarde,  tive  a  honra  de  receber  uma  carta  escrita  pelo  seu  punho para ser lida na apresentação do meu livrito Rimas e Jogos Infantis, no Museu  João  de  Deus...  Mais  tarde,  construí,  com  um  grupo  de  Educadoras,  o  Projecto  Literatura  &  Literacia  que  haveria  de  me  fazer  peregrinar  pelo  país_  e  conversar  consigo,  ao  serão  de  um  dos  Encontros  da  ESE  de  Castelo  Branco.  Os  seus  livros,  publicados  na  Colecção  Caracol  ‐  que  permitiam  aos  leitores  incipientes  concluir  a  tarefa de uma leitura integral‐ pertenciam ao acervo enviado às escolas, em caixas de  brinquedos!...Mais  tarde,  vi  uma  inesquecível  dramatização  d'  O  Mercador  de  Coisa  Nenhuma, texto autobiográfico, dito pela voz das marionetas do Delfim Miranda...Mais  tarde, contei com o seu testemunho sobre Matilde Rosa Araújo, na festa de aniversário                


em que  a  escritora  deu  nome  a  uma  das  salas  do  Centro  de  Estudos  de  Literatura  e  Literacia...  Mais  tarde,  levei  as  minhas  netas  à  Feira  do  Livro  para  conhecerem  tão  prodigioso  autor...Creio  que  não  saberá  quanto  o  meu  trabalho  foi  influenciado  pelo  seu! Tivesse eu o seu talento!  Estou‐lhe grata por tudo!    São  Miguel  das  Areias  (antigo  e  mais  bonito  nome  da  aldeia  que  hoje  se  chama  Coimbrão)    14 de Agosto de 2010    Maria da Conceição Rolo                                                 


Querido Amigo  Descobri  o  encanto  das  janelas  consigo,  com  Beaudelaire  e  com  as  viagens  a  países mais a norte.  Quando  eu  guardava  o  encanto  das  histórias  de  infância  como  memória  e  descobria  outros  interesses  na  literatura,  lia  “Les  Fenêtres”,  de  Beaudelaire,  e  suspeitava também que aquele que olha para fora através de uma janela aberta não vê  tantas coisas como aquele que olha uma janela fechada.  As  janelas  sem  cortinas  (hábito  que  não  temos  em  Portugal…)  fascinaram‐me  quando  passeei  pelas  ruas  de  Amesterdão,  permitindo  a  quem  estava  dentro  ver  os  canais e abrindo‐se ao olhar de quem passava e via lá dentro as estantes com livros, as  mesas,  o  sofá  onde  alguém  lia  confortavelmente,  indiferente  a  quem  olhasse  para  o  seu refúgio. Eu ficava imaginando conversas, paixões e dramas, os sonhos de quem lá  vivia. Poucos anos depois, as tais histórias de infância voltaram a fazer parte do meu  dia‐a‐dia, enriquecidas, alargadas, saborosas,  musicais, pela mão do António. E entre  muitas outras coisas que descobri no que o António tem escrito lá estão as janelas!   Através dos seus contos, querido António, tentei também que os meus alunos  compreendessem melhor o mundo, as alegrias, as dificuldades, o sentido de humor, o  brincar com a adversidade para a ultrapassar. Uma aluna, com o seu curso de futura  professora ainda “fresquinho”, escreveu‐me há dias: “Muito obrigada por todo o apoio  dado  ao  longo  dos  anos,  pelas  partilhas  de  tão  doces  livros  e  por  me  mostrar  como  somos mais e melhores quando aprendemos a respeitar e amar as palavras “. Comovi‐ me. Mas quero dizer‐lhe que os seus livros também fazem parte desta partilha. E acho  que  a  tal  menina  que  um  dia,  numa  escola,  lhe  perguntou  “Quantas  vezes  é  que  já  ganhou o Prémio Nobel?” lá tinha as suas razões bem fundamentadas…  Descobri também pontes entre a infância e outras etapas da vida encontrando,  não  só  nos  seus  contos  “para  crianças”,  mas  também  no  teatro,  nos  contos  “para  adultos”    fios  entrelaçados  que  nos  mostram  como  a  sua  obra  literária  é  um  todo  coerente,  sólido,  construído  a  par  e  passo  sem  rupturas,  ainda  que,  às  vezes  ,  os  “críticos”  a  comentem  “em  fatias”.  Por  isso  lhe  dediquei  parte  do  trabalho  mais  importante da minha vida académica, como sabe, e gostei de falar dos seus textos na  célebre Sala dos Capelos, em Coimbra.  Mas, voltando às janelas, continuo a pensar em si como “um escritor no peitoril  da janela”, como escrevi há 15 anos atrás. Alguém que olha o “dentro” e o “fora”, num  equilíbrio instável, talvez por isso mesmo criativo… E foi desde aí que trocámos postais  com janelas de muitas cores e muitas formas. Janelas tradicionais, como algumas das  suas histórias, janelas modernas, janelas com vasos de flores, tendo o António escrito,  uma vez, que numa delas faltava um gato. Agora, tenho um gato. Um felino esperto,  meigo e fugidio, com patas de veludo que rapidamente se transformam em pequenas  garras  ameaçadoras  e  de  novo  em  almofadinhas  suaves.  Por  isso,  quero  enviar‐lhe,  junto com esta carta, uma janela de onde o meu gato por vezes nos espreita dentro de  casa  ou  observa  lá  fora  as  folhas  das  árvores  tremendo  quando  passa  o  vento,  os  pássaros que poisam nos ramos. Sempre observador, sempre à descoberta do mundo.      

            


Como o António.     

        A sua amiga de sempre, partilhando consigo a miopia que nos faz ver o mundo  com contornos variáveis,                                                                                                                                            Maria da Natividade Pires   

                               


Alhandra, 26 de Agosto de 2010 

Meu querido António Torrado  Perdoe‐me  esta  intimidade  porventura  excessiva  no  trato,  mas  ela  vem  do  afecto  que por si sinto. A verdade é que, quando nos conhecemos em 1996, há já quase vinte  anos  que  eu  sabia  que  dialogava  inteligentemente  com  a  infância.  A  si,  enquanto  leitora,  descobri‐o  tarde,  já  teria  passado  os  meus  10  anos  de  idade;  voltei  a  lê‐lo  depois,  e  desde  então  continuadamente,  assim  que  o  destino  me  proporcionou  trabalhar na área da literatura para crianças e jovens.  Nunca  tive  oportunidade  de  lhe  contar,  mas  desse  primeiro  encontro  com  a  sua  literatura,  o  que  me  ficou  na  memória  foi  um  livro  forrado  com  um  papel  de  fundo  branco  e  grandes  corações  vermelhos  que  muito  me  encantava;  debaixo  dessa  forra  estava o Livro Aberto, um manual escolar de 1976, para a 1ª fase do Ensino Primário,  que  a  minha  mãe  trabalhava  com  os  seus  alunos,  feito  em  colaboração  com  Maria  Alberta Menéres. Ficou‐me sempre gravado na memória o quanto me surpreendeu aí  ler  O  Trono  do  Rei  Escamiro:  falar  de  um  ditador  que  cai  de  uma  cadeira  a  crianças  pareceu‐me  um  acto  ousado  e  necessário,  na  percepção  que  então  tinha  de  uma  revolução  recente,  associada  a  pormenores  semelhantes…  Até  então  não  tinha  encontrado ninguém que me tratasse, na literatura, com igual consideração enquanto  criança…  Já depois de nos conhecermos pessoalmente, descobri que nasceu no mesmo ano  do meu pai e tal me fez sentir como que filialmente envolvida na estima que sempre  generosamente  por  mim  tem  manifestado,  a  qual  retribuo,  acrescentando‐lhe  uma  admiração imensa, que aumenta conforme vou procurando saber mais sobre as suas  diferentes frentes de trabalho e criação.  Não  tenho  dúvidas  sobre  o  facto  de  conhecer  uma  figura  ímpar  do  nosso  tempo,  com  um  trabalho  sólido,  erudito  e  criativo,  nomeadamente  na  literatura  que  tem  produzido  tendo  como  alvo  leitores  infanto‐juvenis.  Aliás,  para  o  grande  público  tal  tornou‐se  evidente  desde  que  Maria  José  Costa  coordenou  e  a  Editorial  Civilização  editou  o  primeiro  volume  da  colecção  “Uma  pequenina  luz  bruxuleante”,  de  1994,  intitulado António Torrado. Também são evidentes desde há muitos anos os sinais de  que a instituição literária o integrou no seu cânone, pela atribuição de prémios, pelos  estudos  académicos,  pelos  seminários  em  que  aspectos  da  sua  obra  são  estudados.  Pessoalmente,  no  entanto,  desagrada‐me  o  facto  de  a  crescente  crítica  literária  em  meios de grande difusão, se preocupar excessivamente à vol d’oiseau com a novidade,  a  qual  se  assinala  com  entusiasmo  e  por  vezes  confrangedora  falta  de  perspectiva  histórica. Também no sistema educativo não é óbvio que esteja garantido que todos  aqueles que o frequentam convivam com as suas obras e as compreendam – com as  suas obras e outras, de outros príncipes e princesas das Letras.                 


Bom, o certo é que se anuncia tempos de festa e não de amargura: até Setembro,  nas Palavras Andarilhas! Estou ansiosa por voltar a dar‐lhe um abraço!    Com afecto,                                Maria do Sameiro Pedro                                                   


Montalegre, Setembro de 2010         Querido António Torrado solicitam‐me para que te escreva...  Missão quase impossível, escrever o quê para um Escritor?  Lembrei‐me então, que poderia aproveitar o ensejo para te agradecer não só em nome  particular  mas  também  em  nome  de  todos  aqueles  que  diariamente  visitam  a  nossa  casa ‐ Biblioteca Municipal de Montalegre.  Obrigada por:    Seres quem és, pessoa de “corpo inteiro”;  Pelo teu engenho e arte revelados na escrita;  Por não deixares morrer a arte de contar;  Pela tua vasta obra que nos delicia a todos;  Por Andarilhares connosco;  Pelo sorriso que sempre ofereces sem pedir nada em troca.         Certamente  que  haveriam  muitas  coisas  mais  a  enumerar  que  pudessem  ser  agradecidas, mas deixo isso, para um abraço fraterno, amigo e quente, das gentes da  Terra Fria, de que sou portadora para to dar!          Post Sciptum: Aproveito ainda para te lembrar que o Convite está de pé – quando é  que podes vir a Montalegre?    Tua Leitora e Amiga,    Maria Gorete Barroso Afonso  Biblioteca Municipal de Montalegre             

            


Ao António Torrado     “ Uma Carta sem nada de novo”    Aconteceu.  Naquele dia em 1939  Traços de alegria nas faces  Outras sensações.  Nasceu o menino  Iniciou‐se uma vida  Onde a PALAVRA será Rainha.      Tantas são as ideias  Os pensamentos infinitos.  Reúne imagens, constrói histórias  Reflecte valores, enobrece a vida  Abraça o universo infantil  Dá de si histórias sem fim  Onde o AFECTO é mesmo Rei.       

                                           Quarta‐feira, 25 de Agosto de 2010                                                                                 Um abraço                                                                              Da professora que muito o estima                                                                   Maria Irene Serrão                                             

            


A‐das‐Palavras, 23 de Agosto de 2010               Ex.mo Sr. António Torrado            Maria João Silvestre, na qualidade de leitora e no defeito de reclamante, vem, por este  meio,  denunciar  um  conjunto  de  situações  deveras  danosas  e  moralmente  condenáveis  causadas por Vossa Excelência.           Aconteceu pois que, enquanto criança, cedo foi vítima do assédio intelectual das letras  da sua autoria, ali, sempre a torrar‐lhe o juízo, de páginas abertas, sedutoras, prometendo, e  cumprindo!, momentos de puro prazer.         Quando professora, foi com grande consternação e verdadeiro horror que constatou o  quão  perniciosa  pode  ser  a  sua  obra,  comprometendo  a  formação  e  educação  dos  nossos  jovens e sendo a verdadeira e real causa da falta de disciplina nas escolas nacionais: sempre  que,  por  ossos  e  bifes  do  ofício,  se  viu  obrigada  a  trabalhar  nas  aulas  Vem  aí  o  Zé  das  Moscas,  apercebeu‐se  de  uma  espécie  de  histeria  colectiva  desencadeada  nos  alunos,  levando‐os  a  construírem  cenários,  fazerem  pesquisas,  escreverem,  dramatizarem.  Um  verdadeiro drama: bzz p'ra'qui, gargalhada p' ra' li! E a coisa tende a repetir‐se sempre que  surge um texto com a sua marca registada.          Acresce que um autor de missivas do tipo Da rua do Contador Para a Rua do Ouvidor,  sem  identificação  de  remetente,  receptor  ou,  pior  ainda  !,  do  código  postal,  e  com  as  despesas  de  envio  a  pagar  pelo  destinatário,  não  revela  a  competência  e  o  perfil  moral  desejados  para  exemplo  das  futuras  gerações  disciplinadas,  conformadas  e  devidamente  enformadas que o sistema de ensino nacional tanto preza.         Perante  esta  enumeração,  é  evidente  que  a  supracitada  reclamante  deverá  ser  compensada  pelos  danos  sofridos,  vindo,  assim,  exigir  que  Vossa  Senhoria  continue  a  escrever e a provocar sorrisos.    Sem mais, com os melhores cumprimentos, 

M.ª João Silvestre P.S.: Se for necessário, a reclamante predispõe‐se a emprestar‐lhe uns sapatos bem apertadinhos...

            


Querido Torrado : ) 

Era  uma  vez  quatro  (ou  seriam  100?)  histórias  bem‐dispostas  que  tu  um  dia  me  vieste contar, histórias que ficaram à solta nas ruas dos meus sentidos.   Sentamo‐nos os dois na cerejeira da minha lua e, depois de dez dedos de conversa  já tínhamos partilhado o coração das coisas.  Então começaste a transmitir todas aquelas histórias em ponto de contar.   Sabes Torrado, o meu coração ficou como uma noite luminosa no meio do teatro  do meu silêncio.  Quando  me  viste  deslumbrada  com  o  que  me  contavas  disseste:  "Ó  Lua…  estas  histórias  são  apenas  maluquices  de  um  menino  maluquinho  que  se  recusa  a  envelhecer…   mas o que tu não sabes, é que apesar de mais nova do que tu também eu me sinto  assim: prefiro ser uma mercadora de coisa nenhuma do que andar numa escola sem  sentido.   Eu preciso usar os meus sentidos!  E foi ai que pensei com os meus botões: Este rapaz vai longe!  Um dia tive a oportunidade (única) de me pôr da rua do contador e a ti na rua do  ouvidor. Como quem diz: sentaste‐te e ouviste‐me contar‐te um conto que escreveste,  e foi bom ver‐te sonhar! Para mim aquele momento foi: trinta por uma linha.  Torrado, vou contar‐te um segredo: dentro de mim os teus livros têm sete cores  como o arco‐íris, para mim tu és um homem sem sombra mas do tamanho e da cor de  um coração que nos sabe fazer sentir. Quando te leio ou te escuto sinto‐me por vezes  uma  Joaninha  à  Janela  deslumbrando‐se  com  o  mundo,  doutras  uma  Donzela  Guerreira  à  espera  de  partir  para  guerrear  em  mais  uma  guerra  qualquer  a  favor  da  promoção da leitura…  Quero  que saibas  que estás  entre os  meus  amigos  do  peito.  E  quero que  contes  comigo, assim como eu conto contigo para continuares a completar o meu imaginário.   Quando te conheci estava Dezembro à porta. E nesse ano tu foste o meu milagre  de Natal.    P.S. Como já reparaste esta carta foi toda escrita a partir de nomes de livros que  escreveste e me fazem sentir… Obrigada por seres quem és! 

                                                                                                                                                                                                                            Maria Lua 

            


Caro António,  Serve  esta  para  termos  Dez  Dedos  de  Conversa,  ainda  que  não  em  Vasos  de  Pé  Folgado,  nem  tão  pouco  em  versos  de  pé  boto  –  tão  só  em  Dez  Contos  de  Reis  e  Rainhas ou d’ O Rei Menino ‐ uma História em Ponto de Contar que é como quem diz  uma cruz, que já lá vai o tempo em que se atravessava Da Rua do Contador para a Rua  do Ouvidor como O Vizinho de Cima desce as escadas para vir pedir que lhe trate do  cão,  do  gato,  do  periquito,  da  rã  e  do  hamster  enquanto  vai  de  férias  –  O  Jardim  Zoológico  em  Casa,  como  pode  ver.  Agora  já  não,  agora  é  tudo  um  Toca  e  Foge  frenético, sempre sem tempo para ouvir ou para contar. Os Meus Amigos dizem que  tanto  dá,  Devagar  ou  a  Correr,  porque  desde  os  tempos  da  Joaninha  à  Janela  que  a  floresta dos ouvidores é um Bosque Mínimo onde cada vez mais se encena o Teatro do  Silêncio, e  por  isso  Conto  Contigo  para  tornar  esse  bosque um  bosque em expansão.  Vamos  Contar  um  Segredo,  pode  ser?  Vamos  explicar  Como  se  Vence  um  Gigante,  vamos contar como se vence o silêncio e a indiferença e como jogando O Tabuleiro das  Surpresas passaremos de Obscuros a qualquer outra coisa maior e mais luminosa como  o  encontro  com  esse  Adorável  Homem  das  Neves,  branco  e  frio,  frio  e  branco  só  no  princípio,  porque  depois  se  derrete  e  desdobra  como  o  arco‐íris,  O  Livro  das  Sete  Cores.  E continuo os Dez dedos de Conversa prometidos porque, se O Pajem não se cala,  tão pouco me calo eu que sou Donzela Guerreira e avanço em espiral como A Escada  de Caracol e O Trono do Rei Escamiro. Antes queria sentar‐me numa Cadeira que sabe  música do que num trono de rei – juro! Adorava conhecer uma cadeira que soubesse  de música e me ensinasse a tocar e a rufar O Tambor‐Mor. Há Coisas Assim e eu creio  nelas como creio nas Estrelas de quando os Reis Magos eram Príncipes e o verdadeiro  Príncipe, O Mercador de Coisa Nenhuma.  Nada  que  se  compare com  O  Macaco  do Rabo  Cortado, que  esse  mercava  tudo,  troca‐tintas  como  era,  e  acho  mesmo  que,  se  não  tivesse  cortado  o  rabo,  poderia  agora jogar futebol, já que O Elefante não entra na Jogada e o Macaco poderia ocupar  o seu lugar em vez de ir tocar viola pr’Angola. Sabe quem toca que a música é como O  Rato que Rói, mesmo que não a rolha da garrafa de rum do rei Rodolfo da Rússia.  Pois  sim,  dirão,  pois  sim  como  um  Manequim.  E  o  Rouxinol  ao  sol,  em  si  maior,  como o vejo d’A Janela do Meu Relógio ‐ um rouxinol e não um cuco a dar as horas e  os  minutos  ‐  Vejo  é  Como  quem  diz,  que  nem  sempre  vejo,  às  vezes  A  Nuvem  e  o  Caracol  louro  do  Sol  tapam‐me  a  visibilidade  e,  nessa  altura,  vejo  tudo  como  Uma  História  aos  Quadradinhos,  entrecortada,  emoldurada  como  O  Veado  Florido  no  quadro do quarto da minha infância.  A  minha  infância.  As  crianças  não  sonham  a  preto  e  branco  como  se  o  mundo  fosse um Pinguim em Fundo Branco, as crianças sonham com cores. Como se faz o cor‐ de‐laranja,  perguntam,  como  se  faz?  Não  és  capaz?  E  zás‐pás‐trás,  sai  um  cor‐de‐ laranja  fresquinho  com  O  Perfume  dos  Limões.  Querem  maior  magia?  Só  se  for  esta  outra:  na  era  da  informatica,  Uma  História  com  um  Grilo  Dentro,  como  um  vírus  sonoro – Cri, cri, cri, estou aqui num solilóquio, crilo‐grilo‐consciência do Pinóquio.                     


Pois daqui me vou, António Topa‐tudo, e levo comigo o Caidé – Era uma vez dois  cães,  um  chamado  Tarique,  ruivo  e  esguio,  e  outro  chamado  Caidé,  que  rima  com  António José, pois é, e desconfio que assim mesmo me despeço fechando o texto com  a chave que recebi aos oito anos ‐ A Chave do Castelo Azul, um azul não propriamente  escuro  nem  propriamente  claro,  acho  mesmo  que  só  o  posso  definir  como  um  azul…torrado.         

Maria Teresa Meireles

                                                 


Para o Senhor Torrado,   Quando  eu  digo  Senhor  Torrado  ao  telefone  ele  sabe  que  sou  eu.  Assim  eu  o  chamo desde quando nos conhecemos no Brasil.  Não tivemos um bom começo de amizade. Éramos vizinhos de quarto no hotel lá  de  Copacabana  no  Rio  de  Janeiro  no  Simpósio  Internacional  de  Contadores  de  Histórias.  Terminadas  as  sessões  programadas  para  o  evento,  saídas  para  o  jantar,  passeios  pelo  Rio  de  Janeiro  e  mais  tarde,  todas  as  noites  serões  intermináveis  de  contos  no  meu  quarto.  Meus  quartos  sempre  tiveram  "má  fama"  nesses  encontros.  Mas,  creiam,  é  lá  que  o  encontro  paralelo  acontece.  Encontros,  trocas  de  livros,  histórias, culturas e muitas e boas amizades e até contatos de trabalhos foram feitos  em  meu  quarto.  A  Cristina  Taquelim  conheceu  minha  Mala  de  Leitura  num  desses  serões. Depois ela me deu um belíssimo livro de imagem francês que fala de um amor  que seria impossível Le chat et le poisson e  para minha alegria e contentamento me  convidou para participar da Palavras Andarilhas. Viagem que mudaria o rumo da minha  vida.  Por  amor  e  encanto  por  Portugal,  vivo  aqui  já  há  5  anos.  Tanto  movimento,  histórias,  risos,  cantos  adentrando  a  madrugada  acabavam  por  perturbar  o  sono  do  nosso amigo escritor. Não fui um bom vizinho.   Eu não conhecia o escritor e nem a pessoa do António Torrado. Sabia que era o  português meu vizinho que quarto que de vez em quando pedia silêncio. Sua esposa  Lourdes Fragateiro dizia depois quando nos conhecemos: mas eram 6 horas da manhã  e eles ainda contavam histórias!! rs.rs.rs...  Certa  manha  do  Simpósio  assisto  a  uma  conversa  entre  meu  vizinho  portugues,  agora  sim  conhecia‐o  como  o  escritor  António  Torrado  entre  duas  grandes  profissionais  do  Brasil  Marina  Colasanti,  escritora  que  dispensa  apresentações  e  a  Professora  Eliana  Yunes,  ambas  também  minhas  amigas.  Elas  diziam  coisas  maravilhosas e mui respeitosas sobre o Senhor Torrado. Neste dia mais tarde, ele me  viu  trabalhando  com  umas  crianças  no  distante  bairro  de  Nova  Iguaçu,  zona  norte  carioca.  Só  depois  é  que  nos  encontramos,  nos  conhecemos  e  ...  somos  amigos.  Na  minha  primeira  vinda  a  Portugal  em  2004  ele  me  ofereceu  um  belíssimo  almoço  em  sua casa de Sesimbra. Me mostrou a cidade e a Professora Lourdes e uma amiga me  deram  boleia  até  Lisboa.  Melhor  acolhida  não  há.  Ah,  é  claro  que  ganhei  também  alguns livros autografados na hora "valiosos tesouros".  Vez por outra me encontro com ele na Gulbenkian, nas Andarilhas e vez por outra  ele me telefona. Sempre para dizer que viu alguma entrevista em que apareço na tv ou  no jornal.  Ligo  também  algumas  vezes  e  fico  sempre  impressionado  com  seu  rítmo  de  trabalho,  com  sua  falta  de  tempo,  com  tantos  compromissos  com  escolas,  editoras,  entrevistas, participações em congressos e palestras e sessões de autógrafos. Mantém  ainda um site, e escreve lindos livros sem parar.  O que? Como? Ah, era para escrever uma carta para António Torrado?  Querido Amigo Senhor Torrado, eis aqui a história da nossa amizade.  Com toda minha gratidão  Maurício Leite                 


PARA ANTONIO TORRADO  Había una vez un home bo.  Había una vez un home que sabía todos os contos.  Había unha vez un home que era quen de inventar moitos máis contos (e daquela  xa todos os contos deixaron de ser todos os contos).  Había unha vez un home que tiña unha voz marabillosa que facía acordar aos nenos  e  ás  nenas,  quen  só  querían  durmir  ao  marchar  a  voz  (e,  cando  a  voz  marchaba,  durmían con soños á vez viaxeiros e descansados… ai, que soños tan raros!).  Había unha vez un home que sabía contar mellor ca ninguén todos os contos (agora  sabemos que todos os contos xa non son todos os contos, mais é verdade verdadeira  que  este  home  sabía  contar  todos  os  contos,  mesmo  os  contos  que  aínda  ninguén  inventara antes de que el os contara).  Había  unha  vez  un  home  que  amaba  o  teatro  e  andaba  sempre  na  procurar  de  palabras  dialogadas,  estas  palabras  tan  engrasadas  que  o  mesmo  se  namoran  e  se  beixan  que  se  dan  entre  elas  de  labazadas  (hai  mulleres  e  homes  que  collen  logo  as  palabras dialogadas e as acompañan ata o alto dunha escena: non é a iso que chaman  teatro?).  Había  unha  vez  un  home  que  era  moitos  homes  (nunca  acabaría  de  contalos  se  quixera dicilos todos).  Todos eses homes chámanse Antonio e chámanse Torrado: o Antonio Torrado.  E todos son, sendo tantas cousas e tan diferentes, sempre, homes bos.    Miguel Vázquez Freire   Galiza, Agosto 2010         

            


Caro António Torrado:  Há muito que desejava ter uma oportunidade para lhe demonstrar toda a gratidão e o  prazer que é ler as suas histórias. Foram elas e alguns poemas, escritos também há uns  anitos  que  me  inspiraram  neste  texto  e  nesta  ilustração.  Veja‐as  como  uma  humilde  homenagem a tudo aquilo, muito, que nos oferece através da sua obra.  Com muita amizade e um abraço carinhoso   Natércia Almeida      Mar Mar  Na tua espuma  A minha alma  Declina‐se  E vem espraiar‐se  Na areia onde  O Sol a aquece.    Mar Mar  As tuas neblinas,  Vejo o barco que me leva, para além  Do infinito onde  Serei eu            

   

            


Portalegre, 15 de Setembro 2010   

Caro António Torrado  Setembro  à  porta  e  a  Casa  dos  Homens  e  dos  Livros  enche‐se,  não  do  perfume  de  limões  mas  de  gente,  de  todos  os  cantos,  contadores  de  histórias,  andarilhos  e  andarilhas.  Este  ano  algo  frenético  é  guardado,  sorrateiramente  no  âmago  de  cada  um,  presentes  e  ausentes.  Lançado  o  repto,  com  indescritível  gozo  lhe  envio  esta  carta,  singela celebração do muito que o António nos dá.  O António confessou algures que queria ser arquitecto mas…se bem entendermos, é  um arquitecto, sim e dos melhores! (abençoados sapatos de verniz que ao apertarem‐ lhe  os  calos  o  desviaram  para  outras  invenções,  da  escrita,  pois  claro…)  Assim  podemos  alar  com  seus  contos  e  continhos.  Mas  o  António  Torrado  é  também  um  artista porque tece, borda essas lindas histórias.  Ao contrário da lagarta especulativa, as suas palavras não nos provocam indigestão  mas são um bálsamo, preclaro lenitivo para as agruras desta vida. Porém, não se pense  que  é  tudo  venerandas  macaquices:  consigo  pensamos,  reflectimos  (digo  das  suas  peças  de  teatro…)  e  tal  como  o  pequeno  grão  de  areia  à  beira  mar,  aprendemos  a  respeitar a diferença, a criticar com ironia e (porque não dizê‐lo) bom gosto.  Assim são feitos os sonhos de homens e mulheres, de vontade, fantasia, humor.  Pimpim, pimpão, chega de prosápia. Que esta não seja uma mensagem lacónica e que  eu não descarrilhe, aflita, com a urgência de chegar a tempo…  Bem‐haja  António  Torrado:  conto  contigo  (desculpe‐me  o  tutear)  e,  já  agora,  permita‐me, um beijo carinhoso da       Olga            P.S. Qualquer semelhança com títulos, frases ou expressões criadas nos livros do  António não são mera coincidência!   

            


Quinta do Anjo, 13 de Agosto de 2010        Caro amigo António,          é  com  enorme  prazer  que  me  junto  a  esta  iniciativa,  que  tem  como  objectivo  homenagear  um  escritor  de  quem  muito  gosto!  Um  escritor  com  a  mão  cheia  de  magia,  capaz  de  nos  fazer  sorrir  e  sonhar!  Além  do  mais,  não  é  todos  os  dias  que  temos  a  possibilidade  de  escrever  uma  carta  secreta,  não  é?  Só  esta  ideia  me  deixa  com um sorriso de orelha a orelha…   

Devo confessar que me tenho divertido muito consigo ao longo destes anos, pois 

as suas  palavras  são  repletas  de  uma  saborosa  magia,  capazes  de  nos  transportar  através do tempo e do espaço, de nos fazer sonhar bem acordados!   

Dou comigo, muitas vezes, a questionar‐me sobre a sua fonte de inspiração. Como 

pode uma  cabeça  ter  tantas  ideias  lá  dentro?  Já  o  deve  ter  revelado  em  alguma  entrevista… só eu não a devo ter lido!       Agradeço o que nos tem dado ao longo dos  anos! Obrigada pelas suas palavras!  Obrigada  pelas  suas  personagens!  Obrigada  pelas  suas  histórias!  Obrigada  pela  sua  obra!   

Um grande abraço! 

       Sem mais,      Olinda Bastos       

            


Que sentido me fez e faz  “Da escola sem sentido à escola dos sentidos”  Utilizei muito dos seus contos para dar à escola uma outra dimensão.  Um abraço sentido     

Paula       

                                 


Esse brilho dos olhos de quem ri             Às  vezes,  quando  conheces  uma  pessoa,  sabes,  por  uma  sensação  que  faz  cócegas  no  peito,  que  algo  vai  cambiar  na  tua  vida.  Pode  ser  que  essa  pessoa  te  descubra o amor, ou a amizade, ou o silêncio, ou o mistério, e também pode ser que  essa  pessoa  te  descubra  todas  essas  coisas  juntas,  porque  sabe  imagina‐las  com  palavras.  Uma  dessas  pessoas,  para  mim,  foi  o  António  Torrado.  E  falo  do  António  Torrado em carne e osso, já não o António Torrado que está escondido entre as linhas  dos  seus  livros.  O  António  Torrado  que  tem esse  brilho  dos  olhos  de  quem  ri  a  vida,  porque o sentido do humor é fundamental para pôr um pé detrás do outro, dia a dia,  até chegar á casa da morte e quedar conversando um pouco com ela antes de seguir a  viagem.           Qualquer  bom  conversador  quereria  falar  com  António  Torrado  em  qualquer  caminho,  no  médio  de  qualquer  viagem.  Falar  com  António  Torrado  é  ir  além  da  realidade e da ficção, até os limites do teatro, onde a ficção é realidade, e dos contos,  origem  de  todas  as  fantasias.  Eu,  que  vivo  da  ilusão  do  cenário  e  da  narração  oral,  gostaria de que o mundo não fosse tão grande para ir visitar o António Torrado e ouvir  as suas palavras, e sonhar com elas, e ver esse brilho nos seus olhos, o brilho de quem  ri a vida.          Paula Carballeira    

(Actriz e narradora de histórias)       

            


Setembro de 2010    Perdemos  a  cabeça  e  graças  a  malabarismos  e  festas  voltamos  a  encontrá‐la  no  meio  de  palavras.  Pensar  em  si  e  voltar  ao  tempo  da  sede  natural,  do  genuíno,  do  sorriso fraterno, da Gulbenkian, da definição de caminhos. Pensar em si é … lembrar da  facilidade com que as palavras nos pregam partidas! Partilhar consigo é … um sorriso  na  certa!  Sorrisos  fizeram  com  que,  fosse  a  primeira  pessoa  a  reparar  num  pequeno  apontamento  meu  …  uma  simples  manchinha  do  dente!  È  um  homem  de  pequenos  nadas e grandes feitos! Gosto muito disso professor! Consigo dou mais sentido à vida  como professora, como pessoa. Aprendo a dar sentido! E de humor também!   Parabéns professor!             Rita Alves                                 


Para o António Torrado   A capacidade de rir é dos dons mais fantásticos de que podemos desfrutar.  Mas  para  isso  é  preciso  que,  desde  o  nascimento,  o  homem  seja  educado  para  o  humor,  que  aprenda  a  ver  o  cómico  onde  ele  nem  sempre  parece  existir  –  ou,  até  mesmo, a inventá‐lo caso ele não faça o favor de aparecer. E é por isso que a literatura  do António Torrado se tornou tão importante para mim.  As  histórias  do  António  convidam‐nos  a  ir  mais  além,  a  ver  outras  perspectivas  e,  como consequência, a crescer.  Conhecer  o  António  Torrado  é  confirmar  a  sua  escrita.  Recordo‐me  de  uma  conferência que me marcou muito, em Novembro de 2002, no Congresso de Literatura  Infantil  da  Gulbenkian,  em  que  o  António,  ao  explicar  a  sua  versão  da  História  do  Macaco do Rabo Cortado, me levou às lágrimas de tanto rir; ou os dias passados em  Munique,  no  Congresso  Alemão  de  Lusitanistas,  em  Setembro  de  2009,  em  que  o  grupo de portugueses foi contagiado com o seu bom humor. Lembro‐me da manhã em  que  o  António  ia  falar  no  congresso.  Quando  nos  encontrámos  no  hall  do  hotel,  dei  com ele aos saltos: “É preciso estar bem acordado para falar com energia!”  Acho que ele também está bem acordado quando escreve e se lembra de nos dizer  coisas que, em todo o mundo, só poderiam ser ditas por ele!  Um beijinho e obrigada,    Rosário Alçada Araújo           

            


Caro António 

                  “Antes que me esqueça”… Estarei a lembrar bem as palavras de prometidas 

memórias? Para o caso não importa, a memória sofre, naturalmente, de inexactidão,  carrega  subtilezas,  detalhes  que  mais  ninguém  viu  e  afectos.  As  memórias  são  mais  ricas que os factos que relatam, por isso são melhores as dadas de viva voz. Contamos  para lembrar, escrevemos para não esquecer, para haver gente acordada.  Nem  todos  vivem  a  infância  no  seu  tempo.  Alguns  só  pela  vida  fora  vão  descobrindo o tempo de ser a criança que (não) foram.   Abri  pela  primeira  vez  os  seus  livros  como  madrasta.  A  palavra  é  terrível  mas  ainda  não  inventaram  outra!  As  madrastas  já  se  reinventaram  em  novas  vidas  mas  ficaram reféns da má fama das vidas passadas. Condenadas para todo o sempre a ler  histórias  onde  são  maltratadas,  sonham  um  dia  ser  redimidas.  Foi,  dizia,  como  madrasta que eu descobri “Histórias em Ponto de Contar” e uma “Vassourinha” que,  sem o saber na altura, havia de vir a dar‐me muito jeito!  Voltei a encontrar os seus livros como mãe (boa e má, tenho dias…).   E  um  dia,  como  Bruxinha  inventada  que  gostava  de  ser  de  verdade,  tive  o  privilégio de conhecer a pessoa por detrás dos livros.  Presenciei  vários  encontros  seus  com  leitores.  Tem  o  dom  admirável  de,  mesmo ao fim de muitas sementeiras e colheitas, falar como se fosse a sua primeira  faina.   O último encontro foi num almoço, na escola João de Deus, em Leiria, no qual o  António,  generosamente,  partilhou  memórias.  Se  relembrar  a  conversa  desse  dia  concordará: não devemos adiar as celebrações da vida.     “Menina dos olhos doces/Adormece ao meu cantar/  Tenho menina de trapos, /Tenho uma voz de luar…”                                                               (Matilde Rosa Araújo)    No universo que ajudou a iluminar com os seus livros uma “filha” voou, a minha  “Joaninha à Janela” já faz longas viagens e o meu Francisco aprende “Como se Faz Cor‐ de‐Laranja”.   Eu  sonho  com  um  “O  Mercador  de  Coisa  Nenhuma”  que guarda  “A  Chave  do  Castelo  Azul”  e  me  tem  levado  em  passos  leves  e  vagarosos  como  “A  Nuvem  e  o  Caracol” por um inesquecível Verão feito de palavras.    Nestes  dias,  caminharemos  com  sorrisos  entre  “Dez  Dedos  de  Conversa”  trocados “Da Rua do Contador para a Rua do Ouvidor”. Em Beja  “Vamos Contar um  Segredo”, daqueles que se sussurram de orelha a orelha: “Este Rapaz Vai Longe”!   Saúde, António Torrado!    Sílvia, a Bruxinha  Leiria, 1 de Setembro de 2010                   


“Prazado” António  (porque  seria  assim,  talvez,  que  o  próprio  começasse  esta  maluqueira  devido ao imposto prazo…),  (“Às vezes vem ter comigo cada complicação, que nem imaginam…”)  Este texto já teve pelo menos vinte começos…e sai sempre o óbvio ” o António e a sua obra  são isto e aquilo” cheios de adjectivos bem qualificativos e muito sérios…Tanto eu como o  escritor em questão apreciamos a criatividade e o sentido de humor, então pensei em virar o  feitiço  contra  o  feiticeiro  (sei  que  já  não  é  muito  original,  mas  tenta‐se):  o  António  passa  para a Rua do Ouvidor e eu para a do Contador. Apetece‐me contar‐lhe uma história e saber  se ele sente o mesmo que eu quando leio as suas. Ao mesmo tempo, ofereço‐lhe um pouco  de descanso… já que estamos no Alentejo… É esta a minha homenagem. Começa assim…    O reino das palavras estava em polvorosa! Algumas haviam desaparecido! Ninguém sabia o  seu paradeiro. Contudo, nem todas as classes se queixavam… depois de muito contarem, as  subclasses apresentaram as suas baixas: faltava um nome próprio; um determinante artigo  definido; dois determinantes possessivos; dois nomes comuns; um verbo e uma preposição  contraída. O que teria acontecido para se evaporarem assim?! O léxico e a sintaxe choravam  dia  e  noite.  A  notícia  espalhou‐se.  Os  escritores  sentiam‐se  limitados  na  sua  imaginação  (afinal não tinham as palavras todas à sua disposição!).   Após  reunião  de  emergência,  presidida  pelo  Imperativo,  deliberou‐se  que  teriam  de  pedir  ajuda ao ponto final, declarativo e assertivo, e algo desocupado (o tal que caiu do ponto de  exclamação  e  ficou  no  desemprego).  Entregaram‐lhe  uma  lista  com  as  desaparecidas  e  pediram‐lhe que descobrisse o encalço destas palavras andarilhas, o mais depressa possível!  “  E  agora?  Por  onde  começar?  Não  havia  a  mínima  pista…”  pensou,  pensou…até  que  se  lembrou que talvez o seu amigo‐escritor António Torrado (que ele tratava carinhosamente  por Tó Rado) o pudesse ajudar. Afinal ele arranjou‐lhe emprego e, para além disso, estava  habituado a brincar com elas…conhecia‐as bem…as suas manhas…E assim fez. Contactou de  imediato a editora do Tó Rado que o informou que ele estaria em Beja durante três dias, a  participar  num  evento  importantíssimo!  Não  podia  esperar  tanto  tempo!  O  défice  de  palavras  já  provocava  um  crise  literária  sentida  sobretudo  pela  classe  mais  erudita…e  os  poetas  precisavam  tanto  duma  delas,  nem  sequer  havia  sinónimos!  Já  muitos  viviam  do  rendimento mínimo…tinha de ir ter com ele.   Apanhou o comboio e sentado em cima do i aí foi ele para Beja. A cidade estava em festa!  As ruas cheias de gente, de cores, de cheiros e palavras! Muitas, por todo o lado! Seria ali  que  as  palavras  da  sua  cábula  se  encontravam?  E  o  Tó  Rado,  onde  estaria  ele?  O  ponto  estava tão animado que mais parecia um trema! Abriram‐se as portas da Biblioteca… o seu  amigo‐escritor  estava  sentado  numa  mesa  enorme,  cheia  de  pompa  e  circunstância,  com  flores  e  tudo…  muito  solene  e…esperem  aí!  No  letreiro,  por  cima  da  mesa,  estavam  penduradas umas palavras que pareciam coincidir com as da sua lista… e eram mesmo elas!  “António a sua obra mora no nosso coração”.   

Teresa Coelho  Leitora e professora                


Caro António  Pego  na  caneta  pela  fresca,  à  beira  do  meu  jardim  aqui  para  os  lados  de  Azeitão, para te escrever umas palavras simples. Penso nas razões para o fazer e não  consigo decidir‐me. Sim... temos alguns amigos em comum: o Luís Mendonça, o Emílio  Remelhe, especialmente a Helena e o Fábio (que falava de ti com um orgulho imenso e  conseguiu trazer‐te até nós numa manhã mágica, em que até o nosso menino autista  se  juntou  à  turma  para  te  saudar  com  uma  canção).  Sim...  sou  professora,  amo  os  livros, sou aprendiz de escritora e até partilhei contigo, nessa manhã, alguns escritos  fechados em livros que te dediquei.   Mas  nada  disso  me  bate  agora  à  porta  como  pretexto  para  uma  carta  onde  queria  deixar  palavras  doces  com  asas,  que  te  fizessem  sorrir  e  perceber  o  tamanho  que  tem  a  tua  presença  nas  nossas  vidas.  E  se  alguém  sabe  da  importância  das  palavras és tu. Vives mergulhado nelas a pensar quais escolhes e quais casas antes de  nos  escreveres  com  elas  as  tuas  cartas  feitas  histórias  e  poemas  no  envelope  dos  livros, com selos de todas as cores que te fazem chegar a todas as partes do mundo.   Talvez seja isso. Mereces assim uma espécie de carta‐resposta às cartas que já  nos escreveste (ai tantas!) e continuas a escrever todos os dias. É assim para teres a  certeza,  naqueles  momentos  em  que  a  dúvida  nos  pinta  de  pedras  o  caminho,  que  recebemos todas as tuas notícias, que escutamos todos os teus segredos, que não nos  esquecemos  de  ti.  És  o  Amigo  distante  que  nos  envia  flores  sempre  que  precisamos  delas. Flores sempre diferentes que nos fazem sentir maiores, sonhar coisas especiais  e  ganhar  o  alento  necessário  para  perseguir  os  sonhos  (mesmo  que  seja  no  fim  do  mundo, seja lá onde isso for).  É  esse  o  teu  exemplo,  António,  essa  a  razão  desta  carta.  Ofereces‐nos  generosamente,  carinhosamente,  persistentemente  a  tua  vida  em  forma  de  palavras  de  ternura.  Nem  que  estivesse  aqui  a  escrever‐te  cartas  até  ao  fim  dos  meus  dias,  conseguiria que elas, as palavras, dissessem tudo o que me apetece dizer.     Em vez disso, deixo‐te duas apenas:    Obrigada    Abraço                                         Teresa Martinho Marques                       


Lisboa, 15 de Setembro de 2010   

Meu caro António Torrado:   

Penso que esta carta te encontrará no buliço de uma homenagem que te preparam  em  Beja!  Espero  que  a leias  no  regresso  a  Lisboa  e  que essa  leitura  seja  emoldurada  pelas magníficas planícies alentejanas, porque elas – as planícies – têm a mesma idade  dos  teus  livros.  São  do  tempo  das  palavras,  das  palavras  que  permanecem  em  mim  enquanto a infância se demora.    Nesse tempo de caligrafia e descoberta, eu encontrava nos livros o que era próprio  das planícies e dos montes. Brincava aos livros. Brincava contigo. Com a Alice. Com a  Sophia.  E  ia  construindo  mundos  feitos  de  palavras.  Construí  alicerces  feitos  de  palavras. Construí paredes feitas de palavras. Por fim, fabriquei um tecto com palavras  entrelaçadas  umas  nas  outras.  Não  há  casa  mais  forte,  António!,  não  há  casa  mais  sólida! E não te sei dizer quantas dessas palavras te foram roubadas a ti. O ladrão de  palavras enriquece aquele que rouba e eu roubei, roubei, roubei! Tornei‐me eu próprio  a minha casa e, agora, quando olho ao meu redor, não vejo as palavras que vos roubei,  mas sei que as paredes da minha sala de trabalho estão impregnadas de ti e dos outros  escritores a quem roubei as palavras da minha infância.    Hoje, já muitos cabelos brancos me envelhecem as frases. Cabelos que corto no velho  barbeiro  que  partilhamos  ali  ao  pé  do  Teatro  Nacional  e  que  me  dá  sempre  notícias  tuas:    Já há muito tempo que não vejo o Sr. António Torrado, deve estar por aí a aparecer!    Ou:    Foi por um triz... O Sr. Torrado acabou mesmo agora de sair.    O  tempo  está  a  levar‐me  os  cabelos,  António,  está  a  levar‐mos  como  se  fossem  palavras. Já antecipo a minha cadeira vazia no velho barbeiro do Rossio. E no entanto,  tu levas‐me para um tempo em que eu tinha o cabelo forte e negro. O tempo em que  eu ia ao Rossio pela mão do meu pai e era preciso pôr uma almofada suplementar para  que  o  velho  barbeiro  (que  então  não  era  assim  tão  velho  mas  a  mim,  criança  de  um  punhado de anos, parecia) me pudesse cortar a trunfa, como ele dizia para me fazer rir.    Nas  palavras  que  partilhas  comigo,  eu  sou  e  serei  sempre  esse  menino  que  não  consegue chegar à cadeira do barbeiro... mesmo quando, há poucos anos, no exercício  da tua generosidade imensa, me convidaste para escrever a quatro mãos o texto de um  espectáculo. O espectáculo não chegou a existir, mas, a gratidão pelo teu convite nunca  mais me saíu do peito. Tornou‐se mais uma palavra, mais uma dessas que tu me deste.  Uma entre mil. Uma entre um milhão. E, no entanto, não se confunde com nenhuma  outra. Porque a gratidão vale por todas as palavras. A gratidão é, a um tempo, alicerce,  parede, telhado e, principalmente, é porta... é janela para tudo... Neste caso, é janela  para esta carta que já vai cheiinha de palavras e no entanto poderia ter sido escrita em  cinco segundos. Era só eu ter escrito    Obrigado!  … e teria dito tudo o que guardo para te dizer!    Um grande abraço do amigo                                                                                   Tiago Torres da Silva 

            


Beja, 15 de Setembro de 2010      Caro António    Faço  votos  que  esta  missiva  o  encontre  tão  bem  disposto  quanto  as  cartas  do  nosso amigo, o macaco Umbelino e as suas peripécias.    Apesar de não o ver há algum tempo, é como se estivesse sempre presente cá  em  casa,  não  só  pelas  palavras  inspiradoras  que,  volta  e  meia,  leio  ou  releio  como  também pela voz serena com que conta a História do Dia que me descontrai não raras  vezes no meio destes nossos dias e correrias.    Escrevo‐lhe da cidade onde o vi pela primeira vez mas conheci‐o em terras do  oriente  de  onde  trouxe  na  bagagem  as  lendas  de  Macau.  E  como  todas  as  lendas  também estas esperaram alguns anos, não muitos porém, que uma menina crescesse  e um dia as lesse e com elas conhecesse um pouco da sua terra. Obrigada por essas  lendas António pois que melhor modo de dar a conhecer a sua terra a alguém do que a  sonhar?  Um passarinho soprou‐me ao ouvido a certeza de que nos veríamos em breve aqui  nesta cidade de contos e encontros e estou a contar com isso – se esta carta fosse uma  mensagem de telemóvel ou do messenger ou do facebook, agora apareceria aqui uma  carinha sorridente ;‐) mas despeço‐me de um modo mais clássico com um:    Creia‐me atentamente.      A sua leitora andarilha,                                                                         Vanda Soares Machado                               


António Torrado no Reino das Maravilhas  Todos os conhecimentos têm uma origem, uma primeira nota, a do primeiro encontro.   Conhecemo‐nos  num  jantar  organizado  pela  Sociedade  Portuguesa  de  Autores,  vai  para  20  anos.  Ficámos  na  mesma mesa e  conversámos.  Desde  logo  ganhei  para com  ele  um  clima  de  simpatia  e  não  apenas  porque  conhecia  alguns  dos  livros  que  escrevera para crianças e que, ainda em Moçambique, comprava para os meus filhos  na "Minerva Central", tal como hoje o faço para os meus netos, fora aqueles com que  António  Torrado  os  distingue.  À  saída  ofereci‐me  para  o  levar  a  casa.  Ficara  a  saber  que  era,  por  opção  própria,  um  apeado.  Vivia  em  Sintra,  num  alto,  numa  bela  casa,  quase  casarão,  num  local  estimulante  para  a  criação  do  caleidoscópio  de  boas  intenções e de imagens que a sua escrita desperta.   No regresso a Caxias, fantasmaticamente, no negrume de noite, visionei o escritor no  secular  Castelo  dos  Mouros,  no  irreal  e  romântico  Palácio  da  Pena,  na  densidade  histórica  do  Paço  da  Vila  e  no  escrínio  que  é  Monserrate,  cenários  propícios  à  imaginação infantil, à liberdade e dimensão criativa do autor teatral, sempre voando  mais longe do que se lê, se vê  e em que se acredita.  Antes  de  ofertar  os  livros,  dava  e  dou,  sempre,  um  olhar,  mesmo  que  rápido,  pelas  histórias  que  escreve  ou  que  re‐escreve  quando  lhes  conserva  o  sentido  mas  as  enroupa de novo, com as asas do sonho e as imagens da memória colectiva.   Encantei‐me,  sempre,  com  o  mundo  infantil  e  com  a  criação  teatral.  Apetece  pertencer‐lhes:  navegar  pelo  espaço  num  tapete  voador,  pastorear  ovelhas  felpudas  tão brancas como a neve da Serra da Estrela, desnichar fadas, príncipes encantados e  seres  escorreitos!  Conhecer  os  heróis  da  ficção  teatral  e  os  outros,  os  da  escrita  infanto‐juvenil,  enriquecedores  das  virtudes  da  ternura  e  do  afecto,  triunfadores  do  Mal, dos demónios da inveja, do rancor e dos corações empedernidos que se soltam  dos Infernos para provocar os bons que povoam os contos populares e os tradicionais.     Encontro no António Torrado, um homem digno, sonhador, autocontrolamdo‐se pelo  amor  à  brandura,  um  amante  do  seu  trabalho  de  escritor,  uma  cabeça  sempre  dominada pela criação literária, seja ela dirigida às crianças ou a quantos seguem a sua  carreira de autor para o palco.  Desde que João de Deus incluiu no Campo de Flores uma afloração titulada "Para as  Crianças"  que  a  literatura  infantil  ganhou  espaço  na  edição  portuguesa.  Por  esse  caminho  enveredaram,  também,  Antero  de  Quental,  Guerra  Junqueiro,  Gomes  Leal,  até  Eça  com  a  "Literatura  do  Natal",  Ana  de  Castro  Osório,  Raul  Brandão  e  tantos  outros  que  se  perfilaram  até  aos  nossos  dias  e  a  que  António  Torrado  se  junta  num  cântico de amor às crianças que ouvem e lêem em português.  O  seu  talento  enreda‐se,  ainda,  no  perfume  e  na  sedução  de  outras  gentes,  aquelas  que são a alma dos tablados.     Vitor Wladimiro Ferreira   2010/09/14 

            


Textos e coordenação: Cristina Taquelim  Ilustração: Susa Monteiro  Digitalização e composição: Hermes Picamilho   Apoio: Pedro Oliveira    Biblioteca Municipal de Beja – José Saramago  bibliotecamunicipaldebeja@cm‐beja.pt    Beja, 2 de Maio de 2012   

            

Um abraço a António Torrado  

Cartas de várias personalidades dirigidas ao escritor António Torrado

Um abraço a António Torrado  

Cartas de várias personalidades dirigidas ao escritor António Torrado

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