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Revista

5Sentidos

Novembro2018| Nº 01|R$ 10,00

Editora Sentidos

Percepção e criação da arte através do corpo humano


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ser humano é composto por milhões de células, um número incontável de neurônios e, 5 sentidos. Apesar de ser um número pequeno, a infinidade de características que cada um carrega torna o nosso produto algo que pode ser explorado por décadas, sem repetir um tema sequer. E com este pensamento, a revista 5Sentidos traz o mais importante dos 5 universos que o seu corpo carrega, relacionando todos eles com temas do nosso cotidiano, em busca de explicações corpóreas para os fenômenos do mundo moderno. Neste mês, a revista conta com a arte como inspiração para o estudo do corpo, explorando diversos aspectos sejam eles naturais ou não, dicas culturais, fatos importantes, dentre outras percepções que podem ser exploradas através de todas as regiões analisadas através de cada uma de nossas editorias. Infelizmente não evoluímos tanto a ponto de literalmente explorarmos todos os sentidos dentro da revista (quem dera pudéssemos transmitir uma música ambiente na editoria de audição), mas entendemos que uma simples recomendação já deve servir como base para explorar o mundo através dos seus sentidos, e com isso nós realmente nos preocupamos neste material. Veja, toque, ouça, respire e experimente a nossa revista como um produto em que todo o seu corpo se sinta envolvido. Sinta-se em casa, a revista está de braços abertos para recebê-lo, e a nossa primeira edição destaca especialmente a arte e tudo aquilo que envolve a maior e melhor de todas as construções existentes no planeta: o seu corpo.

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Matéria de Jornalismo Impresso III pelo professor Mauro de Souza Ventura Matéria de Planejamento Gráfico e Editorial em Jornalismo III pela professora Mara Fernanda de Santi Esse produto contém imagens de bancos de fotos com acesso livre como Pixabay, Flickr, PxHere, FreePick e Pinterest.

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Matérias e projeto gráfico produzidos por toda a equipe 5Sentidos. Fotógrafos: André Dal Corsi, Beatriz Ribeiro, Giovanna Romagnoli, Julio Cesar, Matheus Rodrigo, Daniele Olimpio e participação especial de Taís Capato.

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Sumário AUDIÇÃO

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OLFATO

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Música e sentidos Música, cérebro e corpo Popularização do podcast Literatura para ouvir Museu do telefone Análise: “Escuta” Olfato e psicológico Memória olfativa A história do perfume Resenha: “O perfume”

PALADAR

Gastronomia e arte A arte do vinho Cerveja artesanal Crítica culinária

TATO

Tatuagem como arte Esculturas e argila Slime Alta costura - 60 O tato e a arte - 64

VISÃO

Cinema 3D Grafite Exposições visuais Crítica: “Grandes olhos” Artigo: Museus brasileiros

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Ensaio fotográfico: Museus

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Linha do tempo: O descaso com a história

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De ouvido apurado Matheus Rodrigo

A audição é, além de um dos cinco sentidos do corpo humano, um meio valioso de aprendizagem que precisa ser entendido e preservado


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Aprendizado auditivo

Uma função da audição, digna de destaque, é a sua capacidade informativa. Um dos meios pelo qual entramos em contato com a realidade, os ouvidos são pontes para se ter conhecimento. Quem nunca ouviu a ordem “você me escute aqui!”

5Sentidos ? A expressão emitida em momentos de discussão, geralmente, precede uma explicação a respeito de um assunto. Embora esse seja um exemplo genérico, aponta para a função educativa que o sentido pode desempenhar. Setor popular da arte, a música é famosa por utilizar a audição como um mecanismo de ensino. Vasta, a área serve tanto como um meio para se aprimorar as habilidades sociais e culturais quanto para potencializar a capacidade intelectual, ao exigir reflexão lógica e conexões diversas entre as funções do cérebro. “Em termos criativos, a música pode estimular a imaginação e a reflexão através de mensagens líricas ou mesmo pelos estímulos sensitivos (mesmo sem o entendimento ou a necessidade de uma mensagem escrita, por exemplo)”, explica o professor de percepção musical na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Gilson Antunes. Já no campo cultural, a música tem servido, historicamente, como forma de manifestação social para grupos contraculturais (hippies, punks, heavy metal, rap, etc) expressarem suas opiniões sobre o mundo que os cerca.

Projeto Guri: criatividade e educação

municipais - desde 1995, surgimento do projeto, foram 710 mil. O Projeto Guri, que tem atuação também na cidade de Bauru, estipula a missão de tornar acessível o ensino musical e desenvolver um espaço de colaboração coletiva e lúdica para seus alunos. “ Cultivamos histórias de jovens que iniciaram na música por meio do da iniciativa e fizeram sucesso. Nosso objetivo é oferecer iniciativas pedagógicas que desenvolvam a música em sua integralidade, de forma acessível e gratuita”, explica a coordenadora do projeto em Bauru Cintia Moreno.. Desse modo, a audição e a música se consolidam como mecanismos de aprendizado e evolução constante, sua exploração é indicada para os indivíduos que procuram um meio para se aprimorar social, cultural e intelectualmente e, assim como todos os sentidos do corpo, oferecem uma forma para o sujeito se expressar e se identificar como quem ele de fato é. “Desde os tambores de guerra até a os festivais de música que unem pessoas por um bem comum, no mundo atual o processo de conexão entre sons e sensibilidade humana é cada vez mais rápido e transformador “, aponta o professor da UNICAMP Gilson Antunes. Reprodução/ProjetoGuri

o passear em um parque com árvores se mexendo, ao tatear no escuro na brincadeira cobra-cega, ao escutar uma música, o canal auditivo é acionado, recebendo ondas sonoras, e dispara estímulos elétricos para o cérebro que decodifica e analisa o som recebido de acordo com os padrões já conhecidos. Um dos cinco sentidos humanos, a audição pode ser utilizada para diversas funções que vão de mecanismo de alerta a meio de ensino. Por conta da sua amplitude e importância, o ato de escutar é um recurso básico da humanidade e consequentemente, merece atenção durante toda a vida. De acordo com estudo divulgado em 2015 pela revista científica norte americana “Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS)”, esse cuidado deve existir desde cedo, mais especificamente a partir período de recém nascido. Isso porque os primeiros sons emitidos pela mãe são determinantes para o desenvolvimento da linguagem e para a relação entre cérebro e audição. O estudo, que selecionou quarenta bebês prematuros, separou o contingente em dois grupos. Um deles, foi exposto a canções gravadas pelas suas respectivas mães em estúdios, enquanto o outro recebeu o tratamento habitual. Após trinta dias em que as crianças escutaram três horas diárias das gravações, os pesquisadores constataram via ultrassom que os bebês que ouviram as vozes das mães desenvolveram córtices auditivos mais espessos em comparação aos outros.

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Exemplo da finalidade educativa da música é o projeto sociocultural brasileiro, Projeto Guri. Criado em São Paulo e mantido pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, o projeto possui diversos cursos de iniciação e aperfeiçoamento musical, como por exemplo, canto coral, instrumento de cordas dedilhadas e tecnologia musical. A iniciativa, focada em jovens, ensina indivíduos de seis a 21 anos e se encontra espalhada por todo o estado paulista. De acordo com dados divulgados pela equipe do projeto, isso equivale a mais de 50 mil alunos por ano atendidos em 330 polos Nov/ 2018

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Em contato com a arte

Companhia rotineira dos brasileiros e utilizada como técnica terapêutica, a música é capaz de trazer diversos benefícios para a mente e corpo humano. Matheus Rodrigo

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or meio de fone de ouvido, alto falante ou até mesmo, som ambiente, a música é uma presença constante na vida dos brasileiros. Ao menos é a constatação obtida pelo instituto de pesquisa Catapani e pelo site Vagalume em estudo conjunto sobre o tema que aponta que mais de 25% da população ouve diariamente mais de 4 horas de música. A pesquisa também salienta que as situações de contato com o som são diversas. Os momentos que mais se destacam são ao estudar, trabalhar, jogar e viajar (seja no ônibus, carro, metrô, etc). Os dados de 2017 são emblemáticos e indicam um potencial muito grande do uso da mídia. No setor do comércio, é um hábito comum consumir algo ligado a artistas ou bandas. No campo terapêutico, a musicoterapia tem, cada vez mais, se popularizado como um meio lúdico de tratar quadros clínicos. Dessa forma, é importante entender quais efeitos o campo, já consolidado, têm sobre a mente e a vivência e assim, também passar a aproveitar os maiores benefícios que a prática oferece no seu dia a dia.

exercer um papel determinante no desenvolvimento pessoal e social do indivíduo. Isso porque por ser uma área diversa, a música têm o potencial de melhorar habilidades motoras. “É possível trabalhar a coordenação, o equilíbrio, a mobilidade e o desenvolvimento das atividades motoras funcionais”, afirma a psicopedagoga Nadja Pinho dos Santos. Além disso, o gênero artístico é descrito pela também musicoterapeuta como “tendo um papel envolvente na vida das pessoas, podendo causar aproximação entre indivíduos melhorando assim sua socialização”.

Para todos os ouvidos

Tratamento diversificado

Ao escutar uma canção, algumas áreas cerebrais são automaticamente acionadas. Uma delas, o córtex auditivo primário - responsável por realizar conexões neurais - exerce a função da percepção musical. Já o reconhecimento da canção (os padrões sonoros como gênero) e as emoções que ela evoca ficam ao encargo do córtex orbitofrontal, uma parte do cérebro relacionada a personalidade, emoções e comportamento social. Juntas, essas regiões mentais são capazes de gerar uma série de benefícios, como por exemplo, a diminuição ou aceleração do ritmo cardíaco e a regulagem da pressão sanguínea. A música também é capaz de

Em pesquisa divulgada em 2017 pela Universidade de Belfast na Irlanda, constatou-se: a música pode ser utilizada como tratamento para quadros emocionais como depressão, ansiedade, entre outros. O estudo, que reuniu 251 crianças e adolescentes com distúrbios comportamentais e psíquicos, adotou duas abordagens para testar a importância do campo artístico entre março de 2011 e maio de 2014. Os jovens foram divididos em dois grupos, um recebendo tratamentos convencionais numa abordagem padrão, e outro, sessões de musicoterapia em que se trabalham aspectos como improvisação e composição de melodias.

“É possível trabalhar a coordenação, o equilíbrio, a mobilidade e o desenvolvimento das atividades motoras funcionais,” Nadja Pinho dos Santos, psicopedagoga

Ao final do período de tratamento, concluiu-se que os pacientes que foram submetido à técnica musical, em comparação com a técnica terapêutica tradicional, conseguiram explorar melhor suas emoções, desenvolver com mais facilidade seus pensamentos, além de também vivenciarem uma evolução significativa na autoestima e na interação com os outros. O dado aponta que mais do que ser considerada como uma técnica válida, a musicoterapia nome dado a técnica - também têm resultados animadores. De acordo com a musicoterapeuta Roberta Paciência, o fato se deve a natureza da técnica. “É um processo estruturado que utiliza vivências verbais e/ ou não verbais, além elementos como sons, ritmo, melodia, harmonia e a própria música como um meio facilitador para a interação social, comportamental e cognitiva, para melhorar o quadro clínico do paciente”, explica. Apesar desse aspecto promissor, a especialista salienta que a terapia não é adotada mais frequentemente por não receber a devida atenção dos órgãos públicos. Assim, muitas vezes, é ignorada e destinada a instituições privadas, ficando inacessível a maior parte do público. Esse tipo de atitude, entretanto, é prejudicial para quem busca um tratamento mais “leve e lúdico”, como caracteriza Roberta. “ A relevância de utilizar a técnica como terapia se deve a atmosfera aconchegante que revela ao indivíduo que pode ser divertido e interessante aprender, conviver com aqueles ao seu redor e se tratar”, ressalta a musicoterapeuta. Nov/ 2018

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Ouvidos da modernização

Daniele Olimpio e Matheus Rodrigo

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O formato podcast tem tido avanço no número de ouvintes e progressivamente, se fortalecido como um efetivo meio de comunicação


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eja como companhia em uma viagem longa, distração durante atividades domésticas ou sendo ferramenta educativa, o podcast é presença garantida na vida de muita gente. Caracterizado pela utilização da audição, o formato pode ser considerado um irmão moderno da rádio, a qual, inclusive, se distingue por ir na contramão da atual crise de audiência do veículo. Inicialmente cunhado pelo empresário Adam Curry em 2004, o termo “podcast”, como popularmente conhecido, designa um conteúdo auditivo feito sob medida, consumido em qualquer horário, que é distribuído em larga escala. Desde então, abordando vários assuntos e se espalhando por diversos países, tem se consolidado cada vez mais como um mecanismo de informação. No Brasil, os primeiros podcasts começaram a surgir em 2004. O precursor do movimento foi o programa “Digital Minds”, desenvolvido por Danilo Medeiros, que tratava de assuntos voltados a tecnologia no geral. Após uma crise do formato em 2005 em que alguns podcasts acabaram, houve uma renovação do formato e figuras até hoje consolidadas, começaram a surgir. É o

5Sentidos caso do podcast da marca Jovem Nerd (JN), o Nerdcast. O programa criado pela dupla Deive Pazos e Alexandre Ottoni - apelidados como Azaghal e Jovem Nerd, respectivamente -, segundo dados do site do JN, reuniu em 2016 uma média de um milhão de downloads por episódio. Atualmente visto como o maior produto da podosfera nacional, o Nerdcast consolidou uma forma de se produzir podcast no Brasil. A estrutura que lembra uma conversa informal entre amigos e aborda diferentes temas, no caso, sob a perspectiva nerd, foi adotada por outros criadores de podcast (podcasters) que popularizam o formato de vez, dando cada um a sua identidade a seu produto - as visões de cientistas, comunicadores, gamers, filósofos, políticos, entre outros. Esse fenômeno gerou reações positivas e negativas para a crescente mídia. Se por um lado, criou uma rede de colaboração entre os produtores de conteúdo da mídia, por outro, limitou por um tempo as potencialidades que a mídia pode oferecer em termos de outras mecânicas como storytelling, histórias reais ou fictícias contadas com uma ambientação sonora - e que tem uma abordagem mais literária-, produções

temáticas áudio jornalísticas, que mesclam entrevistas, reportagens e comentários a respeito de um assunto, por exemplo.

Podcast em transição Numa pesquisa realizada pela equipe desta reportagem através de um questionário disponibilizado nas redes sociais, o crescimento da popularidade da mídia podcast ficou evidente. Das 67 pessoas que responderam o formulário, apenas cinco não consomem o formato. Além disso, 25 delas o ouvem diariamente, enquanto que 20 assumiram o fazer enquanto realizam, ao mesmo tempo, tarefas domésticas. Em relação às preferências temáticas, considerando que mais de um tema poderia ser escolhido, 52 pessoas optaram por escutar aqueles ligados à cultura, enquanto que 35 preferem os relacionados à política. Para melhor entender o resultado deste levantamento deve se levar em conta que a faixa etária de quem a respondeu variou de 19 a 25 anos, que é a faixa de idade correspondente ao perfil do ouvinte de podcasts no Brasil, segundo a agência Prótons, que, focada na venda de publicidade em podcasts

O microfone é um equipamento primordial para ser podcaster Nov/ 2018

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5Sentidos no mercado brasileiro, realizou uma pesquisa inédita para traçar o perfil do ouvinte e identificou que 42,3% possuem entre 18 e 25 anos, enquanto outros 42% estão na faixa etária de 26 a 35 anos. O que de fato a Agência Prótons comprovou foi que o público consumidor de Podcast no Brasil ainda é o jovem. Aquele que não consome as mídias tradicionais como costumam fazer os mais velhos e que se informa, quase que exclusivamente pela internet. A autora de livros sobre ficção científica Jana Bianchi já foi um desses jovens. Contudo, a moça não quis se restringir ao papel de ouvinte e decidiu criar seu próprio podcast sobre literatura, material que na época ainda não existia no Brasil. Isso foi há dois anos, e hoje, com quase 60 episódios gravados, divulgados e aclamados, O Curta Ficção já foi selecionado pela Companhia das Letras como um dos melhores podcasts literários do país. Jana olha a trajetória da mídia com otimismo. “O podcast está num momento de transição. Tem a perspectiva de se consolidar e já tem alguns que conseguem retorno financeiro e sucesso, coisa que há cinco anos, parecia impossível. Mas acho que para se tornar mais popular deve demorar, pelo menos, mais uns cinco”,apontou. Cinco ou até mais, pois, embora o alcance do podcast tenha aumentado nos últimos anos, muitas coisas devem ser alteradas para que esse novo formato se consolide como um meio de comunicação acessível. Num país em que, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua divulgada em fevereiro pelo IBGE, 21,2 milhões de domicílios não tinham acesso à internet em 2016, popularizar o acesso às plataformas digitais que hospedam os podcasts ainda é o grande obstáculo da mídia. Além disso, a maioria dos podcasts brasileiros não recebe retorno financeiro suficiente para se sustentar ou ter o projeto como profissão,

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mantendo-o apenas como hobbie. Com isso concorda Vanessa Reais, podcaster do Meia Lua Cast, atração voltada a games e gamers. Para a moça, que está na equipe desde 2014, o podcast não é popular porque o brasileiro é mu ito mais visual que auditivo. “As pessoas são mais acostumadas a falar do que ouvir, por isso também que o formato podcast geralmente agrada pessoas um pouco mais maduras, a partir de uns 20, 22 anos, que têm mais paciência e calma para ouvir”, analisa. Já Juliana Wallauer, uma das criadoras do Mamilos, um dos podcasts mais famosos da atualidade e um dos poucos que já ganha retorno financeiro suficiente para se sustentar, explica que uma melhoria significativa nas plataformas que disponibilizam podcasts, isto é, no acesso a pacote de dados e smartphones facilitaria a popularização do formato.

Uma nova forma de se comunicar

Para conseguir produzir um conteúdo em formato de podcast é necessário um bom microfone, bons programas de edição de áudios, pautas muito bem elaboradas e estudadas, facilidade e vontade de se comunicar e, principalmente, dedicação. Isso porque, segundo Luísa Braga, podcaster do programa Lado Black e Anticast, receber uma boa retribuição financeira com podcast é difícil. “A gente recebe contribuições financeiras, mas está num momento de reestruturação e, como não está em uma plataforma grande, é mais difícil atrair ouvintes e, por consequência, apoio”, conta. O Lado Black é feito por uma equipe de quatro pessoas negras com o objetivo de mostrar a visão do jovem negro sobre o mundo. Luísa comenta que foi importante para ela ocupar esse espaço porque não se sentia representada nos podcasts que acompanhava. Com o tempo, foi

adquirindo confiança e experiência com o projeto e hoje, assume não saber viver sem gravar os episódios, mesmo que não lhe seja rentável. “Cada episódio novo é um conteúdo a ser estudado, trabalhado, que você vai aprendendo e acaba crescendo como pessoa. O Podcast me enriquece cotidianamente”, desabafa. E Luísa não está sozinha, pois Juliana compartilha do mesmo sentimento. Atuando no Mamilos a quatro anos, ela conta emocionada que o projeto trouxe inúmeras mudanças para sua vida e uma outra visão de mundo. “A melhor coisa que descobri com o mamilos é a minha vocação, sinto que nasci para ser comunicadora, é o que sei fazer, é o meu talento, me faz feliz e me deixa mais feliz ainda saber que transforma a vida das pessoas”, disse. Para a publicitária, o maior diferencial da mídia é ser um meio comunicativo independente e livre que pode falar o que quiser e exercer uma comunicação justa, sem ser pautado ou manipulado. A comunicação sempre terá que se adaptar às evoluções sociais, culturais e políticas que ocorrem no mundo. Assim como o rádio perdeu seu posto magistral para a TV e os jornais impressos para as plataformas digitais, a convergência midiática talvez possibilite que, no futuro, também o podcast ocupe seu trono e continue perpetrando uma nova forma de fazer comunicação. Por enquanto, o que se tem é um novo formato midiático que representa e dá a voz às pessoas, como o Meia Lua deu espaço para que mulheres que curtem games se reconheçam ao ouvirem a voz de Vanessa, como o Mamilos apresenta um jornalismo completo e de qualidade e como Luísa se orgulha de dividir um podcast plural com o máximo possível de pessoas: “Felizmente tenho a oportunidade e o privilégio de ser uma voz que representa outras vozes, sou muito feliz por isso”.


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As podcasters Julia Wallauer e Luana Braga foram destaque no evento “Mulheres no podcast” promovido pelo Sesc Bauru (Créditos: Matheus Rodrigo)

O encontro debateu a representatividade no meio podcaster (Créditos: Matheus Rodrigo)

Os Podcasts mais populares do Brasil de acordo com a nossa pesquisa Nerdcast (Jovem Nerd) Anticast (Anticast) Mamilos (B9) Braincast (B9) Presidente da Semana (Folha)

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Literatura para ouvir Mídias sonoras são uma alternativa para quem não quer, tem dificuldade ou não costuma ler com frequência

André Dal Corsi

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udiolivros ou livros em áudio são produtos que tem como principal característica a transformação de livros físicos ou até mesmo versões on-line em mídia sonora. Segundo a professora da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp Bauru, Suely Maciel, a transformação é permitida por meio da leitura mediada por um locutor. “À grosso modo, é a produção que permite o acesso a uma obra em outro formato que não o escrito ou o digital, garantindo o consumo via audição”, esclarece

A voz importa? As histórias podem se originar de livros de quaisquer autores, sem muita restrição, indo de clássicos da literatura moderna à livros técnicos ou conteúdos produzidos para concursos públicos. Desse modo, os locutores ou contadores de história devem se atentar com as palavras, entonação e até mesmo empatia na hora de deixar a voz registrada nos arquivos de áudio. A professora explica que, apesar de a voz sintetizada poder ser usada livremente, há muitos prejuízos causados para as pessoas que ouvem, uma vez que não há entonação correta nem nuances na voz, comprometendo a compreensão de alguns textos. “A locução agradável, empática e com ritmo equilibrado favorece o leitor, uma vez que isso evita o cansaço e a dispersão. Afinal de contas, a pessoa está ouvindo um texto escrito. En-

tão, a voz, ritmo e entonação colaboram para a boa recepção do leitor”, completa a profissional.

ra que elas possuem, tornando-se mais um recurso de acessibilidade para todos esses indivíduos.

“Você pode dirigir um carro e ouvir. Isso é coisa que você não pode fazer se estiver lendo o conteúdo”, Suely Maciel, professora da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp Bauru

Apesar de ser um modelo, apesar de não ser recente, inovador, os audiolivros podem gerar uma dorzinha de cabeça em algumas pessoas. “Depende de como ele está disponibilizado e do equipamento que a pessoa acessa o arquivo. Em um livro, se você se perde, você levanta o olho de volta para a palavra que perdeu ou volta a página. Com os audiolivros, dependendo a situação, a pessoa terá que voltar o audio. É mais difícil de ajustar a leitura”, explica Suely. No entanto, a docente salienta que tecnologias como o Victor Reader [equipamento especializado em leitura de livros falados] permitem que o consumidor volte examante onde parou. “Ele permite que se soletre a letra ou selecione o trecho do livro em questão. Então, tudo depende de como os arquivos são disponibilizados”, reitera.

Atrativo auxiliar Seguindo essa lógica, é de se pensar que esse produto torna-se uma atratividade para o mundo do entretenimento, uma vez que a inserção de efeitos sonoros também podem ser explorados da maneira que um editor de áudios achar melhor. Os audiolivros são uma ótima alternativa para pessoas com dislexia, concurseiros, estudantes e profissionais que desejam otimizar o tempo e deslanchar a carreira, além de ser um ótimo auxílio para pessoas com deficiência visual. Apesar de ser considerada uma novidade da atualidade, esse tipo de mídia já existia. “Se você reparar, já havia histórias que vinham gravadas em discos, assim como as histórias infantis”, reforça Suely Maciel. A profissional pontua que para as pessoas com deficiência visual, essa é praticamente uma das únicas formas de acesso a leitu-

Limitações

Desejo pessoal Pedro Henrique Ramos mora em Suzano, grande São Paulo e é formado em jornalismo; para ele, as histórias narradas são uma possibilidade para se explorar com o tempo. “Eu penso muito em começar a ouvir, até por que eu não estou com muito tempo para ler os livros físicos. Acho que isso será uma inovação na minha vida”, salienta o jornalista. Nov/ 2018

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Museu do telefone

Conheça mais sobre a história das ligações 16

Texto e foto: Giovanna Romagnoli Nov/ 2018


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o caminhar no centro movimentado da cidade de Bragança Paulista, nota-se um prédio elegante, tranquilo, de fachada de pedra e bem conservado. Prédio esse que, construído pelo arquiteto Henrique Mondelli e inaugurada pela Companhia de Rede Telefônica Bragantina em 1908, o centro telefônico de Bragança Paulista se tornou o primeiro Museu do Telefone do Brasil em 1976 - quando completava cem anos da invenção do telefone - e se mantém até hoje. Fundado pelo farmacêutico Gabriel da Silveira Vasconcelos e Nicolino Naccaratti, o museu conta com aparelhos que mostram a evolução tecnológica da telefonia e são patrimônios da fundação telefônica, com apenas três réplicas e sendo os aparelhos mais novos, como celulares, doações que aprimoram o acervo. Ao entrar, uma sineta toca anunciando minha chegada. Na entrada, o caderno de visitas de um lado e do outro, uma foto do chão ao teto de Alexander Graham Bell, conhecido como o inventor do telefone, embora hoje já se saiba que o verdadeiro inventor foi o italiano Antonio Meucci. Dessa forma, quadros estampam as paredes com fotos antigas, contos da história do local e placas explicitam que aquele lugar é para ser sentido e visto apenas com olhos e não com as mãos. Mesmo com toda a sobriedade da história, as monitoras conversam alegres e me deixam livre para contemplar o espaço: O chão de taco escuro bem lustrado, iluminado pela grande janela que há no fundo da sala ampla e organizada, os telefones de parede que são moldados por suportes de madeira e as paredes brancas com toda a simplicidade da época, oposta à fachada ornamental de pedra, acolhem os telefones de mesa. Assim, todos ficam dispostos em volta do espaço de maneira linear - no entrada estão os primeiros telefones

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Pé de ferro Primeiro modelo a unir transmissor e receptor em uma só peça Primeiros modelos a virem em escala comercial para o Brasil em 1880

Fabricação canadense, séc XX. Precisava de telefonista

Magneto de parede

Castiçal de mesa automático Primeiro modelo de telefone automático de mesa instalado na cidade de São Paulo, em 1928. Ligação a disco completada por uma central mecânica.

Aparelho portátil norte-americano Mesa operadora

Aparelhos utilizados na Campanha Militar na década de 40 Mesa Operadora Local

Da direita para esquerda Mesa operadora manual de origem americana, do sistema magneto, instalada em 1951 e Mesa Operadora IU, do sistema bateria central, instalada em 1952 usada para ligações interurbanas. Usava um calculógrafo para controlar o tempo da ligação e facilitar a cobrança. Nov/ 2018

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5Sentidos criados e seguindo ao fundo, os que já não precisavam mais de telefonista, passavam a ser independentes e em seguida, móveis. É possível matar a saudade até do antigo “orelhão” da telefônica que, até pouco tempo, era item rotineiro na vida dos brasileiros e atualmente está perdendo sua utilidade já que a maior parte da população possui um aparelho móvel. Do telefone de cordel, conhecido como latinha, que começou como uma brincadeira de criança em 1667, passando pela réplica do telefone de Dom Pedro II, pelos primeiros telefones de parede, a gigantesca mesa operadora e até os aparelhos portáteis utilizados na Segunda Guerra Mundial, o museu é uma ótima casa para tanta história que agregou nossa audição e desenvolvimento ao longo dos anos. Em determinado momento, muito solicitas, até abriram a porta dos fundos para ficar mais iluminada minha foto no painel de mdf com o rosto posto em um corpo da realeza em posse de um telefone antigo. Com cerca de 160 mil habitantes em Bragança Paulista, o museu só recebeu 7.600 visitas no ano passado. Número baixo se levar em conta que, antigamente, quando havia parcerias entre o museu e instituições, o museu recebia por volta de 15.000 visitas por ano. Sendo muitas dessas, excursões de escolas e, ainda assim, o número era baixo. A historiadora e monitora do museu, Claudia, diz que os visitantes são, em sua maioria, pessoas que estão conhecendo a cidade e que muitos bragantinos não conhecem esse presente da história para os dias atuais. Então fica o convite para conhecer os antepassados do seu queridíssimo celular e, se quiser aprender ainda mais, seu tour pode ser guiado pelas monitoras que estarão alegres em te atender para explicar as curiosidades dessa importantíssima história.

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Serviço: O museu do telefone fica na Praça

José Bonifácio, 126, no centro e funciona de terça a sexta das 9h às 17h e em sábados, domingos e feriados das 10h às 16h. Email: museudotelefonebp@hotmail.com


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Opinião

Análise de “Escuta” O podcast de música do Nexo Mariane Borges

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podcast Escuta do Jornal Nexo é publicado mensalmente e está disponível em diversas plataformas de música. Em cada programa é aprofundado um assunto musical, um artista, um movimento ou um período da história. O podcast além de abordar as músicas também retrata o contexto em que a mesma foi produzida. Além disso, também há uma clara tentativa de relacionar a música em questão com as tendências de comportamento da época. O podcast ainda flerta com inúmeros estilos musicais e épocas de produção.

O jornal O podcast é produzido pelo Nexo que é um jornal digital. O jornal em si tem por objetivo trazer notícias amplas e priorizar o rigor e a qualidade da informação. Fundado em 2015, o jornal tem três cofundadores e a equipe atual é composta por 30 profissionais com diferentes formações. O Nexo é uma iniciativa independente e sua receita provém principalmente de assinaturas, já que o site não tem publicidade.

Formato e conteúdo O podcast começa com uma vinheta de abertura e dois apresentadores dizem seus respectivos nomes, explicam o objetivo do podcast e o tema que será tratado. O programa está longe de ser uma mesa de conversa já que os apresentadores ficam no estúdio e as respostas dos entrevistados são gravadas e colocadas prontas no momento da edição. Além disso, as falas dos apresentadores também parecem seguir um roteiro. O podcast conta com algumas faixas musicais principalmente quan

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do cita alguma música específica. Em alguns programas os entrevistados também falam um pouco sobre suas músicas preferidas, refletem sobre o período histórico do assunto a ser tratado ou falam sobre alguma questão colocada pelos apresentadores. Entre uma entrevista e outra, os apresentadores abordam o contexto da música citada ou ainda fazem algum comentário para dar sequência à próxima entrevista. Durante o podcast, os apresentadores citam os instrumentos que são utilizados nas canções apresentadas e falam um pouco sobre a sensação que o instrumento provoca no ouvinte. No final do programa, há duas dicas musicais: uma dada pelo programa e outra por um convidado. Além disso, o encerramento do podcast é com a música que foi indicada. O podcast aborda tanto gêneros musicais como o caso do pós punk quanto artistas renomados no meio artístico como Ma-

donna. O programa também não se restringe a apenas estilos musicais de décadas passadas ou vindo de outros países e prova disso é o primeiro podcast do Escuta que foi sobre os motivos pelos quais o sertanejo é a música pop do Brasil.

Questão visual A maioria dos podcasts possuem seu conteúdo em áudio. Entretanto, o caso do Escuta é um pouco diferente: além de estar disponível em plataformas de música, o programa também pode ser acessado através do site do Nexo. Dessa maneira, no site do jornal cada podcast apresenta uma imagem sobre o assunto a ser tratado. Em geral, as imagens são em tons de amarelo mostarda e as figuras remetem a colagens. No caso do programa sobre a Madonna, a imagem é um recorte de uma foto da cantora e o fundo apenas com a cor amarela.


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A influência da arte olfativa no cotidiano Júlio César Sousa

Objetos simples que refletem na forma de consumir a arte

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capacidade do ser humano de captar odores de um determinado ambiente altera a sua percepção sobre algum lugar, fazendo com que este seja visto como agradável, ou o contrário, mesmo que não se tenha visualizado o ambiente por completo. Além da questão básica do odor, também é possível destacar a memória olfativa, esta que se mantém de acordo com as vivências de uma pessoa e faz com que grandes momentos sejam lembrados pelo simples contato entre a pessoa e determinado odor. É cientificamente comprovado que a memória olfativa leva o ser humano às mais variadas formas de sentimento e, de acordo com estudos da Universidade Northwestern, isso acontece porque o córtex olfativo está envolvido com a amígdala e o sistema límbico do cérebro, estes que registram as memórias emotivas e emoções. Dessa forma, a arte se aproveita destes aspectos para criar produtos esteticamente agradáveis, mas com um tom aromático que agrade o consumidor, criando uma mistura de tons, aromas e dando outra dimensão e proximidade em suas obras. É consenso que, para um produto audiovisual beirar a per-

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5Sentidos feição, seria necessário a capacidade de sentir os aromas do conteúdo apresentado, ampliando a sensação de proximidade com o telespectador. Mas e se a arte já tratasse dessa ampliação? É assim que surgem os produtos aromáticos como velas, incensos, sabonetes e outros que, em alguns casos, são considerados artísticos pela forma de apresentação e produção, mas também não deixam de ser acessíveis ao consumidor. “Produtos aromáticos

desencadeiam processos que liberam dopamina no organismo”

A estudante Manuela Admiral, diz que consome produtos como incensos e velas aromáticas pois seu cheiro “desencadeia processos que liberam a dopamina no organismo, por apresentarem um aroma agradável e natural”. O hormônio descrito (dopamina), é conhecido por liberar a sensação de prazer no organismo. A arte olfativa, assim como todas as outras, é abstrata tanto aos olhos de quem produz como de quem consome, fazendo com que um mesmo produto tenha diferentes significados de acordo com quem está em con-

tato. A produção desta arte também é algo essencial para explicar os efeitos esperados e como se chega ao ponto desejado. A doutoranda em mídia e tecnologia Janaína Azevedo conta que a sua principal motivação para a produção desse tipo de produto é a busca por produtos naturais e hipoalergênicos, ou seja, produtos que não contêm substâncias que, habitualmente, podem causar alergia. Ela considera essa produção como arte já que envolve processos históricos, desde a função do apotecário, conhecido como um antigo profissional da medicina que, além de tratar doentes, produzia medicamentos e pomadas. Mas também inclui-se o processo de produção de acordo com o estilo de uma pessoa, os produtos, sejam eles perfumes, sabonetes ou outros aromáticos, variam de acordo com a representação do aroma para determinado indivíduo. Atualmente esse tipo de produção não é vista com bons olhos por muitos grupos sociais, mas Janaína afirma que todo o processo envolve estudos químicos, ensinados pelo pai, que é profissional na área, e pela mãe e avós que também produziam este tipo de produto. As justificativas de quem não adere a essa

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5Sentidos ção é de que o produto natural não tem a mesma durabilidade que o industrializado. Janaína diz que de fato não possuem a mesma durabilidade, uma vez que os conservantes utilizados pela indústria fogem do padrão hipoalergênico que ela prega. Sendo assim, o indivíduo deve escolher entre durabilidade excessiva, ou qualidade de um produto natural. Ambos possuem seus pontos positivos de forma específica, sem necessariamente prejudicar quem escolhe um ou outro. Por trás de todo o processo aromático é explorado um novo tipo de arte, conhecido por arte olfativa ou, como explica Janaína, “the fine arts”, ou artes refinadas em tradução livre. Esse nome é dado para novos tipos de artes que não são tão expressas no meio, mas ainda assim se incluem na categoria. Aspectos básicos, desde a produção, inspiração e identificação com a obra faz com que os produtos aromáticos tenham um toque artístico especial, tanto para quem produz como para quem os consome. O aroma naturalmente produzido, dando toques da natureza em ambientes tão urbanizados como os atuais, talvez seja o segredo para o sucesso destes produtos.

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A diversidade dos perfumes atendem aos mais variados estilos

As velas aromáticas também são uma ótima opção de presente


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Cheiro de memória Qual a relação do olfato com a lembrança? Beatriz Ribeiro

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á sentiu algum cheiro que te lembrou alguma coisa do passado? O cheiro de infância ou casa de vó? A memória olfativa é quando a pessoa relaciona o cheiro a alguma memória. “É um fenômeno que acontece devido ao olfato estar diretamente ligado aos mecanismos fisiológicos que regem as emoções. Deste modo, quando sentimos um cheiro, a informação passa pelas narinas e é processada no sistema límbico, parte do cérebro responsável pela memória, sentimentos, reações instintivas e reflexos”, explica o psicólogo Rodrigo Romão. Para o neurologista Rodrigo Bazan “nós temos de fato uma memória olfativa e é por isso que a gente consegue discernir diferentes odores, mesmo que sejam odores ancestrais de infância, nós identificamos o odor materno de uma maneira, quando somos recém-nascido a partir daí todas as memórias olfativas vão sendo muito bem registradas, arquivadas, as boas e as ruins e algumas até que vem de origem da ancestralidade. Existe uma ligação de banco de memória, de fato, com uma questão olfativa.” A associação de cheiro com lembranças é normal, como lembra Rodrigo. “A relação entre cheiro e emoção pode ser entendida a partir da investigação do processamento das informações olfativas pelo sistema sensorial. Cientificamente, quando sentimos um aroma, de imediato as amígdalas trabalham e relacionam aquele odor à ação que está ocorrendo ou como nos sentimos naquele momento. E assim, o cheiro é guardado na memória acompanhado da emoção ou sentimento que estamos vivenciando naquele momento. E finalmente quando voltamos a sentir o mesmo cheiro, a memória afetiva é ativada, e a conexão entre o aroma e a emoção correspondente torna-se perceptível.” A olfação é um dos sentidos mais antigos do ser humano.

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“Você pode observar que as lojas mais diferenciadas se preocupam com o odor porque existem odores específicos que estimulam o consumo, por exemplo, de móveis, de vestimenta ou de outras questões” Rodrigo Bazan, neurologista.

”O nervo olfatório é o mais primitivo que nós temos, é o primeiro nervo craniano. Ele tem uma origem ancestral muito antiga, de uma correspondência no cérebro na córtex cerebral, a gente chama a região da memória olfatória de córtex entorrinal, e é onde nós temos a interpretação da olfação.” Muitos animais usam o olfato para caçar e sobreviver, já o ser humano usa para uma questão de perigo comenta o neurologista. Hoje em dia o homem usa o olfato para identificar alimentos estragados e feridas contaminadas, por exemplo. Rodrigo comenta que o olfato não é utilizado para a sobrevivência, mas sim para uma qualidade de vida. Marketing Olfativo: o que é? Você sabia que as lojas têm cheiros específicos para te atrair? Isso é chamado de marketing olfativo é quando um loja procura atrair os clientes criando uma relação afetiva deles com o produto. É o caso da loja Melissa, o cheiro dos seus calçados é reconhecido por grande parte da população. “Você pode observar que as lojas mais diferenciadas se preocupam com o odor porque existem odores específicos que estimulam o consumo, por exemplo, de móveis, de vestimenta ou de outras questões”, fala o neurologista. A fragrância é

desenvolvida por um especialista que faz uma análise da loja, levando em consideração o ambiente, o público alvo, os produtos e as sensações que quer passar. Com isso é criado uma fragrância que atenda as demandas e se torne a marca da empresa. O ambiente também tem que ter uma boa forma de aromatização para ter boa dispersão e deixar o ambiente agradável. O cheiro é extremamente importante para o ser humano, além da ligação com a memória e as emoções ele também tem relação com o paladar. Segundo estudos científicos, o homem lembra de 35% do que cheira, mais de 5% do que vê e 2% do que ouve. E é por isso que cada vez mais as lojas investem em aromatização do ambiente e produtos, uma loja com cheiro bom vende mais. É uma estratégia que as lojas encontraram para fazer com que os clientes fiquem mais tempo no lugar e observem mais. Por isso, ao escolher uma fragrância a loja tem que tomar cuidado para que ela não passe outra imagem, é importante que o cheiro tenha relação com a marca. Além disso, o marketing olfativo pode ser aplicado também em outros lugares como ambientes de trabalho e locais educativos, por exemplo, para melhorar o desempenho das pessoas que estam no ambiente. Nov/ 2018

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Cheiros que marcam Na pele, no cabelo e no corpo o perfume traz individualidade e personalidade. Beatriz Ribeiro

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cheiro pode ser suave, cítrico, com toques de lavanda ou fougére,o que combine mais com a sua personalidade ou ocasião. É assim que usamos o perfume. Um pote com líquido perfumado que diz muito sobre quem usa. O hábito de usar perfume vem desde o Egito. A palavra perfume vem dessa época “per” significa através e “fummum”, fumaça.Isso porque os egípcios

usavam fumaças aromatizadas durante os rituais de oração. As mumias eram embalsamadas em perfume e membros da corte e pessoas consideradas importantes também utilizavam.Mais tarde, os gregos também já tinham experiências com perfumes, eles exportavam óleo de flores e plantas maceradas. No Brasil, no começo era utilizado somente pelas damas de corte, mais tarde, somente nobreza brasileira usava.

Famílias aromáticas: o que são? Os aromas do perfume podem ser divididos entre famílias aromáticas do perfume: florais, cítricos, amadeirados, orientais e foungère. Elas são definidas pela predominância das notas olfativas do perfume. Floral é uma das maiores famílias aromáticas e utilizado principalmente por Nov/ 2018

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5Sentidos mulheres. Pode constituir de uma única flor ou um buquê. As notas florais comuns dessa família são: jasmin, rose, gerânio, patchouli e iris. Os cítricos imitam cheiros de sucos ou flor de frutas como limão e laranja, essa fragrância é, geralmente, fresca. Os amadeirados são uma mistura de harmonia de quentes ou opulentas. Patchouli e Sândalo estão entre as notas quentes mais utilizadas. Já o cedro ou o vetiver são usados para um acabamento mais seco. As notas mais usadas nessa família são:sândalo, pinho, patchouli, vetiver e madeira de cedro. Já os orientais são compostos de ervas e especiarias exóticas. As notas comuns dessa família são: sândalo, mirra,atlas cedar, baunilha e canela. Foungère significa “samambaia” em francês e é uma referência a Foungère Royale, que foi um perfume lançado em 1982 por Houbigant Parfum. Essa fragrância é uma mistura de lavanda, madeira, musgo de carvalho, cumarina e citrinos. As notas comuns dessa família são: citrus, lavanda, moss de carvalho, coumarina e gerânio. Um perfume possui três notas(cheiros) principais e o perfume é definido de acordo com a quantidade de cada nota. A primeira é a nota de cabeça que é responsável pelo primeiro cheiro que se sente quando abre-se o perfume. Eles evaporam rapidamente. A segunda é a nota de corpo ou coração é a que dá o cheiro das primeiras horas de aplicação do produto. A última é a nota de fundo ou base são mais densas e impregnam na pele após um tempo.

Como é feito o perfume? A perfista Ane Walsh diz que “o perfume é criado com a respiração, com os aromas, ciência, arte e inspiração. Atrás de cada nariz tem um cérebro e, com

toda certeza, é com este que nos desenvolvemos, com a ajuda daquele. O perfume é uma mistura de aromas, para chegar em um aroma só, que pretende ser melhor que cada um em separado.” A primeira parte do processo é a extração do aroma pode ser de uma flor, por exemplo. Depois de captado o aroma ele é reproduzido sinteticamente em laboratório. Após isso, o perfumista mistura as fragrâncias com álcool, essências, água e até algum corante, depois de pronto, é guardado em um tonel para manter a intensidade.

O resto é imaginação e intuição que constroem a partir do seu conhecimento técnico e sua inspiração artística”, relata Ane.

E o mercado?

Segundo a perfumista Ane Walsh há fragrâncias que são mais procuradas. “Baunilha, por exemplo, é uma favorita. Seu aroma conforta, acarinha, amamenta a alma da gente, lembra doces, alimento, a casa da vovó, aconchego. Outra tonalidade é a fresca, cítrica, terpênica, ozônica, porque lembra o mar”, explica. “Em cerca de um mês eu A resposta do mercado é monto um perfume, de- expressiva, segundo um estudo pois vai demorar um pe- realizado pela Euromonitor, o mercado de perfumes cresceu ríodo de cura, de matura- de 5% entre 2010 e 2015 e o Bração, quando as moléculas sil é um dos países líder de vense casam, para formar das. O país é responsável por U$ 6 bilhões de faturamento um só aroma” de um total de U$ 10,7 bilhões Ane Walsh, perfumista. da América Latina. Segundo o estudo, a projeção para o futuro é que o mercado cresça 6% Por fim, o produto é em- nas vendas entre 2015 e 2020. balado e distribuído nas lo- A mistura de ingredienjas. “Em cerca de um mês eu tes o toque suave, aconcheganmonto um perfume, depois te ou sensual fazem parte de vai demorar um período de cura, um perfume, um cheiro que a de maturação, quando as molé- pessoa carrega consigo. Uma culas se casam, para formar um forma de expressão antiga que só aroma”, conta a perfumista. é considerada por muitos uma Ane possui um perfu- arte, assim como para Ane. “A maria de antiquário, ou seja, perfumaria é considerada a ela produz os perfumes combi- oitava arte. Porque a criação nando os processos da matéria é uma composição de aromas, prima de forma antiga e mo- uma montagem, uma mensaderna. Ela também produz per- gem. O perfume diz onde está fumes exclusivos a pedido do e a que veio, de uma maneira cliente misturando as notas de bonita, e esta beleza se traduz acordo com o gosto da pessoa. no resultado final. O perfume é “Todo perfumista se guia atra- um adereço ao figurino de uma vés de um tema principal, um pessoa. O mais volátil, o mais brief, como chamamos. Pode ser presente. O perfume chega ana comanda de uma firma, in- tes e anuncia. Mistura-se à pele cluindo desde os ingredientes e roupas de quem o usa, mosaté o preço final do perfume, trando o melhor possível. Tem pode ser a preferência daquele a ver com uma música, um poecliente específico, pode ser uma ma, uma tela, mas na verdade é história, poema, filme, depende. uma escultura invisível”, relata. Nov/ 2018

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Reprodução: Capa do filme

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Além do faro I

Opinião

Giovanna Romagnoli

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magine-se tendo o olfato mais apurado do mundo. Agora, idealize conseguir decifrar e diferenciar todos os aromas que estão ao seu redor - os bons, ruins, quentes, frios, estáticos, em movimento, das pessoas e suas ações, dos elementos que as compõem e dos que estão ao redor delas. Assim Jean Baptiste Grenouille nasceu: sentindo o cheiro de peixe, de estragado, Nov/ 2018

miséria, sofrimento, sujeira e pobreza. No simples ato de respirar, viaja quilômetros, distingue os tipos de pessoas, alimentos, ações e objetos em torno. O filme “Perfume - A história de um assassino” é uma adaptação do livro análogo de Patrick Suskind e conta a história do homem que tinha esse poder - o do olfato extremamente aguçado. A obra exalta a impor-

tância desse sentido, que muitas vezes passa despercebido, já que é diretamente ligado à normalidade da nossa respiração. Foi lançado em 2007 com direção de Tom Tykwer e retrata a Paris do século 18, a maior cidade e também a mais malcheirosa da época. Cidade onde nasceu Jean Baptiste Grenouille, um menino que ainda não falava aos cinco anos, mas tinha


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5Sentidos o dom de um olfato excepcional. E isso, para ele, já era o suficiente, já que as palavras não eram adequadas para as experiências olfativas que se acumulavam dentro de seu ser. O objetivo era possuir todos os odores do mundo, no entanto, que fossem novos. Enquanto lê essa crítica, tente perceber os aromas que estão a sua volta e diferenciá-los. Jean Baptiste reconhecia as mais diferentes coisas, nas menores e mais remotas tonalidades dos cheiros, porém, sua maior ambição era ter o fugaz domínio do aroma. O cheiro humano, de pele feminina, principalmente as mulheres de beleza extraordinária e particular, o deixava em êxtase. Baptiste se intoxicava de prazer, perdia o rumo, fechava os olhos e se guiava atrás das mulheres apenas através do olfato, sentido esse que, de tão apurado, lhe permitia acompanhar passos, ações, decifrar objetos e aproximações ao seu redor e em torno de quem

ele estava “observando” através do aparelho respiratório. Já se sabe que a memória olfativa nos leva para outros lugares, nos remetem a situações marcantes em nossa vida por meio da lembrança gerada pelo mesmo aroma do momento vivido anteriormente, e é capaz de mexer com nossos sentimentos igualmente. Por isso que, ao formar a composição de um perfume, Grenouille aprendeu que é necessário se basear nos acordes do coração para compor um aroma completo e que atingisse as emoções de quem o provasse. Assim, após descobrir que todos os melhores perfumes possuíam notas que tornavam o aroma completo, decidiu criar sua própria base. Se “a alma dos seres é o aroma deles”, então as mulheres de alma mais bela teriam que morrer para que Grenouille pudesse formar os acordes mais harmoniosos já sentidos no mundo e, se o olfato é o sentido que mais provoca recordações, as pesso-

as iam se recordar dele e de seus perfumes para sempre. A fotografia também contribui na narrativa mediante o foco na textura, na cor e na proximidade profunda nos atos para montar esse quadro invadido pelo aroma e levar quem assiste a imaginar como seria sentir todos esses elementos. O cheiro característico da goiaba, o úmido de relva molhada e até o aroma delicado e macio das pétalas das flores são explorados para direcionar o olfato no decorrer da obra e sensibilizar o telespectador. A textura também compõe a fragrância. Dessa maneira o filme explora a memória olfativa, as sensações através do perfume, o foco nas matérias-primas na produção de óleos essenciais, a extração da essência e, guia seu enredo, por mais que distante de trazer os aromas a quem assiste, focado em mostrar e enaltecer o sentido do olfato, seu poder e sua grande influência na nossa vida.

Foto: Reprodução do filme Nov/ 2018

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PALADAR

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A gastronomia é uma arte? Beatriz Ribeiro

Carpaccio de picanha, molho de mostarda artesanal, alcaparras e grana padano

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Foto: acervo pessoal Thiago Araújo

Enteda quais são as influências dos chefes e o que eles pensam sobre o tema


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Foto: acervo pessoal Thiago Araújo

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arte é uma das formas que o ser humano utiliza para se expressar. Ela pode ser feita através da pintura, música, escultura, dança, teatro, cinema e arquitetura. Mas, e cozinhar é uma arte? O homem também se expressa na cozinha, a mistura de temperos, texturas e formas de montar um prato são as maneiras de exteriorizar sentimentos. “Você mexe com vários sentidos, acho que arte é isso mexer com vários sentidos de uma vez, não só com o paladar, mas com o olfato e a visão. Tá muito relacionado com

Entrecote ao molho poivre vert, seleção de cogumelos grelhados e aligot

a construção de sabores, eu considero uma arte”, conta o Chefe de cozinha Thiago Araújo. As discussões sobre gastronomia ser arte tem muitas vertentes. Há quem diga que a gastronomia feita no dia a dia não é arte porque é feita para a sobrevivência. Logo, a gastronomia feita em restaurantes e confeitarias é considerada arte porque mistura texturas e há um trabalho de sabor. Fato é que se diz que a gastronomia feita nesses lugares é uma experiência. A confeiteira Camila Campos acha que a gastronomia “é uma forma de expressar sentimentos, inspirações e encantar. E em

muitos casos são verdadeiras obras de arte quando esculpidas como, por exemplo, bolos, esculturas em frutas, biscoitos decorados e tantos outros doces que podem ser feitos em forma de arte que às vezes são até confundidos se são pra comer ou não”, explica. Para o chefe Thiago, “a gastronomia de hoje em dia, essas de programas e restaurante estrelados, está diretamente ligada à arte porque os pratos de alta gastronomia, o visual deles é um negócio incrível, os detalhes e todos os pormenores, o que aquilo recria, o que aquilo traz, o sabor daquilo é uma só sensação que o conceito do prato Nov/ 2018

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5Sentidos traz.” Se a alta gastronomia é uma arte, ela passa pelas críticas da arte também como a questão financeira de não ser acessível, alta gastronomia custa caro e por isso não são todos que tem acesso

Mas a relação arte e gastronomia não é trabalhada na universidade. O estudante Igor Albuquerque diz que “na maior parte não[ensinam sobre arte], aprendemos as técnicas de preparo de variadas receitas. E nos ensinam que na gastronomia é preciso ter disciplina na cozinha e cooperação integral da brigada.” Thiago também lembrou que na sua época de estudo era ensinado mais técnica, sobre segurança alimentar e história da gastronomia e que as inspirações ficavam por conta de cada aluno. Igor diz que quando já se tem conhecimento é mais fácil inovar. “Quando você faz uma preparação na cozinha, que já conheça a palatabilidade e textura, você procura diversificar, inovar, criar. Contudo, todo semestre tem algo novo, pratos novos para realizar, então acaba sendo uma “aventura” bem diferente e a felicidade em descobrir que aquele novo, que você olhou na receita e disse, mas o que é isso?, tem um sabor maravilhoso, é recompensador.”

A verdadeira arte está na construção dos sabores e sensações. Thiago faz a comparação com o grafite que alguns consideram arte e outros não, assim, a feijoada se encaixaria na mesma discussão. “A arte é meio subjetiva, no caso de gastronomia,

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Foto:Thiago Araújo

Boa apresentação e técnicas são essenciais

Gnud com azeite trufado, redução de aceto balsâmico

porque uma feijoada por mais feio que seja contém arte nela,” relata. Apesar de pensarmos de relacionarmos a arte da gastronomia com os empratamentos, tanto Thiago quanto Camila concordam que a verdadeira arte está na construção dos sabores e sensações.”É importante para mim que as pessoas sintam a sensação de ‘confort food’, que nada mais é do que a sensação de aconchego, lembranças boas de infância, comida de mãe, de avó. Como costumo dizer por aí, é importante que a comida diga que ama a pessoa que se alimenta com o que eu faço, se sinta importante e feliz.” Já para Thiago, “o mais importante é a construção de sabores, tudo está perfeito com os sabores e as texturas corretas.” Mas no fim o empratamento, a forma como o prato nós é apresentado, é o que chama mais atenção e no qual se obser-

va mais a influência da arte. “A apresentação dos pratos é algo essencial, uma vez que antes de comer com a boca, sempre comemos com os ‘olhos’. Uma refeição deve estar na medida certa, nem muito de um ou pouco de outro. O inusitado deixamos para quando criamos a nossa receita”, diz Igor. Thiago comenta que nos seus empratamentos ele procura equilíbrio e pensa na forma do prato e no que vai servir para não ficar uma comida colocada. A culinária está presente no nosso dia a dia e traz diversas experiências para nós. Assim, as diferenças de texturas, as temperaturas corretas e a construção dos sabores são processos difíceis de serem preparados e se bem feitos nos trazem belas sensações. Como diz Thiago, “a arte da comida é te transportar para lugares onde você já sentiu aqueles sabor.”


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Arte na taรงa O vinho como parte da arte e vice-versa Mariane Borges

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esde os tempos mais antigos o vinho já se fazia presente nas mesas. Os historiadores acreditam que o vinho tenha surgido na Pré História a partir do descobrimento da agricultura e fixação das populações. Entretanto, é impossível datar a origem do vinho já que o processo de fermentação ocorre naturalmente. Apesar disso, cada civilização tem sua própria história com relação ao vinho. No Egito, por exemplo, o vinho era usado em rituais pelos sacerdotes egípcios e seu consumo se destinava apenas à classe mais alta. Já na cultura grega, o vinho era apreciado em todas as classes e de acordo com historiadores, o vinho era tomado com água do mar e era necessário dissolvê-lo em água quente. Foi na Grécia também que o poeta Homero descreveu a bebida como “delicada e suave”. Na cultura Cristã, o crédito do plantio da primeira videira é dado a Noé. O Brasil, por sua vez, recebeu mais de 65 mil litros de vinho com a comitivas de caravelas de Pedro Álvares Cabral. Depois disso, as primeiras videiras foram plantadas na Capitania de São Vicente e eram da variedade vitis vinifera, oriundas de Portugal e Espanha.

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O vinho e os sentidos O vinho é uma ótima opção para quem deseja explorar e aguçar os sentidos. Durante o processo de degustação é utilizado três deles: o olfato, a visão e em especial, o paladar. De acordo com Jeff Previero, pós graduado em vinhos, a degustação é o ato de beber o vinho com atenção e a avaliação atenta através do paladar. Pelo paladar também, pode-se identificar quatro sabores: doce, salgado, ácido e amargo. O doce é percebido na parte anterior da língua, enquanto o amar go é apreendido na parte posterior. Já o ácido é verificado na parte lateral da língua e o salgado, na lateral posterior da mesma. É válido ressaltar que em uma degustação profissional, não deve se levar em conta preferências particulares.

O vinho como arte

A arte vai além daquela que se vê em telas ou teatros. O vinho também tem seu lado artístico e se relaciona com a arte a partir das características sensoriais em comum. Para Jeff, é preciso que o enólogo tenha muita sensibilidade na escolha das uvas durante a produção do vinho. Além disso, segundo o especialista é comum a associação entre vinho e arte porque podem ser consideradas duas grandes criações do homem e

carregam uma carga histórica e cultural. Tanto o vinho quanto a arte apresentam elementos em comum e no segundo caso, podese tomar como exemplo a pintura e escultura. O trabalho do enólogo se aproxima do trabalho do escultor e do pintor através da sensibilidade e dedicação.

Amantes da bebida O vinho atrai diversas pessoas além de especialistas e vinhos. Por isso, não poderíamos deixar de fora as pessoas que gostam da bebida. É o caso do estudante de Engenharia Mecânica Neto Barbeiro, que se interessou por vinho há 5 anos durante uma reunião de amigos e depois da primeira experiência decidiu estudar mais sobre o assunto. “É uma bebida milenar que passa por gerações, amadurece e envelhece” comenta Neto. Para o estudante, os melhores vinhos são os que o fazem procurar na memória referências para determinado aroma e sabor. De acordo com Neto ainda, a ligação entre vinho e arte é estreita já o que vinho consegue excitar todos os sentidos humanos durante a degustação. Assim, o vinho e a arte estão diretamente relacionados e entrelaçados.


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LÍQUIDO ARTESANAL Experienciar a diversidade de sabores, tonalidades e amargores é um dos atrativos das cervejas produzidas de forma caseira

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egundo pesquisa feita pela empresa de pesquisas digitais MindMiners, as cervejas artesanais estão ganhando espaço no gosto popular brasileiro. Realizado entre os dias 19 e 26 de janeiro de 2018, o estudo revela o comportamento dos consumidores brasileiros em relação à cerveja. Apesar de a maioria dos entrevistados ainda consumir cerveja industrializada, a demanda das receitas caseiras ganha cada vez mais popularidade. O estudo contou com 1000 entrevistados - todos eles consumidores de cerveja - e aponta que, quando consumida, mais de 50% dos entrevistados opta pelas versões artesanais por conta do gosto diferenciado que cada uma pode

propiciar. Entre as perguntas, 59% respondeu que a cerveja artesanal é mais saudável em comparação às industrializadas, sendo que 77% registrou que a diferença entre os sabores é muito alta. Para o autônomo Alberto Gonçalves Xavier, produzir e consumir se tornou um hobbi por fazê-lo se sentir mais jovem. “Me sinto mais vivo. Tomar uma cerveja que eu produzi é algo indescritível, é como se fosse um alimento para a alma. Quando eu abro a primeira garrafa de uma leva, sinto aquele aroma; vejo que a cerveja produz uma espuma persistente, duradoura e, quando observo a cor e ela me agrada, sinto-me realizado. Estou cada dia mais apaixonado por esta arte de produzir cerveja.”, relata.

Segundo Alberto, depois de começar a produzir dentro de casa foi que notou que aquilo que vinha direto das fábricas não conseguia mais agradá-lo. “Percebi que as cervejas industrializadas no Brasil são ruins, sem cheiro, sem sabor e sem aroma”, afirma. Para ele, esse é um dos motivos pelo qual os consumidores tomam as bebidas extremamente geladas, uma vez que isso disfarça a baixa qualidade e as impurezas existente. E para entender um pouco mais desse universo, a reportagem do 5Sentidos conversou com Thiago Ruffalo Cardoso, um dos proprietarios da cervejaria The Brew Brothers, recinto que trabalha produtos artesanais, primordialmente. Confira nas próximas linhas e aproveite!

Para ficar por dentro do universo cervejeiro! Pilsen Com característica clara e de sabor leve para o paladar, pode ser consumida gelada e é considerada uma bebida de entrada. Boa para iniciantes!

Lager Cervejas de baixa fermentação. Têm sabores que lembram pão torrado e cereais, além do lúpulo com tons florais e amargor.

Bock Possui tons avermelhados, é bastante maltada e tem alto teor alcoólico.

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Ale Cervejas de alta fermentação, uma vez que o fermento produz alcool na superfície da bebida. Essa variedade tem, normalmente, aroma de frutas e especiarias;

Weissbier É uma cerveja muito clara e os aromas remetem a banana e cravo, apesar de não haver nenhum dos dois em sua composição

India Pale Ale (IPA) Alto teor de alcool e muito amargor fazem parte da composição dessa cerveja.

Crédito: André Dal Corsi Nov/ 2018


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Variações exclusivas! 5Sentidos:As cervejas são forma de arte?

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Thiago:

Bom, elas são criações, então cada tipo de cerveja você cria de uma forma diferente. Como os ingredientes não são industrializados, eles passam por todo tipo de processo da natureza, por exemplo: o malte que pegou mais chuva tem uma diferença em relação com aquele que não pegou. O lúpulo que pegou mais sol talvez não tenha tanta propriedade em óleos do que o lúpulo que só pegou chuva. Então, tudo isso em uma cerveja altera o sabor e a intensidade dela. Uma cerveja artesanal não se replica, a não ser que você tenha o mesmo produto guardado em lotes de grandes quantidades, mas provavelmente você não vai conseguir atingir o mesmo nível, mas pode chegar bem perto.

5S:

Mesmo se você tiver um lote, é uma produção finita?

T: Exatamente! Passo a passo...

5S: Qual a diferença da cerveja artesanal para a cerveja industrial?

T:

A cerveja industrial tem um padrão de qualidade para fazer com que ela saia exatamente correta. As correções são feitas com produtos químicos que não são usados na produção da cerveja artesanal. Então, esse tipo de alteração é feito na indústria mesmo; já qualquer cervejeiro artesanal utiliza ingredientes naturais para fazer alguma correção.

5S:

Quais os desafios para fazer uma boa cerveja?

T - Primeiro, você precisa treinar muito e também precisa ter uma noção dos produtos que vai usar. Por exemplo, existe aí uma variedade de uns 500 ou 800 lúpulos diferentes. Então, cada lúpulo tem alfa-ácidos [óleos que garantem o aroma e amargor da cerveja]. Mas, para fazer uma cerveja legal, você tem que entender primeiro que tipo de lúpulo você quer usar e o que você quer atingir.

Vamos lá: existe um tipo que se chama Amarilo, que tem uma pegada de frutas vermelhas ou às vezes de um maracujá leve ou uma manga. Mas, como chegar nisso? Que horas você vai inserir ele na bebida? Então, a primeira coisa é entender de receita. Ou seja, se eu colocar o lúpulo no começo da receita, ele vai dar um amargor. Preciso pensar em que tipo de amargor eu quero.

5S:

Então a temperatura influencia no tipo de amargor?

T:

Não a temperatura, mas o tempo que vai ferver. Pois a primeira coisa que você faz na cerveja é preparar a água e fazer a mostura, que é a conversão das enzimas de amido que estão dentro do malte em açúcares. É como se fosse produzir cachaça. Você faz a garapa, depois você coloca sabor e aroma, fermentando no final, fazendo com que o açúcar seja consumido, produzindo o álcool. Da mesma forma, você produz cerveja. Então, nessa etapa, você precisa fazer um perfil de malte. O malte pilsen, por exemplo, é um malte mais claro e mais leve. É isso o que você quer na cerveja ou você quer uma cerveja mais avermelhada? Ou seja, você tem níveis de cores dependendo do tipo de malte que você vai usar. Chegando na cor, você precisa entender o que você vai querer de lúpulo para você saber se você quer muito ou pouco amargor, se deseja alto ou baixo teor de aroma. Tudo isso você vai saber com os lúpulos.

5S: Ou seja, a ordem dos fatores na hora de produzir altera o produto? T:

Você não consegue fazer a cerveja se não for nessa sequência: água, malte, lúpulo e fermento. Essa é a sequência.

5S: Qual T: Ele é

a definição de lúpulo?

uma flor derivada da cannabis que nasce em uma trepadeira. Essa flor tem pós de lupulina, um resíduo que fica na planta. Então, nas fazendas, os produtores secam elas e deixam e formas de pallet, assim como ração de coelho. Nov/ 2018

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Revista

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5S:

Quantas cores diferentes de cerveja a gente pode produzir?

T: A tabela de cores é bem extensa, a gente conseque qualquer cor... 5S: Verde? Vermelho? T: Verde você coloca

corante. Vermelho você pega do malte. O malte, na tabela, vai de um amarelo bem leve até o preto, passando pela cor vermelha. Ele vai do amarelo claro, até o amarelo escuro, vai do vermelho claro até o vermelho-marrom, saindo do marrom e indo para o preto.

Crédito: André Dal Corsi

Curiosidades 5S:

O que um produtor de cerveja nunca deve fazer?

T:

Beber. A pessoa nunca deve beber fazendo a cerveja, pois ela vai errar, por alterar a concentração do indivíduo, por que você tem que fazer várias medições durante o processo, entendeu? E para você esquecer disso, é muito fácil. A água, por exemplo, precisa ter seu pH medido. Quando você coloca mostura, você precisa medir os açúcares e às vezes os açúcares não combinam e você precisa resolver na hora. Então, se você esquecer, você estraga a cerveja ou ela não fica boa do jeito que você quer.

Crédito: André Dal Corsi

A simplicidade e os aromas da bebida vêm parar aqui, onde a cerveja é servida gelada e com seu teor e qualidade controlado

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Revista

Dicas importantes 5S:

Para quem tá começando a tomar cerveja artesanal, como ela pode começar?

T:

A cerveja artesanal é uma evolução. Mas, todo mundo, até pelo costume nacional, toma cerveja industrializada. Então, quando você entra na cerveja artesanal, dificilmente você terá paladar para tomar essas cervejas industrializadas. Então, é bom começar pelas cervejas leves, pois se começar por uma IBA [bebidas de alto amargor e alto teor alcoólico] logo de cara, vai levar um susto. Então, o melhor é começar tomando uma pilsen, depois uma pilsen um pouco mais forte. Depois, uma vaizen [cerveja de trigo], que não é amarga. Depois, pode tomar uma Pale Ale de baixo amargor e alto aroma. Após isso, pode ir para as IPA’s e as escuras. Cervejarias artesanais tornaram-se cada vez mais comuns pelo Brasil

Crédito: André Dal Corsi

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Opinião

Tem show na cozinha A arte que dá espaço a uma nova forma de entretenimento

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ecentemente houve um aumento crescente nos programas culinários, tanto na televisão quanto na internet. Talvez um fator que explique este crescimento é a adaptação dos programas ao formato de reality shows, que são amplamente divulgados na mídia, e sempre com recordes de audiência. Outro fator é a proximidade do telespectador com o intérprete destas obras, dando a sensação de que qualquer pessoa, desde que se dedique, possa cozinhar. Dentre todos os programas culinários o destaque vai para o Masterchef, um programa criado no Reino Unido, em 1990, e que hoje existe em diversos países do mundo, inclusive no Brasil, onde é sucesso de audiência. O programa já conta com 5 temporadas no país, desde a sua primeira transmissão, em 2014, e apresenta edições bem diversificadas, desde a edição profissional, até a edição amadora e a infantil. Talvez o sucesso dessa produção seja explicado pela versatilidade, já que os participantes da edição comum são de todas as categorias, desde estudantes de engenharia, por exemplo, até pessoas que dedicam a sua vida ao estudo da culinária. Os desafios são os mais variados, indo de pratos simples até os mais sofisticados, exigindo um conhecimento prévio por parte do participante. Mas isso não sig-

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5Sentidos nifica que não haja margem para erros, alguns, inclusive, dignos de boas risadas. Houve um caso em que o participante deveria produzir uma sopa Criolla peruana, e durante o tempo de mercado, onde todos devem buscar os ingredientes para iniciar a produção, o participante da edição de 2015 simplesmente esqueceu o tomate para a sopa de tomates (nome popular para a sopa peruana). É claro que o resultado não foi satisfatório, mas por não ser uma prova eliminatória o participante suspirou aliviado, mesmo depois do vexame. Na internet, cresce o número de produções audiovisuais voltadas ao ambiente culinário. Dentre elas pode-se destacar o canal Tastemade Brasil, que apresenta, em sua maioria, vídeos rápidos, no Facebook, com receitas bem elaboradas e com uma boa dose criativa. A página é um sucesso na rede e, atualmente, conta com mais de 16 milhões de seguidores. No Youtube a produção fica com criadores que, em grande parte, não adotam um tom profissional nas produções, como é o caso do Rolê Gourmet, onde dois amigos produzem receitas simples, enquanto conversam sobre os mais variados temas. Outro canal muito conhecido, e mais atualizado que o anterior, é o Ana Maria Brogui, um personagem que adotou um pseudônimo associado ao da apresentadora

do programa de televisão “Mais Você”, e que produz as mais variadas receitas em um tom informal, descontraído e próximo do seu público. Este canal, criado por Caio Novaes, é o primeiro programa de culinária do Youtube Brasil, criado em 2006, e atualmente possui mais de 3 milhões de inscritos. Talvez o fator de sucesso destes programas seja a ideia transmitida, de que qualquer um pode cozinhar. A cozinha, dentro destes ambientes, é levada como um local sagrado, terapêutico, e por vezes inspirador. As experiências relatadas pelos cozinheiros são inspiradoras, influenciando até mesmo quem nunca teve contato direto com a cozinha. Esta experiência também é destacada pelo fato de que cozinhar é sinônimo de independência, seja ela na cozinha, propriamente dita, ou até mesmo emocional, para lidar, por vezes sozinho, com a pressão emocional enfrentada nos realitys, por exemplo. Quebrando qualquer preconceito, hoje é visto com clareza que a cozinha é para todos, homens, mulheres, crianças (desde que supervisionadas) e todos aqueles que querem se aventurar na arte de produzir, e ter como resultado uma experiência que envolve diferentes sentidos. Cozinhar é uma arte, carregada de sentimentos, histórias, vivências, sabores e muito amor.

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Na pele está a arte que nem sempre é vista O conceito de tatuagem não é novidade para ninguém, mas até hoje não se sabe ao certo se ela é uma forma artística ou apenas estética Daniele Olimpio

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m 2011 ocorreu a exposição “A pele é a parede”, que reuniu 15 tatuadores com a ideia de transformar o espaço expositivo do ambiente em um corpo tatuado. O objetivo era a construção de um novo pensamento, principalmente o da “arte de se deixar marcar”. A principal função da tatuagem é gravar, conservar algo na memória, expressar. Quase como um monumento, um quadro ou uma pintura. Quase? Será? É ou não? Para muitos especialistas em arte e até mesmo para a sociedade, não. A tatuagem é estudada na antropologia por estar em muitas culturas e tradições, mas raramente é abordada por museus de arte ou design. E isso diz muito sobre o olhar que se deita sobre a estética. Além disso, a própria história da tatuagem, que remonta a 10.000 a.C., passou por fases e já foi muito mal vista, principalmente durante o século XIX, em que a moda se popularizou entre as classes mais baixas e sofreu reprimendas das autoridades que viam como obsceno o fato de se carregar uma tatuagem. A definição de arte é vasta e varia, mas pode ser considerada como toda manifestação ou obra que gera impacto ou alguma outra emoção no indivíduo que a vê ou sente. No entanto, segundo o escritor Toni Marques, em sua obra “O Brasil tatuado e outros mundos”, lançada em 1997, o grande obstáculo que ainda separa a tatuagem de ser considerada efetivamente uma forma de arte, é o fato dela não resistir ao tempo. É como se a obra original já nascesse condenada a desaparecer junto com quem a possui, dependendo de alguma forma de arte, como um desenho ou uma fotografia, para continuar a existir. De acordo com Eliane Serrano, formada em educação artística com habilitação em Artes Plásticas e professora na Universidade Estadual Paulista (UNESP), a tatuagem pode ser considerada

Desenho de tatuagem feito por Rafaella Roseta Nov/ 2018

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5Sentidos apenas um dos campos da arte. Como o objeto artístico tem diversas peculiaridades e vários teóricos discorrem sobre as definições, “não há como definir a arte por um único aspecto”. Contudo, a professora destaca que a originalidade e o processo criativo devem ser os principais pontos a serem considerados quando se pretende classificar o que é arte ou não. Independente disso, todavia, atualmente a grande maioria dos tatuadores é formada por profissionais que possuem ligação com as artes visuais. Como é o caso da tatuadora Rafaella Roseta, que é formada em design pela Universidade do Sagrado Coração (USC). Para ela, que cria os seus próprios desenhos, a tatuagem é o tipo de expressão corporal artística mais antiga que existe. “A modificação corporal transforma o indivíduo através da arte”, complementou.

O papel da academia

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Embora antigamente a função de marcar pessoas fosse reservada a figuras religiosas, hoje os cursos de graduação de artes visuais e design estão lotados de tatuadores com uma carreira já consolidada ou de pessoas com interesse em começar na profissão. E se os alunos já estão olhando para a tatuagem como algo além do que uma simples estética, não seria importante incluir a temática nas discussões em sala de aula? Rafaella sempre levou muito a sério o ato de tatuar e, por isso, sempre investiu na carreira como uma profissão, não apenas como hobbie. Mas isso não impediu que, durante sua graduação, não ganhasse experiência ou informações embasadas sobre tatuagem. Já o graduado em licenciatura em educação artística e pós-graduado em metodologia do ensino da arte, Júnior Bittencourt Nov/ 2018

Desenho de tatuagem feito por Rafaella Roseta

ratifica que “modificar a si mesmo, seja por qual motivo for, está inerentemente ligado à necessidade do homem de se expressar, e essa transmissão de ideia ou atitude nada mais é do que uma manifestação artística”. Ele também aponta que as modalidades inclusas na arte contemporânea, como o body art, a arte ligada ao corpo, deveriam ao menos ser abordadas nos cursos de arte. “Se os profissionais da educação se propuserem a discutir a importância da tatuagem no contexto histórico, não somente no que se refere às artes, mas também no âmbito da linguagem, da comunicação e quiçá da religião, já teríamos um saldo positivo quanto ao olhar para as artes corporais”, ressalta. Com um olhar bem mais positivo, Eliane, por sua vez, declara que, embora a tatuagem

tenha sofrido muita resistência no passado, atualmente está no auge por razões estéticas, culturais e até simbólicas. “No meio acadêmico e científico, os indivíduos tatuados aumentam a cada ano e, com isso, o estudo sobre o assunto cresce. No campo das artes está sim havendo um interesse maior sobre o assunto. E acredito que muito em breve a bibliografia se expandirá também”, promete. A tatuagem se expandiu para uma forma visual e sensorial inimaginável e se espalhou por todos os cantos, seja nos estúdios, ou mesmo expostas nas paredes dos museus e registradas nas lentes das câmeras. Para Rafaella, o conceito de arte é wmesmo subjetivo e o que importa de fato é que, para ela, é impossível se imaginar um dia sem ouvir o barulho da máquina de tatuar.


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5Sentidos

ta Rose ella Rafa p or eito em f tuag de ta nho Dese

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Artistas plásticos contemporâneos que buscam na tatuagem uma nova possibilidade de linguagem, extrapolando a pele e se expandindo para outros corpos: Jessica Harrison: Sua pesquisa considera a relação entre os espaços interiores e exteriores do corpo. Ela constrói esculturas de porcelana que representam a figura humana e as tatua. Jessica Harrison, Painted Lady, 2016

Rafael Assef: Nos trabalhos do fotógrafo paulistano, a pele funciona como uma tela na qual são feitas incisões. A sensação de dor que transparece ao ver seu trabalho é imediata Suas tatuagens são fotografadas e exibidas. O importante é o resultado visual que vai além da performance. Rafael Assef, Fita crepe 2, 2013

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A arte do toque em mutação A escultura se adequou à pós-modernidade para sobreviver, mas ainda enfrenta dificuldades para se firmar como ofício e chamar atenção tanto de artistas, quanto de compradores Daniele Olimpio

“Destruction”, escultura em argila banhada em resina sobre suporte de lata, feita por Lívia Ranzotti, em 2016.

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escultura é uma prática clássica que remonta às grandes e aclamadas obras gregas e renascentistas, como os bustos da Vênus de Milo e de Alexandre, o Grande. Mas com todo o desenvolvimento histórico-social, como sobreviveu a arte de esculpir na pós-modernidade? Bom, ela mudou. Não mais marcadamente talhada em madeira ou pedra, materiais resistentes, mas que, por outro lado, demoravam anos para ficar prontos; a modernidade agora usa de aparatos artísticos mais descartáveis, como velhas tubulações, plásticos e celulose. Essa mudança no material é também um ato demarcador de tempo e história. Os descartáveis são usados com o objetivo de espelhar uma nova configuração social, a da pós-modernidade, da vida que passa rápido. Segundo a autora Luciana Leite, no seu artigo “Pintura e Escultura pós-moderna”, a arte ganhou expressividade e ampliou o campo criativo, trabalhando com instalação e objeto em espaços públicos. “A intenção da obra tridimensional surge como comunicação e aproximação da vida, deixando leituras, narrativas e lacunas abertas que cabem ao observador interpretá-las”, analisa.

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5Sentidos tos históricos de Bauru, feitos ainda na década de 80. Adepto de um estilo mais clássico, ele acredita que hoje a escultura não interessa aos jovens, pois há pouco estímulo artístico e também devido à concepção de tempo adotada na era pós-internet: “A ansiedade é tão grande que parece que vamos perder tempo se formos trabalhar da forma mais tradicional, demorada”, aponta. Já a aluna do quarto ano do curso de artes visuais da UNESP, Lívia Ranzotti, se interessou por escultura ainda criança, brincando com argila, e hoje, produz peças em cerâmica e resina. Para ela, é normal que a forma de se fazer escultura tenha mudado, mas não concorda que hoje se produza menos. “Existem muitas esculturas modernas, e a produção artística atual no Brasil e no mundo mostra muitas peças tridimensionais”, salienta. Contudo, a jovem acredita que algumas questões poderiam facilmente afastar os novos

artistas, como o custo e a pouca procura por esse tipo de arte. Pouca procura que, segundo José apenas ratifica como a arte é malquista no Brasil e pouca incentivada, inclusive, nas faculdades, que, para o professor, são ineficazes em desenvolver a criatividade dos alunos. “Tem que se fazer da arte um hobbie porque não dá pra sustentar uma casa, infelizmente”, lamenta. Lívia, que voltou a manusear a argila quando entrou na faculdade, admite ainda não conseguir se sustentar com o que produz, mas não desanima, pelo contrário. Para a menina, o fazer da escultura é terapêutico: “Quando crio uma peça sinto que estou criando a mim mesma ali, modelando minha expressão e minha alma e não acho que a produção de esculturas vá acabar. Como toda arte, acredito que a tendência é continuar inovando sempre em questões de material utilizado, forma e representação”

Em transição

Nascido em Bauru, cidade do interior paulista, mas tendo se mudado ainda pequeno para o Uruguai, onde viveu até os 20 anos, até retornar novamente ao Brasil, o professor e artista, José Laranjeira viu na arte de esculpir, uma magia, para ele, inexplicável: “Eu sou apaixonado por esculpir. Imagina você pegar um pedaço de madeira, de pedra e transformar em outra coisa? É sensacional! Dá tesão!”, declara. Grande incentivador da arte, principalmente nos espaços públicos municipais, José é autor dos principais monumen-

Busto em homenagem ao jornalista Ruy Barbosa feito por José Laranjeira no centro de Bauru. Imagem: Matheus Rodrigo. Nov/ 2018

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“A Mão de Dante”, escultura feita em resina por Lívia Ran-

“Corazón”, escultura feita em resina por Lívia Ranzotti em 2017.

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Mãos à arte Seja por diversão ou trabalho, a massa de modelar é versátil e conquista corações Mariane Borges


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Slime O slime ganhou o coração de pessoas ao redor do mundo e, mais ainda, ganhou visibilidade nas redes sociais. A massinha, que é diversão para adultos e crianças, já conta com mais de 68 milhões de vídeos na internet. A pasta viscosa é semelhante à amoeba, com algumas diferenças como consistência e elasticidade. Além disso, o slime pode ser ensinado através de oficinas e produzido em casa por meio de diversas receitas. Em cada uma delas os ingredientes variam e podem alternar entre espuma de barbear, creme

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hidratante e até cola de isopor. De acordo com a recreadora e uma das donas da empresa Reca Meleca, que fica em Bauru, Carolina Moraes Santos, que inclusive dá a oficina de slime, é importante que haja cuidado no manuseio da massinha de acordo com a faixa etária. Para crianças mais novas, é melhor que o slime seja mais consistente já que pode grudar ou escorregar. Já para crianças mais velhas, o slime pode ser mais mole permitindo que a criança estique e faça bolhas na massinha. É válido ressaltar também que a oficina de slime para crianças mais novas é feita apenas com a autorização dos pais, já que a ingestão do slime pode ser prejudicial para a criança. Segundo Carolina, o slime além de desenvolver o tato também se relaciona com a visão já que a criança pode escolher a cor que vai ser

usada e optar pelo uso de glitter para personalizar a massinha. Para a estudante Samanta de Mello de 11 anos, a melhor parte do slime é a consistência da massa que se assemelha a uma gosma e a possibilidade de fazer b ol ha s e barulhos. A estudante que aprendeu a fazer o slime através de vídeos na Internet conta que a massa ficou ruim nas primeiras tentativas e que foi melhorando aos poucos. O próximo passo de Samanta é aumentar o tamanho da bolha na massinha. Uma das receitas para o preparo do slime inclui um ingrediente chamado Borato de Sódio ou Borax. É importante lembrar que essa substância pode ser prejudicial à criança em caso de exposição por um período prolongado. Além disso, é importante que os pais fiquem atentos com a cola ou a espuma de barbear pois podem causar irritações na pele. Crédito: Pexels

massa de modelar é conhecida por adultos e crianças, seja para fins de entretenimento ou até para a renda. A massinha surgiu nos Estados Unidos, na década de 1930 através de Noah e Joseph McVicker Na época, ambos trabalhavam em uma fábrica de produtos de limpeza e, descobriram a massa ao tentarem criar um produto que fosse capaz de tirar a poeira do papel de parede sem danificá-lo. Logo depois, perceberam que o produto criado poderia ser utilizado também por crianças, já que era divertido e reutilizável. Sendo assim, Noah e Joseph apresentaram o barro para algumas escolas da cidade e o nomearam como Play-Doh. Em 1956, ambos criaram a Rainbow Crafts Company cujo objetivo era produzir e vender Play Doh. No começo, a massinha era produzida unicamente na cor off-white mas, com o tempo ganhou as cores vermelho, amarelo e azul. Atualmente, a pasta pode ser feita em casa e já conta com inúmeras variações. Uma delas é o slime que é diversão garantida para os mais novos e o biscuit que pode servir até como renda para os mais velhos.


Crédito: Rich Minear

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Massa de modelar na infância

Biscuit

A massa de modelar é conhecida, principalmente, pelas crianças. A massinha pode servir para diversão ou também para o processo de aprendizagem da criança. Devido a sua textura, este material permite que os mais novos criem figuras e coloquem a imaginação e a criatividade para funcionar. De acordo com a coordenadora pedagógica da Escola Municipal Professora Anna Mantovani de Andrade da cidade de São José do Rio Preto, Eliani Ragonha, além da criatividade a massa de modelar possibilita o desenvolvimento das linguagens através da interação com outras crianças durante a brincadeira. A interação pode se dar no momento em que a criança conversa sobre o que está fazendo, dá ideias para o colega ou até mesmo o ensina sobre algo. Para Eliani, acompanhar as brincadeiras da criança também é uma maneira de descobrir quais são seus interesses e o que ela gosta de fazer, para assim, conhecê-la melhor. É durante atividades lúdicas como essa que a criança pode aprender mais sobre o si mesma e sobre o mundo. Vale lembrar também que é importante a presença de um adulto durante a brincadeira para garantir a segurança.

Uma outra variação das massas modeláveis é o biscuit. Conhecido também como porcelana fria, o biscuit ganhou espaço na década de 80 através da artesã Anna Modugno que, ao buscar uma massa que tivesse um baixo custo e uma maior durabilidade descobriu o biscuit que atendia a todos os requisitos. O biscuit pode ser comprado em lojas de artesanato ou feito em casa a partir de amido de milho, cola, vinagre ou limão e vaselina. Atualmente, esse material pode ser usado de diversas maneiras incluindo na representação dos noivos em bolos de casamento e na elaboração de bolos cenográficos. A professora aposentada de Bauru, Miriam Helena Peres, que utiliza o biscuit como passatempo e como fonte de renda quando surge oportunidade, afirma que o biscuit pode ajudar a desenvolver habilidades motoras em quem o usa, além de sutileza e paciência. Para Miriam, o biscuit também pode ser considerado como uma arte já que é uma escultura artística em tamanho reduzido. Já para a moradora de Bauru, Márcia Magalhães, que trabalha com o biscuit como única fonte de renda há 12 anos, o biscuit pode ser rel-

acionado com a arte através da criatividade nas peças, formas e texturas. Para trabalhar com a massa, Márcia explica que são usados boleadores e agulhas de inox, mas os iniciantes também conseguem improvisar com outros materiais. O biscuit seca em contato com o ar e para ser dissolvido, basta deixálo em um balde com água.

Outras funções Além de garantir a diversão, a massa de modelar também pode contribuir em outros aspectos. A massinha pode ser usada para aliviar o estresse ou também fazer parte do processo terapêutico e em ambos os casos pode ser indicada tanto para adultos quanto para crianças. De acordo com a psicóloga e mestra pelo programa de Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem, Giovanna Levatti, a pasta pode ser usada com função anti-estresse quando a criança ou o adulto interage de maneira lúdica e sem o peso da obrigatoriedade de atividades. Já no processo terapêutico de crianças, Giovanna afirma que a massa de modelar é um recurso lúdico já que é necessário outras formas de comunicação além de tornar a sessão mais atrativa para a criança e favorecer a formação do vínculo com o terapeuta. No caso dos adultos, a função do material é facilitar a comunicação de sentimentos através das sensações táteis.

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Arte com as mãos

Um pouco sobre as técnicas milenares que são desenvolvidas até hoje O pai de um amigo da minha mãe faz tear de pregos para vender e a mulher dele me ensinou a fazer cachecol no tear, em um churrasco, quando eu tinha nove anos. Faço até hoje com vinte e um e já consegui até um dinheirinho com essa arte da tecelagem, além de ser uma excelente terapia. Giovanna Romagnoli

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abe-se que o conceito de arte é amplo e inexato. Isso porque sua definição se modifica com o tempo, espaço e cultura onde é inserido. Porém, uma coisa não se pode negar: a arte em sua natureza é sempre o feito de alguém e sua base é a criatividade. Atenção, habilidade e paciência são necessários para reproduzir mais de cem vezes um trabalho repetitivo e manual que formará peças, desenhos e brincadeiras com tecidos. O material da linha, o tipo de ponto, o formato da agulha: qualquer detalhe faz uma grande diferença no trabalho final da criação de diferentes tipos de artes manuais. As primeiras peças de tricô foram encontradas no Egito há 1000 anos a.C e essa técnica é altamente usada até hoje. Cidades como Monte Sião, que é a capital nacional do tricô, e Curitiba, que promove o Congresso Brasileiro de Tricô uma vez por ano geralmente no mês

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5Sentidos de abril, valorizam essa arte manual e são as principais desenvolvedoras da técnica no país.

Passatempo

A dona de casa, Amabile Cardoso, faz tricô e crochê todos os dias com seus sessenta anos. Ela conta que aprendeu a fazer tricô quando tinha oito, observando sua tia e tentando fazer sozinha. Hoje, com a internet e os grupos temáticos nas redes sociais, Amabile faz bolsas de tricô em ráfia que é um tipo de plástico, casaquinhos para bebê e até coleiras de tricô para cachorro. O crochê, outra arte muito conhecida no Brasil, começou a ser difundido em 1800 pela francesa Éléonore Riego de la Branchardière, que desenhou padrões em um livro e distribuiu para que outras pessoas pudessem copiar. Atualmente, o crochê é altamente utilizado por criadores da moda por ser versátil e poder ser feito com vários tipos de linhas. Nos anos 80 e 90, essa

técnica era matéria obrigatória para meninas em algumas escolas. Quando tinha seus catorze anos, Amabile aprendeu o básico e, partir daí, com revistas, curiosidade e persistência, foi aprimorando suas habilidades que hoje resultam em almofadas, colchas e tapetes sextavados - que consistem em quadros de crochê costurados entre si que formam figuras geométricas. O tato é imprescindível para seu passatempo preferido e, por que não chamar de terapia artística?

Volta ao mundo

A imaginação vai longe na criação das peças e combinação de pontos e cores diferentes. No entanto, a definição entre o tricô e o crochê ainda é confusa para a maioria das pessoas. Enquanto o tricô é feito com duas agulhas e é geralmente usado para peças de lã, o crochê é feito com apenas uma agulha (com um gancho na ponta) e é utilizada para peças de linha, mais delicadas.

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5Sentidos O bordado também era matéria obrigatória em algumas escola na década de 80 e 90. “Eu fazia meu pano de amostra e da minha classe toda”, diz a artista plástica Vera Lúcia, que aprendeu a fazer bordados desde os seis anos de idade com a avó e têm conhecimento de várias técnicas empregadas em lugares diferentes do mundo: “As roupas dos reis da França e Inglaterra usavam fios de ouro para bordar suas vestes, bordados que não tem avesso e é denominado Blackwork. Já o Gobelin era o bordado preferido dos franceses que tinham móveis e quadros bordados à mão. O bordado da Noruega chama-se Hardanger, feito com fios contados. Enquanto os americanos gostavam de costurar então criaram o patchwork, que são colchas e toalhas de retalhos costurados a mão, formando ou não figuras geométricas”.

Além disso, há bordados em bolsas também. Delicadas, coloridas, com variações de pedras e estampas. Podem ser contem-

pladas e/ou sentidas, já que são em alto relevo, geralmente em pedrarias, que levam em média trinta dias para ficarem prontas.

Arte no chão

Mas, de todos os borda-

dos, os mais gostosos de apreciar com o tato são as tapeçarias. O Arraiolo, também produzido por Vera, é um tipo de tapete português feito em três fases: armação, matização e preencher os fundos, que pode ser usado tanto no chão quanto emoldurado na parede. Sem falar nos macios tapetes persas que são nozinhos feitos no tear com uma agulha de cada cor para formar o desenho e, com a ajuda de uma tesoura especial para o resultado ficar felpudo e delicado, leva cerca de um ano para ficarem prontos com trabalho de quatro horas diárias. Cachecóis e toucas também podem ser feitos no tear de pregos, que consiste em um aparelho onde se passa o fio de lã e a partir do tipo de ponto feito, é o “desenho” que terá o trabalho final. Cada modelo de tear é próprio para um tipo de peça e, quanto mais macia for a lã, mais macio será o resultado.

Fotos no texto reprodução Instagram V.limabordados Reprodução tapete persa: Wikimedia commons

Cachecol no tear

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Foto: Giovanna Romagnoli

Base de um tapete sextavado

Patchwork


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Outros tipos de bordados

Tricô

Crechê

Bordado toledano

Bordado livre

Bordado computadorizado Objetiva bordados

Tecnologia

Com o desenvolvimento da tecnologia, porém, cresceu no Brasil o tipo de bordado computadorizado. Essa técnica já não prioriza a personalização única, mas em massa, pois geralmente é usado para fazer lembrancinhas, roupas e acessórios para o mercado. Patrícia aprendeu sozinha a bordar quando tinha 25 anos e hoje, com 30, faz peças por encomenda e usa a técnica para complementar a renda no fim do mês. O bordado computadorizado vêm ganhando muitos adeptos e conta com 20 mil membros reunidos no Facebook para trocar matrizes e projetos, que são as bases das criações. Nov/ 2018

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Opinião

O tato é uma arte A relação entre terapia e um dos sentidos mais complexos do corpo humano Júlio César Sousa

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tato é um dos sentidos do corpo humano que permite a percepção de texturas, temperatura, pressão e outras possibilidades. Diferente dos outros sentidos, este ocorre em praticamente todo o corpo, variando apenas com relação à reação e sensibilidade de cada parte. Desde pequeno somos tentados a ver e, principalmente, sentir o mundo à nossa volta. Crianças, por exemplo, não vivem quietas enquanto não sentem os objetos que estão dentro do seu campo de visão, por isso é sempre recomendável que objetos de risco estejam fora de seu alcance. O sentido em questão é utilizado para a expressão de diversos sentimentos, todos dependendo da intensidade do transmissor, ou até mesmo do próprio receptor. Afeto, raiva, carinho e tudo aquilo que pode ser expresso através do toque é transmitido em forma de tato, um dos sentidos mais diversos e completos do corpo humano.

Somos, constantemente, dependentes do tato para as mais variadas situações do cotidiano, inclusive para a produção de objetos artísticos. Questionamos, por exemplo, a beleza da escultura “A virgem velada”, de Giovanni Strazza, seus detalhes incríveis, incluindo o véu produzido em pedra. Mas raras vezes são discutidas as sensações do autor da obra, quais foram os métodos utilizados e sua percepção de tato sobre a obra, que a tornou tão rica em detalhes e nos instiga ao prazer de sentir, com as próprias mãos, a verdadeira escultura, aliás, como pode uma obra tão bela ser esculpida sobre um material tão sólido? Uma obra que contraria qualquer princípio do material utilizado, despertando inclusive a curiosidade sobre a aspereza da obra, já que, dificilmente, se encontrará um material liso como é apresentado na escultura. Outra forma de utilização do tato é através da arteterapia, um conceito utilizado para definir a relação entre arte e recur-

sos terapêuticos. Um dos materiais mais comuns para este trabalho é a argila, onde são produzidas esculturas, por exemplo. A argila produz uma relação entre material e criador, fazendo com que o escultor seja capaz de criar, de forma concreta, ideias que estavam apenas nos seus pensamentos, estimulando o mesmo a pensar, ser criativo e produzir. O processo da arteterapia não costuma ter regras, deixando o autor da obra livre para qualquer criação, podendo construir e desmanchar objetos sem regras específicas. A definição do belo fica ao critério de quem produz, dispensando críticas acerca da estética do trabalho, já que o foco é na liberdade de criação. Desta forma, o tato é visto através de uma infinidade de possibilidades, desde o processo básico do toque, até as experiências com a terapia e sentimentos envolvidos. Este sentido é constantemente explorado, mas muitas vezes de forma inconsciente, sem dar o seu devido valor. Nov/ 2018

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Inovação e entretenimento: Como funciona o cinema 3D Os bastidores da produção cinematográfica que mais interage com o telespectador

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Júlio César Sousa Nov/ 2018


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filme de 3 dimensões, ou filme 3D, é uma produção que reforça a ilusão de profundidade, utilizando câmeras que facilitam a percepção de um outro ponto de vista, mais próximo do telespectador. Quem consome este tipo de conteúdo tem a ideia de estar inserido na produção, fazendo parte do meio e tornando mais real a experiência cinematográfica. Os óculos são utilizados para facilitar a noção de profundidade da tela, uma vez que, sem este artifício, a imagem fica comprometida e impede o consumo do conteúdo de forma proveitosa. Para facilitar a compreensão, o professor de física, e mestrando em matemática, Antônio Dias diz que este fenômeno pode ser entendido como uma espécie de ilusão ao nosso cérebro, “Essa ilusão nos faz pensar que estamos em um ambiente tridimensional, com profundidade, e não em frente a uma tela”. De acordo com o professor, isso acontece porque o es-

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5Sentidos pectador é influenciado pelo desvio no ângulo da visão, algo quase imperceptível, mas que já influencia na percepção de profundidade da imagem. Nas produções mais antigas, eram utilizados óculos com lentes de cores diferentes, geralmente uma na cor vermelha e ou-

tra azul. Essa configuração fazia com que cada um dos olhos enxergasse uma camada presente na tela, gerando assim a tridimensionalidade, que poderia ser explicada pela união de diferentes imagens, e junção destas no cérebro, alterando a percepção original. O

problema é que as lentes coloridas também alteravam a percepção de cor da imagem, fazendo com que a realidade desta fosse distorcida, e consequentemente trouxesse problemas para o telespectador, como dores de cabeça e até mesmo problemas oculares. O professor explica que, com o avanço da tecnologia, surgiram outros métodos de produção, o problema é que estes são mais caros que o citado anteriormente, e faz com que um número menor de produções audiovisuais sejam projetadas com estas características. “As projeções atuais utilizam uma tela prateada, que é escurecida pelos novos óculos que captam e filtram ondas na vertical e na horizontal, sendo uma posição para cada lente. Essas ondas são chamadas de ondas polarizadas”. Apesar de toda técnica envolvida, no final das contas o importante é o entretenimento e como essa inovação influencia na diversão do telespectador. No caso da estudante, e mãe, Jéssica Oliveira, o produto final atende às

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5Sentidos expectativas tanto da mãe quanto da criança. “É um novo jeito de aproveitar o cinema, nós sentimos que estamos dentro do filme e as crianças acham o máximo, quando é filme de super-herói elas se sentem como um e já querem estar vestidos e ambientados para aproveitar ao máximo”. A tecnologia 3D está presente em grande parte das redes de cinema no Brasil. Ainda são poucos os filmes que atendem essa tecnologia, mas tornou-se cada vez mais comum adequar-se ao ambiente da tridimensionalidade. Jéssica diz que prefere os filmes com conteúdo de ação para o cinema 3D, já que a inserção do telespectador é maior nestas produções, produzindo alguns sentimentos inesperados e até mesmo aumentando a adrenalina durante o consumo. Apesar de ser mais caro que o 2D, a função tridimensional do cinema ainda chama a atenção do telespectador, mesmo existindo por tantos anos. Há quem diga que existe pouca diferença entre uma produção e outra, mas é fisicamente comprovado que o cinema 3D é um diferencial para o público e um avanço tecnológico.

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Com tinta em mãos

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Matheus Rodrigo

A arte é capaz de expressar pensamentos e sentimentos. Conheça o contexto em que o grafite surge e entenda a importâcia da prática como representação de visões de mundo Nov/ 2018

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ançada pela Netflix em 2016, a série “The Get Down” conta a história da efervescência sócio-cultural existente na década de 70 em Nova Iorque nos Estados Unidos. Localizada mais especificamente na região do South Bronx, a obra explica o surgimento de movimentos artísticos como hip hop e grafite e os contextualiza como uma forma de expressão de indivíduos, muitas vezes sem voz, que enxergam na arte uma oportunidade de se manifestarem politicamente. Ao utilizar para demonstrar esse cenário a perspectiva de um grupo de jovens adolescentes, a série também faz relação ao crescimento que ambas formas artísticas teriam, popularmente, no futuro. Apesar de ser definida como “pichação” - um termo pejorativo - e de ainda ser vista como uma poluição - assim como o hip hop - por alguns, hoje é impossível não admitir o caráter consolidado que o grafite exerce no campo artístico. Exemplo desse fenômeno é o artista norte americano JeanMichel Basquiat. Negro, envolveu com o grafite logo cedo nos anos 70 e se popularizou na década seguinte como um pintor neo expressionista, com senso crítico apurado. Embora tenha falecido cedo em 1988, suas obras têm valor considerável até hoje - umas delas foi vendida em 2017 por mais de 110 milhões de dólares.

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Cena da série “The Get Down” Reprodução/OGlobo

Artista Jean Michel Basquiat junto a uma de suas pinturas Reprodução/AdoroCinema


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O universo urbano

Quero que elas se questionem sobre o que está representado logo a frente delas”, ele define. Quando questionado sobre as mudanças que a técnica teve nele, pontua: “Humildade e respeito”. O envolvimento de Guilherme é um dos exemplos da popularização do grafite, que tem chamado mais atenção do público em geral como arte. Atualmente, o formato tem aceitação Daniele Olimpio

Embora tenha origens que remontam a antiguidade utilização da pintura como método comunicativo -, o crescimento do grafite é, em sua maioria, atrelado a popularização do ambiente urbano. Isto porque, tendo como cenário as grandes cidades, sempre em movimento, com diversas pessoas e variados espaços vazios, a forma de expressão construiu uma visão, muitas vezes, antagônica ou contestadora dos valores e dos ambientes que seus artistas ocupavam. Criado em cenário cultural nova iorquino, o grafite utilizavam trens da cidade como suporte para a arte e dessa maneira, aumentavam ainda mais o raio de alcance para as ideias que queriam transmitir. “Inicialmente, os grafiteiros tinham como característica se auto afirmarem no meio urbano, a fim de certo modo gritarem ‘eu existo’ por meio de assinaturas artísticas nos espaços que ocupavam”, explica o artista Guilherme Lemos. A tendência para a manifestação política da arte foi progressivamente evoluindo. Em manifestações ocorridas em maio de 1968 ao redor do mundo, alunos e trabalhadores buscavam a conquista de maiores direitos civis. Na cidade de Paris, na França, em resposta a medidas repressivas das autoridades, a tática adotada para anunciar as demandas dos manifestantes foi escrever mensagens de protesto com tinta de spray nas paredes da cidade. O ato que deu origem

a utilização política de formas lúdicas, tornou claro o papel que o criador pode desempenhar em sociedade. “O teor político tá intrínseco mesmo quando essa não é a intenção, como nos jovens de nova Iorque no fim dos anos 70. A arte, seja ela urbana ou não, tem poder político”, ressalta o também grafiteiro Guilherme..

Prova do potencial político e social da arte, a campanha “Juntos Somos fortes” na cidade de Americana, São Paulo, de autoria do artista Leonardo Smania, foi feita com o propósito de coletar colaborações para a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais)

Trajetória de identificação Guilherme teve seu envolvimento inicial com a arte quando tinha dez anos. Como desde criança se envolveu com desenhos, encontrou no grafite a plataforma adequada para se expressar. Hoje, define que seus objetivos não se limitam a ter voz mas também a de gerar uma reação do público com a sua obra. “A intenção é incitar o senso crítico das pessoas.

do campo acadêmico e até mesmo do comércio e é visto como uma habilidade destacável. “A valorização é bem clara, tanto pelo modo como o grafite tem evoluído tecnicamente quanto pela ação de valorização cultural da modalidade”, comenta o artista. Portanto, o estilo artístico, cada vez mais, se consolida em diversos estratos e se fixa como um importante mecanismo de expressão e crítica para os que desejam e querem opinar sobre o mundo que lhes cerca.

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Conservar para não restaurar

Apesar de simplória, a residência guarda mais história do que se imagina!

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Mais visibilidade

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Pinacoteca de Bauru é um recinto que promove a divulgação e promoção das artes visuais. Ali, mostras de arte são realizadas, além de apresentação de musicais e lançamentos de livros. A residência também é conhecida por Casa Ponce Paz, uma vez que guarda obras dos irmãos Ponce Paz, assim como pinturas em aquarela, óleo sobre tela e esculturas de argila e concreto. Segundo a Secretaria Municipal de Cultura de Bauru, o edifício já foi uma residência familiar. “Também sediou o Arquivo Morto da Justiça do Trabalho na década de 1970. Seu projeto original data de 1938 e foi assinado pelo Arquiteto João Cacciola*”, diz o documento online. A casa, no meio do centro urbanizado de Bauru, faz contraste por conta de suas características arquitetônicas rústicas. Ao entrar na Pinacoteca, somos recebidos pelo agente cultural da Secretaria de Cultura da prefeitura de Bauru e artista visual Ronaldo Gifalli. O agente responde que há sempre um calendário disponibilizado no começo dos anos. “A gente sempre acompanha a obra dos artistas. Então a gente já agenda a exposição de alguns que estão em começo de carreira ou pode ser um que já está com a carreira desenvolvida. Em contraponto, a gente pede uma doação de uma das obras

Artes visuais em Bauru Segundo o Ronaldo, a casa leva este nome por conta de uma família de artistas. Então, a principal missão da Pinacoteca bauruense é auxiliar a divulgação de outros artistas, além de contar um pouco sobre a história do ambiente. “A gente também fala da história de Bauru e do desenvolvimen-

Além de trabalhar na questão de preservação, Ronaldo reitera a importância da questão educativa. “O que o artista mostra também educativo, então a gente tem um critério de qualidade, onde a gente percebe a trajetória do artista, todo o processo de produção da obra, qual é o caminho que ele está traçando”, ressalta. Ele também diz que as obras mais famosas acabam agregando um processo contrário, garantindo mais valor para o que está armazenado. “O que você produz, você precisa mostrar”.

A impressão das pessoas A variedade de temáticas e tipos de artes que ali estão apresentadas pode atrair mais ou menos o público. “A arte contemporânea ou uma obra muito densa que necessite do entendimento maior sobre o que é aquilo pode fazer com que o número de visitantes diminua”, aponta o artista Ronaldo. Ele também pontua que muitos dos bauruenses se impressionam quando descobrem do que se trata a casa. “Há um público espontâneo que entra e diz ‘Ah, nossa, o que é isso aqui?’, e respondemos que é uma casa-museu. E aí eles perguntam se podem entrar e nós dizemos que sim. Faz 10 anos que estamos aqui e tem muita gente que não sabe da existência desse museu”. Foto: André Dal Corsi

André Dal Corsi

Foto: André Dal Corsi

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As esculturas a mostra e espalhadas pelo local dão essência para a residência Nov/ 2018

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“Para não precisar do restauro, nós precisamos higienizar e conservar, além de trazer o aspecto original daquilo que o artista produziu” - Lúcio Henrique Arnaldo do Nascimento - Estudante de Artes Visuais da Unesp e Voluntário da Pinacoteca de Bauru

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5Sentidos Por ser tratar de um ambiente com planejamento arquitetônico do século XX, há importância em manter a aparência rústica a fim de manter as memórias históricas vivas. “As pinturas das paredes estavam escondidas, porque foi tudo pintado de branco. Então, os defeitos que estão aparentes se deram por conta da falta de preservação. Em um futuro, pretendemos restaurar totalmente um dos ambientes da casa para mostrar como era a casa na época de 1938”, diz o artista. Para o estudante de Artes Visuais da Unesp e voluntário da Pinacoteca, Lúcio Henrique Arnaldo do Nascimento, é importante manter as obras em bom estado para que elas durem por mais tempo. “As obras têm uma validade. O chassi da tela pode pegar cupim, então é melhor higienizar agora do que precisar restaurar uma obra, pois a obra é uma espécie de documento que conta a história através da arte. Uma camada de pó em determinada região pode mudar a cor e a interação das cores que têm na tela. É um processo bem minucioso e muitas vezes não é perceptível, mas faz diferença”, salienta o voluntário.

Fotos: André Dal Corsi

Preservar para ser visto

Valorização De acordo com Lúcio, muitas das pessoas que entram no local acabam demonstrando reações diferentes de acordo com o que está exposto pelo ambiente. “Tem aquele que olha e acaba saindo sem entender nada. Em contraponto, muitos ficam maravilhados”, diz. Lúcio afirma que a casa de João Ponce Paz dá um choque cultural diante do desenvolvimento urbano da cidade bauruense. “Aqui tem uma arquitetura clássica, é muito diferente dos espaços que a gente frequenta, assim como Teatro Municipal que já tem outra configuração. Então você chega aqui e tem um impacto com o antigo, assim como em uma cena de filme da Belle Epoque”, finaliza o estudante. Nov/ 2018

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Crítica “Grandes Olhos” Uma mistura de arte e confusão Mariane Borges

Obra produzida por Margaret Keane


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filme “Grandes Olhos” retrata a história real da artista Margaret D. H. Keane na década de 50 e 60. Dirigido por Tim Burton, o filme conta a história de uma futura artista de sucesso que ao se separar do marido, foi para São Francisco com a filha à procura de uma vida nova. Ao chegar na cidade, Margaret se apaixona por Walter Keane e os dois se casam. Antes de ir para São Francisco, Margaret pintava quadros retratando, em geral, crianças com olhos grandes e profundos. Ao se casar com Keane, ela continua pintando mas com uma diferença: Walter assume publicamente a autoria das suas obras. O curioso na história é que Margaret foi conivente com a fraude durante 10 anos e após esse tempo, o casal se separa e a verdadeira autora dos quadros processa Keane. No tribunal, ambos tiveram que colocar suas habilidades artísticas à prova e pintar diante de toda a imprensa. Por fim, Keane se recusa a pintar por uma suposta dor no ombro, dando a vitória à Margaret. De acordo com o filme, Walter Keane morreu em 2000 e não aceitou a derrota, alegando ser o verdadeiro artista. Além disso, com o decorrer da história

Obras produzidas por Margaret Keane. Crédito: Flickr é possível perceber inúmeras mentiras sobre a vida de Keane, começando pela sua profissão. A história em si é surpreendente, mas Burton poderia ter explorado mais os elementos emocionais das personagens, com o intuito de dar profundidade à história.

Análise estética Tim Burton, conhecido por suas obras fantasiosas e macabras deixa poucos rastros de suas características no filme. A única presença de sua iden-

Cenas do filme “Grandes Olhos”. Crédito: Flickr

tidade é a cena em que Margaret começa a ter delírios em um supermercado e passa a enxergar suas pinturas nos rostos das pessoas ao redor. O filme ainda possui uma paleta de cores em tons pastéis mas que ainda assim carrega um pouco do ar sombrio marcado como característica de Burton. Cada cena é marcada sutilmente por alguns tons. Ora esse tom é rosa, ora azul, ora vermelho e assim vai.

Elenco

A escolha dos personagens é certeira e tanto Amy Adams, no papel de Margaret, quanto Christoph Waltz, no papel de Walter Keane, se parecem fisicamente com os personagens da vida real. Além disso, ambos os atores se saem muito bem em suas atuações. De um lado Amy, interpretando uma mulher frágil e até certo ponto medrosa e, do outro lado, Christoph no papel de um homem charmoso e com boa lábia. É curioso observar também que os atores escolhidos também tem olhos grandes e expressivos, com exceção de Christoph no papel de Keane. Uma analogia possível é a de que Keane, ao viver uma vida baseada em mentiras, não conseguia enxergar as poucas verdades ainda existentes na sua própria vida. Nov/ 2018

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Obra produzida por Margaret Keane

A história dentro da história Para analisar o filme, é necessário levar em conta o momento histórico em que se passa os acontecimentos. Na década de 50 e 60, o machismo perpetuava com mais força dentro da sociedade e isso fica claro em uma das frases de Margaret dentro do filme “Não usamos o meu nome pois as pessoas não levam a arte das mulheres a sério”. Além do medo que dava margem para que Margaret fosse conivente com a atuação de Keane diante de suas obras,

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no fundo a personagem também sabia que não obteria sucesso ao se declarar como autora das pinturas, já que a sociedade não aceitaria. No filme também fica claro a relação conflituosa que permeava o casamento de Margaret e Keane. Parte do conflito se dá pelo machismo presente quanto pelo abuso emocional que Keane faz na esposa, seja subestimando sua capacidade intelectual ou pela pressão psicológica.

Visão e arte As pinturas de Margaret deixam

explícita a relação entre visão e arte. Entretanto, deve-se destacar um ponto crucial das obras: o olho sempre está em evidência. Para Margaret, os olhos são a janela da alma, e ao colocá-los em evidência a artista também explora a expressividade do olhar. Ao focar nos olhos, Margaret também se coloca em contradição já que ela mesma busca esconder ao máximo sua própria verdade diante da autoria das obras. Apesar disso, o olho continua sendo de extrema importância para a apreciação da arte e principalmente, para o sentido humano.


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5Sentidos Foto: Giovanna Romagnoli

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Cadê a história que estava aqui?

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ra noite do dia 2 de setembro de 2018 e um foco de incêndio era registrado no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Localizado na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, o museu era o mais antigo do país. Grande parte do acervo de mais de 20 milhões de itens foi perdido no incêndio. Mas este não é primeiro museu a acontecer isso e nem o último - se a política de governo não mudar. Em 2010, o fogo atingiu a sala de répteis do Instituto Butantan em São Paulo e queimou 70 mil espécies que estavam conservadas em formol. Em 2013, foi a vez do Memorial da América Latina: o prédio atingido foi projetado por Oscar Niemeyer em uma área de 84,5 mil metros quadrados e foi inaugurado em 1989. O Museu da Língua Portuguesa também foi atingido por um incêndio que tomou conta do prédio, em 2015. Como o acervo era digital, será possível recuperar todo o material da instituição, porém, a maior perda é a do prédio histórico, que está em processo de recuperação. Os museus são locais responsáveis por contar a história do passado. Lá se encontra a memória do povo, da cultura, da história da nação. Mas, infelizmente, nos últimos anos, devido a uma política de retrocesso, esses espaços estão sendo destruídos e tornando-se cinzas. Com a aprovação da PEC 95 (Emenda Constitucional que congela os gastos públicos por vinte anos nas áreas de saúde, educação e assistência social), a situação destes locais deve piorar e, assim como o Museu Nacional, outros lugares podem ser tomados por chamas que consomem tudo pela frente. Os museus existem para, além de guardar registros históricos para pesquisa, que é essencial no desenvolvimento de um país, nos mostrar os erros e acertos, para que a partir disso também possamos evoluir. No entanto, com a redução dos repasses federais, as instituições responsáveis por preservar a história do país passam por problemas de manutenção e deterioração. Tal atitude comprova um projeto de governo que pretende manter o povo sem acesso à informação, ou seja, fadado à ignorância. “Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la” diz o filósofo Edmund Burke, então é necessário compor esses espaços que ainda existem, valorizar nossa cultura, dar importância para a memória e para as pessoas que se doaram para construir essa narrativa. Esse ensaio busca valorizar e enaltecer a história e as personalidades que contribuíram e contribuem para formar a cara do Brasil.

Beatriz Ribeiro e Giovanna Romagnoli

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A Pinacoteca

do Estado de São Paulo é um dos espaços artísticos mais importantes do Brasil. Fundado em 1905 é o museu mais antigo de São Paulo. O museu já passou por diversas reformas, com destaque para a de 1990, que o tornou um dos museus mais dinâmicos para a cultura brasileira, promovendo diversos eventos culturais e se tornando ativo neste cenário. A Pinacoteca abriga mais de dez mil obras de arte brasileiras, sendo um dos maiores e mais representativos acervos do país. Nov/ 2018

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arsila do Amaral foi uma das principais pintoras da primeira fase do movimento modernista do Brasil. Pintou obras como A Negra, Operários e o Abapuru (à direita) que inaugurou o movimento antropofágico nas artes plásticas na década de 20.

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Black is diferent, Niki de Saint

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O Museu Histórico Municipal

de Bauru reúne uma série de materiais a serem preservados com registros da história e cultura da população local. Além dos registros históricos, o museu conta também com peças artísticas produzidas pela própria população, de diferentes faixas etárias, com a intenção de registrar novos arquivos para a posterioridade. Pinturas, objetos e tudo aquilo que é possível de ser produzido com os materiais disponíveis, estes são alguns dos registros encontrados no museu bauruense, inaugurado em dezembro de 1988.

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O Memorial da Resistência

de São Paulo preserva memórias da repressão política, bem como a resistência dos povos para com estas ações. O museu atua nas áreas de pesquisa, preservação e comunicação com o objetivo de manter esta memória viva, homenageando inclusive aqueles que lutaram pela democracia brasileira.

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ste é o local onde os seguranças controlavam os presos (que se encontravam na parte de baixo). Dessa forma, os agentes tinham uma ampla visão superior de tudo o que acontecia no local, repreendendo todos aqueles que tentavam métodos de comunicação, como a troca de bilhetes, ou possuíam objetos que ameaçavam a ordem interna.

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dormitório era, possivelmente, o local onde os presos mais possuíam sua privacidade resguardada. Mesmo sendo um ambiente coletivo, a ideia é que cada um tenha um canto particular neste ambiente inóspito. Toda essa questão é abordada na teoria, uma vez que a superlotação era algo comum para a época, invalidando o argumento de “ambiente particular”.

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Revista 5Sentidos  

Revista produzida pelos alunos do 6º termo do curso de jornalismo da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" para as discip...

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