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ISABELA BOSI


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ISABELA BOSI

QUASE


Talvez nos encontremos de novo, mas ali onde você me deixou não me achará novamente.

Samuel Beckett


acordou com o sol deitado sobre seu rosto e parte de seu braço esquerdo, estava com o corpo um pouco torto e os pés para fora da cama que não era bem uma cama, talvez fosse uma ideia de cama aquilo ali, e tinha dormido sem meias e sem lençol, vestindo somente uma calcinha muito apertada e uma blusa velha e encardida, não tinha travesseiro, mas se tivesse com certeza não faria diferença alguma, sua cabeça estava caída diante do calor daquele sol que invadia a sala com violência, mas ela não se movia, sequer sentia que as bochechas já estavam vermelhas, o interfone tocou duas vezes e nada se mexeu, nem vento andava ali, nada, podia estar morta e esta ser mais uma cena de alguém que tomou doses elevadas de algum remédio e deixou de existir, mas não era isso, ela estava mesmo muito cansada, não tinha mais como acordar, talvez por isso tenha adiado tanto dormir ontem, sabia que não acordaria tão logo e talvez nem mesmo acordasse mais, era a ideia que fazia do exausta que estava, sua cabeça já começava a confundi-la quando não encontrou a xícara de café que usara mais cedo, procurou por toda parte e não teve jeito, não achou, depois foi perceber que estava ali, ao lado da pia, ainda com açúcar dentro, mas já não queria tomar o café que, agora, estava frio, escovou os dentes por alguma obrigação que virou hábito, nem mesmo se lembra disso, largou a escova 8


suja de pasta ao lado da pia, esqueceu de se olhar no espelho, fez xixi e não lavou a mão nem deu descarga, sentou na dúvida se deveria finalmente dormir, ficou alguns segundos resistindo, a cabeça pesando quase como imã em direção a essa espécie de cama e, então, caiu, não deitou como se deitam as pessoas, devagar, por partes, mas desabou inteira sobre esse colchão, com os olhos já fechados, entregue, não sonhou, dissemos que jamais faríamos isso novamente, que jamais os mandaríamos de volta à morte, e agora aqui estou, me despedindo de meus homens, sabendo que morrerão solitários e com frio e com dor – voltamos –, já não há mulheres menos ou mais belas, o que há são mulheres, e sofremos, à espera, à espera do impossível, do nunca mais, desse nada, estamos novamente aqui, diante das trincheiras, da fronteira, da farda, símbolos, punhos, logo nós, que dissemos “que horror!” e que escrevemos tantos livros, tantos e tantos livros, e filmes, e choramos por nossos antepassados judeus, escravos, torturados, negros, homossexuais, índios, mães, filhos, e agora, nesta plataforma de trem (ainda há trens, constroemse cada vez mais trens e não imaginávamos que seria para isto), sem dignar-me a segurar o choro 9


e nem mesmo a chorar, esquisita, tentando olhar os rostos de meus meninos, esses que acompanhei por tantos anos, e estão pálidos, sérios, mudos, completamente diferentes de tudo, há uma guerra aí, logo aí, e eles sabem, sei que estão com medo e penso em me lançar na frente deste vagão que pode nunca sair do lugar, olho por algum tempo (quanto tempo?) este trilho, me confundo com ele, me perco, penso no alívio de morrer aqui, agora, esmigalhada, estraçalhada diante do horror desta despedida impossível, deste começo de inúmeros fins inarráveis, e houve uma tarde, uma manhã, um primeiro e último dia – e hoje é o que?, como nomear isto? – agarro-me às mangas de suas camisas como um animal devastado, rasgo-as com o que resta de minhas unhas, sangro, acho que grito, não sei, não ouço, já não ouço nada, será sorte de ficar surda?, deus, te chamo, o que sou aqui?, sei que há barulho, há muito barulho, algum tumulto – estamos no inferno – o trem soltaria fumaça se fosse noutro tempo, noutro século, agora é moderno e há tecnologia, já não temos onomatopéias, são grandes e me lembram foguetes de brinquedo, plástico, são muitos os homens aqui e ainda estão limpos, são muitos e esses vagões não parecem suficientes, hoje faz sol, mas poderia chover, há tanta água, em seus rostos, escorrendo por seus cabelos, pelas nucas, nas mãos, nos pés, 10


por dentro das meias brancas – e eu choro, agora eu choro – não iremos lutar, não conseguia segurar o riso, aquela situação era tão ridícula que prendê-lo era quase violência, colocou a mão na boca, encheu as bochechas de ar, ficou vermelha, pensou que explodiria e riu, afinal, riu alto, riu muito, sacudindo o peito, e não seria o riso uma dança?, ficou constrangida, abaixou o corpo, fingiu procurar algo no chão, ficou ali, no chão, ainda rindo e ainda constrangida, e de que lhe valia que o mundo seguisse existindo sem seu corpo?, e saber que ali, a algumas quadras de distância, dois meninos se beijavam pela primeira vez e, um pouco mais distante, algumas estações de metrô acima, aquele rapaz levava um tiro na nuca, enquanto carregava as compras com a mão direita e a bicicleta com a esquerda?, todo o volume de vento que afastava as folhas da árvore também lhe chegava aos cabelos, fazia subir a barra de seu vestido quase o suficiente pra mostrar a calcinha já velha e frouxa, o motorista do ônibus te esperava atravessar na faixa e não no meio dos carros, fazendo a moto parar no susto, a cidade era qualquer cidade, não há distinção, em todas sempre existirá uma senhora de cabelos gastos e pele amassada pra contar mais uma vez aquela 11


história de quando era jovem, seus pais lhe diziam para tomar cuidado, sempre, e ainda: lembre-se!, a lembrança imposta assim, sem nenhuma liberdade, não haveria liberdade até o dia em que finalmente sairia de casa descalça, sem lembrar de mais nada, nem mesmo do nome que lhe deram e que já não queria ter, perdeu seu nome e todo o cuidado que havia tomado por tantos anos, quase caiu de joelhos no chão, deixando uma marca de sangue no cimento, mas se segurou na lixeira laranja e riu, riu muito, de forma exagerada, ninguém ri tanto assim de nada, era cedo e já fazia um sol impossível, suava a testa e o couro cabeludo, repetia pra si e pra todos que estava muito, muito suada, seu rosto vermelho e engordurado, caminhava pouco, sempre gastando o que tinha com táxi só pelo prazer de coordenar alguém: siga em frente, eu te aviso quando for pra virar à esquerda, está bem?, seu celular apitava insistentemente, alguém que lhe buscava, para quê?, o que queriam?, tudo pode esperar, tudo, viu?, colocava as mãos no vidro frio da janela e depois a testa e fechava os olhos, vinha à cabeça alguma música, aquela música, sorria, antes, bem antes, eram seus pés que tocavam os vidros e corriam por cima de árvores embaçadas, esse cinema que inventamos, quais filmes você já viu?, esqueço os nomes dos diretores da mesma forma que esqueci o seu nome, todos esses nomes, esquecia, mas como 12


esquecer do que não sabe?, decorar é impossível, ela diria, é uma agressão ao improviso, ela diria, e a tudo que relaxa os músculos do trapézio e faz a moça gemer de alívio, tudo parece ir muito bem, nada está diferente, o shopping ao lado de casa continua a abrir às nove horas da manhã, mas não sei dizer, tem alguma coisa, tem alguma coisa esquisita, um erro no sistema, uma queda de energia, alguma coisa aqui, e não saberia dizer o que é, porque as casas permanecem de pé, nos mesmos lugares, com aquele vigia à porta, cochilando entre as cinco e cinco e meia da tarde, com um rádio de pilha preso à mão, eu continuo vestindo as mesmas roupas de antes, e coçando meus olhos quando canso ou quando quero sentir algum prazer imediato, a menina de cabelos e pele claros segue tomando seu café com leite naquele bar ali da esquina, as nuvens ainda anunciam chuva quando ficam cinza escuro, o vizinho continua gritando todos os dias com a cachorra pra ela calar a boca e ficar parada, todas as portas rangem a uma determinada hora do dia, seu joão vem todo sábado lavar as escadas do prédio, sem reclamar, enquanto canta alguma música que deve falar de deus ou de adultério, as baratas ainda correm desesperadas no quintal, meu umbigo está 13


aqui, profundo, o homem do gás segue gritando todos os dias ó o gás!, e a igreja toca o sino quase na mesma hora que o terreiro começa a batucada, mas não sei, tem alguma coisa diferente, seus pés estavam dormentes, suas costas pesavam, parecia estar prestes a alguma morte, algum fim, não conseguia mais olhar aquela multidão inteira, a seu lado uma senhora, já bem velha, pelo menos uns quarenta anos mais velha, chorava, abraçada a um homem, seu filho, em silêncio, sério, quase petrificado, não parecia gente, entregue ao abraço desesperado dessa mãe que já não era uma mãe ali, mas um pedaço enorme de carne em putrefação, iria morrer em alguns dias, sentada no sofá, com a televisão ligada em qualquer canal e os pés enfiados em meias de lã, quase cega, enxergando apenas a lembrança de seu filho aos nove anos segurando o cachorro ferido que encontrou na rua e chorando, seu filho chorando, era essa a imagem no seu momento de morte, a que via, a única que conseguia ver, ainda estou nesta plataforma de qualquer época e qualquer cidade, não importa a estação do ano, nem mesmo o ano, sei que pareço estar aqui há dias, meu corpo não sabe mais se fome ou sono, não sei me comportar aqui, nunca me ensinaram isto, não é a morte o que me causa 14


espanto, nem a ruína da saudade, é essa entrega apática, quase voluntária, essa aceitação muda diante do fim de tudo, e já estivemos aqui antes, há não muito tempo, quase posso me lembrar, quase, participou já de carnavais, mas nenhum como este, faz muito calor, muito mesmo, e não há diferença se tira toda a roupa, mete-se no mar com sede, bóia, parece que todo seu corpo de repente se dissolve também, finalmente, e ri sozinha, não um riso histérico, mas um risinho solitário, sem som, não é água, mas está água, enquanto escuta a conversa do casal ao lado, alguma coisa sobre não ter paciência com gente assim, que distância haveria entre o casal e gente assim?, separa-se do diálogo e volta novamente para si, menos alegre agora, nada, nada mais um pouco, para, olha o morro, olha o horizonte, olha o céu, olha a pedra e os garotos pulando da pedra e os gritos dos garotos pulando da pedra, volta a nadar e agora escuta um forró de longe, do calçadão, que lhe chega como um passado já sem lembranças, alguém ri alto e grita acabou o amor nessa porra!, ela move a cabeça e não encontra a voz, a pessoa ria enquanto acabava com todo o amor, como um mal presságio de tudo, sentiu seu corpo mudar ali, não sei, não era azul ou transparente, sentiu algum medo, podia ser 15


também solidão, voltou com a cabeça em direção ao sol e depois ao que chamamos de horizonte, quis sorrir, não deu, alguém gritava de longe para o menino voltar, já era hora de ir, talvez fosse o fim da tarde chegando, isso que experimentamos cada dia sem tédios, aceitamos, ou esquecemos, não sei, o menino voltou, nadando e resmungando qualquer coisa, comeu um biscoito com impaciência enquanto uma mulher lhe enxugava os cabelos, ele não faz ideia de que nunca mais ninguém lhe enxugaria os cabelos assim, e não há nada de novo nisto, dessa vez sorriu novamente, alguma leveza, uma esperança ou saudade, tanto faz, algum afeto que resta, sempre resta, e restar não tem a ver com sobrar, estaria mais perto de um restart, um recomeço, um re-início, ficar pra voltar, uma espera, talvez?, já caiu o sol e agora faz frio, deveria sair da água, mas os dedos estão enrugados, melhor ficar logo aqui, restando, resting, ele não penteia o cabelo há alguns meses, já se formam dreads irregulares na parte de traz da cabeça, esqueceu de escovar os dentes pela manhã e acabou comprando uma bala halls na banca em frente ao posto para disfarçar o bafo, tinha prometido tomar um café naquela tarde, mas esqueceu, ou fingiu que esqueceu, e foi 16


caminhando com pressa, quase correndo, sem ver, no caminho passou por alguns moradores de rua, esses que já quase não falam nada, podem ser mudos, ninguém jamais vai saber, passou também pela casa de sua ex-namorada e por aquele apartamento de onde sua irmã se jogou do sexto andar há tantos anos, chegou à beira da enorme poça, tirou a camisa e secou o suor do rosto com a manga amarrotada, sentou no banco de pedra, deitou no banco de pedra, as costas nuas em contato com o quente, olhou o céu, algum pássaro de passou bem perto de sua cabeça, podia tirar também a bermuda e ninguém notaria, riu disso, mas sem alegria, o vendedor de coco gritou alguma-coisa-viadinho! para alguém, levantou dali e seguiu andando, tinha emagrecido nos últimos dias, essa bermuda bege tentava lhe cair da cintura, revelando parte da cueca azul, a moça de patins achava isso bonito mas não parou para olhar, seguiu, ele colocou a camisa no ombro esquerdo, sequer notou qualquer garota ou patins ali, foi caminhando em direção à praia, sentia-se tão sujo que já nem se sentia sujo, talvez tivesse fome, não sei, comprou uma água sem gás no caminho, estava gelada e jogou metade da garrafa na cara, era de solidão que tudo isso cantava, toda canção, cada batida, seu corpo tinha o peso limite do estar sozinho, de todo o vazio, conhecia já essas histórias 17


de coração, leu todos esses livros de que falavam logo cedo, dos clássicos aos mais debochados pela crítica, literatura russa, inglesa, francesa, brasileira, africana e indiana, sim, há livros também na índia, bons livros, parou para reler alguns, todas essas palavras, tantas palavras, não é?, e algum poeta algum dia lhe disse para sair da página, para sair, e saía já tão pouco, a voz lhe falhava de tanto tempo gasto sem dizer nada, tinha os olhos de gavião, nunca vi um gavião assim, mas sei que tinha, olhos de caça, deixaria tudo no mundo por um minuto desses olhos, foi até ali, talvez, já pensando nisso, imagino que todo seu corpo tenha se preparado nos últimos dias para viver aquele momento, logo depois de uma espera impaciente e uma escuta fajuta – não ouviu nada que eu sei –, sentou-se na frente, anotou algumas bobagens em um caderninho, filtrando da fala do outro aquilo que lhe serviria como discurso, alguns rabiscos, caneta de tinta verde, muitos movimentos na cadeira, muitas idas ao celular, tentando apressar o final daquilo para que chegasse logo o seu momento – o que é isto, afinal? – levantou o braço, pegou o microfone, foi a primeira a falar, tremia um pouco, na voz e na mão, a cabeça do microfone bem perto da boca, 18


quase grudada, não a ouviam direito, queria gritar, queria ser enorme, não caber ali, que todos a vissem enorme e não cabendo ali, que a reverenciassem, ajoelhassem diante dela para que pudesse dizer pelo amor de deus, não se ajoelhem diante de mim!, foi aplaudida por uma fala que não compreendi, acho que ninguém, mas aplaudiram porque falou no microfone segurando o caderninho e antes de todos os outros, é bonita e isso deve servir de alguma coisa, fiquei constrangida, mais: fiquei completamente desencaixada, tudo me pinicava, queria vomitar alguma coisa, minha bunda doía e minhas costas estavam curvadas, meus cabelos ainda sujos de ontem, todo mundo aplaudiu e eu só queria escorregar pela cadeira até o chão e ficar ali, e é um silêncio tão profundo no meio disso, ainda quando gritam, ainda quando insistem em subir nos palcos com suas bocas sempre tão próximas de microfones frios, ainda assim, o silêncio, não querem aceitar, essa cena já foi interpretada em outros tempos, eu me lembro, era alguma coisa assim, e talvez morra na próxima inspiração, e isso é medo, mas também alívio, todo esse oxigênio, e cada molécula de seu corpo se expande junto, se comprime, ressuscita da pequena morte que 19


é lançar pra fora esse ar já gasto, ainda hoje, há pouco, checou duas vezes o quarto ao lado para ter certeza de que ele não desistiu de viver, tem medo de ser deixada aqui sozinha e não quer que ninguém desista, a solidão não basta, é pouco demais, solidão, esqueceu alguns traços de seu rosto, de seu sorriso, até dos olhos, aqueles olhos, os menores, esqueceu tudo menos as mãos, grossas, essas que tocam órgãos, reparou bem nos dedos e nas veias, foi embora sem querer ir e sem querer ficar, de novo, impossível, um arrepio na pele quente, esse órgão maior e intocado, manchado de limão e cera depilatória, de todos esses anos tentando vida, dos quais se lembra de apenas muito-pouco, relâmpagos, equívocos, parece que foi ontem, mas não foi, prometeu que não se esqueceria e mentiu, quando viu o casulo naquela planta, no topo do morro, sentiu um aperto no peito, quase quis chorar, a falta de ar, tinha ainda medo de altura e não sabia o que fora fazer ali, talvez quisesse mesmo ver tudo de cima, ainda mais, talvez fosse o desejo de morrer, evitava romper o casulo com as unhas – é preciso saber deixar o tempo –, mas sua impaciência, erupção, um monstro em pleno meio dia de um verão interminável porque 20


se quer assim, sem fim, buscou tantas vezes respirar, sentir de volta a calma de saber que viver é mesmo impossível e, por isso, tanto faz, mas não conseguiu, fracassou, e é um fracasso atrás do outro, terminando por esgarçar a capa bem preparada desse casulo esbranquiçado, assustando e machucando a borboleta recém-nascida, frágil, totalmente despreparada, talvez nunca consiga voar, é sua culpa e ela sabe, essa palavra, sente-se mal, sente-se péssima, estou meio enjoada, não sei se é fome ou se é algum tipo de câncer, ela disse, esta noite, a caminho da geladeira, andava meio cambaleante de um cochilo mal dado, com os cabelos presos no topo da cabeça, desgrenhados, e esse vestido de ontem, que cai bem sobre seu corpo jovem e imaturo, mas que é um tanto velho e desbotado, não estamos preparados para a morte, tem sido seu pensamento, e as coisas todas têm andado um tanto esquisitas, fica na dúvida se são mesmo as coisas ou se é seu próprio corpo, e agora esse enjôo, ri quando pensa “podia estar grávida”, porque não podia, pensava ter controle sobre as coisas e, como não tem, porque não se tem mesmo, se perde e se desmaia vez ou outra, bebe água quando percebe que já devorou tudo direto da panela, com a mesma colher que 21


usou para cozinhar, lava a louça imediatamente, só com água, e deita na cama sozinha, protegida de qualquer outro, desenvolve algumas fobias ali, naquela cama, dedica-se a isso, horas por dia, em silêncio, quase triste, quase morte, não é a morte que ela teme, pois não há medo algum em morrer, mas em perder-se no outro, checa o celular pra ver se alguém decidiu mandar uma mensagem capaz de distraí-la de si, ela abraça, abraça todo tipo de pessoas e poderia ser esse seu emprego se emprego como esse existisse, não é somente uma busca, é mesmo uma dedicação à vida, pequenas trocas de algum calor, talvez alguém que a acompanhe para sempre, faz muitas pausas, muitas e muitas pausas, por qualquer razão, sem qualquer razão, acha que se cansa muito fácil, mas pode não ser isso, fazia já quanto tempo que fora deixada ali?, alguém tem horas?, parece já não haver mais ninguém por perto, tem um barulho de silêncio e faz frio, não era pra fazer esse frio agora, percebe que está encolhida naquele canto próximo à bilheteria, podia ter esquecido de tudo e estar perdida, mas não, sabe muito bem como foi parar ali, alguém passa por perto, aperta sua mão, sentiu o calor da mão do outro e concluiu que devia estar com algum frio, lhe estenderam um caderno, uma caneta, ela não 22


entendeu e resmungou de volta um ruído qualquer, foram embora, como vai fazer pra voltar pra casa?, onde está sua casa se ainda está em algum lugar?, sabia que todos já tinham deixado aquele lugar, todos tão ocos quanto ela e ainda assim tinham deixado aquela estação, todo mundo morre todo dia há tanto tempo, e todo mundo está em guerra todo dia há tanto tempo, perder os filhos e os amores na guerra é algo que já existe há tanto e tanto tempo, nada disso é novidade e nada disso espantaria um de seus vizinhos, ouvir tiros já é comum ali perto e ninguém vai chorar com ela, não há novidade alguma, não há pena ou pausas, o tempo não vai esperar por ela, nem por eles, nem por ninguém, achou que entendia de tristeza, não entendia nada, e agora não faz ideia de como se levantar daqui, onde foram parar minhas pernas?, jurava que tinha vestido uma calça jeans mas não, sente a mão esquerda formigar e o peito apertar num desespero agudo, fosse lobo não teria forças para uivar, é isto o fim?, pediu uma cerveja e segurou sua mão, isso não é memória ainda, não quer que seja, é uma cena qualquer dessa cidade, ele segurando sua mão e ela segurando o copo cheio de cerveja, só presta se for bem gelada, se olham, ela se sente bonita e não 23


tem vontade de dizer absolutamente nada, e ele eu já não sei, algum mistério que nem mesmo se preocupa em entender, são onze horas e quatorze minutos, conversam sobre bobagens, mas é bom conversar sobre bobagens assim, com as mãos encostadas e uma cerveja, riem, parece outro tempo, as coisas fazem um barulho enorme em volta, somam uma melodia ruidosa e despercebida, tem uma música tocando ali também, mas não faço ideia de qual seja, não sentem fome, tudo parece estar bem, poderia estar, mas algumas horas antes ela quase não conseguiu sair de casa, algumas horas antes pensou em cancelar tudo, não é fácil chegar, tem algumas distâncias e ninguém entrega flores a ninguém nessas horas, estar sozinho pode ser muito doloroso, e o único jeito de parar, não era capaz de escutar nada do que lhe dizia, parecia outro ali, desejou ser feita de vento, voar, ir-se, dizendo: tive de ir, sou vento, desculpa, até nunca mais, espero, rindo, rir, há quanto tempo não ria assim?, agora ri de tudo, é patética essa sua tristeza, se ao menos pudesse calar, ou terminar logo esse copo, o dia parecia bonito lá fora, algum sol, algum vento, devíamos estar felizes mas a gente sabia que tudo não estava bem, até sorríamos vez ou outra, 24


tentávamos, mas uma hora vieram nos chamar, não lembro bem como foi, parece uma nuvem na memória, mas sei que vieram nos chamar, era necessário que todos saíssem de suas casas, as pessoas estavam armadas nas ruas, não eram pistolas nem fuzis, mas espadas e facas comuns, enferrujadas do uso na cozinha, seus rostos estavam cheios de sangue e sequer se pareciam com animais, tinham deixado de ser bicho, eram agora outra coisa, os olhos de vidro, as bocas abertas, muitos dentes, dava medo, corremos, segurei sua mão para tentar te proteger e te levar comigo aonde quer que fosse, mas vieram atrás de nós e no desespero te soltei, nos separamos, continuei correndo, um pavor que não se sabia possível de sentir, quase te esqueci, encontrei uma casa abandonada – como todas as casas ali –, dentro, um quarto, dentro do quarto meu coração disparado, solidão, o fim, uma criança abandonada e a tentativa de protegê-la, escondê-la em algum buraco que ninguém pudesse alcançar, com mãos de sangue e medo, sempre medo, lembrei de você e pensei que o melhor seria que já estivesse morta, que tivessem te poupado, que não fizessem maldade, que você não sobrevivesse pra lembrar de todo esse horror, é tudo tão diferente, joguei esse armário pesado de madeira no chão e me coloquei ali dentro, não iam suspeitar, eu tremia, 25


eu tremia, meu medo não era morrer ali, mas que nos torturassem e nos largassem naquele chão sujo, que nos fizessem testemunhar todo esse massacre, meu medo, e você longe de mim, sabe-se lá onde, será que te alcançaram?, não vou suportar que te toquem, não sei se veio correndo até mim ou se ficou completamente parado, não prestei atenção, também não me incomodei com o cheiro forte de sua pele encardida, era um fedor diferente de qualquer outro, não era suor, nem urina, nem mesmo sangue, era um cheiro acumulado de tudo e impossível, sabonete nenhum no mundo parecia capaz, beijei sua boca que também fedia, e seus olhos e sua testa, estava desesperada e chorava, chorava muito, não sei se me olhavam ou se eu tinha calçado os chinelos antes de sair ou esquecido de colocar algum short por cima da calcinha velha, nem sei se era ele mesmo quem estava ali diante de mim, se minhas mãos o tocavam ou se eu delirava, abraçando e beijando o ar, minhas mãos tremiam, meu coração estava acelerado e quase sinto meu corpo inteiro vermelho e suando, minha boca tentava dizer algo, sei lá, larguei a panela no fogão e talvez bote fogo em toda a casa, esse resto de casa, acho que era feijão, mas pode bem ser uma sopa 26


dessas ralas que faço quando tem pouca coisa na geladeira, já prestes a estragar, é minha maneira de salvar tudo do fim, talvez acabe explodindo a cozinha e essa panela vermelha, nova, que havia comprado alguns dias antes numa promoção, uma panela quase bonita, sei lá se é possível a uma panela a beleza, sei que era grande e dentro tinha mais água do que outra coisa, minhas mãos agora passavam por seus cabelos, eram os mesmos cabelos de antes mas cortados bem curtos e sujos, posso vê-lo agora, que se foda a panela e a cozinha e a casa inteira e essa vizinha que veio olhar e se emocionar ou criticar minhas pernas finas e mal depiladas, meu rosto agora está bem próximo ao seu, sinto sua respiração, o movimento que faz em seu corpo o ar que entra e sai, seu peito apertado contra meus seios, e sei que você também está chorando, minhas bochechas estão próximas das tuas e fico na dúvida se essa lágrima cai de mim ou de ti, posso finalmente morrer, algum tempo tinha se passado, não saberia dizer quanto tempo, sei mesmo de pouca coisa, mas já era o suficiente para meus batimentos voltarem ao que se chama de normal e minha boca conseguir sorrir de alguma coisa banal, seu corpo perto do meu, suas mãos, algum calor, você com essa faca 27


pouco afiada cortando meu cabelo e rindo, quase raspando a minha cabeça, me deixando com raiva e cheia de graça, era o final, estávamos dentro desse carro apertado, não sei aonde nos levam, importa?, nos deixamos levar, nossos corpos amassados e o pouco de cabelo que sobrou, liso, com bastante brilho, enorme, negro, que cabelo é esse?, não reconheci meu rosto no retrovisor, não consegue mais comer, parece que lhe arrancaram a goela, não há caminhos ali, não vomita porque nada lhe desce, apenas cospe, hoje cedo lhe fizeram um ensopado insosso, quase nada aquilo ali, não passou dos dentes, não desce, não adianta, sempre teve um apetite exagerado, comia o seu e as sobras do outro, comia muito, sempre insatisfeita, sempre cabia mais, um docinho, pode trazer, me dá, eu como, eu quero, era bom comer, era bom, um prazer, uma liberação, um despertar, perder-se, aquele morango recém colhido por suas mãos agora se desmanchando vermelho no céu da boca, um doce meio cítrico, cinco morangos, dez morangos, perdeu a conta, compartilhava o pão de centeio e passava nele muita manteiga, manteiga boa, de qualidade, sujava o contorno da boca e limpava com a língua, usava muito a língua e os dentes e os lábios, sempre corados, muita cor nisso 28


tudo, sujar as mãos e deixar escorrer o líquido pelo antebraço até os cotovelos, uma manga madura, quem sabe?, ovos mexidos e iogurte caseiro com mel, esse mel aí, traz o pote e uma colher de sobremesa, agora nada, nem água, molha a boca no impulso de permanecer viva, mas não consegue engolir, emagreceu já dez quilos e sua prima sente medo, parece que vai morrer logo se continuar assim, tem que comer alguma coisa, qualquer coisa, não é possível, já não cabe naquelas roupas, aquele vestido que ganhou de natal, que marcava as curvas de seu quadril, agora se perde ali dentro, virou um saco e perdeu todo o sentido, não usa mais essas coisas, quase não sai de casa e não é medo, nem sabe mais o que é medo, está completamente vazia, lhe tiraram tudo, quase tudo, não tem mais desejos e da última vez que pintou as unhas já nem se lembra, estão sujas por dentro, assim como seus cabelos compridos e seu sovaco, que começa a escurecer por falta de banho, até entra em chuveiros mas não se esfrega, já não se toca, o que fizeram de tudo aquilo, de todos eles?, há perguntas que não saem e não deixam espaço para mais nada, nem um pão francês ou um café requentado, não consegue esquecer um minuto do que viu, ficou ali, parada, tentou gritar, tentou se mexer e arriscar algum abraço, algum eu te amo banal, um beijo à distância com a ponta dos dedos, um sorriso de 29


lado que fosse, qualquer coisa que indicasse aquele como o pior momento de sua vida, e não tinha solução para um amor como esse, seu corpinho fino era incapaz de resolver aquilo, e nenhum vento a levaria, não há sabor nesse bolo de chocolate, passou e repassou por aqueles sete minutos infinitos, o tempo, não conseguia entender como chegaram ali, como?, era um domingo, mas se fosse segunda não faria diferença, ouvia a respiração de perto, te observava, teu nariz e teu queixo perfeitos, tua boca entreaberta, teus olhos nos meus, era calor e era sem fim, te olhava com um amor que já era raiva, podia te bater e gritar e jogar objetos na tua direção, inventar nomes e usar as mãos para socar a parede, os móveis antigos dessa sala, teu rosto, deixar sair sangue e te ver assustado, em pânico, incapaz, ou pior: mesmo machucado, te ouvir dizer que me ama, mas não bati, e nunca te disse nada disso, fiquei ali, parada, grudada ao teu corpo, sonhando com um tempo que jamais passasse, não vou deixar ninguém te levar daqui, se tiram teu nome e te dão um novo, como vou te chamar, então?, me diz, me diz o que faço com isto, com esses minutos que escorrem, me diz, como fechar os olhos e dormir?, como tirar minhas mãos e dizer qualquer coisa que 30


se pareça com um adeus?, me diz o que é isso, pelo amor de deus, parece uma luz forte ou a escuridão total, queria te pegar pelo braço e te esconder naquela despensa suja da casa da tua mãe, por trás dos sacos de arroz armazenados, ninguém nunca vai comer tudo aquilo, e te deixar ali, dizer aos outros que você sumiu sem se despedir e que eu estou com muita raiva, e estou mesmo, mas você está aqui ainda, faltam poucos dias e, agora, você está aqui, você me olha, não tenho coragem de perguntar no que está pensando, não vou chorar na tua frente, não tenho coragem de cortar o silêncio, falar qualquer coisa pode acelerar o tempo e estou tentando fabricar o infinito aqui, parece que sim, parece que chegou o fim, cheguei ao fim, e é assim que se morre?, esse silêncio e todas essas imagens que me voltam, é o fim e estou também de volta àqueles sete anos, quando me joguei na frente do balanço de ferro que partiu um de meus dentes ao meio, tinha areia por todos os lados, em meus bolsos e sapatos, tenho ainda areia por todos os lados aqui, meu dente remendado, queria um balanço agora, sorrio, sorrio bem devagar, sei que estão segurando minha mão, lembro de algumas outras coisas, várias se repetem, o tanto que já é passado, chorei tanto aquele dia, 31


não sei sobreviver à guerra, sou diferente de você, prefiro me arriscar a atravessar a rua fora da faixa e morrer junto, e apesar disso fiquei, fui uma das escolhidas pra contar, conto o número de sinais das tuas costas, são nove aqui, mais cinco do lado esquerdo, essa pele lisa, macia, minha boca agora beija de levinho cada uma das pintas, você ri e não se move, meu nariz brinca em teus ombros, minhas mãos, eu estou séria, não há nada mais grave do que isto aqui, do outro lado da calçada alguém reclama do tempo e da violência de dentro de um apartamento fechado a cinco chaves, e o chaveiro está sentado na cadeira de plástico tirando a sujeira das unhas com a ponta da faca que acabou de usar para cortar uma fruta que não conheço, as folhas nessa árvore balançam pouco, faz frio, estou de casaco e você sem blusa, estou sem calcinha e com meias grossas, e você de moletom e pés descalços, te abraço por trás e agora deito minha cabeça na altura das tuas escápulas, você apóia as mãos nas minhas e estamos em silêncio, chegou uma carta hoje à tarde, o carteiro tocou a campainha e fui abrir, o envelope era mais duro que de costume, o rosto do carteiro também, assinei onde havia um xis e vi teu nome ali escrito, pousei o envelope sobre a mesa de jantar e te esperei 32


chegar, ia preparar algum chá pra acompanhar meu trabalho, não preparei nem trabalhei, sentei-me à janela que dava pra rua e fiquei vendo o tempo, um dia meio azul claro, algumas pessoas passavam na calçada e não me viam vê-las, meu cabelo estava solto e bagunçado no rosto, minha mão direita segurava a esquerda, fiquei assim, ontem no jornal da noite a apresentadora falou alguma coisa sobre o medo, mostrou poucas imagens, o presidente tinha um olhar caído, comíamos uvas e minhas pernas estavam por cima das suas, você fazia carinho na minha coxa esquerda e nossa respiração estava lenta, muitas pessoas estão morrendo, sempre foi assim mas agora fomos todos oficialmente convocados a isso, todos, a gente sorri mas não consegue mais sorrir como antes, tem sido assim, permaneci na mesma posição, alguma câimbra, você chegou, entrou, perguntou qualquer coisa que eu não soube responder, abriu a carta e não falamos mais disso, o assunto na praia era esse, não se falava de outra coisa, e tinha uma guitarra de fundo, um solo meio triste quase festa, era bom, nossas costas queimando ao sol, os pés enfiados na areia e o sovaco cheio de pelos, meu corpo inteiro queimava devagar, era um fim de tarde e por isso não fazia 33


tanto calor, o mar estava azul claro e transparente, todo mundo também comentava isso, a cor do mar, não fosse o vento frio e eu entrava de novo, a gente podia estar feliz, devia estar feliz, mas não era bem isso, e todo mundo passava comentando, pra um domingo a praia estava vazia, minha barriga estava esquisita, há semanas que não cago direito, estou inchada, meu corpo não está funcionando direito e não sei por que, não sei o que acontece, fico variando entre comer muito e quase nada, meu estômago já nem sabe, a vontade às vezes é de ficar muito tempo em silêncio e voltar correndo pra casa, dormir, uma vontade imensa de dormir, e de silêncio, você não está, ainda, não faço ideia de onde você vai dormir esta noite, penso nisso às vezes, se do outro lado do país tivesse um dedo prestes a apertar o botão eu não acharia estranho, talvez, eles estiveram o ano passado inteiro em fingir amor, todo mundo já percebeu, eram beijos sonoros e risos estranhos e mal se olhavam de verdade, o que esperavam um do outro?, foi o ano inteiro isso, e ela do outro lado mal suportando, quase uma morte por dia enquanto o barulho do sexo a deixava louca em sua reclusão celibatária, pouco religiosa, um silêncio absoluto diante daqueles 34


gemidos todos, suportaria tudo aquilo, ainda não sabe como, a alegria é pouca e seu corpo sentia uma saudade imensa, saudade dessas de fazer coçar, apertava o clitóris com a mão esquerda, como quem segura o próprio riso ou prende a respiração diante do medo, apertava forte e logo soltava, levava os dedos à boca, devagar, e deitava de lado com uma almofada entre os joelhos pra tentar dormir, repetia em silêncio alguma oração que se confundia com música, pensava que amanhã seria um dia melhor, amanhã é sempre um dia melhor, listava na cabeça a ordem de ingredientes que colocaria na frigideira pela manhã, uma alternativa ao cansado contar de carneirinhos que nunca funciona, seu coração acelera numa insônia impossível, queria gritar, eles já terminaram do outro lado e provavelmente agora dormem agarrados um ao outro, estou só, uma cama apertada demais e enorme, seus pés gelados para fora da coberta, arrumei suas meias brancas e suas cuecas dentro de um saco de pano, coloquei junto das camisas inutilmente passadas a ferro e de um pacote com alguns biscoitos e uma garrafa com água, nada disso iria com ele a lugar algum, ficaria comigo, largado no canto dessa sala imensa onde mal cabemos você e eu, mas insisti em preparar sua 35


mala, como fazia quando era pequeno, tirei as coisas do armário e fui organizando tudo em cima da cama, o que vale a pena levar e o que fica, deixei os calçados por último dentro de sacos de plástico de supermercado, no bolsinho da frente enfiei um envelope com uma oração de são jorge e um papel em que te escrevi algumas coisas, tentativas, você jamais leria, estava sentado na poltrona ao lado, não sei o que via e posso imaginar no que pensava, eu segurei o choro todo o tempo, orgulhosa de minha força diante disso, fechei o zíper com dificuldade e perguntei se você estava com fome, insisti uma vez mais: hein?, você me olhou e se esforçou num sorriso que me destruiu por dentro, descemos juntos pra cozinha, peguei tudo o que havia na geladeira e no armário de cima e fizemos um lanche modesto, pouco, mas juntos, não abrimos as cervejas e, mais tarde, joguei todas no lixo assim: inteiras e lacradas, os cachorros da rua estão latindo mais alto hoje ou é impressão?, só tem cachorro nesta rua e latem muito, parece me dizer, não quero que isto termine e invento de pegar umas frutas e o resto desse bolo ruim pra ficarmos na sobremesa, diz que está sem fome, beija minha testa e sobe para o quarto, deixo as cascas de banana ali em cima, algum inseto está melhor que eu esta noite, mas não me levanto da cadeira, não faz sentido algum lavar o rosto e me deitar naquela 36


cama, apoio a cabeça no antebraço, depois de muito tempo ali, e adormeço sem querer, essa musica, qualquer música, lhe atinge algum órgão que desconhece, um pedaço de dentro que ainda não tem nome e que fica um pouco perto do coração, era como uma dor fina, aguda, intensa, perfurando seu peito de um lado ao outro, abrindo um túnel de vento frio e insuportável, já não ouço música, não sei, não consigo, deu-se conta, tentava os fones no ouvido como se, escondida, fosse capaz de escutar algo, de chorar quem sabe, mas nem assim, era um horror, queria voltar no tempo, essa linha impossível que traçamos, voltar pra antes de termos nascido, todos nós, quando não existíamos e nada disto existia também, essa dor não era ainda sonho, mas o mar já molhava a areia e nossos pés não sabiam, lembrou daquele show que foi sozinha, há não muito tempo, alguns meses, algo assim, chegou cedo como de costume, sentou lá no canto, fechava os olhos e sorria porque era assim que se assistia a um show, sorrindo, as pernas esticadas no chão frio, tinha um violino ali, um violão bem afinado também, a noite inteira ganhava outro peso depois disso, e faz tão pouco tempo, não entende como é possível, há mais solidão do que pode suportar, viver já não é possível e ainda assim 37


insiste, não consigo mais, passa dias e dias e nada, um silêncio de rasgar qualquer música, seco, davase conta, não queria mais ouvir, não cabia essa esperança, essa alegria, e já nem mesmo sente saudades, nos proibiram de lutar, preparei minhas tralhas, são mesmo isso, umas tralhas, esse pedaço de qualquer coisa só pra fingir bagagem, e isto nem parece uma viagem, enfiei tudo ali dentro, amassado e mal acomodado, inútil, coloquei nas costas como um peso que não se sente, amarrei bota, vesti calça, casaco, alonguei os punhos e o pescoço devagar, como me ensinaram, fui caminhando até lá, não sei quantos quilômetros nem quantos dias levei, cheguei sem me reconhecer, me apresentei, éramos muitas, não nos conhecíamos mas sorríamos umas às outras com os olhos, um sorriso absolutamente sério, triste, tentativa de um abraço, quase choro, estávamos todas ali, levamos documentos de identidade, nenhum perfume ou maquiagem, olheiras sob os olhos mortos, peles secas e, por baixo das camisas, nossos piores sutiãs de algodão, ou mesmo nada, seios cansados, não pedimos a ninguém, apenas fomos, inteiras, nada ficou para trás, éramos muitas, preciso repetir, muitas, tínhamos força juntas, mas poucas armas, quase 38


riram, acho que riram, não sei, nos deram muitas palavras, alguma coisa que não ouvi, e nos deixaram ali, prontas, não fomos convocadas dessa vez e, com sorte, jamais seríamos, ficaríamos para sempre em nossas casas vazias, empoeiradas, dormindo com os restos de pão sobre a cama e esse som ensurdecedor de bomba, ao lado de sua casa, ontem pela manhã, alguma coisa explodiu matando a menina e o cachorro, não se sabe quem morreu primeiro, mas ninguém ficou com medo, já passamos disso, restou apenas uma fumaça muito cinza e muito densa por vários dias invadindo nossos quartos e respiramos aquilo, ninguém foi limpar a bagunça e tivemos de ir nós mesmas, com nossas pás, recolher os restos de rua, de pele, de osso, de qualquer coisa que antes tinha ali, e antes, bem antes, muito antes, será mesmo?, era naquela calçada que corriam todas as manhãs para manter barriga e bunda duras e sorrir com o sol na cara, vitamina d, um suco verde detox e um banho quente pra demorar mais, eu sei que vou morrer e não se trata de futuro, eu sei que vou morrer agora, estou morto, ainda estou de pé, sinto todos vocês a minha volta, sei que ela me evita, sei que evita me olhar, eu acho, tem uma bota no meu pé e eu nem sei, quem me trouxe aqui?, só consigo pensar no céu, o azul apertando o 39


branco, alturas, uma linha bem reta contrariando toda a natureza, minha mão gelada, alguma música, flores que já murcham, fim, não haverá mais começos daqui, estamos partindo, não sinto dor, não sinto muito, sinto falta, a impossibilidade do toque, da voz que já não ouço, acabou a conversa, te busquei naquela garagem em vão, passei meu olhar ao redor, tentei alguma palavra, e todos esses livros, escrevi algo naquele papel amassado que estava ali, há tanto tempo, no fundo da mochila, usei uma caneta azul, fiz minha melhor letra, era um texto incompleto e inútil, nunca te enviei, há armas aqui e jamais matei, ela sabe, e agora sou eu o morto, inoperante, incapaz, só me resta um passo, flutuo, senhor dos passos, tudo não passa de memória, tira tudo, disse, tira tudo para que eu te veja, obedeci, desamparada, não tem ninguém aqui, um vazio incomum, falo de solidão-além, quem seria capaz de gritar?, não há mistério, é mentira, veja bem, é mentira e você só me fala de pecado, faz dias que não lavo meus cabelos e poderia cortá-los com os dentes se me deixasse ir, quem foi que inventou essa grade?, já pensou nisso?, vejo deus aqui, você ri e é mesmo engraçado, veja bem, estou morrendo de saudade, até poderia chorar, me ensina!, posso ver a bala daqui, faz azul, e ele deve ter ido à praia 40


todos esses dias, pensa, bem cedinho, junto com o sol, há anos não vomito, mesmo que eu encha a cara ou coma uma coxinha de frango estragada, eu não vomito mais, nada volta, passo dias com a barriga gritando, fica tudo grudado ali dentro, não lembro do gosto nem do cheiro disso, está tudo tão distante agora, a festa do boi, a catarse da comilança, tudo isso é pólvora em mim, vivo na total ausência, na fome que de tão absoluta não existe mais, e nada volta, não há caminhos para isso, pedi que colocassem o dedo na minha garganta e me ajudassem a acabar com esse enjoo interminável, e foi com a mão inteira ali, na goela, fundo, duas vezes, talvez três, nada, me larguei no chão, completamente desbotada, acabada, tentando rir, os pés para cima e a saia curta mostrando os fundos da minha calcinha, entregue, ninguém reparou, não tem ninguém aqui, pas de persone, e aujourd’hui tout le monde a peur, a frase que ecoa, e toda essa podridão aqui dentro, nas paredes do estômago, esqueci de te ligar ontem, me desculpa, não sei o que me deu, eu nunca me esqueço, repetia, nervosa, gelada, talvez tremesse, o olhar que atravessa, não conseguia ficar, desculpa, quase chorava, interrompida com um abraço, fechei já as portas e as janelas, mas ainda escuto 41


o vento, é grande e violento demais, em poucos minutos vai explodir todos os vidros e derrubar todas as paredes, invadindo esta casa que já não chamo de minha, levantando as folhas empilhadas, derrubando os quadros das paredes e estilhaçando todo os copos de vidro no chão, esse mesmo vento que agora escuto gritar pelas frestas dessa janela que dá para o azul, não chove, nunca chove, não faz frio, mas colocaria uma meia no pé que está gelado, esse mesmo vento que agora escuto, quando entrar com força quebrando tudo, vai me levantar também, me pegar pelos braços e me levar embora, vou sair voando sem liberdade alguma, apesar de todo o ar, que é muito, não vou conseguir respirar, nem mesmo pela boca, vou tentar gritar, soltar, ainda que caia de uma altura enorme no meio da avenida e morra, minhas mãos empurrando o vento, pedindo socorro, não quero ir com você, não me basta, não funciono sem chão, e a terra inteira flutuando, todos nós flutuando com ela, mas quero calor, no alto faz frio e sinto meu nariz congelar, mal posso mexer minhas mãos, uma hora você vai se cansar de mim, desistir de segurar, vai me largar sem cuidado algum, me esquecer, logo agora que eu estava começando a me acostumar com isto, nem me lembrava mais da sala quente, já posso viver contigo aqui, em cima, vaporizar, esquecer de tudo, 42


trancou-se no quarto escuro, fez questão de fechar as cortinas, impedir toda luz de entrar, essa luz vermelha de sirene, parece que lá fora o mundo está se acabando, seus vizinhos saíram de casa descalços e deixaram as portas abertas, barulho de bombas e tiros e gritos de dor, ontem à tarde sua irmã escapou por pouco de uma emboscada, os homens de farda já não pensam, faz calor mas não tem coragem de tirar a roupa, escuta tudo, o que resta, está sozinha, não se pergunta mais por que, mas também não aceita, jamais vai conseguir se jogar da janela do quinto andar, e lembra que, na última vez em que comeu, uma mulher de saltos e suja, com cabelos oleosos e um batom borrado na boca – essa insistência do vermelho – veio lhe pedir dinheiro, demorou algum tempo para conseguir falar, os seios de silicone saltando por cima da blusa de nylon, os olhos que nada viam, ficou sem jeito, tinha gasto tudo naquele sanduíche sem sabor, talvez tivesse ainda alguma moeda, não sei, não soube dizer, mal conseguia olhar aquela mulher de seios falsos e braços fortes, sentia algum constrangimento, algum medo, pena, lhe doía, talvez porque estavam muito perto uma da outra, quase se confundiam, ambas completamente perdidas, com fome, abandonadas, sentiu raiva, sentiu nojo, quis correr, dar um abraço, oferecer 43


um sorriso qualquer, disse que não tinha dinheiro, recebeu um olhar de desprezo, um resmungo, nunca mais se encontrariam, e isso nem mesmo foi um encontro, talvez um erro de cálculo, um equívoco, ela dormia nessa cama que um dia foi de outra pessoa, encolhida no lado esquerdo que já começava a afundar, se cobria com pouco, mas sempre se cobria, já fazia tanto tempo e era tão nova, ainda, tão nova e já com olheiras profundas, as bochechas um pouco flácidas, sobrancelhas grossas, boca ressecada, não tinha mais espelho em casa, o pouco que sobrou era o reflexo do vidro sujo da sala que agora brilhava com as luzes de fora, uma bagunça, sentia muita vontade de gritar, tirava toda a roupa e passava o dia inteiro pelada, não se observava, apenas se deixava ser ali, comia muito quando tinha fome, passava um pouco mal, não menstruava mais, de vez em quando se lembrava disso com tristeza, não que sentisse falta, mas era o pouco que ainda lhe restava do feminino, e agora nada, um enorme nada, estava nula, nem homem nem mulher, ovários secos, útero mínimo, seios caindo, uma barriga estufada, pelos crescendo por todas as partes e vontade alguma de se depilar, o que era, então?, em que se transformou?, a lembrança de antes, quando ainda sangrava e tinha com quem conversar, estava cada vez mais distante, precisava fazer algum esforço pra 44


lembrar, deixava de tentar e seguia assim, bege, de um branco encardido, velho, desgastada, às vezes, cada vez menos, sonhava com sexo, algum desejo ainda resistia por dentro, mas já não há homens nesta cidade, nenhum, e as mulheres estão ocas, não sobrou nada, estava muito contente naquele dia, até sorria, tinha certeza de que tudo estava bem e se sentia bonita outra vez, fazia sol e isso era um bom sinal, colocou uma roupa curta, saiu pelo bairro assim, de cabelos presos e de vestido solto, foi até o correio porque sentiu vontade de enviar cartas, escreveu pouco, mas escreveu, pagou caro para enviar dois envelopes azuis a destinos opostos do país, suava na testa e nem era um problema, não pesava o tempo, talvez seja isso a eternidade, sempre que ouço um avião passar, estremeço na certeza de que vai se colidir com algo e explodir, prendo a respiração e fico esperando cair sobre a minha casa dessa vez, queimando tudo o que ainda resiste aqui dentro, estraçalhando meu corpo, sobrando somente um pó grosso que meus vizinhos terão de inalar por dias e dias, meus restos, quando passa o avião, com esse barulho de cortar, 45


paro o que estou fazendo, travo meu corpo no medo – que é também espera – e só volto a respirar quando estou segura de ainda viver, há poucos dias estávamos num carro alugado, viajando pela estrada à noite, e passamos por um ginásio lotado, onde celebravam um culto evangélico, estava quente, olhamos através do vidro, fizemos algum comentário irônico, e no fundo sentimos medo, já sabíamos o que significava, faltava pouco, o começo de tudo já estava ali, nessa madrugada a casa ao lado pegou fogo, dois andares, o teto era uma labareda, quase bonito, terrível, o fim, bombeiros, vizinhos, crianças lançadas pela janela, eu dormia, acho que sonhava, acordou com as mãos entre as pernas, sangrando, suada e talvez gemendo, tinha a marca dos dentes no lábio inferior, uma mordida insistente, acabara de gozar, era um sonho e tinha passado a noite inteira com ele, aquele rapaz que viu passar no caixa do supermercado com sacolas murchas e que, logo depois, a acompanhou à lanchonete suja e barata da esquina pra tomar um açaí com gosto de nada e sorrir com a boca levemente roxa, riram muito e conversaram sobre o movimento das marés e a estrada rio-santos, mordiscou a ponta do canudo enquanto fingia alguma coisa, tentativas, 46


ficaram anos juntos, ganharam algum dinheiro, jantaram em restaurantes mais nobres, talheres de prata ou algo assim, ela continuava se sujando com a comida, tudo era motivo de amor, outro tempo, não teriam filhos, comprariam uma casa de dois andares para, logo depois, reduzirem tudo a um quarto-sala perto da praia, uma cama de casal ao lado da geladeira e a ausência de sofá deixando que se sentassem no chão toda noite pra desenhar alguma coisa ou apoiar o prato de macarrão entre as pernas enquanto falavam do vizinho ou da fase da lua, era mais ou menos isso, ou nada disso, mas agora era nada, estava distante, tinha apenas sua perna manchada e o sangue endurecido debaixo das unhas compridas e abandonadas, sua cabeça pesava, coçava os olhos com o dorso da mão, evitando enfiar o dedo sujo nas pálpebras, tinha muita preguiça de lavar aquele lençol agora tão vermelho, de lavar-se, de iniciar mais um dia, esses dias que não passavam nunca, o que faria pra comer?, impossível, tirou a tarde para reler todas aquelas antigas cartas, era uma caixa grande, quase não fechava, muitos envelopes e bilhetinhos, lembranças, começou por abrir as mais antigas, que estavam já no fundo, um pouco amassadas e amareladas nas bordas, ainda 47


tinham um cheiro parecido com aquele de antes, segurou perto da boca, ficou um tempo ali, releu tudo, todas, quem sabe quantas horas passou nisso, em alguns momentos quase sorriu, quando tudo isto tinha começado?, podia agora ver, estava nítida a linha que dividia tudo, aquele antes, quando ainda havia alguma possibilidade de conversa e riso, e este depois, agora, que já não há nada, alguma espera, talvez, deitou-se sobre os papéis espalhados no chão da sala, queria conseguir chorar, pensava se ainda fazia algum sentido juntar tudo aquilo de novo dentro da caixa, para quê?, para quem?, era estranho que ainda estivesse viva, como se vive a tudo isso?, quase uma teimosia, insistência, não teve coragem de ligar o rádio, adormeceu ali, às quatro horas da tarde, com o sol se pondo sobre suas pernas, e o suor grudando as cartas a suas costas, tinha se escondido dentro de casa, da própria casa, que era ainda o único lugar possível, o resto, as paredes estavam sujas, tudo estava sujo, havia muita poeira e alguns insetos, tinha decidido não mais limpar, deixaria que o tempo desse conta de tudo, inclusive de seu corpo, não lutaria mais, não pago mais para fazer as unhas, disse, com certo tom de revolta na voz, é muito caro!, quase gritou, começou então a pintar as unhas em casa, 48


sempre de vermelho, o único esmalte que tinha, um vermelho vivo, muito vivo, quase impossível, não sei se existe algo assim na natureza, cultivava as unhas compridas e muito bem lixadas, as cutículas bem tiradas, aprendeu e agora estava ficando boa nisso, duas vezes por semana retirava tudo com acetona pra colocar outra vez o vermelho, ficar com as mãos novas de novo, sempre, não lavava mais a louça nem o banheiro, os produtos de limpeza estragam o esmalte, deixava que alguém fizesse esse serviço por ela, ou que toda a sujeira se acumulasse ali, o vermelho era o que restava de sua vaidade, apegava-se a isso, dedicava-se inteiramente a essa ação vagarosa e atenta às mãos, uma mão pintando a outra, quase um carinho, algum tipo de abraço, esperava secar para comer, ficava um tempo ali parada, observando, esperando, qualquer movimento pode pôr tudo a perder, tudo, disse: a vida se tornou impossível, e riu, não consigo parar de pensar nesse riso, esse que vem logo depois da pior frase, do que há de mais oposto a qualquer alegria, um riso sem riso algum, um constrangimento, certa vergonha por ter todas as feridas abertas, as vísceras expostas, o mais interior de tudo diante do outro, numa frasezinha qualquer que sai como um jato de vômito, a vida se tornou 49


impossível, ou apenas: eu não aguento mais, e risos, não se pode mais viver assim e, ainda assim, vive-se, o que há de mais absurdo, e o absurdo é sempre engraçado, ri-se disso então, talvez, me pego pensando no tom de voz, naquele rabo de cavalo bem amarrado atrás da cabeça, cabelos bonitos e presos, a pele muito branca, nunca viu sol, a voz trêmula, e o riso, esse riso completamente sem lugar, vem de onde?, alguns quase riam também, por estímulo, mas ficou o silêncio, o riso se transformou na mais triste expressão do rosto, murcho, os olhos vazios, não cabe chorar aqui, quase despenca, mas já está pregada ao chão, não tem mais aonde cair, outro dia ouvi dizer: eu estou completamente desesperada, e mais um riso, ainda maior, talvez, é uma mentira rir, e mentimos o tempo inteiro, todos nós, não aguentamos mais, a vida se tornou impossível e estamos mesmo completamente desesperados, rimos disso, juntos, ela ri tanto que chega chora, é também uma desculpa pra chorar, eu sei, disfarça, falam de assuntos mais amenos pra fingir alguma coisa, e eu não me levanto, fico quieta, extremamente cansada, sem força alguma pra me mover daqui, você pegou minha mão direita e colocou no seu ventre, bem abaixo do umbigo, e perguntou: tá 50


sentindo?, eu não senti nada, a não ser um pequeno calor que me subiu pela nuca, mas sorri pros teus olhos que parecem sempre esconder alguma coisa de mim, esse teu silêncio de tudo é onde ainda posso aprender um pouco sobre o mistério, você não tem medo e eu fecho as janelas todas as noites pra evitar que algum bicho estranho entre no nosso quarto, você perdeu o medo ou é algum tipo de fuga, já desisti de tentar te decifrar, te observo, te escuto, escuto tua ausência de palavras, o movimento das tuas pernas, a forma como inclina a cabeça um pouco para baixo e levanta olhos pra cima, como se me espiasse por trás, como se me comesse inteiro, sinto cada parte de mim sendo mastigada, e tua mão prendendo a minha contra tua barriga, com força, insistindo, eu não sinto nada, mas fico ali, não ouso mexer nem um dedo, prendo a respiração porque qualquer ruído pode te revelar alguma coisa, evito erros, calculo cada segundo pra que esse momento se prolongue um pouco mais, quase um prisioneiro, quase te aprisiono comigo, estamos num ringue e não temos coragem de iniciar luta alguma, apenas nos olhamos à distância e escutamos o silêncio da plateia, de todas essas pessoas no escuro, esperando, toda essa espera negra e muda, nenhuma palavra cabe aqui, nesse espaço entre meu corpo e o teu, nesse calor que agora começa 51


a criar água entre minha mão e tua barriga, nossas pernas enroscadas, meu rosto bem perto do teu, você abaixa os olhos e os levanta novamente, como quem pergunta: e aí?, ou mesmo: cadê você?, você me busca e eu não estou, porque fui embora pro mais distante que há de ti em mim, alguma presença infinita, aquilo que resiste sempre, eu te acho linda, mas isso não tem importância alguma, percebe?, você já deve estar com raiva porque eu não digo nada, e meu sorriso se congelou na boca fraca, um momento sem início ou fim, meu coração acelera, talvez seja a vontade de me mexer e não conseguir, você aperta ainda mais forte sua mão contra a minha, empurrando um pouco sua barriga pra dentro, sua coxa por cima da minha tem os pelos arrepiados, não as toco mas sei que estão quentes apesar do frio, seu corpo é sempre quente, meus dedos agora parecem pegar fogo em teu ventre, algum movimento, minha mão treme, você sorri, e me beija, beija cada dedo meu, depois meu nariz e minha boca, colocando as pernas e os braços em volta de meu corpo e, sim, você está quente, está sorrindo e parece feliz, aliviada, você sentiu!, repete, viu?, você sentiu!, e todo o tempo do mundo começava ali, o cheiro podre e aqueles pés pretos, camadas 52


de sujeira por cima da pele, os cabelos oleosos formando um ninho de imundice, a ausência de dentes, as unhas negras, a roupa feita com saco de lixo usado, as pernas com feridas abertas, os braços também, o andar perdido, de vez em quando caía, um assobio desafinado, era isto ainda uma pessoa?, tinha ainda algum tipo de desejo?, havia alguma vez sonhado na vida?, caminhava pela calçada e tenho certeza de que não enxergava nada do que estava ali, o que via, se ainda via, era outra coisa, tive medo de me aproximar, medo de, sem querer, esbarrar e me sujar também, já bastava todo o fedor que me invadia por dentro, era nessas coisas que pensava, sentindo muita vergonha por pensar, quando percebi que meu corpo também estava completamente imundo e aberto em feridas, minha pele ressecada e podre, olhei para as mãos e notei que estavam escuras, e de minha boca saía um fedor de esgoto, não podia falar, tropecei e desabei no chão da calçada suja de mijo e restos de carne estragada, incapaz de me levantar, me arrastei para o canto, encostei as costas no vidro da vitrine, meu coração, por que não disparava?, não sentia nada, nem mesmo nojo, me virei e vi meu reflexo no vidro escuro, do outro lado um ar condicionado e pessoas vivendo suas vidas higiênicas, fingiam que não me viam ali, tinham medo da podridão, de mim, fui escorregando devagar para o chão, 53


deitando-me com o rosto para cima, observando o céu e as pernas que passavam ao meu lado com pressa, evitavam-me, meu corpo pesava sobre o chão quente desta calçada de paralelepípedos, ninguém jamais falaria comigo, onde estavam meus olhos?, que cor teriam?, meu corpo impossível de ser tocado, uma ilha no meio de todo o caos, não morreríamos tão cedo, por quê?, ninguém se interessa em me dar um tiro, me deixam ali, apodrecendo aos poucos, comendo os restos dessa lata de lixo na alucinação da fome, em poucos segundos me tornei isto, quanto tempo falta pra acabar?, nunca ficamos tanto tempo sem nos falar, é esquisito não ouvir sua voz, tenho medo de esquecer da sua risada, o som do seu sussurro, a voz brava de alguma raiva e alta de felicidade, seus pequenos gritos, descontrolados, tenho um medo terrível de esquecer, já faz algum tempo e falamos muito pouco por aqui, choramos muito pouco, alguns escrevem, eu não consigo escrever, tento segurar o lápis entre os dedos, mas sempre cai, escorrega de minhas mãos, sinto fracassar, falava sozinho, mas agora nem isso, faz dias que não tomamos banho, no início esse cheiro me deixava tonto, eu vomitava escondido, mas agora 54


não percebo mais, nem sei se ainda há algum cheiro aqui, estamos esperando, nunca nos disseram isso, mas nossa tarefa é apenas esperar, 27 de novembro, lembro dessa data, mas já não sei que dia é hoje, alguns afirmam com segurança: 2 de dezembro, eu acho que não, fico pensando em você, há muitos ruídos a nossa volta, a maioria é só o vento, fico horas inteiras escutando, já desisti de tentar dormir, não olho pro meu corpo, tenho as mãos sujas, prefiro não te encontrar mais, parece que morro toda vez que penso isso, mas não quero que você me veja assim, seus olhos diante deste resto, sou apenas algum vestígio de homem, já não há nada do que você amou, queria conseguir te escrever alguma coisa que te fizesse sorrir, que você pudesse guardar na cabeceira e reler toda noite, feliz, e esse lápis aqui ao lado, impossível, estou deitado nesta espécie de rede, não sinto meu corpo, daqui a pouco me levanto pra dar uma volta, é nossa estratégia para não enlouquecer, alguns já falharam, muitos se perderam por aí, nunca mais os vimos, ontem à noite, enquanto não dormia, escutei um grito, um desses gritos que nunca havia escutado antes de chegar aqui, e agora já estou tão acostumado, meu coração não dispara mais, nem me levanto em busca de nada, permaneço imóvel e inabalado, alguns ainda se assustam, perguntam, demonstram alguma humanidade, são os que 55


arriscam conversar, que chegaram há pouco tempo, eu apenas espero, os poucos que vieram comigo também, e me esforço pra não esquecer de você, é a única lembrança que ainda restou, não há nada mais, vou me deixando aos poucos, estou apaixonado por você, levantou da cama e não pensou antes de pegar, na gaveta da cozinha, uma tesoura de papel, foi até a calçada e começou a cortar os cabelos, começou com raiva cortando pedaços enormes, depois foi perdendo as forças e cortando mais devagar, mecha por mecha, até não restar quase nada, tomou um banho demorado sentindo pela primeira vez na vida a água bater com força no couro cabeludo, pegou a lâmina de barbear dele, enferrujada, e raspou o que ainda restava de pelo na cabeça, passou sabão na pele lisa e redonda, fechou os olhos, agachou no chão até sentar e ficou ali algum tempo, vendo os pelos escorrerem pelo ralo, usou a mesma gilete para raspar os pelos das pernas, dos braços, da barriga, do sexo, raspou também as sobrancelhas, os pelos do sovaco, tudo, tinha agora muito pelo no chão, entupindo o ralo e criando uma piscina no box, deixou o chuveiro ligado e ficou ainda um tempo ali, observando com nojo seu corpo todo depilado, esfregou cada parte com uma esponja e sabão de coco até ficar 56


vermelha, levantou-se sem se enxugar e deitou no sofá da sala nua, lisa, com o ventilador ligado na direção da barriga, uma pressão no peito e uma dor no estômago, desligou o celular e tirou o telefone fixo do gancho, inalcançável, alguma possibilidade de solidão, afastou os móveis da sala, um espaço livre no meio, ligou o som naquela canção que não ouvia há anos, aquela que sabia cantar de cor quando costumava ir a todos os shows dessa banda que não existe mais, é a penúltima faixa do último disco, tem uma guitarra que a leva de volta aos quinze anos, aos pés na areia e à toda aquela esperança infantil, nada disso está aqui, alguma coisa talvez de seu corpo, mas não muito, está exatamente onde sempre quis estar, nesta cidade, neste chão, descalça, os cabelos despenteados, ensaia uma dança, aumenta o volume no máximo, quer abafar os pensamentos, está sozinha e mais tarde ninguém vem, mora só neste apartamento pequeno, com uma sala tão grande, os pés pretos na ausência de qualquer faxina, o máximo que consegue é movê-los para um lado e para o outro, incapaz de sorrir ou de girar, o céu está azul, sem nuvens, com bastante sol, um dia perfeito no meio dessa tristeza imensa, não faz sentido, só deveria chover 57


até todo esse horror acabar, vai acabar?, e todos vocês voltarem, todos vocês devem voltar, escreve no bloco de papel empoeirado na mesa, tinha medo da vizinha que andava tão irritada, parecia que a qualquer momento explodiria como aconteceu com seu fogão semana passada, por sorte ou azar não estava em casa, a cozinha pegou fogo e restou apenas a tampa de uma panela lançada para o corredor, o carro de bombeiros demorou a chegar, ela nem sabia que ainda existiam bombeiros por aqui, mas telefonou quando sentiu o cheiro forte de fumaça e viu as chamas na janela ao lado, depois se arrependeu em segredo, devia ter deixado o fogo tomar conta de todo o prédio, de todo seu corpo, ironicamente começou a chover quando o carropipa chegou, o maior índice pluvial dos últimos anos, segundo o noticiário, deixou molhar sua sala, e deitou a cabeça perto da janela, cada pingo atingindo seu rosto com força, enquanto a vizinha varria os restos de tudo aquilo que ainda insistia em guardar nos armários, o marido costumava cozinhar para ela cada noite, fico imaginando como estava fazendo para comer desde que ele foi embora, a música acabou e esse silêncio ficou insustentável, deixei ligado o repeat por algum tempo, e ninguém veio reclamar do som alto, talvez nem estivessem escutando, sentei no sofá e esperei a bateria do rádio acabar, 58


abriu a geladeira e comeu com a mão o resto de arroz que tinha na panela, sua fome agora só vinha assim: de repente, não mastigava mais, nem usava pratos ou talheres, enfiava tudo na boca e engolia a seco, algumas vezes se engasgava e achava que ia morrer, se surpreendeu por ainda sentir medo, respirava fundo tentando fazer a comida descer, às vezes isso demorava minutos, suava no desespero até que finalmente descia, deixando na garganta um rastro do esforço, enquanto engolia lembrava da tarde que passou presa naquele túnel, lá dentro era escuro e quente, independente do tempo que fazia fora, ficava difícil respirar no meio de todos aqueles carros engarrafados, choro de criança, tinham fechado a entrada e a saída, alguns barulhos de tiro, muitos gritos, depois muito silêncio, uma senhora ao lado rezava, ainda se reza aqui, surpreendeu-se, do outro lado um homem apertado entre o banco e o volante dormia e roncava, e ela ali no meio, sentia dores na lombar, algum desconforto no pescoço, nada demais, mas de repente uma fome inconsolável, essa fome que só aparecia uma ou duas vezes a cada três dias, virava um animal, mataria pra comer, olhou na bolsa pra ver se achava algum resto, nada, pediu às pessoas à sua volta, ninguém, nada, acordou o 59


motorista que lhe olhou com tristeza, ele também tinha fome, foi de carro em carro perguntando, já chorava e tinha certeza de que morreria ali, as pernas ossudas mal sustentavam o resto de seu corpo, alguém – talvez por pena ou por achar que já não tinha por que guardar nada diante do fim – lhe entregou um sanduíche, é tudo que tenho, um pedaço de pão amassado com manteiga e queijo dentro, não saberia dizer, talvez gratidão, talvez muita pena, engoliu o pão em segundos, os olhos arregalados, muita fome, aliviou pouco, quase engasgou, mas conseguiu conter a tempo, orgulhou-se de si por isso, queria abraçar a pessoa que lhe salvou, mas ainda tinha muita fome e o máximo que conseguiu foi dizer obrigada com a voz fraca, voltou para o seu lugar, um pouco mais calma, sentou-se, há quantas horas estavam ali?, já podiam explodir este lugar inteiro, todos esses carros, no muro, a frase: lute pelos seus sonhos, em vermelho, apertada entre duas colunas descascadas, quase um grito, sem força alguma, não há pelo que lutar aqui, ainda assim é só isso o que fazemos, lutar, por nada, para nada, é a única forma de vida que resta, pegar em armas, atacar, esperar que nos ataquem, proteger, avançar, abaixar, correr, 60


aprendemos a matar, observo a pichação, ninguém mais vê, ainda que vermelha e grande, quase invisível, esquecemos como se sonha, imagino quem escreveu isso, aquela menina de short rasgado, apartamento com varanda e dois gatos, aquela que vai aos sábados andar de bicicleta e se embriagar de vinho barato, com quem nunca conversei, ainda que falemos uma língua parecida, mas não se trata disso, ela devia levar na boca um cigarro enquanto sujava as mãos no vermelho, a lata de spray pela metade, balançava com força pra provocar o segurança na guarita ao lado, as pernas e os braços no meio desse calor de janeiro, escorregava suor do cabelo solto, não deve ter sido hoje, talvez antes, talvez um surto de fúria, nenhuma importância, as pessoas dentro do ônibus seguem exaustas, os olhos fechados, todos os muros pichados e ninguém nas ruas, um cão passa latindo baixo, manco, observavam de qualquer jeito esse pedaço de alguém, chamava atenção no meio daquela livraria, seu corpo, seu rosto, não se sabe, não há indícios de passado ali, tudo é de um instante insuportável, completamente indecifrável, caminha devagar, passa os dedos nas capas dos livros, finge alguma atenção aos títulos, não consegue parar de pensar 61


no seu útero, sente alguma dor, uma espécie de cólica, sabe que ele a machucou de alguma forma, saiu um pouco de sangue, não entendi por que se machucava tanto, tem raiva dessa fragilidade, coloca a mão esquerda sobre a barriga como se pudesse fazer algum carinho por dentro, tinha passado tanto tempo sem isso, primeiro as mãos, sempre, o calor em seu corpo, as costas nuas, lembra que sentiu saudades logo que acabou, saudades de como era fazer amor antes de tudo isto, lembra do rosto, ausente, gozar é ausentarse, é egoísta, ela pensava, poderia ter chorado e não sabe se de dor ou de prazer, não sabe mais a diferença, já se passou um ano, exatamente um ano, e continua sentada neste chão frio, a base da coluna dormente, os pés cinzas, a boca seca, os olhos vazios, os cabelos de qualquer jeito, a roupa imunda, nada lhe doía mais, algo próximo de uma ausência, não estava ali, não sentia medo, não conseguia se levantar, seu corpo era um enorme e inútil pedaço de nada, já passou duas horas, não havia quase ninguém ali, ela não enxerga, mas uma senhora de mãos muito murchas está parada, em frente aos trilhos, os pés inchados e a boca entreaberta num grito que ia começar, ninguém 62


pensou em tirá-las dali, fantasmas, era o começo, isto, do que já havia começado muito antes, quando ainda existia tempo, havia se apaixonado, antes, por suas mãos, brincavam juntos, riam até chorar, ninguém mais entendia, passaram muito tempo ali, falando, as bocas secas, pouca água no garrafão, mudam de posição repetidas vezes, tudo cansa, as unhas sujas de tinta branca, a parede mal pintada, os restos no chão, o desejo de nunca esgotar, embriagados, o gosto confuso do álcool, um calor, as janelas escancaradas, o cão latindo alto, longe, tudo é cinema, poucos personagens, ninguém interfere, a tv desligada, tela negra, os discos soltos pelo chão, as bundas grudadas no piso de taco encerado, o cheiro, silêncio, morriam todos os dias às dez da noite e, de novo, às nove da manhã, uma rotina qualquer, andava enjoada do pôr do sol, poucos resgates, desligavam o som e respiravam bem alto, depressa, ruidosamente, acordando vizinhos e rindo disso, arrastar todos os móveis com força e derrubar a louça antiga no chão, estraçalhando tudo, o eco de toda a festa, o fim, pular até bater com a cabeça no teto e marcar os pés de um rosa quase vermelho, sangue, manter o corpo vivo a todo custo, socar paredes e quebrar os ossos 63


dos dedos, enfiar a cara e os ombros pra fora da janela, o vento, tudo são planos, projetos que fez sozinha, nunca, caminhar descalça no chão sujo de paralelepípedos mijados, esquecer de lavar os pés e deitar no sofá com a roupa suada, o corpo inteiro de sal, pensar que tem salvação e cair no sono com o copo de água ainda na mão, o peso de sobreviver, ainda, a lembrança é completamente inútil agora, não presta pra nada, e ainda assim insiste, nada insiste mais e tanto como essa lembrança, aqui, neste pedaço, é o som do seu abraço imprensando meu corpo contra a pia da cozinha, insisto que isso não vale de nada agora, mas é ainda seu corpo quente no meu, naquele tempo em que andar descalço não causava espanto, minhas pernas mais grossas e mais cabelo nas nossas cabeças, imagino, minhas mãos em volta das tuas costas, ríamos disso, esse simples contato, o calor e a brisa dessa cidade, algo doía em meu peito, sempre um vazio enorme no meio de todo aquele amor, uma distância, e seus pés por baixo dos meus, seu coração batendo por cima do meu, o gosto vazio do teu beijo, a ignorância do teu olhar, você não sabia de nada ainda, eu fazia alguma ideia, pouca, e isso agora, aqui, pra quê?, há um espaço incalculável entre 64


nossos corpos se ainda resta algo, não existe o passado, não nos alcançamos mais, um silêncio, ouço o som futuro desses disparos, ao longe, chegando bem perto, estilhaçando o vidro da janela da sala e atingindo meu rosto já desfigurado, posso prever toda a catástrofe, tudo em vermelho fogo, os gritos, a mudez, e de você já não ouço nada, deixei de falar, só o necessário, não sei berrar nem chorar mais, e se rio é por piedade, estalo os dedos das mãos em segredo enquanto você escreve alguma bobagem de caneta bic na minha coxa esquerda, uma invenção, prender o ar é minha garantia de ainda estar vivo, o apaixonado é aquele que espera, já não espero nada nem ninguém, o vento que corta a sala pela fresta da janela entreaberta, tampouco espero o fim como antes, ontem joguei todos os relógios desta casa no lixo, já não funcionam, nenhum ruído das horas, ausência de tempo, jamais nos falaram disso, ninguém sabia, não há demora, nem velocidade alguma, o vazio, aqui todo mundo se esbarra, uns nos outros, indo e vindo, ninguém desvia mais, andamos sem andar, pra quem ainda escrevo quando te escrevo?, os sons desses passos insones, as armas carregadas, a tempestade, meu corpo, e tudo isso é só imaginação, não lhe digo que esta 65


frase me incomoda, fico em silêncio e toda palavra causa um estranhamento profundo desde o início, passei a fingir que me importo, comecei a lutar boxe e a escrever todas as noites esta mesma frase, antes de dormir, até os dedos inchados ficarem dormentes, não aprendi outra língua, tudo o que digo é repetição, não insisto mais em conversa, fico na mudez, ouço tudo o que diz, todos os insultos, todas as atrocidades, sua boca velha e esgarçada de tanto ódio, o modo como me olha, sinto nojo, sinto raiva, a vontade de quebrar tudo, começando por minha mão e meu peito, de derrubar as paredes dessa casa antiga, tanta argamassa, você grita, se exalta, suor, diz tudo isso que eu jamais aguentaria escutar, eu e o silêncio, não digo nada, vontade alguma, não acredito mais na conversa, perdi todo o respeito e todo o desejo de tentar, às vezes movo minha cabeça para que você não desconfie, invento desculpas e saio daqui, fico no banheiro com a porta fechada, a testa encostada no azulejo gelado, latejando, meu corpo tremendo, fraquejado dentro deste uniforme, fico ali sem tempo, choro, o resto do vento é ainda um respiro, o último, minha garganta queima, meu corpo inteiro queima, atearam fogo em mim, num instante de descuido 66


virei pó, por trás de ti, todo um exército e muitos gritos, muitas bocas, fome, você não percebe que anda acompanhado de muitos, você mal se percebe, está distante, estamos de frente um pro outro e não nos enxergamos mais, você não me vê, sente raiva, me acha terrível, não me entende e nem deseja, estamos sempre certos e sempre discordando, quero cada vez menos contato, toco com a ponta dos dedos meu corpo nu, cada pelo, cada ferida, as cicatrizes, os buracos, só, não insisto mais nos encontros, aceito a solidão, desaprendemos a escutar, você só pensa nisso, e eu sou incapaz de pensar em você, ou em mim, todo o deserto aqui, sem fim ou começo, tudo isto, secura, o céu parece menor, meus pés queimam, não te vejo mais, você vai embora amanhã e ficarei, meu coração é grito e silêncio, sangue, oco, sessenta anos atrás, agora, daqui em diante, em poucos meses tudo acabará, partirei sem plano ou bagagem, os cabelos raspados, deixaremos de nos ver, de nos falar, de saber um do outro ou mesmo de pensar, qualquer lembrança apagada, meu corpo debaixo do sol e o seu de chuva,

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ele vomitou em você esta noite, sem que percebesse, toda a bile de um dia inteiro em jejum, um cheiro de céu sem estrela, seu corpo molhado, enlameado, o calor desse quarto quente sem possibilidade de janela, o breu total, sabia que estava ali porque ainda escutava sua respiração, ainda, era o único alívio, se limpou na parede, esfregando os braços e a barriga contra essa textura desgastada, o mofo em contato com a pele, sabe que lhe pediria desculpas se tivesse alguma voz, e segurou sua mão, isso ainda não é o fim, por que insistimos tanto?, algum dia nos acharão aqui e não seremos mais do que esses ácaros que inalamos cada dia, pensou em falar e desistiu, não sabia mais quando tinha os olhos abertos ou fechados, tentava respirar e notava que seu pulmão ia diminuindo de tamanho, todo o seu corpo diminuía, lembrava com dificuldade que antes era quem sempre cedia, sempre, sentiu-se leve, ao menos isso, resistir já não valia de nada, no entanto era só o que sabia fazer, que nos encontrem e nos matem logo, pensava ao lado, sem forças para acabar, se não é pra escrever, e então?, toda aquela dor de dente que se espalha pelo lado esquerdo da cabeça, parece um relógio, e minha bexiga estufada de um xixi preso, a dificuldade de subir até a privada, 68


faço aqui mesmo, por cima, o peito é apertado, cabe pouco, já prestes a implodir na falta de ar, amanhã demora a chegar e hoje decidiu tomar um comprimido antes da hora, adiantou-se, com pouca água o que foi quase fatal, me acostumei a dormir no meio da cama, ele consegue bons empregos porque tudo hoje é imagem, ela não, fico pensando enquanto me viro de bruços para logo me virar de lado e sentir meu braço direito formigar, tem um desnível nesse colchão, levanto cinco vezes, meus pés já estão encardidos, faz alguns anos que começou, nem sei, não me lembro, tem gente que não nota, acorda às seis da manhã para comprar pão francês todo dia e não nota, ninguém computa os mortos e a televisão só mostra programas de humor, alguém deve rir, sem cortinas o sol entra cedo no quarto, e o clima seco deixa a boca ressecada, lambe a cada minuto, o que resseca ainda mais, minha língua percorre os corredores do teu corpo de olhos vendados, o que você tem de melhor são suas mãos, nada em teu corpo vale mais ou me serve, passei a manhã pensando nisso, te enganei dizendo que talvez, queria ter certeza mas sempre te engano, faz parte da minha solidão, tudo isso que ninguém mais vê, contei ao taxista ontem todo o horror, ele só me olhou uma vez pelo retrovisor e não disse nada, me afundei no banco com cheiro de suor e achei que talvez estivesse inventando tudo, 69


queria continuar dormindo, antes parecia ter alguma força ainda, mas agora, aqui, no meio de todo esse deserto, me falta, minhas pernas são enfeites, tento lembrar de tudo, levantar, caminhar nesse areal quente, andar até acabar tudo, até chegar na outra borda, meus pés com bolhas e em carne viva, todo o delírio, e meu corpo não se move mais, crio escaras, contraio todos os músculos, a pele que já não vejo, por todo lado areia, na região do meu ventre conto mil duzentos e trinta formigas vermelhas, perfurando minha carne e invadindo minha bexiga, misto de cócegas com horror, me curvo de dor mas não grito, diante de meus olhos o branco total, essa luz, nunca anoitece aqui, não passa um vento, nenhum, era tarde, algum lugar da madrugada, escuro, e suas mãos – sem acordar, parecia estar sonhando pela primeira vez – eram quentes, tocaram o ombro, devagar, desceram pelas costas sempre suadas, dizia acabou, acabou, como um sussurro engasgado, tinha perdido toda a voz, toda a ousadia de falar, as palavras saíam como um rasgo, cortavam o tempo, repetia acabou, acabou, com as pontas dos dedos calejados descendo por todo o corpo, suava 70


ainda mais, os pés um pouco contorcidos, o cabelo embaraçado e grudado na nuca, fazia carinho, era como nunca ter gritado antes, ou dito a palavra ódio, talvez chorasse, e tudo ainda nem tinha começado, foi com os olhos fechados que cheguei até aqui, o corpo inteiro dentro do mar, dormente, na beira, ensaiando boiar, os pés gelados, a boca seca, meu coração contraído, parado, pouco ar entrando, alívio algum, cansaço, poderia ficar irritada, a mente distante, penso em todas as atrocidades que você faria comigo, tudo isso que você já deve ter feito por aí, essas imagens, sua perversão, eu diante do seu medo, todo este sangue, e isto é só mais um começo, amanhã, ontem, é só a morte, tento te enxergar como antes, seus olhos, estou só, a praia se tornou insuportável, não tenho planos de fuga, meu rosto está cheio de marcas, abandono o tempo, ao meio dia penso em você com medo, tomo banho e me escondo no quarto em silêncio, faltam poucas horas e meu coração bate mais depressa, amanhã vou precisar de mais força, consigo abandonar você, ainda venta um pouco aqui, desconfio das tuas mãos, não sei se você me liga, e minhas unhas estão fracas, o mar está da cor do céu, muito azul e muito claro, esta noite sonhei com você, há treze 71


anos sonhei com você, enquanto afundo te escrevo uma carta de despedida, não vou te enviar nunca, te entrego tudo dentro de envelopes – é o que consegui fazer – e bato a porta com força, toda esta água e eu, sem tocar o chão, todas as mortes, teu corpo é uma descoberta, mapa algum, que susto, meus joelhos saltam, levo as mãos ao rosto suado, finjo que me protejo do sol, fecho os olhos com força, meus ombros se levantam, o corpo inteiro prestes a, fico feliz com o som desse tambor, distante, sozinho, dentro, rasgando meu pulmão, cada artéria, rompendo o peito, um rombo bem no meio, vazio algum, a bala corta o ar em direção a minha garganta, é certo, se todo o mundo gritar vira silêncio, ontem, anunciaram com cornetas isso que deve começar depois de amanhã, às seis horas, junto com o sol, cedo, todos esses homens cobrindo as cabeças e segurando em armas, na cidade vizinha dizem que já estão invadindo casas, fizeram famílias de refém, mataram, as pessoas matam, e não só essas pessoas, a gente esquece, parece que já estava esperando essa notícia, não me surpreendi, quase não senti medo, o impulso era pegar o telefone e te 72


ligar, te contar da fragilidade do mundo, de como nossos corpos se reduzem a nada aqui, no meio disto, de como a cidade está mais fresca depois que você foi embora, aquele sol parou, e fiz uma faxina enorme em casa ontem, limpei a cozinha com cloro e troquei a roupa de cama do meu quarto, guardei seus desenhos junto daqueles cartazes que roubei de um show e deixei o lápis sobre a mesa, o que ouço agora é o som do vizinho tentando afastar o medo, recebi mais de trinta mensagens de terror desde que nos despedimos, hoje, antes do café da manhã, pintei minhas unhas de preto, abro minhas pernas de frente para o ventilador ligado no três, deixo que vente, você está por todos os lados, é azul a sua presença, e vermelho em mim, lembro de todas as coisas que já te contei, serei nossa memória, e algum dia esquecerei tudo, já conheço o silêncio desta dor, sentada no meio da avenida com a bunda em carne viva e meu rosto queimando, não me aguento em pé, meu choro é silêncio – seu peito é fundo, tão fundo – não te liguei pra contar que minha garganta coçou e achei que fosse pó de café, coloquei a mão dentro e comecei a puxar fios de cabelo, tufos inteiros, meus olhos arregalados, alguma lágrima, falta de ar, meu intestino preso e parecia que seria esse o fim, deitada sobre esta coberta quente, minhas costas suadas e meu cabelo ressecado, do lado de fora do quarto o disco que 73


colocaram para tocar é aquele que me rasgava por dentro, parece que já estou em guerra desde antes, tento repetidas vezes fazer esse retrato, uso todos os tons de verde que tenho, começo sempre pela sobrancelha esquerda, depois os olhos, com calma, e aí me perco, passei metade da noite debruçada sobre a pilha de papéis brancos, escutando aquelas canções de longe, a cidade esta deserta, o céu, metade fogo, metade cor de rosa algodão doce, e eu, no meio, lá, ao lado, quase perto, você voando na direção contrária, sem me ver, tomando um copo inteiro de coca-cola, com gelo, por favor, o medo mudou minha fisionomia, meu rosto já não é longo e liso, aqueles olhos vivos, bem abertos, meus lábios divertidos, toda as linhas de expressão enrijeceram, uma só, pedra, cinza, incapaz, minha boca sempre seca, pálida, sem novidade, ninguém encanta mais, já me esqueci de como era antes do medo, desta vez, fomos com raiva, não voltaríamos para casa, não existe mais casa, fomos com menos coisas e mais pressa, chegamos cedo, não esperavam por nós, éramos ainda muitas, talvez mais do que antes, formamos uma fila, esperávamos marchar, e 74


sempre fui contra o exército, ao meu lado, aquela menina com tatuagens até o pescoço, que pichava muros com frases de amor, também, ninguém acredita em armas aqui, nunca seguramos em nada assim, faz muito frio, viemos com os pés descalços, nossos sapatos não cabem, estamos prontas e não iremos embora, não falamos nada, nem nos olhamos, estamos firmes e respiramos com força, ninguém chora, já abandonamos isso, os pés vermelhos nesse chão gelado, penso com vergonha em minhas calcinhas e sutiãs dentro da bolsa, não quero acreditar que ainda somos tão inocentes, em meu rosto pareço não pensar, e quase não penso, é verdade, mas meu coração acelera tanto que dói, não é medo, é raiva, muita raiva, poderia gritar, caminham em nossa direção, suas botas pesam, um barulho enlouquecedor, nos olham dessa vez sem rir, estão mais sérios e menos bonitos, todos, venham por aqui, e, juntas, entramos, era barulho de ambulância, reconhecemos, nossos corpos contraem, mais do que com essas bombas que já nem escutamos, aprendemos a não escutar, as crianças já não param a brincadeira para olhar o céu, seguem com seus corpos magros e tristes inventando alguma distração enquanto o som de bombardeio invade qualquer espaço que ainda 75


resta aqui, mas esse, de sirene, faz nossos corpos tremerem de alguma esperança, levantamos as cabeças e nos olhamos, há alguém indo a alguém, ainda se tenta salvar o outro, ainda, esquecemos disso, estamos tão isolados e silenciosos, passamos tantas horas sem nos olhar, tampamos todos os espelhos desta cidade, não sei quanto tempo envelheci, abraçamos as crianças e não lhes escondemos mais nada, tentamos muito, mas já não tem como, todos envelhecemos aqui, essa dor no peito que não passa, bem no centro, contraindo todos os músculos ligados ao coração, uma mão de ferro aperta com força esse órgão que batia forte, tentamos respirar em meio a essa poeira, respiramos pouco, mas ninguém se mata, seguimos por causa dessa sirene, ainda há algo que resiste, nós, muitos morrem, mas há os que sobrevivem, sim, ontem, colocamos todos os móveis para fora, abrimos as janelas, varremos o chão e derramamos a água do balde, rimos disso, ligamos o som, aquela música antiga, a percussão e as vozes agudas, o corpo de antes, respiramos, demoramos no abraço, uma de cada vez, depois todas de uma só vez, cantamos, bebemos direto do gargalo, onde foram parar os copos?, descalças, com pouca roupa, 76


fazia tanto calor, deitamos sobre o chão molhado, rimos uma vez mais, as crianças estavam lá fora, podíamos escutar seus gritinhos e as coisas que diziam, admiradas, e tudo isso saiu de nós, de dentro, enquanto ríamos, choramos muito, muito, devagar porque dói, não sabíamos que sair disso doía o mesmo tanto ou mais do que entrar, na verdade já não pensávamos no fim, e agora nossos corpos tremem com toda essa água, soluçamos e rimos tanto, nossas mãos se tocam, nossas mãos flutuam, vomito na beira do banheiro todo o vazio da última refeição, meus olhos vermelhos e enormes no reflexo do vidro, sempre foram grandes assim?, daqui ouço outra canção, diferente da que escutamos, vem de fora, pela fresta da janela do chuveiro, me aproximo e posso escutar o que vem da rua, muitas pessoas, vozes, alguma felicidade e ninguém parece se dar conta dessa dor, imensa, todos esses livros ainda na estante é o que resta de minha lucidez, é o único rastro da sua existência aqui, de que vivemos algum dia juntos, do nosso velho hábito de abrir um livro pela manhã e ler em voz alta algum trecho, essa reza diária, nossa religião possível, nunca mais, não sei por que ainda guardo todos esses livros, estão empoeirados, talvez com traças por dentro, as folhas amareladas, não 77


sei, nunca mais abri, hoje me lembrei – em algum lugar, as lembranças ainda resistem – do último que lemos juntos, aquele com poemas escritos durante a guerra, você valorizava tanto, tinha cuidado ao passar as páginas, como se fosse um pequeno animal ferido, era assim que você dizia do livro: um pequeno animal ferido, você abriu numa página aleatória, a esperança do mundo, era maldade que você decidisse ler isso justo naquele dia, o último dia, parecia querer me dizer: espere, ou mesmo: sempre haverá a compaixão dos oprimidos, você não disse nada e deixei que lesse tudo enquanto preparava o café, agora olho um pouco distraída e não encontro esse livro na estante, será que você o levou?, ou escondeu para que eu não o encontrasse?, nunca mais suportei o cheiro de café ou li qualquer coisa em voz alta, poderia escrever todos aqueles poemas agora, mas já não sei segurar no lápis, e meu computador não funciona, sua antiga máquina de escrever secou, não sei onde está, escrevo com os dedos no azulejo do banheiro enquanto deixo a água cair e só, não queria, mas ainda espero, e você nunca me encontrará novamente, comprei aquele comprimido e parti em dois, metade pra mim e outra metade pra mais tarde, se 78


precisar, guardo na carteira, dentro de um pedaço de papel alumínio, não quero que vicie, meu corpo sua tanto, e nem faz calor, esqueço de beber, esqueço de comer, fico quieto, parado, é quando me sinto menos apavorado, meu medo não é motor de nada, a parede da sala reflete qualquer coisa de fora, não presto atenção, ouço o que vem da rua, muitos gritos, poderia ser terça-feira de carnaval, como naquele ano em que me vesti de palhaço e ríamos de tudo, as janelas estão todas fechadas, as luzes apagadas, quero fingir que não estou e quase acredito nisso, na minha própria ausência, quando chegarem não tocarão a campainha, abrirão a porta com os pés, e raiva, e vou permanecer sentado, calado, praticando a distração, ninguém me encontrará aqui, não vão me pegar pelos cabelos e me jogar naquele carro, tenho todo esse chão só pra mim, é grande e gelado, grudo minha testa e sorrio de alívio, não espero ninguém, as plantas estão murchas e a panela, queimada, ainda sobre o fogão, abri as cervejas da despensa, quentes, velhas, guardadas há tempo, abri e tomei todas, de uma só vez, não me dei ao trabalho de buscar copos ou esfriá-las o mínimo que fosse, virei todas, inteiras, até me encontrar deitada no chão rodeada de cascos vazios, eu e os vidros, embriagada, 79


vazia igual, sozinha, entorpecida, essa garrafa de conhaque havia guardado para tomar contigo, que pena, bebi inteira e só, não preciso mais esperar nada, ninguém espera mais por nada aqui, gastamos o pouco que temos com a total ausência, já não existe tempo, estamos diante do precipício, abandono toda roupa, todo cuidado, tudo, sou o que resta de mim, quase nada, contenho todo impulso e fico aqui, segurando-me, sem respirar, desejo perder-me no labirinto, de cara para todos os faunos, todos eles, não importa, aumento o volume e abro a última garrafa devagar, pouco antes da meia noite, apagaram as luzes da rua, não era chuva ou vento, fazia calor, e o céu estava limpo, nada explicaria aquele corte, os vizinhos de cima falam mais alto, no escuro há os que precisam gritar, ausência de luz é também silêncio, sozinha na sala ela aguardava a hora de dormir, quieta, com todas as luzes acesas, abri as pernas e sangue, muito sangue, quente, escorrendo, pintando minhas coxas e o chão em volta deste corpo, minhas mãos, eu não devia sangrar mais, não desta forma, eu que já não sou mulher, nunca fui, se chorar ninguém vai entender, talvez a lágrima venha em vermelho escuro, oxidado, estou perdendo ferro, anêmica, 80


fraca, esvaziando tudo, talvez eu esteja morrendo aqui, neste aborto espontaneamente forçado de um feto impossível, um útero silencioso, é também um parto, sai de mim esse filho, inaparência, me espalho sobre a minha gosma, encosto meu rosto, o nariz, a boca, a bochecha, os olhos abertos nesse líquido espesso que sai de mim como um grito que eu jamais daria, jamais conseguiria dar, não tem garganta nem ninguém por perto, chegou o fim, cheguei, diante deste abismo improvável, o eco não retorna, meus pés bem próximos da beira, falta pouco para a queda, meus braços fingem asa, minha testa está engordurada e meus olhos também, me surpreende um medo, tento criar despedidas, todos os rituais, todos os abraços, incansável dizer eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo, repetição inesgotável, e você não está aqui, não sabe do peso de minhas pernas sobre os calcanhares calejados, caminhei descalça até o topo, faz vento e há sol, meus cabelos, o que resta, seria como um fim, mas ainda não me lancei, ainda não acabei, estou perto, pressinto tudo, esqueci da saudade e das conversas que tivemos, todas elas, mas meu coração ainda assim acelera e aperta, dispara diante do vazio, desse buraco enorme que há por baixo de mim, logo à frente, suo nas mãos, os olhos abertos, tudo está atrás, longe, em volta não há nada, algum ar e nada, 81


aqui, faz muito barulho, o tempo inteiro, em cada canto deste apartamento, pequeno e escuro, não sei mais o que seria o silêncio, existe coisa assim?, no início tampava minhas orelhas com a palma das mãos, pressionava com força, escondia a cabeça embaixo do travesseiro e apertava contra a cama, cantarolava algo baixinho pra me distrair, às vezes, berrava bem alto, como se já tivesse perdido a razão, ou chorava, chorava muito, o barulho cansa, mas agora já não insisto, convivo no meio desse caos como um cão cansado em meio a baratas, deixo que subam em meu corpo e tomem conta de mim, nem as noto mais, há muitas delas, sobre minha barriga, peito, queixo, testa, ali onde costumava haver cabelo, me rendo e desisto de lutar, abro todas as janelas e deixo que cada som penetre minha pele, agora participo desse inferno, esqueço que estou nele, às vezes, parece que está tudo muito bem, nunca mais dormi uma noite inteira, e há noites em que simplesmente não durmo, fantasio estar dormindo enquanto minha mente se desmancha nesse ruído ininterrupto, algo explodiu dentro de mim, amanhã devem retirar a palavra paz do dicionário,

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quando você chegou, era dia, fazia um sol meio frio, ninguém esperava, não lhe reconheci, o reflexo, (ontem abri aquele vinho que você me deu e bebi com outras pessoas, nunca lhe contei), apagaram todas as palavras, tudo o que consegui dizer foi nada, na tentativa de sorrir, ali mesmo, o que fizeram com seu corpo?, meu pensamento me sufoca, minha cabeça dói, você está duro, seu rosto é outro, minhas mãos escorregam por suas costas, estou aqui, o barulho do escapamento do carro levanta sua cabeça e seus músculos, aquele menino lhe olha desconfiado, você nem nota, observo a maneira como segura o pão, sem vontade, olhando o vazio da mesa como quem vê um filme de terror, não consigo puxar assunto algum, nem tento, seguro seu antebraço e ficamos assim, sem tempo, me levanto e, devagar, sento no seu colo e lhe abraço, sinto o calor do seu corpo, coloco minha boca devagar na sua nuca, assopro, você parece despertar por um segundo e me toca, finalmente choro, ainda posso chorar, não lembrava mais o que era não estar só, ninguém aqui lembra, todos sabem que não se deve dizer nada, seguimos em silêncio, aprendemos a olhar, a mover a cabeça quando dói demais, a guardar segredos, atravessamos a rua olhando para o chão, e parte de 83


meu rosto permanece imobilizada, uma dormência que se deitou sobre o lado esquerdo, da ponta do queixo à sobrancelha, me comunico sem palavras, não me comunico, ouço o som acelerado de minha respiração que tento controlar contando até oito, o gosto na boca é de cuspe com sangue, vermelho e espesso, acumulado sobre a língua, eu babo, deixo escorrer, pingar sobre minha roupa amarrotada, não posso rir e nem mesmo tem graça, não consigo mais pensar, cada imagem que vem à cabeça é interrompida por um ruído qualquer ou pelo gosto doce desse sorvete que me compraram, alucinação, minha cabeça está entupida de pensamentos abortados, nada fica, mas não estou com medo, essa camisa está fedendo a suor seco, não a troco há dias, o vermelho de minha unha está descascando e meus dentes estão roxos, passo a língua devagar querendo sentir cada pedaço de mim, toda essa memória, encardida, me disseram que saliva é um remédio natural, e os cães costumam lamber as próprias feridas, você sabia?, passo o dia me lambendo, já escureceu e perdi o pôr do sol, de novo, não percebo mais a passagem do tempo, é rápido, não consigo esperar, todo edifício desta cidade tem uma luz vermelha no alto, uma agressão ao escuro, um coagulo no topo, como um sinal a nos lembrar: somos frágeis, 84


cada encontro é também desencontro, falta, mais cedo, na escola, lhe perguntaram: como é a guerra?, parou o que estava fazendo, ficou com os olhos vazios, numa espécie de espera inútil, mexeu os lábios duas vezes de forma estranha, quase contraindo, girou a cabeça para o lado direito, lentamente, passou o indicador esquerdo pela boca, depois segurou a barra da camisa e ficou ali, parado, olhando o próprio sapato ou o fim do mundo, a guerra é isto, parecia querer dizer, não vê?, e fazia frio, as mãos brancas e geladas, como no dia em que enfiou os dedos no fundo do balde com gelo para pegar a latinha mais gelada, sempre a mais gelada, não entendia como conseguem fazer tudo aquilo, a imagem que nunca sai de sua cabeça, está mergulhado naquela cena desde sempre, e todos os gritos, e risos, o inferno sem calor algum, olhar no rosto do pior que há no mundo, como contar do horror?, nunca se sai vivo de uma guerra, começou,

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impresso em fortaleza em dezembro de 2018


quase  
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