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O material aqui reunido nasceu de um encontro. Em 2017, nos conhecemos entre o outono e o inverno do hemisfério sul. Ao longo dos poucos dias em que estivemos juntos, nos apaixonamos em Buenos Aires. Por vivermos em países diferentes, arriscamos uma tática para a saudade: desenhar, escrever, compor, fotografar. À distância, produzimos, cada um a seu modo. Solitários em nossos processos de criação artesanal, fomos aos poucos instaurando uma poética dos desejos e das lonjuras. Bianca Ziegler, por meio da editora Nadifúndio, deu atenção muito especial aos textos e às imagens produzidas por nós dois. Ela é a responsável por compilar e apresentar este material ao mundo em forma de livro. Carinhosamente, deixamos registrado nosso agradecimento." Nahuel e Raisa


a orillas del rĂ­o, Ă beira do mar.


acontecimento você tem um rio com sua cidade eu tenho um mar mas não parto com navios nem me dou aos temporais prefiro o plano descampado surpreendido por pássaros ou monólitos aglomerados que fazem tremular a linha do horizonte e os meus lábios há um ponto cego quando escrevo seu nome no meio da gente um vulto na estrada cada gesto impensado seu inaugura meu corpo animais quase extintos no sertão central você não tem a minha idade eu não tenho medo


Tem alguĂŠm do outro lado da linha divisĂłria que desenha minha linha provisĂłria pintando meu rosto da cor do encontro.


viadutos quero histórias que rondam os viadutos. ao ir do interior em direção à capital, o primeiro sinal da metrópole era avistar um desses arcos envolvendo o fluxo rodoviário no horizonte. a sombra deles por frações de segundos cobria o carro inteiro e eu cabia dentro do carro que me parecia grande e eu era tão pequena. há gente que mora debaixo dos viadutos, há aqueles que se jogam do alto deles e há também pessoas perto de nós que os atravessam engolidas pelo tempo e simplesmente permanecem as mesmas. atravesso o viaduto, todos os viadutos da cidade, como se essa ação me conferisse o poder de associar pontos perdidos no espaço esburacado. esses pontos querem dizer você e eu.


um mês quero acreditar quando você diz passa rápido às vezes desconcentro desenho outros corpos quase não me aquieto vou desocupando gavetas e ocupando dias a pintar paredes a varrer a casa a ensaiar o amor para não ver o tempo antes de você comigo


desenhos o que quero fazer contigo tem a ver com muito do que já foi desenhado na minha cabeça na ausência de um lápis ao longo de salas de espera em consultórios de reuniões administrativas no âmbito das políticas culturais de instantes que precedem o sono profundo de itinerários de ônibus que seguem vagarosos em picos de congestionamento e de repente nos lançam a vista para o mar. esses desenhos não são de agora e retornam numa periodicidade confusa. são desenhos de você onde você não está quando a intuição leva a crer que os rumos do seu pensamento permanecem remotos sem relação alguma com os meus e ainda assim desenho fiapos aqueles pelos seus que nunca sequer arriscaram amanhecer perdidos sobre a minha cama grudados em alguma dobra profunda do lençol ou na costura do travesseiro onde sua cabeça não repousa.


Son tiempos lejanos, responder a las necesidades del cuerpo se torna un acto egoísta. Es cuestión de no pensar en los posibles reflejos generados por el vidrio divisor, para sí, fijar la atención en su transparencia. Lo que hay dentro tal vez sea único, mágico, inestable o ficción.


manifestação as multidões me fascinam olho para todos os rostos e não sei quem beijar eu sei quem beijar mas melhor seria que não soubesse


Hay una pared allí inmóvil, que espera húmeda la caricia del deseo, el golpe atenuante de nudillos, la suerte del derrumbe pactado, el cambio de rumbo geográfico que no encuentra dirección en la superficie inventada que habitamos.


cabelo após o incidente no ônibus seu cabelo cresceu e cobriu a cicatriz dos quatro pontos que você tomou na cabeça naquela época eu não lhe conhecia mas meu cabelo foi crescendo com o seu bagunçado em outras brisas que já não sopram da terra para o mar sem cicatriz para cobrir sem povoado no meio da mata sem noites sob o teto do anfiteatro sem violão chorando a cidade com um raro pressentimento de que estaríamos uma manhã talvez entre montanhas e vales a confundir nossos fios castanhos um cacho tão recém perdido na pele do outro


discurso disse-me à boca pequena o que a imagem não permitiu tocar: uma vez alguém tentou alguma coisa pela metade e falhou tão desesperadamente


espuma branca ĂŠ preciso que dedique um momento que assuma seu corpo nĂŁo tenha medo de tocar a boca volta seus olhos para mim


voragem espinho dente dardo você está a caminho do sul eu não estou para festas em poucos dias seus olhos nus desarmarão montanhas de neve em pequenas doses suas flechas untadas com veneno vegetal imobilizarão músculos ao telefone minhas palavras seguem a morder seus braços seguem a nublar mas antes de qualquer coisa não se esqueça jamais


puntos cardinales puntos y aparte. coma, coma mis palabras, desayune con ellas. puntos seguidos perseguidos por la vista rabiosa de quien destruye puntos de encuentro. puntos suspensivos suspendidos a punto de caer en el lĂ­mite geogrĂĄfico de mi lenguaje.


escala richter há também momentos em que te olho densas camadas se movem populações saem às ruas ao meu redor paisagens inteiras se desfazem logo se recompõem cortes no fornecimento de água focos de incêndio onde havia lagos desenham caminhos sem volta e ainda não sei como te dirigir a palavra


La línea fluctúa, se superpone, acorta distancias. Atraviesa temerosa el paisaje deseado, se eleva sobre colores ajenos, altera la veracidad del lenguaje. La línea simplemente sostiene el gemido curvo de la mano tuya sobre la forma mía.


película vencida treinta y seis fotogramas cuerpo y lente cuerpo y alma luz del día día nuestro nuestro encuentro impregnado en la emulsión caducada.


El despliegue lumínico de tus palabras, la sórdida melodía del encuentro, el instante inventado en tus manos, la espuma blanca de los días. El camino recorrido en los abrazos, la inevitable embriaguez del instante, lo improvisado, lo imprevisto, lo imprescindible de tu presencia.


coreografia você dançava girou duas vezes em torno do próprio eixo depois ergueu os braços e abriu as mãos para segurar outras mãos acopladas a um corpo feminino que também dançava a sua frente e não era o meu aos quatro anos minha filha falou “mãe a gente se apaixona quando quer dançar com o amigo” achei bonito mas pensei que poucas vezes quis dançar apesar dos pesadelos que me acometeram àquela noite neste claro agora percebo a lembrança do seu corpo em movimento me faz feliz


caiaque com ambas as mãos, agarraste as beiradas do caiaque e o empurraste para o mar, seguir o nascente, desviar dos arrecifes e atentar para os banhistas, disseste sem exclamações, nosso mar é verde acinzentado e o porto barra as ondas, em vez de peixes, aprendi que por mim cruzarão folhas secas, copos descartáveis e outros detritos de plástico, meus braços agora morenos talvez a ponta dos ombros queimarão demais, nada que tu não tenhas me avisado, exceto por aquela ave que subiu sei lá de onde em silêncio, com sua corajosa estrutura óssea a esboçar arcos sob as nuvens e não se demora em ponto algum, é ágil, desenha formas invisíveis que me espantam porque minhas mãos afrouxam e então o remo, junto a ti, se vai


fantasma a mulher que quis firmar os pés sobre a ponta da encosta mais estreita o homem que quis desconfigurar-se com a névoa alguém me contou sobre eles e não esqueci pus-me a procurar na geografia dos livros escolares os nomes que não me pertencem como se na superfície daqueles mapas pousassem os domínios da tua figura da tua árvore genealógica gosto das palavras e das imagens mas também quero o direito de me fazer distante ser dura e veloz soprar quente e úmido eu que não tive necessidade de esquecer que não cruzei os braços que abro bem os olhos e eles estão constantemente submersos em ti mesmo quando não estás presente


memória ao conjunto de águas deu o nome de terras ao conjunto de montanhas deu o nome de ilhas então estendeu o braço e subiu nas pontas dos pés com um movimento breve e um sentimento vidro fez chover por setenta dias e as setenta noites eram tão somente para nos lembrarmos de você


ouço você falar e penso em bruxaria em meio aos meninos que tenho conhecido mais de perto você num momento de improviso não segura minha mão em seguida me pergunta sobre qual jogo de palavras deixamos de nos aventurar você tem qualquer coisa na formalidade das suas camisas de botão que me atrapalha o fluxo dos desejos numa outra cidade noutra margem de rio acompanho um pouco seus dias sem poder fazer nada e assim começo a fundar um observatório dos pequenos traumas que meu corpo não viveu


pacto não pense que somos todos desajustados podemos descer nossas calças simultaneamente tocar nossos órgãos genitais até envelhecermos juntos olhe para mim quando passar sua febre ainda estarei aqui explicando às telefonistas e aos porteiros do prédio que não se trata de tristeza que essa confusão nas palavras é amor e diferente da sua febre não vai passar


zona norte me restringe o uso das mãos me pede para não falar futuros me deixa fazer a viagem de volta embora eu saiba que as rotas proibidas as saídas de emergência os limites de velocidade as áreas de risco e as portas de acesso restrito não me farão retroceder e nem ditarão minha conduta de entrega incondicional à saudade que você fundou aqui


entre fortaleza & buenos aires, entre o outono e o inverno de 2017.


Raisa Christina nasceu em Quixadá, Sertão Central do Ceará (Brasil). É artista visual e escritora. Tem grande admiração pelos músicos, narradores, bailarinos e errantes que se dedicam a traçar linhas no tempo. Acredita na arte e na educação. Mantém a página na web http://corposonoro.tumblr.com/

Nahuel Souto Martínez nació en Buenos Aires, Argentina. Es músico, artista visual y docente de fotografía. Trabaja principalmente con fotografía química y procesos alternativos. La imagen y el sonido forman el paisaje donde vibra. Es coordinador del proyecto Imagen Invertida.


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