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EU VOU INVADIR OS LATIFÚNDIOS QUE CERCARAM A MINHA CARNE

Priscilla Menezes


invadirĂŠ los latifundios que rodearon mi carne


Priscilla Menezes

eu vou invadir os latifĂşndios que cercaram a minha carne


Esta ĂŠ a lĂ­ngua do opressor Contudo, preciso dela para falar contigo (Adrienne Rich)


um poema que fosse vermelho de nascença e que nascesse como todos nós desde vísceras que expandem e contraem em dor imensa que, dizem, parece a morte mas não é é baile que a morte faz com a vida ali onde se sangra a cada vinte e tantos dias e contrai expande, se dissolve em vermelho-coágulo, escuro e vivo que tem cheiro de ferro, como também as ferramentas enxada, colher, goiva, lapiseira martelo e foice, coisas de preparar o chão, os textos as matrizes, de pôr o mundo abaixo e depois acima, revirar a terra fértil, vermelha, em estado de barro fresco onde as crianças se divertem, os subsolos se acomodam a vida insurge, não das mãos de um deus homem onipotente mas das mãos pretas femininas de Nanã Salubá então para que também esse poema seja uma oração à Mãe do mundo que o fez, maravilhoso estranho imenso sem jamais tocar em armas

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un poema que fuera rojo de nacimiento y que naciera como nosotros desde vísceras que se expanden y contraen en inmenso dolor que, dicen, parece la muerte pero no lo es es baile que la muerte hace con la vida justo allí donde se sangra cada veintitantos días y contrae expande, disuelve en rojo-coágulo, oscuro y vivo que huele a hierro, así como las herramientas azada, cuchara, gubia, lapicera martillo y hoz, cosas de preparar el suelo, los textos matrices, de poner el mundo abajo y luego arriba, revolver la tierra fértil, roja, en estado de arcilla fresca donde los niños pasan bien, bajo tierra se acomodan la vida insurge, no de la mano de un dios hombre omnipotente pero de la mano negra femenina de Nanã Salubá entonces para que este poema también lo sea una oración a la Madre del mundo que lo hice, maravilloso raro inmenso alejada de las armas


Salubá uma vez mais para que esse poema também seja feitiço coisa que fazem as velhas, as indesejadas, as esquecidas as sozinhas por escolha, as que estão agora acordadas com olhos vermelhos de espanto, de choro abundante ou retido mas olhos que enxergam a constante possibilidade da magia aquilo que trai os pactos entre as causas e os efeitos aquilo que cria novas causas para efeitos improváveis aquilo que esgarça as probabilidades e as insurgências aquilo noturno que pertence aos despossuídos aquilo que é a nossa única chance a revolução.

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Salubá una vez más para ese poema también lo sea hechizo cosa que hacen las viejas, las indeseadas, las olvidadas las solas por gusto, las que ahora están despiertas con ojos rojos de asombro, de llanto abundante o retenido pero ojos que ven la continua posibilidad de magia aquello que trae los pactos entre las causas y los efectos aquello que crea nuevas causas para efectos improbables aquello que deshilacha las probabilidades y las insurgencias aquello nocturno que pertenece a los desposeídos aquello que es nuestra única oportunidad la revolución.


O COMBATE DOS ANIMAIS avançam sobre a cidade que já não escorre enche e afunda a olho nu alheios ao fluxo e ao sentido da via rentes ao muro da casa onde eu não nasci isso foi um sonho de uma bisavó que morreu lúcida diante de uma fronteira isso é uma mensagem cifrada sobre um muro de um templo bizantino ou da Avenida Passos isso é um fato incontornável já impossível de ser ignorado pelos governos da Terra pelo espírito do tempo pelas minhas mãos de onde também um pouco avançam com barbatana, asa, trem bala, bicicleta onde começa esse desejo de ceder aos quatro apoios encostar o rosto no chão sem o auxílio das mãos sem o auxílio de nada porque já agora não há socorro e não há fuga há o tremor do retorno a um território de onde vim e que não me pertence feito um povo nômade, feito o corpo de uma mãe feito essa impressão de um nascimento

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LA PELEA DE LOS ANIMALES

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avanzan sobre la ciudad que ya no fluye se llena y se hunde a simple vista ajenos al flujo y al sentido de la ruta cerca de la pared de la casa donde no naci eso ha sido un sueño de una bisabuela que se murió lúcida frente a una frontera eso es un mensaje cifrado sobre un muro de un templo bizantino o de la Avenida Passos eso es un hecho ineludible que ya no pueden ignorar los gobiernos de la Terra por lo espírito del tiempo por mis manos de donde incluso avanzan un poco con aleta, ala, tren bala, bici donde empieza ese deseo de rendirse a los cuatro apoyos poner la cara contra el suelo sin ayuda de las manos sin ayuda de nada porque ahora ya no hay socorro y no hay escape hay el miedo del regreso a un territorio de donde he venido y que no me pertenece hecho un pueblo nómade, hecho el cuerpo de una madre hecho esa impresión de un nacimiento


prolongado que ainda agora me põe entre a violenta comunhão e o grito da minha primeira fome esse tropel de passos que soa como um chamado esse rumor que há dias entreouço no tato de selva dos lençóis no brilho de garra dos utensílios no apetite de bicho que subitamente se entrelaçou ao meu esse rumor que agora avança sem alvo mas também sem paz e por isso tendo tudo como alvo em potência inimigo ou amante quem dirá é o modo como lidaremos agora com a força do que retorna se afundaremos junto à via rápida, ao prédio da prefeitura ao centro de controle de pragas ou desistiremos de estancar essa ferida que insiste em abrir à altura do pescoço, ver a pele romper, acolher as guelras, reaprender a respirar atravessar naufrágios e sobreviver saber que esse rumor é de quem retorna

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largo que todavía ahora me pone entre la violenta comunión y el llanto de mi primer hambre ese tropel de pasos que suena como un llamado ese rumor que hace días escucho en el tacto de la jungla de las sábanas en el brillo de garra de los utensilios en el apetito de bicho que de pronto se entrelazó al mio ese rumor que avanza sin objetivo pero incluso sin paz y por eso tiene todo como objetivo en potencia inimigo o amante quién va a decir es el modo con que lidiaremos ahora con la fuerza de lo que vuelve si nos hundiremos junto a la ruta rápida, al edificio del ayuntamiento al centro del control de pestes o renunciaremos a detener esta herida que insiste en abrirse a la altura del cuello, ver la piel romperse, acoger las agallas, volver a aprender a respirar cruzar naufragios y sobrevivir saber que ese rumor es de los que vuelven


do exílio e traz consigo: a força de pôr tudo abaixo de criar um mundo com a estaca da primeira fundação aliada aos terrenos moventes sem nome e sem governo afiada feito lança * nossas águas eventualmente encontrarão as águas do mundo e correrão levando tudo um big bang às avessas em vez de fogo o fluxo no lugar da explosão de um núcleo fumegante uma avalanche impiedosa de incontornáveis forças úmidas é que o concreto isola tudo e em nada é mais poderoso que as formas abertas de Huaca Pucllana que ainda hoje está de pé enquanto os prédios do centro não param de desabar e os homens especulam se é mesmo verdade que as mulheres ejaculam e tem vários de tipos de orgasmo (nós e nossos lençóis encharcados

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del exilio y traen junto: la fuerza de poner todo abajo de crear un mundo con la estaca de la primera fundación aliada a los terrenos móviles sin nombre y sin gobierno como una lanza afilada * 15

nuestras aguas eventualmente se encontrarán con las aguas del mundo y correrán llevando todo un big bang al revés en lugar del fuego el flujo en lugar de la explosión de un núcleo humeante una avalancha despiadada de ineludibles fuerzas húmedas es que el concreto aísla todo y nada es más poderoso que las formas abiertas de Huaca Pucllana que todavía sigue de pie mientras los edificios del centro no dejan de derrumbarse y los hombres especulan si realmente es verdad que las mujeres eyaculan y tienen diversos tipos de orgasmo (nosotros y nuestras sábanas empapadas


sabemos bem que sim) mas não faz nem uma década que você ou eu teve coragem de se tocar os dedos rastreando paredes internas descobrindo um importante relevo ali onde pensava só haver espaço não há nada mais perigoso que espaço nada nos salvaria mais do que espaço entre o nome e a coisa nomeada, a impressão e a certeza entre os azulejos, o concreto e o meio fio, entre um prédio e a praça cheio de ausência da norma civilizatória que desse vazão e escoasse, desse de comer e transformasse enfim morte em berço mas foi mesmo aterrador testemunhar ventos de 100 km/h cruzando os ares de Copacabana árvores arrancadas pela raiz levando asfalto junto água arrastando pessoas, carros, invadindo hotéis e interditando vias desvelando, uma vez mais, a precariedade das cidades, do capitalismo, do contrato social da nossa possibilidade de nos afetarmos mutuamente diferente das árvores esmagando carros, postes e umas às outras

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lo sabemos muy bien que sí) pero no hace ni una década que tu o yo tuvimos el coraje de tocarnos los dedos rastreando paredes internas descubriendo un relieve importante allí donde pensaba haber solamente espacio no hay nada más peligroso que espacio nada nos salvaría más que el espacio entre el nombre y la cosa nombrada, la impresión y la seguridad entre los azulejos, el concreto y el medio hilo, entre un edificio y la plaza lleno de falta de la norma civilizatoria que canalizara y vaciara, diera de comer y transformara por fin muerte en cuna pero ha sido de hecho terrorífico testificar vientos de 100 km/h cruzando los aires de Copacabana árboles arrancados de raíz llevando asfalto junto agua arrastrando personas, coches, invadiendo hoteles e interceptando rutas desvelando, una vez más, la precariedad de las ciudades, del capitalismo, del contrato social de nuestra posibilidad de nos afectarnos uno al otro de forma distinta de los árboles destrozando coches, postes y unos a otros


não se sabe se em guerra ou fazendo uma estranha forma de amor a terra estremecendo sob o asfalto dizendo não se sabe o quê mas eu acho que dizendo que a terra está viva e conspira junto às sementes crioulas, aos que chegaram antes, aos que foram forçados a vir aos que perderam tudo e ao próprio espaço vago que na maioria das vezes só quer mesmo dizer território cheio de outras lógicas que não a da propriedade impropriamente, criaremos modos de assombrar os pilares desse mundo esquecido do chão a partir do qual se ergue todo, justo ali onde baldias, permaneceremos

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no se sabe si en guerra o haciendo una forma rara de amor la tierra temblando bajo el asfalto diciendo no sé qué pero creo que diciendo que la tierra está viva y conspira junto a las semillas criollas, a los que llegaron antes, a los que se vieron obligados a venir a los que perdieron todo y al próprio espacio vacío que la mayoría de las veces solamente quiere decir territorio lleno de otras lógicas que no la de la propriedad impropiamente, crearemos maneras de de perseguir los pilares de este mundo olvidado del suelo de lo que todo se eleva, justo allí donde baldías, nos quedaremos


Priscilla Menezes escreve, desenha, pesquisa e ensina. Acredita que a arte é um território onde se pode tomar impulso para realizar movimentos improváveis, feito um trampolim ou uma pista de decolagem, e que é também um campo com dimensões capazes de acolher os efeitos drásticos desse impulso, como uma pista de pouso ou uma piscina funda. Vive a vida entre mergulhos e voos. Escreveu o livro “Erro tácito” publicado em 2017 pela Editora Patuá.

Priscilla Menezes escribe, dibuja, investiga y enseña. Cree que el arte es un territorio donde se puede tomar impulso para hacer movimientos improbables, como un trampolín o una pista de despegue, y también es un sítio de dimensiones que pueden acoger los efectos drásticos de ese impulso, como una pista de aterrizaje o una piscina profunda. Vive la vida entre buceos y vuelos. Escribió el libro “Erro tácito” publicado en 2017 por la Editora Patuá.


M543e MENEZES, Priscilla Menezes. Eu vou invadir os latifúndios que cercaram a minha carne / Priscilla Menezes Fortaleza: nadifúndio, 2019. 22 p.

ISBN: 978-65-80574-10-0

1. Literatura brasileira 2. Poesia I. Título


Tradução Isabela Bosi Capa & Projeto gráfico Bianca Ziegler Editora nadifúndio nadifundio.com 1ª edição 2019


impresso de forma artesanal na cidade de fortaleza em setembro de dois mil e dezenove


Profile for Editora nadifúndio

eu vou invadir os latifúndios que cercaram a minha carne  

priscilla menezes 1ªa edição 2019

eu vou invadir os latifúndios que cercaram a minha carne  

priscilla menezes 1ªa edição 2019

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