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Product: OGlobo PubDate: 08-04-2012 Zone: Nacional Edition: 1 Page: PAGINA_Q User: Schinaid Time: 04-07-2012 10:19 Color: K

Domingo, 8 de abril de 2012 h

O PAÍS • 17

O GLOBO

Aula de alfabetização e de competência Maioria das escolas municipais com alfabetizadoras no topo de ranking no Rio é de regiões com baixos indicadores sociais Alessandra Duarte duarte@oglobo.com.br

O país considerado a sexta economia do mundo ainda carrega o número de cerca de 15 milhões de analfabetos adultos. E apresenta sérias dificuldades para ensinar 100% de suas crianças a ler e escrever na idade certa: o Censo 2010 do IBGE mostra que 15% das crianças com 8 anos ainda são analfabetas; entre as mais pobres, o percentual vai a 29%, enquanto, entre as mais ricas, cai para apenas 1%. Uma das falhas mais apontadas por educadores é que as escolas costumam colocar nas séries iniciais, onde ocorre a alfabetização, justamente professores iniciantes e menos preparados. Não é este o caso de um seleto grupo de professores da rede municipal do Rio, que mostram que é possível ter bons resultados mesmo trabalhando com alunos de áreas pobres. Vânia Lima, Paloma Waite, Elaine Souza e Simone Alcântara são as primeiras colocadas num ranking dos professores de turmas de alfabetização com melhor desempenho. O ranking, no qual entraram 741 escolas municipais, é resultado de uma avaliação dessas turmas da rede em 2011— e dá exemplos do que significa ensinar uma criança a ler, escrever e também entender. A nota desejável na avaliação, com critérios da Provinha Brasil, do Inep, era150. Todas as turmas nas dez primeiras posições tiraram mais de 220, e a maioria fica em áreas com baixos indicadores sociais: são da Zona Norte e Oeste sete das oito escolas da lista com as dez professoras mais bem colocadas (há duas escolas com duas turmas na lista). Para ajudar a entender o que há em comum entre as professoras campeãs de alfabetização, O GLOBO filmou as aulas dessas profissionais e pediu à educadora Andrea Ramal, doutora em Educação pela PUC-Rio e autora de “Depende de você — Como fazer de seu filho uma história de sucesso”, para identificar boas práticas (os vídeos podem ser vistos no site do GLOBO). — Você precisa ter uma metodologia de trabalho. Mas, além desse planejamento sistemático, l

ser um bom alfabetizador significa você dar atenção personalizada a seus alunos. Tem que ficar atento aos ritmos de cada um. E ter orgulho de ensinar. Nas três escolas visitadas pelo GLOBO, duas convivem com a violência ao redor. Uma estratégia comum às professoras é acalmar os alunos, seja colocando um CD para relaxarem, seja permitindo que falem um pouco dos problemas que os aborrecem antes de começar a lição. As professoras incentivam a leitura desde cedo, mas também dão margem para que as crianças tenham papel mais ativo, construindo suas próprias histórias, em vez de apenas lerem textos decorados. E têm a preocupação de fazer com que todos os alunos aprendam, não apenas os melhores. A secretária municipal de Educação do Rio, Claudia Costin, diz que um dos principais problemas diagnosticados ao assumir o cargo era o alto percentual de analfabetos funcionais na rede. — Em 2009, aplicamos uma prova nas escolas municipais e constatamos que tínhamos 28 mil estudantes analfabetos funcionais. No 4,, 5, e 6, anos, 14% dos alunos liam sem entender ou desenhavam a letra sem saber o que era — conta a secretária. — Realfabetizamos esses alunos, tirando-os das suas turmas para fazer grupos de reforço de um ano. Mas também precisávamos melhorar a alfabetização, senão continuaríamos a produzir analfabetos funcionais. Uma das ações para combater o problema foi justamente a criação de avaliações das turmas de alfabetização: uma quando o aluno entra no 1, ano (antiga classe de alfabetização); uma segunda no meio do ano; e uma terceira, que ganhou o nome de AlfabetizaRio e é aplicada ao final do ano letivo, por uma instituição externa (em 2011, a segunda edição da avaliação, foi a Consulplan). Base das avaliações do AlfabetizaRio, a Provinha Brasil será reformulada pelo MEC. Hoje, o resultado das provas aplicadas nas escolas não vai para o ministério, ficando para exame dos próprios professores. A ideia é fazer com esse resultado também seja enviado à pasta.n

Marcelo Carnaval

ELAINE DE Souza (à esquerda) e Simone Alcântara, com alunos de alfabetização do Ciep 1, de Maio, em Antares: 3, e 4, lugares

Texto criado pelo aluno e CD para ‘acalmar’ Professoras em 3, e 4, lugares são de Escola do Amanhã em Antares — Boa tarde! Boa tarde! — iam dizendo um a um todos os alunos que passavam pela equipe do GLOBO nos corredores do Ciep 1, de Maio. É um colégio participante do projeto Escola do Amanhã, o que significa que está numa área “conflagrada”, informa o site da Secretaria municipal de Educação. Fica em Antares, Santa Cruz, bairro da Zona Oeste que tinha IDH entre os dez piores do Rio em 2000, numa região que em 2011 registrou quase 200 homicídios dolosos (no mesmo período, a região de Botafogo, por exemplo, registrou 16). Está entre as dez primeiras posições do AlfabetizaRio pela 2+ vez. — Quando está calmo na região, eles estão calmos. Quando pesa, ficam mais agitados. Mas não são agressivos, até porque aqui na escola temos a política de “violência zero” — diz a professora Elaine Soares de Souza, que costuma colocar CDs instrumentais para a turma l

Marcos Tristão

ouvir. — Quem consegue dormir direito ouvindo barulho de tiro? Então, é para se acalmarem. Tem criança que chora. Aí, depois, vamos à aula. Mas não é só essa técnica que explica a 3+ posição de Elaine no ranking: o Ciep 1, de Maio é de tempo integral, o único assim nos dez primeiros lugares (e a única Escola do Amanhã nas primeiras posições), e mais tempo de aula é claro que ajuda no aprendizado. Além disso, Elaine, professora de educação infantil por 8 anos antes de ir para a alfabetização, tirou da experiência anterior o princípio de que aluno tem de aprender com o que ele próprio cria. — Na educação infantil, não tem que ter coisa pronta, para poder desenvolver criatividade e coordenação motora. Na alfabetização também, deixa ele fazer o coelho dele — diz Elaine, que tem Formação de Professores. Na tarde em que O GLOBO acompanhou

sua aula, foi a professora dizer que escreveria no quadro uma história que a turma inventaria para os alunos disputarem quem criaria mais frases. — O coelho não ia brincar. Não ia na rua. Não ia se divertir com os amigos — dizia Danillo Steysson, de 7 anos, para tentar continuar a história de um coelho “que não obedecia a mãe”. — Elaine não traz texto de fora. Constrói o texto com a turma. Além disso, organiza a disposição dos alunos na sala em função das atividades — afirma a doutora em Educação Andrea Ramal, após ver imagens das aulas gravadas pelo GLOBO. O aluno que não consegue acompanhar a turma, Elaine manda para Simone Alcântara — a quarta no AlfabetizaRio, e também professora do 1, de Maio. — É um reforço entre nós — completa a pedagoga Simone. — Mas também misturamos as turmas até para melhorar o entrosamento dos trabalhos em grupo.

Alfabetização com Clarice Lispector Segunda colocada no ranking parte da leitura para outras atividades O que Isabelly Batista Gomes mais gostou em “A mulher que matou os peixes”, de Clarice Lispector, foi que a tal mulher “pediu desculpa”: — Eu também fiz uma história sobre peixe, sobre o peixe “trabalhante”. Ele foi trabalhar; a mulher dele, também; o filho foi estudar. De noite, voltaram pra casa e tomaram banho todos juntos, apertados — diz a menina de 7 anos sobre o que escreveu ao lado de um desenho. Isabelly é uma das alunas de Maria de la Paloma Muñoz Waite, a segunda colocada no AlfabetizaRio. A segunda e também a décima, porque uma outra turma de Paloma, do mesmo colégio — a Escola Municipal Minas Gerais, na Urca, Zona Sul do Rio —, ficou em décimo lugar no ranking. Entre suas ferramentas em sala, Paloma adota um dos elementos que muitas das professoras nas primeiras posições do ranking usam, segundo a secretária Claudia Costin: procurar levar a biblioteca para a sala de aula. Com base no livro de Clarice Lispector, por exemplo, os alunos de Paloma fizeram desenhos, expostos na sala de aula, e vão montar um aquário. A professora também leva suas turmas para l

VÂNIA LÚCIA Lima com seus alunos da Escola Rodrigo Melo Franco de Andrade: o primeiro lugar

Campeã de conteúdo e afeto Primeira colocada alfabetiza estimulando expressividade dos alunos l O início da aula de Vânia Lúcia Aguiar Lima é assim: — Hoje está nublado, né, gente? Vamos chamar o sol? Todo mundo levanta. Vamos chamar o sol! — diz a professora, e é rápido até que a turma, animada como crianças de 6 e 7 anos podem ser, comece a pular no meio da sala. A primeira colocada do AlfabetizaRio ensina na Escola Municipal Rodrigo Melo Franco de Andrade, no Andaraí, Zona Norte do Rio, há um ano. Também trabalha na rede municipal de Duque de Caxias, Baixada Fluminense. Com 18 anos de magistério, Vânia faz com sua turma “uma catarse”, nas palavras da secretária Claudia Costin: além de “chamar o sol”, a professora costuma colocar os alunos em círculo para que falem sobre problemas que os aborrecem. — Ensinar para essa idade é cuidar não só de leitura e escrita, mas de oralidade, desenvolvimento da cooperação. É ensinar a ler o mundo. E tento fazer com que, na escola, a criança seja mais leve do que o que muitas vivem em casa. Tudo na escola tem de ser prazeroso para uma criança. Tudo. A sala tem de estar arrumada. Tenho de mostrar ao aluno que ele é importan-

te para mim, porque aí ele também vai mostrar a importância dele para os outros — diz Vânia, e chora. — Ah, gente, é uma responsabilidade. Com Formação de Professores e cursando Pedagogia, ela criou o “Correio da Amizade”. Na sala de aula, pôs “caixas de correio” de papel, onde os alunos podem depositar bilhetes para os colegas. Uso de poesia é outra ferramenta: poemas que os próprios alunos ajudaram a criar, eles interpretaram para outras turmas. — “O mundo tem água, parque de criança” — diz Ingrid Ferreira, 7 anos, lendo o poema que fez “pra gente cuidar do nosso planeta”. — Vânia participa das atividades, um modelo atual de o professor ser companheiro de estudos. E une conteúdo com expressão de valores — diz a educadora Andrea Ramal. Andrea destaca que, para conduzir com disciplina aula tão participativa, Vânia cria “códigos com os alunos”: em vez de mandar ficarem quietos, diz que só abre os olhos “quando todos se sentarem”. Todos se sentam. E, quando saem para o recreio, não fazem barulho algum — no código de professora e alunos, explicou um deles, é a hora em que estão “invisíveis”.

leituras na UniRio, ali perto da escola. E mais uma ferramenta sua: o uso de música, com a leitura de cantigas, por exemplo. — Todo dia lemos algum livro — diz Paloma, pedagoga com pós em Psicopedagogia. — O mais difícil é quando você vai apresentar esse mundo da letra à criança e percebe que ela fica perdida por não ter referências disso em casa. É como entrar num lugar com textos numa língua que você não faz ideia de qual seja. — A Paloma propõe a leitura em grupo, o que cria um envolvimento da turma. Além disso, circula pela sala. Isso é muito importante para se conectar com todos. Mas um ponto que chama atenção é que ela não se contenta com qualquer resposta. Não aceita qualquer coisa. Deixa o aluno pensar para ele responder melhor — comenta a educadora Andrea Ramal sobre o que viu das aulas da professora nas imagens gravadas pelo GLOBO. — Isso eleva o padrão de excelência que ela busca na turma, faz com que ela vá atrás do máximo que a turma pode dar. Não é aquele pensamento “é aluno de escola pública, então, para o que ele é, está bom”. Marcos Tristão

PALOMA MUÑOZ Waite acompanha o dever de uma de suas turmas na Escola Municipal Minas Gerais

Matéria de Andrea Ramal para O Globo  

Matéria para O Globo, dia 8 de abril.

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