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Redação Nalú Baptista Catharine Piai Mateus Palaro Marques Revisão Gabrielle Bauman

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Direção de Arte Beatriz Mioto Entrevistas Giovanny Camargo Gerlach Nalú Baptista Divulgação Maria Beatriz Moreira Thamíris Nóbrega Andruccioli

Revista Headphone

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Cavalcanti, é um grito, como afirmou o vocalista. Um grito

DOSSIÊ CASUARINA (com “Jornal da Morte”, música

que só comprova a qualidade

elle Araújo, Toni Costa e Lan Lan (cantando o sucesso de Dorival Caymmi, “Rosa Morena”). Dos 23 sambas que compõem a gravação, três são autorais

música. O repertório é garimpado e pretende trazer para a cena musical grandes sambas, mas que acabaram sendo esquecidos. Os arranjos, embora bem trabalhados, são simples e não trazem o peso industrial e a artificialidade que os estúdios muitas vezes acabam acrescentando a um trabalho (infelizmente ou felizmente para alguns que se apoiam nessa artificialidade).

de quem faz samba, vive que foi censurada no Rio na do grupo e de suas músicas. dele e para ele, um grito que década de 50), Frejat (cantando Lugar comum nos três trabalecoa por todo o CD dizendo: “Já Fui Uma Brasa”, de Adoniran hos do Casuarina é a sensação “O samba que hoje canto/ É Barbosa), Wilson Moreira (com que você tem de estar no íntimo e tem razão de ser/ As “Senhora Liberdade”) e o grupo meio de uma roda de sampalavras não são sem querer”. Moinho, composto por Emanu- ba, regada a cerveja e boa Mas não só de samba vive o malandro, o disco também abre espaço para canções

que falam sobre amores, malsucedidos, mas ainda sim amores (afinal, quem

quer ver final feliz que vá assistir novela, não é?). Na faixa “É, João” de João Cavalcanti, temos o poeta que se rende ao samba e suplica para que ele consiga refletir na música o que a alma e o coração querem dizer. Ao ouvir Certidão encontramos o mesmo cuidado com os arranjos presente no primeiro CD do grupo, que consegue fazer um trabalho praticamente autoral, de qualidade. Em Certidão, encontramos o poeta,

João Cavalcanti explica: “O início diz muito a respeito do que a gente é hoje, uma banda forjada na noite, tocando. Em nenhum momento a gente teve uma grande estrutura de gravadora investindo dinheiro. É uma banda de show que conquistou seu es-

o boêmio, o sambista, o malandro, todos eles

cantando a uma só voz: “Hoje a poesia é meu refúgio”. No último CD (também em DVD e Blu-Ray) do grupo, MTV Apresenta: Casuarina (Sony Music), gravado ao vivo em 2009 na Fundição Progresso, é registrado o que o grupo vinha fazendo há 3 anos no mesmo local: uma roda de samba com convidados ilustres. O grupo recebeu no palco da Fundição o cantor Moska (cantando “Cabelos Brancos”), Roberto Silva

(“Vaso Ruim”, “Certidão” e “Arco-Íris”). Ao juntar grandes sambas já consagrados por mitos da nossa música com sambas autorais, fica difícil compor uma unidade, um ponto comum a todas as músicas. E foi isso que o grupo conseguiu nesse trabalho, suas músicas não deixaram a desejar em meio a sambas que já tinham uma história, um espaço, o

paço, a gente fez o caminho que achou o mais legítimo”. Ouvindo o grupo sentimos uma nostalgia enorme até daquilo que não vivemos. Toda boa música tem esse poder de transportar-nos para um determinado lugar, em um determinado contexto, fazendo parte de uma história e experimentando sentimentos guardados que nunca deixa-


mos aflorar ou que nunca nem pensamos podê-los sentir. Não sei se consegui convencêlo, meu caro leitor, mas espero que meu poder de persuasão seja bom o suficiente para isso. Termino então, contando-lhe do que tenho saudade quando ouço uma música do Casuarina (ou alguma interpretada por eles). Tenho saudade de um dia ter estado na Lapa, em uma roda de samba, com bons amigos, boa cerveja e boa comida. Tenho saudade da época em que o samba tinha um espaço grande na música brasileira, da época em que ele tocava nas rádios e vivia no coração do povo. Tenho uma saudade imensa da boêmia e de pedir a alguém: “Me dá um violão, um Dó/ Uma calçada para eu ficar parado/ Ouvindo o som do violão e um Dó/ [...] Me dá aquela velha maravilha de cidade/Mas não me dê muita saudade”. Por Nalu Baptista

www.casuarina.com.br

Quando o Canto é Reza Roberta Sá & Trio Madeira Brasil Universal Music

P

remiado como o melhor albúm de MPB no Prêmio da Música Brasileira e fruto de 3 anos de pesquisa e criação, “Quando o Canto é Reza” traz a suavidade e talento de Roberta Sá com o equilibrio e malemolência do trio Madeira Brasil. Juntos eles interpretam 13 canções do compositor baino Roque Ferreira, que tem mais de

400 músicas gravadas por grandes nomes do samba. O álbum é coberto por uma áura afro, equilibra maravilhosamente ritmos genuinamente brasileiros, desde o afoxé e samba de roda, com um delicioso tom de novidade desproposital e despretenciosa que se desenrola a cada faixa. Mais que recomendado!!


popular de Dave King. A faixatítulo explode com um andamento intenso de pura adrenalina e paixão. O mesmo pode ser dito de “The Power’s Out”, “Oliver Boy” e “Don’t Shut ‘Em Down”, enquanto “So Sail On” e “The Cradle of Humankind” atinge direto o coração com suas melodias maravilhosas e mensagens ásperas. As origens da banda aparecem mais fortes em “The Heart of the Sea”,

“Present State of Grace” e “A Prayer For Me In Silence”, um dueto com a flautista e violinista Bridget Regan, que é nativa de Detroit e esposa de Dave King. Speed

of Darkness foi produzido por Ryan Hewitt (Red Hot Chili Peppers, The Avett Brothers).

Speed of Darkness, o novo ál-

bum da famosa banda de celtic punk Flogging Molly, foi lançado dia 31 de maio pela nova gravadora da banda Borstal Beat Records. Este será o quinto álbum de estúdio da banda, e talvez, o mais importante. De acordo com o vocalista Dave King, “Não foi o álbum que

nos juntamos para compor. Foi o álbum que nós tínhamos que compor.”

Speed of Darkness foi escrito em Detroit, EUA e tem uma visão realística sobre o colapso econômico ocorrido nos EUA: as causas e o efeito direto que ele tem tido sobre as pessoas todos os dias. A cidade serve

de exemplo para o álbum como um dos maiores exemplos do que deu errado. Enquanto Speed of Darkness ataca mui-

to a ganância e a ignorância responsáveis por onde es-

tamos agora, o álbum também deixa uma mensagem de esperança, humanidade e resistência. Ele nos lembra de como crescemos mais fortes quando demos de cara com as adversidades e como nos vinculamos e nos tornamos mais envolvidos. O trabalho possui a mistura

característica de rock, folk, punk, blues e música tradicional irlandesa com a poesia

popular de Dave King. A faixatítulo explode com um anda-

Desde o começo, como uma banda suja de pub em Los Angeles, no final dos anos 90, King, Regan, o guitarrista Dennis Casey, o baixista Nathen Maxwell, o acordeonista Matthew Hensley, o banjoísta/ bandolinista Robert Schmidt e o baterista George Schwindt vestiram seus colares azuis de caráter com orgulho e voz alta, especialmente durante suas incríveis performances ao vivo. E agora, como o país e o resto do mundo se levantam para se recuperar e se reconstruir, esse espírito de caráter nunca foi tão aparente e tão importante como em Speed of Darkness. Por Mateus Palaro


Revolucionador da Música Popular Brasileira, ele foi um dos pioneiros na inserção do soul na nossa cultura.

Co uma traje ta de “coincidê Dona Flor surgiu em 2003. Forma Cintra (voz), Adilson F Mendes (percussão e voz primeiro tour fora do país nas antes desta viagem, o R e v o l u c i o n a d o r “Chocolate! Chocolate! Eu só quero chocolate.” Ops,Dado, acho da Música Popular do percussionista, e que meu senso temporal está Brasileira, ele foi atrasado. Então, umao início frase um dos pioneiros nos contou sobre na inserção do soul atemporal para essa introdução: na nossa cultura. “a semana inteira fiquei espevos planos e muito mais. T rando pra ter ver sorrindo, pra apaixonado por te ver cantando.” Sim, música. trata-se do eterno Tim Maia. Não se precisa ser do tempo nessa em que en ele fez sucesso para conhecer suas letras incríveis e melodias sublimes, basta tocar numa festa que quando percebemos estamos cantando junto. Além disso, sempre há especiais contando sua história em programas de TV e rádio, sem contar que vivemos na era da tecnologia e a internet está aqui, literalmente, para nos ajudar, afinal, essa matéria usa de vida virtual para passar para a vida de cada um que a lê.

Bonne Chanc


Foto: Daniel Barreto

Com etória repleências”, a banda no cenário musical ada por Alessandra Franzin (violão) e Dado z), a banda partiu para seu s, na França. Algumas semao grupo nos recebeu na casa e em um papo descontraído da banda, repercussão, noTudo com o tom de quem é . o que você confere agora ntrevista.

ce e Au Revoir!!

Por Giovanny Gerlach e Nalú Baptista

Headphone: Como sabemos vocês três se conheceram na faculdade (Letras, UNESP Araraquara).Quando entraram, vocês já tinham em mente conseguir formar uma banda ou algo do tipo ou a formação aconteceu por acaso?

Alessandra: Por acaso, totalmente. A

gente se conheceu lá [na UNESP]. Ai calhou dos três estarem na mesma sala e tinha mais uma menina na primeira formação da banda, também da nossa sala. E por cantar em vários sarais, festas... Dado: A gente juntava uma galera em casa e era aberto a qualquer coisa, falava “só entra nego que tiver a fim de fazer alguma coisa, então tem que no mínimo ler uma poesia, dar cambalhota, cantar, pular...”. Então a gente começou a criar esse ambiente e lá começou... como ele tocava [Adilson], eu tocava, a Alessandra cantava, a gente começou a tocar...E a galera também começou a curtir. Headphone: As primeiras apresentações ocorreram dentro do circuito universitário?


ENTREVISTA BANDA DONA FLOR Alessandra: Foi. Depois teve

a Mostra de Arte Contemporânea e foram chamando a gente para mais coisas, para mais eventos da faculdade, festa de república... Dado: Então fomos aumentando o repertório e começou a dar certo, aí falamos “Ah, vamos montar um repertório para tocar em bar também, para ganhar uma graninha”. A partir daí, as coisas foram acontecendo. Alessandra: Uma coisa foi puxando a outra. Começamos a ensaiar mais, fazer um repertório maior, depois já veio o festival InterUnesp. Já tínhamos algumas composições, isso em 2005. Esse festival estava totalmente adormecido na faculdade, ninguém mais mandava música, ninguém mais participava...No primeiro ano a gente pegou... Adilson: ...quinto lugar. Alessandra: Fomos super despretensiosamente, assim... Dado: Fomos para bagunçar. Alessandra: É, bagunçamos até (risos)! E porque bagunçamos muito a gente podia ter pego melhor colocação (risos), mas como a gente colocou a bagunça em 1º lugar... Dado: Mas depois caímos na esbórnia e não deu certo (risos). A segunda [apresentação], a final, que era que a gente tinha que se empenhar, foi um fracasso total (risos). Mas despertamos o interesse de outras bandas em participar...

Dado: Mas depois caímos

na esbórnia e não deu certo (risos). A segunda [apresentação], a final, que era que a gente tinha que se empenhar, foi um fracasso total (risos). Mas despertamos o interesse de outras bandas em participar... Headphone: E para compor esse estilo da D. Flor, tocar MPB, já era um estilo que vocês gostavam, tocavam ou cada um se adaptou pra formar a banda?

Adilson: Então, isso aí é

outra coincidência. Dentro da MPB, que é um universo, uma coisa muito grande, a gente gostava dos mesmos artistas ...outra coisa é o nosso repertório, em oito anos não é que não evoluiu mas...manteve uma linha. Dado: ...tem coerência... Adilson: A gente preserva uma linguagem que é desde sempre no grupo, então a gostamos muito de seguir nessa linha diferente de grupos que já experimentaram outras coisas. Na verdade, o que a gente vê acontecer é quando um grupo tem uma certa projeção, ele se torna mais popular, quer agradar ao maior número de pessoas e a gente não quer desagradar a ninguém. Alessandra: Quer agradar primeiramente a gente... Dado: Porque é o prazer, entendeu? Talvez não tenhamos entrado, ou não sei se que-

remos também, mas entrado nesse universo: “ai meu Deus! Tal dia dinheiro vai entrar e vamos ganhar mais” Se falar pra gente tocar axé, vai ficar ruim..não é nem Adilson: E outra questão que eu acho que é importante falar é da limitação em termos de grupo..geralmente são 4, 5 ou mais e a gente sempre ficou nessa coisa reduzida que é a timba do dado, violão e a voz, então, parando pra pensar é quase absurdo que a gente com um violãozinho e a percussão fosse tocar em palcos grandes. Palco de clubes, em grandes festas ... era quase insanidade das pessoas que queriam que tocassemos nesses eventos porque a nossa música , até hoje, é mais intimista... E a gente acabou indo em palcos gigantes...

“Hoje em dia pra você atu dente você tem que saber ele passa a ser tudo, ele co ser o produtor, a ser o empr estar ali na parte de divulga Headphone: Vocês abordam músicas menos visitadas de artistas já consagrados, como Chico Buarque, Dorival Caymmi, Caetano Veloso, entre outros. Quando vocês formaram a banda essa escolhas vi-


eram pelas suas preferências ou vocês tiveram a idéia de por meio da banda apresentar essas músicas ao público?

Dado: Eu acho que foi natu-

ral, a gente não pensou “vamos fazer as coisas menos visitadas”. Sempre falamos que é o “lado B”, mas é o lado B principalmente para um público que não consumia MPB, porque se você pegar o nosso repertório, quem é consumidor de MPB, quem ouve MPB desde pequeno porque o pai ouvia, vai conhecer 80% das músicas, entendeu? Por quê? Porque na verdade tem poucas músicas que não foram sucessos naquele universo ou que não tocaram em um disco que fez sucesso. Alessandra: Mas gostávamos de apresentar coisas que as pessoas não estavam habitu adas a ouvir mesmo...no “fazer

uar nesse cenário indepenr de tudo. Então, o artista, omeça a ter que aprender a resário, a ser o cara que vai ação [...]” o que quisermos” acabavam indo músicas não tão famosas assim; fizemos muitas pessoas terem o 1º contato com várias músicas através do nosso repertório e isso é muito legal. Adilson: E acho que as músicas mais populares mesmo

desses artistas, do Chico, do Gil, o pessoal toca... Você entra num bar a top 10 da MPB vai estar lá, o cara vai tocar... Acho que primeiro por gosto depois por “Ah, todo mundo faz isso ai, vamos fazer isso aqui que é Chico Buarque do mesmo jeito, é Caetano do mesmo jeito”. Dado: ...É isso, Djavan, por exemplo, amamos o Djavan, mas não tocamos “Te Devoro”, a gente toca “Cerrado”, “Capim”... Eu acho que fomos um pouco até didático nessa questão e falar “ Olha, tem outras coisas pra ouvir que também são legais”

Headphone: Sobre a produção. Vocês já gravaram algum Cd?

Dado:. Agora a gente está

justamente em vias de entrar no estúdio pra gravar pelo menos umas 7 ou 8 músi-

cas próprias, para levar para França, nada super sofisticado mas o suficiente para mostrar nosso trabalho. Headphone: E o repertório autoral de vocês? Gira em torno de quantas músicas?

Dado: 15 músicas mais ou

menos

Headphone: Até que ponto a formação acadêmica influência nas composições?

Alessandra: Conseguimos

unir a parte musical com a poesia, da criação,transitar por esses dois meios... Adilson: Eu acho que o olhar que é diferente, o olhar da gente para música e para a vida também...Fazemos as composições e temos esse olhar crítico. Eu acho que estamos impregnados dessa coisa literária. É lógico que


é outro universo, mas é... Alessandra: ...mas dá para unir.

Headphone: Vocês fizeram uma apresentação no I Festival de Poesia de Goiás e no Museu de Arte Contemporânea no Parque Ibirapuera, certo? Vocês acham que essas apresentações deram maior repercussão para a banda, trouxe público novo ou não?

Dado: Na verdade, foram

duas apresentações muito diferentes, o Festival de Poesia de Goiás foi uma coincidência, na verdade a gente foi lá para o festi-

val....com o pessoal de letras e levamos os instrumentos. Só que nós tivemos a sorte, sorte entre aspas, porque “a música chama” e esse é o grande barato. Alessandra: Ela atrai, né? Dado: Então, lá tem uma pracinha que tem um coreto, um coreto até diferente, mais alto e embaixo tinha um barzinho... daí trocamos uma idéia com o dono do bar, sentamos lá em cima e começamos a fazer um som, pra curtir mesmo... começou a subir gente... subiu um casal, pegou uma cerveja, ficou tomando e nós ficamos amigos deles. O rapaz chama Claufe Rodrigues, ele tinha um programa no canal Brasil

e estava fazendo a cobertura do congresso porque ele tinha um programa sobre poesia. Ele curtiu pra caramba o som e como conhecia simplesmente todo mundo que estava ali da poesia, ficamos amigos e virou uma trupe. Os poetas, depois que faziam as palestras, iam para o bar e iamos junto, faziamos um som. Alessandra: Viramos a trilha sonora. Dado: E acabou sendo uma alegria para a gente, imagina? Alessandra: E não só isso, o Claufe estava fazendo a cobertura do evento e ele colocou a gente no programa também, com a nossa música no fundo, nos entrevistou, participamos também do vídeo que foi apresentado no programa. Quem foi, nem sabia, já saiu no canal Brasil. Adilson: O que foi mais interessante é que a gente conhecia esses poetas de ler textos, de ler críticas e de repente estar sentado no boteco com o violão e o cara dando tapinha nas costas da gente... Dado: Humanizamos todos os nossos ícones (risos). E no Ibirapuera pra gente era interessante, um público completamente novo, que não nos conhecia, que não tinha obrigação de gostar ou não gostar e em um lugar que passa todo tipo de gente. Nós fomos dois anos seguidos para Alto Paraíso


de Goiás...

Alessandra: Chapada dos

Veadeiros... Dado: A gente arrumou vários lugares para tocar e era também um público completamente novo, que não conhecia e foi muito bom, foi um sucesso também, o pessoal curtiu pra caramba, éramos pra ficar, sei lá, 15 dias ficamos quase 30. De certa forma, essa nossa viagem é o embrião da coragem. Headphone: E como surgiu a oportunidade de ir para a França fazer um tour por lá? Foi uma iniciativa de vocês? Como foi?

Alessandra: Desde que a

banda começou a se consolidar falávamos “ A gente podia se juntar e ir”, o Dado já tinha esse projeto, eu já queria também... Dado: O som da banda estava cada vez mais redondo, a gente sabe que esse tipo de música agrada lá fora. Vai ser uma experiência totalmente nova. Ano passado foi o primeira tentativa, mas várias coisas aconteceram que não permitiram que desse certo mas...“Esse ano nós vamos!!”. Alessandra: É, ninguém estava mais acreditando, faz tanto tempo que a gente fala que vai... Adilson: Todo mundo começou a se mobilizar individualmente e em conjun-

ENTREVISTA BANDA DONA FLOR to pra que isso acontecesse. Headphone: Vocês já têm um lugar para se apresentar lá?

Dado: Não, nós não temos

nada em vista. Nós estamos indo na cara e na coragem, acreditando na música. A gente não tem medo do que vai acontecer, nós vamos chegar lá e vamos conseguir tocar (risos).

“O que eu percebo é que antigamente o artista deixava de ser o centro em função de todo o business, o produtor, o empresário, eram o centro [...] hoje em dia não, o meu trabalho faz acontecer..” Headphone: E vocês têm data prevista para a volta?

Dado: Não, porque na ver-

dade quando você vai para uma turnê consolidada, você tem começo, meio e fim e mesmo assim, às vezes, acontecem alguns adendos, mas no nosso caso, a gente vai com a intenção de mostrar nossa música, então se fizermos uma apresentação na França e aparecer um espanhol e falar “Pô cara eu queria que vocês fizessem um mês lá no meu bar” – Esta-

mos indo lá “hoje”! Fazemos a malinha e vamos pra Espanha, se chegar um sheik da Arábia e falar “Ó, eu ponho meu jatinho e levo vocês lá”... Adilson: Vamos de tapete voador (risos). Dado: Na verdade, essa viagem é uma viagem sem planos, não tem projeto, o projeto é conhecer uma cultura nova... Alessandra: Estar livre para oportunidades também... Dado: Aprender novas línguas, novas culturas com a nossa música e divulgar nosso trabalho, que é o principal. Headphone: Quando vocês retornarem ao Brasil, há algum projeto já em vista?

Dado: Não, o interessante é

que essa viagem significa o fim de um momento. Alessandra: É um divisor de águas, fechou esse ciclo, foi lindo maravilhoso, lembraremos para sempre, mas estamos começando outra fase e inicia uma outra história. Dado: A gente não tem a mínima idéia... Alessandra: ...do que vai acontecer (risos). Dado: Desde consolidar a banda até o fim dela (risos), você entende? Vai depender muito do que acontecer e dos projetos individuais pós viagem. Eu acho que o desejo primeiro é que a coisa continue, porque isso de certa forma é um investimento, mas o legal é que é um in-


vestimento no conjunto, mas ajudando a divulgar e levando eles faziam acontecer, hoje é um investimento no indi- ela para lugares que não estava em dia não, o meu trabalho faz acontecer, eu mostro pra vidual também. conseguindo entrar... Dado: Só fazendo um adendo você e você gosta disso, “Ah, Headphone: Para encerrar, - todo o universo da produção vou falar para o meu amigo, gostaríamos de saber como musical, do business e de tudo que vai falar para o outro”, vocês veem a atual música mais, está se transformando então o artista passa a ser o independente no Brasil? Sa- em função da questão da glo- centro da própria arte, do que bemos que há muitas dificul- balização, do acesso à inter- ele produz. dades, ainda mais na MPB. net. Quero dizer, hoje em dia, Alessandra: Hoje em dia pra Vocês acham que o artista as grandes gravadores estão você atuar nesse cenário indeindependente consegue en- repensando, por quê? Porque pendente você tem que saber contrar seu espaço? você baixa na internet, você de tudo. Então, o artista, ele põe sua música na internet - passa a ser tudo, ele começa Alessandra: Bom, eu acho a internet está possibilitando a ter que aprender a ser o que muita coisa está acon- uma coisa interessante, que produtor, a ser o empresário, tecendo, muita coisa está é permitir que um artista, um a ser o cara que vai estar ali mudando, o acesso a esse grupo, tenha espaço, porque na parte de divulgação e isso tipo de música, apesar de antigamente você dependia é também meio exaustivo. ainda ser bem restrito, ele basicamente da mídia. Hoje Dado: É uma liberdade com está se tornando maior por em dia não, você vê surgirem amarras porque você precisa n fatores, mais pela internet fenômenos de público dentro dominar o outro lado. que facilita a existência de da internet. Adilson: Eu acho o seguinte: bandas independentes, que Alessandra: Com gravações os artistas independentes, tem facilitado a divulgação e mais ou menos... de música brasileira, é uma a produção de um trabalho Dado: Exato. Ao mesmo tem- música que tem que ter ciênindependente. Com relação po em que abre um espaço cia que tá nadando contra a a MPB acho que ainda é uma maré, fatia muito pequena, ainda “ [...] Eu acho o seguinte: os artistas independensão muito poucas as pessoas tes, de música brasileira, é uma música que tem que consomem , mas eu sou um pouco otimista, acho que que ter ciência que tá nadando contra a maré...” as coisas estão mudando, estão surgindo várias pessoas que fazem articulação de gêneros mais populares com para mostrar o trabalho, tam- porque você liga o rádio não a MPB. Então, pega o Lenine bém cria um universo de gosto é a música que você quer ouque tem uma coisa mais com comum. Eu acho que isso está vir que tá lá, liga a TV, piorou. o rock junto com MPB, você revolucionando tudo e de certa E acho que apesar de tudo, pega a Zélia Duncan, mesmo forma, provavelmente, isso vai não para de surgir artistas suAna Carolina... Agora tem a fazer com que o artista volte a per talentosos. Vira e mexe Maria Gadú também. São ser o centro desse universo. O você está folheando uma repessoas que conseguem dia- que eu percebo é que antiga- vista e “Ah, a MPB morreu”, logar mais com esse público mente o artista deixava de ser então assim, o cara quer ouvir e estão fazendo esse público o centro em função de todo Chico Buarque, quer acordar ouvir a MPB. Então, para o business, o produtor, o em- o Tom lá do caixão dele pra mim, essas pessoas estão presário, eram o centro, porque gravar música, pra tocar, mas


existem vários artistas novos e tão bons quanto esses que são referencia pra gente e apesar de nadar contra a corrente, a música que tem qualidade, a letra que tem qualidade, harmonicamente, a questão de melodia, independente de acabar o planeta, esse tipo de música vai existir, é isso que eu penso, qualquer cidade, cidadezinha do interior tem um cara com um violãozinho, tem alguém pesquisando, tem gente trabalhando com isso, só que você vê lá o Zé da Silva, você olha lá no folder do SESC e fala “Ah, eu não conheço esse cara, eu não vou no show”, com a gente, várias vezes já aconteceu de olhar e “Não conheço, vou lá ver”, na hora que a gente vai no show quase enfarta de tão bom que é o show do cara e artistas que eram pra estar na TV, artistas mesmo “Esse cara é artista,

olha que beleza, por que eu não vi antes?”. E o cara tem 20 anos, 30 anos de estrada e é um incógnito. Dado: É bom pontuar que um dos veículos mais importantes hoje no Brasil pra divulgação das artes em geral, das artes independentes, da nova arte, é o SESC. Uma vez eu fui num show instrumental do Pepeu Gomes e ele falou uma coisa que ficou marcada na minha cabeça, falou assim: “Pô, eu to aqui fazendo música instrumental, é difícil. Então eu queria dizer que graças ao SESC, a gente pode estar aqui como muitos outros, então eu queria dizer que, na verdade, o SESC é a verdadeira secretária de cultura desse país”. E é isso mesmo, porque grande parte dos grandes espetáculos experimentais dos últimos tempos que aconteceram nesse país, aconteceram porque ele patrocinou. Então, isso é muito

importante. Nós tivemos nossa oportunidade, fomos em vários outros lugares mostrar nosso trabalho. É uma entidade séria, que paga justamente o artista... Adilson: ...trata com dignidade. Dado: Acho que o SESC é a internet do passado. Porque hoje a gente tem mais um veículo, nós temos a internet, mas o SESC em matéria de trabalhar a arte independente é o maior veículo para divulgação. Por Giovanny Gerlach e Nalu Baptista

www.donaflormpb.com.br


“Chocolate! Chocolate! Eu só quero chocolate.” Ops, acho que meu senso temporal está atrasado. Então, uma frase atemporal para essa introdução: “a semana inteira fiquei esperando pra ter ver sorrindo, pra te ver cantando.” Sim, trata-se do eterno Tim Maia. Não se precisa ser do tempo em que ele fez sucesso para conhecer suas letras incríveis e melodias sublimes, basta tocar numa festa que quando percebemos estamos cantando junto. Além disso, sempre há especiais contando sua história em programas de TV e rádio, sem contar que vivemos na era da tecnologia e a internet está aqui, literalmente, para nos ajudar, afinal, essa matéria usa de vida virtual para passar para a vida de cada um que a lê.

Uma pequena história de um grande músico O carioca Sebastião Rodrigues Maia nasceu no dia 28 de setembro de 1942. Ainda em sua meninice, conheceu Jorge Ben Jor e Erasmo Carlos, ainda desconhecidos na época. Chegou a cantar com Roberto Carlos, quando, em 1957, participou do grupo The Sputniks. Tim Maia morou, em 1959, nos Estados Unidos, mas foi preso e deportado por roubo e porte de drogas. Seu primeiro LP solo, Tim Maia, já

foi um enorme sucesso, que continuou crescendo com os próximos discos. Na década de 1970, fundou sua própria gravadora, Seroma, pois tinha muitos problemas com as gravadoras. O nome da gravadora me chamou a atenção, pois lido ao inverso teremos “amores” e a imaginação de Tim Maia vai mais além, pois: Sebastião Rodrigues Maia, o que resulta no nome da gravadora. Porém, depois o nome passou a ser Vitória Régia. Em 1988, recebeu o Prêmio da Música Brasileira (Sharp) na categoria “Melhor Cantor”.

contato do cantor com o soul ocorreu na época em que viveu nos Estados Unidos. Tim, ainda criança, já surpreendia com suas melodias. Ele começou tocando bateria, mas logo passou para o violão. Seu primeiro trabalho solo foi um compacto, em 1968, seguido, em 1970, pelo primeiro LP, que ficou no topo da lista do Rio de Janeiro por 24 semanas consecutivas. Nos próximos três anos, lançou os LPs Tim Maia – volume II, Tim Maia – volume III e Tim Maia – volume IV.

Revolucionador da Música Popular Brasileira, ele foi um dos pioneiros na inserção do soul na nossa cultura. Na década de 1990, Tim começou a ter problemas de saúde pelo uso excessivo de drogas e por sua obesidade. Em 1998, Tim estava se preparando para a gravação de um programa no Teatro Municipal de Niterói quando começou a passar mal e teve que ser levado por uma ambulância. Após duas paradas cardiorrespiratórias, aos 55 anos, Tim faleceu.

A música do poeta

Tim Maia pode não ter sido o descobridor dos sete mares, mas revolucionou a Música Popular Brasileira. Ele foi um dos pioneiros na inserção do soul music na MPB, o que, pode-se dizer, deu certo. O

Nos anos de 1975 e 1976, Tim Maia entrou em contato com a doutrina Cultura Racional, o que influenciou em sua música, lançando os álbuns Tim Maia Racional – volume I e Tim Maia Racional – volume II. Porém, após discordar com a doutrina, revoltado, Tim recolheu ambos os álbuns. Voltando ao seu antigo estilo musical, lançou, em 1978, o LP Tim Maia Disco Club. Em 1983, lançou o LP Descobridor dos Sete Mares, três anos depois, lançou outro LP intitulado Tim Maia. Tim Maia havia sido regravado por vários artistas do pop nacional, então, para retribuir, lançou Tim Maia Inter-


preta Clássicos da Bossa Nova. A partir de 1993, Tim Maia começou a incluir bossa nova e músicas românticas em seu repertório de funks e souls. Nessa época, Jorge Ben Jor fez uma citação de Tim em sua canção “W/Brasil” e Tim foi convidado para regravar a música “Como uma Onda” para um comercial televisivo, fatos que impulsionaram sua carreira, passando a lançar mais de um disco por ano. A coletânea de álbuns de Tim Maia é grande. Foram lançados 32 discos em 28 anos de carreira, mais 13 discos póstumos e 3 discos ao vivo.

Revivendo o artista Muitos foram aqueles que reconheceram o grande artista que Tim Maia foi e que seu vasto trabalho ainda o permite ser. Para reviver ainda mais Tim Maia, artistas regravam e cantam suas músicas em programas de TV, eternizando-o. Seu sobrinho, Ed Motta, foi o mais influenciado. Em 2001, na terceira edição do Rock in Rio, o guitarrista do Guns N’Roses tocou uma versão da música “Sossego”.

A despedida O que Tim Maia queria era sossego e que o mundo todo se sentisse feliz e, com isso, acabou fazendo um enorme sucesso. É impossível deixar de notar toda a sua importância e influência na música brasileira. Gostaria de homenageá-lo, pois “não sei porque você se

foi, quantas saudades eu senti e de tristezas vou viver. E aquele adeus não pude dar. Você marcou na minha vida. Viveu, morreu na minha história.[...] E na parede do meu quarto ainda está o seu retrato.” Músicas citadas nessa matéria: “Canário do Reino”, “Chocolate”, “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)”, “O Descobridor dos Sete Mares”, “Sossego” e “Gostava tanto de você”.

Por Catharine Piai


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