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Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi Ciências Humanas

v. 13, n. 2 maio-agosto 2018


BOLETIM DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI. CIÊNCIAS HUMANAS (ISSN 2178-2547) IMAGEM DA CAPA Peça artesanal em balata de autoria de Oscarino Porto Braga. Foto: Luciana Carvalho (2016).

O Boletim do Museu Paraense de História Natural e Ethnographia foi criado por Emílio Goeldi e o primeiro fascículo surgiu em 1894. O atual Boletim é sucedâneo daquele. The Boletim do Museu Paraense de História Natural e Ethnographia was created by Emílio Goeldi, and the first number was issued in 1894. The present one is the successor to this publication.

EDITORA CIENTÍFICA Jimena Felipe Beltrão EDITORES ASSOCIADOS Claudia López - Museu Paraense Emílio Goeldi - Antropologia Cristiana Barreto - Museu de Arqueologia e Etnologia - Universidade de São Paulo - Arqueologia Flávia de Castro Alves - Universidade de Brasília - Linguística Hein van der Voort - Museu Paraense Emílio Goeldi - Linguística Jorge Eremites de Oliveira - Universidade Federal de Pelotas - Antropologia Lúcia Hussak van Velthem - Museu Paraense Emílio Goeldi - Antropologia Márlia Coelho Ferreira - Museu Paraense Emílio Goeldi - Etnobotânica Martijn van den Bel - Universiteit Leiden - Arqueologia Mily Crevels - Universiteit Leiden - Linguística Priscila Faulhaber Barbosa - Museu de Astronomia e Ciências Afins - Antropologia Richard Pace - Middle Tennessee State University - Antropologia CONSELHO EDITORIAL CIENTÍFICO Ângela Domingues - Instituto de Investigação Científica Tropical - Lisboa - Portugal Bruna Franchetto - Museu Nacional - Universidade Federal do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil Eduardo Brondizio - Indiana University - Bloomington - USA Eduardo Góes Neves - Museu de Arqueologia e Etnologia - Universidade de São Paulo - São Paulo - Brasil Gustavo Politis - Universidad Nacional del Centro de la Provincia de Buenos Aires - Tandil - Argentina Janet Marion Chernela - University of Maryland - Maryland - USA Klaus Zimmermann - Universidade de Bremen - Bremen - Alemanha Marcos Chor Maio - Casa de Oswaldo Cruz - FIOCRUZ - Rio de Janeiro - Brasil Maria Filomena Spatti Sândalo - Universidade Estadual de Campinas - Campinas - Brasil Michael J. Heckenberger - University of Florida - Gainesville - USA Michael Kraus - Universidade de Bonn - Bonn - Alemanha Neil Safier - The John Carter Brown Library - Providence - USA Nora C. England - University of Texas at Austin - Austin - USA Rui Sérgio S. Murrieta - Universidade de São Paulo - São Paulo - Brasil Tânia Andrade Lima - Museu Nacional - Universidade Federal do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil Walter Neves - Universidade de São Paulo - São Paulo - Brasil William Balée - Tulane University - Louisiana - USA

NÚCLEO EDITORIAL Normatização - Arlene Lopes, Rafaele Lima e Taise da Cruz Silva Revisão ortográfica - Rafaele Lima Editoração, versão eletrônica e capa deste número - Talita do Vale


Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações Museu Paraense Emílio Goeldi

Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi Ciências Humanas

ISSN 2178-2547 Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi

Cienc. Hum.

Belém

v. 13

n. 2

p. 261-469

maio-agosto 2018


ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA: Museu Paraense Emílio Goeldi Núcleo Editorial - Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi Av. Perimetral, 1901 Terra Firme – CEP 66077-830 Belém - PA - Brasil Telefone: 55-91-3075-6186 E-mail: boletim.humanas@museu-goeldi.br

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 2018. – Belém: MPEG, 2018. v. 13, n. 2., v. il. Semestral: 1984-2002 Interrompida: 2003-2004 Quadrimestral a partir do v. 1, 2005. Títulos Anteriores: Boletim Museu Paraense de História Natural e Ethnographia 1894-98; Boletim Museu Paraense de História Natural e Ethnographia (Museu Goeldi) 1902; Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de História Natural e Ethnographia 1906-1914; Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi de História Natural e Etnografia 1933; Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, série Antropologia 1949-2002; Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, série Ciências Humanas, em 2005. A partir de 2006, Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas. ISSN 2178-2547 1. Antropologia 2. Arqueologia 3. Linguística 4. Museologia 5. História 6. Economia. I. Museu Paraense Emílio Goeldi.

CDD-21ª.ed. 300 © Direitos de Cópia/Copyright 2018 por/by MCTIC/Museu Goeldi


CARTA DA EDITORA

A história da Amazônia tem as indeléveis marcas de séculos de extração de recursos naturais para fins de sobrevivência e, também, de forçosa empresa exploratória. Estudos sobre experiências na Amazônia brasileira e no Orinoco revelam semelhanças no modus operandi da extração e da destinação de recursos naturais obtidos à floresta. Dois estudos publicados nesta edição refletem sobre a organização do trabalho em torno da economia extrativa. Eles representam uma reflexão histórica e antropológica de duas atividades econômicas longevas: a extração da borracha, mesmo depois do seu apogeu entre os anos 1870 e 1920, e do cumaru do Médio Orinoco na Venezuela, cuja exploração se estendeu por quase cem anos - dos 1870 até a década de 1960. Como geradoras de matéria prima para os grandes mercados internacionais, essas atividades são referência no processo de transição ao que se convencionou chamar de mundo moderno. Em “‘Passaporte para a floresta’: a regulação do extrativismo de balata na Floresta Estadual do Paru, estado do Pará, Brasil”, Carvalho et al. (2018) estudam a extração de látex em área de conservação no município de Monte Alegre, região do Tapajós. As autoras, ambas da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), afirmam que “[. . .] até meados da primeira década dos anos 2000, os extrativistas trabalharam para um patrão-artesão que assumia o duplo papel de consumidor e de comerciante de balata, nos mesmos moldes praticados no período áureo do aviamento” (Carvalho et al., 2018, p. 286). Mais recentemente, novas formas de organização para extrair e comercializar a balata, eliminaram “[...] relações de aviamento e de patronagem praticadas por intermediários [...]” (Carvalho et al., 2018, p. 286). A nova forma de ter acesso aos bens, representou, no entanto, a submissão a um conjunto de normas desconhecidas ao que os trabalhadores consideram: “[...] ‘tirar passaporte para a floresta’ [...]” (Carvalho et al., 2018, p. 288), o que na prática, contraria usos e se mostra inadequado ao grupo. Lançando mão da etnografia, Torrealba e Scaramelli (2018), em seu “Las estaciones sarrapieras: los mapoyo y las economías extractivas del Orinoco Medio, Venezuela”, também discutem atividades extrativistas, dessa vez de sementes de cumaru, espécie aromática endêmica da região. Enquanto no Brasil, a observância da legislação impôs a necessidade de credenciamento e acesso aos recursos, na Venezuela, os mapoyo assumiram a empresa de extrair cumaru, la sarrapillera, sem perdas de ordem cultural nem a violência reportada nos ambientes de extração da borracha no final do século XIX e início do XX. Ainda sobre recursos naturais e sobrevivência, agora com foco no saber de comunidades quilombolas, Arruda et al. (2018), no artigo “Conhecimento ecológico tradicional da ictiofauna pelos Quilombolas no Alto Guaporé, Mato Grosso, Amazônia Meridional”, trazem estudo que indica consenso cultural acerca de espécies de peixes em BELTRÃO, Jimena Felipe. Carta da Editora. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 13, n. 2, p. 253-256, maio-ago. 2018. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1981.81222018000200001.


comunidade no Alto Guaporé, no Mato Grosso. A traíra (Hoplias malabaricus), o caravaçu (Astronotus ocellatus), o matrinchã (Brycon cephalus), e a pacupeva (Mylossoma aureum), entre outras, são identificadas como elementos do conhecimento tradicional, que se presta a ações de manejo participativo. Ao estudar as denominações dos peixes, elementos da dieta proteica da comunidade, os autores argumentam que saber tradicional e regras culturais são demarcadores de identidade e como tal devem ser levados em consideração. O manejo participativo garante direitos das populações e é facilitador da conservação. História de longa duração através da paisagem onde são impressos trajetos e marcas de ocupação, um exercício de caráter arqueológico revela “[...] uma crônica de oferta e de negação de riquezas, de atração e de expulsão de pessoas, de geração e de encerramento de vidas”, quem afirma é Araujo da Silva (2018, p. 348), em “Paisagens e temporalidades em Serra Leste Carajás”. Compartilhando a visão de Ingold (2000), que reconhece nos seres vivos a contribuição para a formação da paisagem física, a autora argumenta que “[...] o habitar é uma forma de constituição da paisagem [. . .] intrinsecamente relacionada com o curso de passagem do tempo” (Araujo da Silva, 2018, p. 332). Na Serra Leste no complexo de Carajás, maior província mineral do mundo, onde há quase 50 anos se explora entre outros, minério de ferro, a autora apresenta vestígios de ocupação humana desde tempos pré-Cabralinos. O conhecimento e a proteção do patrimônio arqueológico também ganham atenção pela importância de modelos preditivos para identificação de novos sítios. Aires da Fonseca (2018) explora a ferramenta em “Padrões de distribuição espacial e modelos preditivos: os sítios arqueológicos no baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas”. Para o autor, “[...] combinações de novas variáveis explicativas [...] poderão construir modelos ainda mais robustos” (Aires da Fonseca, 2018, p. 371). Com informações sobre escavações, sobre existência de terra preta arqueológica, sobre estilos cerâmicos recorrentes e até inventários botânicos, o estudo se volta para ambientes representativos da produção humana selecionados em razão das relações sociais e econômicas. Os estudos linguísticos representam a oportunidade de conhecer, mas, sobretudo, de preservar a diversidade cultural. Nesta edição, um artigo se debruça sobre as características do sujeito na língua Canela usada por cerca de três mil falantes. Outro apresenta a história fonológica do Paunaka, língua Arauak falada por menos de dez indivíduos habitantes de região próxima a Santa Cruz de la Sierra na Bolívia. Em “Sujeito dativo em Canela”, Castro Alves (2018) identifica predicados verbais e nominais compatíveis com estados mentais ou físicos. Com a análise das construções do sujeito na língua Canela, a autora contribui para o entendimento da estrutura de uma língua ainda pouco estudada. Seus argumentos se direcionam para um sujeito Canela heterogêneo em forma, porém unificado na sua posição sintática. Para Carvalho (2018, p. 407, tradução nossa): “revelar a história fonológica da língua está fundamentado em identificar um considerável número de palavras Paunaka para as quais se encontrem cognatos em outras línguas”. Ao eleger o Terena e o Mojeño para comparar e identificar semelhanças nos cognatos com Paunaka, o autor contribui para a história da família linguística ao identificar que, de 105 etimologias em Paunaka, 101 têm cognatos correspondentes em Mojeño. No tema da diversidade cultural, Arruda (2018) traz resenha sobre contribuição da linguista, historiadora e antropóloga Graciela Chamorro. Em “História Kaiowá: das origens aos desafios contemporâneos”, destaca-se o modo de trabalhar a língua Kaoiwá. De acordo com a análise, o livro se constitui em oportunidade de conhecer melhor o povo Kaiowá “[. . .] trazendo informações a partir da cultura material e imaterial – práticas religiosas, rituais, mitos, denominações, expressões, parentesco etc.” (Arruda, 2018, p. 461).


Museus e felicidade ou a felicidade dos objetos guardados em museus é o tema de “A carnavalização do museu e as peripécias de Mamãe: considerações em torno de objetos museológicos, de performances culturais e de espaço urbano”. Para Oliveira (2018, p. 439), autora do artigo, “[. . .] Apesar de receberem tratamento técnico documental e de conservação [. . .] esses objetos vivem enclausurados e longe dos olhos e do contato com a sociedade [...]”. A falta de proximidade dos museus com a sociedade é a principal preocupação da autora com o que considera uma “[. . .] total desconexão [...] com o ambiente social que os cercam e abrigam” (Oliveira, 2018, p. 439). Ao eleger um objeto emblemático – uma boneca gigante, símbolo de bloco carnavalesco de Maceió que encontra abrigo em Museu da cidade -, a autora põe à prova a função dos museus, que, em seu entender e da Museologia Social não podem ficar “[. . .] alheios ao seu entorno sociocultural, aos problemas vividos no dia a dia urbano, aos acontecimentos que afetam a vida da comunidade, às reivindicações dos diversos segmentos sociais” (Oliveira, 2018, p. 434). Justamente sobre o tema da relação museu-comunidade, uma segunda resenha publicada nesta edição, é instrumental na compreensão dos argumentos de Oliveira (2018). Britto e Santos Junior (2018) indicam a importância da obra de Hugues de Varine para o entendimento de uma vertente museal que busca andar de braços dados com as comunidades onde se inserem as casas-guardiães de cultura. Trata-se do livro “L’écomusée singulier et pluriel: un témoignage sur cinquante ans de muséologie communautaire dans le monde”. Esta edição traz ainda uma nota de pesquisa, contribuição da vizinha Argentina, que caracteriza a partir de perspectiva arqueológica depósitos líticos. Com autoria de Apolinaire (2018), a nota se dedica à identificação de locais de estoque de matéria prima para confecção de artefatos utilizados por grupos humanos na província de Entre Rios. Entre os usos do material estão “[...] el procesamiento de carcasas, la molienda de sustancias vegetales y minerales y la manufactura de alfarería” (Apolinaire et al., 2016; Bastourre; Apolinaire, 2017 apud Apolinaire, 2018, p. 451). Com esta edição, marcamos uma nova etapa, a de profissionalização, do processo editorial do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, iniciada a convite da linguista Ana Vilacy Galúcio, coordenadora de pesquisa e pós-graduação do Museu Paraense Emílio Goeldi. Assumimos a Editoria da revista em março de 2016. Nesse período de pouco mais de dois anos à frente do Boletim, o exercício tem sido de contínuo aprendizado e colaboração. E os resultados são positivos: submissão eletrônica implementada, com sucesso, a partir do uso da plataforma ScholarOne; conceitos A1 do Qualis-Periódicos para as principais disciplinas do escopo da revista - Antropologia, Arqueologia e Linguística; plano editorial pré-aprovado pelo indexador SciELO até 2021; meta de publicação contínua estabelecida para 2019, além recursos de manutenção garantidos até 2020. Com nossos agradecimentos pela confiança, desejamos sucesso à Dra. Vilacy, que retoma, em tempo integral, suas atividades de preservação de línguas indígenas na Amazônia.

REFERÊNCIAS AIRES DA FONSECA, João. Padrões de distribuição espacial e modelos preditivos: os sítios arqueológicos no baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 13, n. 2, p. 353-376, maio-ago. 2018. APOLINAIRE, Eduardo. Caracterización de los depósitos secundarios de rodados fluviales del río Uruguay inferior. Su aplicación em contextos arqueológicos de las llanuras interiores del nordeste argentino. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 13, n. 2, p. 443-457, maio-ago. 2018. APOLINAIRE, Eduardo; BASTOURRE, Laura; ANGRIZANI, Rodrigo Costa. Arqueología de las tierras altas de Entre Ríos: primeros resultados de las prospecciones en el interior del departamento Gualeguay. Intersecciones en Antropología, Olavarría, v. 17, n. 1, p. 91-107, marzo 2016.


ARAUJO DA SILVA, Tallyta Suenny. Paisagens e temporalidades em Serra Leste de Carajás. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 13, n. 2, p. 331-352, maio-ago. 2018. ARRUDA, Joari Costa de; DA SILVA, Carolina Joana; SANDER, Nilo Leal; PULIDO, María Teresa. Conhecimento ecológico tradicional da ictiofauna pelos quilombolas no Alto Guaporé, Mato Grosso, Amazônia meridional, Brasil. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 13, n. 2, p. 315-329, maio-ago. 2018. ARRUDA, Lucybeth. Da conquista à resistência Kaiowa: uma história de luta e de crença no bem viver. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 13, n. 2, p. 461-464, maio-ago. 2018. BASTOURRE, Laura; APOLINAIRE, Eduardo. Estudios arqueofaunísticos en un contexto estratigráfico de las llanuras interiores de Entre Ríos: el sitio Laguna del Negro 1 (departamento Gualeguay, Argentina). Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 12, n. 2, p. 453-417, maio-ago. 2017. BRITTO, Clovis Carvalho; SANTOS JÚNIOR, Roberto Fernandes dos. Hugues de Varine, singular e plural: memórias sobre museologias comunitárias. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 13, n. 2, p. 465-469, maio-ago. 2018. CARVALHO, Fernando O. de. The historical phonology of Paunaka (Arawakan). Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 13, n. 2, p. 405-428 maio-ago. 2018. CARVALHO, Luciana Gonçalves de; SOUZA, Brenda Rúbia Gonçalves; CUNHA, Ana Paula Araújo. ‘Passaporte para a floresta’: a regulação do extrativismo de balata na Floresta Estadual do Paru, estado do Pará, Brasil. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 13, n. 2, p. 261-291, maio-ago. 2018. CASTRO ALVES, Flávia de. Sujeito dativo em Canela. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 13, n. 2, p. 377-403, maio-ago. 2018. INGOLD, Tim. The perception of the environment: essays on livelihood, dwelling and skill. London: Routledge, 2000. OLIVEIRA, Vânia Dolores Estevam de. A carnavalização do museu e as peripécias de Mamãe: considerações em torno de objetos museológicos, de performances culturais e de espaço urbano. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 13, n. 2, p. 429-440, maio-ago. 2018. TORREALBA, Gabriel; SCARAMELLI, Franz G. Las estaciones sarrapieras: los mapoyo y las economías extractivistas del Orinoco Medio, Venezuela. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, Belém, v. 13, n. 2, p. 293-314, maio-ago. 2018.

Jimena Felipe Beltrão Editora Científica


CARTA DA EDITORA EDITOR’S NOTE ARTIGOS ARTICLES ‘Passaporte para a floresta’: a regulação do extrativismo de balata na Floresta Estadual do Paru, estado do Pará, Brasil ‘Passport to the forest’: regulations on balata extractivism in the Paru State Forest, Pará, Brazil Luciana Gonçalves de Carvalho, Brenda Rúbia Gonçalves Souza, Ana Paula Araújo Cunha................................................................. 261

Las estaciones sarrapieras: los mapoyo y las economías extractivas del Orinoco Medio, Venezuela Tonka bean stations: the mapoyo and extractive economies of the Middle Orinoco, Venezuela. Gabriel Torrealba, Franz G. Scaramelli...............................................................................................................................................293

Conhecimento ecológico tradicional da ictiofauna pelos quilombolas no Alto Guaporé, Mato Grosso, Amazônia meridional, Brasil Traditional ecological knowledge of fish fauna in quilombolas on the Alto Guaporé, Mato Grosso, Southern Amazonia, Brazil Joari Costa de Arruda, Carolina Joana da Silva, Nilo Leal Sander, María Teresa Pulido......................................................................... 315

Paisagens e temporalidades em Serra Leste de Carajás Landscapes and temporalities in Serra Leste de Carajás Tallyta Suenny Araujo da Silva............................................................................................................................................................ 331

Padrões de distribuição espacial e modelos preditivos: os sítios arqueológicos no baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas Spatial distribution patterns and predictive models: archaeological sites on the lower courses of the Nhamundá and Trombetas rivers João Aires da Fonseca.......................................................................................................................................................................353

Sujeito dativo em Canela Dative subject in Canela Flávia de Castro Alves.......................................................................................................................................................................377

The historical phonology of Paunaka (Arawakan) Fonologia histórica do Paunaka (Aruaque) Fernando O. de Carvalho..................................................................................................................................................................405


A carnavalização do museu e as peripécias de Mamãe: considerações em torno de objetos museológicos, de performances culturais e de espaço urbano Carnival at the museum and Mamãe’s adventures: reflections on museum objects, cultural performances, and urban space Vânia Dolores Estevam de Oliveira....................................................................................................................................................429

NOTA DE PESQUISA SHORT COMMUNICATION Caracterización de los depósitos secundarios de rodados fluviales del río Uruguay inferior: su aplicación en contextos arqueológicos de las llanuras interiores del nordeste argentino Characteristcs of secondary lithic deposits deposits at the lower Uruguay River: applications for archaeological contexts in the inland plains of northeastern Argentina Eduardo Apolinaire...........................................................................................................................................................................443

RESENHA BOOK REVIEW


Artigos


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 261-291, maio-ago. 2018

‘Passaporte para a floresta’: a regulação do extrativismo de balata na Floresta Estadual do Paru, estado do Pará, Brasil ‘Passport to the forest’: regulations on balata extractivism in the Paru State Forest, Pará, Brazil Luciana Gonçalves de CarvalhoI, Brenda Rúbia Gonçalves SouzaI, Ana Paula Araújo CunhaI I

Universidade Federal do Oeste do Pará. Santarém, Pará, Brasil

Resumo: Este artigo reflete sobre as formas de organização de um grupo de extrativistas em vista da implementação de um termo de uso como forma de regulamentar o extrativismo de balata (Manilkara bidentata) na Floresta Estadual (FLOTA) do Paru, no Pará. Trata-se de reflexões construídas no âmbito de projetos de pesquisa e de extensão universitária, que, por meio da observação participante, têm propiciado contatos regulares com os sujeitos envolvidos no caso. O local de estudo é o município de Monte Alegre, em cujo território a FLOTA Paru abriga sete unidades de manejo florestal, destinadas a concessões florestais, nos moldes da lei de gestão de florestas públicas. É também com base nesta lei, e no decreto que regulamenta seus dispositivos que o termo de uso foi apresentado pelo Estado aos balateiros como condição para a continuidade de seu ofício tradicional dentro da referida Unidade de Conservação. A implementação desse instrumento, contudo, depara-se com desafios e questões que sugerem a sua inadequação às características socioculturais do grupo interessado, no que se refere às relações mantidas por este grupo com o Estado. Palavras-chave: Extrativismo. Unidades de conservação. Balata. Floresta Estadual Paru. Monte Alegre. Pará. Abstract: This article reflects on the forms of organization practiced by a Brazilian extractivist group in order to implement terms of use as a way of regulating the extraction of balata (Manilkara bidentata) from the Paru State Forest (FLOTA Paru) in the State of Pará, Brazil. These reflections emerged from first-hand participation and from observations amassed during research and extension projects that permitted regular contact with the participants in this activity. The research was carried out in the municipality of Monte Alegre, where the FLOTA Paru includes seven forest management units intended for forest concessions within the scope of Brazil’s public forest management legislation. This regulation and the decree that regulates its provisions served as the base for the terms of use which were presented by the state to the balata extractors as a condition for continuation of their traditional activities within the local conservation unit mentioned above. However, the implementation of these terms of use faces challenges and issues suggesting that this mechanism is not well-suited for the social and cultural features of this local group, considering the relations between this group and the state. Keywords: Extractivism. Conservation units. Balata. Paru State Forest. Monte Alegre. State of Pará.

CARVALHO, Luciana Gonçalves de; SOUZA, Brenda Rúbia Gonçalves; CUNHA, Ana Paula Araújo. ‘Passaporte para a floresta’: a regulação do extrativismo de balata na Floresta Estadual do Paru, estado do Pará, Brasil. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 13, n. 2, p. 261-291, maio-ago. 2018. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1981.81222018000200002. Autora para correspondência: Luciana Gonçalves de Carvalho. Universidade Federal do Oeste do Pará. Av. Mendonça Furtado, 2946. Santarém, PA, Brasil. CEP 68035-110 (luciana.gdcarvalho@gmail.com). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7916-9092. Recebido em 11/12/2017 Aprovado em 05/03/2018

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‘Passaporte para a floresta’: a regulação do extrativismo de balata na Floresta Estadual do Paru, estado do Pará, Brasil

INTRODUÇÃO Este artigo reflete sobre as formas de organização adotadas por um pequeno grupo de extrativistas de balata (balateiros), com a finalidade de, como dizem, ‘tirar passaporte para a floresta’. O contexto das reflexões é o da implementação de um termo de uso, fundamentado na lei de gestão de florestas públicas (LGFP) como instrumento jurídico-administrativo que pretende regulamentar a exploração do látex da balateira (Manilkara bidentata) na Floresta Estadual (FLOTA) do Paru, no oeste do estado do Pará. Nesse sentido, o texto insere-se no vasto e atual campo de debates multidisciplinares sobre direitos socioambientais de comunidades que vivem no interior ou no entorno de áreas protegidas, no qual se destacam trabalhos de autores como Benatti (1999), Cunha e Almeida (1999), Diegues (1993), Santilli (2005, 2014) e Mendes (2009), entre outros. Mais especificamente, o objetivo aqui é compreender como seis balateiros ativos, apoiados por colegas inativos, respondem à necessidade de se adequarem às condições impostas pelo Estado para o estabelecimento de regras formais e burocráticas de acesso aos limites e aos recursos ambientais daquela Unidade de Conservação (UC). Assim, tomam-se como objeto de análise as formas de construção da sua organização a partir das interações efetivamente mantidas entre membros da Associação de Balateiros da Calha Norte (ABCN) durante a sucessão de eventos de mobilização, reunião e debate, que culminou, em 2017, na aprovação de uma proposta de termo de uso por essa entidade. Focalizando ações e representações dos balateiros a respeito do processo de regulação do acesso à FLOTA Paru, o texto recorre a relatos e diários de campo da equipe que os acompanhou naqueles eventos, procurando

visá-los a partir da perspectiva dos extrativistas. Os registros produzidos são, eminentemente, etnográficos, decorrentes da observação participante realizada no âmbito de investigações multidisciplinares e do assessoramento técnico e jurídico prestado ao grupo, desde 2012, por meio de projetos de pesquisa e de extensão1, que têm favorecido a compreensão de múltiplos aspectos dos processos vivenciados pelo grupo. Às fontes etnográficas soma-se a pesquisa de documentos gerados ao longo das discussões acerca do termo de uso (atas, editais, correspondências e outros), os quais permitem melhor compreensão do seu andamento. Esses registros, bem como as narrativas originais fixadas em suportes sonoro e escrito durante trabalho de campo, ou a posteriori, são reorganizados conforme a cronologia dos eventos nos quatro tópicos que compõem este artigo. O primeiro tópico apresenta, resumidamente, aspectos históricos da exploração de balata em Monte Alegre. O segundo contempla marcos legais e conceituais, a partir dos quais se enfocam diferentes dimensões e desafios da efetivação dos direitos socioambientais de grupos, como o dos balateiros, afetados por unidades de conservação. O terceiro contextualiza o processo de regulação do acesso e do uso da FLOTA Paru pelos balateiros em atividade, os quais, considerados extintos desde antes da criação da UC, necessitaram proceder à organização formal para demandar direitos relativos à floresta. O quarto tópico narra e comenta os eventos que culminaram na proposição do termo de uso da FLOTA Paru por parte dos balateiros, enfatizando as interações que se estabeleceram nesse processo. Por fim, os resultados da análise empreendida, ao revelarem significativas dificuldades experimentadas nas etapas de implementação do termo de uso, sugerem haver inadequações desse instrumento à realidade do grupo de

Os projetos envolvem equipe multidisciplinar, composta por pesquisadores em diferentes níveis de formação graduada e pós-graduada, principalmente nas áreas de antropologia, direito e ciências ambientais. Eles já resultaram na produção, em colaboração com os balateiros, de monografias acadêmicas, de publicações científicas, de relatórios técnicos, de histórias de vida, de exposições e de um filme etnográfico. Os membros da equipe respondem diferentemente por cada produção, de acordo com suas áreas de conhecimento e com os temas de interesse específico.

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balateiros, dentro do contexto específico das relações que ele vem mantendo com o Estado.

A EXPLORAÇÃO DE BALATA EM MONTE ALEGRE Desde o final do século XIX até a primeira metade do século XX, a exploração gomífera foi uma atividade central na economia do Pará, movimentando milhares de indivíduos da capital até as zonas interioranas do estado, além de atrair migrantes nordestinos. Embora apenas o extrativismo da seringueira (Hevea brasiliensis) seja ampla e popularmente conhecido2, no período em questão diversas espécies arbóreas foram cortadas para retirada de látex no Norte do Brasil, bem como em outros países das Américas do Sul e Central. Marcoy (2006 [1869], p. 70), por exemplo, menciona o aproveitamento do “[...] sumo viscoso [...]” da figueira (Ficus elastica) pelos Omagua, na confecção de “[...] seringas em forma de pera, tubos, sandálias, braceletes e outros objetos”. Já Simonian (2006) discorre sobre o uso da maçaranduba (Manilkara huberi), do sapotizeiro (Manilkara zapota ou Achras zapota) e da balateira (Manilkara bidentata), que, por sua vez, também foi registrado na Venezuela, nas Guianas, na Costa Rica e nas Antilhas, por Brannt (1900) e Terry (1907). De acordo com Simonian (2006), atividades econômicas envolvendo a balata eram praticadas desde os tempos pré-coloniais por grupos indígenas Arawak e Karib, que a utilizavam na produção de ornamentos. Os balatais – locais onde se concentram reboleiras3 de balateiras na floresta – eram, segundo a autora:

[...] recursos conhecidos, explorados e apropriados por indígenas de uma vasta área – da calha do rio Amazonas até a América Central. Por certo, além de seus frutos comestíveis, seu látex teria usos múltiplos e, eventualmente, a própria madeira poderia ser utilizada. Consequentemente, do ponto de vista da história econômica, a exploração e uso das sapotaceae remontam aos tempos pré-coloniais. (Simonian, 2006, p. 199-200).

Embora não determine com precisão o momento histórico no qual a exploração de balata foi deflagrada em larga escala no Pará, Simonian (2006, p. 200) informa que a comercialização desse produto “[...] teve início no século XIX, mas havia um problema de preço, pois era cotada bem abaixo do que era pago na Guiana Francesa [...]”. Tal situação mudaria entre as décadas de 1920 e 1930, como atesta uma crônica de Monte Alegre: “Em 1928 aconteceu o fato mais importante na economia de Monte Alegre, o aparecimento da ‘balata’, que veio a se tornar, no decorrer dos anos seguintes, no gênero de maior exportação no município” (Santos, J., 1980, p. 58)4. Foi efetivamente a partir dos anos 1930 que o látex da balateira se tornou um recurso cobiçado no Pará, alcançando um patamar importante na balança comercial do estado (IDESP, 1986). Em função de características como ductilidade e elasticidade, essa matéria-prima foi largamente consumida nos Estados Unidos e na Europa, especialmente [...] nas indústrias de aviões, telecomunicações e eletricidade, bem como na confecção de bolas de golfe, materiais telegráficos e odontológicos, correias de transmissão, cabos telefônicos, válvulas mecânicas e outros implementos industriais. (Carvalho, 2013a, p. 90).

No que se refere à produção científica, o extrativismo de seringa também é, até hoje, o que mais recebe atenção em diversas áreas de conhecimento (botânica, história, antropologia, ecologia, economia e outras). Sobre sua exploração econômica, ver, entre outros: Reis (1931, 1953), Tavares Bastos (1975), Oliveira Filho (1979), Santos, R. (1980) e, mais recentemente, Grandin (2010). Na literatura, diversos aspectos da economia da borracha também são retratados por autores como Lima (1970) e Ferreira de Castro (1972). 3 Agrupamento de árvores da mesma espécie, com destaque entre outras espécies na floresta. Também pode ser chamada de rebolada. 4 J. Santos conta que um cearense chamado Jacinto Lopes, em fuga de Almeirim, teria descoberto os balatais do rio Maicuru, em Monte Alegre. O cronista informa também que, “[...] na relação de gêneros exportados por Monte Alegre em 1918, se conta a borracha com 16 toneladas. Convém lembrar que Monte Alegre não possui seringais e essa exportação não significa produção do município. É possível ter sido adquirida por comerciantes de Monte Alegre para exportação [...]” (Santos, J., 1980, p. 58). 2

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Logo, para atender ao mercado externo, amplas redes de trabalhadores foram mobilizadas em Monte Alegre, Almeirim5, Alenquer e em municípios próximos para ‘sangrar’ as balateiras existentes ao longo dos rios Maicuru, Paru e Jari. Tratava-se de um universo eminentemente masculino, embora algumas mulheres tenham se dedicado à extração deste produto ou ao gerenciamento da atividade, seja por conta própria ou, ainda, junto com o marido ou companheiro (Simonian, 2006; Carvalho, 2011). Segundo Carvalho (2013b, p. 376): Não se sabe ao certo quantos homens trabalharam nos balatais do Pará, mas não é demais cogitar que seu número tenha alçado a casa do milhar: Lins (2001) menciona cerca de 500 atuando entre os anos 1940 e 1960 em Almeirim; a missionária Sally Koehn estimara 100, no Paru, em 1989 (Lopes, 1994); em Monte Alegre, desde 2005 já identificamos uma centena deles, ainda vivos, que relembram um sem número de companheiros que partiram. Em Alenquer também se encontram facilmente, e houve outros, em menor número, em Óbidos [...] e Abaetetuba [...]

Toda a cadeia produtiva da balata era agenciada por patrões locais, conectados a patrões regionais, que, por sua vez, se ligavam a patrões estrangeiros6 por meio do sistema de aviamento (Silva, M., 2016). Esse é, simultaneamente, um sistema de mobilização de mão de obra (baseado no endividamento continuado dos trabalhadores) e de circulação de moeda e de bens materiais, mas também de valores como honra, fidelidade e prestígio (Miyazaki; Ono, 1958; Wagley, 1977). De acordo com Aramburu (1994, p. 1), o aviamento praticado desde o século XIX “[...] se consolidou como sistema de comercialização e se

constituiu em senha de identidade da sociedade amazônica [durante o ciclo da borracha]”7. Os comerciantes estrangeiros forneciam aos seus intermediários – os ditos patrões regionais, sediados em Belém ou em Manaus – mercadorias que não eram produzidas na Amazônia, principalmente bens industrializados. Os patrões regionais, então, repassavam esses produtos aos patrões locais, situados nos municípios do interior, os quais, sendo donos de pequenos comércios, distribuíam as mercadorias em seus barracões e/ou por intermédio dos chamados regatões e marreteiros (McGrath, 1999). Eles as vendiam a crédito ou as trocavam por produtos nativos (como borracha, castanha, balata e muitos outros), que depois revendiam para os patrões regionais e estrangeiros a preços mais altos. Todo o sistema se erigia, portanto, na noção de crédito praticada como adiantamento de recursos entre os agentes da cadeia, em suas distintas posições. Como expõe Santos, R. (1980, p. 124, grifo do autor): Nesse sistema, as funções de exportador e importador estão ainda confundidas em cada agente. [...] O exportador de borracha é ao mesmo tempo um importador de mercadorias do seu país. A circunstância conciliava os interesses das economias capitalistas de então, de escoar mercadorias e comprar borracha. É assim que a ampliação das bases da coleta da goma é acompanhada de uma expansão do crédito às importações externas. Por seu turno, o sistema de vender mercadorias a crédito aos empresários da terra ou aos fornecedores destes (“aviadores”) vem ao encontro dos costumes e tradições locais sobre o escambo [...]

O crédito implicava relações de confiança e de fidelidade entre patrão-comerciante e trabalhador-freguês.

Segundo Lins (2001, p. 126), “A primeira exploração de balata na área da Jari [Almeirim] aconteceu no ano de 1930 [...]. Um sujeito de nome Valentim, vindo do Rio Branco, foi aviado por Chico Vieira, um gerente de filial da época. Esta exploração foi efetuada no rio Paru, onde foi encontrada a balateira em grandes quantidades”. 6 No contexto do aviamento, o termo patrão não se refere a relações de subordinação baseadas em contratos de trabalho. Na prática, os patrões são comerciantes que intermedeiam as trocas de mercadorias, dinheiro e produtos florestais. 7 Embora alguns autores tenham interpretado o sistema de aviamento e de patronagem como uma espécie de “escravidão por dívida” (Figueira, 2004; Buclet, 2008; Silva, J., 2008), Aramburu (1994, p. 10) o distingue da “[...] peonagem por dívidas [...]”, enfatizando que a dimensão moral das trocas entre patrão e aviado inclui a assistência ou a ajuda prestada pelo primeiro ao segundo em momentos de dificuldades: “Sem assistência não há patronagem propriamente dita”, sustenta o autor. 5

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Esse último, geralmente desprovido dos meios de produção e de capital (Witkoski, 2006), recorria ao primeiro para suprir necessidades de gêneros alimentícios, de roupas, de calçados, de medicamentos, de ferramentas de trabalho e até de dinheiro. Em troca, comprometia-se a saldar a dívida adquirida por meio do fornecimento de produtos nativos ao patrão, conforme as demandas do comércio internacional. Na prática, portanto, aviar significava adiantar mercadorias ou dinheiro para o trabalhador, que se tornava, assim, um aviado e, ao mesmo tempo, um endividado – moralmente comprometido com o patrão. Popularmente chamado de aviação, esse sistema imperou em inúmeras atividades produtivas na Amazônia, principalmente no longo período histórico em que a economia regional foi muito pouco monetarizada (Machado, 1999; Sampaio, 2002; Cano, 2013)8. Nelson Santiago (comunicação pessoal), antigo patrão de balateiros, esclarece:

Descontados os valores dos itens antecipadamente fornecidos, e havendo saldo, o aviado recebia, em dinheiro, a diferença. Com frequência, como atesta Machado (1999, p. 112): [...] os trabalhadores não viam nem a cor do dinheiro. Entretanto, a simples possibilidade de remuneração em dinheiro constituía uma novidade na época quando o trabalho escravo ou semi-servil ainda dominava em grande parte do Brasil [...]

De fato, até o terceiro quartel do século XX, entre grande parte da população amazônica preponderavam trocas diretas de produtos decorrentes de atividades agrícolas, extrativistas e pesqueiras. Pouco dinheiro circulava, principalmente nas zonas rurais e ribeirinhas. A oportunidade de ir para os balatais, nesse contexto, era valorizada por muitos homens como chance de ‘fazer saldo’ e ter dinheiro em espécie: Naquela época, a balata era muito valorizada. Compensava a gente trabalhar. A vantagem era que, se fizéssemos mais de uma tonelada, tínhamos saldo. O saldo era o que sobrava da quantidade que o patrão houvesse aviado, então essa sobra ou saldo era nosso. E quando chegávamos de volta do balatal, na cidade era conforto e festa. Eu era solteiro, e as mulheres, quem elas mais queriam era balateiro! Era mais quem queria dançar com a gente. Mulher não era problema. Tempo bom já passou... Quando a gente voltava, dava dois, três mil cruzeiros. Mas isso não era nada. (Antônio Barbosa, balateiro, in UFOPA, 2017, p. 25).

O que era a aviação? Aviação é aquilo que fornece. O balateiro pegava dinheiro, o abono para deixar para a família. Quando chegava lá, ele tirava todo o mantimento para passar cinco, seis, sete meses no balatal para fazer a extração.

Como em diversas outras atividades, neste tipo, o patrão-aviador fornecia aos extrativistas todos os insumos necessários à permanência e ao trabalho nos balatais. Ao fim da safra, o volume produzido era entregue ao aviador, normalmente por preços fixados por ele próprio. Conforme assinalou o balateiro Manoel Costa (in Carvalho, 2011, p. 129): O patrão fornecia a mercadoria para a gente poder viajar. Dava espora, cinturão grosso, arame, roupas leves e outras, que eram de mescla, esporas, barras de ferro. Mas era ele quem dava seu preço, assim que a gente chegava. De um valor eles cobravam quatro, cinco vezes mais para a gente. Assim: se um objeto custava 10 reais, então, para nós levarmos, eles cobravam 45 reais.

Para ‘fazer saldo’, os balateiros dispunham-se a passar entre seis e nove meses embrenhados na floresta. O trabalho concentrava-se nos meses de janeiro a junho, período correspondente ao chamado inverno amazônico, não só porque, de acordo com o conhecimento popular, ‘as árvores dão mais leite no período chuvoso’, mas também em razão de os deslocamentos para a floresta serem feitos, sobretudo, por via fluvial. Logo, dependiam

Embora tenha se desarticulado consideravelmente em fins do século XX, com medidas de reordenamento fundiário, criação de reservas extrativistas e novas relações de trabalho (Allegretti, 2008), o aviamento não foi extinto e ainda é praticado em setores extrativistas e pesqueiros na Amazônia (Alves, 2006).

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da enchente do rio Maicuru e dos seus afluentes, os igarapés que conduzem aos balatais. Como o Maicuru apresenta inúmeros pedrais e corredeiras (Figura 1), as expedições até essas áreas eram, por si só, empreitadas demoradas e arriscadas. A gente enchia a canoa com as mercadorias, e, na hora de partir, já não importava se ia fazer sol ou ia fazer chuva. A dificuldade era grande, demorávamos mais de mês para chegar ao balatal. As cachoeiras atrapalhavam muito. A única vantagem dessa viagem era que ganhávamos bem. (Neuton da Silva, balateiro, in UFOPA, 2017, p. 45).

Na floresta, os homens viviam em tapiris – acampamentos rústicos em barracas de pau, recobertas por lona – e trabalhavam cerca de doze horas por dia.

Figura 1. Balateiros atravessando corredeira no rio Maicuru. Foto: Itajacy Kishi (2010).

Saíamos do acampamento para o balatal às seis horas da manhã. Só quando chovia é que a gente não ia para o mato. Quem voltava primeiro fazia a comida. No mato, cada um ia para um lado e só se encontrava de novo às seis da tarde, no barraco. Era trabalhando das seis às 18. Lazer, era cantiga de sapo, era rabo de terçado na mão todo dia! (Luís Vasconcelos, balateiro, in UFOPA, 2017, p. 51).

As atividades exercidas no balatal envolviam, resumidamente, o corte das árvores (Figura 2), o beneficiamento (cozimento, limpeza e produção) de blocos de balata – que pesam, em média, 50 quilos cada –, o carregamento dos blocos até o rio e o transporte deles, por vias fluvial e terrestre, até a cidade de Monte Alegre9. O trabalho era muito arrebentado. Subindo serra grande, com a balata na costa. A gente tinha que carregar toda a balata... Tinha trecho com 30, 40, 60 estações. A estação era o seguinte: carregava os blocos daqui até ali, baixava tudo. Era uma estação. Dali, continuava a viagem, do mesmo modo, com quantas estações fossem até chegar na beira do rio. (Manoel de Cristo, balateiro, in Carvalho, 2011, p. 138-139, grifo nosso).

Figura 2. Delival Batista (Bojó) cortando uma balateira. Foto: Itajury Kishi (2012).

Como não é objetivo deste artigo detalhar os processos de trabalho executados pelos balateiros, sugere-se a leitura de Lins (2001) e de Carvalho (2013b) para mais informações a respeito.

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A meta de cada homem era extrair, no mínimo, uma tonelada de látex para quitar as dívidas com o patrão e, ainda, ficar com algum dinheiro em mãos. Como diz o balateiro Raimundo Santana (in UFOPA, 2017, p. 15), “Uma expedição durava seis, sete, oito meses, dependendo da distância. Cada companheiro fazia só de tonelada para frente”. Para otimizar o trabalho, organizavam-se em ‘turmas’ compostas por quatro ou cinco extrativistas. Cada qual trabalhava sozinho nas diversas etapas de extração e de beneficiamento de balata, mas os cuidados com o tapiri e com as refeições eram divididos por todos. Da mesma forma, um auxiliava o outro no dia a dia e, principalmente, em caso de doenças e de acidentes. Certo dia, eu me engatei numa pedra. E só Deus mesmo que me livrou dessa, porque os meus companheiros não sabiam onde eu estava preso. Quando consegui boiar, foi então que eles conseguiram me pegar. Eu já estava com a barriga cheia d’água e eles tiveram que me virar para poder derramar água de dentro de mim. Passei oito dias sem trabalhar tomando injeção. Os meus companheiros me trataram muito bem. Eles me carregavam até nas costas. Na mata, é duro quando não se encontra um companheiro bom. (Manoel Ferreira, balateiro, in UFOPA, 2017, p. 52).

Cada grupo tinha um ‘chefe de turma’, espécie de líder que mediava as relações internas do grupo e deste com membros externos, especialmente com os patrões. Como explicou Raimundo Braga, antigo comerciante de balata, “Quando chegava a hora de ir para o balatal, o chefe de turma reunia todos os trabalhadores da balata, dava o abono [...] e despachava-os” (in UFOPA, 2017, p. 47). Com frequência, esses ‘chefes’ assumiam as dívidas dos homens sob seu comando e a responsabilidade sobre suas ações no balatal, cabendo-lhes o papel de fazer as devidas sanções, positivas ou negativas. Os patrões não têm nada com os balateiros, têm com o chefe da turma. Então, aquela balata que ele [o chefe de turma] recebe dos balateiros é para pagar a conta dele. O chefe da turma ia ver o peso.

O dono da balata mais o chefe e o representante do patrão. O patrão ficava em terra, na casa do comércio. Quando ia ajustar a conta, o peso da balata, quem ia ajustar era o chefe da turma, não era o balateiro. Porque a conta geral das compras – espingarda, encerado, porca –, tudo ia para a conta do chefe de turma. Terminava de pesar a balata todinha, aí o representante do patrão, o que estava recebendo a balata, entregava a nota lá para o patrão. (Seu Pedro, balateiro, in UFOPA, 2017, p. 24).

Historicamente, tanto as relações internas quanto externas da ‘turma’ mobilizaram a noção de crédito, em suas dimensões material e moral, que se insinuam em todo o sistema de aviamento. Logo, as interações sociais que caracterizaram essas ‘turmas’ de balateiros, assim como as demais “[...] relações baseadas no crédito [...], podem ser vistas como uma extensão dos sentimentos que envolvem as relações de reciprocidade dentro da família” (Arensberg; Kimball, 1973, p. 87). Não por acaso, é comum que balateiros como Manoel Ferreira se refiram a companheiros de ‘turma’ como irmãos: “Não tínhamos conflitos, éramos como irmãos. Cada qual tinha o que era seu para não pegar do outro. Só se emprestava a espingarda” (in UFOPA, 2017, p. 47). A organização dos balateiros em ‘turmas’ perdurou até a década de 1970, quando as exportações deste produto declinaram vertiginosamente. A entrada de produtos sintéticos no mercado fez decair abruptamente o valor do látex vegetal, e milhares de blocos de balata ficaram armazenados nos portos de Belém, sem destino. Os agentes que movimentavam esta cadeia produtiva se dispersaram. Foram à falência patrões que não conseguiram mudar de ramo de comércio. Os balateiros, na maioria, voltaram-se para atividades de pesca, roça, construção civil, garimpo e outros trabalhos temporários. Só um pequeno grupo de extrativistas continuou a trabalhar nesse tipo de extração após o declínio das exportações desse produto, a fim de atender às demandas de sete artesãos monte-alegrenses que confeccionam miniaturas de animais e personagens representativos da Amazônia com essa matéria-prima (Figura 3).

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Figura 3. Artesanato de balata. Foto: Luciana Carvalho (2016).

Figura 4. Balateiros reunidos com artesãos para discutir preços e condições de fornecimento de balata. Foto: Luciana Carvalho (2009).

Residentes em Monte Alegre, Santarém e Belém, esses artesãos aprenderam o ofício na terra natal com um ex-balateiro e, desde a década de 1980, comercializam brinquedos e souvenirs feitos de balata dentro e fora do Pará. Para manter o próprio ofício e fornecer matéria-prima aos demais, um deles, domiciliado em Monte Alegre, assumiu o duplo papel de consumidor e de comerciante, após o fim da exploração do látex em larga escala. Atuando como artesão e como patrão, nos mesmos moldes praticados pelos antigos aviadores, embora em menor escala, esse sujeito sustentou, até a primeira década dos anos 2000, a rede de trocas que abasteceu o artesanato de balata no Pará. Contudo, a partir de 2005, iniciativas governamentais e não governamentais no setor da cultura possibilitariam o estreitamento de laços entre os balateiros até então ativos e o contingente de artesãos no estado. Dessa maneira, um novo grupo, formado tanto por balateiros quanto por artesãos, passaria a atuar em conjunto em alguns projetos10, estabelecendo negociações, com vistas a eliminar o intermediário na cadeia produtiva da balata (Figura 4). Segundo o artesão Antônio Braga, o grupo chegou ao entendimento de que “Tem que aumentar o

preço pago ao balateiro, senão esse artesanato vai acabar, se ninguém for mais tirar balata” (in UFOPA, 2017, p. 75). Desde 2010, o grupo vem experimentando um novo sistema de produção e de comercialização deste produto, baseado no contato e no contrato (informal, como é de praxe no ofício) direto entre fornecedores e consumidores, sem a intermediação do aviador. Como resultado, o preço de venda do bloco de balata subiu, aumentando a remuneração do balateiro em mais de 100%; ao mesmo tempo, o preço de compra de cada bloco baixou, diminuindo em, pelo menos, 50% a despesa do artesão. Animado com os ganhos, o grupo passou a procurar novos mercados para a balata, tendo encontrado, nos últimos anos, potenciais compradores entre empresas que produzem materiais odontológicos e chicletes. Atualmente, para atender ao tradicional mercado de artesanato e aos novos clientes, os extrativistas exploram os balatais de Monte Alegre a cada um ou dois anos, considerando as oscilações das demandas de matériaprima, as quais, no entanto, são consideradas por eles como diminutas (cerca de duas toneladas por biênio), se comparadas ao período em que a extração desse látex se

Entre eles, destacam-se: a exposição “Balata: Amazônia em miniatura”, realizada no Museu de Folclore Edison Carneiro, em 2006; o Programa de Promoção do Artesanato de Tradição Cultural (Promoart), entre 2009 e 2011; e dois projetos de apoio ao artesanato de balata patrocinados pela Caixa Econômica Federal em 2011, coordenados por organizações não governamentais.

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voltava à exportação (centenas de toneladas por ano). Por esse motivo, bem como pelas dificuldades de acesso aos balatais, este ofício não atrai muitos trabalhadores. Neste contexto, preocupações relativas à disponibilidade da matéria-prima estiveram distantes do horizonte de artesãos e de balateiros de Monte Alegre até a criação da Floresta Estadual do Paru, em 2006.

MARCOS LEGAIS E CONCEITUAIS Tendências de juridicização em diferentes planos da vida social foram notadas por Habermas (1987, p. 185) como uma “[...] síndrome da reificação que se manifesta nas sociedades capitalistas avançadas [...]”, onde as excessivas racionalização administrativa e formalização do direito operam burocraticamente em favor de um Estado regulador, que se manifesta nas mais diversas esferas de relações humanas. Tais tendências, segundo o autor, implicam uma colonização da experiência quando “[...] modos de vida tradicionais [estiverem] suficientemente desmantelados para permitir uma efetiva diferenciação das componentes estruturais da esfera de experiência (cultura, sociedade e personalidade)” (Habermas, 1987, p. 185). A desestruturação das normas e das práticas tradicionais está, pois, intimamente associada à juridicização da vida social. As relações sociedade-natureza, igualmente subordinadas ao controle burocrático do Estado regulador, também constituem objeto de processos de juridicização que, não raro, eclodem em conflitos, quer sejam judicializados ou não (Gerhardt, 2007; Pereira, 2005; Benatti, 1999; Paraíso, 2005; Lopes, 2006). Isso se aplica, particularmente, a unidades de conservação (UC) concebidas com o objetivo primordial de proteger a vida selvagem da ação humana, assumindo a dicotomia postulada entre homem e natureza (Diegues, 1993; Barretto Filho, 2002). São as UC de proteção integral – aquelas que não admitem a presença humana em seu interior – que mais radicalmente figuram em controvérsias jurídicas, principalmente quando apresentam sobreposições com terras ocupadas por povos indígenas, por quilombolas e por outras comunidades tradicionais,

como afirma Santilli (2014). Porém, as florestas públicas protegidas, como a FLOTA Paru, apesar de tolerarem a presença de comunidades em seu interior e permitirem a utilização tradicional de recursos por moradores do entorno, também figuram entre “[...] as que têm gerado mais controvérsias e dúvidas jurídicas [...]” (Santilli, 2014, p. 400). Conquanto a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (PNPCT), criada pelo decreto n. 6.040/2007 (no ano seguinte à edição da LGFP), estabeleça direitos de utilização de recursos naturais em UC por povos e comunidades tradicionais, visando à sua “[...] reprodução física, cultural e econômica; [e a] solução e/ou minimização dos conflitos gerados pela implantação de Unidades de Conservação [...]” (Brasil, 2007, art. 3º), o Estado regulador, na prática, demonstra ter pouca compreensão da realidade socioambiental tanto das áreas protegidas (Mendes, 2009) quanto de seus usuários (Silva, M., 2016). Vale rever a definição desses sujeitos de direitos (povos e comunidades tradicionais) contida no próprio decreto: [...] grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição. (Brasil, 2007, art. 3º).

Em que pese o fato de a definição legal ser “[...] suficientemente ampla para abarcar todos (ou a maior parte) os povos e comunidades tradicionais brasileiros [...]” (Santilli, 2014, p. 404), o Estado ofertaria resistências a dar esse enquadramento aos balateiros. Se eles faziam jus aos direitos pretendidos por serem “[...] pessoas que retiram das florestas e dos recursos naturais que compõem a sua subsistência no todo ou em parte [...]” (Granziera, 2009, p. 395), por outro lado, o caráter de comunidade lhes seria questionado. Com efeito, faltavam-lhes características classicamente atribuídas às comunidades, fossem a solidez de relações de parentesco, de vizinhança e de

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compadrio, a partilha de um território ou uma afinidade espiritual (Tönnies, 2001 [1887]). Ao contrário, em função das técnicas pertinentes ao ofício de extração da balata e de práticas costumeiras que remontam ao sistema de aviamento, a forma de organização mais comum dos balateiros sempre foi a ‘turma’, até o momento em que irrompeu a obrigatoriedade de regulação do acesso aos balatais, trazendo à cena a necessidade de uma associação. A respeito da forma tradicional de organização, como já demonstrou Carvalho (2013a, p. 96), enquanto “[...] menor unidade da vida social no balatal [...]”, a ‘turma’ é efêmera e não sobrevive para além desse espaço. Ao fim de cada temporada de extração, os balateiros dispersam-se para tratar de assuntos diversos e, raramente, mantêm contato uns com outros. Nesse sentido, podem ser considerados como ‘quase grupos’, que se unem temporariamente em função de interesses e condutas comuns, mas carecem de uniformidade e de estabilidade em suas interações (Mayer, 2010 [1966]). De fato, fora do balatal, cada extrativista volta-se para atividades particulares, que não envolvem os demais trabalhadores. Seu modo de vida é característico do campesinato amazônico, multifuncional e polivalente, cujos “[...] meios de produção fundamentais são a terra, a floresta e a água [...]” (Witkoski, 2006, p. 148). Nesse contexto, combinado e alternado com a prática da agricultura, da pesca, da pequena criação de animais, da mineração informal e, às vezes, com o trabalho assalariado, o extrativismo “[...] apresenta-se no interior na unidade de produção familiar como um dos componentes dos diversos subsistemas que integram o sistema de produção do camponês [no caso, balateiro]” (Witkoski, 2006, p. 229). Quer enfocados como camponeses ou como quase grupos, os balateiros seriam inseridos “[...] no campo burocrático-administrativo estatal via UC [...]” (Silva; Simonian, 2015, p. 170) e, nessa condição, teriam que adequar suas práticas a novos marcos legais, performatizando e reivindicando, antes de tudo, seu reconhecimento como grupo e, em seguida, como associação.

Os conceitos de grupo e de associação, fundamentais nas ciências sociais, têm sido definidos diferentemente por diversos autores. Por exemplo, uma associação é, segundo Weber (2015 [1922], p. 30), “[...] uma relação social fechada para fora ou cujo regulamento limita a participação quando a observação de sua ordem está garantida pelo comportamento de determinadas pessoas [...]”, entre as quais um quadro administrativo dotado do poder de representação. Para Mayer (2010 [1966], p. 139), a perspectiva mais abrangente sobre grupos e associações “[...] considera que são constituídos por um número determinado de membros que mantêm alguma forma de interação esperada entre si – quando não em termos de direitos e obrigações”. Não cabe aqui aprofundar as vastas discussões socioantropólogicas sobre os referidos conceitos, os quais são aqui usados no sentido que assumem no senso comum. Entretanto, são de interesse teórico destas reflexões as estratégias acionadas pelos balateiros para, da mesma forma que outras comunidades tradicionais afetadas por unidades de conservação no Brasil, não serem dominados pela burocracia do Estado, como argumentam Silva e Simonian (2015). Nesse sentido, é necessário analisar como eles puderam “[...] proceder a uma conduta balizada em marcos legais, o que exige conhecimento, habilidade argumentativa e edificação de uma cultura organizativa” (Silva; Simonian, 2015, p. 164), para, entre outras providências, lidar com diversas normas e agentes em um campo jurídico que afeta diretamente a vida cotidiana. No caso em tela, os balateiros foram envolvidos em movimentos de juridicização que se objetificaram em um Inquérito Civil Público (ICP) instaurado pelo Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), em 2014, com o objetivo expresso de “[...] mediar o conflito pelo uso do território e dos recursos ambientais, visando a garantir a atividade tradicional de extração da balata para artesanato como incremento de renda e reprodução da tradição e cultura local [...]” (Pará, 2014, p. 3). Esse ICP envolveu, além dos balateiros, entes de governo responsáveis pela gestão da

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FLOTA Paru: a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA) e o Instituto de Desenvolvimento Florestal (Ideflor). O MPPA foi provocado a atuar nesse caso a partir de depoimentos de balateiros, interpretados como indícios da necessidade de garantia e de proteção de direitos difusos e coletivos ao meio ambiente (Silva, M., 2016). Nesse sentido, o MPPA buscou, por meio do ICP, conduzir, na condição de mediador, um processo distinto da judicialização do conflito entre balateiros e Estado, promovendo uma série de reuniões, que, pautadas no debate de normas jurídicas, visaram à negociação e à pactuação da efetivação de direitos previstos na legislação vigente. Assim, embora a atenção no processo se volte frequentemente para os marcos legais, observa-se que, nesse campo de mediação [...] as relações sociais sofrem muito mais uma juridicização (conflitos que não são levados ao Judiciário, mas que são discutidos sob o ponto de vista jurídico, principalmente em momentos pré-processuais pelo MP) do que uma judicialização (conflitos que são levados ao Judiciário na forma de ação civil pública ou algum outro instrumento processual). Na medida em que há diversas instituições jurídicas (MP, Defensoria Pública etc.) que não se utilizam necessariamente do Judiciário para realizar suas ações, observa-se um contexto em que os conflitos são discutidos sob o prisma do direito, mas evita-se levar o conflito ao Judiciário – isto é, evita-se a judicialização do conflito. (Asensi, 2010, p. 48, grifos do autor).

Especificamente sobre o instrumento adotado para balizar a organização do grupo para exercício do direito que lhes cabe – o termo de uso –, existem poucos relatos de experiências e conhecimentos sistematizados, embora instrumentos similares, como o termo de autorização de uso sustentável (TAUS) e o termo de compromisso (TC), sejam objeto de análise de autores como Gonçalves et al. (2016) e Santilli (2014). Por um lado, erros técnicos, limitações tecnológicas e falhas humanas são apontados nas atividades desenvolvidas para emissão de TAUS no projeto “Nossa Várzea”, no Pará (Gonçalves et al., 2016). Por outro, conquistas são assinaladas no estabelecimento de TC entre órgãos ambientais e comunidades tradicionais usuárias da

Estação Ecológica (ESEC) Serra Geral do Tocantins, da Reserva Biológica (REBIO) do Lago Piratuba, da REBIO do Rio Trombetas e do Parque Nacional Cabo Orange (PNCO), todas UC localizadas na região amazônica (Santilli, 2014). Além dos aspectos conceituais, legais e práticos desses instrumentos, dimensões mais abrangentes da participação na governança ambiental (Bursztyn, Maria; Bursztyn, Marcel, 2012) e na gestão ambiental e territorial (Barretto Filho, 2014) também têm sido discutidas. Silva, A. (2011), por sua vez, questiona quanto às efetivas condições de exercício da cidadania que podem ser asseguradas por instrumentos de participação em áreas protegidas, sobretudo quando há choques entre direitos e o papel regulador do Estado se superpõe aos processos sociais. Embora não possa responder essa e outras questões, este artigo pretende contribuir para as discussões em curso sobre formas de gestão de unidades de conservação que são usadas, ocupadas, compartilhadas e vivenciadas por grupos locais e comunidades tradicionais. Trata-se, enfim, do registro da experiência de um grupo.

A REGULAÇÃO DO ACESSO À FLORESTA A FLOTA Paru, por força do decreto estadual n. 2.608/2006, abrangeu o entorno do rio Maicuru, em Monte Alegre, e porções dos municípios de Almeirim, Alenquer, Óbidos e Prainha, que perfazem uma área de 3,6 milhões de hectares, onde predomina floresta ombrófila densa preservada (Pará, 2010). Integrando um corredor de áreas protegidas na chamada Calha Norte, essa FLOTA é uma das maiores unidades de conservação de uso sustentável na região, como se pode observar na Figura 5. Muito embora a FLOTA Paru admita a permanência, em seu interior, de comunidades tradicionais existentes quando de sua criação, assim como a exploração econômica de recursos naturais por usuários residentes no seu entorno, novas regras de acesso à área e a seus recursos passariam a vigorar a partir de 2006, dentro de um regime de manejo sustentável e de fiscalização estatal. Ademais, pouco tempo após a criação da UC, as comunidades

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usuárias (balateiros, castanheiros e outros extrativistas) também passariam a disputar a floresta com madeireiras autorizadas a operar na FLOTA por meio do instituto das concessões florestais, previsto na lei n. 11.284/2006 (LGFP). Afinal, com esse instituto, o Estado confere autorização ao concessionário (que pode ser uma empresa ou uma organização de base comunitária, a exemplo de uma cooperativa), a título oneroso, para exploração sustentável de produtos madeireiros e não madeireiros dentro da UC. Entre 2008 e 2009, os artesãos residentes na capital foram os primeiros a procurar esclarecimentos sobre possíveis interferências das concessões florestais no extrativismo de balata junto à Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA), após serem questionados quanto à origem da matéria-prima do seu artesanato em

uma ação de fiscalização da feira dominical, realizada na Praça da República, no centro de Belém. Sem sucesso na interlocução com o órgão estadual, estabeleceram contato com membros dos conselhos gestor e consultivo da FLOTA Paru, particularmente com representantes da Associação Hortoflorestal de Monte Alegre, que, nesses fóruns, já vinham indagando sobre o futuro do extrativismo de balata na UC, ao que, em regra, os conselheiros do Estado respondiam tratar-se de uma atividade extinta. Até então, para o próprio grupo de balateiros, a necessidade de regulação do acesso à FLOTA Paru era praticamente desconhecida. Eles não frequentavam as reuniões dos conselhos da UC, tampouco participaram das audiências públicas que precederam a criação dela. Eram, como são até hoje, pouco afeitos a reuniões e situações

Figura 5. Áreas protegidas na Calha Norte. Fonte: Plano de Manejo da FLOTA do Paru (Pará, 2010).

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formais de debate, em especial com sujeitos estranhos ao seu universo de relações. Por outro lado, devido à deficiência de medidas de sinalização e de fiscalização da UC, nunca haviam experimentado outras dificuldades de acesso à floresta, que não as naturais (sobretudo, as corredeiras que devem vencer a montante do rio Maicuru), às quais estão acostumados. 
Só em 2011, com a divulgação do primeiro edital de concessão florestal na FLOTA Paru, os extrativistas atentaram para possíveis impactos da licitação de Unidades de Manejo Florestal (UMF) em sua atividade. Com efeito, a perspectiva de avanço das concessões11 e da consequente perda de acesso aos balatais sobressaltou balateiros e artesãos. Ainda mal informados das regras de uso da FLOTA, solicitaram explicações da SEMA e do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-bio), ligados à gestão da UC. Não obtiveram retorno até que, em 2013, a Comissão Estadual de Florestas (COMEF) condicionou o aval para novas concessões florestais na FLOTA Paru à solução do conflito entre os balateiros e o Estado. Um dos eventos mais importantes nesse processo ocorreu em abril de 2013, reunindo, pela primeira vez, balateiros, artesãos e representantes da SEMA e do Ideflor-bio, para discutir formas de proteção das balateiras e direitos de acesso dos extrativistas aos balatais abrangidos pela FLOTA Paru. A reunião, realizada na Escola de Educação Tecnológica do

Pará (EETEPA), em Monte Alegre, como mostra a Figura 6, também teve a presença da Defensoria Pública do Estado do Pará, e resultou na pactuação em torno da proposta de inclusão da balateira na lista de espécies protegidas de corte nas áreas sob concessão florestal. As discussões se acirraram às vésperas da publicação do edital de concorrência n. 001/2013, que disponibilizou quatro UMF sobrepostas a balatais tradicionalmente explorados pelos balateiros, segundo eles próprios informam. Com base em conhecimentos empíricos, os extrativistas indicaram, em um mapa mental, a existência de balatais ao longo de quase todo o Maicuru, desde a localidade Jacaré até a cabeceira do rio (Figura 7).

Figura 6. Reunião de balateiros, artesãos e órgãos ambientais do Estado. Foto: Alexandre Rocha (2013).

Figura 7. Mapa mental dos balatais do rio Maicuru. Foto: Luciana Carvalho (2013).

Até 2017, 434.708 hectares da FLOTA Paru, abrangendo duas UMF em Almeirim e sete em Monte Alegre, foram disponibilizados em editais públicos de concessão florestal.

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Acessíveis através de seus inúmeros igarapés, as áreas identificadas pelo grupo são: na margem direita, Ratinho, Rato, Pedra Lisa, Rosamã, Pilão, Manoel Raimundo, Clemente, Berezinho, Boa Sorte, Buruti, Aramã, Mutum, Coatá, Veado, Chupé, Santo Antônio, Água Azul e Borboleta; na margem esquerda, Água Preta, Taripucu, Castanheiro, Arumã Grande, Arumãzinho, Pilão, Onorato, Areia, Berá, Ernesto, Buriti, Aramã, Marcaú, Jangada, Fexal e São João. Parte desses balatais está compreendida na faixa hachurada do mapa preliminar realizado em 2012 pelos balateiros, com apoio da Associação Hortoflorestal de Monte Alegre (Figura 8), o qual permite visualizar a sobreposição das UMF IV, V, VI e VII a áreas exploradas pelos extrativistas. A primeira batalha dos balateiros foi fazerem-se reconhecidos por agentes do Estado, que insistiam em

classificá-los como um grupo extinto. Nesse aspecto, como se não bastassem as declarações deles próprios, as fotografias de suas expedições e a venda regular de artesanato à base deste produto, foi necessária a publicação de estudos acadêmicos para atestar, perante o Estado, a contemporaneidade das atividades baseadas em saberes e práticas tradicionais do grupo, como demonstra a Figura 9. Após reconhecê-los como sujeitos, em consideração aos direitos socioambientais dos extrativistas, o Ideflorbio propôs o estabelecimento de um termo de uso, a fim de regular o acesso e a extração de balata na FLOTA Paru, com base na LGFP e na lei n. 9.985/2000, que criou o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Assim, visando à preservação do artesanato de balata (que, em 2014, seria reconhecido como

Figura 8. Mapa preliminar das áreas de balatais ao longo do rio Maicuru. Fonte: Carvalho et al. (2012).

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patrimônio cultural do Pará pela lei n. 8.073/2014), um documento intitulado “Compatibilização com a atividade de comunidade local” foi anexado ao referido edital, dispondo sobre os direitos e deveres do grupo de balateiros, então identificado como “ASSOCIAÇÃO...” (Ideflor-bio, 2013a, p. 1, grifo do autor). Pressupunha o Estado, então, que os extrativistas deveriam estar organizados em bases associativas, muito embora a Constituição Federal do Brasil de 1988 (CF-88) garanta a plena liberdade de associação (art. 5°, XVII), vede a interferência estatal no funcionamento de associações e cooperativas (art. 5°, XVIII) e determine que ninguém poderá ser compelido a associar-se ou a permanecer associado (art. 5°, XX) (Brasil, 1988). Assim mesmo, o pressuposto da organização formal para estabelecimento do termo de uso foi reiterado nas diversas ocasiões em que os extrativistas tiveram contato com funcionários do Estado, os quais frisavam a necessidade de criação de uma entidade representativa para encaminhar as providências de regulação de acesso e de uso da FLOTA. Diante da pressão, em abril de 2014, balateiros ativos e inativos, junto com dois artesãos e alguns colaboradores, realizaram, na cidade de Monte Alegre, a assembleia de fundação da Associação de Balateiros da Calha Norte (ABCN) (Figura 10), com o intuito de garantir sua representatividade junto a entes públicos e privados. Em 2015, procederam, com ajuda de organizações não governamentais, ao registro cartorial da entidade12. A partir de então, a ABCN passaria a ser responsável por representar, indicar e acompanhar os indivíduos que terão direito a extrair balata na FLOTA Paru. Foram diversos os percalços, bem como os custos simbólicos assumidos pelos balateiros em todo o processo de criação da associação, destacando-se problemas decorrentes da aplicação de um modelo formal a um grupo cuja atividade, historicamente, constituiu-se com

Figura 9. Encaminhamentos de uma reunião do Conselho da FLOTA Paru, reconhecendo a existência de estudos sobre balateiros. Foto: Luciana Carvalho (2013).

Figura 10. Assembleia de fundação da Associação de Balateiros da Calha Norte. Foto: Alexandre Rocha (2014).

base em acordos informais e relações de dependência e dívida próprias do sistema de aviamento. De forma semelhante ao que Lobão (2006) notou em relação às RESEX, o associativismo tornara-se, nesse caso, condição para reivindicar direitos de acesso e de uso da FLOTA Paru perante o Estado, sendo mais do que uma opção de organização local.

Essa e outras providências foram possibilitadas por um projeto aprovado em edital público e financiado pelo Fundo Brasil de Direitos Humanos (FBDH).

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Era um agravante, diante de todos os custos de criação da entidade, o fato de se tratar de um número muito pequeno de balateiros efetivamente aptos a explorar a UC e a se beneficiar diretamente do termo de uso. Na própria assembleia de fundação da associação circulava uma lista de 63 balateiros que apoiavam a causa, muito embora não realizassem a extração do produto. Entre eles, 57% tinham 81 anos ou mais, e 23% estavam na faixa de 71 a 80 anos, sendo que o mais novo somava 51, e o mais velho, 97 anos; 73% já eram aposentados, a maioria por idade, e menos de 15% pela função exercida como ‘soldados da borracha’13. Nesse contexto, a revisão da minuta de termo de uso pela ABCN configurou-se como um processo que, por si só, merece reflexões, em vista das questões que deslinda. Primeiro, quanto à sua operacionalização, que se realizou de forma descontínua entre 2013 e 2017, nas poucas ocasiões de debates presenciais condicionadas pela disponibilidade dos extrativistas, que exercem várias atividades sazonais em lugares pouco acessíveis. Segundo, quanto ao acentuado formalismo exigido de sujeitos que baseiam as suas interações dentro e fora dos balatais na tradicionalidade das regras de conduta e na informalidade dos acordos verbais.

A ELABORAÇÃO DO TERMO DE USO AUDIÊNCIA PÚBLICA (2013) Os primeiros debates sobre o termo de uso da FLOTA surgiram na audiência pública de apresentação do pré-edital

de licitação de UMF sobrepostas a balatais, realizada em 24 de outubro de 2013 na EETEPA, em Monte Alegre14. Na ocasião, a diretora de gestão de florestas públicas do Ideflor-bio informou a inclusão da balateira em uma lista de espécies que: [...] só poderão ser exploradas pelo concessionário mediante prévia autorização do Instituto de Desenvolvimento Florestal, por terem sido identificadas no inventário florestal amostral como espécies com potencial de uso não madeireiro e uso conflituoso, consonante as espécies identificadas ao Plano de Manejo da Floresta Estadual do Paru: (a) Aniba canelilla Mez. [preciosa]; (b) Brosimum lactescens (S.Moore) C.C.Berg [amapai]; (c) Carapa guianensis Aubl. [andiroba]; (d) Caryocar villosum (Aubl.) Pers [piquiá]; (e) Copaifera multijuga Hayne. [copaíba]; (f) Inga capitata Desv. [ingá-costela]; g) Manilkara bidentata ssp. surinamensis (Miq.) T.D. Penn [balata]. (Ideflor-bio, 2013c, anexo 3, I. 1.3.2).

O órgão esclareceu que tal medida fora tomada a partir da análise, seguida do aceite, do “Relatório técnico sobre extração e uso de balata na Floresta Estadual do Paru, Município de Monte Alegre, PA”, elaborado por pesquisadores da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e da Associação Hortoflorestal, após uma verificação in loco realizada com balateiros, em 2012. Outrossim, informou que, para o termo de uso da espécie, considerou também a Manilkara bidentata ssp. surinamensis (Miq.) T.D. Penn, “[...] vulgarmente conhecida como maparajuba, maçaranduba balata, maçarandubafolha-verde, maçaranduba da terra-firme [...]” (Ideflor-bio, 2013a, anexo 2, item 6)15. Contudo, o Ideflor-bio (2013b, não paginado) frisou que:

A categoria ‘soldados da borracha’ engloba extrativistas de seringa e de outros tipos de látex, que, entre os anos de 1943 e 1946, contribuíram para o abastecimento dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. A eles o artigo n. 54 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da CF-88 concedeu uma pensão vitalícia, que foi regulamentada pelas leis n. 7.986/1989 e n. 9.711/1998. 14 De acordo com a previsão legal, antes das licitações, o órgão gestor da floresta pública deve promover audiências públicas, com o objetivo de debater com a sociedade civil diversos aspectos da concessão, entre os quais o objeto, as unidades de manejo, os critérios do certame e as espécies a serem exploradas. 15 Esse ponto demanda atenção, na medida em que é objeto de entendimentos diferenciados por parte dos balateiros e de órgãos ambientais. Para os primeiros, a balateira não se confunde com maçarandubas nem maparajubas, e tal assimilação vem a prejudicar a sua correta identificação. Os órgãos ambientais sustentam que, para bem diferenciá-las, seria necessária a identificação botânica deste produto, medida essa que fora planejada em reunião desses órgãos com balateiros em março de 2014, mas que não chegou a ser executada. 13

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[...] a proteção da balata é uma situação exclusiva das três UMF objeto deste novo edital e que as outras UMF já licitadas não tem esta previsão pois o plano de manejo da unidade de conservação não evidenciou a ocorrência desta atividade dentro da FLOTA e nem em nenhum outro estudo [...]16

Em seguida, a gerente do Ideflor-bio apresentou uma minuta do termo, anexada ao edital, e explicou como pretendia, por meio desse instrumento, compatibilizar o extrativismo de balata com a exploração madeireira, garantindo a utilização não simultânea da floresta pelos balateiros e por concessionários. Ela [...] fez a leitura do termo de uso para execução da atividade de exploração de látex (balata) por comunidade local a ser assinado pelas partes (Ideflor, o órgão gestor da unidade e entidade representativa dos balateiros), formalizando a permissão de acesso dos balateiros às UMF para coleta do látex e discorreu como possivelmente será este acesso para minimizar os riscos de acidentes [...] (Ideflor-bio, 2013b, não paginado).

Considerando que a extração de balata ocorre no período chuvoso, quando o látex é mais farto, e que a exploração madeireira se realiza na estiagem, entendia-se não haver sobreposição das atividades. Todavia, um concessionário argumentou que, após o corte das árvores, o ambiente florestal poderia apresentar riscos aos extrativistas. Em seguida, questionou quem seria responsabilizado, caso eles viessem a sofrer acidentes na UMF. Lembrou que a empresa concessionária está sujeita à legislação no que tange aos seus empregados, mas não aos extrativistas, cuja entrada na área seria facultada sem sua fiscalização direta quanto à utilização ou não de equipamentos de proteção individual, por exemplo. Em resposta, o órgão ambiental “[...] colocou que [...] o concessionário não terá nenhuma relação trabalhista com os extratores de balata e nem será responsável pelos

mesmos [...]” (Ideflor-bio, 2013b, não paginado). Enfatizou, então, a necessidade de constituição de uma organização formal, para se responsabilizar pelos sujeitos que viessem a explorar balata nas áreas sob concessão. Por fim, “[...] colocou que não conhece quem são os balateiros e nem o número dos mesmos [...]” (Ideflor-bio, 2013b, não paginado). Em relação às condições de permanência dos balateiros nas UMF, questionou-se a previsão de autorização de exploração exclusiva da balata. Afinal, esses homens passam períodos ininterruptos de 180 dias, em média, na floresta, alimentando-se de peixes, de caças, de frutos, de sementes e de outros recursos naturais, complementando o rancho (farinha, arroz, sal, óleo, café e açúcar) que carregam consigo para os balatais. Do seu ponto de vista, portanto, a autorização de uso desses recursos era imprescindível. Todavia, em se tratando de área concedida, ao concessionário caberiam direitos de exploração do conjunto de produtos madeireiros e não madeireiros disponíveis, embora mais frequentemente apenas os primeiros sejam visados. Sobre o tema, levantou-se uma intensa discussão, alimentada por inúmeras controvérsias, entre os representantes dos órgãos ambientais do Estado (SEMA e Ideflor-bio) e alguns dos presentes na audiência pública. Após longo debate, ficou finalmente acordado que os balateiros poderiam fazer uso de recursos florestais diversificados ao longo do período de extração de balata, com o fim único de subsistência, e que uma cláusula a esse respeito deveria ser incluída na nova proposta de termo de uso, a ser apresentada pela sua entidade representativa. Ficaria proibida, porém, a exploração comercial de qualquer recurso natural existente nas áreas sob concessão, com exceção da balata. Essas e outras questões deveriam ser retomadas na revisão do termo de uso da balata na FLOTA Paru, em um processo que seria dificultado, pelo fato de que nenhum balateiro ativo estivera presente na audiência pública de

O Plano de Manejo da Unidade, de 2010, demonstrou claramente desconhecer por completo a atividade extrativa que garante a continuidade da produção de um artesanato tão emblemático do Pará, o qual chegou a ser reconhecido como patrimônio cultural do estado em 2014, após ter sido objeto de exposição nacional, em 2006, e de prêmio internacional, em 2012.

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outubro de 2013. Além de o pequeno grupo não ter uma representação instituída que pudesse receber informes e assumir as tarefas de mobilização dos interessados para participarem do evento, a data de sua realização não lhes era conveniente. Na realidade, os homens, já geograficamente dispersos, afastam-se ainda mais no período de estiagem (agosto a dezembro), quando se dedicam a atividades de roça, de festa, de pesca, de garimpo, de torneio de futebol, entre outras, como ocorre em grande parte das comunidades amazônicas.

ASSEMBLEIA (2014) A mobilização para apropriação da problemática envolvida no termo de uso, por parte dos balateiros, só viria a ocorrer no ensejo da criação da sua associação, em 2014. Na assembleia de fundação da entidade, após o repasse de informações da audiência pública feito por membros da Associação Hortoflorestal de Monte Alegre, os balateiros analisaram aspectos do edital de concessão de 2013, demonstrando relutância em aceitar os termos de regulação do seu acesso à floresta, bem como em relação a outros pontos. De imediato, os balateiros reivindicaram a retificação do Plano de Manejo da FLOTA Paru, com inclusão da menção ao extrativismo de balata no documento, a fim de que fossem oficialmente reconhecidos como usuários da UC. Também frisaram que não conhecem a “[...] balateira pelo nome científico usado nos documentos de concessão florestal e fizeram diferenças entre tipos de balateiras [...]” (Associação Hortoflorestal de Monte Alegre, 2014, não paginado). Apoiados nisso, demandaram direitos de participação nos inventários florestais feitos pelos concessionários, a fim de garantir que as árvores de seu interesse não sejam confundidas com outras, especialmente a maçaranduba, que tem madeira nobre. Com o mesmo intuito, requereram a participação de ‘fiscais balateiros’ nas etapas de corte das árvores. O grupo ainda reclamou a respeito da proibição de corte das balateiras em toda a FLOTA Paru, e não apenas nas áreas sob concessão, alegando que não há

propriamente uma área de manejo da espécie, como no caso das UMF, e reivindicando o direito de explorar todos os balatais existentes ao longo do rio Maicuru. Argumentaram os presentes à assembleia que “[...] usam balatais diferentes em cada expedição em razão do tempo de regeneração da árvore, então usam e querem a proteção de todas as balateiras existentes às margens do rio Maicuru e seus afluentes [...]” (Associação Hortoflorestal de Monte Alegre, 2014, não paginado). Sustentaram, com base em conhecimentos empíricos, que: [...] o tempo estimado para recuperação das balateiras é de 20 a 30 anos, sendo que são necessárias, em média, 4 a 12 balateiras para produzir um bloco de 50 kg, quantidades essas que podem variar para menos ou para mais dependendo da qualidade da balata extraída em cada árvore [...] (Associação Hortoflorestal de Monte Alegre, 2014, não paginado).

Especificamente no tocante ao termo de uso, manifestaram acordo quanto à compatibilização de uso de floresta com madeireiras, desde que elas assumissem compromissos de não “[...] deixarem troncos em igarapés de modo a dificultar a navegação dos extrativistas até os balatais ou espantarem da área caças que poderiam ser utilizadas na alimentação dos extrativistas durante a expedição [...]” (Associação Hortoflorestal de Monte Alegre, 2014, não paginado). Sobre esse último ponto, acrescentaram que: [...] usam recursos de subsistência como peixes, caças, frutas, castanha e outros durante as expedições para extrair balata, e que precisam ter o direito de explorá-los [...]; mas que não trazem esses recursos para cidade devido às dificuldades em transportar mais carga além dos blocos de balata, pois isto importaria em mais peso para transportar e tornaria a viagem de volta mais difícil. (Associação Hortoflorestal de Monte Alegre, 2014, não paginado).

Por fim, os balateiros discutiram sobre estes itens elencados na minuta do termo de uso: i) o conjunto de técnicas de manejo sustentado a ser empregado; ii) a quantificação do uso do recurso; e iii) a quantidade de

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pessoas envolvidas na extração de balata. Em relação ao primeiro ponto, observaram que as técnicas utilizadas fazem parte do conhecimento empírico e tradicional, e que, embora possam descrevê-las e executá-las para conferência pelos órgãos ambientais, desconhecem critérios técnicos e científicos para mensurar sua sustentabilidade. Sobre a quantidade de balata a ser explorada e de pessoas envolvidas na exploração, informaram depender de fatores diversos, como as demandas oscilantes e as esperanças de abertura de novos mercados para a matéria-prima: [...] o volume de balata extraída depende da demanda dos artesãos de balata e outros eventuais compradores; que [os balateiros] estão sendo procurados por novos artesãos e aprendizes além de empresas e entidades não governamentais interessadas em comprar balata para fabricar materiais odontológicos e chiclete; e então acreditam que o volume de extração pode aumentar nos próximos anos; que em função disso balateiros inativos podem voltar a exercer a atividade e que novos balateiros podem ser formados na profissão. (Associação Hortoflorestal de Monte Alegre, 2014, não paginado).

A assembleia foi encerrada com alguns indicativos para a revisão do termo de uso da FLOTA, mas esse assunto só seria retomado em fins de 2015, no bojo das discussões de um termo de ajustamento de conduta (TAC), recomendado pelo MPPA, a fim de regrar as relações entre Estado, concessionários e balateiros.

DISCUSSÃO DO TERMO DE AJUSTAMENTO DE CONDUTA (2015) Ao longo de 2015, como resultado do inquérito instaurado pelo MPPA, representantes dos balateiros engajaram-se em algumas reuniões para discussão de um TAC, que deveria envolver o Ideflor-bio, a Associação dos Balateiros da Calha Norte e as concessionárias vencedoras do certame de 2013. Dessas últimas, porém, apenas a RRX Mineração e Serviços Ltda tomou parte no instrumento, assinado em dezembro. A empresa requereu a transformação do TAC em um termo de compromisso de conduta, sob alegação

de que ainda não havia sequer iniciado operações na FLOTA. Aceito seu requerimento, ela comprometeu-se a preservar o estoque de balateiras na UMF VII para a atividade extrativista e a autorizar o acesso dos balateiros à unidade no período de extração, preferencialmente, pela calha do rio Maicuru e, excepcionalmente, pelo uso de ramais e estradas dentro da área da concessão florestal. Ademais, comprometeu-se a garantir a participação de um representante dos balateiros no inventário florestal a ser realizado na área, a fim de acompanhar e de se certificar da correta identificação das balateiras. Ao Ideflor-bio, o referido termo de compromisso de conduta atribui o compromisso de: [...] promover e acompanhar a exclusão da balateira (Manilkara bidentata) em toda a área da Concessão Florestal da UMF V, VI e VII, na FLOTA do Paru, a fim de preservar as espécies para a atividade extrativista, conforme Edital de Concorrência n. 01/2013. (Termo..., 2015, p. 4).

Já aos balateiros, o termo determinou a adoção de providências para formalizar o termo de uso da FLOTA, reforçando a necessidade desse último: Independente da vigência e validade deste termo de compromisso de conduta, a ASSOCIAÇÃO DOS BALATEIROS DA CALHA NORTE adotará providências para formalizar o termo de uso para extração dos produtos florestais de uso tradicional e de subsistência das comunidades tradicionais da FLOTA, nos termos do art. 17 da Lei de Gestão de Florestas Públicas (Lei 11.284/2006), no prazo de 30 dias após a assinatura do presente, consoante anexo 2 do Edital de concorrência n. 01/2013 [...] (Termo..., 2015, p. 4).

Diante das críticas feitas à minuta do termo de uso que integrava o anexo 2 do edital de concorrência n. 01/2013 (Ideflor-bio, 2013a) na assembleia de fundação da ABCN, repassadas ao MPE por colaboradores dos extrativistas na reunião de assinatura do termo de compromisso de conduta, e considerando as dificuldades apontadas pelo então vice-presidente da associação quanto às exigências formais do instrumento, acordou-se que a ABCN deveria

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apresentar uma contraproposta de redação do termo de uso. A tarefa demandaria significativo esforço de planejamento, de mobilização, de reunião e de discussão por parte dos balateiros para lidar com a formalização das práticas tradicionais do extrativismo de balata em suporte escrito, a fim de responderem à exigência dos instrumentos legais que passavam a regular o acesso e o uso da floresta. Por motivos diversos, entre doenças, falecimentos e viagens de membros da ABCN, as atividades em torno desse assunto foram suspensas em 2016 para serem retomadas no ano seguinte. Nesse ínterim, nem balateiros nem Ideflor-bio avançaram no que concerne a providências quanto ao estabelecimento do termo de uso.

PLANEJAMENTO E MOBILIZAÇÃO (MAIO DE 2017) Embora os balateiros não sejam afeitos a situações formais, o presidente da ABCN, de apelido Zeca, entendia ser indispensável promover uma reunião com a finalidade de debater a contraproposta do termo de uso da FLOTA. O evento, então, deveria propiciar um encontro de todos que vinham trabalhando nas últimas expedições de extração de balata, mas também seria aberto a balateiros inativos e a colaboradores, alguns dos quais necessariamente deveriam comparecer para apoiar os trabalhos. Como reparou Comerford (1999), em relação às reuniões de organizações de trabalhadores rurais, também se percebe que: [...] para além de sua dimensão instrumental de simples meios de tomar decisões ou discutir assuntos do interesse dos membros das organizações, as reuniões podem ser vistas também como um elemento importante na construção desse universo social, na medida em que criam um espaço de sociabilidade que contribui para a consolidação de redes de relações que atravessam a estrutura formal das organizações [...], possuem uma dimensão de construção ritualizada de símbolos coletivos e colocam em ação múltiplas concepções [...] relativas à

natureza das organizações de trabalhadores e ao papel de seus dirigentes e membros, bem como sobre a natureza da própria categoria que essas organizações se propõem representar. (Comerford, 1999, p. 46, grifo do autor).

Zeca estava animado com a perspectiva do encontro. Fazia tempo que não via os parceiros e acreditava que o momento seria uma boa oportunidade de cuidar do interesse do grupo. Com apoio de pesquisadores, e com 20 dias de antecedência, planejou o evento, considerando que deveria ocorrer ainda no inverno de 2017 (até junho), quando estaria na cidade. Isso porque, “além de ser balateiro, é garimpeiro [no verão]; no período chuvoso, retorna a Monte Alegre e trabalha como mototaxista”17, como notou uma extensionista: No dia 9 de maio de 2017 no início da tarde, nos reunimos em sua residência, onde foram debatidas muitas questões, entre elas o melhor horário, dia e local para a reunião. Os quesitos analisados foram os horários e dias que os ônibus fazem percurso das comunidades até a cidade de Monte Alegre e vice-versa. Os ônibus geralmente saem da comunidade mais distante de segunda a sexta-feira às quatro da manhã, fazendo paradas nas demais comunidades no decorrer do caminho, chegando ao início da manhã na cidade e retornando antes do meio-dia18.

Observe-se que os balateiros não constituem uma comunidade de base territorial conjunta, e que suas residências estão dispersas nas zonas urbana e rural de Monte Alegre, o que dificulta os contatos entre eles. Elas são distantes umas das outras ou são ocupadas sazonalmente, de acordo com atividades produtivas que desenvolvem fora da residência principal, por períodos mais ou menos longos. Por exemplo, como fazem durante a extração de balata ou durante o trabalho no garimpo, em expedições de cerca de seis meses cada. Para se encontrarem, devem todos se deslocar até a cidade. Ainda assim, o tempo de permanência possibilitado pelos horários dos ônibus locais (uma manhã) é muito

Diário de campo de Ana Paula Araújo Cunha, Monte Alegre, 9 maio 2017. Diário de campo de Ana Paula Araújo Cunha, Monte Alegre, 9 maio 2017.

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curto para a realização de uma reunião sobre um tema tão complexo quanto o que eles deveriam tratar: as condições do termo de uso. Visando garantir a estada do grupo na cidade até pelo menos o turno da tarde, foi estipulado o pagamento de uma ajuda de custo de setenta reais a cada um, para que pudessem repor perdas do dia de trabalho19 e custear despesas com frete ou combustível, já que perderiam a viagem do ônibus diário20. Ademais, onde não há serviço, sinal de telefonia ou de internet, como ocorre nas localidades interioranas de Monte Alegre, comunicar-se exige mandar recados e bilhetes (Figura 11) por algum conhecido que esteja em trânsito ou efetuar, por conta própria, deslocamentos até as residências ou o trabalho de quem se deseja encontrar – com alguma sorte, obtém-se resultado na primeira tentativa. Assim, para garantir pessoalmente que a convocação para a reunião sobre o termo de uso chegasse a seus pares, e contando com a vantagem de ser um mototaxista, o presidente da associação, residente no bairro urbano da Terra Amarela, partiu rumo às casas dos colegas João, Museu, Adriano e Bojó, localizadas nas comunidades Cauçu B, Balança, Nova Altamira e Nazaré (Figura 12). Aproveitando-se da tarde que ainda estava um pouco distante do fim, saímos de moto para começar a ir às casas dos membros da associação e convocá-los para a reunião. João é o membro da associação que mora na comunidade mais próxima, Cauçu B. A maior parte da estrada é asfaltada, o que facilitou bastante nossa chegada à casa dele em pouco mais de uma hora. Ao chegarmos lá, nos deparamos com a casa de porta fechada e apenas uma janela aberta. Desci da moto, e Zeca em seguida. Indo até a janela, vimos João dormindo em uma rede. Zeca o chamou, mas ele não acordou. Posteriormente, Zeca sugeriu que fôssemos até a casa do irmão dele, que era perto, em razão de estar incumbido de levar um recado de sua esposa. Ao chegarmos, alguns parentes dele estavam almoçando em uma

Figura 11. Bilhete entregue aos balateiros. Foto: Ana Paula Cunha (2017).

Figura 12. Deslocamentos efetuados para mobilização de balateiros. Mapa: Brenda Souza (2017).

mesa farta no quintal. Mesmo não interessando absolutamente às pessoas que estavam presentes, Zeca falava empolgado da reunião e das pautas a serem expostas e os convidou. Ao sairmos de lá, Zeca mostrou-me o porto que era subsequente à ponte do rio Cauçu e contou-me histórias dos balateiros antigos e suas festas. Também me mostrou belas paisagens por onde passávamos. Para não perdemos a viagem, retrocedemos alguns quilômetros de nossa

O valor médio pago a um trabalhador diarista na agricultura e na construção civil é de cinquenta reais, na localidade, segundo informação do presidente da entidade. 20 Essa e outras despesas para realização da reunião de balateiros foram custeadas por um projeto que envolve a associação, com auxílio de seu presidente. O Ideflor-bio apoiou a atividade, disponibilizando transporte para o retorno dos balateiros a suas casas. 19

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trajetória até a CANP21 e seguimos para esquerda até a comunidade Nova Altamira. A estrada não era asfaltada, encontramos dificuldades em alguns trechos que tinham que ser percorridos lentamente, para a moto não atolar. Depois de árduas subidas e descidas, chegamos na casa de Adriano. Ao lado funcionava um pequeno comércio, onde uma senhora, que descobrimos ser sua mãe, atendia. Adriano não estava em casa, estava na roça plantando banana. Perguntamos se era próximo e se teria a possibilidade de ir chamá-lo, a resposta foi positiva. Adriano aproximou-se, suado e com respiração ofegante. Nós o cumprimentamos. Zeca, de imediato, perguntou pelo Museu, um dos membros da associação, que não estava em casa na comunidade Balança, ao lado de Nova Altamira. Zeca pediu para Adriano dizer para o Museu ir atrás dele. Após o pedido, Zeca falou da reunião e quem estaria nela, também pediu para Adriano chamar os filhos do Moji, moradores da mesma comunidade, para participarem. Seguidamente, falou que estava buscando patrocínio para a próxima expedição. Expôs a ajuda de custo, a demanda de balata atual e, principalmente, a sua preocupação com a continuidade do seu trabalho a ser exercido por outros futuramente: “Pega o teu capital, depois que pegar o conhecimento, faz que nem eu, eu quero entregar para vocês, novos, que é para vocês tomarem de conta, que eu já estou coroa já, vocês já vão comandar, eu fico só aplaudindo e dando patrocínio, indo lá, mas eu ainda aguento”. Sem demora, retornamos à casa de Zeca22.

Dos convidados então contatados, apenas dois vinham atuando regularmente na extração de balata com Zeca: João e Museu. O primeiro é irmão de sua esposa; e ambos costumam trabalhar juntos. O segundo tinha ingressado no grupo em 2010 como ‘brabo’, isto é, uma espécie de aprendiz que ainda não dominava o ofício de ‘cortar balata’. João, ao contrário, já era um ‘manso’,

ou seja, tinha intimidade com a profissão. Já o terceiro convidado, Adriano, ainda não fazia parte da associação, mas vinha demonstrando muito interesse de integrá-la para aprender mais a técnica de extração de balata. De acordo com Zeca, o grupo acredita ser importante acolher novos membros ‘brabos’ nas sucessivas expedições de extração, não só porque os mais experientes estão envelhecendo, e dentro de alguns anos deverão se afastar dos balatais, mas também porque todos têm muito apego ao trabalho que exercem. Para além do aspecto econômico, ou do ‘capital’, como diz Zeca, eles veem o ofício como parte da cultura e da identidade coletiva: “A gente está tentando resgatar a cultura antiga dos nossos pais, das pessoas, para não deixar acabar, é só por isso mesmo” (José Santana, Zeca, balateiro, in UFOPA, 2017, p. 37) – ele afirma, enfatizando o valor do conhecimento do grupo. Por isso, esforça-se para convencer homens mais jovens, como Adriano ou ‘os filhos do Moji’, a juntarem-se a eles, mesmo que seja necessário ir de casa em casa, aconselhar, estimular e conversar por alguns ligeiros minutos, suficientes apenas para fazer um convite. No segundo dia de contatos para organizar a reunião, Zeca procuraria o balateiro mais velho e experiente do grupo, o Bojó, na comunidade rural de Nazaré. A estrada também foi complicada, íngreme e cheia de pedras, lama e poças de água. Se estivéssemos em um veículo de maior porte, certamente ficaríamos atolados. As estradas ficam complicadas no período chuvoso... Zeca não sabia o caminho exato, paramos várias vezes em algumas casas para perguntar. Zeca não sabia onde era a casa do Bojó.

A Colônia Agrícola Nacional do Pará (CANP) foi a segunda das oito colônias agrícolas criadas no governo Vargas com base no DecretoLei n. 3.059/1941, como parte da política nacional de integração territorial do Brasil a partir do povoamento de espaços considerados vazios (Silva, W., 2016). A criação dessas colônias, como frisa Castilho (2012, p. 119), previa “[...] desbravamento; ocupação do espaço geográfico; organização e emancipação [...] fundação de uma sede, instituições de ensino agrícola primário, instalações de indústrias de beneficiamento agrícola e cooperativas de produção para venda e consumo dos produtos”, além da construção de residências. Situada a apenas 17 km a noroeste da sede municipal e dotada de infraestrutura mais robusta que grande parte das localidades rurais de Monte Alegre, a CANP desenvolveu-se como um polo de comércio e serviços, atualmente um distrito atravessado por fluxos intensos entre a cidade, a roça e a floresta. 22 Diário de campo de Ana Paula Araújo Cunha, Monte Alegre, 9 maio 2017. 21

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Perguntamos a uma pessoa que passava na rua e, facilmente, ela nos explicou. Ao chegarmos à casa, havia um amontoado de mandioca que acabara de ser colhida, com mulheres e crianças descascando. Bojó não estava presente, mas logo chegou. Logo que ele e Zeca se viram, prontamente surgiram gargalhadas e brincadeiras recíprocas. Os únicos minutos de seriedade foram quando Zeca explicou as pautas da reunião. Ofereceram-nos assentos e café. Zeca logo pegou uma faca e começou a ajudá-los a descascar a mandioca, enquanto conversaram sobre assuntos como agricultura, mulheres e histórias antigas, sempre regadas de muito álcool23.

É notório que a convocação de reuniões da associação de balateiros está longe de ser um ato formal ou impessoal. Antes, trata-se de um convite a ser feito pessoalmente e, preferencialmente, no ato de uma visita doméstica, que pressupõe a observância de uma etiqueta social. Logo, o visitante deve estar disposto a dispender certo tempo junto ao anfitrião e a conversar com ele sobre assuntos variados, tomar café, saber da sua saúde, da família e, possivelmente, deixar sua casa com o compromisso de transmitir algum recado ou encomenda a seu pedido. Considerando, então, que não havia conseguido falar com João na véspera, Zeca tornaria a visitá-lo no dia seguinte: No dia seguinte, ainda cedo, resolvemos retornar à casa do João. Ele estava acordado dessa vez. Chegamos e sentamos um pouco. Zeca, além de expor as pautas da reunião, expressou sua preocupação quanto a ensinar aos mais jovens as técnicas de extração de balata. João levantou o assunto da aposentadoria24, e Zeca explicou que não era possível ele se aposentar como balateiro. Zeca também tocou no assunto do inventário implementado pela RRX e expressou indignação porque não foi comunicado para participar de sua produção25. Ciente que era importantíssima sua atuação no inventário... Ademais fomos embora cansados e satisfeitos pela convocação da reunião26.

Cumprido o rito de convocação da reunião, e efetuados os convites aos parceiros com quem pretendia discutir o termo de uso da FLOTA Paru, o evento planejado teria lugar em breve.

REUNIÃO E DISCUSSÃO (29 DE MAIO DE 2017) Às sete horas da segunda-feira, no dia 29 de maio, Zeca ansiava, em casa, pela presença de todos os convidados. Conforme chegavam, ele e a esposa os direcionavam à casa de um de seus filhos, que, além de ficar bem próxima à sua, é mais espaçosa e ventilada. Uma mesa com pães e café estava posta na entrada avarandada, para que todos se servissem enquanto aguardavam o início da reunião. Por conta própria, ele havia providenciado os itens da refeição matinal, pois sabia que os parceiros do interior sairiam de casa antes de raiar o sol. Contudo, os convidados hesitavam em se servir e se acomodar nas cadeiras plásticas enfileiradas, umas de frente para as outras, na varanda lateral da casa. À medida que chegavam, com sono e ressaca do fim de semana, formavam círculos na calçada à frente da casa para enrolar cigarros e fumar, enquanto pouco conversavam entre si. Seu comportamento era bem distinto daquele observado nas visitas preparatórias da reunião, quando os visitantes rapidamente eram absorvidos no espaço doméstico do anfitrião. Aparentemente, constrangiam-se diante da presença de pesquisadores e de colaboradores da associação, que, embora conhecidos, não faziam parte de seu universo próximo de relações. A função desses sujeitos no evento seria a de apoiar a discussão dos balateiros, oferecendo esclarecimentos técnicos e jurídicos sobre o termo de uso, bem como ajudando a redigir o documento, considerando-se que o grupo não domina a linguagem escrita. Com alguma insistência, Zeca trouxe todos para a varanda a fim de começar a reunião (Figura 13). Embora

Diário de campo de Ana Paula Araújo Cunha, Monte Alegre, 9 maio 2017. Pensão vitalícia dos soldados da borracha, que centenas de balateiros almejaram e almejam alcançar. 25 No termo de compromisso de conduta assinado em 2015, acordou-se que a ABCN indicaria pessoal de sua confiança para acompanhar o inventário. Entretanto, a entidade não foi informada da realização do serviço, de acordo com seu presidente. 26 Diário de campo de Ana Paula Araújo Cunha, Monte Alegre, 9 maio 2017. 23 24

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tenham reposicionado as cadeiras, afastando-as, tomaram seus assentos e voltaram a atenção para a fala inicial do presidente da associação. Ele apresentou os participantes e enfatizou as distintas origens dos balateiros e dos colaboradores presentes, tanto quanto as motivações que os aproximavam: O meu trabalho, vocês sabem como é, só é na floresta. O resto são eles [os colaboradores] no comando. Nós somos os florestais, eles são as pessoas da cidade. Eu moro aqui, mas não sou por dentro desse assunto lá fora. Só quando me chamam para procurar alguma coisa que eu conheço, isso eu posso informar, por onde devemos ir, como se deve chegar. Já para chegar mais perto do pessoal que tem dinheiro, é com eles, que têm o conhecimento e sabem por onde é que vai. (José Santana, balateiro, comunicação pessoal).

Em seguida, Zeca explicou o motivo da reunião e a necessidade da elaboração do termo de uso com estas palavras: “Outro tempo, a gente ia, chegava lá, trabalhava, sem dizer para ninguém. Hoje não está mais assim, tem que legalizar tudinho, para entrarmos legalizados, para ninguém chegar lá e dizer: não pode trabalhar aqui ou não pode fazer isso ou aquilo” (José Santana, Zeca, balateiro, in UFOPA, 2017, p. 39). A equipe de colaboradores explicou em que consiste o processo de regramento de uso da FLOTA

Figura 13. Reunião para elaboração do termo de uso. Foto: Luciana Carvalho (2017).

Paru e como ele afeta a extração de balata. Em um breve histórico, destacou a criação da UC em 2006, as primeiras concessões florestais, ocorridas em 2011, e o edital de concorrência n. 01/2013, que estipulou a implementação de um termo de uso, para compatibilizar a atividade do grupo nas UMF sobrepostas a balatais. A reação veio em um diálogo travado entre Zeca e Bojó, expressando um misto de surpresa e de indignação: Bojó: Até nós próprios, foi o tempo que podíamos entrar? Zeca: É o que ela está falando! Nós mesmos que somos os extrativistas, que vivemos na área, tem que ser legalizado, pedir autorização e tudo. Somos primatas de lá! Bojó: Tem que ter o passaporte?! Zeca: Passaporte do balateiro é uma vinte27 bem boa. Bojó: Ninguém tem passe livre?! Zeca: Estamos lutando para ver se a gente consegue o passe livre. Bojó, o que nós estamos debatendo aqui é o nosso lado, estamos defendendo o nosso lado. Eles estão pedindo uma organização para que a gente possa estar tudo legal no trabalho. Estamos defendendo nosso lado. Para eles tanto faz, como tanto fez. (Delival Batista, Bojó, e José Santana, Zeca, balateiros, in UFOPA, 2017, p. 44).

Tendo chegado ao consenso de que o melhor a fazer seria prosseguir a discussão sobre o termo de uso, reapresentou-se a minuta que compunha o anexo 2 do edital de concorrência n. 01/2013, para dar início ao debate sobre os pontos que já haviam sido criticados pelos balateiros na assembleia de fundação da ABCN. O primeiro quesito debatido pelos extrativistas foi a necessidade de inclusão de cláusula prevendo o uso de outros recursos que não a balata. Logo, foi imediatamente rejeitada a cláusula 1ª da referida minuta: “[...] o objeto exclusivo deste termo será a exploração do produto não madeireiro [...], especificamente o produto LÁTEX (balata) [...]” (Ideflor-bio, 2013a, p. 2). Na interpretação do grupo,

Espingarda de calibre 20.

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ela pretendia “proibir nós de tirarmos a alimentação da própria natureza, no caso peixe, caça. Eles não podem proibir nós de se alimentar disso aí. Não estamos destruindo, nós só tiramos para o nosso alimento” (José Santana, balateiro, comunicação pessoal). Em seu lugar, os balateiros aprovaram a seguinte redação: Durante os períodos de permanência dos extrativistas de balata na Floresta Estadual do Paru, poderão ser explorados com finalidade exclusiva de subsistência outros recursos naturais necessários à sua manutenção dentro da FLOTA do Paru, que efetivem a promoção social e econômica dos modos tradicionais de produção de balata, a salvaguarda dos conhecimentos tradicionais, da cultura e dos modos de vida dos balateiros. (ABCN, 2017, p. 1-2).

Acer ca d a s co n d i çõ es d e rea l i zaç ão das expedições exploratórias, o grupo demandou menções à sazonalidade da atividade extrativa no termo de uso. Pretendeu, assim, justificar que os períodos de permanência na floresta devem ser flexíveis, devido tanto à natureza do trabalho quanto a imprevistos que antecipem ou adiem a entrada e a saída dos balatais. “Nós não temos tempo fixo. A data de entrar é essa [janeiro], de sair também [junho], mas não temos tempo fixo” (José Santana, balateiro, comunicação pessoal) – explicaram. Porém, como deverão informar com antecedência mínima de 30 dias, ao Ideflor-bio e ao concessionário, a data de entrada na UC, incluíram na sua proposta de termo de uso uma garantia de acesso prévio à FLOTA Paru, a fim de inspecionar as condições de acesso e de produtividade dos balatais que intencionam explorar: Subcláusula 3.3 – Previamente ao início das expedições de extração de balata, será concedida aos balateiros autorização de acesso à FLOTA do Paru para a realização de expedições exploratórias com fins de identificação dos balatais e planejamento

dos acessos mais propícios à realização das expedições de extração. (ABCN, 2017, p. 3).

O ponto de discussão mais complexo referiu-se à abrangência das atividades de exploração de balata autorizadas pelo termo de uso. Como em outros momentos, os balateiros reivindicaram o direito de explorar todos os balatais existentes ao longo do rio Maicuru, sob o argumento de que são necessários 20 a 30 anos de repouso para que as árvores cortadas se regenerem e possam ser novamente exploradas: Esse espaço aí é onde as balateiras se concentram, onde são os pontos da gente trabalhar. E por que queremos essa área grande? Porque o balateiro, quando ele chega no tempo do trabalho dele, ele vai para o local explorar. Então, vamos para o Onorato esse ano, vai ser um ponto de trabalho. No outro ano que a gente for, nós não vamos mais para o Onorato, nós vamos passar para outro lugar acima de Onorato, porque lá, só com vinte anos, a gente vai tocar naquela madeira de novo28.

Com base nessa justificativa, recusaram a proposição da cláusula 2ª de que “[...] as atividades exploratórias previstas neste Termo de Uso serão executadas na UMF .............. com área total de XX hectares [...]” (Ideflor-bio, 2013a, p. 3) e a substituíram pela seguinte redação: As atividades exploratórias previstas neste Termo de Uso serão executadas nos balatais compreendidos no interior da Floresta Estadual do Paru, especialmente aqueles situados ao longo da calha do rio Maicuru, acessíveis através de seus inúmeros igarapés: na margem direita: Ratinho, Rato, Pedra Lisa, Rosamã, Pilão, Manoel Raimundo, Clemente, Berezinho, Boa Sorte, Buruti, Aramã, Mutum, Coatá, Veado, Chupé, Santo Antônio, Água Azul, Borboleta; na margem esquerda: Água Preta, Taripucu, Castanheiro, Arumã Grande, Arumãzinho, Pilão, Onorato, Areia, Berá, Ernesto, Buriti, Aramã, Marcaú, Jangada, Fexal e São João. (ABCN, 2017, p. 2).

Considerando, ainda, que a minuta do termo de uso deixou implícita a necessidade de apresentação de um

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memorial descritivo das áreas de exploração, devidamente georreferenciadas, os balateiros argumentaram que os balatais que exploram poderiam ser facilmente identificados pelo órgão florestal: Nossas balateiras são tudo demarcadas, têm 50 anos e são tudo demarcadas. Nunca some aquele sinal, onde o facão passou. Nunca some, está marcado até hoje. Só não aquelas jovens, que eram bem jovens na época e agora são formadas, [essas] não têm marca. As mais velhas todas têm. (José Santana, balateiro, comunicação pessoal).

Zeca enfatizou que, se os balatais não foram devidamente mapeados nos estudos prévios à criação da Floresta Estadual do Paru e no seu plano de manejo, então, novos estudos com essa finalidade deveriam ser empreendidos pelos órgãos ambientais responsáveis, sem ônus para os balateiros. Por fim, acentuou que os técnicos e os dirigentes dos órgãos ambientais de Estado deveriam conhecer a realidade dos grupos para quem ditam as regras: “Era bom que [xxx] fosse lá, que [xxx] ia ver como é as coisas. [Os técnicos] Se formam em floresta [ciências florestais] mas não entendem para conhecer mais do que eu” (José Santana, balateiro, comunicação pessoal). Já encerrando a etapa de debates da reunião, o presidente ajudou a providenciar o almoço para os participantes. Enquanto conversavam, após a refeição, a equipe de colaboradores finalizou a redação da proposta de termo de uso, que foi lida em voz alta, corrigida quando necessário e, finalmente, aprovada pelo grupo. Alguns dias depois, o documento foi protocolizado por portador da Associação dos Balateiros da Calha Norte na sede do Ideflor-bio, em Belém. Desde então, os balateiros se dispersaram e não mais voltaram a se reunir. Aproveitando a estiagem de verão, o presidente da associação foi trabalhar no garimpo e, há meses, não tem contato com os parceiros.

CONSIDERAÇÕES FINAIS Entre as diferentes espécies vegetais exploradas para produção gomífera, desde tempos pré-coloniais no Pará,

a balateira foi particularmente importante em Monte Alegre, ao longo do século XX. A história e a economia desse município foram intensamente marcadas pelo extrativismo de balata, que, ainda hoje, constitui uma referência cultural local. Se, entre os anos 1930 e 1970, os balatais forneciam a matéria-prima mais importante da balança comercial monte-alegrense, na atualidade, eles são a fonte de um artesanato reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Pará. Os últimos anos da década de 1970 representaram o fim de um período próspero na economia local, durante o qual o sistema de aviamento movimentou uma cadeia produtiva vigorosa, que reunia centenas de balateiros, ‘chefes de turma’, patrões locais, patrões regionais e patrões estrangeiros em torno da extração e do comércio deste produto para indústrias norteamericanas e europeias. Quando ele foi substituído por materiais sintéticos e perdeu valor de mercado, a rede que sustentava o extrativismo do látex se desfez, e a maior parte dos balateiros deixou de realizar essa atividade. Contudo, a década de 1980 correspondeu ao florescimento de uma produção artesanal que deu novo destino aos blocos de balata, os quais apodreciam nos portos de Monte Alegre. A partir de então, um pequeno grupo de artesãos tornou-se a clientela regular de alguns poucos extrativistas que continuaram a extrair balata – embora em quantidades menores em comparação ao período anterior – para a confecção de miniaturas representativas da Amazônia. Assim, até meados da primeira década dos anos 2000, os extrativistas trabalharam para um patrão-artesão que assumia o duplo papel de consumidor e de comerciante de balata, nos mesmos moldes praticados no período áureo do aviamento. Com a implantação de projetos socioculturais que aglutinaram balateiros e artesãos a partir de 2010, novas formas de organização para extração e comercialização de balata, que dispensem relações de aviamento e de patronagem praticadas por intermediários, vêm sendo implementadas, de modo a

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equilibrar a circulação de valores monetários entre os produtores e os consumidores deste produto. Ao mesmo tempo que se consumam mudanças relativas à negociação do produto, novas formas de organização coletiva também emergem entre os balateiros, para fazerem frente ao processo de regulação de acesso a FLOTA Paru, que, em 2006, abrangeu os balatais explorados pelo grupo. Apartados das discussões e dos processos preliminares à demarcação dessa unidade de conservação, os extrativistas viram-se afetados por novas regras de uso do recurso florestal tradicionalmente explorado por ocasião do lançamento dos primeiros editais de concessão de unidades de manejo florestal na FLOTA Paru, em 2011 e 2013. Descobriram-se, então, absolutamente desconsiderados nos estudos técnicos que antecederam a demarcação da UC, como se fossem personagens históricos extintos. Entre as estratégias acionadas pelo grupo para obter reconhecimento como sujeito de direitos perante a burocracia do Estado, a provocação do Ministério Público foi fundamental para o estabelecimento da comunicação com os órgãos de Estado a partir de marcos legais, que conferem aos balateiros direitos de acesso e de uso dos balatais. Desde a instauração de um inquérito civil público para tratar do caso, pelo menos seis homens, na faixa dos 60 anos, assumiram a liderança de um processo de organização formal de uma entidade representativa, por meio da qual pudessem ser assumidos pelo Estado como legítimos interlocutores. Para esses homens e para muitos outros, já aposentados ou inativos, os balatais constituem lugares privilegiados onde encontram do sustento material à sensação declarada de liberdade e de bem-estar, em meio

a experiências de trabalho, de viagem, de aventura, de sociabilidade e de isolamento da cidade e de seus arredores. O direito de estar neles é primordial para esses sujeitos29. De fato, esses espaços são, conforme a perspectiva de Tuan (1983), centros aos quais eles atribuem um valor simbólico e afetivo inigualável, como resume Luís Antônio Vasconcelos, Jacurutu, balateiro (in UFOPA, 2017, p. 54): Encontrávamos e tirávamos fruta para comer. Até a fruta da balata eu usei! Minério também se encontrava, mas era só ametista e nós não tirávamos. E tinha muito peixe e muita caça. Para lá você sente o perfume da manhã, de flores. Tudo aquilo é uma beleza...

Baseado, então, nas formas de organização dos balateiros para assegurarem o direito de frequentar e de explorar os balatais, este artigo narrou a experiência específica dos sujeitos recentemente organizados na Associação de Balateiros da Calha Norte, como um exemplo das formas contemporaneamente acionadas por diferentes grupos passíveis de serem definidos, para fins diversos, como comunidades tradicionais, a fim de reagirem a processos – considerados autoritários e pouco participativos – de criação e de gestão de unidades de conservação no Brasil. Observando-se as ações dos balateiros no curso do processo de regulação do acesso à FLOTA Paru, restou notório que houve um esforço de sua parte para se adaptar às condições impostas pelo Estado para acesso aos limites e aos recursos ambientais dessa UC. Aliás, chamou atenção sua participação na construção da própria organização, inovando em relação às práticas costumeiras de sociabilidade e à autorrepresentação do grupo, com o objetivo de garantir visibilidade diante de interlocutores que insistiam em classificá-los como extintos30.

No documentário “Balatais de Saudade” (2013), pode-se conferir relatos de ex-balateiros que vão para os balatais apenas para ‘matar a saudade’ do lugar. 30 Em 2014, durante uma reunião do conselho consultivo da FLOTA Paru, na qual estavam presentes balateiros ativos e artesãos, um agente do órgão ambiental estadual declarou que a exploração de balata foi importante na história do Pará, mas acabou. A infeliz declaração, embora tenha provocado risos, indignou-os, principalmente no momento em que estavam tentando se organizar para fundar a associação que lhes fora exigida. 29

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Todavia, considerando-se as formas tradicionais de interação entre os membros do grupo – e as dimensões de crédito moral e material que as orientam –, é cabível questionar o potencial de estabilidade e de eficácia da associação de balateiros mediante todos os compromissos que a entidade passa a assumir com a implementação do termo de uso da FLOTA Paru. Não se trata, aqui, de ponderar competências organizativas, pressupondo a necessidade de valorização de seu capital social (Bursztyn, Maria; Bursztyn, Marcel, 2012). Para um grupo capaz de realizar solidariamente expedições de seis meses na floresta, que exigem diversos preparativos, articulações e mediações entre diferentes sujeitos, não está em questão sua capacidade de organização. Porém, na atualidade, para os balateiros se requer mais do que ser um ‘manso’. Deles se demanda a filiação, a participação e a contribuição para a gestão de uma entidade representativa da categoria – aliás, demandam-se a eles até mesmo os investimentos simbólicos de autorrepresentação como uma categoria de povos e de comunidades tradicionais. A partir da implementação de um termo de uso da FLOTA Paru, ser balateiro supõe tornar-se membro de um grupo formal, sujeito à burocracia do Estado, da mesma forma que, no passado, significava ser um aviado e um endividado. Para alguns analistas, a substituição das antigas relações de aviamento por outras, baseadas no associativismo, configura um processo de empoderamento dos extrativistas. De outro ponto de vista, significa a sujeição a regras cuja elaboração lhes escapa e que, por sua natureza, restringem seu modo de vida. A obrigação de ‘tirar passaporte para a floresta’, para aqueles que se consideram ‘primatas de lá’, soa a eles como contrassenso. Nessa medida, o termo de uso, que pretende compatibilizar os usos da floresta por empresas e balateiros, frustra as expectativas de direitos desses últimos, além de se mostrar como um instrumento insuficientemente adequado à realidade do grupo em questão.

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Las estaciones sarrapieras: los Mapoyo y las economías extractivas del Orinoco Medio, Venezuela Tonka bean stations: the Mapoyo and extractive economies of the Middle Orinoco, Venezuela Gabriel TorrealbaI, Franz G. ScaramelliII I

Southern Illinois University Carbondale. Carbondale, Illinois, USA II

Independent investigator. Pittsburg, California, USA

Resumen: Durante el período de afianzamiento de las economías extractivas en la Amazonía (1870-1960), la región del Orinoco Medio en Venezuela experimentó la explosión comercial de la sarrapia (Dipteryx odorata), semilla aromática utilizada en la industria de la perfumería. La mercantilización de este y otros productos forestales en dicha región marcaría la entrada de numerosas comunidades indígenas a un nuevo régimen de contacto con el capitalismo global. No obstante, los detalles acerca de las dinámicas de la explotación sarrapiera y su importancia en la historia de las poblaciones locales permanecen relativamente desconocidos. En este artículo examinamos el papel de las estaciones sarrapieras en la obtención de trabajo y materias primas para la empresa extractivista. A través del uso de evidencia etnográfica e histórica, analizamos el rol de las estaciones sarrapieras en la historia cultural y la economía política del Orinoco Medio. La información derivada de entrevistas y documentos sobre el grupo indígena Mapoyo nos sirve de base para analizar temas como movilización de trabajo, relaciones de intercambio y nuevos hábitos de consumo establecidos en torno a la recolección de sarrapia. Palabras-clave: Sarrapia. Dipteryx odorata. Mapoyo. Orinoco Medio. Economías extractivas. Abstract: The tonka bean (Dipteryx odorata), an aromatic seed used in the perfume industry, became the center of a commercial boom in the Middle Orinoco region of Venezuela as extractive economies became established in the Amazon (18701960). The commoditization of this and other forest products in this region allowed many indigenous groups to begin a new means of contact with global capitalism. However, details of tonka bean extraction and its impact on the native population’s history are relatively unknown. The purpose of this article is to explore the key role of “tonka bean stations” in providing labor and raw materials for the extractive industry. Through the use of ethnographic and historical evidence, we will analyze the role of the tonka bean stations in the political economy and cultural history of the Middle Orinoco. Information derived from interviews and documents related to the Mapoyo indigenous group provides insight on topics such as labor mobilization, exchange, and consumption revolving around the tonka bean industry.   Keywords: Tonka Bean. Dipteryx odorata. Mapoyo. Middle Orinoco. Extractive economies.

TORREALBA, Gabriel; SCARAMELLI, Franz G. Las estaciones sarrapieras: los Mapoyo y las economías extractivistas del Orinoco Medio, Venezuela. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 13, n. 2, p. 293-314, maio-ago. 2018. DOI: http://dx.doi. org/10.1590/1981.81222018000200003. Autor para correspondência: Gabriel Torrealba. Southern Illinois University Carbondale. Department of Anthropology. Faner Building, Room 3525 1000 Faner Drive, Carbondale, IL, United States. CEP 62901-6632 (gtorrealba@siu.edu). ORCID: http://orcid.org/00000002-8896-1425. Recebido em 12/11/2017 Aprovado em 19/04/2018

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Las estaciones sarrapieras: los Mapoyo y las economías extractivas del Orinoco Medio, Venezuela

INTRODUCCIÓN Las economías extractivas de exportación ocupan un lugar especial dentro de la historia colonial indígena de la región del Orinoco en Venezuela. Tras la salida de las misiones jesuitas y la culminación de la guerra de independencia, la extracción comercial de productos forestales fue el principal motor de la re-conquista de los territorios amazónicos. Durante el período post-colonial o republicano (1830-1930) nace un nuevo escenario geopolítico, donde el caucho fue sin duda la sustancia que acaparó la atención de las potencias mundiales y los nacientes Estados Nacionales en América del Sur (Córdoba et al., 2015). La época del boom cauchero (1870-1920) se convertiría dramáticamente en uno de los períodos más disruptivos y violentos dentro de la historia de la Amazonía, marcado por una extrema hostilidad contra las poblaciones indígenas (Hill, 1998, 1999). En este contexto, la empresa extractivista en Suramérica también contempló la exportación de otro conjunto de materias primas no tan conocidas como el látex, pero no menos importantes. En el Orinoco Medio, la hegemonía económica del caucho fue eclipsada por un producto forestal cuyo atractivo mercantil residía en sus cualidades aromáticas. La sarrapia (Dipteryx odorata) es el nombre dado en Venezuela a unas semillas caracterizadas por poseer un olor similar a la vainilla y de donde se extrae una sustancia llamada cumarina que ha sido constantemente usada como aromatizador (Figura 1). Debido a este atributo, la sarrapia se convirtió en una mercancía sumamente atractiva para la industria mundial de la perfumería y otros espacios de la producción de manufacturas. Las almendras

Figura 1. Fruto y semilla de la sarrapia. Foto: Franz Scaramelli (2009).

de sarrapia ocuparon el trono de la economía de exportación en el Orinoco Medio y el Caura por casi 100 años (desde 1870 a 1965), siendo continuamente despachadas a países como Francia, Alemania y los Estados Unidos1. Durante estos años, la extracción comercial de la sarrapia estuvo sostenida por la fuerza de trabajo indígena y campesina. La participación de las comunidades indígenas en las dinámicas del extractivismo produjo toda una serie de efectos socio-culturales que son ampliamente conocidos para el caso de la explotación del caucho (Gow, 1991; Hill, 1998, 1999; Iribertegui, 1987; Pineda Camacho, 2000; Stanfield, 1998; Taussig, 2002). Sin embargo, el rol que ha tenido la extracción de la sarrapia en la experiencia interactiva de las poblaciones indígenas y campesinas del Orinoco Medio no ha sido debidamente examinado. Con el fin de contribuir a llenar este vacío, en este trabajo presentamos una primera aproximación a la historia cultural o “[...] vida social [...]” (Appadurai, 1991, p. 17) de la sarrapia2. Con base en investigaciones efectuadas

La era de la sarrapia en el Orinoco se gesta en el marco de una serie de dinámicas sociales en América Latina que han sido definidas por Stuart Voss como “Período Intermedio”. Voss reformula la tradicional división de la historia de América Latina entre período colonial y período moderno, y sitúa al período intermedio como un proceso que va desde las reformas borbónicas en 1750 hasta la Gran Depresión de 1929. Dicho período se caracteriza por la marcada orientación regional de las economías de América Latina, que eventualmente se cristaliza en la formación de los nuevos estados nacionales. Estas unidades regionales estuvieron integradas a los procesos de modernización del sigo XIX y el auge del capitalismo industrial. Las eras del caucho y la sarrapia coinciden con lo que Voss llama “[...] la transición al mundo moderno [...]”, que se inicia en 1880 (Voss, 2002, p. 185, traducción nuestra). 2 Mediante un análisis histórico y antropológico, nuestro trabajo ofrece una mirada alternativa a los estudios sobre extractivismo en la Amazonía enfocados estrictamente en la dimensión ecológica y comercial de ciertos productos forestales (Homma, 1992, 1996; Lescure et al., 1992; Stoian, 2000). 1

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recientemente en Orinoco Medio (Torrealba, 2011) se discuten las dimensiones sociales y culturales del sistema de las ‘estaciones sarrapieras’, principal mecanismo de obtención de trabajo y materias primas empleado por el extractivismo exportador hasta el año 1965. Hacemos énfasis en la experiencia particular de los Mapoyo, grupo indígena que por muchos años mantuvo una intensa participación dentro la extracción comercial de sarrapia en el Orinoco Medio. Asimismo, se aborda el caso mapoyo desde una perspectiva revisionista que trata de superar las posturas aculturacionistas de los primeros trabajos etnográficos sobre este grupo (Henley, 1975, 1983; Perera, 1992). Entendiendo a los sistemas culturales e identidades como fenómenos dinámicos (Sahlins, 1997; Appadurai, 1996; Scaramelli, F.; Tarble, 2000), estudiamos la dimensión cultural del extractivismo y el proceso de creación y reinterpretación local de nuevas prácticas económicas. En este sentido, nos preguntamos ¿cuál fue la respuesta creativa de los Mapoyo ante un nuevo escenario de contacto en el marco de la extracción de sarrapia? ¿Qué nos puede decir la recolección de la sarrapia entre los Mapoyo acerca de las economías extractivas y los sistemas de endeudamiento en Suramérica? ¿Fue la violencia del caucho extensiva a la economía de la sarrapia? La memoria histórica mapoyo, expresada a través de testimonios orales, constituye nuestra principal fuente de información. A través de conversaciones y entrevistas con distintos miembros de la comunidad pudimos reconstruir una imagen de las actividades sarrapieras que corresponde a las décadas del 40, 50 y 60 del siglo XX. La experiencia de campo consistió en la realización de una etnografía “[...] multisituada [...]” (Marcus, 1995, p. 97, traducción nuestra) y comparativa de las actividades sarrapieras en contextos rurales indígenas y no-indígenas del Orinoco Medio (Figura 2). Asimismo, consultamos los testimonios escritos por viajeros,

exploradores y funcionarios estatales de finales de siglo XIX y principios del XX, los cuales se complementaron con la revisión las investigaciones antropológicas previamente realizadas acerca de los Mapoyo.

LOS MAPOYO Y LA SARRAPIA Los mapoyo son un grupo indígena originalmente de filiación lingüística Caribe que habita en la región del Orinoco Medio – específicamente entre los ríos Suapure y Parguaza al sur de Venezuela – y cuyo territorio se caracteriza por albergar formidables fuentes de sarrapia3. Actualmente, su población está compuesta por aproximadamente 400 personas. La mayoría de la población de Mapoyo vive en el pueblo de El Palomo (estado Bolívar), una comunidad multiétnica cuyos habitantes se comunican principalmente en español, quedando muy pocos hablantes de la legua originaria. Por muchos años, este grupo ha estado estrechamente vinculado a la historia y las dinámicas de la explotación sarrapiera en Venezuela. Así lo confirman las investigaciones etnográficas realizadas entre los Mapoyo, en las cuales se ha mencionado inequívocamente a la recolección de sarrapia como una de sus actividades económicas más importantes (Henley, 1975, 1983; Scaramelli, F.; Tarble, 2000, 2007; Scaramelli, F.; Scaramelli, K., 2015). Antes de la explosión comercial de la sarrapia, los mapoyo participaron en diversas actividades extractivas comerciales durante el proceso de colonización del Orinoco Medio (Morey, R.; Morey, N., 1975), destacándose la explotación de aceite de tortuga en los siglos XVIII y XIX (Meza; Menezes, 2016; Scaramelli, F.; Scaramelli, K., 2015) y el intercambio de yopo y capi (Mansutti-Rodriguez, 1986). Si bien las referencias históricas del siglo XIX que mencionan a los mapoyo no vinculan a este grupo directamente con comercio de

Los Mapoyo hacen una distinción entre su territorio ancestral (aquel que se extiende entre los ríos Suapure y Parguaza en el Orinoco Medio) y el territorio ocupado actualmente (el cual abarca la zona de El Palomo entre los ríos Caripo y Villacoa). El Estado venezolano reconoció oficialmente el territorio ancestral Mapoyo en marzo de 2013 como un espacio multiétnico en el que cohabitan diferentes grupos indígenas y no-indígenas. En Venezuela los territorios indígenas han sido reconocidos bajo la figura de ‘propiedad colectiva’, aunque en última instancia subordinados al Estado.

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sarrapia, es posible que los mapoyo hayan participado en las actividades de recolección desde que las empresas extractivistas llegaron a su territorio. El explorador francés Jean Chaffanjon observaba en 1885 que ciertos grupos indígenas usualmente vendían semillas de sarrapia en la población de Caicara (Chaffanjon, 1986 [1889], p. 68). Aunque no podemos asegurar que Chaffanjon se esté refiriendo a los Mapoyo, es probable que tanto este grupo como los e’ñepa hayan estado involucrados en el comercio de la sarrapia desde finales del siglo XIX. Los primeros trabajos etnográficos modernos sobre el grupo mapoyo — realizados por Henley (1975, 1983) — sostienen que éste y otros grupos indígenas de la región jugaron un papel importante en la extracción de recursos naturales como la sarrapia, el balatá y el chicle (Henley, 1975). Henley indica que las operaciones de las empresas

extractivas en el territorio que ocupan los Mapoyo se inician a principios del siglo XX. Estas empresas se establecieron con sus casas comerciales en las orillas de los ríos Suapure y Túriba, con el propósito de comprar sarrapia, balatá y chicle (Henley, 1983, 1975). Henley (1975, p. 226) se ha referido a la comercialización de estos productos como el factor que intensificó el “[...] proceso de transculturación [...]” del grupo mapoyo en medio de su integración a nuevas relaciones económicas y sociales. Para Henley (1975, p. 226), la transculturación producida por la recolección comercial de sarrapia llegó al punto de suprimir las “[...] diferencias culturales [...]” entre los mapoyo y los habitantes criollos de la zona, pues éstos abandonaron casi todos sus “[…] rasgos y patrones indígenas de conducta” (Henley, 1983, p. 227). A diferencia de lo planteado por Henley (1975, 1983), para Perera (1992), el fenómeno de la sarrapia

Figura 2. Area de estudio. Mapa elaborado por Franz Scaramelli (1999).

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en la zona mapoyo se inicia más temprano, en 1885. La abundancia de sarrapia en el territorio mapoyo y los altos precios alcanzados en el mercado mundial estimuló la llegada de forasteros de otras regiones de Venezuela a los sarrapiales del territorio mapoyo. Perera (1992) sugiere que el extractivismo tuvo un grave efecto demográfico sobre la población mapoyo, producto del constante contagio de enfermedades, que los llevó al borde del colapso. Alejados de las perspectivas que sitúan a las actividades sarrapieras como factor de la ‘transculturación’ de los Mapoyo o de su extinción cultural, los trabajos de Scaramelli, F. y Tarble (2000) han enriquecido el análisis de la trayectoria histórica del grupo mapoyo en la etapa del boom sarrapiero. Según estos autores, a inicios del siglo XIX, luego de la expulsión de las órdenes misioneras y la derrota de las fuerzas españolas en la Guerra de Independencia, los Mapoyo inician un proceso de apertura con la sociedad nacional venezolana. La población indígena entra así en contacto directo con una nueva forma de “[...] colonialismo interno [...]” caracterizado por la extracción comercial de recursos locales (Scaramelli, F.; Tarble, 2000, p. 717, 2005b, p. 110; Tarble de Scaramelli, 2006, p. 78, traducción nuestra). En este contexto, los Mapoyo descubrieron que las semillas de sarrapia (Figura 3), tan abundantes en su territorio (y posiblemente usadas únicamente con propósitos medicinales), tenían un precio muy alto en el mercado internacional como consecuencia de su aprovechamiento en la fabricación de fragancias. Muchos indígenas mapoyo comenzaron a trabajar en los sarrapiales bajo la supervisión de comerciantes criollos con el objeto de obtener manufacturas para el consumo. Sin embargo, el sistema de avance de créditos y el pago en mercancías favorecía abiertamente a los empresarios criollos y a los intereses de la industria internacional de la perfumería (Scaramelli, F.; Tarble, 2000; Tarble de Scaramelli, 2006).

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Figura 3. Semillas de sarrapia. Territorio mapoyo. Edo. Bolívar. Foto: Gabriel Torrealba (2011).

Al igual que Henley (1983), Scaramelli, F. y Tarble (2000) sostienen que la industria de la sarrapia no llegó a propiciar los niveles de terror que infligió la empresa cauchera sobre las poblaciones indígenas. Esto se debe, tal vez, a que los recolectores siempre pudieron mantener en pie sus principales actividades de subsistencia y el uso de su territorio (Scaramelli, F.; Tarble, 2000; Tarble de Scaramelli, 2006). Esta es una diferencia notable que contrasta con la extracción de látex. En el caso de la industria del caucho los recolectores usualmente se dedicaban tiempo completo a esta actividad, lo cual generaba el abandono de las prácticas habituales de subsistencia y por lo tanto, la dependencia total a las manufacturas vendidas por comerciantes criollos (Tarble de Scaramelli, 2006). El principal foco de la economía entre los Mapoyo y otros grupos indígenas durante el auge de la sarrapia fue la producción de yuca y casabe para la venta, actividades que siempre se complementaron con la “[...] recolección especializada [...]” de productos con altos precios en el mercado internacional (Scaramelli, F., 2005, p. 206, traducción nuestra)4.

La complementariedad de actividades agrícolas (en especial producción de yuca) y extractivas fue común a otros procesos similares en la Amazonía (Pinton; Emperaire, 1996) como en el caso de la recolección de castaña en Brasil (Martins et al., 2008; Mori, 1992; Robert, 2009).

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Algo no mencionado previamente es que esta articulación entre las poblaciones locales y las empresas exportadoras tuvo un modo de operar específico. La principal característica de este fenómeno fue la instalación de una red de puestos comerciales que garantizaban la movilización de mercancías y fuerza laboral en las áreas de extracción. Estos puestos de intercambio representan uno de los elementos distintivos de la gran era comercial de la sarrapia, y fueron conocidos con el nombre de ‘estaciones sarrapieras’5.

LAS ESTACIONES SARRAPIERAS Las estaciones fueron sistemas de movilización de trabajo y mercancías que proliferaron durante la consolidación de las economías extractivas en la Amazonía (Iribertegui, 1987). Este mecanismo de captación laboral –usado por fuerzas empresariales y Estados – fue especialmente importante en el caso de la adquisición de recursos como el látex y la sarrapia. Las estaciones mantuvieron como propósito fundamental la obtención de materias primas dirigidas a la exportación, y se caracterizaron por ser espacios en los que se intercambiaban directamente manufacturas por productos naturales obtenidos a través del trabajo de indígenas y campesinos. En el Orinoco Medio, la estación sarrapiera consistía en una casa, tienda o bodega que se construía (y abandonaba) cada año a las puertas de las zonas selváticas donde se encontraban los sarrapiales. Esta casa/tienda también se levantaba en algunos poblados, y en ella se almacenaban diversos tipos de bienes (víveres, ropa y

herramientas) dispuestos para abastecer a los recolectores de sarrapia. Las estaciones sarrapieras estaban generalmente situadas a las orillas de ríos y caños con el propósito de tener acceso a fuentes de agua o a una vía de desplazamiento fluvial (Figura 4). Las estaciones sarrapieras tenían la función de acercar el escenario de intercambio a las zonas de recolección y administrar el reclutamiento de trabajadores. El sistema de las estaciones sarrapieras estaba estructurado bajo un esquema de funcionamiento jerárquico6. Este ordenamiento estuvo integrado por una serie de estaciones centrales ubicadas en los principales poblados cercanos a las vías fluviales y un grupo de subestaciones dependientes o periféricas situadas cerca de las zonas de recolección. Cada estación central concentraba la producción de sarrapia proveniente de las subestaciones, y a su vez, cada sub-estación era alimentada de manufacturas industriales por la estación central. De esta manera, durante la temporada sarrapiera existía una retroalimentación constante entre el flujo de salida de sarrapia y el flujo de entrada de mercancías a los poblados (Figura 5). La red de estaciones estaba conectada al puerto de Ciudad Bolívar y dependía a gran escala de las principales casas comerciales de esta ciudad, las cuales exportaban la sarrapia e importaban los bienes que iban a parar a manos de los recolectores. Aún se desconoce el momento preciso en que este sistema comienza a regular las actividades sarrapieras en el Orinoco Medio. Del mismo modo, resulta difícil saber con exactitud cuándo comienzan a operar las estaciones sarrapieras dentro del territorio mapoyo. De cualquier

El estudio de dichos mecanismos de extracción comenzó en el marco de un proyecto arqueológico y etnográfico/histórico conocido como “Proyecto Arqueológico Suapure-Parguaza”. Dicho proyecto inicia a finales de los años 1990s y estuvo dirigido por la Dra. Kay Scaramelli y el Dr. Franz Scaramelli, contando con financiamiento del Consejo de Desarrollo Científico y Humanístico de la Universidad Central de Venezuela. Sin embargo, nuestras más recientes y detalladas investigaciones sobre la sarrapia se llevaron a cabo dentro del proyecto arqueológico/etnográfico denominado “Arqueología y colonialismo: cultura material e identidad en el Orinoco Medio, Venezuela”, igualmente dirigido por el Dr. Franz Scaramelli y la Dra. Kay Scaramelli. Esta fase investigativa contó con el apoyo del Instituto Venezolano de Investigaciones Científicas y la Universidad Central de Venezuela. Dentro de este último proyecto, el período de la extracción comercial de sarrapia requirió de una investigación etnográfica puntual, orientada a descifrar el rol de esta mercancía en contextos indígenas y campesinos de la región. 6 El Estado venezolano llevaba a cabo la asignación de concesiones a empresarios y comerciantes interesados en la extracción y comercialización de la sarrapia. Porciones variables de tierra eran distribuidas y designadas para su administración a lo largo de las cuencas sarrapieras del Estado Bolívar durante finales del siglo XIX (Falconi, 2003, p. 72). 5

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Figura 4. Ubicación de estación sarrapiera en el territorio mapoyo. Mapa elaborado por Franz Scaramelli, Yheicar Bernal y Nuria Martin (2006-2011).

modo, podemos inferir que estos centros de intercambio datan al menos de los primeros años del boom de la sarrapia (1880s). Los habitantes mapoyo de mayor edad no poseen información sobre el inicio de las estaciones sarrapieras, y algunos sarrapieros criollos mencionan el año de 1906 como punto de partida del desarrollo de esta actividad. A mediados del siglo XX, toda la zona que va desde el Bajo Caura hasta Puerto Páez (el extremo occidental del Edo. Bolívar) se vio ocupada por estaciones comerciales destinadas a la adquisición de estas semillas. A lo largo de dicho territorio se podían distinguir al menos tres grandes sectores o ‘cuencas sarrapieras’ que contaban con sus estaciones centrales: 1) la zona del Caura, con su

Figura 5. Esquema de funcionamiento del sistema de estaciones sarrapieras. Elaborado por Gabriel Torrealba (2011).

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estación principal en la población de Maripa; 2) la zona de Cuchivero, cuyas estaciones principales se encontraban en las poblaciones de Candelaria y Caicara (tal vez en momentos distintos); y 3) la zona del Orinoco Medio cuya estación principal estaba en la población de Túriba conectada a través del río Suapure7. Cada estación central contaba con una cantidad variable de subestaciones (entre 5 y 8). Las estaciones sarrapieras fueron creadas y gestionadas principalmente por intereses privados y en sus últimos momentos por el Estado. Cuando el Instituto Agrario Nacional toma el control del negocio sarrapiero en 1959, se establece una nueva organización administrativa sobre esta misma división espacial. Las estaciones centrales son llamadas ‘Centros Administrativos’ y las sub-estaciones ‘Estaciones de Recepción y Abastecimiento’ (Instituto Agrario Nacional, 1960)8. Dentro del espacio del territorio mapoyo (eje Suapure-Parguaza), las estaciones sarrapieras que operaron durante mediados del siglo XX se encontraban en tres sectores: Los Pijiguaos, Raudalito de Caripito y Villacoa. La estación de Raudalito, ubicada a orillas del río Caripo, fue el puesto comercial sarrapiero más importante para los mapoyo por ser el más cercano a sus comunidades (de ahí que la zona de Raudalito de Caripito suele llamarse también ‘La estación’). Las estaciones de estos tres sectores estaban conectadas a una estación central ubicada en la población de Túriba. Si bien los mapoyo ejecutaban

generalmente sus actividades sarrapieras en la estación de Raudalito, eventualmente algunos recolectores podían trasladarse a los sarrapiales ubicados en Villacoa, Los Pijiguaos y hasta en la región del río Parguaza9. Una de las principales características de las estaciones sarrapieras es que éstas no eran puestos de comercio permanentes sino establecimientos construidos durante cada temporada de recolección. En la zona mapoyo, la estación de Raudalito se construía durante el mes de enero. Se edificaba una casa de madera que era abastecida con una gran cantidad de mercancías como frijoles, pasta, sal, arroz, sardinas, avena, bebidas instantáneas, golosinas, cigarrillos y queso. Los productos que se despachaban en la estación eran en su mayoría bienes adecuados para realizar las tareas de recolección en la selva. Los enlatados, por ejemplo, permitían al sarrapiero contar con alimentos fácilmente transportables y perdurables por largo tiempo. La importancia de los productos enlatados pude observarse de manera notable en el registro arqueológico del período republicano entre finales del siglo XIX y principios del XX. Las latas de productos como sardinas, aceite y kerosene son abundantes, y su incorporación creativa dentro de la cultural material indígena también puede ser constatada10. Las latas sirvieron de materia prima para la elaboración de herramientas fundamentales en la vida cotidiana de los Mapoyo, como rayos para la yuca. En el territorio mapoyo se encuentran ejemplares de latas pertenecientes a cada

Josué Guillen, cronista de Cabruta, comunicación personal. El Instituto Agrario Nacional (1960) organizó las tres zonas sarrapieras de la siguiente manera. La ‘Cuenca del Caura’, contaba con un Centro Administrativo en Cucurital-Maripa y 8 estaciones de recepción y abastecimiento. La ‘Cuenca del Cuchivero’, contaba con un Centro Administrativo en Candelaria y siete estaciones. Por último, la ‘Cuenca del Orinoco’ estuvo dividida en dos Regiones Administrativas: a) Caicara, que contaba con 5 estaciones y b) Túriba, con 7 estaciones sarrapieras. Durante estos años, operaron un total de 27 estaciones sarrapieras en las selvas de toda la región. 9 Durante la época de las estaciones el principal medio de transporte estaba constituido por bestias de carga. Semanalmente, burros y mulas conducidos por un ‘arriero’ recogían la sarrapia almacenada en las estaciones y al mismo tiempo descargaban en ellas bienes manufacturados. Los burros regresaban a la estación central, donde existía un puerto fluvial en el río Suapure, y la sarrapia era trasladada en embarcaciones por el río Orinoco hasta llegar a la población de Caicara. Una vez en Caicara los cargamentos de sarrapia eran enviados en vapores hacia el puerto de Ciudad Bolívar, donde se encontraban las casas compradoras de sarrapia como Dalton y Cía., Batistini y Casalta. Allí las semillas eran depositadas en barriles y exportadas en su mayoría hacia Francia y los Estados Unidos (Torrealba, 2011). 10 Para una revisión de estudios enfocados en el uso indígena de cultural material introducida en un una situación colonial véase Albert y Ramos (2002), Cusick (1998), Falconi (2003), Funari y Senatore (2015), Scaramelli, F. y Tarble de Scaramelli (2005a), Scaramelli, F. y Scaramelli, K. (2015) y Symanski y Gomes (2015). 7 8

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desarrollo tecnológico en dicha industria desde el siglo XIX (Scaramelli, F.; Tarble, 2005b).

MOVILIZACIÓN DE TRABAJO Y REDEFINICIÓN ESPACIAL La recolección de sarrapia debe ser entendida ante todo como un evento de trabajo colectivo. Si bien es posible que la historia temprana de la explotación sarrapiera estuviera ligada al trabajo forzado de las poblaciones indígenas, ya entrado el siglo XX esta actividad estuvo dinamizada en gran medida por el trabajo voluntario de las poblaciones locales. Actualmente, los Mapoyo no recuerdan eventos de trabajo coaccionado en el contexto de las estaciones sarrapieras. En los relatos contados por los ancianos no figuran casos de trabajo forzado de ningún tipo, y existe la opinión generalizada de que su participación en las labores sarrapieras ha sido estrictamente consensuada. Estas circunstancias contrastan abiertamente con lo sucedido más temprano en el Alto Orinoco dentro de las economías caucheras y la violencia con la que fueron sometidos grupos indígenas como los yekuana, baré, baniva o los tukano y huitoto en Brasil y Colombia respectivamente (Iribertegui, 2006, 1987). El atractivo de la extracción de sarrapia, para los mapoyo, residía en la posibilidad de trabajar en forma colectiva a cambio de obtener bienes industriales que comenzaron a desear con fuerza desde el siglo XIX. Las estaciones sarrapieras pueden ser vistas entonces como centros de convocatoria y movilización de trabajo voluntario masivo. Durante la primera mitad del siglo XX las estaciones sarrapieras pudieron captar a una gran cantidad de recolectores atraídos por la promesa de obtener bienes foráneos. Dentro de la extracción de sarrapia, el ‘convocante’ siempre ha sido un miembro de una cultura distinta a la de los grupos indígenas. La convocatoria ha venido de parte de grupos empresariales o del Estado, quienes, a pesar de organizar un evento estrictamente mercantil, propiciaron un escenario de intercambio recíproco y de consumo aprovechable para las poblaciones indígenas.

Los comerciantes de la sarrapia trataban de congregar a un grupo numeroso de personas para trabajar en una tarea en específico: reunir grandes cantidades de sarrapia para la exportación. Se generó así una situación de libre involucramiento en la que cualquier persona podía participar sin ser necesariamente productiva. La participación en el trabajo de la sarrapia no exigía habilidades especializadas. Así como en los “[…] eventos de trabajo colectivo” (Dietler; Herbich, 2001, p. 242-245, traducción nuestra), la simple multiplicación de personas resultaba suficiente para completar la labor. Así, la cantidad de gente que se movilizaba podía llegara hasta cientos de personas. Sin embargo, algunos trabajadores necesitaban de un conocimiento espacial altamente sofisticado para poder realizar las tareas de recolección en lugares lejanos. En vista de esta situación de libre participación, la convocatoria de trabajo alrededor de las estaciones sarrapieras favoreció una fuerte interacción entre personas de diversos orígenes étnicos y de clase. La movilización masiva de trabajadores ocurría cada año entre finales del mes de enero y principios de junio. Centenares de sarrapieros se instalaban en los poblados donde funcionaban las principales estaciones sarrapieras y en los lugares próximos a las selvas (Williams, 1942). Las zonas de extracción eran pobladas por grandes contingentes de recolectores foráneos. Gran parte de la fuerza de trabajo en estas actividades estuvo conformada por inmigrantes de otras poblaciones de Venezuela (especialmente del Estado Falcón), quienes motivados por las oportunidades de ‘fortuna rápida’ que podía ofrecer la sarrapia, se asentaron en la región y se casaron con indígenas de la zona. En este periodo, las actividades extractivas aumentaron la densidad de población criolla dentro y alrededor del territorio mapoyo (Henley, 1983, 1975). Uno de los cambios más resaltantes producidos por la movilización de trabajadores a los bosques fue la gestación de un complejo proceso de redefinición espacial. La extracción sarrapiera y el nuevo uso dado a los territorios selváticos crearon nuevas formas de clasificaciones nominales

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y re-significaciones geográficas. Con la mercantilización de la sarrapia, entre los pobladores locales surgieron nuevas formas de definir y organizar el espacio de los bosques. Las zonas selváticas cambiaron su toponimia y estas comenzaron a ser segmentadas en unidades llamadas ‘sarrapiales’. Este hecho dio pie a una larga lista de lugares o puntos identificables en la selva en base a la presencia de árboles de sarrapia. Con la conversión de los bosques en lugares de trabajo, los sarrapiales se convirtieron en la unidad espacial básica de producción. Un sarrapial es un sitio que además de los árboles de sarrapia alberga otro gran número de plantas y accidentes geográficos como cuevas o ríos. Los sarrapiales son de tamaños muy variables; éstos pueden contener un par de árboles o decenas de ellos y no poseen límites definidos. A raíz de su interacción en la industria sarrapiera, los Mapoyo crearon nuevos calificativos para designar ciertas partes de su territorio a través de los sarrapiales. Hoy en día, la representación espacial del territorio mapoyo está claramente marcada por la identificación de sarrapiales, los cuales son también reconocidos por otros grupos como ‘sarrapiales mapoyo’. Para los Mapoyo cada sarrapial posee un nombre11 y estos sitios son a su vez el escenario de muchos de los relatos y eventos que forman parte de la tradición oral de este grupo indígena, siendo hoy en día verdaderos símbolos de su arraigo territorial.

PATRÓN DE ASENTAMIENTO Y REPRODUCCIÓN SOCIAL A raíz del auge comercial de la sarrapia, la movilización de sarrapieros a los bosques también creó una nueva forma de asentamiento de tipo intermitente. A diferencia

de lo experimentado con el caucho en otras regiones, la comercialización de sarrapia no obligó a los indígenas a alejarse permanentemente de sus poblados. Debido al carácter estacional de la planta de sarrapia, los Mapoyo permanecían 4 o 5 meses de cada año en los bosques. Las grandes distancias y las dificultades de desplazamiento desde los poblados a los lugares de recolección, obligaban a los recolectores a mudarse a las selvas, instalando campamentos temporales y usando las cuevas presentes en la zona para vivir en ellas y resguardar las semillas de la lluvia12. El principal asentamiento de los trabajadores en los bosques se encontraba en la misma estación sarrapiera. Esta funcionaba como el campamento base para los recolectores que luego penetraban el interior de la selva. Hoy en día, al preguntar por las estaciones sarrapieras, los pobladores mapoyo de mayor edad frecuentemente rememoran este poblamiento momentáneo de las selvas y describen la soledad de los pueblos durante cada temporada de sarrapia: “Esto [la comunidad] quedaba solo” y “La estación se ponía así como un vecindario. Era un vecindario de sarrapieros. Uno se iba con todo y maleta”13. Igualmente, algunos recuerdan con alegría este proceso de traslado grupal a las estaciones sarrapieras: “Era una belleza cuando llegaba la empresa de sarrapia. Estaban todos esos montes llenos de gente”14. De acuerdo con los Mapoyo, la estación sarrapiera debe entenderse no solamente como la tienda donde se despachaban mercancías sino también como el conjunto de viviendas alrededor de ella. El campamento completo de los sarrapieros junto al puesto comercial formaba parte del paisaje de la estación. La imagen del ‘vecindario

Algunos de estos son: Cabeza e’ Tigre, Caña Brava, Coloraíto, Cueva de Pérez, Cueva Pintada, El Caballo, El Dorado, El Palaciero, El Oro, Salto Caripo, Jacobero, La Campera, La Guitarra, La Lanza, La Sapoara, Los Bracitos, Los Cuarteles, Murciélago, Quebrada Seca, Raudalito, Santander, Sarrapial donde nació Ana, Siete Palos, Tablantero, Tragavenado. 12 La ocupación de las cuevas fue parte fundamental de las actividades sarrapieras entre finales del siglo XIX y principios del XX. Los trabajos arqueológicos y etnográficos de Perera y Scaramelli y Tarble en el Orinoco Medio han identificado las cuevas de la zona mapoyo como sitios de múltiple ocupación que fueron usados como refugios por los recolectores sarrapieros. Entre estas cuevas estaban Cueva Pintada, Cueva de Pérez y la Cueva de Jacobero (Scaramelli, F.; Tarble, 2005b; Perera, 1992). 13 María Joropa, entrevistada por Gabriel Torrealba, El Palomo, 23 marzo 2010. 14 Luciano Sandoval, entrevistado por Gabriel Torrealba, El Palomo, 25 marzo 2010. 11

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de sarrapieros’ sugiere que la constante movilización a las estaciones sarrapieras no estaba fragmentando la estructura social del grupo, sino que ésta podía estarse reproduciendo fuera del espacio habitual de la comunidad. La comunidad se trasladaba (aunque nunca en su totalidad) a las estaciones y esta, con sus relaciones y modos de organización tradicionales, se reconstituía en un escenario distinto. Si bien las familias nucleares eran las unidades productivas básicas en la recolección de la sarrapia, los lazos de parentesco y afinidad extendidos eran reproducidos en estos ‘vecindarios multiétnicos’. A su vez, la estación era también un espacio de constante interacción con colonos criollos de diversas regiones. A través de un intenso intercambio biológico, material y simbólico, se desarrolló todo un proceso de influencia cultural mutua entre los Mapoyo y los pobladores criollos. La estación sarrapiera y las rancherías que la rodeaban se convirtieron así en el espacio de socialización de los Mapoyo y otros grupos étnicos durante cada temporada de sarrapia. Un aspecto significativo de este escenario de interacción es que poseía connotaciones festivas. El evento de la recolección sarrapiera era ejecutado con entusiasmo cada vez que se iniciaba la temporada. Esto incluía la realización de actividades sociales ligadas al entretenimiento como la música, celebraciones y juegos de apuestas. Igualmente, aunque el trabajo efectuado por los sarrapieros solía ser arduo, muchos pobladores Mapoyo disfrutaban de la participación en las actividades de recolección. El contexto de las estaciones sarrapieras creaba un ambiente de entretenimiento y diversión que se conjugaba, sin duda, con el trabajo duro y los constantes peligros de la selva.

MODO DE EXTRACCIÓN Y ORGANIZACIÓN SOCIAL Algunos estudios antropológicos dedicados al impacto de las actividades extractivas en la Amazonía han resaltado la ocurrencia de un cambio drástico en los niveles de organización social de los grupos indígenas (Murphy; Steward, 1977). De acuerdo con estos estudios, la

economía del caucho y su violento modo de trabajo produjo la fragmentación de la organización comunitaria indígena, reduciendo las unidades sociales de trabajo a familias nucleares o a recolectores solitarios. En el caso de la sarrapia, este panorama no fue tan severo. En toda el área de producción sarrapiera los recolectores generalmente trabajan asociados en grupos y con sus familiares (Fernández, 1995). Avendaño y Sanblas (1995, p. 52) utilizan la denominación “[…] grupo familiar recolector […]” para referirse a los equipos de trabajo en los sarrapiales. La recolección de sarrapia podía ser realizada mancomunadamente por todos los miembros de una familia en las tareas de recolección del fruto, extracción de la semilla, su secado, cuidado y selección (Fuentes Guerrero, 1980). Sin embargo, la sarrapia también podía ser recogida individualmente por peones que trabajaban para empresarios o contratistas (Williams, 1942). Entre los Mapoyo, las familias nucleares o extendidas conformaban los principales grupos de trabajo durante el auge comercial de la sarrapia. Los trabajadores que se agrupaban en las jornadas de recolección estaban generalmente atados por relaciones de amistad o parentesco, cuya solidaridad podía ser reforzada por las prácticas de cooperación y reciprocidad. El ciclo de recolección de sarrapia comienza a finales del mes de enero o principios de febrero, momento en que las frutas comienzan a caer de los árboles. La recolección transcurre hasta el mes de abril, cuando todo el trabajo se orienta hacia la separación de las semillas de los frutos y dura hasta los lluviosos meses de mayo y junio. La cantidad de trabajadores mapoyo que se movilizaban a los sarrapiales seguramente ha variado con los años, pero estimamos que grupos de decenas de personas salían de sus asentamientos tradicionales y se adentraban en los sarrapiales. Cada inicio de semana, los cosecheros ingresaban a los bosques en busca de los árboles de sarrapia con las provisiones y herramientas adelantadas por la estación. Usualmente se visitaban sarrapiales conocidos, no obstante, algunas familias podían escoger nuevos sitios de recolección.

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La extracción de la fruta en los sarrapiales se hacía de manera manual y los recolectores debían recorrer grandes extensiones de territorio selvático. Los frutos de la sarrapia se recogen a medida que éstos se van desprendiendo de los árboles. Esta práctica no requería de ningún tipo de artefacto salvo el uso de sacos u otros recipientes. Al recolectarlas, las frutas son agrupadas en un sitio específico del sarrapial y luego se espera que la almendra se seque dentro de su cáscara. Una vez secas, las semillas de sarrapia se separaban de la fruta mediante el uso de instrumentos y herramientas simples como una ‘mano de piedra’, un martillo o un machete. Con estos instrumentos se golpean las frutas hasta abrir la cáscara. El fruto se abre en dos mitades y la única semilla es extraída15. Luego de ser extraídas, las semillas se secaban en lugares donde podían recibir directamente la luz del sol. Al secarse, las semillas pierden peso, se tornan de un color marrón oscuro y adquieren una textura arrugada (Fuentes Guerrero, 1980; Williams, 1942). Las semillas eran luego colocadas en sacos para ser transportadas sin ningún tipo de vehículo a las estaciones. Dependiendo de la distancia recorrida, los sarrapieros podían retornar a la estación al final de cada jornada o quedarse a dormir en los bosques. Durante las estadías prolongadas en los bosques, los recolectores dependían de la cacería, la pesca, y el consumo de alimentos como el casabe y el mañoco (fariña) para su subsistencia. Muchos de los recolectores que se confinaban en sarrapiales bastante alejados sólo regresaban a la estación cada viernes a entregar la sarrapia. En la recolecta participaban abiertamente hombres, mujeres y niños, sin una rígida división del trabajo entre los miembros del grupo familiar. Sin embargo, los Mapoyo sostienen que usualmente eran los hombres quienes asumían las tareas más pesadas de carga. Las mujeres solían concentrarse en las labores que involucraban la

separación de la almendra de su fruto, llamada localmente ‘pisado’ de la sarrapia. Cuando los grupos de recolección estaban conformados únicamente por adultos (familiares o no), o por miembros de distintas familias, entre ellos existía una regla de distribución equitativa de la ganancia según la cual la sarrapia reunida se repartía en partes iguales sin importar la cantidad de frutas recolectada por cada persona. Esta regla permite ver cómo la presencia de las obligaciones recíprocas de una comunidad se conjuga con actividades fundamentalmente comerciales y termina ordenándolas. Otra consecuencia de la mercantilización de la sarrapia en el Orinoco fue la notoria relevancia que tomó el manejo de unidades de medida, cálculos y expresiones numéricas entre las poblaciones locales. Durante la época de las estaciones sarrapieras, los mapoyo adquirieron grandes habilidades en el manejo de medidas de peso traídas por los colonos criollos. Luego de años de experiencia en la recolección de sarrapia, los pobladores mapoyo y criollos establecieron equivalencias y cálculos propios mediante los cuales lograban anticipar la cantidad de semillas que podían obtener. Estos cálculos se instituyeron entre indígenas y campesinos, convirtiéndose en parte del conocimiento técnico colectivo transmitido a varias generaciones.

INTERCAMBIO Y DEUDA Si bien la estación sarrapiera fue un mecanismo de movilización de fuerza de trabajo, su función primordial consistió en efectuar el intercambio de sarrapia por productos manufacturados. Las estaciones fueron el centro de almacenamiento primario de la sarrapia antes de tomar su camino hacia la exportación. Pero la llegada de la sarrapia a las estaciones estuvo regida por un modo de intercambio particular. Desde el inicio de la era sarrapiera, el modo de

El uso masivo de herramientas de piedra en el trabajo de la sarrapia representó una nueva fase de la industria lítica de las poblaciones locales en el Orinoco Medio. Con el auge de la sarrapia se produjo un proceso artefactual de proliferación de utensilios de piedra necesarios e imprescindibles para la obtención de las semillas (Scaramelli, F.;Scaramelli, K., 2015).

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cambio que predominó en las estaciones fue el sistema de avance o endeude, el cual regulaba gran parte de las actividades económicas en toda la Amazonía (Cardona et al., 2014; De Almeida, 1992; Emperaire, 1996; Gow, 1991; Taussig, 2002; Walker, 2012). La cadena comercial de la sarrapia ha estado históricamente integrada por recolectores, intermediarios y exportadores. Los recolectores vendían las semillas de sarrapia a los intermediarios, a quienes las entregaban en sacos a cambio de dinero o mercancías16. Los intermediarios a su vez habían recibido una paga por adelanto de los empresarios exportadores. Estos últimos son los que comerciaban cara a cara con las casas compradoras en el extranjero (Ministerio del Ambiente y de los Recursos Naturales Renovables, 1984). Cada estación sarrapiera construida en las zonas de recolección contaba con un encargado llamado ‘estacionero’. La estación sarrapiera era el lugar de residencia del estacionero, quien contaba con una habitación para dormir en ella. Esta persona era empleada por las empresas comercializadoras de sarrapia para canalizar las transacciones con los recolectores en los campos y administrar las mercancías que se ofrecían en cada estación. El estacionero tenía la tarea de distribuir las mercancías a los recolectores y llevar el registro de la sarrapia almacenada. A cambio de este servicio, los estacioneros recibían un pequeño porcentaje por cada kilo de sarrapia que llegaba a la estación. En la estación de la zona mapoyo el administrador podía ser algún forastero proveniente de comunidades cercanas como La Urbana y Túriba, o bien podía ser un miembro de la comunidad mapoyo. Cuando el estacionero era una persona que provenía de la población indígena éste no era

designado por la empresa sino que era elegido mediante una reunión comunitaria17. Al contrario de lo que sucedió con el caucho en otras regiones del Amazonas (Murphy; Steward, 1977; Iribertegui, 1987), la estructura de liderazgo indígena no se vio debilitada por la imposición de un administrador cercano a los intereses de las empresas extractivistas. Los jefes mapoyo nunca perdieron prestigio político ante la figura de los estacioneros. Cuando un mapoyo asumía la función del estacionero, aparentemente, éste no incrementaba su riqueza o su estatus al punto de llegar a desestabilizar la estructura igualitaria local y los roles de autoridad. Posiblemente, el hecho de que el estacionero fuese un miembro de la comunidad indígena permitió que las transacciones del sistema de endeude estuviesen más permeadas por las reglas locales de reciprocidad que por la simple codicia empresarial. La escogencia de un estacionero perteneciente a la población mapoyo pudo haber reducido o evitado la probabilidad de encontrar situaciones de ‘endeudamientos ficticios’ o deudas imposibles de cancelar. Actualmente, los mapoyo no manifiestan ninguna queja en términos de trampas o engaños al recordar el desempeño de los estacioneros, incluyendo a los foráneos. La escogencia de algunos Mapoyo como administradores en la estación produjo otro tipo de profesionalización: el manejo de sistemas de escritura, mediciones y operaciones numéricas en las transacciones comerciales. Cada estacionero contaba con dos balanzas o pesos necesarios para el almacenamiento ordenado de la sarrapia y el despacho de mercancías. Junto a los pesos, el estacionero contaba con cuadernos en donde llevaba los registros escritos de las deudas, siempre en términos de mercancías expedidas y kilos de sarrapia recibidos18.

Dentro del sistema de endeudamientos en la economía de la sarrapia, los comerciantes se beneficiaban a través del establecimiento arbitrario de los precios de la sarrapia y las mercancías adelantadas. La sarrapia era adquirida a precios muy bajos por los patrones mientras que las mercancías eran significativamente encarecidas. Sin embargo, cuando el Estado Venezolano comienza a regular las actividades sarrapieras a finales de los años 1950, la fijación de su precio comenzó a favorecer abiertamente a los recolectores. Hoy en día, los precios de la sarrapia extraída de los bosques se establecen a través de una intensa negociación entre los recolectores y la empresa exportadora de sarrapia (Torrealba, 2011). 17 Simón Bastidas, entrevistado por Gabriel Torrealba, El Palomo, 23 marzo 2010. 18 José ‘Candecho’ Reyes, entrevistado por Gabriel Torrealba, 23 marzo 2010. 16

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Una de las características de mayor importancia de las estaciones sarrapieras es que todo lo que se ‘vendía’ en ellas era intercambiable únicamente por las semillas de sarrapia sin la mediación del dinero oficial. En un contexto donde la circulación de dinero era muy limitada, las estaciones en el Orinoco Medio asumieron un tipo de intercambio claramente caracterizado por el trueque. Aunado a este modo de intercambio, la relación entre la empresa y los recolectores estuvo mediada por el sistema de avance, endeude o débito y peonaje19, por lo que las mercancías ofrecidas en la estación eran generalmente otorgadas a crédito. A diferencia de las expresiones que tomó la institución del débito y peonaje en la economía política del caucho, la experiencia de los Mapoyo con la sarrapia, al menos durante la primera mitad del siglo XX, no llegó a desarrollar una tendencia destructiva. Aunque las mercancías entregadas en las estaciones eran despachadas con precios sumamente encarecidos que beneficiaban abiertamente a los comerciantes, las deudas adquiridas en la estación no buscaban ‘enmascarar’ relaciones esclavistas, ni asegurar coercitivamente la fuerza de trabajo. La fuerza laboral llegaba por voluntad propia, y posiblemente, la finalidad de los avances consistía en garantizar el retorno de la deuda ahora convertida en sarrapia. Las deudas adquiridas en la estación estaban muy bien ordenadas y, casi siempre, los sarrapieros lograban librarse de sus compromisos cada temporada. Antes y durante las labores de recolección, los sarrapieros pedían en la estación adelantos de todo aquello que consideraban necesario para efectuar la recolección o simplemente consumir por gusto. Para establecer un control adecuado de las cuentas, los representantes de la empresa hacían una lista de los trabajadores deudores a los que se les adelantaba o ‘fiaba’ los alimentos que demandaban los sarrapieros. Los registros de estas deudas eran llevados por los estacioneros en grandes cuadernos similares a un libro de actas. En los libros se

escogía una página para cada persona, pero por lo general la deuda de un recolector era la deuda de un grupo familiar. Las páginas indicaban las cantidades de sarrapia recibida y la entrega de los productos manufacturados. Una vez saldados los adelantos, los recolectores que sabían leer y escribir firmaban en estos cuadernos. En caso de no saber escribir, los sarrapieros dejaban su huella y sus nombres eran tachados con una raya. Luego de saldar la deuda, la sarrapia que seguía siendo depositada por los recolectores en la estación era canjeada directamente por más mercancías o por vales que debían ser cambiados posteriormente por dinero. En vista de que en la estación sarrapiera “[…] el estacionero no manejaba dinero sino mercancía […]”20, este no podía efectuar los pagos monetarios a los trabajadores. Tanto en El Palomo como en algunas regiones cercanas como Caicara, los antiguos sarrapieros han mencionado la existencia de un sistema de tickets, fichas o vales como modo de pago indirecto en las estaciones. Además de los cuadernos de registros, los estacioneros poseían un talonario de dónde se emitían estos vales, que indicaban la cantidad de dinero que debía cobrar cada sarrapiero por su trabajo. Los vales funcionaban para ser cambiados por dinero cuando los miembros de las empresas se acercaban a las sub-estaciones a ‘arreglar cuentas’. Los recolectores también podían arribar a la estación central, la cual operaba como una especie de taquilla de cobro donde sí existía fluidez de dinero oficial. Al parecer, durante el tiempo de las estaciones sarrapieras no existía un sistema rígido de cobro para los recolectores morosos. Cuando los recolectores no eran solventes, estos tenían la posibilidad de pagar su deuda al año siguiente. Adicionalmente, las cuentas no podían pagarse con dinero sino con semillas de sarrapia. Los empresarios preferían posponer el pago en sarrapia antes que saldar una deuda con dinero. Estos sabían que los precios de la

Las relaciones de débito y peonaje en el Orinoco Medio comenzaron luego de la Guerra de Independencia y de la salida de las órdenes misioneras. Las poblaciones indígenas y los descendientes de ellas no sólo experimentaron este tipo de relaciones de trabajo con el caucho y la sarrapia, sino también con la producción ganadera, agrícola y la elaboración de casabe (Scaramelli, F., 2005). 20 Simón Bastidas, entrevistado por Gabriel Torrealba, El Palomo, 23 marzo 2010. 19

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sarrapia otorgaban beneficios muy superiores al costo de las mercancías entregadas a los recolectores aún con precios sumamente encarecidos. Así, podría decirse que dentro del sistema de las estaciones sarrapieras no existió una situación de ‘deuda ficticia’ como en ciertos lugares ocurrió con la extracción del caucho. Según los Mapoyo, no existieron casos de deudas impagables en donde las transacciones eran manipuladas para mantener atados a los recolectores. Las deudas constituían acuerdos morales entre patrones y recolectores que eran casi siempre resueltos por las partes involucradas de manera pacífica.

LA SARRAPIA COMO DINERO La escasez de dinero convencional y el uso de la sarrapia como única forma de pago (de deudas) y de compra de artículos en el ‘circuito de relaciones’ de las estaciones sarrapieras, convirtió a estas semillas en una nueva forma de dinero en el Orinoco Medio21. La sarrapia es uno de los tantos casos a nivel mundial en el que un producto agrícola o forestal adquiere las propiedades del dinero. En la literatura antropológica que se ha interesado por temas económicos, usualmente se define al dinero como un objeto que tiene los siguientes propósitos: 1) medio de cambio; 2) modo de pago; 3) estándar de valor común (unidad abstracta); y 4) almacenador de riqueza (Dalton, 1965; Moreno Feliu, 1991). De acuerdo con Polanyi (1976, p. 173), “El dinero, por tanto, se define aquí como los objetos cuantificables que se utilizan en uno o varios de estos usos”. Durante su auge comercial, la sarrapia sufrió una gran transformación en la que pasó de ser una simple mercancía a cumplir tres de estas funciones monetarias: medio de cambio, forma de pago y almacenador de riqueza. En vista de que el modo de intercambio dominante en las estaciones sarrapieras fue el sistema de créditos y deudas, la principal función monetaria de la sarrapia consistió en servir de

medio de pago de los artículos adelantados. Sin embargo, no era la sarrapia sino el dinero oficial el que funcionaba como estándar de valor en las transacciones. Esto obligaba a los recolectores a hacer equivalencias con las que podían calcular de forma aproximada cuántas mercancías podían obtener por kilos o quintales de sarrapia, siempre de acuerdo a los precios de los artículos en la estación. Por otra parte, los antropólogos han hecho también una distinción entre dinero de “[...] propósitos generales [...]”, o aquel que cumple con todos los usos asignados al dinero (como las monedas nacionales), y un dinero de “[...] propósitos específicos [...]”, es decir, un objeto que sólo cumple algunas de las funciones monetarias (Polanyi, 1976, p. 173-175; Bohannan, 1967, p. 124, traducción nuestra). El dinero de propósitos generales puede ser intercambiado por casi cualquier cosa, mientras que el dinero con propósitos específicos sólo puede cambiarse por ciertos objetos en esferas de intercambio restringidas (Bohannan, 1967). La sarrapia se convirtió en un tipo de dinero que estuvo generalmente restringido a un contexto espacial y temporal específico. La fórmula de cambio: sarrapia (kilos) = cualquier mercancía de la estación estuvo usualmente limitada a los espacios del área de recolección y a la duración de la temporada. La sarrapia dio a sus poseedores un gran poder de intercambio, pero siempre constituyó un dinero de propósitos limitados pues no era un “[...] dinero a tiempo completo [...]” (Dalton, 1965, p. 48). Otras de las definiciones del dinero realizadas por antropólogos y economistas han hecho énfasis en ciertos requisitos tangibles de los objetos que se convierten en dinero. Por lo general se ha establecido que el dinero debe tener estos atributos: 1) Utilidad y valor; 2) Portabilidad; 3) Indestructibilidad; 4) Homogeneidad; 5) Divisibilidad; 6) Estabilidad de valor; y 7) Recognoscibilidad (Moreno Feliu, 1991). Si bien el proceso en el que ciertas sustancias

De acuerdo con Avendaño y Sanblás (1995), este fenómeno ocurrió en todas las regiones sarrapieras. A principios del siglo XX el valor de la sarrapia y su intercambio directo por mercancías la convirtieron en una especie de dinero que podía funcionar como forma de pago casi generalizado. La sarrapia era un rubro que “[...] fungía como moneda [...]” en Ciudad Bolívar, donde los comercios tenían balanzas para pesar la sarrapia y recibirla como forma de pago por otros productos (Avendaño; Sanblás, 1995, p. 71).

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se convierten en dinero no está necesariamente atado al cumplimiento de todas estas propiedades físicas, la sarrapia contaba con varias de ellas. Las semillas de sarrapia eran fáciles de almacenar, pues siendo bien cuidadas éstas pueden perdurar por años. Esta cualidad permitía a los recolectores y empresarios poder retrasar su entrega hasta esperar el anuncio de mejores precios. Por otra parte, debido a su ligereza, las almendras eran objetos transportables y su pequeño tamaño permitía hacerla divisible. Además, las semillas de sarrapia son fácilmente reconocibles a la vista y al olfato, ya que cuentan con una cualidad mayormente homogénea. Si bien la sarrapia cumplía con todas estas propiedades en término físicos, el factor determinante en la transformación de estas semillas en dinero es en realidad el contexto social y la situación mercantil específica de las estaciones. A través de los relatos escuchados a los habitantes mayores en varias comunidades del Orinoco Medio pudimos obtener información sobre otros usos de la sarrapia como sustituto del dinero convencional. Entre los recolectores fue frecuente escuchar sobre juegos de apuestas en las estaciones y los sarrapiales en los que la sarrapia funcionaba como forma de pago. Generalmente, estas reglas sólo se aplicaban al contexto de la estación, pero la aceptabilidad de la sarrapia como medio de cambio casi general podía ser reconocida en algunos poblados alejados de las zonas de extracción.

ESTACIONES SARRAPIERAS Y CONSUMO Para los mapoyo y otros grupos del Orinoco Medio, las estaciones sarrapieras fueron fundamentalmente una forma de acceder a nuevas oportunidades de consumo.

El acceso a bienes importados era para los trabajadores la razón de ser de su participación en el sistema de endeudamiento de las estaciones sarrapieras. Sin embargo, el incremento en el consumo de bienes industriales no debe ser interpretado de ninguna forma como la pérdida de 'autenticidad' de las culturas indígenas o una amenaza a sus modos de vida (Gordon, 2006, 2010a, 2010b; Howard, 2002; Velthem, 2002)22. En algunos casos, la llegada de una gran variedad de mercancías a las zonas de producción sarrapiera reforzó hábitos de consumo que se habían consolidado en un período anterior a las estaciones; en otros, las estaciones propiciaron la aparición de nuevas ‘necesidades’ y deseos entre los grupos indígenas. Entre los mapoyo buena parte del interés por trabajar en las estaciones sarrapieras estuvo motivado por el acceso a alimentos importados y sustancias altamente deseadas como el azúcar y la sal. La situación de contacto propiciada por las estaciones sarrapieras produjo que criollos e indígenas influenciaran mutuamente sus hábitos alimenticios y propiciaran nuevas formas de consumir alimentos ya conocidos. La evidencia material más notoria de este hecho es la extrema abundancia en el registro arqueológico de alimentos enlatados y bebidas embotelladas de finales del siglo XIX y principios del siglo XX. Estas manufacturas están estrechamente ligadas al sistema de débito y peonaje, ya que constituían el pago por el trabajo indígena en las estaciones sarrapieras y el cultivo de otros rubros como la caña o la yuca (Scaramelli, F.; Tarble, 2005b). Estas mercancías eran precisamente las que fluían en dirección opuesta a la salida de las materias primas desde los bosques. Más allá del deseo por obtener alimentos importados, la preocupación más recurrente entre los mapoyo durante

En los estudios de la antropología revisionista se ha podido constatar que los sistemas de valor e intercambio indígenas tienen la capacidad de incorporar artículos de consumo masivo sin necesidad de suprimir sus economías “[...] tradicionales [...]” (Miller, 1995, p. 268, traducción nuestra). El deseo por estos bienes, que fueron considerados como erosionadores de su cultura, no debe ser entendido como una respuesta automática ante su disponibilidad. En cambio, éste deseo está culturalmente condicionado y pertenece a circunstancias históricas particulares (Dietler, 1995; Sahlins, 2000; Scaramelli, F.; Tarble de Scaramelli, 2005a). En el caso de Brasil, Cesar Gordon explica cómo los Kayapó han incorporado bienes industriales y dinero a sus propias formas de reproducción social. Este autor realiza una crítica a los paradigmas de la aculturación y la resistencia para explicar el deseo indígena por los bienes industriales, aludiendo a factores socio-cosmológicos como centrales en la inserción de estos bienes (Gordon 2006).

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el auge de la sarrapia fue la adquisición de vestimenta. Al preguntar por el gasto del dinero obtenido con la sarrapia, los ancianos mapoyo mencionaban frecuentemente a la compra de ropa. Los indígenas mapoyo asumieron la vestimenta criolla como propia durante el período republicano y ya para la primera mitad del siglo XX ésta era una imperiosa necesidad (Scaramelli, F., 2005). La adopción de la ropa al estilo occidental por parte de los Mapoyo se fue gestando gradualmente durante un largo proceso de “[...] colonización de la consciencia [...]” (Comaroff, Jean; Comaroff, John, 1989, p. 267-296, traducción nuestra) dentro del sistema de valores locales. Los conceptos indígenas de belleza corporal, constitución de la persona, adornos y atuendo comenzaron a cambiar como producto del contacto prolongado con los colonos europeos y criollos. Es en ese momento cuando la vestimenta y otros adornos son incorporados a los esquemas estéticos locales (Scaramelli, F.; Tarble de Scaramelli, 2005a). Cuando el uso de este tipo de vestimenta se consolida en la primera mitad del siglo XX, uno de los principales mecanismo de acceso a estos bienes fue la extracción de productos forestales como la sarrapia (Scaramelli, F.; Tarble de Scaramelli, 2005a). Los Mapoyo podían adquirir ciertas cantidades de ropa a través del trato con comerciantes ribereños llamados ‘bongueros’, pero la mayoría de las veces, la ropa era adquirida a través de viajes a la población fronteriza de Puerto Carreño en Colombia. Cuando el trabajo realizado durante la recolección de sarrapia dejaba ganancias monetarias, buena parte de este dinero se gastaba para adquirir vestiduras o telas para elaborar ropa. Debido a la ausencia de otras formas de obtener estas prendas en la zona, Puerto Carreño en Colombia se convirtió en el punto más cercano destinado a este tipo de compras. Para llegar a este sitio los mapoyo se trasladaban en embarcaciones por el río Orinoco en un viaje de 5 días, esfuerzo que sugiere que la vestimenta se convirtió en una preocupación de primer orden23.

Tras la instalación de las estaciones, comenzaron a circular otros productos que fueron insertados dentro de las nuevas prácticas corporales de los mapoyo. De acuerdo con investigaciones pasadas (Scaramelli, F., 2005; Falconi, 2003), la evidencia material del período republicano en el Orinoco Medio muestra una significativa presencia de artefactos de vidrio como botellas de perfumes y medicinas. Este material ha sido ubicado temporalmente en los años del inicio del auge sarrapiero (último tercio del siglo XIX y principios del siglo XX) e indican el consumo de estos bienes en fechas mucho más tempranas de lo que indica la historia oral de los mapoyo. Debido a esta coincidencia cronológica, es muy probable que la población indígena haya comenzado a consumir este tipo de mercancías con la llegada de las estaciones sarrapieras y el intercambio con comerciantes criollos. Los cosméticos adquiridos por los recolectores, como perfumes y jabones, posiblemente contenían extractos químicos derivados de la sarrapia y otros productos aromáticos. De ser así, las estaciones sarrapieras podían convertirse paradójicamente en el principio y final de la ruta comercial de ciertos productos y manufacturas.

FIN DE LAS ESTACIONES SARRAPIERAS La era de las estaciones sarrapieras llega a su fin en los años 60 del siglo XX. La demanda internacional de semillas de sarrapia comienza a declinar en los años 40 debido en gran medida a la aparición de nuevas sustancias sintéticas. A finales de los años 50, el Estado venezolano se apodera del control total de la industria sarrapiera y reanima su producción a través del Instituto Agrario Nacional. Sin embargo, a mediados de la década del 60 el Gobierno no pudo encontrar mercados donde colocar la sarrapia recolectada. El producto no llegó a exportarse y las cosechas se perdieron en los puertos venezolanos. Las autoridades ordenaron la interrupción completa de las actividades sarrapieras en el

La ropa occidental ha adquirido una importancia crucial entre muchos grupos indígenas del continente. De acuerdo con Erick Langer, en el siglo XIX la vestimenta europea se convirtió en un ítem que proveía el prestigio que los indígenas adjudicaban al hombre blanco y creó una distinción física visible que separó identitariamente a unos grupos aborígenes de otros (Langer, 2000).

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año 1964, luego del fracaso de las políticas administrativas implementadas por el Estado (Fuentes Guerrero, 1980; Henley, 1983, 1975). A una escala mayor, el fin de la gran era extractivista coincide con el despliegue de los planes agrarios desarrollistas en América Latina durante los años 60 y el debilitamiento del sistema patrón-cliente como modo de relación económica dominante en toda la Amazonía rural (Burkhalter; Murphy, 1989). A raíz de este colapso, la agricultura y la ganadería ganarían espacio como las principales actividades productivas. Entre los mapoyo, el fin de las estaciones sarrapieras es un hecho muy bien recordado por los mayores y marca la conclusión de un período importante de su historia colectiva. Usualmente, entre estas personas se escucha decir que la llegada del Instituto Agrario Nacional trajo consigo los más altos precios pagados por la sarrapia, pero también el fin de la antigua era sarrapiera, pues “no vinieron a hacer más estaciones”24. Algunos son más precisos al indicar una fecha y aseguran que la última estación sarrapiera se construyó en el año 1965. Se inicia a partir de ese momento un período de relativa inactividad en la producción de sarrapia que sólo fue reactivado en algunos momentos de la década siguiente a un volumen de producción bastante menor. Durante los años 70 algunos comerciantes compraron las cosechas de sarrapia de la zona mapoyo sin levantar estaciones receptoras. Asimismo, algunos empresarios de Caicara del Orinoco financiaron el montaje de pequeñas bodegas en los poblados del territorio mapoyo con el fin de adquirir sarrapia para la exportación. No obstante, estas bodegas sólo funcionaron por pocos años. Los habitantes de El Palomo mantenían la costumbre de seguir llamando ‘estaciones’ a estas bodegas y ‘estacionero’ a su encargado. De allí que algunos habitantes afirmen que la última ‘estación sarrapiera’ funcionó en el año 1978. Si bien el fin de las estaciones sarrapieras se produce en 1965 luego de la retirada del Instituto Agrario Nacional, algunas estaciones resurgen en un segundo momento en los

años 80, pero esta vez restringidas a zonas específicas y con un poder de despliegue bastante menor. Este resurgimiento fue responsabilidad de uno de los comisionados que prestaba servicios a las empresas exportadoras y que desarrolló una particular predilección por mantener las estaciones como mecanismo de movilización laboral. Estas últimas estaciones sarrapieras desaparecen de manera definitiva en 1997 en la zona de Los Pijiguaos. A pesar del declive del sistema de las estaciones en el Orinoco Medio, la extracción de sarrapia continuó siendo (hasta hoy en día) una de las actividades económicas practicadas por los Mapoyo. La desaparición de las estaciones no implicó la paralización total de las tareas de recolección de estas semillas. Sin embargo, el trabajo asalariado, y prácticas productivas como la agricultura y la pesca orientadas hacia el mercado tomaron mayor protagonismo desde los años 80. Desde esta década, la Corporación Venezolana de Guayana (CVG), empresa estatal destinada al desarrollo del Sur de Venezuela, ha explorado el territorio mapoyo sistemáticamente. Como resultado de estas exploraciones se descubrió que las montañas de gran parte del territorio mapoyo contenían vastas reservas de bauxita. El descubrimiento de la minas de bauxita cambiaría el panorama de la región por completo (Scaramelli, F., 2005).

CONSIDERACIONES FINALES El estudio de las estaciones sarrapieras nos ha permitido develar una importante faceta dentro de las nuevas realidades surgidas en el Orinoco Medio a raíz del apogeo de las economías extractivas de exportación (1870-1960). Quizás el elemento más llamativo de este fenómeno histórico es el aparente contraste entre el modo de explotación de la sarrapia y la cruenta violencia de la empresa cauchera en la Amazonía. El carácter nodestructivo de las actividades sarrapieras en Venezuela supone la existencia de una gran diversidad de contextos geográficos e históricos vinculados al extractivismo en

José Reyes, entrevistado por Gabriel Torrealba, El Palomo, 28 enero 2010.

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Suramérica que necesitan ser examinados más allá de los escenarios del terror cauchero25. Los indígenas mapoyo, por su parte, representan un buen ejemplo de la intervención y la agencia indígena dentro de las dinámicas de las economías extractivas en Suramérica. Entre los mapoyo, las estaciones sarrapieras se convirtieron en un escenario de reproducción e interacción social, innovación y no de disrupción cultural. Los esquemas culturales y modos de organización social de los mapoyo se pusieron a prueba en el contexto de nuevas prácticas económicas y una nueva situación de contacto con forasteros. Sin embargo, sostenemos que la recolección de sarrapia no destruyó la estructura social de la comunidad tal como solía suceder con muchas sociedades amerindias inmersas en las economías caucheras. Por otro lado, a diferencia de lo establecido por los viejos esquemas aculturacionistas, la mercantilización de la sarrapia en el Orinoco Medio no significó para las sociedades indígenas una situación de ‘tránsito’ hacia a una economía comercial totalmente dependiente del mercado. Ello se debe en parte al carácter estacional de la explotación de la sarrapia, aspecto que mantenía en pie las economías locales de subsistencia. Adicionalmente, ciertas unidades sociales familiares podían haber propiciado la división de tareas con el propósito de mantener simultáneamente actividades de subsistencia y actividades comerciales durante las temporadas de recolección. De cualquier modo, la incorporación del extractivismo en la economía política del territorio mapoyo condujo así a la diversificación del conjunto de prácticas productivas entre las comunidades rurales. Con el tiempo, la extracción comercial de sarrapia se instituyó como otra de las actividades tradicionales de muchos grupos indígenas. Las estaciones sarrapieras son también una muestra de la gran variabilidad que experimentó el extendido

sistema del avance o endeude en el continente americano. Todo parece indicar que el mecanismo del peonaje por débito practicado por las estaciones sarrapieras tuvo definitivamente una expresión menos hostil en comparación con el régimen cauchero. Según los testimonios recogidos en varias zonas del Orinoco Medio, las deudas en las estaciones eran acuerdos generalmente respetados por las partes involucradas. En el caso mapoyo, los relatos sobre su experiencia en el intercambio con las estaciones no registran sucesos asociados a la manipulación de las cifras de las deudas ni castigos físicos derivados de su incumplimiento. Si ocurrieron eventos ligados al engaño de los recolectores, o al trabajo forzado, estos se han visto ensombrecidos en la memoria por el principal beneficio obtenido de las estaciones: el consumo de bienes industriales. Finalmente, entre los Mapoyo el proceso de ‘profesionalización de la extracción’ se convirtió en un elemento notable de la identidad del grupo. La consolidación de la figura del trabajador sarrapiero ha sido una imagen que ha caracterizado a los mapoyo por mucho tiempo. En el contexto de su interacción con las economías extractivas, los Mapoyo asumieron roles como el de ‘sarrapieros’, ‘estacioneros’ y ‘administradores’ que se convirtieron en nuevas categorías de clasificación para las poblaciones indígenas entre los siglos XIX y XX. Del mismo modo, la época de la sarrapia constituye un lugar de la memoria local que alberga importantes relatos dentro de la tradición oral mapoyo. Historias asociadas a asesinatos en contextos extractivistas, enfermedades sobrenaturales, y agentes no-humanos que ponían en peligro la vida de los sarrapieros son comunes entre las poblaciones indígenas y no-indígenas el Orinoco Medio. Los sarrapiales, por su parte, sustentan buena parte de la construcción simbólica de su territorio así como del uso

Sin embargo, las diferencias registradas entre las formas de extracción del caucho y la sarrapia no deben entenderse como dos modelos abiertamente delineados y excluyentes. La extracción de la sarrapia pudo haber estado acompañada de prácticas coercitivas en otras regiones de Venezuela y Suramérica en otros momentos históricos. Del mismo modo, la extracción de látex pudo haber estado dirigida por modelos no-destructivos en otros contextos geográficos y temporales. El caso de la sarrapia en el Orinoco ilustra cómo el espectro de la violencia en los frentes extractivos Amazónicos tuvo una gran variabilidad que requiere ser estudiada a fondo a través de nueva evidencia (Wasserstrom, 2017).

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y construcción del espacio. Este cuerpo de significaciones vinculadas a la sarrapia son incorporadas a su vez a sus discursos políticos sobre reivindicaciones territoriales e identitarias. Si bien la recolección de sarrapia persiste hoy en día como una actividad económica menor, para muchos ancianos mapoyo esta práctica pertenece a un pasado al que se alude con nostalgia y cuya característica distintiva fueron las estaciones sarrapieras.

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Conhecimento ecológico tradicional da ictiofauna pelos quilombolas no Alto Guaporé, Mato Grosso, Amazônia meridional, Brasil Traditional ecological knowledge of fish fauna in quilombolas on the Alto Guaporé, Mato Grosso, Southern Amazonia, Brazil Joari Costa de ArrudaI, Carolina Joana da SilvaI, Nilo Leal SanderI, María Teresa PulidoII I II

Universidade do Estado de Mato Grosso. Cáceres, Mato Grosso, Brasil

Universidad Autónoma del Estado de Hidalgo. Pachuca, Hidalgo, México

Resumo: O objetivo desta pesquisa foi estudar o conhecimento ecológico tradicional (CET) relacionado à pesca feita por grupo étnico autoidentificado como quilombola, por meio da análise de fatores que influenciam o consenso cultural e as técnicas da pesca artesanal. Participaram 24 homens e sete mulheres dos quilombos Retiro, Boqueirão, Casalvasco e Manga. Os métodos de amostragem utilizados foram: bola de neve, lista livre e observação participante. Os resultados incluem 47 etnoespécies (46 peixes e um réptil). O consenso cultural é composto por: Hoplias malabaricus, Cichla sp., Pseudoplatystoma fasciatum, Astronotus ocellatus, Satanoperca pappaterra, Brycon cephalus, Piaractus mesopotamicus, P. corruscans, Pimelodus sp., Colossoma macropomum, Pygocentrus nattereri, Mylossoma aureum, Astyanax sp. e Leporinus freiderici. Embora tenha sido maior a riqueza do conhecimento entre pessoas que residiram temporariamente em outros estados brasileiros, este aspecto não esteve relacionado à idade dos entrevistados. A manutenção e a transmissão de CET é propiciada por contato diário com peixes e com o rio desde criança, bem como por observação das práticas de pesca em grupo. O CET é parte da identidade e representa uma herança cultural que deve ser valorizada. É necessária a participação desses atores sociais nos planos de decisão e de gerenciamento de áreas protegidas. Palavras-chave: Amazônia. Pesca de subsistência. Quilombo. Abstract: The objective of this research was to study the traditional ecological knowledge (TEK) related to fishing among the ethnic group self-identified as quilombola people, and it included analysis of factors influencing the cultural consensus and techniques used in artisanal fishing. Twenty-four men and seven women from the Retiro, Boqueirão, Casalvasco and Manga quilombo communities participated. Sampling methods included snowball, free listing, and participant observation. The results include a list of 47 ethnospecies (46 fish and one reptile). The cultural consensus is composed of: Hoplias malabaricus, Cichla sp., Pseudoplatystoma fasciatum, Astronotus ocellatus, Satanoperca pappaterra, Brycon cephalus, Piaractus mesopotamicus, P. corruscans, Pimelodus sp., Colossoma macropomum, Pygocentrus nattereri, Mylossoma aureum, Astyanax sp., and Leporinus freiderici. While the wealth of knowledge tended to be greater among people who resided temporarily in other Brazilian states, this was not related to the age of the interviewees. The maintenance and transmission of TEK stems from daily contact with fish and the river, from childhood on, as well as observation of group fishing practices. TEK is part of their identity and represents a valuable cultural heritage. Participation by these social actors in decision-making and management plans for protected areas is necessary. Keywords: Amazon. Subsistence fishing. Quilombo.

ARRUDA, Joari Costa de; DA SILVA, Carolina Joana; SANDER, Nilo Leal; PULIDO, María Teresa. Conhecimento ecológico tradicional da ictiofauna pelos quilombolas no Alto Guaporé, Mato Grosso, Amazônia meridional, Brasil. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 13, n. 2, p. 315-329, maio-ago. 2018. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1981.81222018000200004. Autora para correspondência: María Teresa Pulido. Universidad Autónoma del Estado de Hidalgo. Centro de Investigaciones Biológicas. Laboratorio de Etnobiología. Carretera Pachuca-Tulancingo, km 4,5, s/n. Pachuca, Hidalgo, México. Caixa postal: 42184 (mtpulido@yahoo.com). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1307-9574. Recebido em 27/09/2017 Aprovado em 21/03/2018

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Conhecimento ecológico tradicional da ictiofauna pelos quilombolas no Alto Guaporé, Mato Grosso, Amazônia meridional, Brasil

INTRODUÇÃO Proteínas de origem animal fazem parte da dieta alimentar nas mais diferentes culturas, desde o primórdio da evolução (Figueiredo; Barros, 2016), possibilitando a conquista de novos espaços. Entre as proteínas, as provenientes do peixe são alimento do cotidiano em várias partes do mundo, sobretudo em grupos tradicionais (Johannes, 1989; Da Silva; Silva, 1995; Toledo et al., 2003; Murrieta; Dufour, 2004; Adams et al., 2005; Begossi, 2006; Xu et al., 2006; Ramires et al., 2007; Silva, 2007; Begossi; Silvano, 2008; Murrieta et al., 2008; Barros, 2012), conferindo a eles a possibilidade de se fixarem em diferentes lugares. Os grupos humanos habitantes da Amazônia e que conservam heranças tradicionais de conhecimentos têm na natureza o locus de onde retiram os recursos de origem vegetal e animal, necessários para a sua continuação no sistema cultural e ecológico. Johannes (1989, p. 40) descreve que “[...] atividades tradicionais decorrentes da relação de uso e dependência de recursos naturais incorporam conhecimentos dos processos do ambiente natural”. Segundo Diegues et al. (2000, p. 15), “[...] alguns consideram que as culturas e os saberes tradicionais podem contribuir para a manutenção da biodiversidade dos ecossistemas [...]”, ideia corroborada por Brandão e Da Silva (2008, p. 55), os quais afirmam que o “[...] conhecimento como o [resultante] da prática produtiva dos pescadores artesanais [...] traz consigo informações necessárias à sustentabilidade ecológica e econômica das comunidades [...]”. O conhecimento advindo dos pescadores tradicionais acerca dos elementos relacionados à pesca e às transformações que acontecem na paisagem local pode ser útil, ao fornecer informações essenciais para o arranjo de leis ambientais eficientes, visando, sobretudo, a assegurar existência de biodiversidade para gerações futuras, especialmente em países culturalmente e biologicamente megadiversos, como é o caso do Brasil. A garantia de alimentos para as populações urbanas, os grupos indígenas e as comunidades tradicionais está diretamente ligada à disponibilidade e ao acesso

à biodiversidade por grupos humanos locais (Da Silva; Silva, 1995; Begossi et al., 2002; Morais; Da Silva, 2010). Para Diegues et al. (2000, p. 15), “[...] esses saberes são o resultado de uma coevolução entre as sociedades e seus ambientes naturais, o que permitiu a conservação de um equilíbrio entre ambos [...]”. Ao se pesquisar a extensão dos 6.915.000 km2 da bacia amazônica, estima-se que nela habitam 2.000 espécies de peixes (Winemiller et al., 2008), além de se observar a existência de grande diversidade cultural indígena (Ricardo, B.; Ricardo, F., 2006) e não indígena (Diegues et al., 2000) nesta região. Essa diversidade está presente também em Mato Grosso, mencionada, por exemplo, por Silva e Sato (2010), que registraram a ocorrência de 45 etnias indígenas e 42 grupos sociais, configurando este estado como um dos mais diversos do país. Diante de tamanha riqueza cultural, observa-se que ainda existem lacunas no que se refere ao conhecimento de determinados grupos, por exemplo no que concerne à pesca realizada por quilombolas na Amazônia, no estado de Mato Grosso. No art. 2º do decreto federal n. 4.887/2003, consta a definição de quilombola como “[...] grupos étnicos raciais, segundo critérios de auto atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra [...]” (Brasil, 2003, p. 4). Os primeiros afrodescendentes que chegaram à Vila Bela da Santíssima Trindade na condição de escravos vieram, sobretudo, de Angola, Guiné, Sudão, Congo e Cabo Verde, negociados pela companhia Grão Pará e Maranhão, entre 1755 e 1778 (Salles, 1971; Volpato, 1996). Desde a fundação da cidade de Vila Bela da Santíssima Trindade (1752), os afrodescendentes interagem com o ambiente, conseguindo os recursos essenciais para sua sobrevivência e para sua resistência nos quilombos do século XVII. Vários recursos da flora (Arruda et al., 2014a, 2014b) e da fauna local estão intimamente ligados à dieta alimentar dos quilombolas. Dada a alta diversidade da ictiofauna, o seu intensivo uso na Amazônia, em conjunto com a riqueza do conhecimento tradicional das comunidades, inclusive

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das comunidades quilombolas de Vila Bela da Santíssima Trindade, e o inexistente registro sobre os meios de utilização desta riqueza, o presente trabalho visa fazer um levantamento acerca do conhecimento ecológico tradicional destas comunidades, analisando os fatores relacionados ao consenso cultural e às técnicas empregadas na pesca artesanal.

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ÁREA DE ESTUDO A pesquisa foi realizada com atores sociais das comunidades quilombolas Retiro, Boqueirão, Casalvasco e Manga, localizadas na zona rural do município de Vila Bela da

Santíssima Trindade, estado de Mato Grosso, na Amazônia meridional, com coordenadas 14º 02’ 00”-16º 14’ 00” Sul e 59º 24’ 00”-60º 33’ 40” Oeste (Figura 1), às margens do rio Guaporé. As comunidades são formadas pelos descendentes dos escravos que chegaram na região no século XVIII (Salles, 1971; Volpato, 1996). Com a mudança da capital da capitania para Cuiabá no ano de 1835, ficaram na região apenas os escravos mais velhos, os doentes e as crianças (Bandeira, 1988). Segundo Arruda (2013), as comunidades apresentam alto grau de parentesco. O município de Vila Bela da Santíssima Trindade localiza-se no Alto Guaporé, região de transição entre os domínios morfoclimáticos Amazônico e Cerrado

Figura 1. Localização da área de estudo, no município de Vila Bela da Santíssima Trindade, estado de Mato Grosso, Brasil. Mapa: Joari C. Arruda (2017).

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(Ab’Saber, 1967). De acordo com Ab'Saber (1967 apud Mariotti, 2015), a área caracteriza-se por exibir cobertura vegetal heterogênea com a seguinte composição: 30% de áreas de tensão ecológica, 50% de Floresta Estacional Semidecidual e 20% de Cerrado.

COLETA E ANÁLISE DE DADOS A pesquisa de campo, junto às entrevistas, foi realizada com 31 atores sociais, com equivalência de 77,5% das habitações das comunidades. Esta foi uma amostragem significativa, segundo a análise da curva de rarefação, calculada por meio do programa Past. Constituíram a amostra 24 homens e sete mulheres, selecionados por meio da técnica chamada de ‘bola de neve’ (snowball) (Goodman, 1961; Biernacki; Waldorf, 1981; Bernard, 2006), “[...] de modo que o quadro de amostragem cresce a cada entrevista [...]” (Bernard, 2006, p. 193). A primeira entrevista nas comunidades foi realizada com um informante-chave (Albuquerque; Lucena, 2004; Albuquerque et al., 2010): “[...] trata-se de uma pessoa, selecionada dentre os informantes, para colaborar mais ativamente na pesquisa, escolhida por critérios definidos pelo pesquisador [...]” (Albuquerque et al., 2010, p. 24), isto é, uma “[...] pessoa que oferece facilidade em conversar e que tenha conhecimento no objeto de interesse e que esteja disposto a dividir seus conhecimentos [...]” (Arruda, 2013, p. 36). O CET de peixes foi estudado por meio de entrevistas dos tipos livre e aberto, aprovada pelo comitê de ética em pesquisa (CEP), parecer número 1.693.970, nas quais constavam as seguintes perguntas: ‘o que é peixe?’; ‘tudo que tem na água é peixe?’; ‘quais peixes vocês conhecem?’; ‘quais peixes vocês pescam e quais iscas utilizam para pescar?’; ‘como vocês pescam?’; ‘como vocês usam esses peixes?’. Segundo Viertler (2002, p. 16), a entrevista: [...] é um artifício em que acontece uma afinidade de concessão equilibrada entre a visão êmica (do pesquisado) e a visão ética (do pesquisador), aonde o linguajar empregado pode ser mais ou menos aberto, de acordo com as características do grupo social a ser entrevistado.

A lista de peixes do domínio cultural foi obtida com auxílio da lista livre (free list) (Weller; Romney, 1988), analisada pelo programa Anthropac 4.0 (Bernard, 2006), através do ranqueamento de Smith (1993), escala de 0-1, obtido pela combinação da frequência e da sequência de relevância dos itens do domínio cultural. Itens mencionados em primeiro lugar na lista e por mais pessoas (com maior frequência) compõem elementos mais importantes de um domínio (Smith, 1993), cujos valores ficam mais próximos de 1. Intervalos entre os valores são as rupturas da lista livre, sendo formados pelos itens citados com as mesmas frequências e ordens na lista livre. As categorias de uso compartilhadas entre espécies também podem explicar o agrupamento (Galdino; Da Silva, 2009; Morais et al., 2009). Para que haja consenso cultural a respeito da lista, o valor do Pseudo-Reliability deve ficar mais próximo de 1.0 (Caulkins; Hyatt, 1999), possibilitando descobrir se as respostas foram culturalmente consensuadas; para isto, o primeiro fator tem que ser duas vezes maior do que o segundo (Borgatti, 1996; Bernard, 2006). Isso fornece, segundo Weller e Romney (1988, p. 9), um claro entendimento da definição e da fronteira do que está sendo estudado. Foi usado o escalonamento multidimensional (MDS). De acordo com Romney e Weller (1984), por meio das representações gráficas, pode-se evidenciar as similaridades, bem como o distanciamento dos entrevistados, com base nas respostas dadas por eles. Ainda segundo Romney e Weller (1984, p. 73), “[...] indivíduos mais parecidos ficam próximos no centro da imagem e menos parecidos, separados pela periferia da imagem”. O MDS foi calculado através do programa estatístico, utilizando-se o software PAST, versão 1.79 (Hammer et al., 2001). Para conhecer as práticas da pesca tradicional nas comunidades quilombolas, foram adotados os benefícios da observação participante (Geertz, 1989). O uso deste método permite ao pesquisador conviver com o grupo social estudado, conferindo uma vivência real dos acontecimentos. Nesta pesquisa, o primeiro autor participou de incursões de pescas entre os anos de 2015 a 2017, em períodos

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de cheias e de estiagens, junto a um informante ou em grupos compostos por duas a três pessoas. Os métodos e as análises ora mencionados demonstraram-se eficientes em trabalhos etnobiológicos realizados com comunidades tradicionais matogrossenses (Galdino; Da Silva, 2009; Morais et al., 2009; Morais; Da Silva, 2010; Ferraz; Da Silva, 2012; Arruda et al., 2014a, 2014b).

RESULTADOS E DISCUSSÃO A pesquisa registrou 47 etnoespécies conhecidas nas três comunidades quilombolas, entre as quais 46 são peixes e um réptil (sucuri), considerada por uma interlocutora como sendo peixe. Este número representa 28,77% do total inventariado na sub-bacia do Guaporé por Muniz et al. (2018). A curva de rarefação (Figura 2) indica que o número de entrevistas realizadas é satisfatório, com estabilização para ingresso de novas espécies na décima oitava entrevista. A lista livre apresentou cinco grupos ou rupturas (Apêndice). Nas três primeiras rupturas, encontram-se registradas quatorze espécies do consenso cultural. Na primeira, está a traíra (Hoplias malabaricus) e o tucunaré (Cichla sp.); na segunda, consta o cachara (Pseudoplatystoma

fasciatum), o caravaçu (Astronotus ocellatus), o cará (Satanoperca pappaterra) e o matrinchã (Brycon cephalus); e na terceira, está o pacu (Piaractus mesopotamicus), o pintado (Pseudoplatystoma corruscans), o bagre (Pimelodus sp.), o tambaqui (Colossoma macropomum), a piranha-vermelha (Pygocentrus nattereri), a pacupeva (Mylossoma aureum), o lambari (Astyanax sp.) e o piau-três-pintas (Leporinus freiderici) (Apêndice). São as espécies que apresentam os mais elevados índices de Smith, configurando-se, assim, como as que constam do consenso cultural (Caulkins; Hyatt, 1999). A Tabela 1, que representa a análise do consenso cultural, indicou haver concordância entre as respostas dos quilombolas sobre a diversidade de peixes do Guaporé, cuja probabilidade é de 83%, caracterizando, assim, um consenso do domínio cultural. Entre os fatores que possibilitam a ocorrência deste consenso estão inclusos o alto grau de parentescos e as condições econômicas similares entre os entrevistados. Estas condições também foram observadas por Morais et al. (2009), em comunidades pantaneiras, e por Arruda et al. (2014a), em comunidades quilombolas no vale do Guaporé. A análise do escalonamento multidimensional (MDS) (Figura 3) fornece uma representação das espécies do consenso cultural mais ao centro da imagem, com as demais espécies figurando no entorno da figura, a qual indica que houve semelhanças nas respostas dos homens e das mulheres acerca dos peixes consumidos pelas comunidades. Essas concordâncias explicam-se pelas relações estabelecidas entre todos os atores, como ocorreu nas indicações de local, de equipamentos e de iscas adequadas. Tabela 1. Análise de consenso sobre o domínio cultural de peixes na comunidade quilombola de Vila Bela da Santíssima Trindade, Mato Grosso, Brasil. Pseudo-Reliability = 0.830.

Figura 2. Curva de acumulação das etnoespécies de peixes citadas pelos quilombolas de Vila Bela da Santíssima Trindade, Mato Grosso, Brasil.

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Fator

Valor

Variância (%)

Cumulativo (%)

Razão

1

5.478

57.6

57.6

2.404

2

2.279

23.9

81.5

1.295

3

1.760

18.5

100.0

Total

9.517

100.0


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Assim, a pesca praticada tanto pelos homens quanto pelas mulheres nestas comunidades é oposta à descrita por Barros (2012), realizada pelos ribeirinhos do Riozinho do Anfrísio, em Altamira, Pará, a qual se configura como uma atividade masculina, na qual as mulheres ficam responsáveis apenas pelo preparo do pescado. A cooperação transcende o compartilhamento de informações acerca de locais e de iscas a serem usadas. As pessoas da comunidade também compartilham equipamentos de pesca e espécimes de peixes capturados. Isso faz parte do cotidiano desses locais, configurando-se como uma prática cultural de reciprocidade, o que também foi observado no compartilhamento de pescados em comunidades ribeirinhas no Pantanal (Da Silva; Silva, 1995), no Riozinho do Anfrísio, Pará (Barros, 2012) e na partilha de produtos de caças na comunidade quilombola de Joana Peres, no Pará (Figueiredo; Barros, 2016). Percebeu-se, por meio da lista livre, uma diferença significativa entre os gêneros e as condições de migrações

temporárias dos entrevistados. De modo geral, as espécies obtiveram valores de Smith diferentes entre homens e mulheres, sendo que, via de regra, listaram menos espécies de peixes (Figura 4). A traíra (Tr), o tucunaré (Tu), o matrinchã (Mt), o piau-três-pintas (Pt) e a piranha-vermelha (Ph) obtiveram maiores índices, sendo, de certa forma, pescados mais acessíveis à captura, não demandando equipamentos, iscas ou técnicas específicas. Entre os homens, cachara (Ch), caravaçu (Cç), cará (Cr), pacu (Pc), pintado (Pd), bagre (Br), tambaqui (Tb), pacupeva (Pv) e lambari (Lb) obtiveram maiores índices. Em geral, são espécimes com demanda de artifícios, técnicas e tempo para a escolha de iscas, lugares e equipamentos adequados. Ainda se observam os seis espécimes que não foram citados pelas mulheres – curimbatá (Co), jejum (Jj), piapara (Pb), abotoado (Ab), camboatá (Ct) e piau-onça (Po) –, principalmente usados como iscas, necessitando de técnicas e de equipamentos específicos para a sua captura, como redes e tarrafas. Isso é diferente do que ocorre em

Figura 3. Diagrama de escalonamento multidimensional (MDS), índice de Bray-Curtis, representando agrupamento do conhecimento das etnoespécies de peixes na comunidade quilombola de Vila Bela da Santíssima Trindade, Mato Grosso, Brasil. Os significados das siglas para os nomes de espécies de peixes constam no Apêndice.

Figura 4. Etnoespécies de peixes do Guaporé ranqueadas pelo índice de Smith por gênero. Os significados das siglas para os nomes de espécies de peixes constam no Apêndice.

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Ponta do Corumbau, na Bahia, onde 90% das mulheres relataram usar a rede como equipamento de pesca, de acordo com Di Ciommo (2007). A riqueza de conhecimento representada pelo número de peixes indicado pelos quilombolas não teve relação com a idade dos entrevistados, havendo uma diferença perceptível entre os entrevistados que já residiram em outros estados. As pessoas com a mesma faixa de idade que residiram em outras regiões tendem a conhecer maior número de espécies (Figura 5). No entanto, nota-se que o maior conhecimento foi apresentado por BL (62 anos), responsável pela listagem de 39 das 47 espécies da lista livre. Este ator não residiu em outras regiões do país, mas está em constante interação com turistas advindos de diferentes partes do Brasil e também de outros países, por desempenhar a função de guia local. Segundo Foladori e Taks (2004), as mudanças se originam do contato de uma cultura com outra.

O entrevistado IB (36 anos), o mais jovem desta amostra, apresentou conhecimento singular para a sua faixa de idade, sendo o terceiro na amostra geral, contribuindo com indicação de 28 espécies. O conhecimento verificado entres os jovens na atividade pesqueira foi observado também por Chamy (2004), na Reserva Extrativista do Mandira, em São Paulo, e por Clauzet et al. (2005), em comunidades caiçaras, evidenciando que este tema foi consistente entre diferentes faixas etárias, aspecto também observado por Costa-Neto e Marques (2000). Dessa forma, o conhecimento tende a ser mantido por meio de relatos orais, segundo Geertz (1989). A pesca é realizada em grupos de duas a quatro pessoas, contando com a participação de atores de diferentes idades. Este é o momento da pesca, onde são compartilhadas informações sobre as técnicas utilizadas, o que favorece a manutenção do conhecimento e a interação entre todos os envolvidos. Os quilombolas expressaram profundo conhecimento ecológico na prática da pesca tradicional, observado in loco durante as pescarias e também nas respostas aos questionamentos apresentados no tópico sobre coleta e análise de dados deste texto. Algumas respostas a essas indagações estão expressas nos relatos: Peixes são os bichos que vivem o tempo todo na água. O jiju consegue viver um tempo fora d’água, inclusive ele vai de uma represa para outra. A sucuri também é, acho que é peixe, ela vive na água com o peixe elétrico, que parece uma cobra, mas é peixe. (MF, 62 anos, ♀). Nem tudo que vive na água são peixes. Há bastantes bichos que vivem na água que não são peixes. Tem o jacaré, o caimãm, o tracajá, a capivara, a lontra, a ariranha, a sucuri, o boto. Todos esses vivem na água, mas não são peixes. (JL, 37 anos, ♂).

Figura 5. Diversidade de conhecimento de etnoespécies de peixes em Vila Bela da Santíssima Trindade, Mato Grosso, Brasil. Em vermelho, está assinalado o grupo de pessoas que já residiram em outro estado do país. As siglas são correspondentes às iniciais dos nomes dos entrevistados.

Entre os peixes mais citados, tucunaré, cachara, matrinchã, pacu, pintado e tambaqui são considerados nobres e de grande procura na pesca comercial, em razão do valor recebido, e na pesca esportiva, por serem caracterizados por diferentes grupos sociais no Brasil como agressivos e brigadores quando fisgados

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(Kitamura et al., 1999; Moraes; Seidl, 2000; Rotta, 2004; Freitas; Rivas, 2006; Ferraz; Da Silva, 2012). Para as comunidades pesquisadas, a carne desses pescados apresenta um sabor agradável, exceto em determinadas ocasiões nas quais certos peixes são evitados na alimentação. Quanto à restrição alimentar, os quilombolas consideram tucunaré, piranha, caravaçu e bagre como remosos1, os quais não são consumidos por mulheres grávidas ou que estão seguindo dietas alimentares, nem por pessoas enfermas. A traíra, por sua vez, é considerada um peixe manso2 e sem restrições para o consumo, como descreveu ML (64 anos, ♀): Se engana quem acha que pode comer todo tipo de peixe, tucunaré, piranha, caravaçu e os peixes de couro são remosos. Se a pessoa estiver fraca e comer esses peixes, fica de cama mesmo. A traíra tem uma carne saborosa, pode comer frita, cozida ou ensopada, [...] qualquer pessoa pode comer, não faz mal para ninguém, até mesmo para quem está doente.

Costa-Neto (2000), em uma comunidade afrodescendente na Bahia, obteve resultados similares com relação ao consumo de traíra. Já no que se refere ao consumo de piranha, houve divergência entre o presente artigo e a contribuição de Costa-Neto (2000), pois neste último os quilombolas a descreveram como mansa, enquanto no presente artigo registrou-se que a comunidade pesquisada a considera como um peixe remoso, sendo geralmente utilizado como isca, quando capturada. Segundo Marques (1991), o sucesso de uma pescaria depende, em boa parte, do conhecimento sobre o comportamento e a cadeia trófica do peixepresa. Nas comunidades quilombolas, a pescaria ocorre principalmente no início da noite, por meio do uso de iscas vivas em locais mais profundos do rio. Sobre as táticas para

captura de peixes e as suas preferências alimentares, os quilombolas descrevem: Os peixes de couro (bagres) são melhores para pegar a noite, [quando] eles saem para caçar na praia (lugares rasos). Pode usar minhoca e isca de peixe vivo ou morto. De dia, são mais enjoados, ficam dormindo nos poços (lugares mais profundos), aí tem que usar iscas vivas. (AR, 67 anos, ♂). A traíra é encontrada em qualquer lugar, represa, lagoa, canal. As do Guaporé e Alegre [rios locais] são maiores ficam embaixo dos tarope3. É um peixe que não tem frescura quando está com fome, [se] pega com qualquer isca [de] peixe vivo (lambari, cará ou outro peixe pequeno), pedaços de outros peixes ou carne. Agora, quando pescar com iscas mortas tem que ficar mexendo a isca, para ela [a traíra] pensar que a isca está viva ou doente. (ML, 64 anos, ♀).

Conhecer em detalhes a ecologia trófica dos peixes tem um caráter utilitário, “[...] uma vez que a inserção correta do item alimentar/isca otimizará o esforço da pesca [...]” (Marques, 1995, p. 211). O conhecimento sobre as cadeias tróficas pesqueiras apresentadas por comunidades locais foi descrito por Costa-Neto (2000), Costa-Neto e Marques (2000), Costa-Neto et al. (2008), Clauzet et al. (2005) e Brandão e Da Silva (2008). Os pescadores acumularam, portanto, informações relevantes sobre as espécies, especialmente quanto à sua participação na cadeia trófica do ecossistema aquático, sendo essas informações repassadas adiante. Quando estou pescando fico observando se tem fruteiras maduras que estão caindo na água. Nem todo peixe gosta de comer carne, tem uns que só comem frutas. Cada um tem preferência por um tipo de isca. A gente usa minhoca, essa não falha [usada para diversos tipos de peixes], gafanhoto, milho, fruteiras do rio, massinha, carne, peixes pequenos e iscas artificiais. (IB, 36 anos, ♂). Dá para pescar com um monte de coisas: antigamente nós usávamos pedaço de sacolas coloridas, palha de milho seco, borracha de

São alimentos que, na crença popular, apresentam energias negativas, sendo carregados. Por essa razão, devem ser consumidos com restrições por pessoas que se encontram debilitadas, pois acredita-se que dificultam a recuperação da saúde. 2 Oposto de remoso. 3 Nome atribuído pelos quilombolas para comunidades de vegetações aquáticas flutuantes e fixas, nativas ou introduzidas pelo homem. 1

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chinelo, para pescar tucunaré e matrinchã. Agora, para pescar, vai na cidade e compra iscas. Tem de vários tipos, umas até parecem com peixinho mesmo. (MC, 57 anos, ♂).

Quanto ao uso de iscas artificias, Costa-Neto e Marques (2000, p. 557) descrevem que o “[...] modo de influenciar o comportamento alimentar dos peixes provém da inserção de cadeias tróficas artificiais, resultantes do conhecimento da interação presa/predador”. Este tipo de comportamento foi definido como coevolução por Diegues et al. (2000), pois possibilita a organismos distintos a adaptação a diversos ambientes. Destaca-se que, para os quilombolas desta pesquisa, a pesca não tem efeitos diretos na fonte de renda, uma vez que não há pescadores profissionais nas comunidades. Esta atividade é caracterizada como uma importante fonte de proteína animal e tem um papel-chave na autossubsistência, já que os peixes, na maioria das vezes, representam a maior oferta de proteína animal advinda das espécies nativas da Amazônia, segundo Murrieta e Dufour (2004), Adams et al. (2005), Silva (2007), Murrieta et al. (2008) e Figueiredo e Barros (2016). Segundo informações repassadas e observadas in loco, o consumo de peixes pelos quilombolas está diretamente vinculado com as variações sazonais dos rios da região. A frequência do consumo é maior na seca, quando os rios apresentam pouco volume de água e há formações de lagos, deixando muitas espécies isoladas do canal principal. Já no período da cheia, de novembro a fevereiro, que coincide com a piracema, o consumo diminui. Em Mato Grosso, esse fenômeno é regulamentado pela resolução do Conselho Estadual da Pesca (CEPESCA) de n. 2, de 05/08/2016 (Mato Grosso, 2016), e pela lei n. 9.893, que autoriza “[...] a pesca artesanal de subsistência, desembarcada por populações ribeirinhas e/ou tradicionais [...]” (Mato Grosso, 2013, p. 1). Esse tipo de pescaria usualmente é efetivado individualmente ou por grupos de duas a três pessoas, com uso de equipamentos não sofisticados (Diegues, 1988).

Quando há início da temporada das chuvas, os rios transbordam, diminuindo as áreas acessíveis. Durante a piracema, segundo as legislações citadas (Mato Grosso, 2013, 2016), não é permitida a pesca embarcada nos rios e nos lagos. Os quilombolas pescam nos escassos locais acessíveis, onde há reduzida disponibilidade de espécies, o que afeta diretamente o consumo desses alimentos nas comunidades. Isso é diferente do que ocorre na ilha do Ituqui, no Pará, onde o consumo de peixe permaneceu estável em ambas as estações do ano em todos os domicílios pesquisados por Murrieta e Dufour (2004). De modo geral, a pesca nas comunidades quilombolas ocorre com uso de equipamentos artesanais, que, para eles, são eficientes, já que geralmente a pesca transcorre entre uma a duas horas, principalmente quando são capturadas traíras e piranhas. Nascimento e Guerra (2016) relatam que, em Abaetetuba, no estado do Pará, os peixes estão se tornando escassos, ocasionando maior tempo de deslocamento para encontrar os cardumes. Esta redução está ligada às práticas predatórias não seletivas na captura utilizada por alguns pescadores da região. O equipamento mais empregado na pesca pelos quilombolas é, no geral, uma linha resistente, cuja espessura varia entre 0,50-0,60 mm, sendo que, em uma das extremidades, é inserido um peso no anzol, feito com encastalho de metal, e na outra é amarrada uma vara de madeira resistente, leve e flexível, usualmente confeccionada com bambu. Equipamentos similares a este foram observados em uso por pescadores da Floresta Nacional do Amapá (Brandão; Da Silva, 2008). Quase sempre são materiais de menor impacto, cujo uso em longo prazo não tende a afetar rudemente a disponibilidade do estoque pesqueiro.

CONSIDERAÇÕES FINAIS O conhecimento demonstrado neste estudo pelos quilombolas é amplo, caracterizado pela diversidade de espécies de peixes mencionada por eles, bem como pelas práticas e pelos artifícios empregados na pesca. Evidências

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notadas in loco sugerem que essas informações estão sendo transmitidas há gerações entre os quilombolas. O método empregado permitiu constatar concordância cultural com relação às informações contidas na lista de peixes e também no que se refere às afinidades das respostas acerca da pesca. As relações de consanguinidade existentes entre os quilombolas das três comunidades desta pesquisa destacam a coparticipação na pesca e o compartilhamento de pescados capturados e de informações sobre os ambientes onde estão mais acessíveis, bem como sobre quais equipamentos devem ser usados, aspectos que tranquilamente corroboram a proposição deste artigo. Os quilombolas possuem extenso conhecimento ancestral no que diz respeito aos procedimentos empregados na pesca tradicional nas comunidades, aos ambientes e às espécies encontradas, bem como aos engodos mais apropriados para cada espécie. A proximidade com os peixes e os rios da região desde criança e a convivência com os mais experientes, aliada à observação de suas estratégias, corroboram a percepção quanto à afinidade que os quilombolas apresentam com a paisagem, evidenciada na forma como usam e manejam a biodiversidade local há décadas. O saber tradicional e as regras culturais, demarcadores de uma identidade, não são meros conhecimentos estanques, sendo, na realidade, uma herança cultural que deve ser valorizada por gestores, os quais precisam garantir o direito de participação das populações nos planos de manejo e de conservação que demandem a observação do conhecimento local e sua potencial contribuição, a fim de facilitar a efetivação de estratégias de conservação.

AGRADECIMENTOS Ao programa de doutorado da Rede de Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal (BIONORTE); à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (FAPEMAT), pela bolsa de doutorado (edital

n. 002/2015); à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela bolsa do programa de doutorado sanduíche no exterior (PDSE) (processo 88881.133724/2016-01); ao programa de pós-graduação em Biodiversidade e Conservação, do Centro de Investigações Biológicas, da Universidade Autónoma do Estado de Hidalgo, México, por receber o primeiro autor, em intercâmbio (doutorado sanduíche); aos quilombolas das comunidades Casalvasco e Manga, Boqueirão e Retiro, pelo conhecimento partilhado e pelas receptividades.

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327


Conhecimento ecológico tradicional da ictiofauna pelos quilombolas no Alto Guaporé, Mato Grosso, Amazônia meridional, Brasil

Apêndice. Lista livre das etnoespécies de peixes conhecidas e usadas nas comunidades quilombolas de Vila Bela da Santíssima Trindade, Mato Grosso, Brasil. Legendas: A = alimentar; I = isca; M = medicinal; Aq = aquarismo. Os números em negrito na lista indicam as rupturas ou os agrupamentos. (Continua) N

Etnoespécies Abreviação

Nome científico

Frequência Índice de Smith Categorias Ranque (%) (S) de uso

1

Traíra

Tr

Hoplias malabaricus (Bloch, 1794)

94

3,83

0,807

A, I, M

2

Tucunaré

Tu

Cichla sp.

87

3,22

0,781

A

3

Cachara

Ch

Pseudoplatystoma fasciatum (Linnaeus, 1766)

68

5,71

0,532

A

4

Caravaçu

Astronotus ocellatus (Agassiz, 1831)

81

9,16

0,505

A, I

5

Cará

Cr

Satanoperca pappaterra (Heckel, 1840)

77

9,21

0,481

A, I, Aq

6

Matrinchã

Mt

Brycon cephalus (Günther, 1869)

68

6,90

0,479

A

7

Pacu

Pc

Piaractus brachypomus (G. Cuvier, 1818)

68

9,38

0,400

A

8

Pintado

Pd

Pseudoplatystoma corruscans (Spix & Agassiz, 1829)

55

8,00

0,384

A

9

Bagre

Br

Pimelodus sp.

58

9,06

0,380

A, I, M

10

Tambaqui

Tb

Colossoma macropomum (Cuvier, 1818)

52

8,06

0,361

A

11

Piranhavermelha

Ph

Pygocentrus nattereri (Kner, 1860)

65

11,15

0,351

A, I

12

Pacupeva

Pv

Mylossoma aureum (Spix & Agassiz, 1829)

68

11,52

0,342

A

13

Lambari

Lb

Astianax sp.

58

11,44

0,314

A, I

14

Piau-trêspintas

Pt

Leporinus freiderici (Bloch, 1794)

65

13,75

0,284

A, I

15

Jatuarana

Jt

Brycon melanopterus (Cope, 1872)

32

7,10

0,238

A

16

Piranha-preta

Pp

Serrasalmus rhombeus (Linnaeus, 1766)

52

13,88

0,231

A, I

17

Arraia

Ar

Potamotrygon falkneri (Castex & Maciel, 1963)

45

12,14

0,229

A, M, Aq

18

Jaú

Ju

Zungaro zungaro (Humboldt & Valenciennes, 1821)

39

9,75

0,229

A

19

Caparari

Cp

Pseudoplatystoma tigrinum (Valenciennes, 1840)

39

10,75

0,221

A

20

Corvina

Cv

Plagioscion squamosissimus (Heckel, 1840)

52

13,0

0,217

A, I

21

Curimbatá

Co

Prochilodus nigricans (Spix & Agassiz, 1829)

45

14,21

0,204

A, I

22

Piauçu

Leporinus macrocephalus (Garavello & Britski, 1988)

52

14,50

0,200

A

23

Cachorrafacão

Cf

Hydrolycus scomberoides (G. Cuvier, 1819)

45

14,36

0,197

A

24

Peixe-novo

Pn

Pellona castelnaeana (Valenciennes, 1847)

48

14,60

0,181

A

25 Peixe-elétrico

Pe

Electrophoridae eletricus (Linnaeus, 1766)

55

16,59

0,177

M

26

Pl

Ageneiosus brevifilis (Valenciennes, 1840)

39

13,67

0,173

A

Palmito

27

Jiju

Jj

Erythrinus erythrinus (Bloch & Schneider, 1801)

32

13,80

0,160

A, I

28

Muçum

Synbranchus marmoratus (Bloch, 1795)

42

14,62

0,152

I

29

Guenza

Gz

Crenicichla lepidota (Heckel, 1840)

29

13,78

0,145

A, I

328


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 315-329, maio-ago. 2018

Apêndice. N

(Conclusão)

Etnoespécies Abreviação

Nome científico

Frequência Índice de Smith Categorias Ranque (%) (S) de uso

30

Cardinal

Cd

Paracheirodon axelrodi (Schultz, 1956)

39

15,17

0,144

Aq

31

Piapara

Pb

Schyzodon borelli (Boulenger, 1900)

35

13,70

0,139

A, I

32

Pirarara

Pi

Phractocephalus hemioliopterus (Bloch & Schneider, 1801)

32

14,45

0,139

A

33

Abotoado

Ab

Oxydoras niger (Valenciennes, 1821)

35

14,91

0,138

A, I

34

Cará-boi

Cb

Geophagus proximus (Calstenau, 1855)

35

14,73

0,137

A, I

35

Gorro

Gr

Liposarcus multiradiatus (Hancock, 1828)

32

16,80

0,119

A

36

Camboatá

Ct

Hoplosternum littorale (Hancock, 1828)

29

13,78

0,116

I

37

Piau-onça

Po

Leporinus fasciatus (Bloch, 1794)

29

15,44

0,115

A, I, Aq

38

Piranhaamarela

Pm

Serrasalmus maculatus (Kner, 1858)

29

15,78

0,101

A, I

39

Bagre-sapo

Bs

Trachelyopterus teaguei (Devincenzi, 1942)

19

14,33

0,086

A, I, M

40

Saicanga

Sg

Acestrorrynchus sp.

32

19,10

0,079

A, I

41

Sauá

Sh

Tetragonopterus argenteus (Cuvier, 1816)

29

16,89

0,077

A, I

42 Cará-bandeira

Bd

Pterophyllum scalare (Schultze, 1823)

13

14,25

0,055

Aq

43

Tuvira

Tv

Sternopygus macrurus (Bloch & Schneider, 1801)

29

21,22

0,053

I

44

Cachorra

Ca

Acestrorhynchus falcatus (Bloch, 1794)

13

16,50

0,052

A

45

Sardinha

Sr

Triportheus angulares (Spix & Agassiz, 1829)

39

19,58

0,048

A, I

46

Peixe-agulha

Pa

Loricaria sp.

19

21,17

0,047

I, Aq

47

Sucuri

Su

Eunetes sp.

3

23,00

0,001

A, M

Total/Média:

21.000

329


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 331-352, maio-ago. 2018

Paisagens e temporalidades em Serra Leste de Carajás Landscapes and temporalities in Serra Leste de Carajás Tallyta Suenny Araujo da Silva Universidade Federal do Pará. Belém, Pará, Brasil

Resumo: O artigo propõe-se a analisar a paisagem de Serra Leste de Carajás e seus diferentes períodos de ocupação de uma forma integrada, visto que cada momento deixou vestígios que compõem a paisagem desta região. O estudo de caso apresenta o contexto de 15 cavidades com vestígios de ocupação recente, sendo que quatro dessas também possuem vestígios das ocupações indígenas remotas preservados, juntamente com o contexto de áreas a céu aberto que serviram de acampamento ou de morada nos tempos pré-cabralinos e que hoje são utilizadas para o pastoreio. Assim, na Serra de Carajás hodierna, é possível encontrar evidências de ocupações de sociedades de caçadores-coletores, de horticultores, do período da garimpagem, entre outros. Baseando-se em correntes teóricas da paisagem que interpretam natureza e cultura de uma forma integrativa em longa duração, chama-se atenção para a questão de que a paisagem é um palimpsesto com memórias das diferentes ocupações, bem como de que suas camadas podem eventualmente se cruzar. Palavras-chave: Paisagem. Temporalidades. Ocupações. Serra Leste de Carajás. Abstract: The article analyzes the landscape of Serra Leste de Carajás and the different periods of occupation in an integrated manner, since each moment leaves traces that comprise the landscape of this region. This study presents the context of 15 caverns containing vestiges of recent occupation, four of which also have preserved traces of remote indigenous occupations, together with open areas that served as campsites or dwelling sites prior to the arrival of the Portuguese and today are used for livestock ranching. As a result, today in Serra de Carajás it is possible to find evidence of occupations by huntergatherers, farming societies, and gold miners, among others. Drawing on the theoretical approaches of the landscape that interpret nature and culture in an integrative way over the long term, the article emphasizes that the landscape is a palimpsest with memories of different occupations, and that the layers of these occupations may eventually intersect. Keywords: Landscape. Temporalities. Occupations. Serra Leste de Carajás.

ARAUJO DA SILVA, Tallyta Suenny. Paisagens e temporalidades em Serra Leste de Carajás. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 13, n. 2, p. 331-352, maio-ago. 2018. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1981.81222018000200005. Autora para correspondência: Tallyta Suenny Araujo da Silva. Universidade Federal do Pará. Travessa Mariz e Barros, 2765. Belém, PA, Brasil. CEP 66080-471 (tallytasuenny@gmail.com). ORCID: http://orcid.org/0000-0001-5430-6230. Recebido em 15/11/2017 Aprovado em 06/03/2018

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For both the archaeologist and the native dweller, the landscape tells – or rather is – a story, ‘a chronicle of life and dwelling’ (Adam, 1998, p. 54 apud Ingold, 2000a, p. 189, grifo do autor).

NATUREZA, CULTURA E TEMPORALIDADE EM CARAJÁS Ao final do século XVIII, a tendência vigente era de pensar a natureza e a ‘cultura’ como polos opostos. Nessa linha de separação, tornou-se comum falar de uma “[...] paisagem física [...]”, sinônimo da natureza, e de uma “[...] paisagem cultural [...]”, a antropizada (Silva, F., 1997, não paginado). Uma visão integrada dessas duas paisagens não era comum, e muito menos a noção de que quase toda a superfície do nosso planeta sofreu alterações por ações humanas, como mencionado por Sauer (1925), segundo o qual, em uma determinada paisagem, os fenômenos que a compõem não estão simplesmente reunidos, sendo associados e interdependentes. Cada fenômeno e suas associações são únicos, constituindo, assim, a individualidade de uma paisagem. Para o autor, para que se possa formar uma ideia sobre este elemento, é preciso considerar as relações associadas ao tempo e ao espaço, visto que uma paisagem está constantemente em processo de desenvolvimento, dissolução e substituição. Para Ingold (2000a), as vidas daqueles que habitaram a paisagem estão nela registradas. Seja em se tratando de ocupações de tempos remotos, seja de um passado mais recente, é possível encontrar diferentes tipos de registros das atividades realizadas pelas pessoas. Sauer (1925) e Ingold (2000a), portanto, chamam a atenção para o fato de que os fenômenos na paisagem são interdependentes, característica vital para o argumento que aqui será apresentado com relação à história de Carajás, aos seus

momentos de ocupações e à sua paisagem, em constante processo de desenvolvimento. Esta pesquisa insere-se em um projeto maior, que visa a analisar os distintos períodos de ocupação na área de Serra Leste de Carajás, focando em contextos escavados em sítios em cavidades, a céu aberto, e no garimpo de Serra Pelada, tendo como referencial teórico a ecologia histórica (Balée, 2006; Balée; Erickson, 2006; Crumley, 1994; Schaan, 2011; Descola, 2014), em complemento às proposições sobre paisagem presentes em vários escritos de Tim Ingold. Neste artigo, objetivamos refletir sobre a paisagem de Carajás integrando os elementos natureza/ cultura, os quais não podem ser dissociados no entendimento da história do habitar1 deste local. A partir dos referenciais teóricos que serão apresentados, argumentaremos sobre a importância de refletir em conjunto a respeito dos vários momentos do habitar nas paisagens de Carajás. Apesar da extensa bibliografia sobre paisagem presente em campos como Arqueologia, Antropologia, História, Geografia, entre outros, neste artigo será dado maior enfoque aos escritos de Tim Ingold, devido ao seu conceito de temporalidade das paisagens, e por considerar que a distinção entre natureza e cultura não é adequada para se falar das paisagens e do habitar nelas. Na concepção da paisagem de Ingold (2000a), o processo de vida dos seres vivos é também o de formação das paisagens, por isso o habitar é uma forma de constituição da paisagem, que, consequentemente, está intrinsecamente relacionada com o curso de passagem do tempo. Para abordar os diferentes momentos de ocupações na região de Carajás, foram utilizados, além de referências bibliográficas pertinentes aos temas, dados arqueológicos de relatórios de pesquisa, bem como documentação

O conceito tem como referência a proposta de Ingold (2000b, p. 189, tradução nossa), segundo o qual a “[...] perspectiva do habitar [...]” compreende que a paisagem é constituída por “[...] um registro duradouro – e testemunho – das vidas e atividades das gerações passadas que habitaram nesta paisagem, e ao fazê-lo, deixaram algo de si mesmas”. Neste trabalho, portanto, a perspectiva do habitar é essencial para se compreender que a paisagem hodierna da Serra de Carajás é formada pelos vários momentos de vidas e de atividades de gerações passadas, que não só se acumulam ‘em camadas’ ao longo do tempo, como também se cruzam com atividades do presente, no qual são encontrados os vestígios do que foi feito no passado.

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histórica, na forma de jornais, todos consultados a partir da página eletrônica da Biblioteca Nacional. A apresentação dos dados sobre a história do habitar em Carajás entrecruzam informações sobre acontecimentos do passado mais recente (séculos XX e XXI) e mais remoto2, conforme os contextos nos quais foram encontrados sítios arqueológicos pré-cabralinos (cavidades e espaços a céu aberto), pretendendo-se, assim, melhor demonstrar nossa proposta de uma história de longa duração, na qual as vidas e as atividades do presente deparam-se com os vestígios do habitar no passado.

PAISAGEM COMO REGISTRO DE INTERAÇÕES: CONEXÕES ENTRE O PASSADO E O PRESENTE Em 2010, foi iniciado o Programa de Prospecções Arqueológicas e Educação Patrimonial em Serra Leste, no qual, entre outras atividades, foram realizadas prospecções arqueológicas em cavidades previamente identificadas pelo Grupo Espeleológico de Marabá, com o objetivo de investigar se nelas havia presença de vestígios materiais arqueológicos (Schaan et al., 2011a, 2011b; Schaan, 2016). Nesta etapa, em algumas cavidades, foram observados objetos como recipientes de vidro, fragmentos de objetos em metal e plástico, pedaços de roupa e de brinquedos, vestígios de fogueiras recentes. Além destes, as cavidades também apresentavam modificações na estrutura física, no piso, no teto e nas paredes; havia túneis e buracos escavados; em uma das cavidades, havia sacos de argila contendo as paredes. Esses vestígios foram deixados por caçadores ou garimpeiros que exploravam a região, cuja presença estava relacionada com a ‘corrida do ouro’, iniciada na década de 1980 na região, no famoso garimpo que ficou conhecido como Serra Pelada. A experiência da garimpagem nessa área deixou como grande traço na paisagem uma cava,

com dezenas de metros de profundidade, ficando, por isso, conhecida como o maior garimpo manual a céu aberto do mundo. Como foi possível observar nas prospecções arqueológicas nas cavidades desta região, esse momento de ocupação também deixou vestígios em outros espaços próximos à área. Se, por um lado, há grandes transformações produzidas em um passado mais recente pela atividade de garimpagem, por outro, no passado mais longínquo, os estudos arqueológicos vêm demonstrando que os indígenas habitantes da região antropizaram a paisagem através de suas práticas e de seus hábitos, o que podemos constatar por meio de sua cultura material, da química dos solos, da vegetação, entre outros fatores (Caldarelli et al., 2005; Kern et al., 1992; Kipnis et al., 2005; Lima, 2013; Magalhães, 2005; Magalhães et al., 2016; Oliveira, W., 2007; Silveira, 1994). Essas modificações possuem escalas distintas, conforme as tecnologias disponíveis e as intenções dos indivíduos, mas ambas são evidências e testemunhos das interações das pessoas que ali viveram. O estudo das paisagens possibilita-nos uma análise integrativa de todos os momentos de ocupação da região de Carajás, observando a longa duração como uma ‘crônica’ do viver e do habitar (Ingold, 2000a). Relevante para tal análise é a compreensão da paisagem não apenas como natureza. Norton (1989) observa que, ao longo dos estudos voltados para as relações entre comportamento humano e ambiente, é possível notar uma história de transformações na ênfase dessa relação. A Antropologia teve papel fundamental para constatar que a divisão natureza versus cultura não era uma tipologia universal (Silva, F., 1997). Em abordagens mais recentes, as percepções não ocidentais da natureza, tais como animismo, perspectivismo e multinaturalismo, são exemplos de críticas às generalizações da visão de mundo ocidental. Halbmayer

Em decorrência disso, neste artigo serão apresentados mais dados do contexto socioeconômico das décadas de 1960 em diante, que motivaram o crescimento da população, a exploração de recursos, as mudanças na paisagem e a possibilidade de descoberta de vestígios arqueológicos.

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(2012) defende os benefícios que esses conceitos trouxeram, ao criar um paradigma específico e forte na Antropologia sul-americana, proclamando um quadro de interação relacional compartilhado entre humanos e não humanos, o que possibilitou descentralizar a distinção ocidental natureza/ cultura e noções associadas de relativismo e de universalismo. Segundo Ingold (2006), para a divisão tradicional da paisagem, enquanto os seres humanos produtores de cultura e transformadores do meio ambiente teriam ‘história’, as demais espécies de animais e de vegetais apresentam uma trajetória distinta, constituinte do processo de ‘evolução’ e de seleção natural. Ingold (2006), entretanto, objetivando aproximar os dois polos dicotômicos, propõe que o processo de intervenção da humanidade na história da constituição da sociedade deve ser entendido mais como um crescimento mútuo do que como uma fabricação. Tal compreensão vem, portanto, a questionar a distinção entre história (cultural e social) e história natural (evolução). Ingold (2006) argumenta que seres humanos, vegetais e todas as demais espécies animais passaram pelo processo de evolução. Entretanto, a partir de certo momento, a humanidade conseguiu superar esse processo natural, fundando outro processo, a história, a qual, contudo, por um tempo foi também relacionada a processos evolutivos nos quais alguns grupos menos evoluídos estariam mais próximos da natureza, enquanto outros estariam mais próximos do ápice da organização social (Castro, 2005)3. Consequentemente, a humanidade é pensada como mais humana quanto mais estiver afastada da evolução. Seu processo criador e transformador existe fora da natureza e do mundo, com uma transformação do mundo material, sem habitar nesse mundo. Se, para o pensamento tradicional, história é um conjunto de transformações intencionais e evolução são as que ocorrem naturalmente, Ingold (2006) defende que

essas transformações acontecem no processo do habitar, ocorrido durante o desenvolvimento da vida. Tentar separar a dimensão cultural da biológica é equivalente a pensar as criações humanas fora do mundo material, pois fazer parte no mundo significaria ser limitado por ele, ou seja, não fazer história. Com isso, a intencionalidade e a agência dos seres humanos ao produzir a história são questionadas juntamente com a passividade e a naturalidade da dimensão biológica dos seres vivos. Seres humanos, assim como demais seres, são “[...] atores desempenhando um papel na transformação do mundo por ele mesmo” (Ingold, 2006, p. 20). Dessa forma, as ações humanas estão em continuidade com o que ocorre no mundo orgânico. Destaquemos agora outro fator já mencionado, de suma importância para a proposição que será aqui apresentada para o contexto de Carajás: o tempo ou, mais especificamente, a paisagem em uma longa temporalidade. Ingold (2000a) afirma que os ambientes estão em contínuo processo de formação, em conjunto com os organismos humanos e não humanos, por isso eles também possuem seus processos históricos. O ambiente deve ser entendido como paisagem, e não como natureza, pois vê-lo de acordo com esta segunda compreensão é não o habitar e também ignorar a sua historicidade. Assim, a forma que o ambiente se apresenta para aqueles que o habitam é a paisagem, com processos de vida e de formação imbricados à vida de outros seres. Um dos objetivos da ecologia histórica é analisar as relações dos seres humanos com os ambientes ao longo do tempo por meio das paisagens, investigando a interação entre ambos (Crumley, 1994; Balée, 2006). Assim, verifica-se como a humanidade tem alterado o ambiente e como este modifica as atividades humanas. Para esta área, não é relevante se as ações humanas sobre o ambiente foram feitas de forma consciente ou

Uma perspectiva no escopo da Arqueologia amazônica pode ser consultada, por exemplo, em Meggers (1954). Uma crítica da perspectiva evolucionista dentro da Antropologia consta, por exemplo, em Boas (2006). Uma leitura introdutória sobre as diferentes correntes teóricas na Antropologia pode ser encontrada em Damatta (2010).

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inconsciente, pois o que se pretende investigar é como essas interações vão formando as paisagens, que são, portanto, as manifestações materiais dessas interações e, em consequência disso, apresentam um processo de alterações, conforme mudam as relações entre seres humanos e ambiente. Como será evidenciado ao longo do texto, várias foram as alterações provocadas na região de Carajás em decorrência das transformações de exploração econômica dos meios naturais. Ingold (2000a), em sua perspectiva do habitar, afirma que estamos sempre em contato com o passado por meio das paisagens e de demais vestígios materiais que nela estão presentes, e cada vivência nesse espaço influencia as múltiplas visões que mencionamos anteriormente. Assim, em Serra Leste de Carajás, a paisagem foi abrigo, local de morada, de extração de diferentes recursos vegetais, de sonhos e de esperanças de bamburro e de outras formas mais de habitar que ocorreram (e ainda ocorrerão). Apresentadas as bases teóricas, este trabalho propõe-se a investigar as paisagens e as ocupações na Serra de Carajás, considerando a longa temporalidade desse processo. Esta narrativa inicia-se há mais de 10.000 anos antes do presente4, quando indivíduos selecionaram algumas cavidades na área atualmente conhecida como Serra Leste de Carajás, as quais funcionavam como local de passagem e abrigo, deixando no solo diferentes vestígios, que testemunham sua presença. Além das cavidades, esses indivíduos também ocuparam espaços a céu aberto, seja em acampamentos de curta duração, seja em sítios de moradia, por um maior período. Rapidamente, vários milênios serão avançados, a fim de serem apresentadas informações gerais sobre as ocupações nas regiões adjacentes, como em Marabá. Por último, novamente o foco será nas proximidades de Serra Leste, agora especificamente em Serra Pelada, que testemunhou, na

segunda metade do século XX, um intenso processo de ocupação, devido à descoberta de ouro. Essas temporalidades distintas conectam-se não apenas por ocorrerem na mesma paisagem, mas também quando o passado mais remoto e o mais recente entram em contato com as atividades econômicas mais próximas de exploração mineral e de criação de gado, afetando os vestígios dos períodos mais antigos. Observa-se, com isso, que a paisagem é um palimpsesto com memórias das diferentes ocupações e que as suas camadas podem eventualmente se cruzar. Essa característica, no entanto, é um elemento comum, possivelmente para todos ou ao menos para grande parte dos sítios arqueológicos pesquisados no Brasil e alhures. Os estudos dos sítios, entretanto, comumente são feitos separando-se os vestígios conforme sua ‘época’. Para o Brasil, a grande divisão basicamente é feita entre Arqueologia ‘pré-histórica’ e ‘histórica’. O próprio projeto a partir do qual essa pesquisa foi iniciada tinha como objetivo a identificação e o salvamento de sítios pré-coloniais. Não obstante, ao verificar-se como os sítios em cavidades possuíam diferentes vestígios relacionados com o processo de ocupação de Carajás das últimas décadas, a autora deste artigo considerou que não poderia apresentar apenas os contextos pré-coloniais, sem mencionar a história mais recente, com impactos na paisagem da região, como é possível verificar a partir da cava deixada pelo garimpo em Serra Pelada ou pelo desmatamento, demonstrado na Figura 1. Esse impacto da mineração e da garimpagem, além de ser parte de um passado ‘suspenso’ para os moradores de Serra Pelada, como mencionado por Bezerra (2015), também pode ser sentido em razão de ser um peso no presente para a região. Dessa forma, as atividades recentes ligadas à garimpagem impactaram os vestígios em cavidades que possuíam sítios pré-coloniais, mas também formaram novos sítios – nesse caso, apenas com os vestígios relacionados

O presente tem como base o ano de 1950. Assim, se um evento ocorreu antes da Era Cristã, acrescentam-se 1.950 anos para se obter o equivalente em anos Antes do Presente (A.P.); se ocorreu depois da Era Cristã, esse valor deve ser subtraído, a fim de se obter o equivalente dos anos Depois do Presente (B.P.)

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Figura 1. Localização das cavidades com vestígios de ocupação recente. Elaborado por Tallyta Suenny Araujo da Silva (2017).

à mineração. Assim, as atividades desenvolvidas e as vidas no presente deparam-se com os vestígios do habitar das gerações passadas, pois ambas temporalidades são parte da paisagem e a formam também. Considerando o ‘impacto’ tafonômico das ocupações recentes nos vestígios pretéritos, é possível estender o raciocínio para o caso do sítio a céu aberto Serra Leste 01, que hodiernamente encontra-se ‘ocupado’ e ‘afetado’ pela atividade pecuária. Analisando-se as ocupações em Carajás a partir dessas perspectivas teóricas, bem como a história construída e contada, é possível observar outro ponto em comum, além da paisagem, nas narrativas que foram consolidadas sobre os indígenas do passado remoto e os garimpeiros de Serra Pelada: a pouca ênfase no papel desses indivíduos para a história da região e, consequentemente, para a história da paisagem de Carajás. Esse é um aspecto que pretendemos desenvolver futuramente, em outra publicação que verse sobre relações de poder e colonialismo. Bezerra (2015) nos esclarece como esses aspectos estão presentes nos projetos de

desenvolvimento e, consequentemente, afetam em certa medida o fazer arqueológico, principalmente quando, em nossas pesquisas, ignoramos as opiniões e as relações que as pessoas de hoje têm com o passado e a cultura material. Perpetua-se, assim, o lado da ‘história’, principalmente de quem detém o ‘poder’ nessas relações. Em um dos pontos da história de longa duração em Carajás, destacam-se os povos indígenas do período pré-colonial. Sua forma de organização social vem sendo há muito tempo caracterizada como primitiva, em constante luta contra uma natureza precária de recursos e contra a fome (Bailey et al., 1989; Gat, 2000; Lowie, 1946; Headland, 1986; Headland et al., 1989; Meggers; Evans, 1957; Meggers, 1954, 1977, 1979). Mesmo quando verificado que o meio no qual viviam não era escasso em recursos (Kern et al., 2008; Smith, 1980; Woods; Mccann, 1999; Magalhães, 2005; Magalhães et al., 2016; Schaan, 2011), esses povos ainda estariam preocupados com o ‘custo’ despendido e a otimização da energia necessária para o forrageio (Hawkes et al., 1982; Winterhalder, 1981)5.

Uma abordagem etnoarqueológica que defende a mobilidade dos caçadores-coletores como forma de concentrar recursos florestais em caminhos consta em Politis (1996, 2001).

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No outro extremo desta história de longa duração estão os garimpeiros, que, apesar de terem sido os atores na exploração de ouro no Brasil da década de 1980, tiveram a importância de sua contribuição diminuída ao longo dos anos. Hodiernamente, como mencionado por Bezerra (2015, p. 222), formam uma “[...] paisagem de resistência”, em luta pelos seus direitos. As narrativas deles versam sobre a mineração do ouro, sobre seu patrimônio, relacionado com a atividade garimpeira, bem como sobre as paisagens vivenciadas durante a trajetória do habitar em Serra Pelada. Noelli e Ferreira (2007, p. 1240) designam as representações detratoras das populações indígenas nas teorias arqueológicas como “[...] representações arqueológicas colonialistas”, chamando atenção para a influência dos contextos políticos nos discursos criados pela Arqueologia. O colonialismo do termo estende-se para além da exploração territorial e econômica, englobando os domínios cultural e científico que embasaram as missões civilizatórias, narrativas e representações sobre os povos indígenas do presente etnográfico e do passado arqueológico. Segundo Liebmann (2008), uma das formas de articulação da Arqueologia com os estudos pós-coloniais é a área histórica, ou seja, pelo estudo do papel da Arqueologia na construção e na desconstrução dos discursos coloniais, a exemplo das teorias sobre as populações indígenas; e também na área metodológica, com a preocupação de ‘tirar do anonimato’ as populações historicamente subalternizadas e marginalizadas, cujas memórias não foram incluídas na ‘história oficial’. McGuire (2008) advoga por uma Arqueologia de ação política, com o propósito de constituir um mundo mais humano, com menos alienação e mais emancipação. A despeito das imagens que foram construídas sobre os garimpeiros e os indígenas dos períodos pré e pós-colonial, eles foram importantes atores no processo de constituição e na transformação das paisagens que habitaram. Independentemente das tentativas de omissões, suas vidas estão entrelaçadas com esses locais e aptas a ser

interpretadas por quem está disposto a enxergar cada uma dessas modificações, em menor ou maior escala. Assim, mesmo que as atividades recentes da mineração e da garimpagem não façam parte do que ocorreu no passado, elas afetam o que encontramos e, por conseguinte, o que é possível compreender sobre o outrora, além de nos levar a refletir sobre como devemos tratar os patrimônios presentes nesta região. A história que pretendemos contar sobre a paisagem de Carajás e as ocupações indígenas antigas na área tem também a participação dos milhares de garimpeiros que estiveram em Serra Pelada. Uma crônica do habitar, sem alienar os vários atores sociais que lá estiveram e estão.

TAFONOMIA, UMA OUTRA HISTÓRIA: POR UMA PERSPECTIVA INCLUSIVA DE TEMPORALIDADES A BUSCA POR OURO E POR MINÉRIOS E AS OCUPAÇÕES PRÉ-COLONIAIS Rezende (2009), ao escrever suas memórias sobre a descoberta de Carajás, apresenta vários antecedentes relacionados às empresas e aos órgãos envolvidos no empreendimento mineral, assim como reporta as condições que possibilitaram a ‘descoberta’ da grande jazida mineral. Como um fator contribuinte para tal acontecimento, Rezende (2009) menciona a importância do Projeto Araguaia, desenvolvido na década de 1960, quando o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) contratou a empresa de engenharia de estudos geológicos Prospec S.A. - Prospecções e Aerolevantamentos, para investigar, por meio de voos aerofotogramétricos, uma área de aproximadamente 420.000 km² no Pará, entre os rios Tocantins e Xingu, no intervalo entre os paralelos 5º e 12º. Nessas expedições, a Prospec caracterizou a Serra de Carajás como uma formação calcária. Faltando, entretanto, uma comprovação desta suposição, a empresa norteamericana Meridional, interessada em buscar novas fontes de manganês, decidiu realizar um voo magnetométrico sobre

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a área. A partir dos resultados obtidos, foi comprovado que a serra era de formação ferrífera, trazendo esperanças para a Meridional em sua busca por manganês. A versão mais comum, no entanto, sobre a ‘descoberta’ de Carajás é outra. O mito de origem vinculado ao descobrimento desta paisagem envolve ‘um golpe de sorte’. Em 1967, um helicóptero com um grupo de geólogos da Meridional, devido a um problema no motor, teria aterrissado emergencialmente em uma cadeia de montanhas, Carajás, a sudoeste de Marabá. Devido a esta parada, um dos geólogos teria notado que havia pouca vegetação nesta montanha, pois provavelmente pousaram em uma área de canga. Posteriormente, demonstrou-se que essa característica estava relacionada ao fato de esta montanha possuir formação em minério de ferro de alto teor de qualidade, além de bauxita, manganês, cobre, níquel e cassiterita (Cleary, 1992). O mesmo sentido desbravador aparece no relato da Vale. No capítulo 5 de “Vale: nossa história”, há os seguintes trechos: Breno tinha 27 anos, era um geólogo recém-saído da universidade e que aceitara – mais por falta de opção do que por idealismo – um emprego na Companhia Meridional de Mineração, que pesquisava manganês na Amazônia. Uma aventura, em todos os sentidos. Não era um emprego fácil: o salário não era lá essas coisas, a comida era ruim, os mosquitos estavam em toda parte e não havia muitos geólogos por perto. Os índios Assurini e Xikrin não eram muito amistosos e, pior, vira e mexe Breno era obrigado a sobrevoar a mata em helicópteros muito pouco confiáveis. Foi em um desses voos, no dia 11 de julho de 1967, a bordo de um helicóptero vermelho com capacidade para dois passageiros, que a história da mineração no país (e no mundo) começou a mudar. Desde então, Carajás – nome tirado da tribo que ocupava as margens do rio Araguaia – passaria a ser sinônimo de minério (A maior..., 1992, p. 137).

Vê-se, portanto, que o herói e descobridor Breno, passando por várias provações como geólogo na Amazônia, encontrou grande riqueza mineral, que se tornou alvo de exploração nos anos vindouros. Rezende (2009)

esclarece que possivelmente Breno não sabia sobre o voo magnetométrico realizado anteriormente, fato conhecido apenas pelo professor e chefe dos geólogos da Meridional, Gene E. Tolbert. Provavelmente, essa informação não foi repassada para Breno, a fim de garantir o sigilo quanto à informação de que Carajás era um grande depósito de ferro. A autoria da descoberta ora aparece personificada em Breno, ora institucionalizada na Companhia Vale do Rio Doce. O material complementar a livros didáticos intitulado “A comunidade e a mineração: os minerais e os metais no desenvolvimento do Pará”, de Silva, A. (2000, p. 7), apresenta em um dos seus parágrafos que “a Companhia Vale do Rio Doce se orgulha de ter sido a responsável pela descoberta de toda essa riqueza, que ficara escondida por milhares de anos no subsolo”. Segundo Rezende (2009), Breno teria pousado em uma clareira na Serra Arqueada, a aproximadamente 80 km da Serra de Carajás. Ao constatar que a pouca vegetação na área era composta por canga laterítica, ele a associou com as outras observadas na Serra de Carajás. Ao informar Tolbert, este não mostrou grande interesse de início, apenas posteriormente – com a avaliação do engenheiro e geólogo Richard Strong de que Carajás poderia ter 35 bilhões de toneladas de minério de boa qualidade – a Meridional se mobilizou para requerer os pedidos de pesquisa. Como a empresa estrangeira precisava que 51% do investimento e da posse dos direitos minerais fossem brasileiros, umas das opções foi se associar com a Companhia Vale do Rio Doce. Esta cooperação foi, entretanto, rompida em 1974, por discordâncias principalmente em relação à construção da estrada de ferro Carajás (EFC). Devido às dificuldades operacionais e administrativas, a Meridional também desistiu de outros projetos minerais que possuía no Brasil (Rezende, 2009). Carajás, portanto, tornou-se um projeto da Companhia Vale do Rio Doce, apoiado pelo governo militar, que viu nessa descoberta mineral uma oportunidade para instituir em outra área seu projeto de colonização do “[...] vazio demográfico [...]” amazônico (Verde, 2009, p. 2).

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Através de estudos auxiliados pelo Serviço Hidrográfico Brasileiro do Ministério da Marinha, avaliou-se que seria inviável construir em Belém um porto de carregamento de minérios, sendo São Luís, no Maranhão, o local mais adequado para isso (Rezende, 2009). Para o transporte do minério, seria necessária a construção de uma estrada de ferro que ligasse a área de extração até o porto. Com isso, foi instituído o Programa Grande Carajás por meio do decreto-lei n. 1813, de 24 de novembro de 1981, que envolvia os territórios do Pará, Tocantins e Maranhão (Brasil, 1981); nele, estava incluso não só a exploração mineral em Carajás, mas ainda outros empreendimentos mineradores, alguns dos quais já estavam em atividade antes do decreto. Os principais são o Projeto Ferro Carajás (PFC), no qual estavam inclusos a EFC, a hidrelétrica de Tucuruí, o projeto Trombetas e a Alunorte. Segundo o jornal Opinião, de 5 de setembro de 1975, a ideia de uma hidrelétrica no sudeste do Pará já existia antes da tomada de poder pelos militares (Tucuruí..., 1975). O projeto era designado como hidrelétrica de Itaboca, fazendo referência às corredeiras de Itaboca, do rio Tocantins. Concretizada anos depois, e já sob o nome de hidrelétrica de Tucuruí, a usina foi construída entre 1976 a 1984, e inundou 2.600 km² em área onde se encontravam florestas, núcleos urbanos e parte da reserva dos indígenas Parakanãs. Tal alteração na paisagem e nas práticas das populações do entorno desestabilizou o modo de vida desses moradores, que precisaram se mudar para lugares desconhecidos – em alguns casos, mais de uma vez – e, inclusive, às vezes dedicarem-se a outros tipos de atividades econômicas às quais não estavam anteriormente acostumados. Estima-se que aproximadamente 6.000 famílias teriam sido afetadas pela alteração do nível do rio, devido ao reservatório da usina, sendo que centenas provavelmente não conseguiram obter nenhuma compensação em razão de suas perdas (Acselrad, 1991). No informativo Destaque Amazônia, datado de janeiro de 1985, consta que, devido à hidrelétrica de

Tucuruí e à abertura da rodovia Transamazônica, os indígenas Parakanã tiveram que transferir várias vezes suas residências de lugar (Parakanã..., 1985). Um ano após o primeiro contato entre os ‘brasileiros’ e um grupo Parakanã, em 1971, já era possível contar uma redução de 54% na população. A demarcação de terra pelo decreto 68.913 (Brasil, 1971), na verdade, acabou por reduzir consideravelmente o território tradicional dos Parakanãs. A construção da hidrelétrica acrescentou mais um capítulo de deslocamentos e de readaptações para esses indígenas, que tiveram parte do território de sua reserva inundada e outra parte destinada para a população expropriada devido ao reservatório de Tucuruí. O Jornal do Brasil, em 11 de junho de 1973, registrou duas possibilidades de escoamento do minério de Carajás: a hidroviária e a ferroviária. A estrada de ferro foi a via de escoamento escolhida (Ferro..., 1973). O jornal Opinião de 5 de setembro de 1975 atribuiu essa escolha à imposição exercida pela US Steel (Tucuruí..., 1975). Seus estudos de viabilidade foram concluídos em 1974 e, em 1976, o governo federal realizou a concessão para o início das obras e a operação da estrada de ferro Carajás (Verde, 2009). Os primeiros 15 km de trilho foram inaugurados em 1982; em 1984, a divisa entre o Pará e o Maranhão foi atingida. A EFC foi concluída no ano seguinte, em 15 de fevereiro de 1985, e inaugurada oficialmente treze dias depois. A instalação desta estrada provocou igualmente, direta ou indiretamente, diversos problemas sociais e ambientais. Ao longo de seu corredor, várias guseiras foram instaladas (Homma et al., 2006). Tal atividade ocasionou desmatamento da floresta nativa, reflorestamento por eucaliptos e mudanças em atividades tradicionais de extrativismo (Santos, R., 2009). O documentário “Montanhas de ouro” (1990), dirigido por Adrian Cowell, apresenta cenas desse contexto. Grandes áreas de mata foram devastadas e fornos artesanais do tipo ‘rabo quente’ foram construídos. As condições de trabalho em muitas dessas carvoarias eram impróprias, ocorrendo, inclusive, casos de trabalho infantil e análogos à escravidão (Oliveira, C., 2008).

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Paisagens e temporalidades em Serra Leste de Carajás

Para compensar alguns dos danos ambientais causados na área, várias pesquisas foram conduzidas nos espaços afetados pelo projeto de Carajás. Secco e Mesquita (1983) direcionaram estudos sobre a vegetação de canga na área de Serra Norte, com o objetivo de incrementar as poucas pesquisas botânicas existentes sobre a serra, e cujas espécies estavam em ameaça de descaracterização devido à intensa exploração mineral. Golfari (1980) realizou estudos relacionados ao zoneamento ecológico para reflorestamento da área de influência da ferrovia Porto Madeira/Carajás, objetivando identificar regiões ecológicas e indicar quais as espécies/procedências florestais seriam mais adequadas para o reflorestamento, cujo foco foram as condições do clima e da vegetação regionais. Foi observado que as castanheiras e os babaçus na bacia do Itacaiúnas seriam utilizados pelos indígenas, para fins de alimentação. Ao longo deste rio, foram conduzidas também as explorações arqueológicas coordenadas por Mário Simões. Em 1983, entre julho e agosto, a equipe de arqueólogos do Museu Paraense Emílio Goeldi iniciou as explorações na região de Carajás, em busca de vestígios de ocupação pré-colonial nas margens dos rios Parauapebas e Itacaiúnas e em quatro cavidades da Serra Norte (Simões; Lopes, 1983). Com isso, temos aqui um dos nossos elementos de aproximação da ‘crônica’ do viver e do habitar na região de Carajás (Ingold, 2000a). As pesquisas arqueológicas, desenvolvidas na região de forma mais intensiva a partir de 1983, possibilitaram a descoberta e a difusão das informações sobre processos de ocupação da região que datam para mais de oito mil anos. As intervenções e os usos das paisagens no presente às vezes deparam-se com vestígios antrópicos mais antigos. Nesse processo, os capítulos anteriores da ‘crônica’ são descobertos ao mesmo tempo que outros vão sendo escritos (Ingold, 2000a). Alguns exemplares da cultura material da região já eram conhecidos devido à visita do frei Protásio Frikel, pesquisador do Museu Goeldi, e do padre François Gentel, em 1963, ao grupo Xikrín do posto Las Casas.

Durante sua estada no alto Itacaiúnas, eles coletaram artefatos líticos e fragmentos cerâmicos em cinco localidades, os quais foram posteriormente analisados pelo antropólogo Napoleão Figueiredo, que identificou a existência de elementos distintos do presente na cultura material Kayapó-Xíkrin, assemelhando-se mais aos traços diagnósticos da Tradição Tupiguarani (Figueiredo, 1965). Durante a expedição arqueológica de 1983 (Simões; Lopes, 1983), algumas das áreas identificadas com material arqueológico já estavam reocupadas com roças, serrarias e com a ponte ferroviária Carajás-Itaqui. Alguns dos locais prospectados apresentavam-se alterados por tratores, por queimadas, pela derrubada da mata, além de ter sido descoberta uma trilha na mata, provavelmente feita por garimpeiros. Em 1983, Serra Pelada vivenciava o auge da exploração aurífera, quando a região passou por alto crescimento populacional, contando com 80.000 a 100.000 garimpeiros e comerciantes (Cleary, 1992). Apesar da tentativa inicial do governo militar de controlar a exploração de ouro, o número de pessoas entrando ilegalmente foi crescendo a ponto de assaltantes conseguirem adentrar o local. No jornal O Fluminense, de 28 de setembro de 1983, relata-se que a entrada irregular de indivíduos no garimpo tinha provocado o ingresso de armas e implementado uma onda de assaltos (Assaltantes..., 1983). Até aquela data, o caso mais sério envolveu 13 garimpeiros que foram feridos, sendo que um deles corria o risco de ficar paraplégico. O clima de violência não se dava apenas entre os invasores e os garimpeiros, mas também entre a polícia, a mando do DNPM e os garimpeiros. O conflito foi noticiado no jornal Luta Democrática, datado de 19 de outubro de 1983, que informou que policiais teriam espancado os garimpeiros e danificado seus equipamentos, com o objetivo de forçar o término da lavra manual (Curió..., 1983). O fechamento do garimpo seria tema de conflitos constantes nos anos vindouros. A descoberta arqueológica inovadora em Carajás ocorreu entre 1985 e 1986, com a prospecção na gruta

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do Gavião, onde foram datadas ocupações humanas entre 8.140 A.P. e 2.900 A.P. (Silveira, 1994), atestando, a partir de então, a presença de grupos caçadores-coletores na região de Carajás. Datações de ocupações mais antigas do que esta foram publicadas uma década depois, apontando a existência desses grupos na caverna da Pedra Pintada, em Monte Alegre (Roosevelt et al., 1996). Na primeira campanha, foram escavadas quatro trincheiras na gruta do Gavião, e em 1989 as atividades foram retomadas, com a ampliação das unidades já abertas (Hilbert, 1991). A campanha de 1989 ganhou novo destaque nos jornais devido às descobertas recentes. O jornal O Liberal, de 4 de outubro do referido ano, sublinhou a importância da gruta e o conhecimento do modo de vida das populações (Hilbert..., 1989). Entre os novos achados, estava uma ponta de projétil em osso. A matéria chama atenção ainda para a preocupação do pesquisador Klaus Hilbert com a preservação da gruta do Gavião devido às atividades de mineração. Para Hilbert, a existência do sítio estava, até aquela data, garantida graças à repercussão das descobertas científicas na imprensa. Carajás e as demais ocupações remotas foram importantes para rever as teorias vigentes à época, de que a Amazônia, por ser um ambiente de floresta tropical, seria espaço inóspito para grupos que não praticassem a agricultura (Magalhães, 2006; Bailey et al., 1989; Bailey; Headland, 1991; Headland, 1987). Ademais, as pesquisas revelaram que não só os grupos forrageiros habitaram áreas de floresta da Amazônia, como também provocaram modificações na paisagem e na distribuição de recursos da natureza que beneficiariam posteriormente os povos com modo de vida sedentária, a exemplo de plantas usadas para fins medicinais e alimentícios (Magalhães, 2006; Magalhães et al., 2016)6. Além da gruta do Gavião, as pesquisas em Carajás revelaram outra gruta de datação mais recuada,

com 9.000 A.P. (Magalhães, 2006). A continuação das pesquisas arqueológicas até os tempos hodiernos possibilitou a ampliação do conhecimento sobre a alimentação, o uso de plantas, a tecnologia cerâmica e lítica e os espaços de circulação (Lima, 2013; Magalhães et al., 2016; Oliveira, W., 2007). Trinta anos após a descoberta da antiguidade das ocupações de Carajás, as pesquisas realizadas pelo Núcleo de Pesquisa e Ensino de Arqueologia (NPEA) da Universidade Federal do Pará (UFPA) possibilitaram mais uma vez observar a ‘crônica’ das temporalidades do habitar em Carajás (Ingold, 2000a). Se, na década de 1980, a garimpagem e a mineração eram os capítulos mais recentes da narrativa, nesta pesquisa, o auge da garimpagem em Serra Pelada já tinha produzido seus vestígios, que se integraram na paisagem e na memória do habitar em Carajás.

CAÇANDO E COLETANDO RECURSOS NATURAIS As diferentes temporalidades que se conectam na mesma paisagem são facilmente perceptíveis em algumas das cavidades prospectadas na Serra Leste de Carajás. Foi, portanto, a partir delas que se começou a refletir sob uma perspectiva integrada, na qual as intervenções das ocupações recentes foram interpretadas não apenas como uma perturbação tafonômica, mas como uma outra ‘camada’ do processo de ocupação em Serra Leste. No passado mais remoto e no mais recente, as pessoas buscaram nessas cavidades abrigo e recursos da natureza. Assim, há no mínimo três tipos de vestígios materiais e de modificações na paisagem que podemos associar aos distintos momentos de ocupação da região: (1) dos grupos caçadores-coletores que circularam pelas cavidades há mais de oito mil anos, cujos principais artefatos

Na região de Carajás, um recurso explorado no período pré-colonial – que, inclusive, movimentou grande parte da economia da cidade de Marabá e arredores por uma época – foi a castanha-do-pará, também conhecida como castanha-do-brasil. Santos, Ronize et al. (2016) fazem uma apresentação detalhada das espécimes botânicas encontradas em Carajás.

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Paisagens e temporalidades em Serra Leste de Carajás

preservados são o material lítico; (2) dos grupos que já possuíam objetos cerâmicos, os quais já eram utilizados nas áreas próximas das cavidades há aproximadamente três mil anos; (3) dos grupos da ocupação que se intensificou em meados do século XX, incentivada pela exploração mineral. Há poucas informações conhecidas mencionando a exploração de minérios em outras áreas de Serra Leste, além da cava de Serra Pelada. Anterior à descoberta do ouro, Cleary (1992) cita a existência de garimpos de diamantes e de cristal de rocha próximos à nascente do Araguaia e de Marabá. Estes garimpos foram visitados por geólogos do DNPM nos anos 1930 e 1940, quando supuseram que a exploração ocorria desde a década de 1920. Já Almeida (2008) informa que notícias sobre a existência de garimpo de diamantes em Marabá remontam ao ano de 1938, na área das corredeiras do Itabocas, nos arredores do atual município de Itupiranga. A exploração de cristal de rocha também é relatada. Almeida (2008) comenta ainda que, no período, este tipo de minério tornou-se bastante procurado pela indústria bélica, posta a todo vapor com o início da Segunda Guerra. Segundo o autor, os garimpos do rio Tocantins utilizaram diferentes técnicas para a exploração, como motores, para bombear a água dos poços e mergulhadores com escafandro para as minas que eram mais profundas. Com a construção da hidrelétrica de Tucuruí, a partir de 1974, essa área foi submersa para a formação do reservatório. Além da exploração de cristais e de diamantes, Cleary (1992) reporta um relatório da DNPM de 1971, que cita garimpos de ouro na área, como no canal do Puraquequarinha, no Tocantins, e também na foz do rio Itacaiúnas. A exploração mineral acontecia em paralelo a outras atividades extrativistas como a exploração da castanha (Almeida, 2008). Com isso, o fluxo de pessoas na região estava bastante sujeito aos períodos propícios de extração de cada um desses recursos. O engenheiro Américo Leonides chegou a comparar Marabá com um acampamento:

Marabá é um acampamento a ser levantado quando se avizinhar uma grande enchente. Por isso rareiam ali as casas de alvenaria. Não existem colégios, nem bancos, nem hospitais, nem clubes, nem cinemas, nem estradas, nem automóveis. (Ministério da Viação e Obras Públicas, 1941, p. 37).

É curiosa a associação entre ausência de casas de alvenaria como traço de que uma habitação é temporária. O mesmo tipo de analogia está presente na fala de Vanda, moradora da vila de Serra Pelada, presente no documentário “Serra Pelada: sonhos dourados, fatos opacos”, de 2006: Ninguém nunca veio para cá para realmente, é, morar, residir pro resto da vida. O pouco que vocês andaram aqui, vocês viram que as casas, não tem casa construída, né? As casas daqui são mais assim por quê? Porque eles nunca visaram realmente morar aqui. Como a minha mãe veio aqui para passar um mês, né? E voltar, até hoje tá pensando de amanhã ir embora. Nunca tirou isso da cabeça...

Vanda relata que quando chegou na vila, aos 15 anos de idade, com sua família, seus pais diziam que só iriam passar um mês no garimpo, tempo suficiente para conseguir bamburrar, mas essa estada provisória acabou se tornando permanente. Essa é uma situação compartilhada por quase todos os garimpeiros, que nunca pensaram em propriamente fixar residência na vila: sua estada lá deveria ser passageira, mas por motivos diversos acabaram mantendo-se no local. A exploração do ouro em Carajás, na década de 1980, concentrou-se na área onde posteriormente, em sua proximidade, formou-se a vila de Serra Pelada. Sendo a garimpagem na vila controlada pelo governo militar, isso ocasionou, durante alguns anos, tanto a proibição quanto à permanência de mulheres e de crianças em Serra Pelada, como também determinou a quantidade de garimpeiros permitidos. Essas limitações podem ter sido um dos fatores que motivaram as pessoas a irem buscar outros locais para tentar a sorte. O jornal Diário da Tarde, de 1980, relata que mulheres e crianças seriam os únicos trabalhadores permitidos em uma possível jazida de ouro descoberta

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dentro da cidade de Marabá (Garimpeiros, 1980). Designada jocosamente como ‘serra cabeluda’, sua exploração já teria rendido 15 gramas de ouro. Foi noticiada, ainda, a descoberta de diamante a pouco mais de um quilômetro da área central do povoado de Serra Pelada. Segundo o Diário de Pernambuco de 29 de junho de 1980, a ocorrência estaria localizada na Serra do Sereno, pois, segundo o major Curió, caso fosse confirmada a presença da pedra preciosa, o plano do governo seria o de exercer controle sobre a exploração, assim como ocorria em Serra Pelada (Descoberta..., 1980). Quando a profundidade da cava já era grande, colocando em risco a vida dos trabalhadores, e o ouro começava a escassear, alguns garimpeiros procuravam explorar o minério em outras localidades. Na área da vila de Serra Pelada ou nas serras adjacentes, eles aventuravam-se em busca de outras fontes de ouro que pudessem lhe render ganhos. As transformações ocasionadas na paisagem são de menor escala se comparadas com a cava de Serra Pelada, mas isso está mais relacionado ao pouco sucesso dessas novas empreitadas. Em relatório de 1987 sobre as pesquisas arqueológicas realizadas pela equipe do Museu Paraense Emílio Goeldi em Carajás, relata-se que o igarapé Fofoca tinha sido desviado do seu curso pelos garimpeiros, pois apresentava sedimentos em suspensão, poças estagnadas com água

turva (Silva, M. et al., 1987). No documentário “Montanhas de ouro”, de 1990, observamos a criação de poças de água estagnada em área próxima à mina de cobre do Sossego. Garimpeiros liderados por Jeová adentravam em área pertencente à Companhia Vale do Rio Doce, em busca de novos filões de ouro para garimpar. Jeová tentou ainda buscar ouro dentro da vila de Serra Pelada, onde adquiriu um terreno e começou a explorá-lo nas imediações de sua nova casa. O garimpeiro afirmou que, caso fosse preciso, derrubaria a residência para encontrar o minério. Ele não foi o único a buscar ouro fora da cava, mas dentro de Serra Pelada. O jornal O Liberal de setembro de 1989 noticiou a descoberta de um novo filão de ouro na rua do Comércio, da vila de Serra Pelada, que começou a ser explorado por vários garimpeiros, mas que estava ameaçando a estrutura das casas ao redor, devido à nova cratera que se formava aos poucos (Garimpeiros..., 1989). As cavidades localizadas na Serra Leste de Carajás também foram espaços buscados para a exploração mineral (Figura 2). Curiosamente, esses espaços não foram apenas visitados para as atividades extrativistas, mas, segundo informações orais obtidas em 2010 pela arqueóloga e professora da UFPA, Márcia Bezerra, durante o Programa de Prospecções Arqueológicas e Educação Patrimonial em Serra Leste, algumas mulheres teriam

Figura 2. Cultura material recente no CECAV-SL-04: Úrsula (esquerda) e fragmentos de cerâmica recente na cavidade CECAV-SL-11: Hana (direita). Fotos: André dos Santos (2011).

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habitado as cavidades na época em que a presença feminina era proibida em Serra Pelada. Inicialmente, em 14 cavidades, foram relatados indícios da presença de garimpeiros ou de caçadores, mas, posteriormente, com a escavação na cavidade CECAVSL-79: Samambaia do Inferno, foi obtida uma datação constatando que os vestígios de uma fogueira pertenciam aos últimos 60 anos. Assim, na Serra Leste de Carajás há um total de 15 cavidades conhecidas que foram visitadas nas últimas décadas (Figura 1). Destas, apenas quatro possuem vestígios de ocupações remotas: as grutas Úrsula e Bacana, o abrigo Tyto Alba e a caverna Samambaia do Inferno. Os vestígios das ocupações nas cavidades nos últimos quarenta anos são diversos, incluindo fogueiras, cerâmica recente, metal, vidro, canos, plástico, além de modificações na estrutura das cavidades (Quadro 1 e Figura 3). A exploração mineral e garimpeira causou grande transformação na paisagem e no modo de vida em Carajás. Petit (2003) informa que, em meados dos anos 1970, a principal atividade econômica da região – a extração de castanha – sofreu grande queda. Entre os fatores para tal

Figura 3. Túnel escavado na CECAV-SL-17: Túnel. Foto: André dos Santos (2011).

declínio estão o deslocamento da mão de obra dos castanhais para as obras em andamento no projeto de mineração da Companhia Vale do Rio Doce e para o garimpo de Serra Pelada, a partir de 1980. Outro fator apontado pelo autor e que representa o terceiro exemplo aqui listado, é o aumento da atividade agropecuária. Segundo Petit (2003), o número de castanheiras diminuiu quando as áreas onde se

Quadro 1. Cavidades e ocupações recentes. Cavidade

Tipo de vestígio/transformação recente

CECAV-SL-04: Úrsula

Fogueira, cano, cultura material recente

CECAV-SL-08: Porcos

Fragmentos de garrafa, latas de metal

CECAV-SL-11: Hana

Cerâmica recente

CECAV-SL-17: Túnel

Túnel escavado na parede

CECAV-SL-26: Garimpeiro

Alteração no piso

CECAV-SL-37: Zig-zag

Alteração no piso

CECAV-SL-43: Bela Vista

Alteração no piso

CECAV-SL-45: Geologia

Fogueira, vidro, embalagens de remédio, restos de metal e plástico

CECAV-SL-46: Flamengo

Artefatos de vidro

CECAV-SL-47: Tyto Alba

Fogueira, vidro

CECAV-SL-50: Lagoa Verde

Alteração no piso

CECAV-SL-69: Bacana

Vidro, plásticos, brinquedos

CECAV-SL-73: Lago

Alteração no piso

CECAV-SL-79: Samambaia do Inferno

Carvão de fogueira datado dos últimos 60 anos

CECAV-SL-98

Sacos de argila nas paredes, pilhas, latas, pedaços de roupa, vidro

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localizavam foram queimadas a fim de implementar projetos agropecuários nessas terras, além do uso para a agricultura de subsistência. A seguir, abordarei a pecuária na região de Marabá e o sítio a céu aberto SL-01: Serra Leste 1, localizado em uma área de pasto.

O HABITAR NAS ÁREAS BAIXAS Em Serra Leste, foram identificados quatro sítios a céu aberto: um no topo de um platô, outro na encosta da serra e dois em áreas baixas fora das serras (Schaan et al., 2011b). Os dois últimos estavam reocupados por fazendas: a fazenda do Dimas, onde foi localizado o sítio Serra Leste 1, e a fazenda Ouro Verde, na qual foi identificado o sítio Serra Leste 2. Enquanto Serra Leste 1 foi classificado como sítio habitação, Serra Leste 2 apresenta características de um acampamento. As atividades voltadas para pecuária no sítio Serra Leste 1 deixaram como evidência uma camada de aproximadamente 2 cm de solo escurecido, provavelmente devido à queima e ao plantio de capim para o pasto. Se formos traçar uma história da prática da pecuária nas áreas baixas, vemos que essa atividade foi o objetivo inicial do grupo que se deslocou para a atual cidade de Marabá, vindo da cidade de Boa Vista, Goiás, em 1985 (Almeida, 2008). Esses colonos, liderados por Carlos Gomes Leitão, buscavam terras para fundar um núcleo dedicado à agricultura e à pecuária, e também para se afastar dos conflitos políticos existentes em seu antigo local de residência. Entretanto, como no primeiro espaço onde foi estabelecido o Burgo Agrícola, junto à foz do rio Itacaiúnas, este local em Marabá apresentava terras inadequadas para cultivo e alguns moradores seguiram 18 km rio abaixo, onde posteriormente descobriram o caucho, do qual começaram a explorar o látex para a produção de borracha. A agricultura e a pecuária acabaram por se tornar atividades secundárias, permanecendo assim também durante a época do extrativismo da castanha. Com a decadência da economia de exploração do caucho, em 1920, a castanha tornou-se o principal produto da economia marabaense. O sistema de exploração

permaneceu sendo o de aviamento, usado para o caucho. Esses dois produtos foram os de maior destaque na história da ocupação das áreas baixas de Carajás. Seu caráter sazonal possibilitava que algumas pessoas se dedicassem a outras atividades, como o garimpo de diamantes, de cristal de rocha, a agricultura de subsistência, a pecuária etc., enquanto outros deslocavam-se para outros lugares (Almeida, 2008; Mello-Théry; Théry, 2009), às vezes retornando para suas cidades de origem. A maioria dos trabalhadores era proveniente do atual estado de Tocantins (na época, antigo norte de Goiás) e do Maranhão (Almeida, 2016). Além do próprio fruto da castanha para exportação, o produto era explorado de diferentes formas: o leite da castanha era utilizado na culinária, assim como o óleo, que podia servir ainda para a produção de sabonetes e como combustível para iluminação; a casca era utilizada na produção de estopa, enquanto a madeira servia para a construção de embarcações (Almeida, 2016). Enquanto o início da exploração de castanha em Marabá, no ano de 1913, contou com uma safra de 20 hectolitros, seis anos depois, em 1919, a produção alcançou 5.396 hectolitros. Essa expansão deve-se à incorporação de novas áreas de castanhais, antes inexploradas. Da retirada até a chegada da castanha nos portos para venda e exportação, a quantidade da produção sempre diminuía, devido à inadequação na forma de armazenamento, às dificuldades no transporte e mesmo a imprevistos, como cheias mais intensas dos rios. Visando contornar parte dessas dificuldades, em 1980, o governo federal realizou a concessão para a construção da estrada de ferro, que, posteriormente, foi chamada de estrada de ferro Tocantins. O projeto visava a cobrir todo o trecho de corredeiras de Itaboca, entre Jatobal e Alcobaça, a futura Tucuruí (Almeida, 2016). Para Homma (2001), o declínio da economia da castanha deve-se às novas demandas decorrentes da ocupação e do uso da terra pelos atores sociais que foram surgindo a partir da década de 1970, assim como devido aos interesses do Estado com relação ao desenvolvimento da

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economia de mineração. Com a abertura das estradas, que davam acesso para diferentes pontos na Amazônia, o fluxo migratório que surgiu provocou aumento das demandas para que a terra fosse usada para fins agropecuários. Além disso, outras culturas extrativas, como o cupuaçu e a banana, tornaram-se economicamente mais competitivas, e a descoberta de minérios na região aumentou ainda mais o interesse do Estado e dos cidadãos de investirem seus esforços em outra atividade econômica. A prática da pecuária na área de Carajás ganhou impulso nos últimos cinquenta anos e está relacionada com modificações mais abrangentes que ocorreram na economia do município de Marabá (Petit, 2003). A partir de 1966, a intensificação das ações interventoras da administração federal sob o comando dos governos militares na região amazônica começou a fundamentar as transformações que hodiernamente continuam a predominar e (trans)formar a paisagem de Carajás. Essa intervenção ocorreu na forma de políticas de incentivos fiscais para a instalação de indústrias e de fazendas agropecuárias, de projetos de colonização das terras próximas à rodovia BR-230: Transamazônica e de investimentos para a exploração, beneficiamento e transporte dos recursos minerais descobertos no Pará. Pinheiro et al. (2012), baseando-se em dados do censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Produto Interno Bruto (PIB), apresentam o grande crescimento populacional na região de Marabá a partir da década de 1970. Apenas considerando o crescimento populacional advindo da implantação da indústria de mineração, segundo os autores, cerca de 14.000 trabalhadores foram a esta área. Enquanto essa mão de obra se instalou no núcleo urbano planejado pela Companhia Vale do Rio Doce, a ocupação espontânea que ocorreu em paralelo foi se estabelecendo às margens da PA-275, na região conhecida como Rio Verde, dedicando-se principalmente às atividades de comércio.

Com isso, entre 1970 e 1980, a população aumentou aproximadamente 144%. O governo federal foi um grande incentivador do crescimento populacional, devido às suas políticas de ocupação e de integração da Amazônia ao Brasil (Almeida, 2008). Com a abertura de estradas para promover essa integração, a terra tornou-se um bem valorizado. Se até 1924 predominou o uso livre da terra para a exploração dos castanhais, nesta data o governo do Pará determinou que territórios seriam arrendados aos interessados na extração das castanhas (Petit, 2003). Em 1954, priorizou-se a concessão de títulos de terra por meio do sistema de aforamento, no qual garantia-se a propriedade em perpetuidade aos beneficiários, que deveriam pagar anualmente uma taxa para o Estado. Diante dessas novas formas de posse e de uso da terra, observa-se que, em 1959, a maior quantidade de castanhas vinha de terras do Estado; em segundo lugar, das terras aforadas; em terceiro, das terras privadas; e, por último, das terras arrendadas. Aqueles com posse de grandes extensões de terra foram beneficiados nos anos vindouros, devido à inflação e aos incentivos fiscais concedidos pelo governo militar, que canalizou seus investimentos nos projetos agropecuários e no setor da mineração. Coelho et al. (2006) comparam a paisagem no sudeste do Pará descrita no relato de Henri Coudreau, em “Viagem à Itaboca e ao Itacaiúnas”, de 1980, com imagens de satélite de 2001, constatando uma drástica redução da vegetação local. Traçando um histórico sobre as atividades econômicas desenvolvidas na região sudeste do Pará, os autores mostram que, com a decadência da economia da castanha, o avanço da atividade madeireira e o fortalecimento da pecuária na região provocaram um ‘cemitério’ de castanhais7. Da exploração do caucho e da castanha passou-se para os usos de outros recursos da natureza, por meio das forças das águas na usina de Tucuruí, das terras para agricultura e a pecuária, do carvão vegetal e dos minérios.

Para uma perspectiva do manejo de longa duração da castanha-do-pará, ver, por exemplo, o artigo de Shepard e Ramirez (2011).

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Coincidentemente, a área inicial da descoberta do ouro de Serra Pelada, antes de se tornar o maior garimpo a céu aberto, era utilizada como fazenda. Uma das versões existentes menciona que, entre novembro ou dezembro de 1979, foi encontrado ouro na fazenda Três Barras, do criador de gado Genésio Ferreira da Silva, que começou a armazenar suprimentos e a construir uma mínima infraestrutura para a exploração e a comercialização do ouro. Com isso, em março de 1980 já era possível contabilizar 5.000 pessoas trabalhando em vários barrancos em busca de ouro (Cleary, 1992). A edição do Jornal do Brasil de 21 de abril de 1980 nos oferece uma breve biografia do dono da fazenda Três Barras. Genésio era originário de Minas Gerais e, ao chegar ao Pará com sua família, primeiramente instalou-se às margens da Transamazônica, entre Tucuruí e Marabá, mudando-se para Marabá em 1976, após vender suas terras para a Hidroservice. A fazenda Três Barras possuía 2.700 hectares, e Genésio quase a vendeu quando ficou sem recursos para mantê-la, mas o comprador acabou desistindo uma semana antes da descoberta do ouro (Os donos..., 1980). Com o fim da exploração de ouro em Serra Pelada e a dispersão aos poucos dos garimpeiros, a economia da região permaneceu voltada principalmente para a exploração de minérios, que hoje ocorre predominantemente de forma mecanizada.

CONCLUSÃO: A CONTINUIDADE, A RUPTURA E A DESCOBERTA NA PAISAGEM DE CARAJÁS Neste artigo, objetivamos analisar, em uma perspectiva integrada, épocas cronologicamente separadas na região de Carajás, visto que vestígios desses distintos períodos se encontram registrados nas paisagens locais. Para tal intento, recorremos ao estudo das paisagens, que nos possibilitou compreender que elas são o resultado de encontros entre fatores naturais e culturais, devendo ser lidos por meio de uma metodologia própria, a qual envolve múltiplas abordagens, que vão desde a Arqueologia, passando pela História, pela Etnografia e pela Etnoarqueologia – as duas últimas, entretanto, não foram desenvolvidas neste artigo.

Fundamentada a proposta aqui apresentada para a análise das paisagens de Carajás, foram citadas teorias que não compreendem humanidade e natureza como entidades separadas. Ao pensar essas entidades em conjunto, os acontecimentos culturais, sociais e naturais são vistos de forma integrada, na qual humanidade e natureza possuem suas histórias entrelaçadas. É no processo de habitar que elas se entrelaçam, formando as paisagens, que contêm os efeitos cumulativos da longa duração dessas relações. A paisagem, portanto, está em contínuo processo de formação. A paisagem da Serra de Carajás passou por diferentes transformações ao longo do seu processo de habitar. A constituição da sociedade urbana e rural e os diferentes momentos de exploração econômica dos recursos naturais foram moldando a paisagem e a vida das pessoas. Entre as ocupações mais antigas na região, é possível encontrar vestígios deixados em cavidades e sítios a céu aberto que remontam há 10.000 anos A.P., os quais deixaram diferentes marcas que podem ser observadas hodiernamente. Tempos depois, esses vestígios mais antigos foram encontrados, alterados, sobrepostos pelas ocupações que os sucederam, e novamente todo esse agregado de testemunhos de processos de habitar formou a paisagem de Carajás. É por isso que a interação entre seres humanos e o ambiente faz parte tanto da história das sociedades quanto das paisagens, visto se tratar de uma única crônica. Com isso, o viver nas paisagens e as atividades realizadas durante esse habitar podem ser entendidos, em parte, como um processo cumulativo. Para o estudo de caso aqui apresentado, a grosso modo, temos vestígios da cultura material, como fragmentos cerâmicos e material lítico, deixados pelas ocupações mais antigas, além da cava, produzida pelos garimpeiros durante a exploração de ouro. Os elementos deixados na paisagem podem servir como gatilho que nos fazem lembrar de nossos antepassados, quando perdura alguma espécie de continuidade ou lembrança sobre os que habitaram anteriormente. Entretanto, quando essa ligação não existe, – ou seja, ocorre uma ruptura temporária – ainda assim,

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os elementos presentes nas paisagens podem trazer informações, fazendo-nos conhecer algo sobre o habitar de antigamente. Para esse caso, em Carajás, como apresentado, a exploração mineral a partir da década de 1970, que levou à necessidade de pesquisas arqueológicas na região, resultou na descoberta de ocupações indígenas antigas, remontando ao período holocênico. Além disso, a ligação é feita por elementos que frequentemente desconhecemos ou esquecemos como uma herança deixada por antepassados ‘desconhecidos’, como o caso das florestas antropogênicas produzidas pelas populações do período pré-colonial e exploradas pelas pessoas do passado mais recente. Se provavelmente não há uma ligação genealógica ou uma identificação entre as pessoas que habitaram a região de Carajás há milhares de anos com as que lá estão há apenas algumas décadas, existe, entretanto, uma herança e uma continuidade na paisagem construída em cada momento do habitar, abrangendo, nesse sentido, os vestígios materiais deixados, a vegetação modificada e as transformações no solo e no relevo. Dessa forma, olhando pela perspectiva da longa duração, cada momento do habitar constitui uma parte na crônica da paisagem. Carajás é mais do que um ambiente repleto de riquezas a serem exploradas, queimadas, desmatadas e perfuradas, conforme a vontade do ser humano. Nesta paisagem, estão as histórias do habitar de diferentes vidas, uma crônica de oferta e de negação de riquezas, de atração e de expulsão de pessoas, de geração e de encerramento de vidas. A análise do habitar em Carajás a partir das paisagens foi-nos importante para compreender os seus distintos momentos de uma forma contínua, revelando como as transformações no passado remoto se fazem presentes nos tempos recentes e como o que fazemos hodiernamente afeta as memórias materiais do passado. Com isso, a análise das paisagens possibilitou-nos ver tanto as florestas antropogênicas deixadas pelas populações indígenas desde 10.000 A.P. quanto a cava produzida pelos garimpeiros na década de 1980 como elementos igualmente importantes

para contar a história do habitar em Carajás. Esta base teórica também possibilitou-nos interpretar os vestígios e as transformações produzidos pela garimpagem e pela agricultura não apenas como intrusões tafonômicas, mas como uma continuação na história do habitar em Carajás.

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Padrões de distribuição espacial e modelos preditivos: os sítios arqueológicos no baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas Spatial distribution patterns and predictive models: archaeological sites on the lower courses of the Nhamundá and Trombetas rivers João Aires da Fonseca Universidade Federal do Pará. Belém, Pará, Brasil

Resumo: O presente artigo possui enfoque metodológico relacionado à modelagem de dados espaciais de sítios arqueológicos, utilizando o conceito de modelo preditivo. O método está embasado em modelos de distribuição de espécies com o algoritmo de máxima entropia. Para sua construção, foram utilizados n = 76 pontos de sítios arqueológicos da região situada no baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas, porção oeste do estado do Pará, Brasil. Toda a análise teve o uso de softwares livres (Qgis, Grass-Gis, R e MaxEnt) e de cenas de satélite e de radar de domínio público (Landsat 5 e SRTM). Os resultados alcançados apontam para áreas altamente propícias à incidência de sítios arqueológicos, distribuídas por diversos ambientes ecológicos, indo desde as margens dos principais rios e lagos, perpassando locais de interflúvio nas proximidades e nos topos dos platôs que compõem a região. As discussões apontam que, para a elaboração e o uso de modelos arqueológicos preditivos na Amazônia, devem ser consideradas as características de cada complexo arqueológico e o local em estudo, observando a diversidade de antigos grupos indígenas ao longo dos rios da Amazônia e, por conseguinte, das diversas formas e escolhas de se ocupar o espaço. Palavras-chave: Arqueologia amazônica. Modelo preditivo. Algoritmo de máxima entropia. Abstract: The methodological focus of this article is spatial data modeling, utilizing the concept of predictive archaeological models. This method is based on software using species distribution models with a maximum entropy algorithm. The model was constructed using n = 76 archaeological point locations from the region between the lower courses of the Nhamundá and Trombetas Rivers in the state of Pará, Brazil. The entire analysis involved open source software (Qgis, Grass-Gis, R and MaxEnt) and free satellite and radar images (Landsat 5 and SRTM). The results obtained indicate the presence of various ecological niches with high archaeological potential, ranging from the banks of the major rivers and lakes through the hinterland areas surrounding the plateaus in the region. The discussions about the results and analysis indicate that the use and construction of predictive archaeological models in the Amazon region should consider both the archaeological complexes and the region in question, observing the diversity of established indigenous groups along the rivers in Amazonia as well as the various ways of selecting and the occupying the area. Keywords: Amazon archaeology. Predictive model. Maximum entropy algorithm.

AIRES DA FONSECA, João. Padrões de distribuição espacial e modelos preditivos: os sítios arqueológicos no baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 13, n. 2, p. 353-376, maio-ago. 2018. DOI: http:// dx.doi.org/10.1590/1981.81222018000200006. Autor para correspondência: João Aires da Fonseca. Universidade Federal do Pará. Rua Igarapé Tucunduba, 1034 – Guamá. Belém, PA, Brasil. CEP 66075-123 (airesarch@gmail.com). ORCID: http://orcid.org/0000-0002-1316-1183. Recebido em 16/10/2017 Aprovado em 08/02/2018

BY

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ARQUEOLOGIA E MODELOS PREDITIVOS Modelos arqueológicos preditivos têm sua origem no esforço teórico e metodológico de proteção de sítios, dentro de programas de gestão de recursos culturais (do inglês Cultural Resource Management – CRM) (Verhagen, 2007). Dois aspectos podem ser associados ao seu uso. O primeiro deles consiste na função de mapear áreas com elevadas probabilidades de ocorrências de sítios, para verificar possíveis impactos a serem causados por grandes empreendimentos, como hidrelétricas, ferrovias, portos, entre outros (Kipnis, 1997; Caldarelli; Santos, 1999; Aires da Fonseca, 2016). No Brasil, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão responsável pela gestão de sítios arqueológicos, propõe em sua Instrução Normativa n. 01/2015 que, em determinados empreendimentos econômicos, os estudos arqueológicos devem utilizar modelos preditivos como forma de avaliação da potencial ocorrência de novos sítios em áreas de impactos diretos destes (Brasil, 2015). O segundo aspecto, de cunho mais acadêmico, incide em utilizar a modelagem de dados espaciais, com o intuito de ir além da gestão de recursos culturais, e com o uso de teorias que possam orientar (theory driven) as inferências sobre as configurações espaciais de sítios arqueológicos (Verhagen; Whitley, 2012). Em outras palavras, que tais teorias permitam responder hipoteticamente por quais motivos determinados sítios arqueológicos ocorrem em certos locais, buscando compreender as dinâmicas construídas entre o homem e o ambiente, de acordo com as especificidades de cada cultura, do território e do tempo em estudo (Aires da Fonseca, 2016). Os recentes resultados apresentados por McMichael et al. (2014) demonstram de maneira clara a utilização de modelos preditivos e os resultados que estes podem proporcionar para a construção de quadros hipotéticos na arqueologia amazônica. A partir de amostras de pontos de sítios, classificados entre contendo e não contendo terra preta arqueológica, a pesquisa desenvolveu um modelo preditivo, utilizando variáveis ambientais para

compreender a dispersão destes sítios por toda a bacia amazônica, apresentando novos dados para as discussões sobre as distribuições de antigas ocupações em áreas de várzea e de terra firme, bem como sobre quais impactos a presença humana pode ter causado na composição das florestas ao longo de séculos de assentamentos. Para McMichael et al. (2014), os resultados alcançados permitem descrever uma concentração de sítios arqueológicos na porção centro-leste da Amazônia, onde os sítios compostos por terra preta – que provavelmente denotam intensas ocupações – estão localizados em áreas próximas ao curso dos grandes rios; também possibilitam a compreensão de que, nas áreas de interflúvio, esses sítios apresentam baixa incidência, de acordo com a projeção do modelo criado. Desta forma, um quadro da Amazônia antiga é descrito com esparsas ocupações em áreas do interior e densas ocupações ao longo dos rios principais, a exemplo dos rios Amazonas, Madeira e Tapajós. Apesar de os autores ressaltarem que este quadro pode ser o resultado de um viés amostral, devido ao maior registro de sítios ter ocorrido exatamente em áreas próximas destes rios, a hipótese de vazios demográficos em áreas de interflúvio também é sustentada pela não identificação de terra preta em sítios do interior, principalmente na porção do oeste amazônico. Contudo, os resultados da pesquisa desenvolvida pelo presente artigo, utilizando os pontos de sítios arqueológicos do baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas, bem como variáveis ambientais correlacionadas, apontam para um quadro hipotético divergente do apresentado por McMichael et al. (2014). A pesquisa considerou dois fatores importantes nas definições das amostras e das dimensões da área de estudo: 1) A utilização de dois modelos preditivos: o primeiro considera a totalidade de sítios arqueológicos conhecidos em relação às variáveis ambientais selecionadas, permitindo verificar o quão distribuídos estão nas paisagens, além de possibilitar a observação de um possível viés amostral quanto à maior incidência de sítios nas proximidades dos rios e de lagos principais, indicando que isso possa ocorrer em razão de maior número de pesquisas nestes ambientes.

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O segundo modelo foi criado abrangendo a possibilidade de modelar os sítios e as paisagens relacionadas às áreas de interflúvio, agrupando-os por características ambientais aproximadas, em vez de classificações entre sítios que contêm e não contêm terra preta arqueológica; e 2) A escolha da área de estudo que contivesse, em parte, a ocorrência espacial de um complexo arqueológico, neste caso o complexo cerâmico Konduri, em vez de considerar a bacia amazônica inteira e manipular pontos de sítios de diversos outros complexos. A premissa, neste aspecto, consistiu na hipótese de que determinadas formas de ocupar o espaço são intrínsecas a determinadas culturas, e utilizar uma amostra compreendendo todos os sítios arqueológicos atualmente conhecidos na Amazônia implicaria em considerar que antigos grupos indígenas compartilhavam das mesmas formas e escolhas de se ocupar o espaço. Desta maneira, o quadro de dispersão de sítios arqueológicos, tanto em áreas de interflúvio como nos rios principais, a ser apresentado ao longo deste artigo, aproxima-se dos resultados de pesquisas arqueológicas que apontam para uma complexa rede de relações sociais e econômicas, com uso intensivo de diversos ambientes amazônicos (Balée, 1993; Stenborg et al., 2012; Moraes; Neves, 2012; Magalhães, 2013; Clement et al., 2015). Diante da importância do uso de modelos preditivos em pesquisas arqueológicas, deve-se, então, perguntar sobre como construí-los e quais os direcionamentos teóricos, metodológicos e técnicos podem ser aplicados, de acordo com cada região em estudo. O presente artigo retoma as discussões apresentadas em pesquisas anteriores no baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas (Aires da Fonseca, 2013), aplicando novas metodologias e o uso de softwares livres para a inclusão de análises geoestatísticas.

CONSTRUINDO MODELOS ARQUEOLÓGICOS PREDITIVOS Uma característica interessante no uso de modelos preditivos diz respeito à forma como eles são construídos. Em estudos anteriores, foi possível concluir que seu conceito incide na:

[...] relação quantificável, entre a presença de um determinado tipo de sítio e uma gama diversificada de [...] [variáveis ambientais que possam caracterizá-los]. Esta relação deve ser válida para que então características ambientais similares, existentes em [...] [outros locais] ainda não levantados, possam indicar a ocorrência [...] [favorável] de novos sítios. O objetivo principal [consiste em] gerar um mapa de sensibilidade com faixas de baixa, de média e de alta probabilidade de ocorrência de sítios arqueológicos em novas regiões, o que irá permitir criar um guia para o levantamento de campo em busca de possíveis vestígios. (Aires da Fonseca, 2016, p. 181).

Para a sua construção, são necessários os seguintes passos: 1) Caso existam [bancos de dados de sítios arqueológicos georreferenciados na área a ser levantada], busca-se definir as principais características dos mesmos, tal como tamanho, se são sítios de acampamento ou de habitação, a proximidade de recursos hídricos, o tipo de vegetação associada, a distância entre esses sítios [entre outras características ambientais]; 2) Caso não exista registro de sítios anteriores à pesquisa, usam-se então deduções de que determinados locais foram propícios à ocupação humana, como a proximidade de recursos hídricos e áreas planas livres [de alagamentos]; 3) O uso de um [...] Sistema de Informação Geográfica (SIG), para que as análises feitas nos itens 1 [...], possam ser interpretadas através de mapas; 4) A [confecção] de um mapa [...] indicando as áreas de baixa, de média e [de] alta probabilidade [de locais favoráveis à incidência de novos sítios]; 5) Levantamento em campo das áreas apontadas [...] pelo mapa [...] para o teste do modelo [...] (Aires da Fonseca, 2016, p. 181).

Contudo, estas características apresentam a construção de modelos segundo os quais as inferências do pesquisador são constantemente empregadas por meio da definição de valores e de pesos às variáveis utilizadas, a fim de atender à necessidade de conhecimento empírico da área em estudo, seja através de levantamentos de campo ou da obtenção de informações junto a moradores locais com saberes sobre o terreno, os tipos de matas (vegetações) e de locais com vestígios arqueológicos. Modelos empíricos possuem um papel importante principalmente em áreas de estudo onde o registro de sítios

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arqueológicos é escasso, os quais, no entanto, carregam consigo a subjetividade e a possibilidade de erros de interpretação (Ebert, 2000; Pellini, 2008). Uma boa saída para reduzir isto consiste no uso da matemática e da estatística, através de softwares que possam gerar os valores das variáveis explicativas, sem interferência constante do usuário. Desta forma, uma sexta característica pode ser adicionada na construção de modelos preditivos: o uso de programas estatísticos com algoritmos que possam relacionar os pontos de sítios arqueológicos às variáveis ambientais associadas, para que, então, sejam identificadas novas localidades que apresentem valores aproximados, ou idênticos, dos atributos ambientais provenientes de sítios arqueológicos conhecidos.

MATERIAIS E MÉTODOS Diante do conceito e dos requisitos necessários à construção de um modelo preditivo, uma série de programas de

computador e de algoritmos pode ser utilizada para organizar, modelar, testar, analisar e apresentar os resultados das pesquisas. Neste artigo, foram adotados os seguintes materiais: 1) A base de dados de sítios arqueológicos utilizada foi composta das pesquisas de campo realizadas durante os anos 2000 e 2010 pelo Museu Paraense Emílio Goeldi, no âmbito do Projeto Trombetas (Guapindaia; Lopes, 2011). Durante este projeto, foi desenvolvido um Sistema de Informação Geográfica (SIG) contendo as informações de pontos de sítios coletados em campo, sendo a grande maioria proveniente de pesquisas revisitadas, iniciadas na década de 1950, e outros compõem a base de dados apresentada por Machado (2001). O total da amostra compreende n = 76 pontos de sítios arqueológicos (Figuras 1 e 2 e Apêndice);

Figura 1. Mapa de localização da área de estudo. Mapa: João Aires da Fonseca (2017).

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Figura 2. Distribuição espacial dos sítios arqueológicos na região do baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas. Mapa: João Aires da Fonseca (2017).

2) Duas cenas do satélite Landsat 5 compuseram o mosaico (LT05 L1TP 228061 20091007 20161020 01 T1 e LT05 L1TP 229061 20090928 20161020 01 T1) para a análise de vegetação (USGS, [201-]); 3) Quatro cenas do programa Shuttle Radar Topography Mission (SRTM) com resolução de 30 m 1-arc. seg. (s02_w056_1arc_v3, s02_w057_1arc_ v3, s03_w056_1arc_v3 e s03_w057_1arc_v3), provenientes do site Science for a changing World, foram utilizadas para as análises do terreno e da hidrografia (USGS, [201-]); e 4) Da Agência Nacional de Águas (ANA) fora utilizado o arquivo vetorial de ‘massa d’água’, que define os grandes rios e lagos naturais da área de estudo (ANA, 2017).

Para a modelagem deste material e a obtenção das variáveis ambientais informadas no modelo, foi adotado o programa estatístico R (R Project..., 2017), que permitiu a utilização de modelos matemáticos e a possibilidade de verificar, de uma forma mais simples e direta, a representação gráfica dos resultados destes modelos através de tabelas e de gráficos (boxplots e dendogramas), de projeções cartográficas, dos testes estatísticos, da padronização e da validação de dados, por meio dos pacotes raster, rgdal, spatialEcology, caret, e1071 e usdm. O programa Qgis (2.18.3) foi utilizado para editar os dados espaciais e manipular visualmente as tabelas e os mapas. No programa Grass-Gis (7.2.0), foram obtidos os arquivos de imagens (rasters) das variáveis explicativas.

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Desta forma, da imagem de radar SRTM foi possível extrair os seguintes valores: 1) altimetria em relação ao nível do mar; 2) declividade do terreno; 3) curvatura do terreno (locais planos, convexos ou côncavos); 4) rugosidade do terreno, com o uso do algoritmo r.tri (Terrain Ruggedness Index), produzido por Pawley (2017), sendo definidos os valores relacionados às áreas com solos planos ou irregulares; 5) posições das faces do terreno em relação ao norte, ao sul, ao leste e ao oeste; 6) índice de radiação solar com valores entre 0 e 1, produzido por Evans (2017) no pacote R spatialEcology; 7) índice de posição topográfica (Topographic Position Index - TPI), que permitiu verificar se os pontos estão situados em áreas planas, em vales ou em áreas íngremes (pacote spatialEcology); 8) rios de 2ª, de 3ª, de 4ª e de 5ª ordem, através do método Strahler, informado no algoritmo r.watershed, do GrassGis, para que fossem obtidas as distâncias euclidianas dos pontos de sítios em relação às ordens de rios - em relação aos rios de 6ª e 7ª ordem, correspondentes ao Trombetas, ao Nhamundá e ao Amazonas, utilizou-se o arquivo vetorial de ‘massa d’água’ da ANA (2017), que corresponde às dimensões das margens destes grandes rios -; 9) índice de vegetação da diferença normalizada (Normalized Difference Vegetation Index - NDVI), com o intuito de fazer uma possível associação entre o vigor da vegetação, em épocas de poucas chuvas na Amazônia, e os sítios arqueológicos com terra preta (Ponzoni; Shimabukuro, 2010). No total, foram obtidas treze variáveis ambientais (Quadro 1), que, para serem utilizadas no programa Maximum Entropy Species Distribution Modeling (MaxEnt), tiveram de ser validadas através do teste de correlação de Spearman e do teste de Variance Inflation Factor (VIF), para detectar colinearidade em valores de VIF > 10, que podem ocasionar influências nos resultados do modelo (Phillips et al., 2006; Naimi et al., 2014). O programa MaxEnt (versão 3.4.1), constituído do algoritmo de máxima entropia, permitiu estabelecer

as relações entre a presença de pontos de sítios arqueológicos e as variáveis ambientais informadas, as quais, ao serem combinadas, obtiveram os resultados estatísticos, como os valores de área sob a curva (AUC) – que pressupõem valores ótimos acima de 0.7 (AUC > 0.7) – e os resultados do teste Jackknife, com valores de importância das variáveis na construção do modelo. A partir do primeiro teste no MaxEnt, foi possível verificar as variáveis ambientais com ganho Jackknife muito próximo de zero ou sem ganho algum, sendo estas retiradas da análise, realizando-se o teste seguinte, até que todas pudessem contribuir para a construção do modelo preditivo. O principal produto confeccionado no MaxEnt, no entanto, consiste no mapa contendo as projeções espaciais de áreas com alta, média e baixa probabilidade de locais favoráveis à ocorrência de sítios arqueológicos, tendo como parâmetro a média dos valores das variáveis ambientais, extraídas pela amostra de pontos de sítios informados (Phillips et al., 2004, 2006). Como análise final, para a construção de um modelo preditivo capaz de indicar possíveis sítios arqueológicos em Quadro 1. Variáveis explicativas utilizadas na construção dos modelos arqueológicos preditivos.

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Variáveis utilizadas Altimetria (alt) Declividade (decli) Curvatura do terreno (curva) Rugosidade do terreno (tri) Posição das faces do terreno (dir_decli) Índice de radiação solar (solar) Índice de posição topográfica (tpi) Rios de 2ª ordem (ordem2) Rios de 3ª ordem (ordem3) Rios de 4ª ordem (ordem4) Rios de 5ª ordem (ordem5) Massa d’água (massa_agua) Índice de vegetação da diferença normalizada (ndvi)


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áreas de interflúvio, empregou-se o método hierárquico de agrupamento (cluster), utilizando-se a distância Euclidiana e o método de encadeamento completo (complete linkage method) no software R (3.4.1), classificando-se a amostra de sítios em três grupos (n = 76), de acordo com características ambientais aproximadas. Através desta classificação, extraiu-se a segunda amostra de sítios para a construção do segundo modelo preditivo, que permitiu verificar as principais mudanças e características no uso de uma amostra heterogênea, contendo todos os tipos de sítios, e de uma mais homogênea, com pontos de sítios apresentando valores das variáveis ambientais mais aproximadas (Drennan, 2009; Carlson, 2012; Baxter, 2015).

ESTUDO DE CASO: O BAIXO CURSO DOS RIOS NHAMUNDÁ E TROMBETAS A região que compreende o baixo curso dos rios Trombetas e Nhamundá, na porção oeste do estado do Pará, está dentro da área da [...] Floresta Nacional Saracá-Taquera, onde existem diversos ambientes ecológicos, como áreas ribeirinhas, lacustres, terras baixas, encostas, topos de platôs e, por conseguinte, uma gama diversificada de sítios arqueológicos [...] (Aires da Fonseca, 2016, p. 178).

Muitos destes sítios apresentam extensas áreas de terra preta arqueológica ao longo dos rios principais, contendo abundância de fragmentos cerâmicos e líticos, enquanto uma pequena quantidade deles apresenta camadas arqueológicas curtas, com pouca incidência de vestígios, sendo que alguns estão situados no topo dos platôs na região (Aires da Fonseca, 2016). As pesquisas atuais continuam adquirindo novos dados que confirmam sítios multicomponenciais, definindo os estilos cerâmicos Pocó, entre 4.000 e

1.000 AP, e Konduri, com datações associadas aos anos subsequentes até próximo da colonização europeia, como a primeira ocupação cerâmica (Hilbert, P., 1955; Hilbert, P.; Hilbert, K., 1980; Guapindaia, 2008; Guapindaia; Lopes, 2011). Entre estes sítios, possui destaque o Cipoal do Araticum, descoberto em 2009 pelo “Projeto Arqueológico Trombetas”1. Trata-se de um sítio localizado na área de interflúvio, à margem direita do rio Araticum, entre os platôs Aviso e Bela Cruz, com área de 400 x 600 m. Suas características principais são as incidências de terra preta arqueológica, uma vegetação composta por mata de cipós, havendo alta frequência de plantas úteis (medicinais, resinas, comestíveis, alucinógenas). Este sítio apresenta uma datação por C14 recuando em 4.000 antes do presente. Dessa forma, ele abrange grande parte da ocupação humana de que se tem conhecimento na região, contendo estilos cerâmicos relacionados principalmente ao Pocó e, em menor quantidade, ao Konduri (Junqueira, 2010; Guapindaia; Aires da Fonseca, 2012, 2013) (Figura 3). Diante das especificidades deste sítio e das possibilidades do uso de modelos arqueológicos preditivos, as seguintes questões podem ser levantadas: existiriam na região outros locais semelhantes ao Cipoal do Araticum, indicando a ocorrência de novos sítios arqueológicos? Quais discussões podem ser levantadas a respeito de sítios de interflúvio e sítios da várzea amazônica? Apesar de o questionamento ter como ponto de partida o sítio Cipoal do Araticum, é de suma importância a análise da distribuição espacial dos demais sítios arqueológicos existentes na região, para que, então, possam ser construídos e testados modelos arqueológicos preditivos, apresentando os cenários hipotéticos de antigas ocupações humanas entre os rios Nhamundá e Trombetas.

Coordenado entre os anos de 2000 a 2010 por Vera Guapindaia, este projeto consistiu em extensos levantamentos e salvamentos arqueológicos na área da Mineração Rio do Norte.

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Figura 3. Sítio Cipoal do Araticum: A) localização; B) fotografia evidenciando o sítio, que foi identificado em 2009, com dimensões de 400 x 600 m. Suas principais características são a localização na área de interflúvio do baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas, a marcante vegetação, composta por cipós, palmeiras e plantas úteis, bem como a extensa camada de terra preta arqueológica. Mapa (A): João Aires da Fonseca (2017); Foto (B): João Aires da Fonseca (2010).

RESULTADOS A validação das treze variáveis ambientais relacionadas aos pontos de sítios arqueológicos da região (n = 76) indicou elevados valores de coeficientes de correlação de Spearman (rho). Ocorreu uma correlação negativa entre as variáveis de incidência solar (solar) e a declividade do terreno (decli), uma vez que, quanto menor a declividade, mais áreas planas ocorrerão e, portanto, haverá maior incidência solar nestas áreas. A declividade também apresentou forte correlação positiva com a rugosidade do terreno (tri), provavelmente porque ambas as variáveis possuem valores similares às de áreas planas. O mesmo aconteceu com as variáveis de índice de posição topográfica (tpi) e curvatura do terreno (curva),

uma vez que ambas lidam com áreas de vales para o tpi e com áreas convexas para curva, por exemplo. Foi indicada também a correlação entre o índice de vegetação da diferença normalizada (ndvi) e a altimetria (alt), muito provavelmente relacionada ao tipo de vegetação encontrado no topo dos platôs. Por fim, a correlação positiva mais elevada ocorreu entre a variável alt e massa d’água (massa_agua), que, devido à maior incidência de pontos de sítios associados aos grandes rios e lagos da região, também apresentam cotas altimétricas mais baixas. Dessa forma, a correlação discrimina que, quanto mais baixos e próximos os pontos de sítio das massas d’água, maiores são as ocorrências de sítios arqueológicos na região (Tabela 1).

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Tabela 1. Coeficientes da correlação de Spearman para as treze variáveis explicativas do modelo (n = 76). Em negrito, destacam-se os índices com os valores mais elevados, que informam possível colinearidade e a necessidade de retirada de uma das variáveis do modelo. As legendas para as siglas estão descritas no Quadro 1.

ordem2 ordem3 ordem4 ordem5 solar

ordem3

ordem4

ordem5

solar

tpi

dir_decli

decli

ndvi

curva

tri

alt

massa_agua

-0.14

0.08

-0.06

0.09

-0.09

0.04

-0.14

-0.11

-0.01

-0.05

0.07

0.17

-0.25

-0.01

-0.21

0.01

-0.01

0.14

-0.2

-0.1

0.07

-0.37

-0.46

-0.02

0.26

0.31

0.17

-0.27

0.33

0.27

-0.17

0.38

0.44

-0.25 -0.15

-0.2

0.27

-0.15

-0.23

0.37

-0.34

-0.54

-0.01

0.28

-0.84

0.09

0.14

-0.8

0.11

0.28

0.2

-0.07

0.37

0.81

-0.03

0.4

0.22

-0.24

0.09

0.23

-0.25

0.27

0.34

-0.09

-0.2

0.72

-0.12

-0.28

0.46

-0.04

0.61

0.54

-0.08

0.55

0.36

-0.03

-0.25

tpi dir_decli decli ndvi curva tri alt

0.86

Contudo, apesar da incidência de correlações elevadas, os valores do teste de colinearidade (pacote USDM no R) ficaram todos abaixo de 10 (VIF < 10), não sendo excluída nenhuma variável a partir deste método (Tabela 2). Os resultados do primeiro teste no MaxEnt determinaram que as variáveis de declividade e de curvatura do terreno tiveram contribuição com valor zero e permutação bem próxima de zero. Estas duas variáveis foram retiradas, sendo realizado um segundo teste no MaxEnt, desta vez com as variáveis explicativas retornando com valores de ganho acima de zero (Tabela 3). Desta forma, foram utilizadas onze variáveis ambientais na construção do modelo preditivo, sendo estabelecido o uso de 25% da amostra de n = 76 pontos de sítios para o teste de validação. O modelo apresentou como resultados os valores de AUC acima de 0,8, tanto para o Training data (AUC = 0,906, correspondente a n = 57 pontos de sítios) quanto para o Test data (AUC = 0,872, correspondente a n = 19 pontos de sítios). Tais resultados forneceram valores elevados para a validação do modelo preditivo (Figura 4).

Tabela 2. Aplicação do teste de Variance Inflation Factor (VIF) informando resultados sem a incidência de colinearidade (VIF > 10), entre as variáveis explicativas associadas à amostra em estudo. As legendas para as siglas estão descritas no Quadro 1. Variáveis

VIF

massa_agua

4.884

solar

4.695

alt

4.617

decli

3.397

curva

3.290

tpi

3.161

tri

3.142

ordem5

1.809

ordem4

1.565

ndvi

1.537

ordem3

1.335

dir_decli

1.204

ordem2

1.199

Em relação aos valores de ganho do teste Jacknife, a variável de distância da massa de água apresentou maior influência sobre a distribuição dos

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Padrões de distribuição espacial e modelos preditivos: os sítios arqueológicos no baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas

pontos de sítios, fato comumente conhecido devido ao maior registro de sítios arqueológicos ao longo das margens dos grandes rios e lagos da região. A variável ndvi aparece como aspecto importante pelo fato de poder classificar tanto florestas antropizadas, a exemplo da vegetação identificada no sítio Cipoal do Araticum, além de possibilitar a identificação de locais de vegetação aberta ou de capoeira recente, associada às ocupações ribeirinhas assentadas, em grande parte, em sítios arqueológicos (Figura 5). O principal resultado produzido pelo programa MaxEnt – e de maior interesse para as interpretações arqueológicas – consistiu no mapa contendo as localizações de áreas definidas com a baixa, a média e a alta probabilidade de locais semelhantes aos n = 76 pontos de sítios informados e com as respectivas médias dos valores das variáveis ambientais (Figura 6). A partir dos dados obtidos neste primeiro modelo, os valores das variáveis ambientais associadas aos n = 76 pontos de sítios foram normalizados

(scale e center). Conforme o gráfico de boxplot evidenciou, determinados valores distantes das medidas centrais (outliers) poderiam configurar sítios arqueológicos que compartilhavam características ambientais díspares, ou seja, a amostra poderia comportar determinados tipos de sítios em paisagens distintas (Figura 7). Desta forma, a análise hierárquica de agrupamentos (cluster) forneceu uma interessante amostra de n = 20 sítios no cluster 3, definindo um grupo localizado na região de interflúvio dos rios Nhamundá e Trombetas, tendo como um dos integrantes o sítio Cipoal do Araticum (Figura 8). Com a nova amostra definida, foi criado um segundo modelo preditivo, verificando-se os pressupostos de colinearidade, os valores de VIF em conjunto com os testes do MaxEnt, de onde tiveram que ser retiradas as variáveis de índice de radiação solar (solar), de massa d’água (massa_agua), de índice de rugosidade do terreno (tri), de curvatura do terreno (curva) e do índice de posição topográfica (tpi) (Tabelas 4 a 6).

Tabela 3. Valores de AUC (normalizados em porcentagem) dos testes de contribuição e de permutação realizados pelo programa MaxEnt. Foram retiradas da análise as variáveis ambientais de declividade e de curvatura do terreno, devido à baixa contribuição ao modelo. Primeiro teste

Segundo teste

Variáveis

Contribuição (%)

Permutação (%)

Variáveis

Contribuição (%)

Permutação (%)

agua_longlat

37,9

35,3

agua_longlat

37,9

31,8

ordem_4_longlat

15

16

ordem_4_longlat

14,9

22,9

solar2_trasp_longlat

11,2

1,4

solar2_trasp_longlat

11,3

2,3

ordem_3_longlat

9,8

14,1

ordem_3_longlat

10,1

6,5

ordem_5_longlat

8,8

9,3

ordem_5_longlat

8,9

9,3

ndvi_longlat

7,5

9,5

ndvi_longlat

7,4

13,3

tri_longlat

4,1

6,1

tri_longlat

4

3,3

ordem_2_longlat

3,2

3,4

ordem_2_longlat

3,2

6,1

tpi_norm_longlat2

1,3

1,5

tpi_norm_longlat2

1,3

2,8

altimetria_longlat

0,7

1,1

altimetria_longlat

0,7

0,9

direcao_decli_longlat

0,4

2,2

direcao_decli_longlat

0,3

0,8

declividade_longlat

0,1

0

curvatura_longlat

0

0,1

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Figura 4. Os valores de AUC alcançaram resultados acima de 0,8, sendo considerados como valores aceitáveis para a composição do modelo preditivo.

Figura 5. Valores de ganho de AUC para o teste Jackknife. A variável com maior contribuição para o modelo foi a distância dos pontos de sítios em relação à massa de água.

363


Figura 6. Modelo arqueológico preditivo para a região do baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas. O modelo reflete o já conhecido padrão de maior incidência de sítios nas proximidades dos grandes rios e lagos, evidenciando a área de interflúvio com esparsos episódios de locais com alta probabilidade desta ocorrência. O sítio Cipoal do Araticum e as áreas do entorno foram classificados entre locais de média para baixa probabilidade de ocorrência de sítios arqueológicos. Mapa: Projeto UTM, João Aires da Fonseca (2017).

Padrões de distribuição espacial e modelos preditivos: os sítios arqueológicos no baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas

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Figura 7. Boxplot dos n = 76 pontos de sítios arqueológicos e os respectivos valores (normalizados) das variáveis ambientais utilizadas na construção do modelo preditivo. Os outliers indicam as ocorrências de diferentes sítios na paisagem.

Figura 8. Análise hierárquica de agrupamento (cluster) para a amostra de n = 76 pontos de sítios associados às doze variáveis ambientais do modelo preditivo. O cluster 3, onde está inserido o sítio Cipoal do Araticum, foi selecionado como amostra (n = 20) para a construção do segundo modelo, com o intuito de localizar áreas semelhantes aos sítios deste grupo na região do baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas. Tabela 4. Coeficientes da correlação de Spearman para as treze variáveis explicativas do segundo modelo (n = 20). Em negrito, destacam-se os índices com os valores mais elevados que informam possível colinearidade e a necessidade de retirada de variáveis do modelo. As legendas para as siglas estão descritas no Quadro 1.

ordem3

ordem4

ordem5

solar

tpi

dir_decli

decli

ndvi

curva

tri

alt

massa_agua

ordem2

0.18

0.35

-0.19

-0.12

0.16

-0.01

-0.07

0.03

0.32

-0.06

0.45

0.1

-0.31

-0.1

0.08

-0.21

-0.05

0.27

0.08

-0.03

0.47

-0.1

-0.49

0

0.24

-0.2

-0.11

0.16

0.1

-0.14

0.18

0.84

-0.28

-0.01

0.26

0.39

-0.26

-0.15

0.25

0.05

-0.57

0.02

0.33

-0.85

0.24

0.14

-0.8

-0.31

0.22

0.4

-0.22

-0.02

0.75

0.02

0.46

0.29

-0.36

0.09

0.37

-0.35

0.1

-0.06

-0.24

-0.34

0.82

0.19

-0.31

0.29

-0.07

0.15

0

-0.06

0.54

0.14

0.3

-0.25

-0.03

ordem3

0.23

ordem4 ordem5 solar tpi dir_decli decli ndvi curva tri alt

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Padrões de distribuição espacial e modelos preditivos: os sítios arqueológicos no baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas

Tabela 5. Resultados do teste de Variance Inflation Factor (VIF) para o segundo modelo. Devido ao resultado de VIF > 10, foram retiradas as variáveis de índice de radiação solar (solar) e a variável de massa d’água (massa_agua), destacadas em negrito. As legendas para as siglas estão descritas no Quadro 1. 1º teste

2º teste

3º teste

Variáveis

VIF

Variáveis

VIF

Variáveis

VIF

solar

39.481

massa_agua

16.413

decli

9.111

curva

25.342

ordem4

10.371

tri

7.932

tri

18.890

decli

9.149

curva

5.141

massa_agua

16.497

tri

8.529

ordem5

4.293

decli

13.116

ordem5

7.824

ordem4

3.852

ordem4

12.308

curva

6.598

tpi

3.785

ordem5

9.864

ordem3

6.330

alt

3.118

ordem3

7.260

tpi

4.425

ordem2

2.175

tpi

6.355

alt

4.396

ordem3

1.791

alt

5.499

ordem2

3.088

ndvi

1.776

dir_decli

1.762

ndvi

3.306

dir_decli

1.957

ordem2

3.196

ndvi

1.874

dir_decli

2.926

Tabela 6. Valores de AUC (normalizados em porcentagem) dos testes de contribuição e de permutação realizados pelo programa MaxEnt para o segundo modelo. Em negrito, foram retiradas da análise as variáveis ambientais de índice de rugosidade do terreno (tri), as de curvatura do terreno (curva) e de índice de posição topográfica (tpi). 1º teste MaxEnt

2º teste MaxEnt

Variáveis

Contribuição (%)

Permutação (%)

Variáveis

Contribuição (%)

Permutação (%)

altimetria_longlat

35,4

26,7

altimetria_longlat

34,7

6,3

ordem_5_longlat

20,9

41,5

ordem_5_longlat

25,5

45,7

ndvi_longlat

15,8

11,9

ndvi_longlat

13,6

11,7

ordem_2_longlat

11

13,3

ordem_2_longlat

11,1

10,6

ordem_3_longlat

6,4

1,8

ordem_3_longlat

5,3

19,4

direcao_decli_longlat

4,3

0,8

direcao_decli_longlat

3,6

0,5

ordem_4_longlat

3,2

2,7

declividade_longlat

3,1

1,1

declividade_longlat

2,6

0,6

ordem_4_longlat

3

4,7

tpi_norm_longlat2

0,4

0,2

curvatura_longlat

0,1

0,5

tri_longlat

0

0

Para o segundo modelo, foram utilizadas oito variáveis ambientais, sendo estabelecido, para o teste de validação, o uso de 25% da amostra de n = 20 pontos de sítios. O modelo apresentou como resultados os valores de AUC para o Training data em AUC = 0.986,

correspondente a n = 15 pontos de sítios, e o Test data em AUC = 0.868, para n = 5 pontos de sítios. Tais resultados forneceram valores elevados para a validação deste segundo modelo preditivo, apresentando as variáveis de altimetria e de distância de rios de 3ª ordem como as

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de maior contribuição, devido ao fato de ter sido utilizada uma amostra mais homogênea e associada ao interflúvio, com sítios próximos a rios menores (Figuras 9 e 10). O mapa do segundo modelo detalha as características da segunda amostra de sítios, semelhantes ao Cipoal do Araticum. É interessante notar o adensamento de locais

com alta probabilidade de ocorrência em áreas de interflúvio, o que reflete a mudança de amostra e também das variáveis utilizadas, que possuem resultado bastante promissor nas discussões sobre a construção de modelos preditivos e as inferências sobre o uso do espaço por populações pretéritas na Amazônia (Figura 11).

Figura 9. Valores de AUC para o segundo modelo criado, indicando resultados aceitáveis para a composição do modelo.

Figura 10. Valores de ganho de AUC para o teste Jackknife. As variáveis com maiores contribuições no segundo modelo foram a de altimetria e de rios de 3ª ordem, o que reflete uma amostra situada em locais de interflúvio, em cotas altimétricas mais elevadas e próxima de rios menores.

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Figura 11. Segundo modelo preditivo criado com uma amostra de sítios (n = 20) que compartilham características ambientais aproximadas. Nele, o sítio Cipoal do Araticum e áreas do entorno estão relacionados a locais com alto potencial de ocorrência de sítios arqueológicos em área de interflúvio. Mapa: João Aires da Fonseca (2017).

ANÁLISES O primeiro modelo preditivo possui uma configuração das áreas com alto potencial, as quais se encaixam perfeitamente nas inferências já bastante conhecidas da arqueologia amazônica: a de que os principais sítios com grandes extensões, com terra preta arqueológica e alta frequência de vestígios cerâmicos e líticos ocorrem ao longo dos principais rios e lagos, em alguns trechos de forma contínua e em outros de forma intercalada (Meggers, 1977, 1990). Ao observarmos o mapa do primeiro modelo (Figura 6), existem grandes manchas indicando áreas com altos potenciais, situadas ao longo do rio Trombetas e

do lago do Sapucuá. De fato, este modelo representa a realidade de vários sítios arqueológicos com terra preta e fragmentos cerâmicos e líticos nestes locais. Contudo, deve-se considerar o fato de que, ao longo de mais de cinquenta anos de pesquisas arqueológicas na região, os registros de sítios foram realizados, em sua maioria, exatamente neste tipo de ambiente: nas proximidades dos rios Nhamundá e Trombetas e dos lagos principais. Poucos registros de sítios ocorreram em áreas do interior, de interflúvio destes rios, ressaltando que o sítio Cipoal do Araticum foi descoberto somente no ano de 2009, devido à expansão das atividades mineradoras e à necessidade de pesquisas arqueológicas em áreas ainda não levantadas.

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Assim sendo, o sítio Cipoal do Araticum, dentro da amostra de n = 76 sítios utilizada nesta pesquisa, possui uma posição espacial fora da média de ocorrência de sítios na região. Estatisticamente, ele é considerado um outlier, sendo que a sua representação em um modelo arqueológico preditivo pode ser mascarada ou ‘mal interpretada’ (Figura 6). Estes n = 76 pontos de sítios ocorrem em diversas paisagens na área de estudo. Como o algoritmo de máxima entropia utiliza a média de ocorrência destes pontos em relação às variáveis ambientais, uma amostra que contenha coleta concentrada em determinado ambiente apresentará tendência de maiores concentrações no ambiente onde se tem o número mais expressivo de pontos coletados. Isto é evidente ao observarmos a Figura 1, pois nela existe apenas a indicação de alguns pontos com alto potencial em áreas de interior, mas, em sua maioria, o interflúvio apresenta correlação de média para baixa probabilidade de sítios arqueológicos, incluindo o sítio Cipoal do Araticum, o que põe em dúvida a eficácia do modelo criado. Como seria possível um sítio com terra preta arqueológica e com dimensões de 400 x 600 m não fazer parte de indicativos de áreas com alta probabilidade de ocorrência de sítios? A proposta do presente artigo incide justamente em modelar a paisagem onde o sítio Cipoal do Araticum está inserido, assim como busca verificar se existem outras áreas semelhantes. A saída encontrada para evitar o viés amostral descrito acima foi classificar a amostra de sítios por proximidade de valores das variáveis ambientais associadas. Assim, tem-se como hipótese de que certos ambientes foram escolhidos para um determinado uso por antigas ocupações humanas, havendo, atualmente, a localização de vestígios arqueológicos em compartimentos ambientais específicos: sítios situados ao longo das margens dos grandes rios e lagos; sítios situados em áreas intermediárias, próximos aos platôs da região, onde as grandezas dos rios são menores e ocorrem outros tipos de fauna e flora; e sítios situados no topo dos platôs, nas cotas altimétricas mais elevadas, onde existem as cabeceiras de rios ou nenhum curso de rio.

Dessa forma, estima-se que, para se compreender a distribuição de sítios arqueológicos em áreas de interflúvio, seja necessária a utilização de amostras e de variáveis relacionadas aos interflúvios. Como descrito anteriormente, este procedimento foi realizado com a classificação dos n = 76 pontos compondo grupos que contivessem valores aproximados das variáveis ambientais, sendo selecionada a amostra do grupo onde está situado o sítio Cipoal do Araticum. Os resultados do segundo modelo apresentam um mapa no qual claramente a porção central onde está localizado o sítio Cipoal do Araticum possui grandes concentrações de áreas com alto potencial de locais favoráveis à ocorrência de sítios (Figura 11). Sobre esse aspecto, é importante ressaltar que a utilização de modelos preditivos – e no caso da aplicação de modelos de distribuição de espécies, como o MaxEnt, as indicações de áreas com alto potencial de ocorrências de sítios – são correlações estabelecidas entre o ponto de sítio informado e os valores das variáveis ambientais. Dessa maneira, as áreas em vermelho no mapa (Figura 11) indicam locais muito próximos da topografia do terreno como sendo planos, distantes em torno de 400 m de algum trecho de rio, com cotas altimétricas por volta de 70 a 100 m em relação ao nível do mar, assim como observado no sítio Cipoal do Araticum. Nesta porção central, existem diversos espaços com estas características, onde não necessariamente estão situados sítios arqueológicos. Eles, todavia, representam a média dos valores das variáveis ambientais informadas e, por mais que em alguns trechos não venham a ser identificados vestígios arqueológicos, em muito se assemelham aos locais dos sítios informados na amostra. Contudo, a variável de vegetação classificada através de ndvi pode vir a apresentar uma relação de causa e efeito. Ao considerarmos que a presença humana em um determinado lugar tenha alterado a composição da floresta, através de derrubada da vegetação para plantações ou para assentamentos, podemos arguir que a causa de uma vegetação específica, desenvolvida

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posteriormente ao abandono do sítio, está associada às atividades humanas registradas nestes locais. Tendo isso em mente, os levantamentos botânicos na área do sítio Cipoal do Araticum registraram a existência de um tipo de vegetação específica, contendo presença de lianas, um dossel mais baixo da vegetação em relação à floresta circundante e concentração de espécies vegetais úteis, com resinas e plantas medicinais, definindo-se, assim, uma floresta antropizada (Junqueira, 2010). Esta característica é tão evidente que é possível observá-la em imagens Landsat 5 (Aires da Fonseca, 2013), sendo uma importante variável para a identificação de sítios em áreas florestadas, como no caso Floresta Nacional (FLONA) Saracá-Taquera, localizada na área de estudo deste artigo.

Outras evidências que suscitam florestas antropizadas nesta área de interflúvio do baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas são os resultados do levantamento botânico realizado por Salomão (2009), ao ter identificado alta concentração de castanheiras (Bertholletia excelsa H. & B.) no topo do platô Almeidas. No total, foram registradas 1.140 espécies, com abundância de 1,5 árvore/ha, enquanto que no platô Aviso, distante alguns quilômetros do Almeidas, foram observadas apenas sete espécies de castanheiras, com abundância 294 vezes inferior à registrada no Almeidas. De acordo com este autor, esse padrão espacial de distribuição de castanhais é incomum, havendo a possibilidade de se considerar sua origem antrópica em decorrência da incidência de sítios arqueológicos na região (Figura 12).

Figura 12. Detalhe do segundo modelo preditivo nos arredores dos platôs Almeidas, Aviso e Bela Cruz, indicadas como de alto potencial para incidência de sítios. No topo do platô Almeidas, foram registradas por Salomão (2009) mais de 1.100 espécies de castanheiras (Bertholletia excelsa H. & B.), suscitando a hipótese de influência humana devido a ocorrências de sítios arqueológicos nas proximidades. Mapa: João Aires da Fonseca (2017).

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Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 353-376, maio-ago. 2018

A possibilidade de uma origem antrópica dos castanhais identificados na região tem sido uma das principais abordagens científicas na arqueologia amazônica, na qual um dos enfoques incide em compreender em qual escala o homem pode ter manejado, ao longo de várias gerações, a composição das florestas e a formação de paisagens culturais (Balée, 1993; Clement et al., 2015). Diante destes fatores, as indicações de áreas com alto potencial podem conter novos locais com sítios arqueológicos semelhantes ao Cipoal do Araticum. De acordo com o segundo modelo preditivo criado, existe clara disponibilidade de locais propícios à ocorrência de novos sítios no entorno do platô Almeidas e, com isso, possível dispersão de florestas antropizadas, provavelmente indicada pelos valores da variável ndvi. Ao considerarmos a incidência de um sítio com terra preta arqueológica em uma área de interflúvio, contendo datações que recuam 4.000 AP, estas áreas com alto potencial podem, hipoteticamente, ser classificadas como paisagens que evidenciam indigeneidade (Balée, 2008) ou espaços da cultura neotropical (Magalhães, 2013) (Figura 12).

CONSIDERAÇÕES FINAIS Apesar da possibilidade de utilização de forma generalizada de modelos arqueológicos preditivos, abrangendo, por exemplo, a bacia do rio Amazonas inteira, acredita-se que, devido às especificidades dos sítios arqueológicos amazônicos e à heterogeneidade das paisagens que compõem as ‘diversas Amazônias’, o uso da máxima entropia e a construção de modelos devem ser implementados a partir de parâmetros locais. Neste artigo, tomou-se como premissa a ideia de que determinados lugares na paisagem tiveram importante papel para antigos grupos indígenas, sendo estes espaços especificamente selecionados em razão das relações sociais e econômicas, como a possibilidade de manejo de espécies vegetais, a busca por caça ou por matérias-primas, aspectos estes imbuídos de significados, a exemplo de locais elevados na paisagem como exclusivos para práticas ritualísticas (Zedeño, 1997; Silva, 2013; Magalhães, 2013).

A pesquisa contida neste artigo teve como direcionamento apenas a classificação dos sítios arqueológicos em relação às variáveis ambientais que foram adquiridas de maneira remota com SIG, utilizando-se de imagens de satélite e de radar. Não existem dúvidas de que as combinações de novas variáveis explicativas – advindas de dados de escavações e de trabalho de laboratório, detalhando as dimensões dos sítios, a presença ou a ausência de terra preta arqueológica, os estilos cerâmicos recorrentes ou de inventários botânicos – poderão construir modelos ainda mais robustos. Desta forma, espera-se que o uso de modelos preditivos se torne mais recorrente no meio acadêmico, ou de contrato, seja para a modelagem de dados espaciais de sítios, para a otimização de levantamentos de campo ou, ainda, para o seu uso na gestão de recursos culturais (CRM), de forma que o patrimônio arqueológico brasileiro possa se tornar mais visível e protegido.

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373


Padrões de distribuição espacial e modelos preditivos: os sítios arqueológicos no baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas

Apêndice. Lista de sítios arqueológicos utilizados na pesquisa (Projeção UTM, Datum WGS 84, Fuso 21 S). Os nomes de alguns sítios compreendem o antigo sistema de cadastro de sítios arqueológicos empregados pelo Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas da Bacia Amazônica (PRONAPABA) (Simões; Araujo-Costa, 1978). A sigla PA-OR significa estado do Pará (PA) e a área de Oriximiná (OR), seguida da numeração do sítio arqueológico. A sigla COTRA corresponde à Correia Transportadora, em razão de os sítios terem sido identificados no local de instalação destas estruturas da empresa Mineração Rio do Norte (MRN), na região. (Continua) Sítios

Leste

Norte

1

PA-OR-101

562739

9841830

2

PA-OR-100

562946

9841718

3

Perpétuo Socorro

563411

9841675

4

PA-OR-99

562911

9841193

5

PA-OR-70

563368

9841236

6

Maria Rama

563368

9841012

7

PA-OR-93

566411

9839072

8

PA-OR-63

567066

9838676

9

PA-OR-114

567591

9838555

10

PA-OR-111

564066

9833246

11

PA-OR-110

564549

9834685

12

PA-OR-109

565057

9835564

13

PA-OR-79

568117

9834978

14

PA-OR-68

572547

9837590

15

PA-OR-84

572970

9837392

16

PA-OR-105

571910

9835306

17

PA-OR-94

572039

9833332

18

PA-OR-83

573745

9832961

19

PA-OR-81

573711

9832099

20

PA-OR-78

574383

9831660

21

Pantanal

574668

9831091

22

PA-OR-66

574806

9831074

23

PA-OR-104

573840

9830367

24

PA-OR-85

574944

9832065

25

PA-OR-82

574616

9832574

26

JOCA

574349

9832901

27

PA-OR-112

571539

9826325

28

PA-OR-113

570737

9825868

29

PA-OR-108

567678

9818378

30

PA-OR-106

574711

9818128

31

PA-OR-107

576641

9817783

32

PA-OR-87

574857

9830091

33

PA-OR-86

575409

9830841

374


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 353-376, maio-ago. 2018

Apêndice.

(Continua) Sítios

Leste

Norte

34

PA-OR-92

575926

9830703

35

PA-OR-88

576857

9830177

36

PA-OR-89

577581

9829988

37

PA-OR-90

577840

9829919

38

PA-OR-91

579003

9829557

39

PA-OR-67

580011

9829135

40

PA-OR-95

581141

9828997

41

PA-OR-69

581934

9828764

42

PA-OR-96

584106

9829738

43

PA-OR-97

586157

9829402

44

PA-OR-98

586648

9829453

45

PA-OR-76

563308

9812733

46

PA-OR-75

564153

9812672

47

PA-OR-64

567910

9813034

48

PA-OR-65

568514

9813172

49

PA-OR-80

570255

9811534

50

São Sebastião

569755

9810130

51

PA-OR-77: Araticum

559817

9802769

52

PA-OR-115

558386

9787625

53

PA-OR-116

558567

9785721

54

PA-OR-59

582209

9797253

55

PA-OR-60

581210

9797830

56

PA-OR-61

581278

9798666

57

PA-OR-58

583088

9797977

58

PA-OR-57

589174

9798856

59

PA-OR-56

585700

9802416

60

PA-OR-55

590932

9801097

61

PA-OR-54

599154

9804363

62

PA-OR-53

603283

9803407

63

PA-OR-50

607256

9803622

64

PA-OR-52

611367

9802838

65

PA-OR-51

614100

9801605

66

COTRA Almeidas

565571

9810584

67

COTRA Aviso III

563310

9810672

68

COTRA Aviso II

563882

9810420

69

COTRA Aviso I

563371

9810182

375


Padrões de distribuição espacial e modelos preditivos: os sítios arqueológicos no baixo curso dos rios Nhamundá e Trombetas

Apêndice.

(Conclusão) Norte

Sítios

Leste

70

PA-OR-127: Cipoal do Araticum

555326

9803939

71

Bela Cruz II

552054

9804510

72

Bela Cruz I

553272

9804073

73

Greig I

553795

9797334

74

Greig II

552517

9795288

75

PA-OR-123: Aramã

561854

9796578

76

PA-OR-127: Papagaio

565254

9819238

376


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 377-403, maio-ago. 2018

Sujeito dativo em Canela Dative subject in Canela Flávia de Castro Alves Universidade de Brasília. Brasília, Distrito Federal, Brasil

Resumo: Certos predicados (nominais e verbais) podem ocorrer em construções que expressam estados mentais ou físicos em Canela. Nestas construções, com um ou dois argumentos, o experienciador é marcado formalmente pela posposição dativa mã: (i) [ExperienciadorDativo Predicado]; (ii) [ExperienciadorDativo Estímulo Predicado]. Neste artigo, apresento os diferentes tipos de predicados que podem ocorrer nas construções (i) e (ii): nomes e verbos monovalentes, bivalentes e trivalentes. Adicionalmente, identifico o padrão encontrado nessas construções e avalio a condição gramatical do sintagma dativo. Os testes sintáticos aplicados às construções incluem reflexivização, controle e apagamento nas orações coordenadas e subordinadas, e mudança de referência. As propriedades de comportamento e de controle exibidas pelo sintagma posposicional mostram que as construções (i) e (ii) compartilham muitas das características sintáticas das orações verbais. Considerando que as propriedades de comportamento e de controle são os requisitos para a categoria de sujeito, a conclusão é de que, nessas construções, o sintagma dativo comporta-se como o sujeito, não como um oblíquo. Tais evidências são suficientes para argumentar em favor da categoria gramatical do sujeito como morfologicamente heterogênea em Canela, mas que é unificada por seus comportamentos sintáticos. Palavras-chave: Relações gramaticais. Sujeito. Argumento não prototípico. Abstract: A set of predicates (nominal and verbal) can occur in constructions that express mental or physical states in Canela. In these constructions, with one or two arguments, the experiencer is overtly marked by the dative postposition mã: (i) [ExperiencerDative Predicate]; (ii) [ExperiencerDative Stimulus Predicate]. In this paper, I present the different predicates that can occur in constructions (i) and (ii): nouns and monovalent, bivalent, and trivalent verbs. I also identify the pattern found in these constructions and evaluate the grammatical condition of the dative phrase. The syntactic tests applied to the constructions include reflexivization, control and deletion in coordinate and subordinate clauses, and switch-reference. The properties of behavior and control displayed by the dative postpositional phrase show that constructions (i) and (ii) share many of the syntactic characteristics of verbal sentences. Considering that the properties of behavior and control are the requirements for the category of subject, it can be concluded that in these constructions, the dative postpositional phrase is the subject, not an oblique. Such evidence is sufficient to argue in favor of the grammatical category of subject as a morphologically heterogeneous category in Canela, but at the same time is unified by its syntactic behaviors. Keywords: Grammatical relations. Subject. Non-prototypical argument.

CASTRO ALVES, Flávia de. Sujeito dativo em Canela. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 13, n. 2, p. 377-403, maio-ago. 2018. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1981.81222018000200007. Autora para correspondência: Flávia de Castro Alves. Universidade de Brasília. Instituto de Letras. Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas. Campus Darcy Ribeiro. ICC Sul, Bloco B, Mezanino – Asa Norte. Brasília, DF, Brasil. CEP 70910-900 (flaviacastro@unb.br). ORCID: http://orcid.org/0000-0002-8275-4935. Recebido em 27/03/2018 Aprovado em 16/07/2018

BY

377


Sujeito dativo em Canela

INTRODUÇÃO O Canela, falado por cerca de 3.000 indivíduos pertencentes aos povos Canela Apãniekrá e Canela Ramkokamekrá, compõe, junto com as variantes faladas pelos povos Krahô, Gavião Pykobjê, Krikatí, Gavião Parkatejê e Krẽjê, a língua Timbira (família Jê, tronco Macro-Jê) (Rodrigues, 1999). Como os dados aqui apresentados são todos da variante dialetal falada pelos povos Canela, evitarei o termo coletivo Timbira, em favor do termo individual Canela, uma vez que os outros dialetos Timbira podem apresentar diferenças importantes em relação ao padrão apresentado a seguir. Em Castro Alves (2004), uma série de predicados que condicionam a marcação não prototípica de A, S e P em Canela foram identificados. Posteriormente, o status gramatical desses argumentos, ainda que de maneira preliminar, foi investigado em Castro Alves (2008). O objetivo do presente artigo é discutir, de maneira mais sistemática, a marcação não prototípica de S e de A1. O rótulo S representa o argumento central de um predicado intransitivo canônico, enquanto os rótulos A e P representam os dois argumentos centrais de um predicado transitivo canônico: A simboliza o argumento similar ao agente; P simboliza o argumento similar ao paciente (Comrie, 1978). Quando S não é uma categoria unificada, uma cisão ocorre entre os argumentos centrais do predicado intransitivo canônico: alguns argumentos mais se parecem com agentes (SA), enquanto outros mais se parecem com pacientes (SP) (Comrie, 2013). Para os argumentos da construção (ii) [ExperienciadorD Estímulo Predicado], que denota estados ou processos físicos ou psicológicos, usarei as noções adicionais Ex e St (experienciador e estímulo, respectivamente) ao invés de A e P, seguindo Croft (2001). Para este autor, A e P referem-se apenas a agentes e a pacientes prototípicos (a principal classe de verbos de dois argumentos), e não se estendem a experienciadores e estímulos. Nessa mesma direção, também adotarei a noção de Ex, ao invés de S, para representar o único argumento da construção (i) [ExperienciadorD Predicado], uma vez que não se trata de predicado intransitivo prototípico. A justificativa para tal escolha encontra-se em Haspelmath (2011), segundo o qual não há razão para a tipologia não adicionar outros conceitos comparativos. Segundo Haspelmath (2011), ao começar a incorporar outros tipos de verbos antes negligenciados (como os experienciais, por exemplo), a tipologia ampliaria gradualmente seu alcance. O artigo está organizado da seguinte maneira: ainda nesta introdução, identifico os predicados (verbais e nominais) que podem ocorrer nos dois tipos de construções (com um ou dois argumentos) e expressam estados mentais ou físicos na língua. Na primeira seção, uma descrição das propriedades do sujeito no Canela é apresentada: suas propriedades de codificação (concordância verbal, marcação de caso e ordem de constituintes) e comportamentais (controle e apagamento). Na segunda seção, é apresentado o sintagma posposicional dativo que realmente não é sujeito. Na terceira seção, é apresentado o sintagma posposicional dativo que é claramente o sujeito. Na quarta seção, apresento a construção de posse, cujo sintagma dativo exibe propriedades mistas de sujeito. Por último, as considerações finais são desenvolvidas. Os predicados (nominais e verbais) que podem ocorrer nas construções (i) e (ii), as quais expressam estados mentais ou físicos em Canela, são apresentados no Quadro 1. Na primeira coluna do Quadro 1, constam os ativo

ativo

A marcação não canônica do sujeito tem sido investigada em línguas germânicas e, especialmente, em línguas escandinavas. Ver Eythórsson e Barðdal (2005) entre outros. Este artigo, ao trazer dados novos de uma língua cuja família ainda é pouco estudada, pretende contribuir com os estudos do diagnóstico do sujeito dativo enquanto questão geral, importante e desafiadora.

1

378


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 377-403, maio-ago. 2018

predicados nominais; na terceira, quarta e quinta colunas constam os predicadores verbais, mono, di e trivalente, respectivamente. A segunda coluna mostra quais predicados podem ocorrer na construção (i); enquanto a última exibe os predicados que podem ocorrer na construção (ii). Quadro 1. Predicados que expressam estados mentais ou físicos. Nome

(i) ExDat Pred

2

prãm 'fome'

prãm ‘ter.fome’

prãm ‘querer’

pa 'medo'

pa ‘ter.medo’

ũpa / cupa ‘ter.medo.de’

kry 'frio'

kry ‘ter.frio’

côr 'sede'

côr ‘ter.sede’

ahkre ‘buraco’

Verbo monovalente

Verbo divalente

Verbo trivalente

(ii) ExDat St Pred

akry ‘ser.frio’ kĩn ‘ser.alegre’

kĩn ‘gostar’

ỳn ‘ser.doce’

ỳn ‘gostar (paladar)’

apê ‘ser.melancólico’

apê ‘procurar’

ahkre, àhkre ‘plantar’

kre ‘plantar’

apê ‘querer.perto,

ter.pena.de’

ahkre ‘ensinar’

ahkrepej ‘saber, aprender’

Os dados apresentados nos exemplos (1) evidenciam alguns dos predicados que constam do Quadro 1:

(1) a.

cupẽ

mehĩ

prãm

to=mõ

estrangeiro

índios

dat

fome

apl=ir

(1) b.

‘O homem branco levou fome para os índios (Timbira)’. [Ex (1) c.

St

[Ex

Pred]

i-mã

prãm

1-dat

ter.fome

‘Estou com fome’.

Pred]

i-mã

me

crô

j-ĩ

prãm

1-dat

pl

porco

pr-carne

querer

‘Nós queremos carne de porco’.

Em (1a), prãm ocorre em um sintagma verbal, o argumento interno de to=mõ. Já (1b) instancia a construção monoargumental (i), que expressa um estado físico, em que prãm ocorre como predicado. Por último, (1c) é um exemplo da construção biargumental (ii), que expressa a noção semântica de ‘querer’. Os exemplos (2a) e (2b) mostram o verbo monovalente kĩn e seus argumentos internos ao sintagma verbal, argumento nominal (2a) e pronominal (2b). Já (2c) instancia a construção biargumental (ii), em que kĩn ocorre como o predicado que expressa a noção semântica de ‘gostar’.

Os dados estão transcritos de acordo com a ortografia canela. Os símbolos ortográficos correspondem aos valores do alfabeto fonético internacional (international phonetic alphabet – IPA) com as seguintes exceções: e [ɛ], ê [e], à [ɜ], ỳ [ə], y [ɨ], ã [ə̃ ], o [ɔ], ô [o], c/qu [k], k [kh], g [ŋg], h em final de sílaba [ʔ], x [ʧ].

2

379


Sujeito dativo em Canela

(2) a.

[cahãj

kĩn]SV

mulher

ser.alegre

(2) b.

1+2-ser.alegre

‘A mulher é simpática’.

‘Nós somos simpáticos’.

[Ex (2) c.

[pa-kĩn]SV

St

Pred]

i-mã

me

crô

j-ĩ

kĩn

1-dat

pl

porco

pr-carne

gostar

‘Nós gostamos de carne de porco’.

Em (3a) e (3b) vê-se o verbo monovalente akry, que se relaciona na forma e na função com o nominal kry. Seus argumentos, internos ao sintagma verbal, são expressos por meio de um nominal em (3a) e de um pronominal em (3b). Já em (3c), akry ocorre causativizado. Por último, (3d) instancia a construção monoargumental (i) que expressa um estado físico, em que kry ocorre como predicado. (3) a.

(3) c.

[cô

j-akry]SV

água

pr-ser.frio

(3) b.

3-ser.frio

‘A água está fria’.

‘Ela (a água) esfriou’.

mẽhwej te

[cô

to=hakry]SV

velha

água

fazer=3nref.ser.frio

erg

[h-akry]SV

(3) d.

‘A velha esfriou a água’.

[Ex

Pred]

i-mã

kry

1-dat

frio

‘Estou com frio’.

O exemplo (4a) exibe o verbo monovalente ỳn, que recebe o prefixo de 3a pessoa h-. O exemplo (4b) instancia a construção biargumental (ii), em que ỳn ocorre como predicado que expressa o significado de ‘gostar’. Neste caso, relacionado apenas ao paladar. (4) a.

apen

x-ô

h-ĩ

tỳjre

ne

h-ỳn

mangaba

pr-fruta

top

3-carne

ser.forte

ss

3-ser.doce

‘Sobre a fruta da mangaba, a carne dela é espessa e doce’. [Ex (4) b.

St

Pred]

kwỳr

x-ôm

kãm

mehĩ

h-

ỳn

mandioca

grão

loc

índios

dat

3-

gostar

‘Os índios (Timbira) gostam dele (o fruto do bruto) com farinha de mandioca’.

A seguir, (5a) é um exemplo de uma construção com o verbo divalente apê, enquanto (5b) instancia a construção biargumental (ii), em que apê ocorre como o predicado que expressa o significado de ‘ter pena de’ ou de ‘querer algo perto’.

380


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 377-403, maio-ago. 2018

(5) a.

quêt=nẽ

cu-mã

ampo

j-apê

quê

cu-krẽ

neg=nẽ

3-dat

algo

pr-procurar

3

3-comer

‘Cala a boca e procura alguma coisa para ele comer’.

(5) b.

[Ex

St

Pred]

i-mã

a-

j-apê

1-dat

2-

pr-ser.melancólico

‘Tenho pena de você’ ou ‘Quero você perto de mim’.

Ainda em relação aos itens lexicais que constam do Quadro 1, os exemplos (6a) a (6c) exibem o nominal kre com diferentes tipos de argumento interno: um pronominal de 3a pessoa (referencial), outro nominal (uma das estratégias de formação de nomes compostos na língua) e um pronome não referencial de 3a pessoa, respectivamente: (6) a.

(6) c.

(6) b.

ih-kre

pàr=kre

3-buraco

árvore=buraco

‘Buraco dele (do peba)’.

‘Canoa’.

ahkre

3nref.buraco ‘Buraco’.

As construções (6d) e (6e) são exemplos dos verbos àhkre (monovalente) e kre (divalente), relacionados na forma e na função com o nominal kre e com seus argumentos: (6) d.

i-te

ih-kwỳ

kãm

i-j-àhkre

1-erg

3-metade

loc

1-pr-plantar

‘Eu plantei na metade dele (do campo)’. (6) e.

cuhtoj

pàr

quê

ha

jum

ih-pa

no

j-akep

ne

ih-kre

hõhpje

rom

cabaça

árvore

3

irls

alguém

3-galho

algum

pr-cortar

cnj

3-plantar

quintal

loc

‘O pé da cabaça, se alguém corta um galho dele e planta no quintal’...

O verbo trivalente ahkre ocorre com o nominalizador de agente catê em (6f), enquanto (6g) apresenta uma oração identificacional, a qual consiste de um sujeito mais a posposição pê, que funciona como cópula, e o complemento expresso por ahkre=kêatre: (6) f.

[ihkàhhôc

to

h-ahkre]

=catê

livro

inst

3-ensinar

=nmz

‘Professor(a)’ (adaptado de Popjes, Jack; Popjes, Jo, 1986, p. 160, ex. 208).

381


Sujeito dativo em Canela

(6) g.

humre

ita

h-ahkre=kêatre

homem

dem

cop

3-buraco=mal

‘Este homem é um ignorante’ (adaptado de Popjes, Jack; Popjes, Jo, 1986, p. 168, ex. 250).

Para finalizar, o exemplo (6h) instancia a construção biargumental (ii), em que ahkrepej (literalmente: ahkre=pej ‘buraco (da orelha) bom’) ocorre como predicado que expressa o significado de saber:

(6) h.

[Ex

St

Pred]

i-mã

h-

ahkrepej

1-dat

3-

saber

‘Eu sei (andar de bicicleta)’.

Na próxima seção, as propriedades do sujeito no Canela são apresentadas com base na proposta de Keenan (1976), que as divide em propriedades de codificação e comportamentais.

PROPRIEDADES DO SUJEITO EM CANELA Começarei apresentando as propriedades de codificação do sujeito, que incluem concordância verbal, marcação de caso e ordem de constituintes. PROPRIEDADES DE CODIFICAÇÃO Concordância verbal Com base na concordância verbal, o Canela distingue entre dois tipos lexicais de S. Isso significa que o único argumento de uma oração intransitiva é paralelo ou a A (o nominativo) ou a P (o absolutivo) (i.e. intransitividade cindida). O Quadro 2 apresenta o conjunto das formas pronominais em Canela: uma série de pronomes independentes e de prefixos pronominais. A série de pronomes independentes codifica o argumento nominativo de uma oração, enquanto a série de prefixos pronominais codifica o absolutivo, o objeto da posposição e o possuidor (diretamente em nomes inalienáveis e por meio da posposição genitiva em nomes alienáveis). Quadro 2. Formas pronominais em Canela. Pronomes independentes

Prefixos pessoais

1

wa

i-

1+2

pa

pa(h)-

2

ca

a-

3

quê/Ø

i(h)-/h-/Ø/cu-

A subclasse ativa de verbos intransitivos (ou intransitivos) tem SA paralelo a A: um argumento externo, não marcado, expresso por nominais ou pronominais independentes (7a e 7b).

382


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 377-403, maio-ago. 2018

(7) a.

SA

[V]SV

ca

apà

2

comer

(7) b.

‘Você come/está comendo’.

A

[p-V]SV

ca

ih-pỳ

2

3-carregar

‘Você o carrega’.

A subclasse não ativa de verbos intransitivos (ou descritivos) tem SP paralelo a P: um argumento interno do sintagma verbal. Se o argumento é pronominal, o verbo leva o prefixo pessoal que identifica P ou SP (8a e 8b). [sp-V]SV (8) a.

A

[p-V]SV

wa

a-pỳ

2-cair

1

2-carregar

‘Você cai/está caindo’.

‘Eu te carrego’.

(8) b.

a-pỳm

O passado recente condiciona o padrão ergativo na concordância verbal. Nessas construções, S não é uma categoria cindida. Os exemplos em (9) mostram o verbo3 exibindo um prefixo pessoal que identifica P ou S. Não há índice para A.

(9) a.

A

[p-V]SV

cu-te

a-pupun

3-erg

2-ver

[s-V]SV (9) b.

a-mõr

2-ir

‘Ela/Ele te viu’.

‘Você foi’.

O Quadro 3 sistematiza as propriedades da codificação verbal em Canela. Quadro 3. Concordância verbal em Canela. Alinhamento Intransitividade cindida Ergativo

Argumento

Indexação

A/SA

ø

P/SP

prefixos

A

ø

P/S

prefixos

Marcação de caso O nominativo (S=A) é sempre um argumento não marcado, conforme os exemplos (10a) e (10b):

Em relação à forma verbal, a principal característica morfológica que distingue o verbo das orações do sistema de intransitividade cindida do verbo das orações do sistema ergativo no passado recente é a oposição entre suas duas formas, finita e não finita (mõ (finita) versus mõr (não finita) ‘ir’; pupu (finita) versus pupun (não finita) ‘ver’). Esta propriedade não é compartilhada com os descritivos (a subclasse não ativa de verbos de um argumento que atribuem o absolutivo ao argumento S), os quais exibem a mesma forma em ambos os tipos de orações, muito embora haja algumas raríssimas exceções, como cato/cator ‘chegar’.

3

383


Sujeito dativo em Canela

SA (10) a. ca 2

V

A

ha

apà

irls

comer

(10) b. cahãj mulher

‘Você vai comer’.

P

V

apu

tep

krẽ

prg

peixe

comer

‘A mulher está comendo peixe’.

O enclítico ergativo te marca abertamente A no passado recente. A é expresso por um sintagma nominal em (11a) e por um prefixo pessoal em (11b): A (11) a.

p-V

cahãj

te

ih-krẽn

mulher

erg

3-comer

(11) b.

‘A mulher o comeu (o peixe)’.

A

P

V

cu-te

tep

krẽn

3-erg

peixe

comer

‘Ela/Ele comeu o peixe’.

P e S são codificados por prefixos pessoais em (11a) e (12a) e por nominais livres não marcados dentro do sintagma verbal em (11b) e (12b): [s-V]SV

[S

(12) a. h-àpir

V]SV

(12) b. cupry

j-àpen

3-subir

menina

pr-trabalhar

‘Ela/Ele subiu’.

‘A menina trabalhou’.

Há também a possibilidade de variação na marcação de caso no S, mas apenas nas construções que expressam passado recente e desde que um sintagma posposicional ocorra entre o erg e o verbo. Isso significa que o argumento S pode ser expresso apenas como um argumento interno do sintagma verbal (13a e 13b) ou por um prefixo pronominal correferente, marcado pela posposição ergativa no início da oração, e também apresentar concordância no verbo (13c e 13d). s-V

s-V

(13) a. a-crer

(13) b. a-catõc

2-cantar

2-explodir

‘Você cantou’.

‘Você atirou’.

erg

(13) c. ai-te 2-erg

[

]SP

s-V

kỳ

pe

ai-crer

pátio

loc

2-cantar

erg

(13) d. ai-te 2-erg

‘Você cantou no pátio’.

[

]SP

s-V

po

kãm

ai-catõc

veado

loc

2-explodir

‘Você baleou o veado’ (Popjes, Jack; Popjes, Jo, 1986, p. 131)

No modo irrealis, o pronome nominativo codifica o sujeito (14a-14d). Na dúvida de qual argumento é o sujeito, o modo irrealis deixa isso claro.

384


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 377-403, maio-ago. 2018

SA

V

(14) a. wa 1

ha

wrỳ

irls

descer

SP (14) b. pai 1+2

‘Eu vou descer’. A (14) c. quê 3

[sp -V]SV ha

pahi-cakôc

irls

1+2-falar

‘Nós vamos falar’. [P

V]SV

ha

cuhy

pĩr

irls

fogo

apagar

A (14) d. cahãji mulher

‘Ela (a chuva) vai apagar o fogo’.

[p-V]SV

quêi

ha

a-cakwĩ

3

irls

2-bater

‘A mulher vai bater em você’.

O Quadro 4 sistematiza as propriedades da marcação de caso em Canela. Quadro 4. Marcação de caso em Canela. Alinhamento Intransitividade cindida

Ergativo

Argumento

Caso

A/SA

ø

P/SP

ø

A/SA/SP

Pron Nom (irls)

A S (Pass Rec, com SP)

te

P/S

ø

Ordem de constituintes Em predicados de um único argumento SA e SP (na intransitividade cindida) e S (no alinhamento ergativo) sempre precedem V. SA é um argumento externo ao sintagma verbal, enquanto SP (e S, no passado recente) ocorre dentro do sintagma verbal, como mostram os exemplos (15a) a (15c): SA (15) a. wa 1

V ma

tẽ

dir

ir

[sp-V]SV

[s-V]SV

(15) b. a-pỳm

‘Eu vou embora’.

(15) c. i-tẽm

2-cair

1-ir

‘Você caiu’.

‘Eu fui’.

Nos predicados de dois argumentos, A precede P, e ambos precedem V. P é um argumento interno do sintagma verbal, como evidenciam os exemplos (15d) e (15e). A (15) d. quê 3

[P

V]SV

apu

j-akep

prg

carne

pr-cortar

A (15) e. humre homem

‘Ela/Ele está cortando carne’.

[p-V]SV te

h-akep

erg

3-cortar

‘O homem a/o cortou’.

385


Sujeito dativo em Canela

O Quadro 5 sistematiza as propriedades da ordem de constituintes em Canela. Quadro 5. Ordem de constituintes em Canela. Alinhamento

Ordem SA V; [SP V]SV

Intransitividade cindida

A [P V]SV [S V]SV

Ergativo

A [P V]SV

O Quadro 6 apresenta um sumário das propriedades de codificação do sujeito em Canela. Quadro 6. Propriedades de codificação do sujeito em Canela. Concordância verbal Intransitividade cindida

Ø (A; SA) prefixos (P; SP)

Ergativo

Ø (A) prefixos (P; S)

Marcação de caso Ø (A; SA; SP; P) Pron Nom (irls): (A; SA; SP) Ø (S; P) erg (A)

S ~ erg (Pass Rec, com SP)

te

Ordem de constituintes SA V; [SP V]SV A [P V]SV [S V]SV A [P V]SV

Além do sistema ergativo e da intransitividade cindida, a presença de auxiliares condiciona uma situação em que A e P mostram padrões claramente distintos (nominativo versus absolutivo). S é realizado duas vezes, uma vez paralelo a A (externo, não marcado; o nominativo) e, ao mesmo tempo, paralelo a P (interno, como um prefixo no verbo; o absolutivo). Em outras palavras, S é alinhado tanto com A como com P. Os exemplos a seguir mostram A (16a) e S (16b) expressos por um pronome independente. Além disso, S exibe um padrão de concordância absolutivo, expresso por prefixo pessoal no verbo (16b). P é expresso por um SN (16a). Além dessas propriedades, o verbo ocorre sempre na forma não finita. A

[P

(16) a. ca apu tep 2

prg

V

Aux]SV

krẽn

nare

peixe comer.nf

S (16) b. ca 2

neg

‘Você não está comendo peixe’.

[s-V

Aux]SV

ha

a-j-àpãn

ncrire

irls

2-pr-comer.nf

ser.pouco

‘Você vai comer pouco’.

Por uma questão de espaço, esse sistema (descrito como nominativo-absolutivo em Castro Alves, 2004) não é tratado neste artigo4. A Figura 1 sumariza os três tipos de construções oracionais principais em Canela, diferenciadas pelo tratamento dado aos argumentos centrais A, S e P.

Para ilustração desse padrão, ver Castro Alves (2010) e Gildea e Castro Alves (2010, no prelo).

4

386


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 377-403, maio-ago. 2018

Intransitividade cindida

P

SP

SA

A

Ergativo-Absolutivo

P

S

A

Nominativo-Absolutivo

P

S

A

Figura 1. Sistemas de alinhamento em Canela.

As propriedades do sujeito apresentadas a seguir referem-se às suas propriedades comportamentais, a saber: controle do reflexivo, controle e apagamento nas orações coordenadas e subordinadas e mudança de referência.

PROPRIEDADES COMPORTAMENTAIS Controle do reflexivo Na reflexivização, A controla o reflexivo (17a e 17b). Já SA e SP (na intransitividade cindida) e S (no alinhamento ergativo) não controlam o reflexivo porque na oração em que ocorrem só há lugar para um argumento (eles mesmos). A (17) a. quêi 3

[P

V]SV

ha

amjii

jakep

(17) b. cahãji

A

irls

rfl

cortar

mulher

‘Ela/Ele vai se cortar’.

[P

V]SV

te

amjii

pupun

erg

rfl

ver

‘A mulher se viu’.

Controle e apagamento nas orações coordenadas e subordinadas O sujeito da oração anterior controla o apagamento sob correferência na oração coordenada subsequente (18b): sp-

(18) a. pea=mã então

A

ihi-ncryc

ne

cui-te

cu-pê

pỳn

3-ser.bravo

cnj

3-erg

3-mal

pau

pegar

SA (18) b. ne cnj

A

Øi

ma

tẽ

ne

Øi

ken

catut

ry

h-ãm

3

dir

ir

cnj

3

pedra

costas

loc

3-deixar

‘Então ele ficou bravo, pegou o pau e o deixou atrás do morro’.

No caso de o sujeito ocorrer marcado pelo caso ergativo na oração subsequente, o apagamento sob correferência não é categórico (exemplos 18a e 19): A (19)

A

cui-te

i-pyr

ne

cui-te

Ø-to=ihi-kõm

3-erg

3-pegar

cnj

3-erg

3-apl=3-beber

‘Ela/Ele a pegou (a cachaça) e bebeu’.

387


Sujeito dativo em Canela

S e S P (diferentemente de S A, de acordo com o exemplo 18b) não podem ser apagados sob correferência em uma oração coordenada (20). Isso acontece porque, nesses contextos, eles são argumentos internos do verbo: s(20)

s-

h-àpãn

ne

ih-kõm

3-comer

cnj

3-beber

‘Ela/Ele comeu e bebeu’.

As orações nos exemplos (21) e (22) são amostras do apagamento do sujeito (sob correferência) nas orações subordinadas. Em (21), a oração subordinada é análoga a P, enquanto que em (22) a posposição locativa nã é usada como subordinador: A (21)

[A

cai

ha [∅i

2

irls

(2)

P

V]P

V

A

cupẽnxê j-apror] to=apackêt

pano

(22)

pr-levar.nf apl=esquecer

‘Você vai esquecer de comprar pano’.

[A

p-V

]LOC

p-V

cahãj

te

[Øi

ih-krẽr

nã]

ai-pupun

mulher

erg

(2)

3-comer.nf

sub

2-ver

‘A mulher viu você comendo carne’.

Quando a oração subordinada funciona como o objeto da principal, o sujeito da oração principal controla o apagamento do sujeito na subordinada (21). Quando a oração subordinada é Loc, o objeto da oração principal controla o apagamento do sujeito na subordinada (22). Também S em (23), assim como S em (20), não pode ser apagado sob correferência em uma oração subordinada porque, nesse contexto, é um argumento interno do verbo: A (23)

[s-V

]LOC

wa

jũm

pupu

i-picahur

1

alguém

ver

1-correr.nf

sub

‘Eu vejo alguém correr’.

Mudança de referência Na mudança de referência, duas estratégias são utilizadas: o morfema mã para a 3a pessoa no passado recente (24a) ou o pronome nominativo para todos os outros contextos (24b). É sempre o sujeito da oração anterior que controla a mudança de referência na oração subsequente. A conjunção pode ocorrer com o pronome nominativo, mas não de maneira categórica. Os parênteses indicam essa possibilidade (24b). A

A

(24) a. cui-te h-ãm 3-erg

3-deixar

A

cuj-te

Ø-to=ihj-kõm

ds

3-erg

3-apl=3-beber

A

(24) b. quêi ha h-ãm 3

‘Ela/Ele a deixou (a cachaça) e a/o outra/o bebeu’.

irls

3-deixar

(ne) quêj

ha

Ø-to=kõ

3(ds)

irls

3-apl=beber

cnj

‘Ela/Ele vai deixá-la (a cachaça) e a/o outra/o vai bebê-la’.

388


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 377-403, maio-ago. 2018

O Quadro 7 apresenta um sumário das propriedades comportamentais do sujeito em Canela. Quadro 7. Propriedades comportamentais do sujeito em Canela. Controle do apagamento sob correferência

Controle na mudança de referência

Controle do reflexivo

Orações coordenadas

Orações subordinadas

mã; pronome nominativo

Intransitividade cindida

A

A/SA

A5

A/SA/SP

Ergativo

A

A

A

A/S

Nas três seções subsequentes, identifico o padrão do sintagma dativo encontrado em diferentes construções e avalio sua respectiva condição gramatical.

DATIVO QUE REALMENTE NÃO É O SUJEITO Os exemplos a seguir exibem os verbos ajkra ‘assustar’, cakôc ‘falar’ e cator ‘chegar’ em construções monovalentes. Em (25a), o intransitivo ajkra atribui o nominativo ao único argumento (SA), enquanto os descritivos cakôc e cator (26a e 27a) atribuem o absolutivo ao seu único argumento (SP). Como visto anteriormente, as construções sentenciais que expressam passado recente condicionam o padrão ergativo-absolutivo. Neste sistema de alinhamento, S é uma categoria unificada (exemplos (25b), (26b) e (27b)): sp-

SA (25) a. ca 2

ajkra

assustar

sp-

(26) a. a-cakôc

(27) a. a-cato

2-falar

2-chegar

‘Você se assusta’.

‘Você fala’.

‘Você chega’.

s-

s-

s-

(25) b. a-pikrar

(26) b. a-cakôc

(27) b. a-cator

2-assustar

2-falar

2-chegar

‘Você se assustou’.

‘Você falou’.

‘Você chegou’.

Os verbos ajkra, cakôc e cator podem também ocorrer em construções constituídas de dois sintagmas6, em que o sintagma posposicional, semanticamente o experienciador em (25c), o associativo em (26c) e a meta em (27c), é marcado pelo caso dativo:

A propriedade mostrada em (22) não consta do Quadro 7 porque se trata de uma propriedade do objeto em Canela. No entanto, é necessário que ela seja descrita neste momento porque será posteriormente retomada, na seção “Dativo que é claramente o sujeito”, para fins de contraste com o St. 6 Essas orações são analisadas como intransitivas de acordo com a definição de Andrews (2007, p. 139), que considera que “An NP in an intransitive sentence that is receiving the treatment normally accorded to the single argument of a one-argument predicate will be said to have S function”. O autor não fala nada sobre o tratamento dado ao outro sintagma não S, como o SP dativo nos exemplos em (25c), (26c) e (27c). Neste artigo, ele é tratado como um oblíquo. 5

389


Sujeito dativo em Canela

[ ] (25) c. i-mã 1-dat

s-

[ ] (26) c. i-mã

a-pikrar

2-assustar

1-dat

‘Você me assustou’.

s-

[ ]

a-cakôc

s-

(27) c. i-mã

a-cator

1-dat

2-chegar

2-falar

‘Você falou comigo’.

‘Você me encontrou’.

A seguir, os testes de sujeito, descritos em termos das propriedades apresentadas na seção anterior, são aplicados a esses sintagmas. O objetivo é mostrar que o sintagma posposicional dativo nessas construções não é o sujeito. Começando pelas propriedades de codificação, os exemplos (25c), (26c) e (27c) demonstram que não há concordância verbal com o sintagma posposicional encabeçado pela posposição mã e que a marcação de caso é dativa. Em relação à marcação de caso, quando as construções expressam passado recente, pode haver variação na marcação de caso no S, conforme os exemplos (13c) e (13d). Os exemplos (25d), (26d) e (27d) confirmam essa possibilidade e mostram que S é o argumento interno ao sintagma verbal (não o sintagma dativo). Erg

[ ]

s-V

Erg

(25) d. a -te

i-mã

ai-pikrar

(26) d. ai-te

2-erg

1-dat

2-assustar

2-erg

‘Você me assustou’. Erg (27) d. ai-te 2-erg

[ ]

s-V

cu-mã

ai-cakôc

3-dat

2-falar

‘Você conversou com ela/ele’.

[ ]

s-V

cu-mã

ai-cator

3-dat

2-chegar

‘Você a/o encontrou’.

A expressão do modo irrealis em (25e) e (26e) demonstra que o sintagma dativo nunca é nem substituído (ver exemplos 14a e 14c) nem correferencial ao pronome nominativo (ver exemplos 14b e 14d): SA (25) e. ca 2

V ha

i-mã

ajkra

irls

1-dat

assustar

‘Você vai me assustar’. SP (26) e. cai 2

sp-V

ha

cu-mã

ai-cakôc

irls

3-dat

2-falar

‘Você vai falar com ela/ele’.

Com relação à ordem de constituintes, o sintagma dativo ocorre entre SA e V em (25e) e entre SP e sp-V em (26e). No passado recente, o sintagma dativo ocorre ou no início da construção – como nos exemplos (25c), (26c)

390


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 377-403, maio-ago. 2018

e (27c) – ou entre erg e s-V – como nos exemplos (25d), (26d) e (27d) –, no caso de um sintagma posposicional ergativo correferente a S ocorrer no início da construção. As propriedades de codificação do sintagma dativo que não é o sujeito estão sistematizadas em negrito no Quadro 8. As propriedades de codificação do sujeito também constam do Quadro 8, para contraste. Quadro 8. Propriedades de codificação do dativo que realmente não é o sujeito em Canela. Concordância verbal Intransitividade cindida

Marcação de caso

Ø (A; SA) prefixos (P; SP) Ø (A) prefixos (P; S)

Ergativo Dativo (não sujeito)

Ø (A; SA; SP; P) Ø (S; P)

te erg (A) mã

Ø

dat

Ordem de constituintes

Pron Nom (irls): (A; SA; SP) S ~ erg (Pass Rec, com SP) Pron Nom (irls): não

SA V; [SP V]SV A [P V]SV [S V]SV A [P V]SV SA [N mã] V; SP [N mã] sP-V

te erg: não

(erg) [N mã] s-V (no Pass Rec)

O sintagma dativo difere-se do sujeito nas seguintes propriedades: não apresenta variação da marcação de caso (nem para ergativo, nem para nominativo). Além disso, em relação à ordem de constituintes, o sintagma dativo ocorre alinhado com o sujeito apenas em (25c), (26c) e (27c). Em relação às propriedades comportamentais, mais especificamente à reflexivização, é o prefixo verbal (ou seja, o sujeito), e não o dativo, que controla o reflexivo nos exemplos em (28): [

]

(28) a. amjii rfl

s-V

[

ai-pikrar

dat

2-assustar

]

(28) b. amjii rfl

‘Você se assustou’.

s-V

ai-cakôc

dat

2-falar

‘Você conversou consigo’.

Em relação ao apagamento sob correferência nas orações coordenadas, é também o prefixo verbal (ou seja, o sujeito), e não o dativo, que controla o apagamento do sujeito na oração subsequente (29): [ ] (29)

s-

A

a-mã ii-cator

ne

Øi

me

cunea mã h-aren

2-dat 3-chegar

cnj

(3)

pl

tudo

dat

3-contar

‘Ela/ele encontrou você e contou isso para todo mundo’.

Por último, também é o sujeito (expresso por meio do prefixo verbal), e não o dativo, que controla a mudança de referência, como evidenciam os exemplos (30a) e (30b): [ ] (30) a. a-mã 2-dat

s-

A

ihi-cakôc

cuj-te

me

cunea

h-aren

3-falar

ds

3-erg

pl

tudo

dat

3-contar

‘Ela/Ele conversou com você e a/o outra/o contou isso para todo mundo’.

391


Sujeito dativo em Canela

[ ] (30) b. a-mã 2-dat

S

A

i-pikrar

(ne)

ca

a-te

me

cunea

h-aren

3-assustar

cnj

2(ds)

2-erg

pl

tudo

dat

3-contar

‘Ela/Ele assustou você e você contou isso para todo mundo’.

As propriedades sintáticas do sintagma dativo que não é o sujeito estão sistematizadas em negrito no Quadro 9. As propriedades comportamentais do sujeito também constam do Quadro 9, para contraste. Quadro 9. Propriedades comportamentais do dativo que realmente não é o sujeito em Canela. Legenda: – = ausência de dados para testar essa propriedade. Controle do apagamento sob correferência

Controle na mudança de referência

Controle do reflexivo

Orações coordenadas

Orações subordinadas

mã; pronome nominativo

Intransitividade cindida

A

A/SA

A

A/SA/SP

Ergativo

A

A

A

A/S

Dativo (não sujeito)

Não

Não

Não

O sintagma dativo descrito nesta seção se diferencia sintaticamente do sujeito em três (de quatro) propriedades. Uma vez que ele não passa na grande maioria dos testes de sujeito (codificação e controle) em Canela, não pode ser considerado como sujeito na língua. Na próxima seção, é avaliado o sintagma dativo que ocorre nas instanciações das construções (i) e (ii), cujos predicados foram apresentados no Quadro 1.

DATIVO QUE É CLARAMENTE O SUJEITO Começando pelas propriedades de codificação, os exemplos (1b) e (1c) (repetidos aqui por conveniência) mostram que o dativo não apresenta concordância verbal.

(1) b.

[Ex

Pred]

i-mã

prãm

1-dat

ter.fome

[Ex (1) c.

‘Estou com fome’.

St

Pred]

i-mã

me

crô

j-ĩ

prãm

1-dat

pl

porco

pr-carne

querer

‘Nós queremos carne de porco’.

No entanto, tais construções podem apresentar variação na marcação de caso: ergativo, ao invés de dativo. Semanticamente, a oposição se dá em termos de um estado passageiro, como em (1b) e (1c), e um estado habitual, como nos exemplos (31a) e (31b). [Ex (31) a. i-te 1-erg

Pred] prãm

[Ex (31) b. i-te

fome

1-erg

‘Estou com fome’ (habitual).

St

Pred]

me

crô

j-ĩ

prãm

pl

porco

pr-carne

querer

‘Nós queremos carne de porco’ (habitual).

392


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 377-403, maio-ago. 2018

Já o pronome nominativo, na expressão do modo irrealis, é correferente ao dativo: Nom (32) a. wai 1

Ex

Pred

ha

ii-mã

côr

irls

1-dat

ter.sede

‘Eu vou ficar com sede’. Nom

Ex

(32) b. quêi 3

St- pred

ha

humrei

a-kĩn

irls

homem

dat

3-gostar

‘O homem vai gostar de você’. Nom

Ex

(32) c. quêi 3

Pred

Nom (32) d. cai

ha

ihkrai

pa

irls

criança

dat

ter.medo

2

‘A criança vai ficar com medo’.

Ex

St

Pred

ha

ai-mã

rop

j-apê

irls

2-dat

cachorro

pr-ser.melancólico

‘Eu vou sentir falta do cachorro’.

É possível, no entanto, ocorrer uma variação no pronome nominativo, dependendo do valor de certeza. Por exemplo, 3a pessoa em lugar da 1a pessoa, como em (33). Em (32a) a (32d) a leitura é de uma expectativa, uma possibilidade, enquanto (33) indica uma certeza ou pelo menos uma forte chance de ser verdade: Nom (33)

Ex

Pred

quê

ha

i-mã

pa

3

irls

1-dat

ter.medo

‘Eu vou ficar com medo’ (certeza).

O pronome nominativo, correferente no modo irrealis – como mostram os exemplos (32a) a (32d) –, pode ainda substituir o sintagma dativo (34): Ex (34)

[

]St

Pred

wa

me

[∅

crô

j-ĩ

kur]

kĩn

1

pl

(1)

porco

pr-carne

comer

gostar

‘Nós (exclusivo) gostamos de comer carne de porco’.

A ordem dos constituintes é sempre rígida: (i) Ex Pred e (ii) Ex St Pred, como mostram os exemplos (31a) e (31b). As propriedades de codificação do sintagma dativo que é o sujeito estão sistematizadas em negrito no Quadro 10. As propriedades de codificação do sujeito e do dativo que não é o sujeito também constam do Quadro 10, para contraste.

393


Sujeito dativo em Canela

Quadro 10. Propriedades de codificação do dativo que claramente é o sujeito em Canela. Concordância verbal

Marcação de caso

Intransitividade cindida

Ø (A; SA) prefixos (P; SP)

Ergativo

Ø (A) prefixos (P; S)

te erg (A)

Dativo (não sujeito)

Ø

mã dat

Dativo (Cxn i)

Ø

mã dat

Dativo (Cxn ii)

Ø

mã dat

SA V; [SP V]SV A [P V]SV

S ~ erg (Pass Rec, com SP) Pron Nom (irls): não te erg: não Pron Nom (irls): sim te erg: sim Pron Nom (irls): sim te erg: sim

[S V]SV A [P V]SV SA [N mã] V; SP [N mã] sP-V (erg) [N mã] s-V (no Pass Rec)

Ø (A; SA; SP; P) Ø (S; P)

Ordem de constituintes

Pron Nom (irls): (A; SA; SP)

Ex Pred Ex St Pred

O Quadro 10 mostra que o sintagma dativo das construções (i) e (ii) compartilha muitas das propriedades de codificação do sujeito em Canela: pronome nominativo no modo irrealis, variação do caso ergativo e ordem dos constituintes. Em relação às propriedades comportamentais, no que diz respeito à reflexivização, é o argumento dativo que controla o reflexivo nos exemplos (35a) e (35b): Ex (35) a. cui-mã 3-dat

St

Pred

amjii

kĩn

rfl

gostar

Ex (35) b. ii-mã 1-dat

‘Ele gosta de si’.

St

Pred

amjii

j-apê

rfl

pr-ser.melancólico

‘Sinto pena de mim’.

Em relação ao apagamento sob correferência nas orações coordenadas, o argumento dativo da primeira oração controla o apagamento do sujeito na oração subsequente (36): Ex (36)

A

cui-mã

tep

prãm

ne

Øi

me

cunea

h-aren

3-dat

peixe

querer

cnj

(3)

pl

tudo

dat

3-contar

‘Ela/Ele queria peixe e contou isso para todo mundo’.

Como descrito na primeira seção, sobre as propriedades do sujeito em Canela, o sintagma ergativo na oração subsequente não é apagado categoricamente nas orações coordenadas, como mostra o exemplo (19). O mesmo acontece em (37a). Em (37b), o sujeito, por ser argumento interno do verbo, também não é apagado, como mostra o exemplo (20). Ex (37) a. cui-mã

3-dat

A prãm

ne

cui-te

me

cunea

h-aren

ter.fome

cnj

3-erg

pl

tudo

dat

3-contar

‘Ela/Ele estava com fome e contou isso para todo mundo’.

394


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 377-403, maio-ago. 2018

Ex

s-

(37) b. cui-mã 3-dat

a-kĩn

ne

cunea

ii-cakôc

2-gostar

cnj

tudo

dat

3-falar

‘Ela/Ele gosta de você e diz isso para todo mundo’.

Os exemplos (38) e (39) apresentam orações subordinadas. Na oração subordinada análoga a St, Ex da oração principal controla o apagamento do sujeito da subordinada, conforme (38a) a (38c): Ex (38) a. cui-mã 3-dat

[A

p-V

[Øi

i-pən]

]St Pred cupa

3

1-abraçar.nf

ter.medo

‘Ela/Ele está com medo de me abraçar’. Ex (38) b. i-krai 1-criança

[A

P

V

]St

Pred

Ex

[Øi

bisicret

to=mprar]

j-ahkrepej

dat

(3)

bicicleta

apl=ir.nf

pr-saber

(38) c. cai 2

‘Meu filho sabe andar de bicicleta’.

[

]ST

Pred

[∅i

tep

kur]

(2)

peixe

comer.nf querer

prãm

‘Você quer comer peixe’.

Em (39a) a (39c), em que a posposição locativa nã é usada como subordinador, St da oração principal controla o apagamento do sujeito da subordinada. A construção manipulativa em (39c) exibe a combinação do verbo to ‘fazer’ mais o predicado prãm ‘querer’ em uma construção serial. Ex (39) a. cui-mã 3-dat

[A

p-V

]LOC

St- Pred

[Øi

i-pən

nã]

ai-cupa

(2)

1-abraçar.nf

sub

2-ter.medo

‘Ela/Ele está com medo que você me abrace’. [

A

P

V

(39) b. a-mã

Ex

[jũri

Øi

bisicret

to=mprar nã]

]LOC

ii-j-ahkrepej

2-dat

onde

(1)

bicicleta

apl=ir.nf

1-pr-saber

sub

St- Pred

‘Você sabe aonde eu estou indo de bicicleta’. Ex

[A

P

V

(39) c. ca

[Øi

tep

krẽr

nã]

ii -to=prãm

(1)

peixe

comer.nf

sub

1-fazer=querer

2

]LOC

St-V= Pred

‘Você quer que eu coma peixe’.

395


Sujeito dativo em Canela

Em resumo, quando a oração subordinada funciona como o objeto da principal, Ex – assim como o sujeito em (21) – da oração principal controla o apagamento do sujeito na subordinada, como mostram os exemplos (38a) a (38c). Quando a oração subordinada é Loc, St – assim como o objeto em (22) – da oração principal controla o apagamento do sujeito na subordinada, como se verifica nos exemplos (39a) a (39c). Contudo, no caso de verbo intransitivo em oração subordinada, o sujeito, por se tratar de argumento interno do verbo, não pode ser apagado, como em (40a) e (40b) – assim como nas orações verbais, no exemplo (23). Ex (40) a. cui-mã 3-dat

[ s-V ]St

Pred

[hi-õt]

prãm

3-dormir.nf

querer

‘Ele quer dormir’. [s-V (40) b. [ai -crer 2-cantar.nf

Ex

St

Pred

nã]

]LOC

wa

ai -

to=prãm

sub

1

2-

fazer=querer

‘Eu quero que você cante’.

Os exemplos (41a) a (41d) mostram que é o Ex que controla a mudança de referência: Ex (41) a. cui-mã 3-dat

A prãm

cuj-te

me

cunea

h-aren

ter.fome

ds

3-erg

pl

tudo

dat

3-contar

‘Ela/Ele estava com fome e a/o outra/o contou isso para todo mundo’. Ex (41) b. cui-mã 3-dat

A tep

prãm

cuj-te

me

cunea

h-aren

peixe

querer

ds

3-erg

pl

tudo

dat

3-contar

‘Ela/Ele queria peixe e a/o outra/o contou isso para todo mundo’. Ex (41) c. cui-mã 3-dat

S

s-

pa

quêj

me

cunea

ihj-cakôc

ter.medo

3(ds)

pl

tudo

dat

3-falar

‘Ela/Ele está com fome e a/o outra/o diz isso para todo mundo’. Ex (41) d. cui-mã 3-dat

S

s-

a-kĩn

quêj

cunea

ihj-cakôc

2-gostar

3(ds)

tudo

dat

3-falar

‘Ela/Ele gosta de você e a/o outra/o diz isso para todo mundo’.

396


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 377-403, maio-ago. 2018

As propriedades de controle e de apagamento do sintagma dativo que é o sujeito estão sistematizadas em negrito no Quadro 11. As propriedades comportamentais do sujeito e do dativo que não é o sujeito também constam do Quadro 11, para contraste. Quadro 11. Propriedades comportamentais do dativo que é claramente o sujeito em Canela. Legenda: – = ausência de dados para testar essa propriedade. Controle do apagamento sob correferência

Controle na mudança de referência

Controle do reflexivo

Orações coordenadas

Orações subordinadas

mã; pronome nominativo

Intransitividade cindida

A

A/SA

A

A/SA/SP

Ergativo

A

A

A

A/S

Dativo (não sujeito)

Não

Não

Não

Dativo (Cxn i)

n/a

Não

n/a

Ex

Dativo (Cxn ii)

Ex

Ex

Ex

Ex

7

As propriedades comportamentais exibidas pelo dativo das construções (i) e (ii) mostram que ele compartilha muitas (se não todas, cf. Dativo (Cxn ii)) das características sintáticas do sujeito das orações verbais. Essas propriedades de comportamento e de controle, além das propriedades de codificação identificadas anteriormente, revelam que a análise mais adequada para o dativo nessas construções é como o sujeito, ao invés de um oblíquo. Antes de passarmos para a próxima seção, uma última informação sobre as construções (i) e (ii) é necessária. Ainda que a negação não seja uma propriedade do sujeito em si, a simetria entre (42a) e (42b), esta última uma oração verbal, mostra que cupa ocorre como um verbo em (42a): Ex

[

(42) a. cui-mã 3-dat

]St

Pred

Neg

[Øi

i-pən]

cupa

nare

3

1-abraçar.nf

ter.medo

neg

A (42) b. cahãj mulher

‘Ela/Ele não está com medo de me abraçar’.

P

V

Neg

apu

tep

kren

nare

prg

peixe

comer.nf

neg

‘A mulher não está comendo peixe’.

Por outro lado, um tipo diferente de negação ocorre em (42c), um predicado não verbal: (42) c.

intuw

amji=kĩn=xà

inare/hamnare

jovem

mal

rfl=ser.alegre=nmz

neg.exist

‘O jovem não tem namorada’ (literalmente: ‘Não há namorada em detrimento do jovem’).

DATIVO COM PROPRIEDADES MISTAS DE SUJEITO: A CONSTRUÇÃO DE POSSE Esta seção investiga de que maneira o dativo das construções de posse se relaciona (de maneira simétrica ou assimétrica) com o dativo das construções (i) e (ii) e com o sujeito das orações verbais. A propriedade mostrada nos exemplos (39b) e (39c) não consta do Quadro 11 porque se trata de uma propriedade do St. No entanto, é importante que ela seja descrita para fazer menção à sua simetria com a propriedade de controle e de apagamento do objeto, apresentada anteriormente, na seção “Propriedades do sujeito em Canela”.

7

397


Sujeito dativo em Canela

Em (43a), a construção de posse exibe um sintagma dativo (que expressa o possuidor) e um sintagma nominal (que expressa o item possuído), nessa ordem. Nessa construção, o possuidor é sempre humano. O exemplo (44a), instanciação da construção (i), é repetido aqui para fins de comparação: Construção de posse Pssr (43) a. i-mã 1-dat

Construção (i)

Pssd

Ex (44) a. i-mã

tep

peixe

1-dat

‘Eu tenho peixe’ (literalmente: ‘Há peixe para mim’).

Pred prãm

ter.fome

‘Eu estou com fome’.

No entanto, algumas propriedades de codificação diferenciam a construção em (43a) da construção em (44a). Em primeiro lugar, a posposição mã da construção (43a) pode variar com a posposição pê Mal (43b). Essa variação não é encontrada nas instanciações da construção (i). O asterisco indica que (44b) não é uma oração encontrada em Canela. (43) b. i-pê tep

(44) b. *i-pê prãm

1-mal peixe

1-mal ter.fome

‘Eu não tenho peixe’ (literalmente: ‘(Não) há peixe em meu detrimento’).

De maneira oposta, a posposição mã do exemplo (44a) pode variar com a posposição te erg (44c). Esse tipo de contraste semântico (te estado habitual versus mã estado passageiro) não ocorre no exemplo (43a): (43) c. *i-te 1-erg

(44) c.

tep

peixe

i-te

prãm

1-erg

ter.fome

‘Eu estou com fome (habitual)’.

A negação do exemplo em (44a) também é diferente da negação do exemplo em (43a): nare em (44d), o mesmo marcador encontrado na negação das orações verbais, e inare ou hamnare, negação existencial, em (43d). Neste último, a posposição que ocorre é pê mal: (43) d. i-pê 1-mal

tep

inare/hamnare

peixe

neg.exist

(44) d. i-mã 1-dat

‘Eu não tenho peixe’ (literalmente: ‘Não há peixe em meu detrimento’).

prãm ter.fome

‘Eu não estou com fome’.

Importante reafirmar que a negação não é uma ‘propriedade de sujeito’ em si, mas a assimetria entre (43d) e (44d) mostra que prãm ocorre como um verbo na construção (i). Por outro lado, o diferente tipo de negação que ocorre em (43d) não é evidência de que o possuidor é não sujeito, mas mostra que ele é menos sujeito que o dativo da construção (i).

398


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 377-403, maio-ago. 2018

A última propriedade de codificação a ser comparada é a ocorrência do pronome nominativo na expressão do modo irrealis. A construção de posse em (43e) e a instanciação da construção (i) em (44e) apresentam padrões assimétricos. O pronome nominativo correferente em (44e) identifica o dativo como o sujeito da construção, enquanto em (43e) o resultado é oposto: a ausência de correferência entre o pronome nominativo e o dativo revela que o dativo não é o sujeito. (43) e. *wai 1

ha

ii-mã

tep

irls

1-dat

peixe

(44) e. wai 1

ha

ii-mã

prãm

irls

1-dat

fome

‘Eu vou ficar com fome’ (possibilidade). (43) f.

quêi

ha

i-mã

tepi

3

irls

1-dat

peixe

(44) f.

‘Eu vou ter peixe’ (literalmente: ‘Haverá peixe para mim’).

quê

ha

i-mã

prãm

3

irls

1-dat

fome

‘Eu vou ficar com fome’ (certeza).

Em (43f) e (44f), embora o pronome nominativo de 3a pessoa ocorra nas duas construções, o contraste no valor de certeza só se aplica à construção (i). Por outro lado, (44f) poderia ser considerada, pelo menos como hipótese, como a construção-fonte para a construção, mais gramaticalizada, em (44e). As propriedades de codificação do sintagma dativo na construção de posse estão sistematizadas em negrito no Quadro 12. As propriedades de codificação do sujeito, do dativo que realmente não é o sujeito e do dativo que claramente é o sujeito também constam do Quadro 12, para contraste. Quadro 12. Propriedades de codificação do dativo na construção de posse. Concordância verbal

Marcação de caso

Intransitividade cindida

Ø (A; SA) prefixos (P; SP)

Ergativo

Ø (A) prefixos (P; S)

te erg (A)

Dativo (não sujeito)

Ø

mã dat

Ø (A; SA; SP; P) Ø (S; P)

Dativo (Cxn i)

Ø

mã dat

Dativo (Cxn ii)

Ø

Dativo (Cxn de posse)

Ordem de constituintes

Prom Nom (irls): (A; SA; SP)

SA V; [SP V]SV A [P V]SV

S ~ erg (Pass Rec, com SP)

[S V]SV A [P V]SV

Pron Nom (irls): Não

SA [N mã] V; SP [N mã] sP-V

te erg: Não

(erg) [N mã] s-V (no Pass Rec)

Prom Nom (irls): Sim te

erg:

Sim

Prom Nom (irls): Sim

dat

te erg: Sim

Ex Pred Ex St Pred

Prom Nom (irls): Não Ø

mã dat

te erg: Não

Pssr Pssd

pê mal

Em termos de propriedades comportamentais, a construção de posse utiliza as mesmas estratégias encontradas para marcar a mudança de referência nas orações verbais: o morfema mã indicando mudança de sujeito de 3a pessoa

399


Sujeito dativo em Canela

no passado recente (45a); o pronome livre indicando a mudança de referência nos outros contextos (45b). Não há apagamento sob correferência na construção de posse (45c): Pssr (45) a. cahãj mulher

A mã

tep

humre

te

ih-xêt

dat

peixe

ds

homem

erg

3-assar

‘A mulher tinha peixe e o homem o assou’. Pssr (45) b. cui-mã 3-dat

A tep

(ne)

quêj

ha

me

cunea

h-arẽ

peixe

cnj

3

irls

pl

todos

dat

3-contar

‘Ele tem peixe e ele (outro) vai contar isso para todo mundo’. Pssr (45) c. cui-mã 3-dat

A tep

ne

cui-te

cahãj

cu-gõr

peixe

cnj

3-erg

mulher

dat

3-dar

‘Ele tinha peixe e o deu para a mulher’.

As propriedades comportamentais do sintagma dativo na construção de posse estão sistematizadas em negrito no Quadro 13. As propriedades do sujeito, do dativo que realmente não é o sujeito e do dativo que claramente é o sujeito, assim como a negação, também constam do Quadro 13, para contraste. Quadro 13. Propriedades comportamentais do dativo na construção de posse. Controle do reflexivo

Controle do apagamento sob correferência

Controle na mudança de referência

Orações coordenadas Orações subordinadas

mã; pronome nominativo

Negação

Intransitividade cindida

A

A/SA

A

A/SA/SP

nare

Ergativo

A

A

A

A/S

nare

Dativo (não sujeito)

Não

Não

Não

nare

Dativo (Cxn i)

n/a

Não

n/a

Ex

nare

Dativo (Cxn ii)

Ex

Ex

Ex

Ex

nare

Dativo (Cxn de posse)

n/a

Não

n/a

Pssr

inare/ hamnare

Mesmo que duas propriedades sejam contrárias à categorização do dativo da construção de posse como sujeito (a ausência de pronome nominativo correferente no modo irrealis e a variação para o caso malefactivo), duas outras propriedades (ordem de constituintes e a mudança de referência) sugerem ser um caso menos gramaticalizado de sujeito (em vez de um oblíquo).

400


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 377-403, maio-ago. 2018

CONSIDERAÇÕES FINAIS Este artigo teve como objetivo avaliar o status gramatical do sintagma dativo que ocorre nas construções (i) [ExperienciadorD Predicado] e (ii) [ExperienciadorD Estímulo Predicado], as quais expressam estados mentais ou físicos em Canela. Na introdução, mostrei os diferentes tipos de predicados (nominais e verbais) que podem ocorrer nas construções (i) e (ii): nomes e verbos monovalentes, bivalentes e trivalentes. Na primeira seção, apresentei as propriedades de codificação e comportamentais do sujeito em Canela. Nas seções subsequentes, identifiquei o padrão do sintagma dativo encontrado em diferentes construções e avaliei sua respectiva condição gramatical. As propriedades de codificação e de controle exibidas pelo dativo das construções (i) e (ii) mostram que ele compartilha muitas das características sintáticas do sujeito das orações verbais. Considerando que as propriedades de comportamento e de controle são os requisitos para a categoria de sujeito, pode-se dizer então que o dativo nas construções (i) e (ii) é o sujeito, não um oblíquo. Tais evidências são suficientes para argumentar em favor da categoria gramatical de sujeito como morfologicamente heterogênea em Canela, mas que é unificada por seus comportamentos sintáticos. ativo

ativo

AGRADECIMENTOS Gostaria de agradecer ao Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas, da Universidade de Brasília (IL/UnB), pela possibilidade de me dedicar integralmente às atividades de pesquisa (2017-2018, por meio de licença aperfeiçoamento). Sou grata também ao Departamento de Linguística da Universidade do Oregon, pela hospedagem acadêmica, em 2012-2013 e atualmente (2017-2018), e, em especial, ao meu supervisor, Spike Gildea. Obrigada também aos editores, revisores e à secretaria deste Boletim. Ao povo de Canela, minha eterna gratidão. ABREVIATURAS 1 primeira pessoa 1+2 primeira pessoa inclusiva 2 segunda pessoa 3 terceira pessoa = clítico ou limite entre elementos de um composto A argumento de um predicado transitivo canônico mais similar ao agente apl aplicativo aux auxiliar cnj conjunção Cxn construção Cxn i construção (i) Cxn ii construção (ii) cop cópula dat dativo

dem dir ds erg

Ex inst irls loc mal

N n/a neg neg.exist nf nmz

Nom

401

demonstrativo direcional sujeito diferente ergativo experienciador instrumental irrealis locativo malefactivo nome não se aplica negação negação existencial não finito nominalizador nominativo


Sujeito dativo em Canela

nref

P p-

Pass Rec pl

Pred pr prg

Pron Nom pssd pssr rfl

S

não referencial argumento de um predicado transitivo canônico mais similar ao paciente prefixo que codifica o argumento P passado recente plural predicado prefixo relacional progressivo pronome nominativo possuído possuidor reflexivo único argumento de um predicado intransitivo canônico

s-

SA SN SP sp-

SP St ss sub

SV top

V

prefixo que codifica o argumento S argumento de um predicado intransitivo canônico mais similar ao agente sintagma nominal argumento de um predicado intransitivo canônico mais similar ao paciente prefixo que codifica o argumento SP sintagma posposicional estímulo mesmo sujeito morfema subordinador sintagma verbal tópico verbo

REFERÊNCIAS ANDREWS, Avery D. The major functions of the noun phrase. In: SHOPEN, Timothy (Org.). Language typology and syntactic description: clause structure. 2nd ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2007. v. 1, p. 132-223. CASTRO ALVES, Flávia de. Evolution of alignment in Timbira 1. International Journal of American Linguistics, Chicago, v. 76, n. 4, p. 439-475, Oct. 2010. DOI: https://doi.org/10.1086/658054. CASTRO ALVES, Flávia de. Propriedades formais do sujeito em Canela. In: TELLES, Stella; PAULA, Aldir Santos de (Ed.). Topicalizando Macro-Jê. Recife: Néctar, 2008. p. 167-194. CASTRO ALVES, Flávia de. O Timbira falado pelos Canela Apãniekrá: uma contribuição aos estudos da morfossintaxe de uma língua Jê. 2004. 192 f. Tese (Doutorado em Linguística) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2004. COMRIE, Bernard. Alignment of case marking of full noun phrases. In: DRYER, Matthew S.; HASPELMATH, Martin (Ed.). The world atlas of language structures online. Leipzig: Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology, 2013. Disponível em: <http:// wals.info/chapter/98>. Acesso em: 20 fev. 2018. COMRIE, Bernard. Ergativity. In: LEHMANN, Winfred P. (Ed.). Syntactic typology: studies in the phenomenology of language. Austin: University of Texas Press, 1978. p. 329-394. CROFT, William. Radical construction grammar: syntactic theory in typological perspective. Oxford: Oxford University Press, 2001. EYTHÓRSSON, Thórhallur; BARÐDAL, Jóhanna. Oblique subjects: a common germanic inheritance. Language, Baltimore, v. 81, n. 4, p. 824-881, Dec. 2005. GILDEA, Spike; CASTRO ALVES, Flávia de. Reconstructing the source of nominative-absolutive alignment in two Amazonian language families. In: LUJÁN, Eugenio; BARÐDAL, Jóhanna; GILDEA, Spike (Ed.). Reconstructing syntax: cognates and directionality. Leiden: Brill Press. (Brill Series in Historical Linguistics). No prelo. GILDEA, Spike; CASTRO ALVES, Flávia de. Nominative-absolutive: counter-universal split ergativity in Jê and Cariban. In: GILDEA, Spike; QUEIXALÓS, Francesc (Ed.). Ergativity in Amazonia. Amsterdam: John Benjamins, 2010. p. 159-199. (Typological Studies in Language, 89).

402


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 377-403, maio-ago. 2018

HASPELMATH, Martin. On S, A, P, T, and R as comparative concepts for alignment typology. Linguistic Typology, Berlim, v. 15, n. 3, p. 535-567, Nov. 2011. DOI: https://doi.org/10.1515/LITY.2011.035. KEENAN, Edward. Towards a universal definition of ‘subject’. In: LEE, Charles N. (Ed.). Subject and topic. New York: Academic Press, 1976. p. 303-334. POPJES, Jack; POPJES, Jo. Canela-Krahô. In: DERBYSHIRE, Desmond C.; PULLUM, Geoffrey K. (Ed.). Handbook of Amazonian Languages. Berlin/New York/Amsterdam: Mouton de Gruyter, 1986. v. 1, p. 128-199. RODRIGUES, Aryon D. Macro-Jê. In: DIXON, R. M. W.; AIKHENVALD, A. Y. (Ed.). The Amazonian Languages. Cambridge: Cambridge University Press, 1999. p. 165-206.

403


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The historical phonology of Paunaka (Arawakan) Fonologia histórica do Paunaka (Aruaque) Fernando O. de Carvalho Universidade Federal do Amapá. Macapá, Amapá, Brasil

Abstract: This paper applies the comparative method to unravel the historical development of the segmental phonology of Paunaka, an Arawakan language of Bolivia. Although the Paunaka vowel system features a single back rounded vowel, it is rather simple to show that it derives from a system with two back rounded qualities *u and *o, but that the former segment shifted to a high central unrounded vowel ɨ. The language has lost *r unconditionally, implying that Paunaka items with r are probable loanwords. Paunaka underewent a spirantization of *ts, thus merging this affricate with the fricative *s. Although Paunaka shares a coronalization of *k > s with Proto-Mojeño, most of the phonological developments that affected Paunaka are either recurrent in the Arawakan language family or only superficially similar to developments in related languages, and thus provide little weight as evidence for subgrouping. An Appendix is also included, with 105 etymologies matching Paunaka lexical and grammatical morphemes with their cognates in Proto-Mojeño, the two extant Mojeño dialects (Ignaciano and Trinitario) and Terena. Keywords: Comparative reconstruction. Sound change. Arawakan languages. Paunaka. Resumo: Este trabalho emprega o método comparativo com o objetivo de elucidar o desenvolvimento histórico da fonologia segmental do Paunaka, uma língua Aruaque da Bolívia. Embora o inventário vocálico do Paunaka tenha apenas uma vogal posterior arredondada, é relativamente simples mostrar que o mesmo se deriva de um inventário com duas qualidades vocálicas posteriores arredondadas, *u e *o, mas que o primeiro desses segmentos se tornou uma vogal central não arredondada ɨ. O Paunaka perdeu *r em todos os contextos, um fato que em si sugere que formas contendo r sejam empréstimos com entrada na língua em data posterior a essa mudança. O Paunaka foi sujeito a fricativização de *ts, que, assim, têm reflexos idênticos aos de *s. Embora o Paunaka e o Proto-Mojeño apresentem a coronalização *k > s, a maior parte dos desenvolvimentos fonológicos do Paunaka são recorrentes em diversas línguas da família ou possuem apenas uma similaridade superficial com desenvolvimentos ocorridos em outras línguas, não sendo, portanto, muito relevantes para o estabelecimento de uma classificação interna. Por fim, é apresentado no Apêndice um conjunto de etimologias contendo cognatos no Proto-Mojeño e no Terena de 105 morfemas lexicais e gramaticais do Paunaka. Palavras-chave: Reconstrução comparativa. Mudança sonora. Línguas Aruaques. Paunaka.

CARVALHO, Fernando O. de. The historical phonology of Paunaka (Arawakan). Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 13, n. 2, p. 405-428, maio-ago. 2018. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1981.81222018000200008. Autor para correspondência: Fernando O. de Carvalho. Universidade Federal do Amapá. Campus Marco Zero. Macapá, AP, Brasil. CEP 68902-280 (fernaoorphao@gmail.com). ORCID: http://orcid.org/0000-0002-2115-7416. Recebido em 14/11/2017 Aprovado em 28/06/2018

BY

405


The historical phonology of Paunaka (Arawakan)

INTRODUCTION Paunaka (ISO 639-3: pnk) is a severely endangered Arawakan1 language spoken by less than ten individuals near Santa Cruz de la Sierra, Bolivia (Danielsen; Terhart, 2014). Until recently, all the evidence available on this language consisted of a couple of poorly-transcribed wordlists (Cardús, 1886, p. 319). Fortunately, however, the language has been under documentation by Lena Terhart and Swintha Danielsen, and much more extensive and reliable data on this language has become available in the last few years. Because of this paucity of data, Paunaka has not figured in most comparative investigations of Arawakan languages, apart from a recent study by Jolkesky (2016). This paper examines comparative evidence to throw further light on the historical development of Paunaka phonology while at the same time addressing issues of broader significance for Arawakan historical linguistics. One central issue in the phonological reconstruction of Proto-Arawakan is the uncertain status of the contrast between two back rounded vowels (Payne, 1991, p. 476-478; Aikhenvald, 1999, p. 75-78). As Paunaka is one of the many languages in the family lacking this contrast (see the section ‘An outline of Paunaka phonology’), its inclusion in comparative investigations could provide additional evidence for the absence of the opposition between o and u in the proto-language. However, it is straightforward to show that the unrounded vowel ɨ, which, in this language, contrasts with rounded u, is an unconditioned reflex of *u, while u derives from *o, thus tracing the Paunaka system to an inventory which, just like Proto-Mojeño and Terena, does contrast two back rounded vowels (see the section ‘Vowel inventory’). For consonants, Paunaka cognates are crucial for showing that a fricative debuccalization change occurred independently in both Terena and Mojeño (see the section on ‘Consonant correspondences’). Concerning the implications of sound change developments for internal classification, vowel correspondences suggest that both Paunaka and Baure show the fronting of a back rounded vowel and that this could potentially constitute a (so far unrecognized) shared innovation. As discussed here, though, the developments inferred for the phonological history of Paunaka offer very little to the problem of internal classification, being either exclusively attested in this language or only superficially similar to developments attested elsewhere. However, before presenting the main developments in the historical phonology of Paunaka, a brief discussion of the internal classification of the language and the sample of languages chosen here for comparison with Paunaka are the topic of the next section. SOME ASSUMPTIONS AND THE SCOPE OF THE PRESENT INVESTIGATION The languages usually taken to be particularly closely related to Paunaka are: Mojeño, with its two extant varieties Ignaciano (ISO 639-3: ign) and Trinitario (ISO 639-3: trn), Baure (ISO 639-3: brg), Paikoneka (no ISO code; Glottocode: paic1240) and Terena (ISO 639-3: ter) (Aikhenvald, 1999, p. 67; Campbell, 1997, p. 181, 2012, p. 75; Danielsen, 2011, p. 517; Danielsen; Terhart, 2014, p. 221). I will focus here on a comparison with Terena and Mojeño, as inspection of cognate sets has suggested that these languages are the most informative as far as Paunaka historical phonology is concerned (as shown in the Appendix, the proportion of shared cognates between Paunaka and Mojeño is particularly impressive). Focusing on a comparison with Mojeño and Terena seems justified for the following reasons: first, Paikoneka can be excluded without loss since it is already extinct and only very superficially attested (Danielsen; Terhart, 2014, p. 222). Second, Modern Baure, the best attested variety of this language, seems to be exceedingly innovative in its phonology, I will refer to this family of clearly related languages by the label ‘Arawakan’, instead of the competing ‘Arawak’. See Michael and Granadillo (2014, p. 10) for this minor terminological quibble.

1

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so much that cognate identification is many times hampered by vowel losses (mostly apocope) and changes in vowel quality (umlaut). This is illustrated in Table 1 by a comparison of forms from sources on Old Baure (18th century; see Adam; Leclerc, 1880) and their correspondents in Modern Baure (data from Danielsen, 2013, p. 288, I retain the source orthography; see Danielsen, 2007, p. 51-55 for further discussion)2. Table 1. Comparison of Old Baure and Modern Baure forms. Old Baure

Modern Baure

Woman

eteno

eton

Hand

wejise

-wojis

Ear

chakane

-chokon

Moon

kejere

kijer

Some amount of systematic internal reconstruction comparing different Baure dialects and making full use of the documentation available on Old Baure is necessary before the language can be profitably used for casting light on the development of an apparently more conservative related language (I will come back to Baure, however, in the final section of this paper, where the issue of internal classification will be discussed). A third factor justifying this narrowed comparative focus relates to the extent of the available documentation on Paunaka and to the immediate goals of the present study. Given that our goal of elucidating the historical phonology of Paunaka is necessarily founded on establishing a sizeable number of etymologies matching Paunaka forms and their cognates in other languages, restricting the comparison to particularly closely related languages will certainly yield a higher number of cognates, specially so if the languages brought into comparison happen to be particularly well-documented. Mojeño and Terena fit both desiderata: first, preliminary evidence suggests that Paunaka is particularly closely related to Mojeño (Danielsen; Terhart, 2014; Jolkesky, 2016) and, in addition, that Terena and Mojeño are also closely related (Carvalho, 2017a). On the availability of extensive data, for Mojeño there are three dictionaries: Gill (1993) on the Trinitario variety, Marbán (1701) on 17th century Old Mojeño and Ott, W. and Ott, R. (1983) on the Ignaciano variety. These are complemented by a grammar of the Trinitario variety (Gill, 1957), a stream of recent in-depth descriptions of parts of Trinitario phonology, morphology and syntax in Rose (2011, 2014, 2015a), an extensive description of the morphosyntax of Ignaciano (Olza Zubiri et al., 2002) and the grammatical description of Old Mojeño in Marbán (1701). I have also benefited from the Proto-Mojeño (PM) reconstructions of Carvalho and Rose (2018) for comparison with Paunaka. For Terena there are several papers and book-length descriptions authored by Summer Institute of Linguistics (SIL) linguists (Ekdahl; Grimes, 1964; Eastlack, 1968; Bendor-Samuel, 1961), an extremely useful pedagogical grammar in two volumes (Ekdahl; Butler, 1979), an unpublished dictionary (Ekdahl; Butler, 1969) and first-hand, fieldwork data by the author of the present paper. For Paunaka, I rely on Danielsen and Terhart (2014) and Terhart (2014), the former mainly but not exclusively for a description of the phonology and morphology of the language and the latter as a privileged source of lexical data.

AN OUTLINE OF PAUNAKA PHONOLOGY The Paunaka inventory of contrastive vowels and consonants is given in Tables 2 and 3, after Danielsen and Terhart (2014). <j> stands for a glottal fricative h and <ch> stands for the affricate ʧ in both modern and Old Baure.

2

407


The historical phonology of Paunaka (Arawakan)

Table 2. Paunaka vowels. [- Round]

[+ Round]

Front

Central

Back

High

i

ɨ

u

Mid

e a

Low Table 3. Paunaka consonants. Oral Stop

Labial

Alveolar

p

t

Palatal

Glottal

k ʧ

Affricate Fricative

ß

s

Nasal stop

m

n

Liquid

Velar

h

r j

Approximant

In its vowel system, Paunaka differs from both Proto-Mojeño and Terena in lacking a contrast between two back rounded vowels and having a contrastive high central vowel ɨ. As discussed in ‘Vowel inventory’ though, the Paunaka vowel system is clearly derived from a system with two contrastive back rounded qualities3. The set of contrastive consonants in Table 3 is based on Danielsen and Terhart (2014) but does not include noncontrastive segments or those whose distribution is restricted to obvious loanwords, such as the glottal stop ʔ and the palatal fricative ʃ. Paunaka, just like Proto-Mojeño, has a single liquid consonant, a rhotic. Synchronic instances of r in the language likely result from borrowing, as comparative data shows that the language has lost *r regularly. The language differs from Proto-Mojeño and from Terena in lacking a contrastive nasal stop ɲ, which occurs only as a surface variant in Paunaka (Danielsen; Terhart, 2014), and, also, by lacking an alveolar affricate ts, reconstructed for Proto-Mojeño and inferable for earlier stages of Terena (Carvalho; Rose, 2018; Carvalho, 2017c). Finally, like most Arawakan languages, Paunaka organizes its segmental elements in simple CV syllables, eventually tolerating onset-less V syllables in wordinitial position and allowing for some amount of tautosyllabic vowel combinations (Danielsen; Terhart, 2014, p. 229). Examples of allowed vowel sequences include: ai, in kupisaire ‘fox’; ae, in the Locative marker jae (though here ae may be a contextual variant of ai4); au, in nauku ‘there’; ue, in kuepi ‘potato’; ui, in nisuika ‘I will write’; ei, in tuseina ‘noon’ and ɨu, in the Demonstrative ʧɨu. Many of these vowel sequences are found exclusively or frequently across morpheme boundaries only, such as iu, in niuma ‘my grandfather’. As seen in the next section, many of the vowel clusters result from the historical loss of an intervocalic consonant, either the rhotic *r or the glottal stop *ʔ.

Note that the Paunaka back rounded vowel u has a lowered allophone [o] (Danielsen; Terhart, 2014, p. 229). Instances of o in available (phonologically transcribed) Paunaka data are restricted to unassimilated Spanish loanwords, such as comunidad (Danielsen; Terhart, 2014, p. 249) and amarillo (Danielsen; Terhart, 2014, p. 240). 4 See Danielsen and Terhart (2014, p. 229) for this claim. 3

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Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 405-428, maio-ago. 2018

HISTORICAL PHONOLOGY The segments of the Paunaka inventory appearing in Table 4 have a simple history, being either retentions or the result of phonetic shifts that did not affect previously existing contrasts. Note as well that a glottal stop *ʔ was unconditionally lost in the language. Both the cognates for each supporting set and the segments in each correspondence are here and elsewhere presented in the order Paunaka, Proto-Mojeño (PM), Terena. For each cognate set a single meaning gloss is given, arguably approximating that of the etymon. The full list of cognate sets given as an Appendix to this paper includes commentaries and notes for those cases where the meaning of one or more cognates deviates from that given in the semantic entry. Table 4. Correspondence sets. Proto-segment

Paunaka

PM

Terena

(a)

*p

p

*p

p

(b)

*m

m

*m

m

(c)

*w

ß

*w

w

(d)

*j

j

*j

j

(e)

*n

n

*n

n

(f)

ʔ

(g)

*a

a

*a

a

(h)

*e

e

*e

e

(i)

*i

i

*i

i

Supporting cognate sets for each of the correspondences in Table 4 are given below: (1) Exemplar cognate sets for each diachronic correspondence p < *p

:

Wash -kipu : *-sipo : -kîpo, Fear -piku : *-piko : -pîko, Bone -upe : *-ope : -ôpe.

m < *m

:

Earth mute : *móte-hi : móte, Husband -ima : *-ima : -îma, Tapir samu : *samo : kámo.

ß < *w

:

Be, Stay -ußu : *-owo : -ôwo, Take -ße-u : *-weʔo : -wêo, Foot -ißu : *-iwo-pe.

j < *j

:

Wife -jenu : *-jeno : -jêno, Night juti : *joti : jóti, Hair -hiju : -hijo.

n < *n

:

Tongue -pe-nene : *-nene : -nêne, Go -junu : *-jono : -jôno,

∅ < *ʔ

:

Jaguar isini : iʧini : sîni. Hand -ßuɨ : *-woʔu : -wôʔu, Hit -eu : *-eʔo, Soil apuke : *apókeʔe : pokéʔe. a < *a

:

Sun saʧe : *saʧe : káʃe, Ear -ʧuka : *-ʧoka, Worm kane : *kane : kâne.

e < *e

:

Breast -ʧene : *-ʧene : -ʃêne, Back -kekɨ : *-keku : -keku, Pet -peu, *-pero, -pêjo.

i < *i

:

Husband -ima : *-ima : -îma, Stone mai : *mari : marîpa, Jaguar isini : *iʧini : sîni.

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The historical phonology of Paunaka (Arawakan)

On the postulated phonetic shift *w > ß, note that Paunaka, Mojeño and Terena have a single contrastive consonant whose realization fluctuates between [w] and [ß] (Danielsen; Terhart, 2014, p. 228). Phonological arguments, related to nasality spreading, can be offered for analyzing the Terena consonant in question as underlyingly sonorant, hence w (Carvalho, 2017b). Though w and ß seem to have become marginally contrastive in the Trinitario dialect of Mojeño, reconstruction of PM *w is uncontroversial (Carvalho; Rose, 2018). For these reasons, and since a similar pattern is attested far afield in the Arawakan family5, I have reconstructed *w for the common ancestor of Paunaka, Mojeño and Terena, thus implying the minor phonetic shift *w > ß6.

VOWEL INVENTORY Paunaka differs from both Mojeño and Terena in having a single back rounded vowel, u, while both Proto-Mojeño and Terena show u and o. This fact could suggest a simple merger of the two back rounded vowels in Paunaka, a simplification similar to the merger of PM *a and *o that took place in the Ignaciano variety of Mojeño (Jolkesky, 2016; Carvalho, 2017a; Carvalho; Rose, 2018)7. Comparative data shows, however, that the two non-front, non-low vowels of Paunaka, u and ɨ, reflect two back rounded vowels, here reconstructed as *o and *u respectively (see Table 5). Table 5. Correspondence sets. Proto-segment

Paunaka

PM

Terena

(a)

*o

u

*o

o

(b)

*u

ɨ

*u

u

(2)

Exemplar cognate sets for each correspondence

(2a) Paunaka u : PM *o : Terena o Wing/shoulder -pußu : PM *-powo : -pôwo, Moon kuhe : *kohe : kohêe, Night juti :* joti : jóti, Woman esenu : *eseno : sêno. (2b)

Paunaka ɨ : PM *u : Terena u

Hand -ßuɨ : *-woʔu : -wôʔu, Cloud ɨku : *uko : úko, Firewood -jɨkɨ-ke : *-juku-ki : -júku, Ant kusiɨ : *koʧiru : kosîu.

Jolkesky (2016, p. 17) postulates a third correspondence according to which Paunaka u would match Mojeño u as well, thus overlapping with both (2a) and (2b) above (he did not include Terena in his comparative study). This has led Jolkesky (2016) to assign correspondence (2b) above to *ɨ, since *u was already reconstructed for this third, identity correspondence. Accordingly, he postulated a merger of two back rounded vowels *u and *o in the history of Paunaka and a merger of *ɨ and *u in Mojeño (Jolkesky, 2016, p. 30). A critical problem with this proposal is that this putative identity correspondence

See e.g. Mihas (2015, p. 50) for the Alto Perené variety of Ashéninka. As all the compared languages show the variation [w] ~ [ß], the postulation of this phonetic shift is in a sense contingent on phonological analyses that may contain some element of arbitrariness. It is safer to postulate, however, the existence of a single contrastive unit and to suppose that the same allophony was found at the level of the proto-language. 7 With regard to phonetic details, the two mergers are not entirely comparable since the Ignaciano merger would have involved an a rather close to o. Phonologically, however, both involve unconditioned mergers of non-front vowels. At any rate, the hypothesis of a merger between *o and *u as an explanation for the lack of contrastive back rounded vowels in Paunaka can be rejected. 5 6

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reflecting *u is an artifact and, actually, does not exist8. A look at his comparative data (Jolkesky, 2016, p. 18-24) reveals only two forms for which the correspondence Paunaka u : PM *u is attested, and both are problematic. For the existing, attested Paunaka noun ɨʧɨ ‘capybara’, Jolkesky (2016, p. 19) presents instead a ‘Pre-Paunaka’ form *uʧɨ for which no motivation or evidence exists. Comparing instead the attested Paunaka form ɨʧɨ with PM *uʧu ‘capybara’ (see Appendix) yields an instance of correspondence (2b) above. The other etymology which apparently supports this third correspondence is PM *koʧiru : Paunaka kusiu ‘ant’. My inspection of first-hand data on Paunaka from Lena Terhart’s work has revealed, however, a different form for ‘ant’, kusiɨ, which is completely consistent with correspondence (2b) above (and with other regular correspondences as well), here reconstructed as a reflex of *u and implying thus a change *u > ɨ for Paunaka.

CONSONANT CORRESPONDENCES The following sections address the most difficult problems in Paunaka historical phonology: the development of the coronal obstruents, the reflexes of *s and *h, the status of the rhotic r and the correspondences involving the velar stop k. CORRESPONDENCES FOR THE CORONAL STOPS AND AFFRICATES Below we have correspondence sets for alveolar fricatives and affricates, except those that are clearly reflexes of *k (these will be discussed in the section ‘The velar stop and diachronic fronting’ since they overlap in a crucial way with the identity correspondence for the velar stop *k). Correspondences (a), (b) and (c) are here reconstructed as reflexes of *ts. De-affrication of ts to s is independently supported for Terena9. The same development can be postulated for Paunaka, which is consistent with the fact that the language lacks ts altogether (Danielsen; Terhart, 2014, p. 227). Though both Terena and Paunaka agree in showing the same reflex for all correspondences (a-c) in Table 6, an alveolar fricative s, PM calls for the establishment of the three correspondences attested and the varying PM reflexes must be accounted for somehow. The supporting evidence for each correspondence is given in (3a-3c) below, followed by discussion. Table 6. Correspondence sets. Proto-segment

Paunaka

PM

Terena

Contexts

(a) (b) (c) (d) (e)

*ts

s

*ts

s

___ *e, *i

*ts

s

s

(*i) ___*i ___ *o, *a, *e

(f)

*ts

s

*s

s

ʧ

t

___ *u

ʧ

ʃ

___ *o, *e, *u

*t

t

*t

t

___*e, *i

Note that this spurious correspondence showing PM *u : Paunaka u also includes Baure u, while Baure o appears in another correspondence. Quite strikingly, however, there is no contrast between u and o in Baure (Danielsen, 2007, p. 33). 9 The fact that Terena was possibly once spoken in a region much closer to where the Paunaka live might suggest that the spirantization of *ts could have diffused from one language to the other, instead of being independent events. Documentary evidence on Terena discussed in Carvalho (2017b, 2017c) shows, however, that these developments took place very recently in Terena history, possibly around the turn of the 19th and 20th centuries, at a time when Terena speakers where already living in the eastern bank of the Paraguay river, within the territory of Brazil. 8

411


The historical phonology of Paunaka (Arawakan)

(3)

Correspondences and exemplar cognate sets for *ts

(3a)

Paunaka s : PM *ts : Terena s

/__ *e, *i

Grandmother -use : *-otse : -ôse, Ashes sima-pa : *tsima-pa, Red tisi : *titsi, Eyelash musipa : *motsi-pa. (3b)

Paunaka s : PM *ʧ : Terena s

/ (*i)__*i

Jaguar isini : *iʧini : sîni, Ant kosijɨ : *koʧiru : kosîu. (3c)

Paunaka s : PM *s : Terena s

/_ *o, *a, *e

Weed out -su : *-iso-ʔo : -íso, Garden -asane-ti : *esane-ti : isáne, Defecate -suku : *-soko, Woman esenu : *eseno : sêno, Mother-in-law -muse : *-ímose : -imóse.

Dealing first with the Mojeño reflexes, if PM *-otse ‘grandmother’ is ignored for a moment, the correspondence in (3c) can be collapsed with (3a) and (3b), as the latter two are restricted to the context of a following *i. A single proto-segment, *ts, can be assumed for all three, *ts > s being a development restricted, in PM, to the context /__ *o, *a, *e (see correspondence 3c). Correspondences (3a) and (3b) apparently occur in the same environment, a fact that suggests that they contrast and therefore cannot be reduced to reflexes of a single segment; this pattern of contrast is only apparent, however, as I show now. As discussed in Carvalho and Rose (2018), PM had an (word-level) accentuation pattern characterized by left-aligned binary iambs, the exception being bi-syllabic words which instead show word-level accent in the first (word-initial) syllable, due to a general prohibition on accentuating the word-final syllable. With this pattern in mind, the following complementary distribution arises (the accented syllable is marked with an acute mark): for correspondence (3a) the PM reflexes of *ts are all in unaccented syllables *tsimápa ‘ashes’, *títsi ‘red’, *-mótsipa ‘eyelash’ (the latter is an inalienable noun, hence usually preceded by a possessive prefix, as in *nu-mótsipa ‘my eyelash’). For correspondence (3b), however, reflexes of *ts are always in an accented syllable: *iʧíni ‘jaguar’, *koʧíru ‘ant’. All three correspondences (3a), (3b) and (3c) can be resolved then as reflexes of a single segment *ts, which kept its affricate character in PM only in the context of a following *i and was palatalized to ʧ in a subset of this environment, that is, in accented syllables whose nucleus was *i10. The form *-ótse ‘grandmother’ is exceptional under this plausible account and is probably explainable by the action of some factor other than sound change. I will leave this to another paper devoted exclusively to the historical phonology of Mojeño11. The reconstruction of *ts for correspondence (3c), an identity correspondence where all three languages agree in showing s, is perhaps the most controversial and the reasons for not reconstructing *s should be examined in greater detail.

Dependence of palatalization processes on prosodic structure is reported in Bateman (2011, p. 597) and references therein; see Giavazzi (2012) for the case of Italian. 11 There are reasons to believe that the exceptional character of this form is due to phonosymbolism or analogy involving vocative or expressive parts of the kinship terminology. As discussed in Carvalho and Rose (2018), palatal ‘strengthening’ of certain vocative and ‘affective’ terms is attested in the development of the Ignaciano variety of Mojeño and in other branches of the Arawakan language family as well. Note also that in Terena there are pairs like -ôse ‘grandmother’ but ôte/otête ‘granny’, -ôʃu ‘grandfather’, but ôtu ‘grandpa’ (also used as an affective address term for male elders in general). 10

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Evidence for reconstructing *ts instead of *s comes, first, from the independently established fact that fricatives were debuccalized to h in Terena and that this language’s fricatives can be shown to come from affricates (Carvalho, 2017b, 2017c); hence, Terena s requires an affricate source. A second fact is that external evidence from other Arawakan languages supports the reconstruction of an affricate for the etymologies in (3a), (3b) and (3c). These are given below in (4) along with documentary evidence on early Terena showing the presence of affricates as well12: (4) External evidence on the phonetic character of *ts Woman: Paunaka esenu, PM *eseno and Terena sêno. Palikur tino (Launey, 2003, p. 233), Campa (Asháninka and Ashéninka) tsinane/ʧinane (Heitzman, 1973, p. 44), Proto-Arawakan *ʧɨna[ru] (Payne, 1991, p. 426).

cf. Early Terena <tseenŏ> ‘Weib’ (Schmidt, 1903, p. 570); <tséno> ‘Frau’ (Baldus, 1937, p. 539). Mother-in-Law: Paunaka -muse, PM *-ímose, Terena -imóse. Waurá -matɨ (Richards, 2015), Palikur -matru (< -matu-ru) (Launey, 2003, p. 234). cf. Early Terena <imetse> ‘Schwiegermutter’ (Schmidt, 1903, p. 573). Jaguar: Paunaka isini, PM *iʧini, Terena sîni. Paresi ʧini (Rowan, 2001, p. 107), Proto-Arawakan *tsini PA (Payne, 1991, p. 409). cf. Early Terena <tsiini> ‘Jaguar’ (Schmidt, 1903, p. 578). Ashes: Paunaka sima-pa, PM *tsima-pa. Campa (Asháninka, Ashéninka) tsitsi ‘fire’, tsimenkito/ʧimenkito ‘charcoal’ (Heitzman, 1973, p. 47-48), Paresi no-timi ‘my fire’ (Rowan, 2001, p. 99), Proto-Arawakan *tsɨma ‘Firewood’ (Payne, 1991, p. 403).

Moving on to correspondences (d), (e) and (f) of Table 6, repeated below in (5a-c) with the supporting cognate sets, note that the identity correspondence (5c), pointing to *t, was added due to its overlap with (5a). (5) Correspondences and exemplar cognate sets for *ʧ and *t (5a) Paunaka ʧ : PM *ʧ : Ter t / __ *u Head -ʧɨti : *-ʧuti : -tûti. (5b) Paunaka ʧ : PM *ʧ : Ter ʃ

/ __ *o,*e, *u

Know -iʧu : *-eʧo : -êʃo, Sun saʧe : *sáʧe : káʃe, Breast -ʧene : *-ʧene : -ʃêne, Father-in-law -muʧɨku : *-ímoʧuko : -ímaʧuka. (5c) Paunaka t : PM *t : Ter t

/__*e, *i

Earth mute : *móte-hi : móte, Pain -kuti : *-koti : -kôti, Blood -iti : *-iti : -íti, Head -ʧɨti, *-ʧuti : -tûti, Night juti : *joti : jóti , Red tisi : *titsi.

Also in this group one could place Terena -sêne : PM *-sene-ti ‘urine’, not discussed here because a cognate of this form seems not to exist in Paunaka. I take this to be an accidental gap, since cognates of these forms are widely attested elsewhere in the family and this is, to the best of our knowledge, a very stable PA etymon, reconstructed by Payne (1991, p. 424) as *ʧɨnɨ.

12

413


The historical phonology of Paunaka (Arawakan)

Correspondence (5b) is the main set for Paunaka ʧ which matches PM *ʧ and Terena ʃ in the context of both back and front vowels. These can be understood as reflexes of *ʧ, an interpretation consistent with the already mentioned independent evidence internal to Terena showing that the language changed its affricates to simple fricatives. Correspondence (5a) has to be recognized only for the unexpected correspondence t in Terena. If *t is assumed as the source, Paunaka -ʧɨti and PM *-ʧuti ‘head’ could be derived from the palatalization of *t triggered by *u, an outcome attested in some languages13. However, in all known cases, *t > ʧ triggered by a high back vowel is dependent on a high front vowel such as *i acting as a trigger as well (Bateman, 2011, p. 597) and, as seen in correspondence (5c), *i never triggers *t > ʧ in Paunaka or PM. I opt then for reconstructing *ʧ for correspondence (5a), implying thus sporadic *ʧ > t in Terena.

THE GLOTTAL AND CORONAL FRICATIVES Despite their restricted distribution, both correspondences in Table 7 and in (6) below contrast with each other and can be reconstructed as reflexes of distinct proto-segments *s and *h: Table 7. Correspondence sets. Proto-segment

Paunaka

PM

Terena

(a)

*s

s

*h

h

(b)

*h

h

*h

h

(6)

Correspondences and exemplar cognate sets for *s and *h

(6a)

Paunaka s : PM *h : Ter h

/ _ *i

Fingernail -sipu : *-hipoɲo : -hîpo, Tail -ke-isi : *-ihi-ki : -îhi, Horn/Shoulder -siɨ : *-hiʔu. (6b)

Paunaka h : PM *h : Ter h

/ _ *i, *e, *u

Suck -uhiku : *-ohiko : -ohíko, Hair -hiju : -hijo-ʔo, Moon kuhe : *kóhe : kohêe, Burn -ihɨe : *-íhu : -íhuwe, Grow -hɨku : *-huruko.

The two correspondences in (6a) and (6b) differ only in the segment found in Paunaka. Since both correspondences are attested preceding *i, two proto-segments are reconstructed and Paunaka turns out as more conservative than either PM or Terena, retaining the contrast between *s > s (6a) and *h > h (6b). Early written evidence on Terena is of pivotal importance here for two reasons. First, it shows that where Terena shows h in correspondence (6a) Early Terena had coronal fricatives instead, thus strengthening the case for a proto *s. Max Schmidt presents <šiipooti> ‘Nagel’ (Schmidt, 1903, p. 336), corresponding to modern hipô-ti ‘someone’s fingernail’; also, the name of a fish species given in Taunay (1875, p. 154), <Araraitti-issi>, literally ‘red tail’, is a compound whose first element matches modern hararáʔiti ‘red’, and whose second element shows a coronal fricative in the form for ‘tail’, <issi> (Modern Terena -îhi). Second, given the late date for the operation of the merger between *s and *h in Terena, we know that it was not a shared innovation of Terena and PM14. See e.g. Stubbs (2000) on the Tepiman branch of Uto-Aztecan. See Carvalho (2017b, 2017c) for details on the Terena developments.

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Paunaka forms with s in correspondence (6a) above, which we analyze as reflexes of *s, are analyzed in Jolkesky (2016) as coming from *h instead. The author postulated ‘Pre-Paunaka’ forms showing *h, claiming that the attested modern Paunaka forms would derive from these by means of processes specific to this language. He claims explicitly that -siɨ ‘horn’ would come from Pre-Paunaka *-hiɨ by “[...] assimilation of a coronal feature [...]” (Jolkesky, 2016, p. 19), and a similar development is postulated for -isi ‘tail’, presumably from Pre-Paunaka *-ihi. Though such processes do exist, for instance, as synchronic allophonic realizations of an underlying glottal fricative, as in the well-known case of Japanese, e.g. hito ‘person’ [çito], the problem with applying this to a diachronic account of the correspondences in (6a) and (6b) is that it requires postulating a sporadic change of *h to s in the language, applying before *i in some cases (6a), but not in others (6b). Therefore, I reject this conclusion, recognizing instead a contrast *s - *h preserved in Paunaka.

THE RHOTIC r Danielsen and Terhart (2014, p. 228) describe the rhotic r as a native phoneme in the Paunaka vocabulary, as opposed to the other liquid, the lateral l, whose occurrence is restricted to obvious loans15. Comparative evidence suggests, however, that r as well may be restricted to a loan stratum in the Paunaka lexicon, as *r was regularly lost in the inherited lexicon of the language, as seen by the correspondence sets in Table 8. Table 8. Correspondence sets. Proto-segment

Paunaka

PM

Terena

Contexts

(a)

*r

*r

elsewhere

(b)

*r

*r

r

___*i

(7)

Exemplar cognate sets for *r loss in Paunaka

(7a)

Paunaka ∅ : PM *r : Terena ∅ Pet peu : *péro : pêjo, Rib -himunepa : *-hirumonepa : -, Grow -hɨku : *-huruko : -, Swallow -hikup- : *-hiriko- : -, Body puɨ : *-poru : -.

(7b)

Paunaka ∅ : PM *r : Terena r

/ __*i

Stone mai : *mári : marîpa.

Here, two correspondences (7a) and (7b) are recognized due to the varying reflexes in Terena, since Paunaka shows ∅ in all cases and PM retains *r >r16. The relevant conditioning factor seems to be the presence of a following *i in accounting for the preservation of *r in Terena. Though correspondence (7b) is attested in a single etymology this limitation stems probably from the relatively limited documentation available on Paunaka and from gaps resulting from lexical innovation, perhaps a result of borrowing. Comparison of Terena and PM cognates further supports the

e.g. asul ‘blue’ < Sp. azul ‘blue’; Danielsen and Terhart (2014, p. 255). The reader might ask whether the forms related to PM *pero ‘pet’ could be loans from Spanish perro. This is unlikely, as Payne (1991, p. 392) has shown that these are reflexes of a Proto-Arawakan etymon *pɨra ‘animal, domesticate’.

15 16

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The historical phonology of Paunaka (Arawakan)

hypothesis that *i had a role in ‘protecting’ *r in Terena, though for these no Paunaka cognate exists: Terena jôu ‘fog’: PM *ijoru ‘fog’; Terena -ôo ‘to fly’: PM *-oro ‘to fly’; Terena -póe- ‘root’ : PM *-pore ‘root’, but Terena -kîri ‘nose’: PM *-siri; Terena -ámori ‘grandson’: PM *-amori17. These correspondences suggest that forms having r in Paunaka are the result of borrowing, either from different, unrelated languages or from another dialect not subject *r > ∅. Aside from obvious loans from Spanish, such as bera ‘candle’, ajurau-ʧu ‘to help’ and arusu ‘rice’, many verbs, some cultural items and even some body-part terms have r and lack obvious cognates in the other languages: -bururuku ‘to boil’, -beriuk ‘to turn’, -kupuru ‘to get burned’, -arehik ‘to scratch, scrape’, -kurumehik ‘to pierce’, -kerahik ‘to break’, -marɨk ‘to cut’, -simirike ‘navel’, -kijuraki ‘brain’, kupisaɨrɨ ‘fox’, ubaramu ‘spider monkey’, upuri ‘snake’, takɨra ‘hen’, barereki ‘kettle, pot’. It will remain a task for future research to ascertain the source of this layer of loanwords in Paunaka.

THE VELAR STOP AND DIACHRONIC FRONTING The three overlapping correspondences in Table 9 provide evidence for the development of *k in Paunaka and its closest relatives. Table 9. Correspondence sets. Proto-segment

Paunaka

PM

Terena

Contexts

(a)

*k

k

*k

k

__ *o, *e

(b)

*k

k

*s

k

___*i

(c)

*k

s

*s

k

___ *a

(8)

Exemplar cognate sets for *k

(8a)

Paunaka k : PM *k : Terena k

/__ *o, *e

Sleep -imu-ku : *-imo-ko : -imóko, Pain -kuti : *-koti : -kôti, Ant kusijɨ : *koʧiru : kosîu, Moon kuhe : *kohe : kohêe, Soil apuke : *apokeʔe : pokéʔe. (8b)

Paunaka k : PM *s : Terena k

/__*i

Wash -kipu : *-sipo-ko : *-kîpo, Turtle kipɨ : *sipu : -. (8c)

Paunaka s : PM *s : Terena k

/__ *a

/__ *a

Tapir samu : *samo : kámo, Sun saʧe : *saʧe : káʃe, Hear -samu : *-samo : -kâmo.

Correspondence (8a) above points unambiguously to *k. Correspondence (8b) shows the retention of *k as a velar stop in both Paunaka and Terena, while *k > s took place in PM where *i followed. Though the correspondences in (8) above are complementary and point therefore to the reconstruction of a single ancestral segment *k, correspondence (8c) raises two interesting issues: (1) an issue of phonetic motivation, given that *a is not an expected trigger for

Note that Paunaka -sɨsɨ ‘nose’ is not cognate with PM *-siri and Terena -kîri, both meaning ‘nose’ as well. In spite of the overall formal similarity, no regular correspondences support a match of Paunaka ɨ and PM *i / Terena i or of Paunaka s and PM *r / Terena r.

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palatalizations, and (2) one of chronology, as the outcome is apparently shared between Paunaka and PM. These two independent issues are interrelated18. Comparative evidence from more distantly related Arawakan languages shows that the low vowel *a in (8c) derives from *e or another front vowel, a more natural trigger of palatalizations19. (9)

External evidence on palatalization-triggering *a: Tapir:

Paunaka samu, PM *samo, Terena kámo. Bahuana kema, Yucuna hema, Proto-Campa *kemari, Piapoco éma, Mehinaku teme, Apurinã kema, Maipure <chièma>.

Hear:

Paunaka -samu, PM *-samo, Terena -kâmo. Palikur -timap, Baré -temuda, Bahuana -kimi-ta, Paresi -tsema, Resígaro -heʔmɯ, Piapoco -émia-ka, Proto-Campa *-kema.

The data above suggests that *a was still a front vowel at some point in the relevant chronology, hence a natural trigger for the palatalization/coronalization *k > s. Later, this vowel merged with the low vowel *a, yielding the seemingly ‘odd’ phonetic conditioning pattern. Uncovering in detail how this came about and what where the reorganizations of the inherited vowel system that followed from this merger would take us beyond the scope of this paper, whose concern is solely the historical (segmental) phonology of Paunaka. Finally, the question of whether the development *k > s was shared between Paunaka and PM – occurring, therefore, only once in a common period of development – or whether it took place independently in the two languages is also illuminated by comparisons with more distantly related Arawakan languages. Comparative data such as that in (9) suggests that the fronting/coronalization of *k preceding a front vowel took place many times independently in the Arawakan language family, an impression confirmed by the more general comparative study of Payne (1991), who claimed that the outcome is so general that some kind of allophonic split of *k and *kʰ in this context was a feature of Proto-Arawakan itself (Payne, 1991, p. 440). These facts point, in turn, to the high probability that Paunaka and PM may have innovated *k > s independently and that, therefore, this specific sound change bears little weight in supporting subgrouping arguments. The question of internal classification is the topic of the next section.

PHONOLOGICAL DEVELOPMENTS AND INTERNAL CLASSIFICATION Table 10 presents three of the main phonological developments attested in the preceding sections for Paunaka. I compare Paunaka with Proto-Mojeño, Terena and Baure, the languages usually classified along with Paunaka in a close-knit subgroup variously labelled ‘Moxo/Moho’, ‘Bolívia-Paraná’ or ‘Southern Arawakan’ (Loukotka, 1968, p. 142; Kaufman, 1994, p. 59; Campbell, 1997, p. 181, 2012, p. 75; Danielsen, 2011, p. 517; Danielsen; Terhart, 2014, p. 224; Correspondence (8c) is interesting for yet another reason: in the absence of data from Terena, it is not possible to know whether Paunaka s : PM *s is a reflex of either *ts (as in 3c) or of *k (as in 8c). This is relevant, for instance, in the case of Paunaka samatɨ : PM *samatu ‘spider’ (Terena has the non-cognate form wáhaha ‘spider’). 19 Sources on other Arawakan languages: Maipure (Zamponi, 2003), Yucuna (Schauer et al., 2005), Bahuana (Ramirez, 1992), Palikur (Launey, 2003), Paresi (Rowan, 2001), Resígaro (Allin, 1976), Apurinã (Facundes, 2000), Baré (Aikhenvald, 1995), Piapoco (Klumpp, 1995), Mehinaku (Corbera Mori, 2011), and Proto-Campa (Heitzman, 1973; Michael, 2011).

18

417


The historical phonology of Paunaka (Arawakan)

Carvalho, 2017a). A cell in the table is marked with ‘yes’ anytime the development in question (broadly defined) is attested in the given language20. Table 10. Candidate shared innovations in Bolivia-Paraná historical phonology. *r > ∅

*u-fronting

*k > s

Paunaka

yes

yes

yes

Proto-Mojeño

no

no

yes

Terena

yes

no

no

Baure

no

yes

yes

Paunaka shows the effects of the unconditioned loss of *r, while Terena retained *r > r in the context of a following *i. Though the two contexts are clearly different, it is not implausible to suppose that Paunaka may show the end-result of a generalization in the environment of a change that was less general, as seen in Terena. Nevertheless, in the absence of independent evidence that these two languages might be particularly closed related, that is, in the absence of other possible innovations shared by the two languages, it is hard to weigh in on the potential usefulness of this development for internal classification. The change *u > ɨ underwent by Paunaka, if defined in purely phonetic terms as a fronting shift in the quality of the vowel, finds a parallel in a change that apparently also took place in Baure. Although Baure was not discussed in this paper, Table 11 below presents a very small set of etymologies that illustrates some of the phonological innovations of this language, so that these can be compared to those attested here for Paunaka21. Table 11. Evidence on some Baure phonological innovations. Paunaka

Terena

Proto-Mojeño

Baure

PA

Water

ɨne

úne

*úne

in(e)

*uni

Sky

anɨ-mu

wanúke

*anu-mo

ani

*jenuh[kɨ]

Tapir

samu

kámo

*samo

som(o)

*kema

Wash

-kipu

-kîpa

*-sipo

-sipa

*kiba

Pain

kuti

-koti

*-koti

-koti

*kaʧi[wi]

Eat

-niku

-nîko

*-niko

-nik(o)

*nika

Go

-junu

-jôno

*-jono

-jon(o)

*jani

Forms in Table 11 present evidence for a change *u > i in Baure (see ‘sky’ and ‘water’). Although this development is phonetically comparable to the *u > ɨ change in Paunaka, phonologically these two diachronic

One might wonder why Baure is excluded from much of the discussion in this article but has returned in the present section. The reason is that two separate issues or problems are at stake. Baure is less interesting than Mojeño or Terena for the task that constitutes the core of this paper – understanding the historical phonology of Paunaka – for reasons discussed above (its innovative character, lack of extensive lexical documentation etc.). For the specific issue addressed in the present section – the internal classification of Paunaka – a comparison with Baure is certainly relevant. 21 The Proto-Arawakan (PA) forms are those of Payne (1991). 20

418


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correspondences are very different: Baure *u > i apparently caused a merger of *u and *i, but the Paunaka shift *u > ɨ preserved a reconstructed contrast. The two changes are therefore clearly independent and have no weight at all in suggesting a closer relation between Paunaka and Baure22. Finally, as far as *k > s is concerned, Paunaka and Mojeño, as well as Baure, show this change in the context of a non-front vowel that can, however, be traced back to *e, as discussed in the preceding section. Baure and Mojeño agree, moreover, in showing the effects of *k > s preceding *i. As already pointed out these developments do not offer compelling evidence for subgrouping, as a coronalization/spirantization of *k in the context of a following front vowel took place many times independently in the Arawakan family. It is legitimate, therefore, to look elsewhere, that is, in the lexicon and in the morphology, for candidate shared innovations, and these should be the focus of future work on the internal classification of Paunaka and its closest relatives. As mentioned before, there is in fact evidence from these domains suggesting that Paunaka and Mojeño, as well as Terena, to a lesser extent, may be particularly closely related. Jolkesky (2016, p. 27) presented several lexemes that seem to be shared between Mojeño and Paunaka, not Baure and Paikoneka, and advanced these as suggestive of a common period of development shared by Mojeño and Paunaka exclusively. As noted by Rose (2015a, p. 251), the third person non-specific prefix ti- of Mojeño has a plausible cognate in Paunaka ti- and these could be a shared innovation. Paunaka and Mojeño also seem to share a ‘relational noun’ used for the expression of possession with some nouns that cannot be directly marked by prefixes for possessor person/number, *-jeʔe in Proto-Mojeño (Rose, 2015b, p. 79; Carvalho; Rose, 2018) and -jai/-jae in Paunaka (Danielsen; Terhart, 2014, p. 236-237). While these observations raise the possibility that Mojeño may be the closest relative of Paunaka in the family, other studies have pointed out similarities found in Mojeño and in Terena. Carvalho (2017a, p. 82-83) notices a specific etymon, *-paho ‘mouth, opening’, that is shared between Terena and Proto-Mojeño but that seems to lack cognates elsewhere in the family, also adding additional observations on a shared pattern in the distribution of inherited roots and on one morphophonological effect of the suffixation of the first person plural suffix that seems to be unattested elsewhere. The overall conclusion of this section is that the phonological developments uncovered here for the history of Paunaka offer little in the way of support for specific hypotheses on the internal classification of this language. Nevertheless, the foregoing observations on certain lexical and morphological similarities involving Paunaka and Mojeño should be enough to make one more optimistic about finding potential shared innovations in these domains.

SUMMARY DISCUSSION AND CONCLUSION In this paper I have arrived at certain conclusions about the diachronic development of the segmental phonological system of Paunaka by applying the comparative method to a set of etymologies matching Paunaka forms to their cognates in Proto-Mojeño and in Terena. The relevant diachronic correspondences are given below in Table 12, while the set of etymologies is presented in the Appendix.

22

It is true, as noted by Swintha Danielsen (personal communication), that a fronting change of the exact type as seen in Paunaka could have operated in Baure, as an intermediate step in the merger between *u and *i. Evaluating this hypothesis requires, however, a deeper investigation of the historical phonology of the Baure language, a topic outside the scope of the present article.

419


The historical phonology of Paunaka (Arawakan)

Table 12. Diachronic correspondences for Paunaka segments. Proto-segment

Paunaka

Proto-segment

Paunaka

*p *t

p

*r

t

*w

ß

*ts

s

*j

j

ʧ

*a

a

*k

k, s

*e

e

*i

i

*s

s

*o

u

*h

h

*u

ɨ

One of the most interesting findings is that the Paunaka vowel system featuring only a single back rounded vowel u is the reflex of a system that, just like those of Terena and Proto-Mojeño, was characterized by a contrast between two back rounded vowels *o and *u. Payne (1991, p. 476) claims that Chamicuro, Terena and Wayuunaiki are the only Arawakan languages with pervasive contrasts between u and o. Besides having no data at all on Paunaka at the time, Payne (1991) relied mostly on the Ignaciano dialect for his data on Mojeño, exactly the dialect of the language that has lost this opposition by merging PM *o and *a as a (Carvalho, 2017a; Carvalho; Rose, 2018)23. More complete cognate sets featuring Paunaka and PM, as well as Terena forms, allow one to demonstrate that such languages share a common ancestor that in fact had two contrastive back rounded vowels, thus showing that this contrast, of uncertain status in Arawakan historical phonology, can be reconstructed for an intermediate proto-language in the family. Differently from PM and (Early) Terena (Carvalho, 2017b, 2017c), Paunaka lacks an alveolar affricate ts. Correspondences with these two other languages show that Paunaka merged *ts and *s in a context-free manner. Analysis of the etymologies addressed here reveals, however, that the contrast between these segments was somewhat limited and that *s had a very limited distribution restricted to the context of a following *i. Significantly, however, this is not an isolated property of the reconstructed system, as *t was also limited to the context of a following front vowel, either *e or *i. Finally, this agrees with some observations in Carvalho (2017b, 2017c) who, on the basis of documentary evidence on the contrast between fricatives and affricates in early stages of the history of Terena, indicates that while the contrast between ʧ and ʃ was clear and robust, this was not the case for the contrast between s and ts. Though segments with limited distributions and only marginal contrastive status are a cross-linguistic common feature, it is possible that further documentation of Paunaka may reveal a larger set of cognates that may, in turn, uncover a wider distributional range for these segments.

ACKNOWLEDGEMENTS I am grateful to Lena Terhart, Françoise Rose, Andrey Nikulin, Swintha Danielsen and two anonymous reviewers for their suggestions and observations on the form and content of this paper. The usual qualifications apply, and any remaining

A reviewer notes that a similar development took place in the Joaquiniano variety of Baure, as compared to Old Baure. This is surely an interesting topic, once more is known about the historical phonology of Baure and the diversification of its varieties.

23

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shortcomings are my own. Special thanks to Lena Terhart for always being so accessible and willing to answer all of my questions about Paunaka.

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423


The historical phonology of Paunaka (Arawakan)

Appendix. This Appendix presents 105 etymologies showing Paunaka forms and their cognates in Mojeño, Terena, or, in some cases, in only one of these languages. Of these, 99 are lexical items and 5 are grammatical/functional morphemes. A total of 101 Paunaka forms (96%) have a cognate in PM, while only 78 (74%) have a cognate in Terena. Some Terena forms appear between parentheses or followed by question marks whenever asserting their cognate status is less obvious or requires further elaboration in view of the regular correspondences discussed here. Data sources: Paunaka: Danielsen and Terhart (2014), Terhart (2014); Mojeño (Ignaciano): Ott, W. and Ott, R. (1983), Olza Zubiri et al. (2002); Mojeño (Trinitario): Gill (1957, 1993), Françoise Rose (personal communication), Carvalho and Rose (2018); Terena: author’s fieldwork data, Ekdahl and Butler (1969, 1979). I have tried to avoid as much as possible items that lie, by their meaning, outside basic vocabulary lists, unless they are particularly stable within the Arawakan family, show widespread cognates and are clearly reconstructible to much older stages, as is the case with many of the zoonyms such as Tapir, Monkey, Fish and Paca. For Mojeño, Old Mojeño forms from Marbán (1701) are at times introduced, between angled brackets and followed by OM (= Old Mojeño). Many of the Proto-Mojeño (PM) reconstructed forms below come from Carvalho and Rose (2018), but since the paper in question is not yet published I have included Ignaciano and Trinitario reflexes along with PM forms. Those PM etyma that are not in Carvalho and Rose (2018) are nevertheless entirely consistent with the correspondences identified by these authors and, given the minor differentiation of attested Mojeño varieties, rather obvious to establish. There are some morphological issues with these etymologies that will be skipped over in the present paper, but some commentary is offered in footnotes whenever necessary. As for transcription, all comparanda are entered in their phonological form and the symbols used, with few exceptions, have a standard IPA interpretation. Exceptions include, first, the rhotic, which in both Mojeño varieties and in Terena is usually a simple tap [ɾ] which is here represented as r. Also, in Terena, the acute and circumflex diacritics represent different accentual phonemes of the language24. (Continue) Cognate sets for Paunaka, Mojeño and Terena Paunaka

Proto-Mojeño

Ignaciano

Trinitario

Terena

1

Body

-puɨ

*-poru-mo

-paruma

-prumo

-

2

Head

-ʧɨti

*-ʧuti

-ʧuti

-ʧuti

-tûti

3

Blood

-iti

*-iti

-iti

-iti

-iti

4

Chin

-mama

*-mama

-mama

-mama

-

5

Hand

-ßuɨ

*-woʔu

-waʔu

-woʔu

-wôʔu

6

Foot26

-ißu

*-iwo-pe

-iwape

-ijpe

-

7

Mouth

-nɨkɨ

*-nuku

-nuku

-nuku

-

8

Molar (tooth)

-haka

-

-

-

-hâka

25

27

9

Tongue

-pe-nene

*-nene

-nene

-nene

-nêne

10

Wing/Shoulder28

-pußu

*-powo-ki

-pawa-ki

-pow-çi

-pôwo

11

Horn/Shoulder

-siɨ

*-hiʔu

-hiʔu

-hiʔu

-

12

Breast

-ʧene

*-ʧene

-ʧene

-ʧene

-ʧêne

13

Back, lower

-ʧupu-kekɨ

*-keku

-keku

-çieku

ʃúju-keku

14

bone

-upe-hi

*-ope-ra

-apera

-opera

-ôpe

15

Rib

-himunepa

*-hirumonepa

-hirumane

-hiimonepa

-

16

Fingernail

-sipu

*-hipoɲo

-hipaɲa

-hipɲo

-hîpo

17

Eyelash

-musipa

*-motsi-pa

-matsi

-motsi-pa

-

29

See Carvalho (2017b, 2017c) and references therein. The PM form means ‘leather, animal skin’. The classifier -mo denotes covering surfaces, so that the root *-poru arguably refers to what is covered by skin or leather. 26 The change of w to j in Trinitario, preceding p, is a regular process (Gill, 1957, p. 15). Note that the terminus a quo for PM *-iwope is arguably *-iwo-pe ‘sole of the foot’, as shown by external comparanda such as Paunaka -ibu ‘foot’. The morpheme -pe is a classifier for flat or plank-like objects (Olza Zubiri et al., 2002, p. 275-277). 27 PM has *-haka ‘mouth’, not clearly cognate. 28 PM, Ignaciano and Trinitario forms mean ‘arm’. The classifier -ki qualifies cylindrical, rigid objects (Olza Zubiri et al., 2002, p. 288-302). 29 The Terena form means ‘kidney’. 24 25

424


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 405-428, maio-ago. 2018

Appendix.

(Continue) Cognate sets for Paunaka, Mojeño and Terena Paunaka

Proto-Mojeño

Ignaciano

Trinitario

Terena

18

Hair

-hiju

*-hijo-ʔo

-hija-ʔa

-hijo-ʔo

(-puhíʔo )

19

Eye30

-ßɨke

*-uki-ʔa

-uki-ʔa

-uç-ʔa

-ûke

20

Ear

-ʧuka

*-ʧoka

-ʧaka

-ʧoka

-

21

Tail

-ke-isi

*-ihi-ki

-ihi-ki

-ih-çi

-îhi

22

Meat/flesh

-eʧe

*-eʧe

-eʧe

-eʧe

-

23

Belly (Inside)31

-hɨe-ki

*-huʔe

-huʔe

-huʔe

-

24

Wife

-jenu

*-jeno

-jena

-jeno

-jêno

25

Husband

-ima

*-ima

-ima

-ima

-îma

26

Brother

-ati

*-ati

-ati

-ati

-âti

27

Son

-ʧiʧa

*-ʧiʧa

-ʧiʧa

-ʧiʧa

-ʃeʔéʃa

28

Daughter

-hine-pɨi

-

-

-

-ihíne

29

Woman

esenu

*eseno

esena

ʔseno

sêno

30

Grandmother

-use

*-otse

-atse

-otse

-ôse

31

Mother

-enu

*-eno

-ena

-eno

-êno

32

Uncle33

kɨku

*(e)kuko

-ékuka

33

Mother-in-law

-muse

*-ímose

-ímase

-imse

-imóse

34

Father-in-law

-muʧɨku

*-ímoʧuko

-ímaʧuka

-imʧuko

-imóʃuko

35

Water

ɨne

*úne

une

une

úne

36

Sky

anɨ-mo

*anú-mo

anuma

anumo

wanúke

37

Cloud/rain

ɨku

*úko-hi

uka-hi

uko-hi

úko

38

Moon

kuhe

*kóhe

kahe

kohe

kohêe

39

Sun

saʧe

*sáʧe

saʧe

saʧe

káʃe

40

Night

juti

*jóti

jati

joti

jóti

32

34

<cuco, necuco>

(OM)

-eúko

41

Stone

mai

*mári

mari

mari

marîpa

42

Earth35

mute-

*móte-hi

mátehi

mótehi

móte

43

Soil

apuke

*apókeʔe

apakeʔe

ʔpóçʔe

pokéʔe

Note that the Paunaka form in the etymology for ‘eye’ offers crucial evidence for *wu > u in PM. I thank Andrey Nikulin for pointing this out. See also that the etymology for ‘mosquito’ shows that a glottal stop is the reflex of *w in intervocalic position. 31 PM *-huʔe means ‘belly; insides’, while Paunaka -hɨe-ki appears as a crystallized modifier meaning ‘insides’ or ‘inside part’, as in -ʧukahɨe-ki ‘inner ear, ear hole’, from -ʧuka ‘ear’ (cf. PM *-ʧoka). 32 Paunaka esenu means ‘female animal’ (Spanish hembra). 33 PM *(e)kuko is reconstructed based on Ignaciano -ékuka ‘uncle’ (Ott, W.; Ott, R., 1983, p. 633) and Old Mojeño <cuco>, <necuco> ‘my uncle’ (Marbán, 1701, p. 346). The Terena form is not obviously cognate because it requires the postulation of a sporadic loss of intervocalic *k. Crucial evidence exists, however, for the explanation of this as resulting from the analogical generalization of a morphophonemic alternation k ~ ∅. This fact belongs to the recent development of Terena and is not relevant for the present concerns. 34 Paunaka and Terena forms mean ‘rain’, in PM and its daughter varieties the meaning is ‘cloud’. In PM, Ignaciano and Trinitario, -hi is a classifier denoting bulky, soft objects. 35 See Paunaka mute-hi ‘earth, mud’, but mute-pa ‘earth, dust’. 30

425


The historical phonology of Paunaka (Arawakan)

Appendix.

(Continue) Cognate sets for Paunaka, Mojeño and Terena Paunaka

Proto-Mojeño

Ignaciano

Trinitario

Terena

44

Path

-uʧene ~ -ʧene

*-oʧene ~ -ʧene

aʧene

ʔʧene

-oʃéne, ʃêne

45

Ashes36

sima-pa

*tsima-pa

tsima-pa

tsma-pa

-

46

Forest

kimenu

*simeno

simena

smeno

-

47

Firewood (fire)

jɨkɨ-ke

*juku-ki

juku-ki

jkuçi

juku

48

Garden

asane-ti ‘field’

*esane-ti

ésane-ti

ésane

isáne

49

Potato37

kuepi

*koere

kaere

kaere

koʔêe

50

Manioc

kɨhɨ-pi

*kuhu

kuhu

kuh-pa

-

51

Pet

-peu

*-pero

-pera

-pero

-pêjo

52

Fish

himu

*himo

hima

himo

-

53

Snake

keʧue

*kiʧore

kiʧare

ççiore

koéʃoe

54

Turtle

kipɨ

*sipu

sipu

personal communication)

-

55

Tapir

samu

*sámo

sama

samo

kámo

56

Capybara

ɨʧɨ

*uʧu

uʧu

uʧu

-

57

Monkey

iju

*ijo

ija

ijo

-

58

Paca

jupu

*jopo

japa

jopo

-

59

Jaguar

isini

*iʧíni

iʧíni

ʔʧíni

sîni

60

Duck

upuhi

*upóhi

upahi

ʔpohi

pôhi

61

Wasp

hane

*háne

hane

hane

háne

62

Bee, wax

ipiti-umu

<ypiti> (OM)

-

-

pîti ~ -ípiti

63

Mosquito

anißɨ

*aniʔu

aniʔu

ʔɲiʔu

nîu

64

Louse

ine

*-iɲe

-iɲe

-iɲe

ɲâ-ti

65

Ant

kusiɨ

*koʧiru

kaʧiru

kʧiru

kosîu

66

Spider

samatɨ

*samatu

samatu

(Rose, personal communication)

-

67

Bat

ßite

*wíte

wite

wite

witête

68

Worm

kane

*kane

(uʧepi)

kane

kâne

69

Be, stay

-ußu

*-owo

-owo

-owo

-owo

38

sipu (Rose,

smatu

The suffix -pa is a classifier for powder-like objects (Olza Zubiri et al., 2002, p. 256-266). It is probable that an etymon *koe- ‘potato’ can be reconstructed and the Paunaka reflex shows the addition of the classifier -pi fossilized as part of the root. The cognate classifier in Mojeño also occurs many times with the nouns referring to plants (see api-pi kuhu ‘two yucas’, Olza Zubiri et al., 2002, p. 193). See also Paunaka for ‘Manioc’. 38 Though a cognate of Paunaka ipiti is found, among Mojeño varieties, only in Old Mojeño, this constitutes likely a result of chance obsolescence/loss in the two extant varieties. An etymon close to *ipiti can be assumed for PM on the grounds of external evidence, from Paunaka, Terena and more distantly related branches such as the Campa languages. 36 37

426


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 405-428, maio-ago. 2018

Appendix.

(Continue) Cognate sets for Paunaka, Mojeño and Terena Paunaka

Proto-Mojeño

Ignaciano

Trinitario

Terena

70

Speak

-keʧu

-

-

-

-kíʃo

71

Tell

-kuetea

*-koʔe

-kaʔe

-koʔe

-kôʔe

72

Eat

-niku

*-niko

-nika

-niko

-nîko

73

Suck

-uhiku

*-ohiko

-áhika

-ohko

-ohíko

74

Laugh

-ku

*-eko-wo

-ékawa

-ekowo

-éko-wo

75

Cry

-ju

*-íjo-ʔo

-íja-ʔa

-íjoʔo

-íjo

76

Swallow

-hikup-u

*-hiriko

-hirika

-hiiko

-huiri-ko (??)

77

Pain/hurt

-kuti

*-koti

-kati

-koti

-kôti

78

Ripe

-ju

*-jo-ʔo

-jaʔa

-joʔo

-

79

Red

tisi

*titsi-

titsi-

titsi

-

80

Hit

e-u

*-e-ʔo

-eʔa

-eʔo

-

81

Fall

-ßenupu

*-wenopo

-wenapa

-wenopo

-

82

Grind

-jɨßaika

*-juwa-ko

-juwaka

-juwako

júʃu ‘mortar’

83

Go

-junu

*-jono

-jana

-jono

-jono

84

Grow

-hɨku

*-huruko

-huruka

-huuko

-

85

Swell

-amu

*-amo

-ama

-amo

-momoʔo-ʃo

86

Kill

-kupa-ku

*-kopa-ko

-kapa-ka

-kopa-ko

-

87

Burn, catch fire40

-ihɨe

*-íhu

-ihu

-íhu-ko ‘arder’

-íhuwe

88

Weed out (v.)

-su

*-iso-ʔo

-ísaʔa

-ísoʔo

-íso

89

Dig

-seku

*-seko

-seka

-seko

-

39

90

Know

-iʧu

*-eʧo

-eʧa

-eʧo

-êʃo

91

Want, like

-saʧ-u

-

-

-

-haʔáʃo

92

Fear

-piku

*-piko

-pika

-piko

-pîko

93

See

-imu

*-imo-ʔo

-ímaʔa

-imʔo

-komómo

94

Hear

-samu

*-samo

-sama

-samo

-kâmo

95

Sleep

-imu-ku-

*-imo-ko

-imaka

-ímoko

-imóko

96

Take

-ße-u

*-weʔo

-weʔa

-weʔo

-wêo

97

Steal

-umei-ku

*-ome-ʧo

-ameʧa

-ómeʧo

-omé-ʃo

*-sipo-ko

-sipa-ka

-sip-ko

-kîpo

*-ko-wo

-kawa

-kowo

-áhiko-wo

41

42

98

Wash

-kipu

99

Bathe

-ku-ßu

Terena -ohíko ‘to nurse (a child)’ is given in Ekdahl and Butler (1979). In my corpus the same root appears as meaning simply ‘to suck’. Paunaka final -e and Terena -we are not clearly cognate. Note for Terena, however, -íhuʃoa ‘to light fire for light’ (Ekdahl; Butler, 1969), where -ʃo is the thematic suffix and -a is an Object suffix, thus showing that -íhu- is synchronically segmentable. 41 The Terena form shows the presence of a verbalizer/transitivizer prefix ko- and the effects of reduplication applied to a base *-(i)mo (see Rose, 2014 on reduplication in Mojeño). 42 See the different thematic suffix in the languages: Terena and PM agree in showing reflexes of *-ʧo, while Paunaka has a reflex of *-ko (see cognate sets 102 and 103). 39 40

427


The historical phonology of Paunaka (Arawakan)

Appendix.

(Conlusion) Cognate sets for Paunaka, Mojeño and Terena Paunaka

Proto-Mojeño

Ignaciano

Trinitario

Terena

100

Defecate

-suku

*-soko

-saka

-soko

-

101

Pron.Base

-ti

*-ti

-ti

-ti

-ti

102

Absolute.Suffix

-ti

*-ti

-ti

-ti

-ti

103

Thematic.Suffix1

-ku

*-ko

-ka

-ko

-k-o-

104

Thematic.Suffix2

-ʧu

*-ʧo

-ʧa

-ʧo

-ʃ-o-

105

Reciprocal

-kuku

*-koko

-kaka

-koko

-koko

428


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 429-440, maio-ago. 2018

A carnavalização do museu e as peripécias de Mamãe: considerações em torno de objetos museológicos, de performances culturais e de espaço urbano Carnival at the museum and Mamãe’s adventures: reflections on museum objects, cultural performances, and urban space Vânia Dolores Estevam de Oliveira Universidade Federal de Goiás. Goiânia, Goiás, Brasil

Resumo: Este artigo visa contar resumidamente a trajetória de um objeto museal do Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore, em Alagoas, e, a partir disso, levantar questões referentes à documentação e à conservação de objetos museológicos que fogem ao convencional, mas que participam ativamente da vida social das cidades nas quais se inserem. Para isso, serão discutidas as performances de um objeto na cidade de Maceió, abordando também os desafios resultantes em relação à sua conservação e à sua documentação. Finda por apontar algumas indicações preliminares para solucionar os desafios da documentação e da conservação de acervos, sem perder de vista que a preservação do conteúdo informacional e do significado social e simbólico dos objetos é tão ou mais importante do que a manutenção de sua aparência física. Palavras-chave: Museologia. Performances urbanas. Museu Théo Brandão. Mamãe. Documentação museológica. Conservação de acervos. Abstract: The objective of this article is to summarize the trajectory of an object from the Théo Brandão Museum of Anthropology and Folklore in Alagoas and to subsequently raise questions related to the documentation and conservation of museum objects that are unconventional, but actively participate in the social life of cities where they are found. This will involve discussion of performances of an object in the city of Maceió and will also address resulting challenges with regard to conservation and documentation. It is important to point out some preliminary indications for resolving such challenges involving documentation and conservation of collections, without forgetting that the preservation of informational content and the social and symbolic meaning of objects are equally if not more important than maintaining their physical appearances. Keywords: Museum studies. Urban performances. Théo Brandão Museum. Mamãe. Museum documentation. Conservation of collections.

OLIVEIRA, Vânia Dolores Estevam de. A carnavalização do museu e as peripécias de Mamãe: considerações em torno de objetos museológicos, de performances culturais e de espaço urbano. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 13, n. 2, p. 429-440, maio-ago. 2018. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1981.81222018000200009. Autora para correspondência: Vânia Dolores Estevam de Oliveira. Universidade Federal de Goiás. Campus Samambaia - Prédio da Reitoria. Goiânia, GO, Brasil. CEP 74690-900 (vania_estevam@hotmail.com). ORCID: http://orcid.org/0000-0002-1828-174X. Recebido em 12/03/2018 Aprovado em 23/05/2018

429


A carnavalização do museu e as peripécias de Mamãe

O objeto de museu foi para o carnaval. Fantasiou-se e caiu na folia. Na noite de sexta-feira desceu as escadas, atravessou o pátio, rompeu os portões e arrastou uma multidão pelas ruas da cidade. Vestiu-se de modo a homenagear o centenário do principal teatro da cidade, relembrando também dos tempos em que era personagem teatral. Desfilou, dançou, rodopiou. Ao retornar, trouxe as marcas da brincadeira. Arrancaram-lhe os anéis, puxaram-lhe uma das unhas. A harpa que carregava trincou-se. Algumas lascas soltas na mão. Pequenas avarias na roupa. Voltou para a sala de exposição. Lá permanecerá ao longo do ano, com aqueles trajes e as marcas de sua noite de momo. (Reis, 2013, p. 14).

INTRODUÇÃO É com essas palavras que Reis (2013) inicia sua tese de doutorado em Sociologia e Antropologia, resultado de uma pesquisa etnográfica realizada no Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore (MTB). Nesse trabalho, entre outras questões, ele narrou a trajetória de Mamãe (Figura 1), que, em determinado momento, havia ‘ficado sem teto’. Foi a leitura dessa tese e a história insólita desse objeto museal que inspiraram a escrita deste artigo. Figura 1. A boneca gigante Mamãe, em exposição no Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore (MTB). Foto: Daniel Reis (2010).

QUEM É MAMÃE? Em seu estudo “[...] sobre a vida social dos objetos [...]”, Reis (2013, p. vii) fala “[...] sobre os lugares que [os objetos] ocupam nas redes de reciprocidades simbólicas”. Ele aborda “[...] sua circulação nos espaços rituais e festivos, nas instituições de memória e construção identitária, em processos de colecionamento e patrimonialização, bem como na vida cotidiana”, tendo como foco “[...] uma boneca gigante chamada ‘Mamãe’ e seus trânsitos entre o Museu Théo Brandão e o carnaval da cidade de Maceió/Al” (Reis, 2013, p. vii). Sua “[...] ênfase recai nos modos como ela [Mamãe] coloca em ação diferentes agências, estabelecendo mediações entre planos sociais, cosmológicos e afetivos; nos modos como ela é produzida e produz os atores que se mobilizam em torno dela” (Reis, 2013, p. vii). A boneca Mamãe desfila há mais de 30 anos à frente do bloco Filhinhos da Mamãe, com saída à meia noite da sexta-feira que antecede a semana do carnaval de Maceió.

Uma vez por ano, o cortejo sai do Museu Théo Brandão pelas ruas do bairro de Jaraguá, em Maceió, Alagoas, “[...] arrastando centenas de foliões, [...] [em desfile que] é considerado um dos pontos altos do circuito de pré-carnaval da capital alagoana [...]” (Reis, 2014, p. 73). O bloco, segundo seus organizadores, prima por promover a brincadeira no espaço público, livre de cordas e abadás. É pedido apenas que os foliões compareçam fantasiados. Foi pensado como forma de atrair a classe média alagoana para as ruas da cidade e obteve forte adesão da classe artística, principalmente do teatro, tornando-se conhecido também pela grande presença de público homossexual. Somam-se a estes, grupos diversos, cujo perfil se altera entre a concentração no pátio do museu e o cortejo na rua. (Reis, 2014, p. 74-75).

O bloco Filhinhos da Mamãe foi criado em 1983 por um grupo de atores e intelectuais de Maceió, com

430


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 429-440, maio-ago. 2018

o intuito de incrementar o carnaval de rua, que estava desaparecendo da cidade. Segundo Reis (2013, p. 151), [...] é consenso entre os organizadores e membros dos Filhinhos da Mamãe de que o principal impulso para criação do bloco foi o considerado ‘esvaziamento’ do carnaval da cidade de Maceió que vinha ocorrendo desde a década de 1970.

Este breve relato visa contar resumidamente essa trajetória e, a partir disso, busca também levantar questões referentes à documentação e à conservação de objetos museológicos que fogem ao padrão convencional. Uma dúvida hamletiana a que se submete todo objeto museal: passar o resto de sua existência material na reserva técnica ou, se tiver a sorte de ser selecionado para participar de narrativas museais, ficar no ir e vir entre a reserva técnica e as exposições de longa duração, temporárias e itinerantes. O intento aqui é também lançar um olhar crítico à participação dos museus e de seus objetos no espaço urbano. Para alcançar a meta, as principais e mais frequentes referências serão os textos de Reis (2013, 2014). No que se refere ao conteúdo museológico, será utilizada a edição comemorativa de 40 anos da Mesa Redonda de Santiago (Nascimento Junior et al., 2012) e, especificamente sobre a documentação museológica e a conservação de acervos, as âncoras teóricas serão Smit (1987), Ferrez (1994), Cerávolo e Tálamo (2000), Teixeira e Ghizoni (2012) e Lourenço e Gessner (2014). Na abordagem dos aspectos urbanos da instituição museológica, o recurso será a obra de Mumford (1998) e, principalmente, de Lynch (1988). Quanto ao método, vale esclarecer que este artigo se insere no âmbito de um projeto de pesquisa cadastrado na Universidade Federal de Goiás, intitulado “Museologia e memória social em performances culturais”, que, por sua abrangência, possui algumas ramificações e subprojetos. Entre eles, o subprojeto “Memórias e performances da musealização da cultura popular: instituições e representações museais da cultura popular” e a abordagem de temas afetos à documentação e à conservação de acervos, área na qual venho me especializando ao longo da trajetória

profissional e sobre a qual ministro aulas em duas disciplinas obrigatórias na graduação em Museologia. Pela experiência profissional anterior, os interesses referentes aos objetos são preferencialmente voltados para os acervos de arte e de cultura populares. Este projeto tem como objetivo geral o levantamento e a análise das representações da memória social nas instituições museológicas, sob a ótica dos estudos das performances culturais, sobretudo, mas não exclusivamente, no que se refere às representações materiais das manifestações da cultura popular e do patrimônio de natureza imaterial. Nesse sentido, almeja-se analisar as materialidades da cultura popular presentes nos acervos de museus brasileiros – sem o esgotamento desse vasto campo – em suas implicações com o imaginário e levando-se em consideração o contexto social e político circundante. Nas atividades da docência, na pós-graduação, procura-se associar os interesses próprios da Museologia com as performances urbanas, analisando a relação entre museu e cidade, à luz dos estudos sobre performances culturais, considerando as especificidades e os problemas das cidades em suas diversas configurações. Nesse particular, interessa-nos, sobretudo, a integração (ou não) do museu com o espaço urbano. Por entender-se – concordando com Mumford (1998) – a instituição museu como um fenômeno urbano, importa também observar e analisar as ações e as representações museológicas nos espaços das cidades enquanto performances culturais. Foi assim que, além do prévio contato ocorrido durante apresentação da comunicação em seminário, que será mencionado mais adiante neste texto, nos levantamentos e revisões bibliográficas foi encontrada e consultada a tese sobre Mamãe (Reis, 2013), que suscitaram os questionamentos apresentados neste artigo. Mamãe reúne em si o fato de ser um objeto oriundo da cultura popular, de integrar o acervo de um museu e, portanto, de requerer os cuidados técnicos adequados de documentação e de conservação. Além disso, a boneca gigante continua mantendo uma vida social extramuros, em perfeita interação com a cidade que ‘habita’. Assim, neste artigo, busquei analisar o fenômeno Mamãe

431


A carnavalização do museu e as peripécias de Mamãe

à luz dos saberes da documentação, bem como dos questionamentos atuais sobre a cidade. Na verdade, procurou-se aqui fazer uma abordagem fenomenológica da situação de Mamãe como objeto museológico, pois a [...] fenomenologia tem a preocupação de descrever o fenômeno e não de explicá-lo, não se preocupando com o buscar relações causais. A preocupação será no sentido de mostrar e não em demonstrar [...] dirigindo-se para a experiência [...] (Martins et al., 1990, p. 141).

Para esse mostrar “[...] a fenomenologia emprega, necessariamente, uma forma de reflexão que deve incluir a possibilidade de olhar as coisas como elas se manifestam” (Martins et al., 1990, p. 141). Entende-se, portanto, que essa abordagem se apresenta muito apropriada para as análises das performances culturais, que exigem um olhar trans e interdisciplinar sobre os eventos ou fenômenos observados. Mamãe é um objeto que performa em mais de um sentido. As performances aqui referidas aplicam-se ao fenômeno da vida sui generis de Mamãe. Como afirma Schechner (2006, não paginado), “Toda e qualquer das atividades da vida humana pode ser estudada enquanto performance”. Isto significa que “Tratar qualquer objeto, trabalho, ou produto [...] quer dizer investigar o que faz o objeto, como interage com outros objetos e seres, e como se relaciona com outros objetos e seres” (Schechner, 2006, não paginado). Nesse sentido, assim como qualquer atividade museológica é passível de análise enquanto performance, aqui são analisadas Mamãe e seu papel de intermediação entre o museu, o bloco Filhinhos da Mamãe e os habitantes de Maceió como performances. Então, apresento um pouco mais sobre Mamãe...

MAMÃE Cerca de três metros de altura, feições amenas, bem traçadas, seios fartos, cabelo bem apanhado, brincos e colares compõem os traços do personagem que é hoje o elemento central do bloco de carnaval e, ao mesmo tempo, parte de um projeto expositivo sobre as culturas populares alagoanas. (Reis, 2014, p. 73).

Mamãe é hoje uma peça de museu, mas não apenas isso. Ela carrega traços da luta pela independência de Alagoas. A boneca foi originalmente criada como personagem da peça “Estrela radiosa”, escrita pelo ator Ronaldo de Andrade, “[...] uma alegoria tragicômica do processo de emancipação do estado de Alagoas em relação a Pernambuco [...]” (Reis, 2014, p. 74). Com o término da temporada da primeira montagem da peça, em 1982, às vésperas do carnaval, a boneca protagonizou a criação do bloco, que surge, então, como elemento impulsionador do carnaval de rua de Maceió, o qual, segundo os organizadores, estava sofrendo esvaziamento (Reis, 2014, p. 74). Uma versão propagada sobre o surgimento dos Filhinhos da Mamãe informa que na última apresentação da peça, no Teatro Deodoro, os atores num misto de comemoração e agradecimento desceram com a boneca gigante do palco junto de seu bloco de bobos – também personagens da peça – fazendo batucada e cantando. Após percorrer o teatro os atores do espetáculo, já transformado em folia, ganharam a rua, contornaram o edifício do Teatro Deodoro, dali se dispersando. (Reis, 2013, p. 154).

Entretanto, em meados da década de 1980 não havia onde guardar os apetrechos do bloco Filhinhos da Mamãe, sobretudo o mais importante deles (Mamãe), sua imagem-símbolo. Então, a museóloga Carmem Lúcia Dantas, diretora do Museu Théo Brandão na ocasião e foliã adepta do bloco, resolveu acolher a boneca no seio museal. Assim, desde 1985, Mamãe passou a ‘morar’ no MTB nos meses em que fica aguardando o próximo carnaval, ocasião em que tomará as ruas de Maceió à frente do seu animado cortejo. Mamãe, a boneca gigante, símbolo do bloco Filhinhos da Mamãe, passou a compor o acervo e a integrar a exposição de longa duração do MTB, em Maceió, Alagoas (Figura 2), em uma perfeita interação com o que acontece no entorno urbano do museu e com os anseios de uma parcela de cidadãos, que tem no carnaval e no bloco motivações de lazer, de trabalho e de realização pessoal.

432


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 429-440, maio-ago. 2018

Figura 2. Mamãe exposta na sala Festejar Alagoano do Museu Théo Brandão. Foto: Daniel Reis (2008).

MAMÃE, O MUSEU THÉO BRANDÃO E SUAS PERFORMANCES NA CIDADE DE MACEIÓ Maceió, capital do estado de Alagoas, é conhecida por suas belas praias, de um azul sem igual, e por possuir um peculiar artesanato, de onde se destacam a renda filé e a cerâmica. Possui vários museus e centros culturais. Entre eles, merece realce o Museu Théo Brandão (MTB), ligado à Universidade Federal de Alagoas (UFAL):

É sempre bom lembrar que museus e demais instituições de guarda e de preservação da memória, como as bibliotecas e os arquivos, nasceram no seio das urbes. Em sua análise da “[...] função cultural da cidade mundial [...]”, Mumford (1998, p. 669) já apontava o museu como a instituição que oferece as características ideais para tornar as cidades mais humanas e educadoras, mais do que educativas, embora admitisse que “[...] inevitavelmente, o museu assumiu muitas das características negativas da metrópole [...]”, tais como “[...] seu gosto desnorteado pela aquisição, sua tendência à exagerada expansão e à desorganização, seu hábito de medir o êxito pelo número de pessoas que passam pelas suas portas” (Mumford, 1998, p. 669). Outro aspecto a se ressaltar é que, com o crescimento vertiginoso das cidades, desde a década de 1970 tem sido uma preocupação a discussão acerca do papel das instituições museológicas no contexto urbano, antes encasteladas em seu mundo particular de cuidados com os acervos/testemunhos da memória. Exemplo disso e turning point da Museologia foi a Mesa Redonda de Santiago, de 1972. Nesse encontro, estudiosos da área reuniram-se para discutir o papel e a viabilidade dos museus no mundo atual. Ressalte-se que foram convidados importantes representantes da Arquitetura e do Urbanismo, uma vez que começava a ocorrer o fenômeno da crescente urbanização da humanidade (Hardoy, 2012). Desse memorável encontro, destaque-se o seguinte trecho do discurso de Juvencio del Valle, na abertura do evento:

O Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore foi criado no dia 20 de agosto de 1975 e instalado provisoriamente na casa nº 3 do Campus Tamandaré, no Pontal da Barra, na administração do reitor Nabuco Lopes. Recebeu o nome de Théo Brandão em razão de ter sido criada para abrigar a coleção de arte popular que o professor e folclorista Théo Brandão doou à Universidade Federal de Alagoas. (UFAL, [2018?], não paginado).

433

Museu é um nome importante que não pode parecer indiferente para aqueles que se consideram, como nós, trabalhadores permanentes da cultura. Na antiguidade, entre os gregos, esse recinto foi um templo dos deuses. Naquela época distante, porém, os deuses interferiam nas querelas e negócios dos homens. Essas divergências entre divindades e homens eram bastante domésticas e urbanas. Por conta dessas guerrilhas intermináveis, os deuses abandonaram o jogo e os homens, frágeis como sempre diante do encanto das musas, deixaram que elas fossem as únicas moradoras desses recintos de sabedoria. Felizmente, parece que o nível cultural


A carnavalização do museu e as peripécias de Mamãe

dessas divindades era bem acima da média. Para elas, o trabalho pelo fortalecimento das ciências, das artes e das letras era uma preocupação fundamental. Ainda não é chegada a hora, no entanto, de expulsar essas divindades de sua antiga casa e não haveria razão para fazê-lo, já que são tão belas e sábias. Nossa preocupação atual, porém, é fazer com que o povo tumultuado conviva com elas. A entidade povo, como conglomerado, sempre foi excluída desses espaços fundamentais para o estudo e a compreensão do passado do homem e do seu ambiente. (in Nascimento Junior et al., 2012, p. 112).

Partindo-se do pressuposto de que existe uma definição estabelecida e renovada periodicamente pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM), órgão aglutinador dos profissionais dos museus e da Museologia ao redor do mundo, “[...] em consonância com as realidades da comunidade museológica global [...]”, os museus estão “[...] a serviço da sociedade [...]” (ICOM, 2010-2012, não paginado, tradução nossa). No aspecto que as cidades assumem na contemporaneidade, as performances museais enfrentam cada vez mais o desafio de, primeiramente, envolver-se com a realidade urbana que as circundam, para depois provocar interesse, visto que a cena urbana se tornou um espaço espetacularizado (Débord, 1997), em que todas as opções disputam o olhar e a participação do público. As musas que coabitam os museus, com toda sua beleza e saber, continuam a não ser um atrativo suficiente. Ademais, já não se admite que museus permaneçam alheios ao seu entorno sociocultural, aos problemas vividos no dia a dia urbano, aos acontecimentos que afetam a vida da comunidade, às reivindicações dos diversos segmentos sociais. Quando persistem nesse modelo – tão questionado desde o evento de Santiago –, esses espaços permanecem desconhecidos ou invisíveis no local que ocupam, mesmo que possuam características monumentais, recebendo visitação muito baixa como consequência da invisibilidade. Se permanecem fechados durante algum tempo, em decorrência de movimentos grevistas ou necessidade de realização de obras de restauro e de manutenção, não fazem falta e sua ausência é sequer notada.

Por isso, quando acontece de serem ameaçados de fechamento ou de extinção, na maioria das vezes não recebem a aliança do apelo popular para sua permanência ou reabertura. No caso de Mamãe, a boneca ‘passeadeira’ do Museu Théo Brandão, em análise, verifica-se o quanto é possível dar ao MTB um papel mais ativo na cena urbana e nos seus eventos. A boneca gigante faz um papel de mediação entre a festa mais popular do país, a cidade de Maceió e o museu durante praticamente todo o ano, através de sua presença no módulo dedicado aos festejos populares alagoanos da exposição de longa duração. Mamãe não fica sozinha, pois divide a sala de exposição com outra boneca gigante, a Moreninha, e “Segundo os monitores que acompanham os visitantes, [as boneconas] são as peças que mais cativam o público em todo o percurso do museu” (Reis, 2014, p. 88). Contudo, é no período momesco que essa relação e interação entre a cidade e o MTB se intensificam. Parte das dependências do museu transforma-se em “[...] algo semelhante a um barracão de escola de samba [...]” (Reis, 2014, p. 90), para a confecção dos adereços e das alegorias do bloco, bem como do novo traje e de acessórios de Mamãe, para que esta se junte à folia. Toda a rotina do MTB é alterada em função dos preparativos para a saída dos Filhinhos da Mamãe, até os funcionários são envolvidos nessas atividades e na divulgação do evento. Dois dias antes do desfile, a boneca é retirada da exposição, sendo levada para o local onde será preparada para o próximo desfile, “[...] evento [que] é descrito pelo grupo como um ritual [...]” (Reis, 2014, p. 90-93). Lá, tal qual uma celebridade que irá desfilar em um carro alegórico ou à frente da bateria de uma escola de samba, Mamãe vira notícia e manchete na mídia local, divulgando, assim, o nome do Museu Théo Brandão e suas atividades. A participação anual de Mamãe no carnaval de rua de Maceió, pelo bairro do Jaraguá, é prevista no planejamento do MTB e aparece com destaque em seu relatório de ações, no item denominado de “Projetos integrados”, sob o título “Carnaval que nos convém”, contando com as etapas de

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planejamento, execução (o desfile do bloco propriamente dito) e a prestação de contas, como qualquer outra atividade do museu, contando com a participação do pessoal do órgão e da Associação Teatral de Alagoas (ATA), responsável pela organização do bloco Filhinhos da Mamãe (MTB, 2016). Como afirma um documento de 2006 produzido pelos organizadores do bloco: “É na rua que Mamãe e seus filhinhos promovem anualmente a condição alagoana de ser”. A partir de então, é por meio da boneca que se pensam positivamente em relação ao outro no espaço urbano. (Reis, 2013, p. 157).

Por intermédio de Mamãe, “[...] passam a se articular e se misturar categorias como sagrado, profano, puro e impuro, autêntico e inautêntico” e acontece a “[...] construção de uma retórica [do ser alagoano], seus lugares sociais e os espaços em que vivem” (Reis, 2013, p. 158). O Museu Théo Brandão faz bom uso dessa intermediação e, tanto a função comunicacional da instituição quanto “[...] os Filhinhos da Mamãe se constituem então, a partir de uma interação entre um objeto e seu poder de agência, a crítica social elaborada por um grupo de pessoas, outras camadas sociais e o espaço urbano” (Reis, 2013, p. 158). Nos últimos dias de dezembro até as vésperas de carnaval, boa parte das instalações administrativas do MTB (auditório e pátio) e até parte da exposição de longa duração são utilizadas para os reparos e a confecção de indumentárias e de adereços a serem utilizados no desfile, sobretudo por sua estrela principal – Mamãe. O grupo envolvido agrega integrantes da ATA e funcionários do próprio museu: “A cada ano é escolhido um tema que dialogue com algum aspecto da cultura local, uma data comemorativa ou um evento específico [em que] [...] a irreverência e o aspecto cômico são fundamentais” (Reis, 2014, p. 90). Nas duas semanas que antecedem o desfile, Mamãe assume papel de destaque e “Nesse período a rotina do MTB é completamente transformada” (Reis, 2014, p. 91). Todo o museu vê-se envolvido na preparação do desfile, “Quase tudo gira em torno de Mamãe e do bloco. O corpo técnico é absorvido em diversas funções

que vão da confecção de adereços até o trabalho de divulgação da festa” (Reis, 2014, p. 91). A apresentação de Mamãe é cercada por preocupações com a estética e a riqueza. Sua vestimenta, que muda a cada ano, de acordo com o tema escolhido pelo bloco, “[...] é cuidadosamente desenhada e modelada. As mãos devem receber anéis, e deve haver colares no pescoço, grandes brincos nas orelhas, além de adornos de cabeça e detalhes incrustados à roupa” (Reis, 2014, p. 92). Para os organizadores do bloco, a boneca “[...] além de foliã, deve ser apresentada como uma luxuosa dama [será porque vive em palácio?], com os seios expostos, em alusão à grande mãe que alimenta seus filhos” (Reis, 2014, p. 92). Mamãe recebe tratamento de rainha e de celebridade. O edifício do museu – palco central do evento – também recebe decoração externa especial, sendo ornamentado com “[...] temas carnavalescos, incluindo máscaras, bandeirolas, sombrinhas de frevo, visíveis aos que passam ao largo” (Reis, 2014, p. 93). O desfile, que acontece uma semana antes do carnaval, na sexta-feira à noite, saindo do Museu Théo Brandão e reunindo cerca de 1.500 pessoas, passou a integrar o circuito oficial do carnaval de Maceió. Há grande quantidade de pessoas fantasiadas – única exigência do bloco, que não tem cordão de isolamento –, sendo que os foliões apresentam perfis diferenciados dos demais eventos carnavalesco locais. Toda a festa é composta por várias atividades e performances: apresentação de cantora local, concurso de fantasias, ironizando os concursos ditos ‘sérios’ nessa modalidade – em que a premiação (um maracá) é decidida pelo público presente na concentração –, e performances teatrais e de grupos de folguedos populares, como bumba meu boi, caboclinhos e maracatus, que variam a cada ano. No início do desfile, 30 minutos antes da meia noite a Orquestra Filarmônica Santa Cecília assoma ao palco para fazer o ‘esquenta’ dos foliões para o grande desfecho. À meia noite, uma queima de fogos anuncia a saída dos Filhinhos da Mamãe, que segue pelas ruas do

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bairro histórico do Jaraguá, ao som das marchinhas da Santa Cecília: O cortejo é uma mistura da brincadeira dos foliões e da performance por parte dos elementos que compõem a estrutura do bloco. Os guardiões e o ‘arauto’ que leva o estandarte principal seguem mantendo tom sóbrio, como uma marcha, enquanto dois carregadores fazem Mamãe dançar em movimentos contidos, somando-se à descontração dos brincantes que os seguem. (Reis, 2014, p. 98, grifo do autor).

O ponto alto do desfile acontece no mais imponente edifício de seu percurso – a Associação Comercial de Alagoas. Ali, a boneca é alçada ao topo da escadaria e “A intenção é colocar Mamãe no mais alto patamar, para que possa ser apresentada a todos. Ali, ela permanece por algum tempo, a fim de ser vista e também brincar com os foliões” (Reis, 2014, p. 98). É a apoteose de Mamãe! O desfile, no entanto, não acaba ali. O bloco desce as escadas e segue até a Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia, ou Nossa Senhora Mãe do Povo, como também é conhecida. Após pedir a bênção a Nossa Senhora para desfilar no ano seguinte, o bloco encerra oficialmente seu desfile, e o público se dispersa. (Reis, 2014, p. 98).

Encerra-se assim o ciclo que se repetirá no ano seguinte. Mamãe, decerto cansada da folia, é carregada de volta ao museu em um caminhão. Na segunda-feira é levada para seu lugar no circuito expositivo do Museu Théo Brandão, onde, com o novo traje, fica em exposição até o próximo carnaval.

DOCUMENTAR, CONSERVAR OU VIVER A CIDADE: CONVIVÊNCIAS POSSÍVEIS? Em 2010, no seminário “Destinações da cultura popular em museus”, realizado de 28 a 30 de abril pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP), pela primeira vez assisti a uma apresentação de Daniel Reis sobre a boneca gigante. Na ocasião, motivada pela movimentação e pela transformação da personagem, bem como pela própria narrativa de Daniel, que, em muitos momentos,

antropomorfizava Mamãe, fiz-lhe a seguinte pergunta durante os debates: “você acha que os objetos de museu podem ser felizes?”. À parte a intenção de arrancar alguns sorrisos da plateia, havia um questionamento sobre o papel dos museus nos indispensáveis cuidados de conservação e de documentação que se devem dispensar ao acervo, sem perder de vista sua função social e sua conexão com a sociedade em que se insere. Lembro que, na ocasião, ele me respondeu que sim e que isso dependeria da maneira como são tratados, como ocorre, aliás, com as coisas em geral e com as criaturas humanas, em particular. Isso conduziu-me a problematizar o modo como são tratados os objetos após sua musealização, ou seja, em sua vida pós-museu, muitas vezes completamente desvinculada de suas ‘biografias prémuseu’ (Lourenço; Gessner, 2014). As instituições museológicas são responsáveis “[...] pela preservação de suas coleções, pressupondo a guarda, a segurança e a disponibilização para pesquisa e apreciação estética por meio de exposições e em condições adequadas” (Teixeira; Ghizoni, 2012, p. 12). Apregoa-se que essas ações possibilitem “[...] à instituição museológica democratizar seu acervo, tornando-o socialmente protegido e amplamente usufruído” (Teixeira; Ghizoni, 2012, p. 12). Contudo, no afã de preservar, cuidar, acondicionar e abrigar adequadamente os objetos, o tratamento técnico que a eles é dado, no mais das vezes, ignora e até deles alija toda sua carga e história de vida anterior, impedindo também que lhes sejam atribuídos outros usos não tradicionais, além de isolá-los nos ambientes assépticos e seguros das reservas técnicas. Muito se tem escrito sobre o congelamento promovido pelos museus, pela interrupção da história dos objetos e também pelas adulterações das funções originais que exerciam no circuito social ou comercial em que circularam (Calvino, 2001; Gonçalves, 2007; Pomian, 1984). Isso porque, em sua maioria, os objetos museológicos passam todo o tempo de sua ‘vida’ museal encerrados nas reservas técnicas, longe do olhar e do conhecimento do público; são vistos apenas periodicamente pelos profissionais que

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zelosamente cuidam de sua conservação, nas vistorias e higienizações regulares ou nos inventários de acervo, que devem ser feitos de tempos em tempos. Felizmente, alguns exemplos já mostram experiências exitosas no sentido contrário, de abertura e de interação com a história pregressa dos objetos, e a continuidade de sua história, mesmo após sua musealização, pois, afinal, inseparavelmente, objetos fazem parte da vida social. É o que ocorre, por exemplo, em Paraty, embora com motivações diferentes das que acontecem em Maceió. As alfaias de material precioso, que passam o ano todo em exposição na caixa forte visitável do Museu de Arte Sacra de Paraty, saem anualmente – algumas delas, várias vezes ao ano – para participar de eventos religiosos daquela cidade da chamada Costa Verde do estado do Rio de Janeiro: As práticas de musealização e patrimonialização do Museu de Arte Sacra de Paraty envolvem a custódia de um acervo que pertenceu às irmandades, a circulação desse mesmo acervo pelas ruas de Paraty em determinadas festas, a transferência de sua custódia para os festeiros de cada ano e a radical flexibilização das noções de segurança e risco patrimonial. (Chagas; Storino, 2014, p. 83-84).

A boneca Mamãe e as alfaias das igrejas de Paraty recebem tratamento diferente do tradicional e, apesar disso, sua existência museal é sempre renovada, permeada de vida e de contato social. Suas existências no museu são quase sempre tão ricas e cheias de eventos quanto durante a permanência no circuito social em que foram criadas, utilizadas ou usufruídas. Como equacionar os deveres preservacionistas e os desafios de uma Museologia comprometida com o aspecto social? Vejamos como isso se resolve no caso de Mamãe, apresentando, a seguir, alguns detalhes acerca do tratamento a ela oferecido no MTB. É o próprio Daniel Reis quem nos conta que “Após o carnaval de 1985 o objeto foi para o MTB. Uma carta redigida em tom jocoso trata Mamãe como pessoa [...]” (Reis, 2014, p. 75), afirmando que ela iria ‘morar’ definitivamente no

Museu Théo Brandão, comparado, na carta, a um ‘palácio’, de onde jamais sairia. Ele também observa que “os termos [...] foram estrategicamente pensados” (Reis, 2014, p. 75). A carta endereçada ao Museu estabelecia a cessão da boneca “[...] – definida como ‘morada’ – e não doação” (Reis, 2014, p. 75). Ao MTB competia garantir a guarda da boneca, necessitando, para isso, de um documento que a oficializasse, em conformidade com as normas apregoadas pelas políticas de gestão de acervo e pelas técnicas de documentação museológica (Padilha, 2014). Dessa maneira, os organizadores do bloco garantiriam também a continuidade da posse e o direito de opinar sobre os usos, as movimentações e as significações de Mamãe, estabelecendo, assim, um “[...] regime de autoridade compartilhada [...]” (Reis, 2014, p. 75), tal qual ocorre nos termos de comodato firmados entre instituições museológicas. Regularizou-se, assim, a documentação museológica. Mencione-se aqui que essa cessão vem sendo respeitada pelas subsequentes administrações do MTB. Há problemas maiores em relação aos procedimentos de conservação da boneca Mamãe. Os bonecos gigantes, assim como os demais adereços e alegorias carnavalescas, são construídos sem a preocupação da permanência – sabe-se que sua duração é efêmera. Por isso, os materiais utilizados para a confecção não são os mais duráveis e resistentes. Pressupõe-se nova feição e/ou roupagem dos objetos a cada ano, em função também da temática abordada nos desfiles das agremiações carnavalescas que representam. Já as regras e normas de conservação de acervos apregoam que “[...] a manutenção das características originais da obra deve ser uma constante preocupação, buscando a intervenção mínima e, dentro do possível, o restabelecimento de sua integridade física e estética [...]” (Teixeira; Ghizoni, 2012, p. 15). Coloca-se, então, o primeiro problema em relação à conservação de Mamãe: o corpo da boneca já está em sua terceira reconstrução: “As versões anteriores foram destruídas pela chuva e deterioração” (Reis, 2014, p. 102). Isso não parece ter afetado a sua musealização.

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Afetou e alterou sim a noção de objeto original, tão cara aos que lidam com as representações da memória e do patrimônio cultural. O que seria original em Mamãe? O material, o simbólico ou os dois? O que devemos conservar antes de tudo: a forma, a aparência e a roupagem originais ou o seu ideário de criação e a sua função na vida sociocultural de Maceió? Ou estamos frente a um original que tem por originalidade a transmutação? Por outro lado, como atuar com a conservação de um objeto que ganha as ruas nas vésperas do carnaval, com nova roupagem a cada ano, e que, como todo bom folião, volta molhada de suor e de outros fluidos, corporais ou não, com a roupa suja, às vezes rasgada, e sempre perde a maquiagem e algum adereço pelo caminho? Que procedimentos básicos podem ser aplicados à Mamãe no dia a dia museal? Para o Museu Théo Brandão, o que vem em primeiro lugar: conservar a boneca ou preservar as manifestações culturais da cidade de Maceió, em sua natural dinâmica de transformação e de adaptação aos novos tempos? Talvez não seja possível responder a todas essas questões, mas algumas indicações preliminares podem ser vislumbradas. A partir da própria função da conservação, que é possibilitar a democratização e a ampla fruição dos acervos, arrisca-se responder que mais importante do que conservar o aspecto original da primeira ou da versão última de Mamãe é saber que a boneca continua sua vida social, servindo aos interesses da sociedade que a criou e aos propósitos que a idealizaram. Suas performances carnavalescas no espaço urbano a expõem às intempéries e ao contato direto com pessoas, poeira, insetos e toda a sorte de acidentes possíveis durante um trajeto de desfile de bloco carnavalesco. Sua roupa é refeita a cada ano e, aqui, a noção de originalidade é totalmente subvertida, exatamente por não ser a mais importante. A cada ano, sua originalidade ‘externa’ altera-se e, em exposição, ela se apresenta diferentemente da versão anterior. Essa modificação a cada carnaval, por sua vez, reforça o caráter verdadeiramente original e social de sua criação:

liderar o bloco Filhinhos da Mamãe e fazer as prévias do carnaval de rua de Maceió. Os recursos e os cuidados de conservação preventiva – higienização, monitoramento e/ou controle de umidade, temperatura e luminosidade – podem ser aplicados cotidianamente a Mamãe, como aos demais objetos do acervo. Contudo, suas constantes mudanças de aparência acarretam outro problema de ordem documental. Sua descrição formal, ou os dados intrínsecos que ela carreia, são alterados a cada ano. Certamente, há alguns anos, esse já foi um problema de mais complexa solução, mas não impossível, pois sempre restaram os recursos referentes à fotografia e/ou ao desenho. Na atualidade, contudo, esse problema é sanável com o auxílio das novas tecnologias: a fotografia digital e as bases de dados atualizáveis, desde que haja profissionais responsáveis e preparados para essas tarefas.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A ‘VIDA’ DE MAMÃE COMO OBJETO MUSEAL Primeiramente, ao contrário do que possa parecer em uma leitura apressada deste texto, cabe afirmar que se considera de fundamental importância documentar e conservar adequadamente o acervo museológico. Essas ações de preservação do acervo/patrimônio sob a guarda das instituições de memória, notadamente os museus, fundamentam e repercutem em todas as demais atividades da cadeia operatória da Museologia. Contudo, mesmo tendo as premissas da documentação e da conservação em mente, há que se considerar como prioritários os interesses da sociedade e dos diferentes grupos que a conformam, pois os objetos são parte da vida. O museu não deve ser visto como uma velha gaveta de coisas esquecidas, sob pena de executar um trabalho apenas para realização e deleite dos poucos profissionais, que, por atuarem na área de preservação de acervos, têm acesso aos bens culturais reunidos em suas coleções. Assim procedendo, viram-se as costas para os interesses da população das cidades em que se localizam e que, desse modo, não tomam conhecimento do acervo

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preservado nesses espaços, consequentemente não usufruindo desses bens culturais. Voltando à fala de Juvencio del Valle (in Nascimento Junior et al. 2012, p. 112), o “[...] povo tumultuado [...]” continua impedido de conviver com as belas e sábias musas. Essa “[...] entidade povo, como conglomerado [...]”, segue sendo excluída “[...] desses espaços fundamentais para o estudo e a compreensão do passado do homem e do seu ambiente” (Juvencio del Valle in Nascimento Junior et al. 2012, p. 112) e, portanto, impedida também de partilhar suas memórias e o patrimônio que naturalmente possui e elege, mas que não se vê representado nessas instituições. As musas podem continuar habitando o museu, mas o espaço pode e deve ser compartilhado com os seres humanos comuns, que, assim, vão usufruir e contribuir com seus conhecimentos para os saberes daquelas belas divindades. Da mesma forma, espera-se que os cursos de formação de museólogos deem especial ênfase a essas áreas em seus projetos político pedagógicos, para que os profissionais recém-formados comecem a exercer a profissão cônscios da importância da documentação e da conservação de acervos, munidos de conhecimentos e de habilidades práticas básicos para sua aplicação no trabalho. Ressalte-se, porém, que a documentação, apesar de fundamental, não é um fim em si mesma. Ela só se justifica se entendida como a mediação – ou a ponte – entre o objeto, carregado de conteúdo informacional e simbólico, e o usuário que a procura por diversificadas motivações (Smit, 1987; Ferrez, 1994; Cerávolo; Tálamo, 2000). Acervos não cumprem sua função social se são distanciados de seus frequentadores e daquele público em potencial, aqui também denominado de ‘não público’. Os museólogos e demais profissionais que atuam na documentação museológica são, assim, mediadores, construtores de pontes ou pontífices, como o significado da origem latina da palavra nos relembra (pontífex). É indispensável que se considere a vida pregressa dos objetos museológicos e sua permanente conexão com a realidade social circundante. Caso contrário, ao invés de pontes, serão construídos

muros, barreiras entre o acervo e seu usuário. Da mesma maneira, a conservação só tem sentido se for feita para prolongar a vida do objeto, para cumprimento de suas funções no âmbito da Museologia: preservação, pesquisa e comunicação. Parece revestir-se de um caráter egoísta o ato de apenas conservar, mantendo longe dos olhos e da fruição social o que certamente um dia irá transformar-se em pó, destino inevitável de tudo que existe. Defende-se, então, que experiências como a descrita neste texto devam ser estimuladas pelos diretores e profissionais de museus em geral. Documentar sim, conservar também, sem perder de vista que a preservação do conteúdo informacional e dos significados social e simbólico dos objetos são tão ou mais importantes do que a manutenção de sua forma física. Finalizando esse exercício reflexivo, volta-se à pergunta sobre a felicidade dos objetos de museu, feita em tom de brincadeira ao antropólogo Daniel Reis, cujo trabalho inspirou e, em grande medida, fundamentou este artigo. Ao fim destas breves reflexões, concordo com ele e, numa proposital personificação dos acervos, concluo que a maioria dos objetos de museu não é feliz. Apesar de receberem tratamento técnico documental e de conservação preventiva, ou corretiva (restauro), quando necessário, esses objetos vivem enclausurados e longe dos olhos e do contato com a sociedade, em total desconexão com a existência que tiveram antes de se tornarem acervos museológicos e com o ambiente social que os cercam e abrigam. Há muito que aprender com as lições de Mamãe, que, ao contrário, tem um teto e recebe cuidados e proteção constantes do museu e de seus ‘filhos’, mas tem também uma vida social saudável, saindo a passear periodicamente pela cidade onde nasceu e onde mora, tendo contatos com as pessoas da vizinhança, participando do carnaval e, como se não bastasse, sendo muito amada. Mamãe tem sido bem feliz em sua trajetória de objeto museal!

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AGRADECIMENTOS Registro e agradeço a leitura atenta do rascunho e as sugestões feitas pelo professor Robson Corrêa de Camargo, docente, idealizador e fundador do Programa de Pós-Graduação em Performances Culturais da Universidade Federal de Goiás, bem como as críticas oferecidas pelos pareceristas do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, que muito contribuíram para a melhoria da qualidade deste trabalho. REFERÊNCIAS CALVINO, I. A memória do mundo. In: CALVINO, I. (Ed.). Um general na biblioteca. Tradução R. F. D’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 127-133. CERÁVOLO, Suely; TÁLAMO, Maria de Fátima Gonçalves Moreira. Tratamento e organização de informações documentárias em museus. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, n. 10, p. 241-253, sem. 2000. DOI: http://dx.doi.org/10.11606/ issn.2448-1750.revmae.2000.109390. CHAGAS, Mário; STORINO, Claúdia. Museu, patrimônio e cidade: camadas de sentido em Paraty. Cadernos de Sociomuseologia, Campo Grande, v. 47, n. 3, p. 71-90, jun. 2014.

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Nota de pesquisa


Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 13, n. 2, p. 443-457, maio-ago. 2018

Caracterización de los depósitos secundarios de rodados fluviales del río Uruguay inferior: su aplicación en contextos arqueológicos de las llanuras interiores del nordeste argentino Characteristcs of secondary lithic deposits deposits at the lower Uruguay River: applications for archaeological contexts in the inland plains of northeastern Argentina Eduardo Apolinaire Facultad de Ciencias Naturales y Museo. Universidad Nacional de La Plata. La Plata, Buenos Aires, Argentina

Resumen: En este trabajo se presentan los estudios de campo y laboratorio llevados a cabo sobre gravas recolectadas en el curso inferior del río Uruguay. El objetivo planteado es brindar una caracterización desde un punto de vista arqueológico de los depósitos secundarios con rocas aptas para la manufactura de artefactos líticos que se extienden en la margen derecha del río, entre las localidades de Concordia y Puerto Campichuelo. Con este fin se relevaron diversas características de los rodados y se cuantificó la variación geográfica de estas variables, caracterizando los depósitos según su ubicación longitudinal en el curso fluvial. Esta caracterización es relevante para la comparación de los depósitos naturales con las particularidades de las gravas recuperadas en los sitios arqueológicos a lo largo de la provincia de Entre Ríos y áreas circunvecinas. Los datos generados fueron utilizados para interpretar las posibles áreas de aprovisionamiento de materias primas de un conjunto de sitios arqueológicos ubicados en las llanuras interiores entrerrianas. Palabras-clave: Rodados fluviales. Depósitos de gravas. Base regional de recursos líticos. Llanuras interiores. Entre Ríos. Abstract: In this paper, we present field and laboratory studies addressing gravel deposits of the lower Uruguay River. The goal was to describe the secondary deposits of pebbles located on the right bank of the river, between Concordia and Puerto Campichuelo, from an archaeological point of view. To do so, we considered various features of the surroundings and their geographical variations to describe these deposits according to their position along the course of the river. This information is important for the comparision of natural deposits with the features of pebbles recovered in regional archaeological contexts. The resulting data was used to better understand the strategies of provisioning raw material implemented by the groups that inhabited the inland plains of the province of Entre Ríos. Keywords: Fluvial pebbles. Gravel deposits. Regional base of lithic resources. Inland plains. Entre Ríos province.

APOLINAIRE, Eduardo. Caracterización de los depósitos secundarios de rodados fluviales del río Uruguay inferior. Su aplicación em contextos arqueológicos de las llanuras interiores del nordeste argentino. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 13, n. 2, p. 443-457, maio-ago. 2018. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1981.81222018000200010. Autor para correspondência: Eduardo Apolinaire. Universidad Nacional de La Plata. Paseo del Bosque s/n, La Plata 1900, Buenos Aires, Argentina (eapolinaire@gmail.com). ORCID: http://orcid.org/0000-0002-3718-9228. Recebido em 26/10/2017 Aprovado em 25/04/2018

BY

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INTRODUCCIÓN A partir de la década de 1990 se observa en la bibliografía arqueológica argentina un aumento de los trabajos orientados a caracterizar la estructura regional de recursos líticos (Nami, 1992; Berón et al., 1995; Franco; Borrero, 1999; Bayón et al., 2006; Berón, 2006). En los últimos años esta tendencia se ha profundizado, lo que ha generado detallados conjuntos de datos sobre diversas materias primas líticas, los cuales fueron construidos en función de objetivos, problemáticas y escalas espaciales de índole arqueológica (Carballido Calatayud; Pereyra, 2012; Colombo, 2013; Hermo et al., 2013; Bonomo; Prates, 2014; Banegas et al., 2015; Bobillo; Hocsman, 2015; Heider et al., 2015; Skarbun, 2015; Turnes et al., 2016). Estos trabajos se han centrado en el estudio del abastecimiento lítico tanto en afloramientos primarios de roca como en depósitos secundarios de rodados, y han servido para el estudio de diversos aspectos de los grupos humanos, tales como movilidad, patrón de asentamiento, elecciones tecnológicas, técnicas de talla, intercambio de materia prima, entre otros. En la provincia de Entre Ríos, el aprovisionamiento lítico ha sido un tópico que comenzó a abordarse con profundidad sólo a partir de los estudios sistemáticos realizados en los últimos años (Bonomo; Blasi, 2010; Hocsman, 2015; Martínez et al., 2015; Apolinaire et al., 2016). En este sentido, es aún escasa la información sobre la disponibilidad, características petrográficas y localización geográfica específica de los depósitos de materias primas líticas a escala regional. Debido a esto se torna necesario continuar y ampliar los estudios tendientes a definir la oferta ambiental de rocas y su estructuración espacial, es decir, la base regional de recursos líticos (BRRL)1 del Nordeste argentino. A los fines de aportar a dicho objetivo general, este trabajo pretende caracterizar la estructura y disponibilidad de los depósitos secundarios de rocas que se encuentran a lo largo del curso del río Uruguay en la provincia de Entre Ríos. Estos depósitos han sido recurrentemente mencionados en la bibliografía

regional como fuentes de abastecimiento de rocas aptas para la manufactura de artefactos (Bonomo; Blasi, 2010; Buc; Silvestre, 2011; Castro, 2013; Apolinaire et al., 2016). Sin embargo, aún no se cuenta con estudios detallados que permitan una mayor precisión a la hora de establecer las elecciones tecnológicas de los grupos que aprovecharon estos depósitos, las cuales fueron necesariamente condicionadas por la disponibilidad y estructura interna de los mismos. Como caso de estudio, se aborda aquí el conjunto de sitios arqueológicos ubicados en las llanuras interiores del departamento Gualeguay. En estudios previos (Apolinaire et al., 2016; Apolinaire, 2017) se describieron los materiales líticos recuperados en varios de estos sitios arqueológicos, muchos de los cuales son producto de la talla de rodados fluviales. A partir de la delimitación de las características de los depósitos de rodados del río Uruguay en cuanto a tamaño, morfología y petrografía se busca precisar y delimitar las posibles áreas de procedencia de estos conjuntos líticos.

LOS DEPÓSITOS DE GRAVAS DEL RÍO URUGUAY La cuenca del río Uruguay drena una amplia área que incluye el sudeste de Brasil, noreste de Argentina y oeste de Uruguay. Este río presenta un régimen irregular y variable a lo largo de su curso debido a la presencia de importantes afluentes cuyos aportes se ubican en diferentes sectores de su recorrido (e.g. Pelotas, Ijuí, Ibicuí, Negro, Gualeguaychú) (Iriondo; Kröhling, 2008). El área drenada por el río Uruguay ha sido dividida en tres sectores. Los dos primeros comprenden la cuenca alta y media, desde las nacientes del río en la Sierra Geral hasta los saltos cercanos a localidad de Concordia en Entre Ríos. A partir de dicha localidad y hasta su desembocadura en el Río de la Plata, se constituye la cuenca baja. Es este último sector el que compone el área de estudio considerada en este trabajo. Dentro del territorio argentino, el río Uruguay disecta secuencias estratigráficas compuestas por una gran variedad

Sensu Ericson (1984).

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de formaciones geológicas que en muchos casos presentan facies diagenizadas. El transporte de clastos de las rocas de estas formaciones ha generado depósitos de gravas de variable litología, tamaño y morfología. En el tramo inferior del río los depósitos de gravas han sido asignados a dos formaciones geológicas diferentes, la Formación El Palmar y la Formación Concordia (Aceñolaza, 2007). La Formación El Palmar (Iriondo, 1980), también llamada Fm. Salto Chico (Gentile; Rimoldi, 1979) o Fm. Salto (Goso; Bossi, 1966) en la República Oriental del Uruguay (ROU), corresponde a una antigua llanura aluvial (actual terraza alta del río Uruguay), formada por un paleocauce que presentaba un patrón sinuoso con grandes meandros. Esta terraza presenta un desarrollo variable a lo largo de la margen argentina del cauce, alcanzando 15 km de ancho entre las localidades de San José y Ubajay. La superficie de la terraza es disecada por afluentes locales que han generado sus propios valles fluviales, convirtiendo la terraza alta en un paisaje de colinas. A partir del amplio contenido fósil recuperado, que incluye mamíferos de edad Lujanense, se ha inferido que la Fm. El Palmar se habría depositado durante el Pleistoceno (Tonni, 1987; Noriega et al., 2004; Ferrero et al., 2007), lo cual también es sostenido por las dataciones por termoluminiscencia (Kröhling, 2009). Esta formación corresponde principalmente a depósitos conglomerádicos del río Uruguay. Estos están compuestos por arenas amarillentas a rojizas con estratos lenticulares de cantos rodados y gravas de composición silícea y, en algunos sectores, presenta intercalaciones de bancos de areniscas silicificadas. Los estratos de cantos rodados forman los denominados ‘cerritos’ del río Uruguay, que son relieves positivos en la terraza fluvial que perduraron gracias a la mayor resistencia a la erosión de estas lentes (Kröhling, 2009; Veroslavsky; Ubilla, 2007). Esta unidad apoya en discordancia erosiva sobre los basaltos de la Fm. Serra Geral o sobre las areniscas de la Fm. Puerto Yerúa y está cubierta por sedimentos eólicos del Holoceno tardío (Aceñolaza, 2007; Iriondo; Kröhling, 2008).

Kröhling (2009) señala que, entre las localidades de Federación y Concepción del Uruguay, la Fm. El Palmar comprende fundamentalmente depósitos de arenas gruesas y medias con estratificación planar. Intercalados en estos depósitos, se pueden encontrar lentes de rodados (calcedonia, cuarzo, arenisca y, en menor medida, basalto), de gran extensión y pocos metros de potencia, que corresponderían a eventos de alta energía. El tamaño de los rodados disminuiría de norte a sur desde grueso a fino, al tiempo que aumentaría la redondez de forma correlativa. Al sur de la localidad de Concepción del Uruguay, habría existido un importante paleo-relieve en la Fm. Fray Bentos que evitó la depositación de la Fm. El Palmar (Iriondo; Kröhling, 2008). Los depósitos sedimentarios de la terraza baja del río Uruguay han sido definidos por Iriondo y Kröhling (2008) como Formación Concordia. Esta unidad se desarrolló durante el Holoceno y está compuesta por dos miembros de similares características sedimentarias, divididos por un paleosuelo generado durante el máximo climático del Holoceno medio. Estos miembros se componen de sedimentos franco arenosos y areno arcillosos de color marrón grisáceo a marrón rojizo, masivo o groseramente estratificado. Ambos miembros se habrían depositado como facies de inundación durante dos períodos semiáridos a los cuales se intercaló una fase húmeda. El miembro inferior se habría depositado durante el Holoceno temprano mientras que el superior sería posterior a los 1000 años AP (Iriondo, 2010). En la provincia de Entre Ríos el perfil tipo de esta formación se encuentra en la localidad de Concordia, donde el miembro inferior se compone de base a techo por arenas arcillosas con lentes de guijas silíceas y basálticas subredondeadas a redondeadas seguidas de arcillas cohesivas y un suelo enterrado en la parte superior. El miembro superior se compone de arenas cuarzosas muy finas seguidas de limos arcillosos con gran cantidad de arena muy fina a fina y un suelo desarrollado durante el Período Cálido Medieval (Iriondo; Krohling, 2008).

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METODOLOGÍA El área de estudio considerada para el muestreo de rodados fluviales se circunscribe a la margen derecha del río Uruguay, entre la represa de Salto Grande (Departamento Concordia) al norte y Puerto Campichuelo (Departamento Uruguay) al sur. La ubicación de las unidades de muestreo es sintetizada en la Figura 1. La recolección de los clastos líticos se llevó a cabo mediante el planteo de 23 unidades cuadradas de muestreo de 50 cm de lado ubicadas en zonas accesibles de la costa del río Uruguay (Figura 1). Durante las tareas de campo se recolectaron todos los clastos de tamaño sábulo o mayores que se ubicaron en cada unidad de muestreo. De esta forma, el tamaño de muestra supera ampliamente el tamaño de muestra mínimo para obtener una muestra significativa a los fines planteados. El número mínimo de clastos (n) a recolectar por cada unidad de muestreo puede establecerse asumiendo que la población de clastos tiende al infinito (N = ∞) y que la estimación de los parámetros puede presentar un error aceptable del 20% respecto al valor poblacional (error estándar relativo = 0,2). Considerando estos valores y un nivel de confianza del 95% (p < 0,05) el tamaño mínimo para cada unidad de muestreo es de 25 clastos (Sheenan, 1988; Zar, 2010). Es interesante señalar que debieron descartarse durante los trabajos de campo numerosas zonas factibles de ser muestreadas. Esto se debe a que en muchas de ellas se encuentran canteras y sectores de lavado de arena y rodados que depositan en las zonas de playa el descarte de su producción alterando las características naturales de las playas. En este sentido, debido a la mayor cantidad de establecimientos de este tipo en sectores meridionales del cauce, las zonas muestreadas en estas áreas son menores que en los sectores más septentrionales del cauce. Posteriormente a su recolección, los conjuntos de rodados fueron analizados en laboratorio. Para el desarrollo de estos estudios se siguieron los lineamientos planteados en diversos trabajos arqueológicos (Nami, 1992; Berón et al., 1995;

Franco; Borrero, 1999; Bonomo; Prates, 2014; Turnes et al., 2016). Se registraron las siguientes variables para cada clasto: dimensión de ejes ortogonales mayor, intermedio y menor, redondez, esfericidad y morfología (Zingg, 1935). Cabe destacar que no se consideraron para el análisis los rodados pequeños (cuyo eje mayor presenta dimensiones inferiores a 3 cm) ya que estas son las dimensiones mínimas requeridas para la talla (Franco; Borrero, 1999). La morfología de los clastos disponibles en los depósitos secundarios es significativa para poder abordar las elecciones técnicas vinculadas al aprovisionamiento lítico y los modos de talla. Los clastos discoideos (laminares y discoidales) resultan útiles para la realización de instrumentos sobre núcleo, ya sea unifaciales o bifaciales, a través de la modificación de sus bordes y pueden ser tallados por percusión directa a mano alzada. En contraposición, los clastos esféricos y cilíndricos, al no presentar caras planas utilizables como plataformas de percusión, suelen ser trabajados mediante el empleo de la técnica de talla bipolar. Esta técnica, que consiste en la aplicación de una fuerza compresiva sobre un clasto apoyado en un soporte que actúa como yunque, genera una fractura útil que puede ser usada como plataforma de percusión (Cotterell; Kamminga, 1987). El tamaño de los rodados también puede funcionar como un importante criterio de selección ya que el volumen inicial de la roca influye en el posterior tamaño y tipo de herramienta a manufacturar. El tamaño de los clastos disponibles a lo largo de un curso fluvial depende de la capacidad de carga del río. Por lo tanto, es posible delimitar las áreas de aprovisionamiento más probables de los nódulos presentes en los sitios arqueológicos a partir de la comparación de sus dimensiones con los rangos de tamaño de clastos naturales disponibles a lo largo del río. Finalmente, se seleccionaron al azar 30 clastos de cada unidad de muestreo, los cuales fueron fracturados a los fines de definir la roca que los compone a partir de un corte fresco. La determinación de las rocas se realizó de modo macroscópico y con ayuda de lupa binocular. También fue relevado el color de los rodados, tanto de la superficie

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Figura 1. Depósitos secundarios relevados en la cuenca del río Uruguay. Elaborado por Eduardo Apolinaire (2017).

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externa (corteza) como el color predominante de la matriz interna en el caso de los rodados fracturados. Esta variable ha sido considerada en muchos casos como una variable relevante para comprender de un modo más completo el conjunto de factores que afectan las elecciones vinculadas al aprovisionamiento de las rocas (Flegenheimer; Bayón, 1999; Jones; McGregor, 2002; Taçon, 2008; Colombo; Flegenheimer, 2013; Apolinaire, 2017).

Tabla 1. Dimensiones y peso de los rodados fluviales analizados. Elaborado por Eduardo Apolinaire (2017).

RESULTADOS La muestra analizada comprende un total de 1.542 rodados fluviales provenientes de 23 unidades de muestreo. La determinación de las materias primas se realizó a partir de un total de 690 rodados que fueron seleccionados al azar para su fractura. Los valores máximos, la media y el desvío estándar de las dimensiones de estas gravas son sintetizadas en la Tabla 1. Para abordar la disponibilidad de clastos según tamaño a lo largo del río se realizó una correlación entre las dimensiones medias de los rodados (eje mayor y volumen) de cada unidad de muestreo y su ubicación a lo largo del río Uruguay. Para establecer esta posición se midió la distancia entre cada unidad de muestreo y un punto de referencia ubicado aguas arriba, coincidente con la división entre los sectores medio e inferior del curso del río Uruguay: el borde sur del Lago de Salto Grande (Departamento Concordia). Se observó una fuerte correlación negativa (rho = -0.727; p < 0.01) entre la distancia y el eje mayor de los rodados, indicando que a medida que aumenta la distancia de transporte de los rodados su tamaño disminuye (Figura 2A). De hecho, los rodados disponibles en el sur del río Uruguay no suelen superar los 5 cm de largo. De modo similar, el volumen de los rodados disminuye a medida que aumenta su distancia de transporte (rho = -0.685; p < 0.01) (Figura 2B). Es decir, los rodados con volúmenes mayores (> 10 cm) se encuentran al norte del curso del río Uruguay dentro de la provincia de Entre Ríos. La morfología más abundante en los depósitos naturales respecto a la muestra total es la discoidal (36%, n = 565),

seguida por la esférica (23%, n = 359), la cilíndrica (21%, n = 325) y la laminar (19%, n = 293). Se observan ciertas diferencias en la morfología de las gravas a lo largo de los depósitos, si bien no pudieron identificarse tendencias claras (Figura 3). La morfología cilíndrica disminuye significativamente en el tramo más meridional (120-160 km). Asimismo, en los tramos más septentrionales (0-80 km), la morfología laminar presenta frecuencias relativas menores. Por último, la morfología discoidal tiende a disminuir con la distancia, excepto en el último tramo, mientras que la morfología esférica mantiene valores relativamente semejantes. En cuanto a las rocas representadas en los depósitos secundarios, los rodados de calcedonia son los más abundantes (32,1%, n = 222), seguidos por el cuarzo (16,8%, n = 116), la arenisca (13,6%, n = 94) y la caliza silicificada (12,6%, n = 87). También se han identificado otras rocas en menor frecuencia como los basaltos (7,3%, n = 53), cuarcitas (6,6%, n = 46), riolitas (5,3%, n = 37), xilópalos (0,5%, n = 4) y otras rocas que no pudieron identificarse (4,7%, n = 33) (Figura 4A). Es interesante considerar la gran variabilidad registrada en calidad para la talla de estas rocas. La presencia de diferentes clases de cementos, venillas, fracturas, inclusiones minerales, tamaños de grano y tipo de fractura llevaron a identificar rocas de buena, regular y mala calidad en todos los tipos de materia prima relevada. Una excepción a esto son los rodados de cuarzo cuya calidad para la talla está fuertemente condicionada por la fractura recta de este mineral. Respecto al color de las materias primas, predomina el color castaño (25%, n = 178), seguido por el

Media

Desvío Estándar

Largo (mm)

170

47,12

19,53

Ancho (mm)

110

33,10

14,32

Espesor (mm)

82

20,66

9,56

Peso (g)

1.457

61,85

114,71

1.307,90

50,81

95,68

Volumen (cm ) 3

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Máximo


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Figura 2. Distribución del largo, volumen y materia prima de los clastos según su posición sobre el cauce principal del río Uruguay: A) eje mayor medio de cada depósito según distancia de transporte; B) volumen medio de cada depósito según distancia de transporte; C) distribución de porcentajes de clases de materia prima según distancia de transporte. Elaborado por Eduardo Apolinaire (2017).

transparente (23,64%, n = 163). Los colores rojizo (14%, n = 97), gris (11,51%, n = 79) y blanco (11%, n = 79) se registraron en porcentajes menores, mientras que el amarillo (4%, n = 33), negro (3%, n = 23), verde (2%, n = 18) y anaranjado (2%, n = 18) se encuentran escasamente representados (Figura 4B). No se observó una asociación entre los colores y las clases de materia prima registrada.

Al considerar las clases de materia prima a lo largo del río Uruguay, tomando como referencia la distancia a Salto Grande, se observa que las distintas materias primas no se presentan con frecuencias semejantes (Figura 2C). Si bien los depósitos a lo largo de todo el río Uruguay presentan un predominio de clastos de calcedonia, su frecuencia relativa varía según la categoría de distancia considerada, constituyendo más del 40% de las gravas en

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los depósitos ubicados entre 40 y 120 km del salto. Los clastos de cuarzo y arenisca, por otra parte, se presentan de modo relativamente uniforme a lo largo de los depósitos, a excepción del tramo 40-80 km, donde el cuarzo es escaso y aumenta el porcentaje de arenisca. En cuanto a la caliza silicificada, es interesante destacar que su frecuencia relativa aumenta a partir de los 40 km río abajo desde el Salto Grande del río Uruguay. Es posible que esto se deba a que sus afloramientos primarios se ubican al sur de la localidad de Puerto Yerúa y, por lo tanto, su aporte a la carga de gravas del río es más relevante aguas abajo de esta localidad. Las restantes rocas no presentan una variación significativa, si bien es posible que esto esté enmascarado por su baja frecuencia relativa respecto al total de cada conjunto. Es interesante señalar al respecto el caso de las cuarcitas, que presentan una escasa representación en los sectores más meridionales del curso del río Uruguay. Estas rocas provienen de la Fm. Botucatú y de intercalaciones detríticas de la Fm. Serra Geral que afloran al norte del salto y, por esta razón, es esperable que presenten mayores frecuencias en los depósitos septentrionales.

Figura 3. Morfología de los rodados según distancia de transporte. Elaborado por Eduardo Apolinaire (2017).

Figura 4. Materia prima y color interno en los depósitos de rodados del río Uruguay inferior: A) frecuencia percentual de clases de materia prima; B) frecuencia percentual de clases de color. Elaborado por Eduardo Apolinaire (2017).

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CASO DE ESTUDIO: LAS LLANURAS INTERIORES ENTRERRIANAS El sudoeste del actual territorio de Entre Ríos es un sector donde las materias primas útiles para la manufactura de artefactos líticos son muy escasas (Tabla 2). Durante diversas tareas de prospección arqueológica fue posible detectar en este sector 19 sitios arqueológicos, 14 de los cuales presentan contextos con materiales líticos (Figura 5). Los estudios tecnológicos sobre estos materiales han sido presentados en trabajos previos (Apolinaire et al., 2016; Apolinaire, 2017) y sólo se abordarán aquí aquellos aspectos útiles para los análisis de procedencia. Los conjuntos presentan una gran diversidad de materias primas, tanto locales como alóctonas, donde las areniscas, calcedonias y calizas silicificadas son las rocas más frecuentemente aprovechadas. Otro hecho a tener en cuenta es la variación en la representación de materias primas entre los sitios de acuerdo a un eje norte-sur.

La mayoría de los sitios más septentrionales, tienen a la arenisca como roca mayoritaria, mientras que en los sitios ubicados al sur predominan materias primas procedentes de rodados fluviales como la calcedonia o la caliza silicificada (Apolinaire et al., 2016; Apolinaire, 2017). En general, la evidencia recuperada en los sitios arqueológicos del departamento Gualeguay indica que esta variedad de materias primas se utilizó para la elaboración, ya sea por talla (Figura 5A y 5B) o por picado, pulido y abrasión (Figura 5C) de diversos artefactos líticos que habrían sido utilizados en actividades tales como el procesamiento de carcasas, la molienda de sustancias vegetales y minerales y la manufactura de alfarería (Apolinaire et al., 2016; Bastourre; Apolinaire, 2017). Si bien el carácter reducido de la muestra no ha permitido profundizar en el análisis de las técnicas de talla para los distintos sitios, se pudo observar en términos generales la presencia de rasgos vinculados tanto a técnicas de talla por percusión directa a mano alzada (talones lisos y

Tabla 2. Materiales líticos recuperados en los sitios arqueológicos del departamento Gualeguay. Entre los ecofactos se cuantifican también rodados de tamaño muy pequeño (<3cm) que no son considerados en el análisis descripto en el texto. Estos sábulos han sido identificados como desechos de materia prima (Apolinaire 2017) desprendidos de la matriz de las areniscas y no se registraron evidencias de su talla. Elaborado por Eduardo Apolinaire (2017). Sitio

Clases tipológicas Instrumentos

Núcleos

Desechos de talla

Ecofactos

Total

CDLI 1

0

11

12

5

28

CDLI 2

6

6

21

23

56

PDLL

0

1

2

3

6

LDN 1

1

2

10

3

16

LDN 2

1

1

1

0

3

LA

9

5

11

14

39

LCO

5

2

14

11

32

LC 1

2

8

26

2

38

LC 2

2

8

9

3

22

EED 1

1

2

10

0

13

EED 2

0

0

5

0

5

TP

1

0

0

14

15

AEP

0

1

1

3

5

MEP 2

0

1

6

1

8

Total

28

51

125

82

286

451


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Figura 5. Arriba: ubicación de los sitios arqueológicos: 1) Cementerio de los Indios 1 (CDLI 1); 2) Cementerio de los Indios 2 (CDLI 2); 3) Cementerio de los Indios 3 (CDLI 3); 4) Paso de La Lana (PDLL); 5) Laguna del Negro 1 (LDN 1); 6) Laguna del Negro 2 (LDN 2); 7) Laguna del Negro 3 (LDN 3); 8) La Amairú (LA); 9) Laguna de Colman (LCO); 10) La Chimenea 1 (LCH 1); 11) La Chimenea 2 (LCH 2); 12) Tres Palos (LCH 3); 13) Estancia El Destino 1 (EED 1); 14) Estancia El Destino 2 (EED 2); 15) Laguna La Nicanora (LLN); 16) Punta del Monte (PDM); 17) Arroyo El Portugués (AEP); 18) Médano El Pencal 1 (MEP 1); 19) Médano El Pencal 2 (MEP 2). Abajo: artefactos sobre rodados fluviales: A) instrumento sobre núcleo bipolar elaborado en calcedonia; B) desechos de talla sobre calcedonia; C) artefacto activo no diferenciado sobre rodado fluvial; D) hacha sobre rodado de basalto. Elaborado por Eduardo Apolinaire (2017).

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espesos, bulbos prominentes) (Figura 5B) como evidencias de talla bipolar (talones astillados, bulbos difusos, ondas de percusión y estrías) (Figura 5A). La técnica empleada parece relacionarse, en primer lugar, con la materia prima aprovechada y el tipo de depósito de procedencia de las rocas. La técnica bipolar sólo se registró con relación a la talla de rocas criptocristalinas (e.g. calcedonia, caliza silicificada, xilópalo), que mayoritariamente provienen de rodados fluviales. Por otro lado, al considerar únicamente el subconjunto de rocas criptocristalinas, se observa que los atributos asociados a la técnica bipolar son más frecuentes en los sitios septentrionales, en donde se observan núcleos y lascas bipolares y/o desechos de talla con posibles rasgos asociados a esta técnica (i.e. talones astillados, corticales y puntiformes asociados a bulbos difusos o negativos). Estas diferencias han sido interpretadas en función a la variabilidad que estos dos sectores presentan en cuanto a la abundancia de afloramientos de materias primas silicoclásticas (Apolinaire, 2017). Parte de los nódulos que ingresaron al área (departamento Gualeguay) consisten en rodados fluviales de diversa litología y tamaño. Esto se infiere a partir de la presencia de artefactos sobre rodados en diferentes estadios de reducción, así como de clastos sin modificar. En este último caso, es interesante mencionar que se recuperaron abundantes rodados muy pequeños (de tamaños menores a los 2 cm) que podrían corresponder a desechos producidos durante la talla de rocas silicoclásticas. Las areniscas aflorantes en el área presentan clastos tamaños sábulo y gravilla (< 2 cm) incorporados en su esqueleto, los cuales se desprenden fácilmente durante la fractura de las rocas. Otros rodados de tamaños mayores, en cambio, fueron transportados a los sitios desde depósitos secundarios para su posterior uso como materias primas para la elaboración de artefactos. La muestra considerada a continuación se compone de 206 materiales líticos recuperados en los sitios

antes señalados, consistentes en rodados sin modificar y artefactos elaborados sobre rodados; estos últimos conservan una gran parte de la corteza y por tanto del volumen original del nódulo, con lo cual pueden estimarse sus dimensiones de modo relativamente confiable. El eje mayor promedio de los clastos fue estimado en 31 mm y su eje secundario en 10,5 mm. Si se consideran las categorías de tamaño2, una gran parte de la muestra presenta tamaños pequeño (48,0%) y mediano pequeño (40,2%), si bien también se encuentran representadas las categorías mediano grande (8,7%), grande (2,4%) y muy grande (0,4%). Entre aquellos artefactos cuya materia prima pudo ser identificada (n = 144), la calcedonia es la roca más abundante (70,75%), seguida por la caliza silicificada (20,23%); en menores porcentajes se registró cuarcita (3,47%), cuarzo (1,39%), basaltos (2,78%), pizarra (0,69%) y xilópalo (0,69%). Cabe señalar que muchos de los elementos cuya materia prima no pudo establecerse corresponden a rodados sin modificar en los cuales la corteza y/o la falta de una fractura fresca imposibilita su identificación petrográfica. En cuanto al color interno de los materiales considerados, las tonalidades más frecuentes son las rojizas (68,12%) seguidas por los colores castaños (14,40%), blancos y translúcidos (10,19%), grises (3,40%), amarillos (2,43%) y negros (1,46%). Si consideramos las características que se registraron en los depósitos naturales de rodados del río Uruguay inferior observamos que, debido a la pérdida de capacidad de carga del río, en los depósitos más meridionales es altamente improbable encontrar rodados con un eje mayor superior a los 5 cm. Por otra parte, en estos depósitos meridionales la caliza silicificada se presenta en mayores porcentajes que en aquellos ubicados hacia el norte, si bien la calcedonia es la materia prima predominante a lo largo de todos los depósitos. Los artefactos y ecofactos sobre rodados recuperados

Sensu Aschero (1975).

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en los sitios del área de estudio presentan tamaños predominantemente pequeño y mediano pequeño. Además, las rocas predominantes en los sitios son las calcedonias y en segundo lugar, la caliza silicificada. Por lo tanto, los tamaños y litologías registradas en los sitios son en general compatibles con las descriptas para los depósitos meridionales, que son los más cercanos al área de estudio. Sin embargo, existen casos particulares que no responden a estas tendencias generales. En el sitio Laguna del Negro 1 (LDN1) se recuperó un hacha elaborada sobre rodado de basalto (Figura 5D) que presenta un módulo de tamaño muy grande. Este instrumento fue elaborado sobre un nódulo que, debido a su tamaño, no pudo ser aprovisionado en los depósitos más meridionales. Además, no se recuperaron en este sitio desechos de talla sobre esta materia prima, con lo cual es probable que este artefacto haya ingresado al área como un instrumento ya finalizado. Una situación similar ha sido propuesta para explicar la presencia de otros instrumentos de impacto recuperados en LDN1 cuyas materias primas (e.g. granitoides y gabroides) proceden de afloramientos primarios alóctonos (Apolinaire, 2017). Se registraron otras importantes diferencias entre los rodados naturales y los arqueológicos. Una de las más interesantes se relaciona con la distribución de las categorías de color: en los sitios arqueológicos predominan las tonalidades rojizas, mientras que en los depósitos naturales son más frecuentes los rodados castaños y transparentes. Además, es notoria la ausencia en los sitios arqueológicos de rodados de arenisca, si bien esta litología es la tercera categoría en orden de abundancia en los depósitos naturales. Esto último puede deberse a la presencia de afloramientos primarios de arenisca al norte del área de estudio, en las barrancas del arroyo Jacinta. La elevada disponibilidad de esta clase de materia prima a nivel local (al menos para los sitios más septentrionales dentro del área de estudio) puede

explicar que las areniscas no hayan sido seleccionadas en los depósitos secundarios. En suma, a partir de la comparación de las muestras arqueológicas con las características de los depósitos de rodados del río Uruguay inferior, se propone que el abastecimiento de rodados fluviales habría ocurrido principalmente en los depósitos secundarios más meridionales. Estos depósitos de rodados son los más cercanos a los sitios del área de estudio y constituyen una fuente predecible y prácticamente inagotable de materia prima localizada a media distancia3. En ellos las elecciones tecnológicas se manifestaron a través de distintos criterios de selección: se recolectaron principalmente rodados criptocristalinos de calcedonia y caliza silicificada y, además, las tonalidades rojizas fueron las más privilegiadas. La selección de tonalidades rojizas se manifiesta también en las cadenas operativas de otras clases de materias primas. Se ha propuesto que esta búsqueda del color rojo condicionaría fuertemente el aprovisionamiento de calizas silicificadas de afloramientos primarios y, por otro lado, también podría explicar la termoalteración de areniscas en el área de estudio (Apolinaire, 2017). Como se ha descrito en trabajos previos (Apolinaire et al., 2016; Apolinaire, 2017), es posible afirmar que las areniscas que afloran dentro de la provincia de Entre Ríos (formaciones Ituzaingó y Salto Chico), al ser sometidas a temperaturas inferiores al estrés térmico del cuarzo, cambian rápida y notablemente su color. En cuanto a las propiedades para la talla, se observa una pérdida de la homogeneidad del cemento silíceo y la transformación mineralógica de los minerales de hierro y arcillas. Estos cambios debilitan el cemento y conducen a que la fractura deba rodear los clastos del esqueleto, en lugar de producirse por planos que lo atraviesen. Esto produce un menor control de las fracturas y vuelve a las rocas más quebradizas y deleznables. Por ese motivo, la termoalteración registrada en las muestras arqueológicas posiblemente no se relacione con la intención de mejorar

Sensu Flegenheimer y Bayón (1999).

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de la calidad de la materia prima, sino que podría ser el resultado de una alteración involuntaria o accidental, o bien, de la búsqueda de alterar otro tipo de propiedades de las rocas (p. ej., color).

REFERENCIAS

CONCLUSIONES Los depósitos secundarios de rodados fluviales representan una amplia zona de aprovisionamiento de todas las materias primas aflorantes en el río Uruguay. Estos depósitos componen una estrecha franja sobre la costa del río donde es posible tener un fácil acceso a cantidades prácticamente inagotables de materia prima. A lo largo de esta área de aprovisionamiento, se registraron variaciones en las características de los rodados. En todos los tramos analizados del río se encuentran disponibles las diferentes morfologías de nódulos, si bien existen algunas diferencias menores en cuanto a su representación relativa. En este sentido, la disponibilidad de rodados de diversa morfología no es condicionada geográficamente. En el caso de la litología, se observó que la calcedonia es la materia prima predominante a lo largo de todo el río, seguida por el cuarzo cristalino y la arenisca. La principal diferencia a nivel litológico está dada por el aumento de la caliza silicificada en el tramo meridional, relacionada con la presencia de afloramientos primarios en este sector. Las mayores variaciones geográficas se observan en relación a las dimensiones de los nódulos. En el tramo más septentrional del curso del río se encuentran los depósitos de rodados con mayores volúmenes. A partir de esto es posible concluir que el aprovisionamiento de nódulos mayores es más factible al noreste de la provincia. La pérdida de competencia del río genera depósitos de dimensiones cada vez menores hacia el sur. De hecho, al sur de la localidad de Puerto Campichuelo, no se detectaron depósitos secundarios de rodados. En suma, los depósitos secundarios concentran las rocas que afloran a lo largo del río Uruguay, permitiendo acceder a unidades de materia prima de tamaños reducidos pero de variada morfología y litología.

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Resenhas


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Da conquista à resistência Kaiowa: uma história de luta e de crença no bem viver Por Lucybeth Arruda

Universidade Federal do Oeste do Pará (lucybeth.arruda@gmail.com)

CHAMORRO, Graciela. História Kaiowá: das origens aos desafios contemporâneos. São Bernardo do Campo: Nhanduti Editora, 2015. 320 p. (Coleção Povos Indígenas). ISBN: 9788560990238.

Com cobertura de longa duração de tempo, em “História Kaiowa: das origens aos desafios contemporâneos”, Graciela Chamorro propõe narrar uma história indígena dos Kaiowa utilizando-se de fontes documentais, desde o período colonial até a contemporaneidade, de estudos e de relatos de historiadores, antropólogos, missionários, viajantes, cronistas e sertanistas, além de dados etnográficos de seu trabalho de campo junto a esse povo, que durou mais de trinta anos. Por se tratar de um período de longa duração, é possível perceber lacunas, próprias desse tipo de pesquisa. Porém, isso não tira a importância da obra para o povo Kaiowa, para a história indígena e nem para as disciplinas de história e de antropologia. O livro consegue instigar o leitor propondo um movimento referente às ‘possíveis’ origens desse povo, bem como busca explorar as agências indígenas nos processos históricos, em suas relações de ações e saberes pautadas em contexto colonial. A autora é heterogênea em sua formação acadêmica, e isso faz diferença no conjunto da obra. Com graduação em Teologia e em Música, ela guinou para mestrado em

História, dois doutorados – um em Teologia e outro em Antropologia – e, ainda, para dois pós-doutorados em Romanística. Todas essas áreas compõem ampliações e desdobramentos que estão refletidos na obra. Graciela Chamorro dá-nos a oportunidade de conhecer melhor esse povo, trazendo informações a partir da cultura material e imaterial – práticas religiosas, rituais, mitos, denominações, expressões, parentesco etc. Como poucos, ela consegue transitar da história e da antropologia para a linguística, fornecendo-nos ferramentas que ajudam a compreender nomes, topônimos e práticas culturais, sem negligenciar o processo histórico. Mais do que isso, chama a atenção como esta autora trabalha a língua Kaiowa, tentando explorar usos que dizem sentido para eles enquanto coletivo. Mesmo trabalhando sob uma perspectiva histórica e antropológica, o exercício teórico-metodológico tem força histórica predominante. A cada início de capítulo, Chamorro apresenta as fontes que serão trabalhadas para sua escrita e interpretação. Para o leitor informado, esse ‘modo de fazer história’ facilita o entendimento das múltiplas espacialidades e temporalidades, que vão se sobrepondo e justapondo a cada evento, contexto e período. Ao mesmo tempo, a proposta impele o movimento nas fronteiras dos campos disciplinares, rendendo entendimentos mais amplos, tanto por conta da formação acadêmica da autora quanto pelos instrumentais que ela mobiliza para construir uma história Kaiowa. No capítulo inicial, Chamorro faz uma discussão sobre nomes, autodenominações e identidades atribuídas aos Kaiowa. Para esse intento, ela marca uma posição e demonstra que não há como afirmar uma origem e, tampouco, como tratar a documentação histórica como positivista e determinista. Faz-se necessário o tratamento da documentação sem incorrer em armadilhas, por exemplo, lê-la como um conjunto de realidades constatadas. A partir de um exercício processualista, a autora parte do nome

ARRUDA, Lucybeth. Da conquista à resistência Kaiowa: uma história de luta e de crença no bem viver. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 13, n. 2, p. 461-464, maio-ago. 2018. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1981.81222018000200011.

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Da conquista à resistência Kaiowa: uma história de luta e de crença no bem viver

genérico até chegar a uma autodenominação Kaiowa. Com essa reflexão, fornece um pano de fundo para pensar a complexidade do ato de nomear, ou seja, dos processos denominativos e autodenominativos, apontando para o caráter relacional dos etnônimos, para os múltiplos sentidos dos nomes – que implicam níveis plurais de (auto)definição – e também para a relativização na construção da identidade. Ela não se contenta em fazer o exercício para chegar em uma autodenominação Ka’agua (Kaiowa). Chamorro vai além e traz a questão sobre nomes e identidades étnicas na história indígena, marcando de maneira concisa discussões relevantes para qualquer incursão sobre o tema, pois não se trata, como ela diz, de traçar uma linha contínua, tanto étnica quanto histórica, mas sim de deixar claro quão complexa é a questão e demonstrar que as “[...] identidades emergem e se consolidam em determinadas conjunturas [...]” (Chamorro, 2015, p. 44). Em seguida, a partir do segundo capítulo, ela passa a intensificar fontes históricas, de modo a costurar espacialidades que delineiam uma ordem de tratamento das questões, perfazendo uma linha temporal, desde a época pré-colonial até a contemporaneidade. No capítulo seguinte, a autora vai buscar como fonte informações da arqueologia e a glotocronologia. Com isso, Chamorro refina o levantamento de dados sobre os processos de constituição de territórios, de deslocamentos, de interações, de conflitos etc. Nesta obra, ela inova, trazendo essas duas áreas do conhecimento que no Brasil pouco dialogam com a antropologia e a história. O livro apresenta dados sobre a distribuição geográfica das evidências arqueológicas Guarani, com mapas de distribuição dos sítios de tradição Tupiguarani na região de Mato Grosso do Sul, bem como com informações sobre a cultura material, como utensílios cerâmicos e artefatos líticos da tradição Tupiguarani do Maciço Urucum (Corumbá, Mato Grosso do Sul). Assim, Chamorro complexifica também o tratamento dos lugares, associando dados arqueológicos e informações históricas e nos dando uma visão mais ampla sobre a presença humana na região.

Desse modo, a autora imprime uma história indígena de longa duração e, na sequência, explora uma documentação colonial e fontes orais para tratar dos grupos considerados descendentes dos Kaiowa – os Itatim, que também era um topônimo. A região do Itatim, “[...] que corresponderia atualmente à parte do nordeste paraguaio e do centro-oeste brasileiro, do rio Ypané até o rio Miranda [...]” (Chamorro, 2015, p. 56), foi alvo de disputa dos conquistadores europeus (missões e bandeirantes), presença nefasta que foi se estabelecendo e traçando uma história de deslocamentos forçados, exploração, expropriação e imposição de práticas externas ao mundo indígena. A autora segue no tempo cronológico e penetra o século XIX, no qual os Kaiowa refugiaram-se nas matas em razão do avanço colonial. Esse tempo é caracterizado pela ocupação não indígena das terras Kaiowa e também evidencia a autodenominação Kaiowa (cayuáz, na grafia da época). Para esse fim, Chamorro mobiliza relatos de sertanistas, entre 1830 e 1860, por meio dos quais demonstra a conformidade de interesses entre parte da elite e o império, em convergência com a política indigenista de aldeamentos com intenção de liberação de terras para a colonização, promovendo o esbulho das terras dos indígenas. Nesses relatos, há também informações sobre como eram os aldeamentos indígenas, as casas e como elas eram ligadas por caminhos, além de um conjunto de caracterizações Kaiowa. Nos capítulos seguintes, Chamorro se concentra no período mais recente, envolvendo os últimos 150 anos. Ela explora as presenças, as ações e as percepções indígenas através dos relatos orais sobre eventos, contextos, espacialidades e temporalidades. Chama atenção como ela insere a guerra do Paraguai, a implantação e a exploração dos ervais pela companhia Mate Laranjeira e por personalidades como Getúlio Vargas e Rondon, imprimindo uma história construída a partir de categorias nativas e embaralhando a noção de tempo – nada cartesiano – dos Kaiowa. Ainda sobre tais contextos, a autora dá conta de uma história dos deslocamentos desses

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indígenas, que aconteceram por várias motivações, não só profético-religiosas, mas também por razões materiais e relacionais (Chamorro, 2015, p. 109). Graciela Chamorro, em toda documentação que trabalhou, fez o exercício de cotejar as informações sobre as práticas culturais Kaiowa e Guarani. Além disso, a autora reserva um capítulo para tratar de descrições sobre os Kaiowa que migraram para o Paraná e sobre seus descendentes. Com esse movimento, ela sublinha uma distinção em relação aos Kaiowa do sul do antigo Mato Grosso, que viveram no contexto de exploração da erva mate. Ela seleciona três obras do final do século XIX e do início do XX para o exercício. Com isso, esboça uma etnografia histórica e aponta possibilidades para futuros estudos. Há informações sobre adornos e habilidades corporais, expressões, particularidades da língua Kaiowa, descrições sobre a casa grande, o fogo, a mobília, os utensílios e as armas, a subsistência, a produção de chicha, a festa do Kagwi, a caça e a festa, os rituais, o casamento, o parto, a educação das crianças, as doenças e as deficiências físicas, a cura, os enterros, a música, a organização social, a religião, o tempo e a forma de contar a sua passagem, as viagens e os meios de transporte e as relações dos Kaiowa com os outros povos. Em seguida, faz o movimento de retorno para os Kaiowa do sul do antigo Mato Grosso, atualmente, Mato Grosso do Sul, nos séculos XX e XXI, período em que a colonização não indígena avançou sobre as terras indígenas, em consonância com uma política integracionista de demarcação de áreas indígenas, capitaneada pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) – atualmente Fundação Nacional do Índio (Funai) –, que estabeleceu áreas reduzidas para grupos indígenas em todo o Brasil e assegurou grandes porções de terras para as frentes de expansão. Esta foi uma redefinição geográfica que em nenhum momento esteve desligada de um forte interesse político-econômico, envolvendo poderes locais, regionais e nacionais. Esse processo de entrega das terras indígenas por parte do Estado para a colonização

acarretou um conflito fundiário dos mais perversos no contexto atual. Juntamente com o trabalho indigenista oficial, os Kaiowa foram alvo da ação de algumas igrejas, sendo a mais importante a Missão Evangélica Caiuá, também tratada na obra. Ao manejar uma documentação mais contemporânea, a autora inclui também material etnográfico de antropólogos que estiveram entre os Kaiowa ao longo do século XX. Entre eles, o casal Virgínia D. Watson e James Watson, Egon Schaden, Eduardo Galvão e Nelson Teixeira. Esses dados tratam dos modos de vida das comunidades Kaiowa entre as décadas de 1940 e 1970, e a autora vai traçando um processo de mudança desses grupos sobre vários aspectos do cotidiano. Um ponto que chamou minha atenção entre a riqueza das informações é o conjunto de fotografias de James Watson na década de 1940. Inclusive, um destaque da obra como um todo é o caderno de imagens que reúne uma história Kaiowa através de ilustrações, pinturas, mapas e fotografias. A autora conjuga imagens e palavras que fazem parte de um mesmo contexto histórico, realizando conexões e ampliando o entendimento de suas interpretações. Entre os dados dos antropólogos, ela também se insere, para pontuar uma questão de suma importância para esses indígenas. Apresenta informações recentes sobre as denominações dadas aos parentes pelos Kaiowa em sua língua. Essa contribuição de Chamorro tem o propósito de assinalar a revitalização da língua como uma bandeira da luta dos Kaiowa na sua história contemporânea (Chamorro, 2015, p. 174). A partir daí, as fontes passam a ser a memória indígena de seus interlocutores – Paulito Aquino, Machu Mônica, Machu Tereza etc. –, que a autora faz questão de identificar, trazendo trechos onde eles descrevem suas vivências e rituais, fazem suas leituras do processo histórico de chegada dos colonos ao longo do século XX, das pressões do Estado, forjando a redução nas reservas indígenas. Ela trabalha também com dados de dissertações, teses de doutorado e laudos antropológicos do período recente, que expõem o conflito de terras em

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Da conquista à resistência Kaiowa: uma história de luta e de crença no bem viver

curso, que tem produzido violências alarmantes contra os indígenas no estado de Mato Grosso do Sul. Na obra, esse cenário vem explicitado a partir de uma resposta dos Kaiowa, que decidiram pelo não confinamento nas reservas até então demarcadas e por um movimento de retomada através de acampamentos e de reorganização de comunidades por meio de suas lideranças, a fim de reaverem seus territórios tradicionais, seus antigos Tekoha, lugares que os constituem em uma história interna ao

grupo, onde a cultura e a identidade Kaiowa carregam suas historicidades, conjugando suas temporalidades, espacialidades, vivências e práticas. Com essa obra, necessária e atual, Graciela Chamorro traça não apenas uma história Kaiowa – no sentido de dar a conhecer diversos aspectos culturais, os processos de redução desse povo durante a presença e a conquista colonial –, mas, sobretudo, oportuniza o conhecimento da luta, da persistência e da resistência Kaiowa.

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Hugues de Varine, singular e plural: memórias sobre museologias comunitárias Por Clovis Carvalho BrittoI e Roberto Fernandes dos Santos JúniorII I Universidade de Brasília (clovisbritto5@hotmail.com) II Universidade Federal da Bahia (roberto.agroifect@gmail.com)

VARINE, Hugues de. L’écomusée singulier et pluriel: un témoignage sur cinquante ans de muséologie communautaire dans le monde. Paris: L’Harmattan, 2017. 304 p. (Muséologies). ISBN: 978-2-343-11878-9. Porque eu nunca quis dar conselhos ou fingir orientar os projetos: eu queria manter o meu lugar estrangeiro ou de observador participante, os atores locais que decidiriam o que queriam e poderiam fazer a partir deles mesmos. Meus relatórios são realmente notas de visitas que contêm minhas reações subjetivas e questões que eu observava a partir dessa experiência. (Hugues de Varine in Santos Júnior, 2017, p. 78).

O trecho da entrevista em epígrafe traduz o cerne de “L’écomusée singulier et pluriel: un témoignage sur cinquante ans de muséologie communautaire dans le monde”, recente livro de Hugues de Varine, especialmente quando revela que enfrentou o ‘desafio da proximidade’, ao registrar momentos significativos da história da Museologia. Utilizamos essa expressão, amparados no entendimento de Gilberto Velho, quando reconheceu os desafios do pesquisador que analisa

“[...] situações com as quais tem algum tipo de envolvimento e das quais participa” (Velho, 2003, p. 18). Talvez, por essa razão, a obra apresente um tom ensaístico, com mescla de testemunho, autobiografia e reflexão científica, reconstruindo a trajetória do campo intelectual do século XX e XXI em um período significativo que impactou as epistemologias. Varine é um narrador privilegiado desse processo, ocupando importantes posições no contexto dos museus e das museologias. As reações subjetivas e as questões oriundas de suas experiências nesse espaço simbólico de produção contribuem para a construção de um painel da diversidade do pensamento museológico e da própria trajetória da disciplina que pratica. Hugues de Varine nasceu em 1935, na França. É formado em história e possui pós-graduação na mesma área. Pouco depois de concluir a graduação, fez o curso da Escola do Louvre, o qual se recusou a concluir. Alguns anos após essa desistência, tornou-se membro do Conselho Internacional de Museus (ICOM), assumindo a vice-diretoria dele e, posteriormente, a direção geral. Entre os pesquisadores, as suas contribuições são consenso no que diz respeito à produção teórica no campo museológico e à implantação de museus comunitários. Em grande parte, os trabalhos apresentam estudos de caso de projetos ou iniciativas sobre as práticas metodológicas por ele conduzidas em diferentes partes do mundo. Varine possui importantes publicações sobre a Nova Museologia e os museus comunitários, assim como André Desvallés, Mário Moutinho e Pierre Mayrand. Integrou o Ecomuseu de Creusot-Montceau, na França, projeto pioneiro, que teve a participação de nomes como Georges Henri Rivière, Marcel Évrard e Mathilde Bellaigue. É membro do Movimento Internacional para uma Nova Museologia (MINOM), realizando atualmente atividades como consultor internacional em patrimônio e desenvolvimento comunitário.

BRITTO, Clovis Carvalho; SANTOS JÚNIOR, Roberto Fernandes dos. Hugues de Varine, singular e plural: memórias sobre museologias comunitárias. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 13, n. 2, p. 465-469, maio-ago. 2018. DOI: http:// dx.doi.org/10.1590/1981.81222018000200012.

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Hugues de Varine, singular e plural: memórias sobre museologias comunitárias

Este pesquisador assume a guarda de momentos significativos da memória do pensamento museológico contemporâneo e torna-se um personagem emblemático, por ser um dos pioneiros na reflexão e na difusão da Museologia Comunitária, obtendo reconhecimento em âmbito internacional. Com trajetória de longa duração, que atravessou o século XX, ele ainda impacta o pensamento em torno dos museus no que, metodologicamente, propicia recuperar aspectos significativos da história da disciplina e visualizar as reverberações de seu pensamento em discussões teóricas e em projetos de intervenção. Os discursos e as atividades de Hugues de Varine endossam a importância de seu papel, especialmente por integrar momentos cruciais na formulação de uma outra forma de pensar o campo dos museus, por isso torna-se um dos importantes ‘guardiões da memória’ sobre diferentes processos de Museologia Comunitária. Além disso, “A guarda de uma memória comum é fator essencial na formação e manutenção de grupos (de tamanhos e tipos variados), bem como é elemento-base de sua transformação” (Gomes, 1996, p. 6-7). Nesse sentido, ao reconstruir determinados aspectos de sua trajetória de vida (e de outros agentes), é possível recuperar momentos centrais da história da própria Museologia. Na verdade, a trajetória de Varine está imbricada com a história da Museologia, por isso há um tom testemunhal que atravessa seus escritos, tornando-se indício significativo para a compreensão das transformações do pensamento museológico, conforme registrou na apresentação de sua obra “As raízes do futuro: o patrimônio a serviço do desenvolvimento local”: “[...] apresentar uma experiência pessoal, única e subjetiva, que é também um testemunho” (Varine, 2012, p. 7). De acordo com Philippe Artières, realizamos o arquivamento de nossa vida no intuito de responder a uma injunção social. Nessa trama de ‘arquivamento do eu’, são realizadas rasuras, omissões, destaques de determinadas passagens e silenciamentos de outras. Essa prática apresenta uma intenção biográfica: “Arquivar a

própria vida é se pôr no espelho, é contrapor à imagem social a imagem íntima de si próprio, e nesse sentido o arquivamento do eu é uma prática de construção de si mesmo e de resistência” (Artières, 1998, p. 11). Essa vocação para o testemunho ou intenção deliberada em ‘escrever a própria vida’, que atravessa a produção intelectual de Hugues de Varine, ganha centralidade em seu mais recente livro, lançado em francês pela Editora L’Harmattan, integrando a coleção “Muséologies”. O subtítulo da obra anuncia o intuito de promover uma ‘vigilância comemorativa’, ao tentar estabelecer marcos, eleger experiências e agentes significativos em cinquenta anos de Museologias Comunitárias no mundo. Do mesmo modo, a eleição do teor testemunhal para compartilhar sua ‘observação participante’ confere à obra um caráter de memorial, talvez em virtude daquilo que Antônio Candido concluiu, no prefácio de “Raízes do Brasil”: A certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço no passado sem cair em autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna registro da experiência de muitos, de todos que, pertencendo ao que se denomina uma geração, julgam-se a princípio diferentes uns dos outros e vão, aos poucos, ficando tão iguais, que acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolverem nas características gerais da sua época. Então, registrar o passado não é falar de si; é falar dos que participaram de uma certa ordem de interesses e de visões de mundo, no momento particular do tempo que se deseja evocar. (Candido, 1995, p. 9).

Nesse sentido, a obra de Hugues de Varine realiza um balanço das ideias de sua geração, elencando diferentes experiências e heranças comunitárias. Para tanto, busca uma aproximação por meio da “[...] relação estreita e prolongada com as coletividades locais, o mundo associativo e, em geral, o setor dito da economia social [...]”, concluindo que essas interfaces contribuíram para que se compreendessem “[...] os mecanismos e as interações destes atores da mudança ou da estagnação” (Varine, 1987, p. 18). Nesse contexto, observa a comunidade

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(coletividade local) como ponto de referência para uma subjetividade coletiva. A institucionalização (associativismo) surge enquanto elemento de referência para um desígnio de ‘existência’ enquanto comunidade constituída, que tem por anseio o ‘desenvolvimento’ de suas estruturas para um fortalecimento coletivo (economia social), a partir da formação de lideranças capazes de administrar a realidade proposta (atores de mudança) ou, conforme referido por Varine (2012, p. 50), “[...] agentes de desenvolvimento”. Com trajetória de vida como metonímia do campo museológico, Hugues de Varine alinhava uma revisão teórica sobre os fundamentos da Nova Museologia e da Ecomuseologia com memórias de diversos processos museológicos comunitários, apresentando documentos, impressões e o estado da arte dessa discussão em âmbito internacional. Do mesmo modo, demonstra como seus posicionamentos contribuíram para a reelaboração do pensamento museológico, oxigenando a teoria nesta área e oportunizando alternativas para se pensar os objetivos, os princípios e as demandas deste campo, gerando, assim, outras heranças. Trata-se de sublinhar os antecedentes e os descendentes da Museologia, para utilizarmos uma expressão cara a Chagas (2003), ou a reconhecermos – nos moldes destacados por Bruno (2008) – permeada pelos caminhos do enquadramento, do tratamento e da extroversão da herança patrimonial. Talvez, por essa razão, ele inicia “L’écomusée singulier et pluriel” informando que esta obra consiste em um relato de sua experiência pessoal e que não resulta de nenhuma pesquisa bibliográfica, mas sim de cinquenta anos enfrentando o “[...] desafio da proximidade [...]” (Velho, 2003, p. 11). Para tanto, apresenta os contextos e os precursores dos ecomuseus (entendidos como contundentes exemplos de Museologia Comunitária), sublinhando a importância de pioneiros como Mario Vázquez (México), Pablo Toucet (Niger), John Kinard (Estados Unidos) e Georges Henri Rivière (França), e explanando o contexto geopolítico internacional. Na verdade, demonstra como os debates promovidos

pelos movimentos sociais na segunda metade do século XX, especialmente relacionados às questões ambientais e ao papel transformador da educação, impactaram diversos campos do conhecimento, que problematizaram paradigmas vigentes. Sublinha os movimentos de direitos civis, as pesquisas sobre identidades nacionais e locais, a emergência do nacionalismo nos países recém-libertos do colonialismo e a influência de pensadores e de militantes, que revolucionaram o mundo dos museus com suas ideias. No primeiro capítulo, intitulado “Antes do Ecomuseu”, Varine evidencia os diferentes contextos que permitiram as mudanças no paradigma da Museologia a partir das ideias de desenvolvimento social e da importância das questões ambientais. No segundo, “História de uma palavra”, relembra os bastidores de como inventou o termo ‘ecomuseu’, as primeiras tentativas de definição criadas por ele e por Georges Henri Rivière, os impactos de sua experiência no Ecomuseu da Comunidade Urbana de Creusot-Montceau, na França, culminando nas relações entre esses espaços e o movimento da Nova Museologia, a partir de um conjunto de experiências, a exemplo da Mesa de Santiago do Chile, em 1972; da Reunião do Comitê do ICOM para a Educação, em 1976; e da criação do MINOM, em 1985. O terceiro capítulo dedica-se ao “Museu da Nova Museologia”, explicitando eventos que evidenciaram um novo modelo museal, em especial a 9ª Conferência Geral do ICOM (1971), a Mesa Redonda de Santiago do Chile (1972), a Conferência do Comitê Internacional para a Educação e Ação Cultura (CECA) (1976), bem como algumas outras experiências que culminaram na criação do MINOM, para fins de organização e de formulação de reflexões-ações em Museologia Comunitária. Nesta obra, são dedicados quatro capítulos para relatar as experiências do próprio autor nos ecomuseus da França, da Itália, de Portugal, da Espanha, da Suécia, da Noruega, do Canadá, do Japão, da China e do Brasil. Os títulos dos capítulos anunciam essa tentativa

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de mapeamento de práticas: “O Ecomuseu francês”, “Práticas nacionais”, “Viagens para os ecomuseus italianos” e “Heranças e comunidades no Brasil”. Essa espécie de roteiro contribui para a visualização das especificidades e das similitudes entre os diferentes contextos onde se configuraram e configuram Museologias Comunitárias e para aquilo que poderíamos designar, inspirados na propositura de Pierre Bourdieu, como uma ‘teoria da prática’: Compreender trabalhos científicos que, diferentemente dos textos teóricos, exigem não a contemplação mas a aplicação prática, é fazer funcionar praticamente, a respeito de um objecto diferente [...] que nele se exprime, é reactivá-lo num novo acto de produção [...] (Bourdieu, 1989, p. 63-64).

Esta proposta foi anteriormente esboçada em “As raízes do futuro”, obra na qual Varine (2012) sugere ‘fichas práticas’ que orientariam estudos in loco, visando a execução de projetos de implantação de museus comunitários. Nesses relatos, destacamos o sétimo capítulo, no qual há a narração das experiências museológicas brasileiras, pautadas na participação comunitária. O autor apresenta uma tipologia dos museus comunitários no país, um estado da arte da literatura sobre a temática, elegendo como exemplos o Ecomuseu Comunitário de Santa Cruz (Rio de Janeiro/RJ), o Ecomuseu da Serra de Ouro Preto (Ouro Preto/MG) e o Ecomuseu da Amazônia (Belém/PA), projetos que contaram com sua consultoria. No mesmo sentido, reitera a importância do pensamento e da militância de Paulo Freire no campo dos museus e das Museologias Comunitárias. Na verdade, em diversas entrevistas, Hugues de Varine destacou o impacto proporcionado pela atuação e pelas obras de Freire em seu pensamento-ação: 1

[...] li suas obras em inglês ou francês quando estavam disponíveis. Minha participação no INODEP 1 era absolutamente voluntária e independente do meu trabalho como diretor do ICOM, mas pude, naturalmente, utilizar o que aprendia com Paulo no INODEP no meu trabalho no ICOM. (Chagas, 1996, p. 9).

No oitavo capítulo, “O que faz o Ecomuseu”, Varine salienta as particularidades do ecomuseu enquanto uma ferramenta em processo, que propõe articular território, comunidade e patrimônio. Esses contornos encaminham para as reflexões apresentadas no nono capítulo, intitulado “Diversidade e singularidade dos Ecomuseus”. Nele, o autor detalha as dimensões social, ecológica e econômica que caracterizariam os ecomuseus e, ao mesmo tempo, sublinha a necessidade de respeitar a diversidade de experiências a partir dos múltiplos contextos e dos agentes comunitários. Essas provocações explicitam uma preocupação anunciada por Varine em 1979, quando reconheceu os museus como fruto de um empreendimento colonialista: “[...] a descolonização que se registrou mais tarde foi política, mas não cultural” (Varine, 1979, p. 12). Na verdade, o autor apresenta em “L’écomusée singulier et pluriel” alguns estudos de caso que contribuíram, a seu ver, para efetuar essa descolonização ao longo das últimas décadas. Uma pergunta intitula o último capítulo do livro: “Qual o futuro do Ecomuseu?”. Para tanto, o autor destaca alguns riscos enfrentados pelos museus comunitários, a exemplo dos contextos políticos e econômicos, das tensões contemporâneas em torno de pertencimento, das mudanças no entendimento de coleção, de patrimonialização e de musealização e dos novos contornos de profissionalização em Museologia e Patrimônio. Destaca, assim, o cuidado com as legislações sobre os territórios, a criação de estratégias de rede, o fortalecimento de políticas de desenvolvimento

Instituto Ecumênico para o Desenvolvimento dos Povos, organização não governamental de vocação internacional e composição ecumênica.

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sustentável e de organização territorial solidária como algumas das possibilidades de enfrentamento. Por fim, os contornos autobiográficos também podem ser evidenciados na apresentação da listagem de obras, intitulada “Minha biblioteca ecomuseal”. O autor encerra o livro com uma bibliografia multilíngue de textos, que considera significativos no campo dos ecomuseus. Conclui a obra nos moldes apresentados por Walter Benjamin, no texto “Desempacotando minha biblioteca”. Nesses moldes, o intuito foi compreender o mundo mental contido no ato de colecionar, as relações poéticas e políticas: “Este processo ou qualquer outro é apenas um dique contra a maré de água viva de recordações que chega rolando na direção de todo colecionador ocupado com o que é seu” (Benjamin, 2000, p. 227). Recomendamos a leitura de “L’écomusée singulier et pluriel”. Ao mergulhar nessa água viva de recordações, Hugues de Varine generosamente desempacota (e reorganiza) aspectos de sua trajetória, compartilha sua coleção de memórias em torno de Museologias Comunitárias, não deixando que o tempo passe tudo a raso. Enfrenta, assim, as dificuldades apresentadas pelo ‘desafio da proximidade’, oportunizando reflexões conceituais e exemplos práticos de alguns caminhos singulares e plurais que o acompanharam nas últimas décadas.

REFERÊNCIAS ARTIÈRES, Philippe. Arquivar a própria vida. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 11, n. 21, p. 9-34, quad. 1998. BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 2000.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Tradução Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. BRUNO, Maria Cristina Oliveira. Definição de curadoria: os caminhos do enquadramento, tratamento e extroversão da herança patrimonial. In: BITTENCOURT, José Neves (Org.). Caderno de diretrizes museológicas 2. Belo Horizonte: Superintendência de Museus, 2008. p. 16-25. CANDIDO, Antônio. O significado de Raízes do Brasil. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 9-22. CHAGAS, Mário de Souza. Imaginação museal: museu, memória e poder em Gustavo Barroso, Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro. 2003. 307 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2003. CHAGAS, Mário de Souza. Respostas de Hugues de Varine às perguntas de Mário Chagas. Cadernos de Sociomuseologia, Lisboa, v. 5, n. 5, p. 5-18, sem. 1996. GOMES, Ângela de Castro. A guardiã da memória. Acervo - Revista do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, v. 9, n. 1-2, p. 17-30, jan.dez. 1996. SANTOS JÚNIOR, Roberto Fernandes dos. Por uma “Museologia da libertação”: patrimônio e desenvolvimento local em Hugues de Varine. 2017. 80 f. Monografia (Graduação em Museologia) – Universidade Federal de Sergipe, Sergipe, 2017. VARINE, Hugues de. As raízes do futuro: o patrimônio a serviço do desenvolvimento local. Tradução Maria de Lourdes Parreiras Horta. Porto Alegre: Medianiz, 2012. VARINE, Hugues de. O tempo social. Tradução Fernanda CamargoMoro e Lourdes Rego Novaes. Rio de Janeiro: Eça Editora, 1987. VARINE, Hugues de. Entrevista. In: ROJAS, Roberto; CRESPÁN, José L.; TRALLERO, Manuel (Org.). Os museus no mundo. Rio de Janeiro: Salvat Editora do Brasil, 1979. p. 8-21, 70-81. VELHO, Gilberto. O desafio da proximidade. In: VELHO, Gilberto; KUSCHNIR, Karina (Org.). Pesquisas urbanas: desafios do trabalho antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 11-19.

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BOLETIM DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI. CIÊNCIAS HUMANAS INSTRUÇÕES AOS AUTORES

Objetivos e política editorial O Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas tem como missão publicar trabalhos originais em arqueologia, história, antropologia, linguística indígena e disciplinas correlatas. A revista aceita colaborações em português, espanhol, inglês e francês para as seguintes seções: Artigos Científicos – textos analíticos originais, resultantes de pesquisas com contribuição efetiva para o avanço do conhecimento. De 15 até 30 laudas. Artigos de Revisão – textos analíticos ou ensaísticos originais, com revisão bibliográfica ou teórica de determinado assunto ou tema. De 15 até 30 laudas. Notas de Pesquisa – relato preliminar mais curto que um artigo, sobre observações de campo, dificuldades e progressos de pesquisa em andamento, enfatizando hipóteses, comentando fontes, resultados parciais, métodos e técnicas utilizados. Até 15 laudas. Memória – seção que se destina à divulgação de acervos ou seus componentes que tenham relevância para a pesquisa científica; de documentos transcritos parcial ou integralmente, acompanhados de texto introdutório; e de ensaios biográficos, incluindo obituário ou memórias pessoais. Até 20 laudas. Debate – ensaios críticos sobre temas da atualidade. Até 15 laudas. Resenhas Bibliográficas – texto descritivo e/ou crítico de obras publicadas na forma impressa ou eletrônica. Até cinco laudas. Teses e Dissertações – descrição sucinta, sem bibliografia, de dissertações de mestrado, teses de doutorado e livre-docência. Uma lauda. O Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas publica resumos de teses e dissertações, mas não publica capítulos de teses ou de dissertações. Entendida a necessidade e o interesse acadêmico na divulgação de resultados oriundos da formação em nível de pós-graduação, recomenda-se, para esses casos, a produção de artigo científico com texto distinto do original, dando ênfase ao que se destaca na pesquisa da tese ou dissertação e com uso de citação direta onde adequado.

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9.

Figuras feitas em programas vetoriais podem ser enviadas, preferencialmente, em formato aberto, na extensão .cdr (X5 ou inferior), .eps ou .ai (CS5 ou inferior).

10. O texto do artigo deve, obrigatoriamente, fazer referência a todas as tabelas, gráficos e ilustrações. 11. Seções e subseções no texto não podem ser numerados. 12. Somente numeração de páginas e notas de rodapé devem ser automáticas. Textos contendo numeração automatizada de seções, parágrafos, figuras, exemplos, ou outros processos automatizados, como referenciação e compilação de lista de referências, não serão aceitos. 13. Observar cuidadosamente as regras de nomenclatura científica, assim como abreviaturas e convenções adotadas em disciplinas especializadas. 14. Notas de rodapé devem ser numeradas em algarismos arábicos e utilizadas apenas quando imprescindíveis, nunca como referências.


15. Referências a manuscritos, documentos de arquivo ou textos não publicados (relatórios, cartas etc.) devem ser feitas em notas de rodapé. 16. Citações e referências a autores no decorrer do texto devem subordinar-se à seguinte forma: sobrenome do autor (não em caixa alta), ano, página(s). Exemplos: (Goeldi, 1897, p. 10); Goeldi (1897, p. 10). 17. Todas as obras citadas ao longo do texto devem estar corretamente referenciadas ao final do artigo, e todas as referências no final do artigo devem ser citadas no texto. 18. Citações de obras como “apud” também devem estar corretamente referenciadas ao final do artigo. Os nomes de múltiplos autores ou organizadores citados como “et al.” devem todos aparecer nas referências no final do artigo.

Estrutura básica dos trabalhos 1.

Título – No idioma do texto e em inglês (quando este não for o idioma do texto). Deve ser escrito em caixa baixa, em negrito, centralizado na página.

2. Resumo e Abstract – Texto em um único parágrafo, verbo na voz ativa e terceira pessoa do singular, ressaltando os objetivos, método, resultados e conclusões do trabalho, com no mínimo 100 palavras e, no máximo, 200, no idioma do texto (Resumo) e em inglês (Abstract). A versão para o inglês deverá ser feita ou corrigida por um falante nativo (preferivelmente um colega da área), o que é de responsabilidade do(s) autor(es). 3. Palavras-chave e Keywords – Três a seis palavras que identifiquem os temas do trabalho, para fins de indexação em bases de dados. 4. Texto – Deve ser composto de seções NÃO numeradas e, sempre que possível, com introdução, marco teórico, desenvolvimento, conclusão e referências . Evitar parágrafos e frases muito longos. Optar pela voz passiva, evitando o uso da primeira pessoa do singular e do plural ao longo do texto. Siglas devem inicialmente ser escritas por extenso. Exemplo: “A Universidade Federal do Pará (UFPA) prepara novo vestibular”. Citações de até três linhas devem estar dentro do parágrafo e entre aspas duplas (“); citações com mais de três linhas devem ser destacadas do texto, com recuo de 4 cm da margem esquerda, com fonte menor e, conforme o exemplo a seguir: Com efeito, a habitação em cidades é essencialmente antinatural, associa-se a manifestações do espírito e da vontade, na medida em que se opõem à natureza. Para muitas nações conquistadoras, a construção de cidades foi o mais decisivo instrumento de dominação que conheceram. Max Weber mostra admiravelmente como a fundação de cidades representou para o Oriente Próximo e particularmente para o mundo helenístico e para a Roma imperial, o meio específico de criação de órgãos locais de poder, acrescentando que o mesmo fenômeno se encontra na China, onde ainda durante o século passado, a subjugação das tribos Miaotse pode ser identificada à urbanização das suas terras (Buarque de Holanda, 1978, p. 61). 5. Agradecimentos – Devem ser sucintos: créditos de financiamento; vinculação a programas de pós-graduação e/ou projetos de pesquisa; agradecimentos pessoais e institucionais. Nomes de pessoas e instituições devem ser escritos por extenso, explicando o motivo do agradecimento. Note que a primeira versão submetida é para avaliação anônima e deve estar sem agradecimentos. 6. Referências – Devem ser listadas ao final do trabalho, em ordem alfabética, de acordo com o sobrenome do primeiro autor. No caso de mais de uma referência de um mesmo autor, usar ordem cronológica, do trabalho mais recente ao mais antigo. Todas as referências devem seguir as recomendações da NBR 6023 da ABNT. Deve-se evitar o uso indevido de letras maiúsculas nos títulos de artigos ou de livros. Somente nomes próprios, substantivos alemães e as palavras de conteúdo de títulos de revistas e de séries devem começar por uma letra maiúscula.


Obs: A utilização correta das normas da ABNT referentes à elaboração de referências (NBR 6023/2002) e o uso adequado das novas regras de ortografia da Língua Portuguesa nos artigos e demais documentos encaminhados à revista são de responsabilidade dos autores. A seguinte lista mostra vários exemplos de referências nas suas categorias diferentes: Livro: VERÍSSIMO, José. A educação nacional. 2. ed. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1906. Livro: WIECZOREK, Alfred; ROSENDAHL, Wilfried; SCHLOTHAUER, Andreas (Org.). Der Kult um Kopf und Schädel. Heidelberg: Verlag Regionalkultur, 2012. Série/Coleção: GOELDI, Emílio. Escavações arqueológicas em 1895: executadas pelo Museu Paraense no Litoral da Guiana Brasileira entre Oiapoque e Amazonas. Belém: Museu Paraense de História Natural e Ethnographia, 1900. (Memórias do Museu Goeldi, n. 1). Capítulo de livro: CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. Política indigenista no século XIX. In: CARNEIRO DA CUNHA, Manuela (Org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 133-154. Capítulo de livro e Série/Coleção: VUILLERMET, Marine. Two types of incorporation in Esse Eja (Takanan). In: DANIELSEN, Swintha; HANNSS, Katja; ZÚÑIGA, Fernando (Org.). Word formation in South American languages. Amsterdam: John Benjamins, 2014. p. 113-142. (Studies in Language Companion Series, n. 163). Artigo de periódico: GURGEL, C. Reforma do Estado e segurança pública. Política e Administração, Rio de Janeiro, v. 3, n. 2, p. 15-21, set. 1997. Artigo de periódico: TERSIS, Nicole; CARTER-THOMAS, Shirley. Investigating syntax and pragmatics: word order and transitivity in Tunumiisut. International Journal of American Linguistics, Chicago, v. 71, n. 4, p. 473-500, out. 2005. Artigo de periódico em meio eletrônico: VELTHEM, L. H. V. O objeto etnográfico é irredutível? Pistas sobre novos sentidos e análises. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 7, n. 1, p. 51-66, jan./abr. 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222012000100005&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 06 mar. 2015. Artigo e/ou matéria de jornal: NAVES, P. Lagos andinos dão banho de beleza. Folha de S. Paulo, São Paulo, 28 jun. 1999. Folha Turismo, Caderno 8, p. 13. Artigo e/ou matéria de jornal em meio eletrônico: SILVA, Ives Gandra da. Pena de morte para o nascituro. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 19 set. 1998. Disponível em: <http://www.providafamilia.org/pena_morte_nascituro.htm>. Acesso em: 19 set. 1998. Trabalho apresentado em evento: BRAYNER, A. R. A.; MEDEIROS, C. B. Incorporação do tempo em SGBD orientado a objetos. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE BANCO DE DADOS, 9., 1994, São Paulo. Anais... São Paulo: USP, 1994. p. 16-29.


Trabalho apresentado em evento em meio eletrônico: SILVA, R. N.; OLIVEIRA, O. Os limites pedagógicos do paradigma da qualidade total na educação. In: CONGRESSO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA UFPe, 4., 1996, Recife. Anais eletrônicos... Recife: UFPe, 1996. Disponível em: <http://www.propesq.ufpe.br/anais/anais.htm>. Acesso em: 21 jan. 1997. Documento eletrônico: INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2010. 2011. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/default.shtm>. Acesso em: 23 jan. 2012. Documento jurídico: SÃO PAULO (Estado). Decreto nº 42.822, de 20 de janeiro de 1998. Lex: coletânea de legislação e jurisprudência, São Paulo, v. 62, n. 3, p. 217-220, 1998. Documento jurídico: BRASIL. Congresso. Senado. Resolução nº 17, de 1991. Coleção de Leis da República Federativa do Brasil, Brasília, DF, v. 183, p. 1156-1157, maio/jun. 1991. Documento jurídico: BRASIL. Medida Provisória nº 1.569-9, de 11 de dezembro de 1997. Estabelece multa em operações de importação, e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 14 dez. 1997. Seção 1, p. 29514. Trabalhos acadêmicos (teses, dissertações e monografias): MORGADO, M. L. C. Reimplante dentário. 1990. 51 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Odontologia), Universidade Camilo Castelo Branco, São Paulo, 1990. Trabalhos acadêmicos (teses, dissertações e monografias): ARAUJO, U. A. M. Máscaras inteiriças Tukúna: possibilidades de estudo de artefatos de museu para o conhecimento do universo indígena. 1985. 102 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, São Paulo, 1986. Trabalhos acadêmicos (teses, dissertações e monografias): BENCHIMOL, Alegria. Resgate e ressignificação da pesquisa no Museu Paraense Emílio Goeldi: presença e permanência de cientistas estrangeiros (1894-1914) na produção científica de autores atuais (1991-2010). 2015. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) – Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2015. Trabalhos acadêmicos (teses, dissertações e monografias): MOORE, Denny. Syntax of the language of the Gavião Indians of Rondônia (Brazil). 1984. 299 f. Tese (Doutorado em Antropologia) – University of New York, Nova York, 1984.

Avaliação inicial Será feita uma avaliação inicial da submissão pela administração editorial, seguindo um checklist de critérios básicos. Caso a submissão esteja incompleta ou as imagens não estejam conforme as especificações ora informadas, o artigo será devolvido via plataforma online como “UNSUBMITTED”. Isso significa que ele volta para a fase de não submetido. O autor de correspondência receberá, nesse caso, um comunicado com informações sobre as pendências apresentadas pelo artigo. Após a resolução dos problemas apontados, o autor pode ressubmeter o trabalho, escolhendo a opção “RESUBMIT”.


Revisão de artigos Após receber os pareceres anônimos, o Editor decide quanto à aceitação do artigo para publicação. Se aceito, o autor é convidado a revisar o artigo com base nos pareceres e nas observações do Editor. O autor deve explicar como a revisão foi realizada, dar justificativa em caso de não acatar sugestão dos pareceres, devendo obrigatoriamente usar a ferramenta e, obrigatoriamente, usar a ferramenta “Controle de alterações” do Word para realizar as alterações no texto. O artigo revisado deve ser enviado através da plataforma online, por meio do link de revisão disponível em “AUTHOR RESOURCES”, clicando em “CREATE REVISION”.

Provas Os trabalhos, depois de formatados, são encaminhados através do sistema de e-mail do ScholarOne, em PDF, para a revisão final dos autores, que devem devolvê-los com a maior brevidade possível. Os pedidos de alterações ou ajustes no texto devem ser feitos por comentários no PDF. Nessa etapa, não serão aceitas modificações no conteúdo do trabalho ou que impliquem alteração na paginação. Caso o autor não responda ao prazo, a versão formatada será considerada aprovada. Os artigos são divulgados integralmente no formato PDF no sítio, no Issuu, no DOAJ e na SciELO.

Endereço para correspondência: Museu Paraense Emílio Goeldi Editor do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas Av. Perimetral, 1901 - Terra Firme CEP 66077-830 Belém - PA - Brasil Telefone: 55-91-3075-6186 E-mail: boletim.humanas@museu-goeldi.br

Lembre-se: 1- Antes de enviar seu trabalho, verifique se foram cumpridas as normas acima. Disso depende o início do processo editorial. 2- Após a aprovação, os trabalhos são publicados por ordem de chegada. O Editor Científico também pode determinar o momento mais oportuno. 3- A revista não aceita resumos expandidos, textos na forma de relatório e nem trabalhos previamente publicados em anais, CDs ou outros suportes.


BOLETIM DO MUSEU PARAENSE EMÍLIO GOELDI. CIÊNCIAS HUMANAS INSTRUCTIONS FOR AUTHORS Mission and Editorial Policy The mission of the Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas is to publish original works on archaeology, history, anthropology, indigenous linguistics, and related fields. The journal accepts contributions in Portuguese, Spanish, English and French for the following categories: Research Articles – original scientific articles reporting on research, that effectively contribute to the advancement of knowledge. Between 15 and 30 pages. Review Articles – analytical texts or essays that contain a bibliographical or theoretical review of a certain subject or topic. Between 15 and 30 pages. Short Communications – short preliminary reports on field observations, challenges faced and progress made in ongoing research emphasizing hypotheses, mentioning sources, partial results, materials and methods. Maximum length: 15 pages. Memory – this category includes texts about collections or items in collections considered relevant for scientific research; fully or partly transcribed documents with an introductory text; biographical essays, including obituaries or individual memories. Maximum length: 20 pages. Debate – critical essays on current issues. Maximum length: 15 pages. Book Reviews – descriptive and/or critical reviews of printed or electronic publications. Maximum length: five pages. Theses and Dissertations – a brief description (without bibliography) of master’s theses and doctoral or other postgraduate dissertations. One page (A4, 1.5 spaced 12 point Arial or Times New Roman type). The Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas (Human Sciences) publishes abstracts of theses and dissertations, but does not publish chapters of these works. We recognize that need and academic interest in disseminating results stemming from graduate-level work exist, and in these cases recommend drafting a scientific article containing unique text which differs from the original, emphasizing notable points in the research and utilizing direct citations where appropriate.

Article proposals The Boletim only accepts original contributions in digital format. Digital manuscripts should be submitted via the online platform ScholarOne, which is accessible through the website of the Boletim <http://http://editora.museu-goeldi.br/humanas> or directly via the link <https:// mc04.manuscriptcentral.com/bgoeldi-scielo>, providing additional information requested during the various steps of the submission process.

Registration Authors must register in order to create a password-protected personal account on the online platform in the section “CREATE AN ACCOUNT” or “NEW USER” and correctly fill in the profile. Registration and the creation of an account need be done only once. Thereafter, the account should be used for current and future submissions to the Boletim. Starting January 2018, all authors must register with ORCID in order to submit manuscripts.

Submission


In order to submit a new contribution, authors must log into their account on the online platform and click on “AUTHOR CENTER”. After completing this step, proceed to the “AUTHOR RESOURCES” window and start the submission process via the link “CLICK HERE TO SUBMIT A NEW MANUSCRIPT”, following seven steps: • Step 1: Type, Title, & Abstract º Choose type of manuscript (article, review, etc.). º Title of manuscript. º Provide the abstract. • Step 2: Attributes º Add key words (3 to 6). • Step 3: Authors & Institutions º Declare whether the manuscript is submitted by the author, or by another person. • Step 4: Reviewers º Optionally name potential reviewers that are preferred, or non-preferred. • Step 5: Details & Comments º Specify who funded the research that resulted in the submission. º Declare that the work was submitted exclusively to the Boletim and has not been published elsewhere. º Declare that the work is in accordance with ethical norms. º Confirm that the submitted files are entirely anonymous, so as to enable anonymous peer review. º Declare whether there is any conflict of interest. If there is, please specify. • Step 6: File Upload º Upload the files. (At least one of the files should represent the Main Document) • Step 7: Review & Submit º Verify that all information and files are complete and finalize the submission by clicking on “SUBMIT”. The journal has a Scientific Council. Manuscripts are first examined by the Editor or by one of the Associate Editors. The Editor has the right to recommend alterations to the submitted manuscripts or to return them when they fail to comply with the journal’s editorial policy. Upon acceptance, manuscripts are submitted to peer-review and are reviewed by at least two specialists who are not members of the Editorial Board. In the event of discrepancy between the reviews, the manuscript is submitted to other referee(s). In case changes or corrections are recommended, the manuscript is returned to the author(s), who have thirty days to submit a new version.


Publication of a manuscript entails transfer of copyright to the journal. A declaration of Assignment of Copyrights of the published work, signed by all authors, must be submitted together with the revised manuscript via the ScholarOne platform.

Preparing the manuscript for submission All manuscripts have to be submitted via the online platform ScholarOne. Original manuscripts must be prepared observing the following requirements: 1. Word for Windows format, Times New Roman font, size 12, line spacing 1.5, and pages must be numbered. Articles on linguistics must use a font that is compatible with the Unicode standard, such as Arial, Calibri, Cambria, Déjà Vu, Tahoma and others that include the IPA extended set of phonetic symbols. Times New Roman is preferred, but it includes the full IPA in Unicode only in more recent editions of Windows. One should never improvise IPA characters such as ɨ, ʉ, etc. by applying strike-through of common characters. 2. The cover page must contain the following information: a. Title (in the original language and in English); b. Abstract; c. Resumo (a Portuguese abstract in case the original is English); d. Keywords and their equivalent palavras-chave in Portuguese. 3. The manuscript must include neither the name(s) of the author(s) nor acknowledgements. 4. To highlight terms or phrases, please use single quotation marks. 5. Only foreign language words and phrases and Latinized scientific terms should be in italic type. 6. The articles should follow the recommendations of the Brazilian Association for Technical Standards (ABNT) for the presentation and use of bibliographical information: abstracts, NBR 6028; citation in documents, NBR 10520; references, NBR 6023. 7. Tables should be in Word format, numbered in sequence, with clear captions. 8. All figures (illustrations, graphs, pictures, diagrams, etc.) should be presented on separate, numbered pages with their respective captions, and submitted separately on the online platform. Images require minimum resolution of 300 dpi and minimum size of 1,500 pixels, in JPEG or TIFF format. If possible, respect the page sizes of the Bulletin, namely 16.5 cm wide and 20 cm tall (for images occupying two columns) or 8 cm wide and 20 cm tall (for images occupying one column). When text is contained in images, the font used should be Arial, 7 to 10 pt. 9. Images created in vectoral programs should be provided in open format, with either a .cdr (X5 or inferior), .eps or .ai (CS5 or inferior) extension. 10. All tables, graphs and images must obligatorily be mentioned in the body of the text. With regard to maps, please use symbols rather than colours (because of restricted use of colour in printed versions). 11. Sections and subsections in the text must not be numbered. 12. Only page numbering and the numbering of footnotes should be automatic. Texts containing automatically numbered sections, paragraphs, figures, examples or any other automatized processes cannot be accepted. 13. Texts must fully comply with scientific naming rules, abbreviations and other conventions current in the specific fields of discipline. 14. Footnotes should be used only when strictly necessary, never for reference to published work, and should be indicated in Arabic numbers.


15. References to manuscripts, archive documents or unpublished texts (reports, letters, etc.) must not be listed at the end of the article, but should be provided in footnotes. 16. Reference to works cited throughout the text should conform to the following convention: author’s last name (not in upper case), year, page(s). Examples: (Goeldi, 1897, p. 10); Goeldi (1897, p. 10). 17. All references used throughout the text must be listed at the end of the article, and all works listed should be mentioned in the text. 18. Works cited as “apud” should also be fully and correctly listed at the end of the article. The names of multiple authors and volume editors referred in the text as “et al.” must all appear in the reference list at the end of the article.

Basic text structure 1. Title – The title must appear both in the original language of the text and in English (or Portuguese, in case English is the original language). The title must be in lower case in bold type, centralized on the page. 2. Abstract – This section should be a single paragraph and highlight the goals, methods and results of the research, with a minimum length of 100 words and a maximum length of 200 words. The abstract should be presented both in the original language of the text and in English (or Portuguese, in case the original language is English). The translated abstract must either be composed or corrected by a native speaker, which is the responsibility of the authors. 3. Keywords – Three to six words that identify the topics addressed in the article, for the purpose of indexation in databases. 4. Body of the text – The text should be subdivided into sections that are NOT numbered. Articles should preferably contain the following components/sections: introduction, theoretical background, main text, conclusion, references. Lengthy paragraphs and/ or sentences should be avoided. Acronyms should be preceded by the word or phrase to which it refers to when appearing for the first time. Example: “The Universidade Federal do Pará (UFPA) is preparing a new admission exam”. Quotations of less than three lines should be included in the body of the text between double quotation marks (“). Quotations of more than three lines are separated from the text and indented in block, with no quotation marks, the font size being smaller than the font used in the text. The road down into the Guaporé Valley was in quite good condition, for it had not yet begun to rain heavily, and we made good time to the ranch known as Estrela do Guaporé. There, I talked briefly with the administrator, a man named Alvaro, and then with Kim, who was recuperating from malaria. Kim was very pale and weak, and our talk was brief and constrained. I found out later that he had actually gone to Brasília and told the FUNAI that Sílbene was urging the Indians to kill cattle. In fact, Sílbene had told the Indians to defend their gardens, which were on demarcated land, from invading cattle (Price, 1989, p. 119). 5. Acknowledgements – Should be brief and can mention: support and funding; connections to graduate programs and/or research projects; acknowledgement to individuals and institutions. The names of individuals and institutions should be written in full, together with a motivation for the acknowledgement. Note that the first submitted version of the article should be without acknowledgements, because of the anonymous peer-review process. 6. References – Should be listed at the end of the text in alphabetical order according to the last name of the first author. In the event of two or more references to a same author, please use chronological order starting with the most recent work. References should comply with ABNT recommendation NBR 6023. Please avoid unnecessary capitals in the titles of books and articles. Only proper names, German nouns and the content words of journal titles and book series should start with a capital letter.


Note that the correct application of the ABNT norms concerning bibliographical references (NBR 6023/2002) and the correct application of the modern spelling rules of Portuguese are the responsibility of the author(s). The following list contains examples of the different categories of bibliographical references, illustrating ABNT practice: Book: PRICE, David. Before the bulldozer: the Nambiquara Indians and the World Bank. Cabin John: Seven Locks Press, 1989. Book: WIECZOREK, Alfred; ROSENDAHL, Wilfried; SCHLOTHAUER, Andreas (Ed.). Der Kult um Kopf und Schädel. Heidelberg: Verlag Regionalkultur, 2012. Series: GOELDI, Emílio. Escavações arqueológicas em 1895: executadas pelo Museu Paraense no Litoral da Guiana Brasileira entre Oiapoque e Amazonas. Belém: Museu Paraense de História Natural e Ethnographia, 1900. (Memórias do Museu Goeldi, n. 1). Book chapter: CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. Política indigenista no século XIX. In: CARNEIRO DA CUNHA, Manuela (Ed.). História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 133-154. Book chapter and series: VUILLERMET, Marine. Two types of incorporation in Esse Eja (Takanan). In: DANIELSEN, Swintha; HANNSS, Katja; ZÚÑIGA, Fernando (Ed.). Word formation in South American languages. Amsterdam: John Benjamins, 2014. p. 113-142. (Studies in Language Companion Series, n. 163). Journal article: GURGEL, C. Reforma do Estado e segurança pública. Política e Administração, Rio de Janeiro, v. 3, n. 2, p. 15-21, Sept. 1997. Journal article: TERSIS, Nicole; CARTER-THOMAS, Shirley. Investigating syntax and pragmatics: word order and transitivity in Tunumiisut. International Journal of American Linguistics, Chicago, v. 71, n. 4, p. 473-500, Oct. 2005. Electronic journal article: VELTHEM, L. H. V. O objeto etnográfico é irredutível? Pistas sobre novos sentidos e análises. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 7, n. 1, p. 51-66, jan./abr. 2012. Available at: <http://www.scielo.br/ scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-81222012000100005&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt>. Accessed on: 06 Mar. 2015. Newspaper article: NAVES, P. Lagos andinos dão banho de beleza. Folha de São Paulo, São Paulo, 28 Jun. 1999. Folha Turismo, Caderno 8, p. 13. Electronic newspaper article: SILVA, Ives Gandra da. Pena de morte para o nascituro. O Estado de São Paulo, São Paulo, 19 Sept. 1998. Available at: <http://www.providafamilia.org/pena_morte_nascituro.htm>. Accessed on: 19 Sept. 1998. Conference presentation: BRAYNER, A. R. A.; MEDEIROS, C. B. Incorporação do tempo em SGBD orientado a objetos. In: SIMPÓSIO BRASILEIRO DE BANCO DE DADOS, 9., 1994, São Paulo. Proceedings... São Paulo: USP, 1994. p. 16-29.


Electronic conference presentation: SILVA, R. N.; OLIVEIRA, O. Os limites pedagógicos do paradigma da qualidade total na educação. In: CONGRESSO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA UFPe, 4., 1996, Recife. Electronic proceedings... Recife: UFPe, 1996. Available at: <http://www.propesq.ufpe.br/anais/anais.htm>. Accessed on: 21 Jan. 1997. Electronic document: INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2010. 2011. Available at: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/default.shtm>. Accessed on: 23 Jan. 2012. Legal document: SÃO PAULO (Estado). Decreto nº 42.822, de 20 de janeiro de 1998. Lex: coletânea de legislação e jurisprudência, São Paulo, v. 62, n. 3, p. 217-220, 1998. Legal document: BRASIL. Congresso. Senado. Resolução nº 17, de 1991. Coleção de Leis da República Federativa do Brasil, Brasília, DF, v. 183, p. 1156-1157, May/Jun. 1991. Legal document: BRASIL. Medida Provisória nº 1.569-9, de 11 de dezembro de 1997. Estabelece multa em operações de importação, e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 14 Dec. 1997. Seção 1, p. 29514. Academic theses (PhD theses, MA theses and monographs): MORGADO, M. L. C. Reimplante dentário. 1990. 51 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Odontologia) – Universidade Camilo Castelo Branco, São Paulo, 1990. Academic theses (PhD theses, MA theses and monographs): ARAUJO, U. A. M. Máscaras inteiriças Tukúna: possibilidades de estudo de artefatos de museu para o conhecimento do universo indígena. 1985. 102 f. MA thesis (Mestrado em Ciências Sociais) – Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, São Paulo, 1986. Academic theses (PhD theses, MA theses and monographs): BENCHIMOL, Alegria. Resgate e ressignificação da pesquisa no Museu Paraense Emílio Goeldi: presença e permanência de cientistas estrangeiros (1894-1914) na produção científica de autores atuais (1991-2010). 2015. PhD thesis (Doutorado em Ciência da Informação) – Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2015. Academic theses (PhD theses, MA theses and monographs): MOORE, Denny. Syntax of the language of the Gavião Indians of Rondônia (Brazil). 1984. 299 f. PhD thesis (Doctorate in Anthropology) – University of New York, New York, 1984.

Initial evaluation An initial evaluation will be carried out by the editorial staff, following a checklist of basic criteria. In case the submission is incomplete or the images are not in accordance with the specifications mentioned above, the article will be returned to the author through the platform, by marking it as “UNSUBMITTED”. This means that the article returns to the stage of not yet having been submitted, with an explanation of the issues to be resolved. After having resolved the pending issues, the author should resubmit the article by choosing the option “RESUBMIT”.


Revision of articles After receiving the anonymous peer reviews, the Editor decides whether the article is accepted for publication. If accepted, the author is requested to revise the article on the basis of the reviews and the Editor’s observations. The author must also explain how the revision was done and provide justification in case the advice of the reviewer(s) was not followed. It is obligatory to use the “Track Changes” function in Word, when applying changes. The revised article should be submitted via the online platform, via the revision link at “AUTHOR RESOURCES”, by clicking on “CREATE REVISION”.

Proofs After having been formatted by the editorial staff, the articles will be sent in PDF format to the authors via the ScholarOne e-mail system for final approval, and must be returned as soon as possible. Requested changes in the text have to be marked and commented as clearly as possible in the PDF document. At this stage, changes concerning content or changes resulting in an increase or decrease in the number of pages will not be accepted. In the event that the author does not respond in time, the formatted version will be considered as approved by the author. The articles will be published in full in PDF format on the journal website, in Issuu, in DOAJ, and at SciELO.

Mailing address: Museu Paraense Emílio Goeldi Editor do Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas Av. Perimetral, 1901 - Terra Firme CEP 66077-530 Belém - PA - Brazil Phone: 55-91-3075-6186 E-mail: boletim.humanas@museu-goeldi.br

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Boletim do Museu Paraense EmĂ­lio Goeldi Formato: 50P0 x 59P6 Tipografia: MPEG


BGOELDI. Humanas v13n2  

A história da Amazônia tem as indeléveis marcas de séculos de extração de recursos naturais para fins de sobrevivência e, também, de forçosa...

BGOELDI. Humanas v13n2  

A história da Amazônia tem as indeléveis marcas de séculos de extração de recursos naturais para fins de sobrevivência e, também, de forçosa...

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