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A Genética é a parte da Biologia que estuda as leis da hereditariedade, ou seja, como as informações dos genes são transmitidas de pais para filhos através das gerações. O conhecimento de Genética nos permite selecionar cruzamentos de animais ou de plantas de forma a obter, por exemplo, variedades mais produtivas ou mais resistentes a pragas. Permite também indicar a probabilidade de um casal ter um filho com certos problemas hereditários. Nesta unidade começaremos a conhecer as leis da hereditariedade estudando o trabalho do monge agostiniano Gregor Mendel (1822-1884).

Mauro Fermariello/Science Photo Library/LatinStock

Unidade I 12

Genética


Capítulo 9

Evolução: as primeiras teorias Morre Harriet

Australia Zoo/Handout/epa/Corbis

No dia 23 de junho de 2006, morreu Harriet, de ataque cardíaco, com 175 anos. Ela vivia na Austrália, mas sua terra natal eram as ilhas Galápagos (figura 9.1). Alguns acham que Harriet, com outras duas tartarugas, foi levada de Galápagos, arquipélago a oeste do Equador, para a Inglaterra por um jovem chamado Charles Darwin (1809-1882), ao retornar, em 1836, de uma viagem pelo mundo a bordo do navio HMS Beagle. Outros pesquisadores contestam esse fato. De qualquer forma, as observações de Darwin sobre as Qual a tartarugas e outros animais de Galápagos contribuíram para o contribuição de desenvolvimento de sua teoria da evolução. A Biologia nunca mais Charles Darwin foi a mesma depois de Darwin. para a teoria da evolução?

Fig. 9.1 Harriet, a tartaruga de Galápagos no dia de seu aniversário de 173 anos, em um zoológico da Austrália. Era o mais antigo animal em cativeiro.

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Segundo o pensamento predominante até meados do século XVIII, cada espécie teria surgido de maneira independente e permaneceria sempre com as mesmas características. Até o naturalista sueco Carl von Linné (1707-1778; Lineu em português), que criou em 1735 o primeiro sistema de classificação biológica, aceitava essa idéia, conhecida como criacionismo ou fixismo. No início do século XIX, a hipótese de uma transformação das espécies passou a ser defendida por alguns cientistas para explicar a diversidade das espécies e a existência de fósseis de organismos diferentes dos organismos atuais.

1 Lamarckismo

Science Photo Library

A primeira tentativa de explicar a evolução por meio de uma teoria científica foi feita pelo naturalista Jean Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck, ou, simplesmente, Lamarck (1744-1829; figura 9.2).

Fig. 9.2 Em uma época em que a maioria dos cientistas era fixista, Lamarck defendeu a teoria de que as espécies mudam com o tempo.

Sua tese é expressa com detalhes no livro Philosophie zoologique (Filosofia zoológica), publicado em 1809. Contrariando as idéias fixistas da época, Lamarck defendia que os organismos atuais surgiram de outros e, à medida que o ambiente muda, os organismos também mudam, o que explicaria a seqüência de fósseis. Para ele, a evolução das espécies era guiada pelas mudanças ambientais: os seres vivos reagem a essas mudanças usando alguns órgãos mais do que os outros e transmitindo as mudanças em seu corpo às gerações seguintes. Hoje, Lamarck é mais conhecido por defender duas leis para explicar a evolução. A primeira é a lei do uso e desuso dos órgãos; a segunda é a lei da herança dos caracteres adquiridos.

Lei do uso e desuso De acordo com essa lei, um órgão desenvolviase com o uso e atrofiava-se com o desuso. Assim, a língua comprida do tamanduá ou a do camaleão, por exemplo, teriam se desenvolvido em resposta às suas necessidades alimentares e ao uso desse órgão – esses dois animais usam a língua para capturar e comer insetos. Do mesmo modo, um halterofilista desenvolveria seus músculos com exercícios e essa característica passaria para os seus filhos. Ainda seguindo essa linha de raciocínio, a girafa atual poderia ter adquirido um pescoço comprido como resultado do uso constante e do esforço de um ancestral, de pescoço menor, para alcançar as folhas do alto das árvores. Com esse exercício, o pescoço aumentaria de tamanho. Essa característica passaria aos descendentes, e a girafa atual seria resultado da repetição desse mecanismo durante várias gerações. Essa lei apresenta uma verdade apenas parcial porque o ambiente só pode alterar as características do organismo dentro de certos limites predeterminados pelo gene (norma de reação). Assim, embora a altura de uma pessoa possa variar, dependendo das condições em que ocorra o seu crescimento, essa variação não ultrapassará determinados valores máximos e mínimos previstos pelos genes dessa pessoa. Além disso, para certas características, o efeito do ambiente e o uso e desuso têm pouca ou nenhuma influência. Por exemplo, nossa percepção visual não aumenta com o uso dos olhos. O mais importante, porém, é que essas alterações não se transmitem aos descendentes; portanto, não têm papel relevante na evolução, como veremos a seguir.

Lei da herança dos caracteres adquiridos A segunda lei afirma que o caráter adquirido (resultante do desenvolvimento pelo uso ou da atrofia pelo desuso) seria transmitido aos descendentes. No entanto, pelo que sabemos hoje, apenas uma modificação nos genes (mutação) pode ser transmitida às gerações seguintes – e mesmo assim se os genes estiverem presentes nas células germinativas. Por exemplo, um halterofilista desenvolve seus músculos com exercícios, mas isso não altera os genes de seus espermatozóides, e são esses genes, e não seus músculos, que podem ser transmitidos aos seus descendentes. Entre 1870 e 1875, o biólogo alemão August Weismann (1834-1914) estabeleceu a existência de Capítulo 9 • Evolução: as primeiras teorias

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proteína que aumentasse a força muscular. Mas não há nenhuma evidência de que esse complexo mecanismo de “transformação dirigida” ocorra. Outro argumento contra a segunda lei é que muitas características adquiridas são prejudiciais. É o caso de doenças adquiridas ao longo da vida e das degenerações que acompanham o processo de envelhecimento. Se a lei da transmissão dos caracteres adquiridos fosse verdadeira, deveríamos esperar uma progressiva degeneração das espécies, mas essas doenças afetam apenas o fenótipo, não o genótipo, e não passam, portanto, para os filhos. O maior mérito de Lamarck está em ter sido o primeiro cientista a propor uma explicação para a evolução dos seres vivos, isto é, uma teoria da evolução. Sua tese provocou muitas discussões sobre a evolução e permitiu que o conhecimento desse fenômeno biológico se generalizasse.

duas linhagens de células – as germinativas (que originam os gametas) e as somáticas (que formam o corpo) – e mostrou que apenas as modificações surgidas na linhagem germinativa se transferem aos descendentes. Em uma de suas experiências, ele cortou o rabo de camundongos por várias gerações, mas nenhum dos descendentes nasceu com rabo menor. O experimento de Weismann foi mais uma evidência contrária ao lamarckismo. A lei da herança dos caracteres adquiridos não se fundamenta com os conhecimentos que temos hoje do código genético. As características resultam da passagem de informação do DNA (gene) para o RNA e deste para a proteína. Esta última passagem se faz apenas no sentido do RNA para a proteína: uma modificação na proteína de uma pessoa não pode alterar a informação do RNA nem do DNA; portanto, não pode ficar “inscrita” nos genes. Por isso ela não será hereditária. Para que o resultado de um esforço muscular ficasse “inscrito” nos genes e passasse para os filhos, seria preciso um sistema complexo de mudanças genéticas. Em primeiro lugar, teria de ser fabricada uma molécula com informações específicas para modificar os genes que influenciam a força muscular. Essa molécula teria de se dirigir aos gametas, localizar os genes que influenciam a força dos músculos e modificar de forma específica a seqüência de nucleotídeos desses genes. O novo gene teria de produzir uma

2 Darwinismo

Ilhas Britânicas AMÉRICA DO NORTE

ÍNDIA ÁFRICA

C

Is. Galápagos Is. Ascensão

AMÉRICA DO SUL Bahia

Marquesas

St. Helena

E

A

NO

Madagascar

ÍN

D

Is. Keeling Mauritius

Rio de Janeiro

Is. da Sociedade

O

O

JAPÃO

IC

IC NO PACÍF

CHINA

Is. Canárias

O

O

C

EA

EUROPA

Is. Ocidentais

ANO O ÂNTICO TL A Is. Cabo Verde

CE

AUSTRÁLIA Valparaíso Porto Desire Estreito de Magalhães

Montevidéu Is. Falkland Terra do Fogo Cabo Horn

Fig. 9.3 Rota do navio Beagle e foto de Darwin.

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Unidade II • Evolução

Julia Margaret Cameron/Bettmann/Corbis

Em meados do século XIX, Darwin revolucionou todo o pensamento sobre a evolução da vida e de nossa origem, e provocou as mais amplas discussões a respeito de uma teoria científica. Em 1831 ele iniciou uma viagem, que duraria quase cinco anos, a bordo do navio inglês HMS Beagle em direção à América do Sul, indo depois para a Nova Zelândia e para a Austrália (figura 9.3).

Sydney Cabo da Boa Esperança Hobart

Baía das ilhas


Aprofunde seus conhecimentos

Malthus afirmava que as populações tendem a crescer em progressão geométrica, dobrando o número de indivíduos após determinado período de tempo (1, 2, 4, 8, 16, etc.), mas os recursos para sustentar os indivíduos (como o alimento) cresceriam bem mais devagar, em progressão aritmética (1, 2, 3, 4, 5, etc.). Esse crescimento acelerado de indivíduos levaria a uma escassez dos recursos (alimento, espaço, etc.) necessários à sobrevivência ou à reprodução da população. Darwin concluiu que nem todos os organismos que nascem conseguem sobreviver ou – o que é mais importante – reproduzir-se. Os indivíduos com mais oportunidades de sobrevivência seriam aqueles com características apropriadas para enfrentar as condições ambientes; eles teriam maior probabilidade de se reproduzir e deixar descendentes férteis. Nessas condições, as características favoráveis tenderiam a ser preservadas e as desfavoráveis, destruídas. Darwin afirmou: “Essa preservação de variações favoráveis e rejeição de variações prejudiciais eu chamo de seleção natural”. Pelo lento e constante processo de seleção ao longo das gerações, as espécies podem diversificar-se e tornar-se adaptadas ao ambiente em que vivem. Assim, o conceito de seleção natural foi a grande contribuição de Darwin à teoria da evolução. Em 1859, 23 anos após a viagem no Beagle, Darwin publicou suas idéias no livro A origem das espécies por meio da seleção natural, que provocou intensas discussões. Para muitas pessoas, era difícil aceitar que as espécies não tinham sido criadas de uma forma definitiva. Afinal, ninguém podia ver uma espécie se transformando em outra. Mais difícil ainda era aceitar que a própria espécie humana tinha surgido por evolução de outros animais.

Por que a girafa tem pescoço tão longo?

A girafa (Giraffa camelopardalis) e o ocapi (Okapia johnstoni) formam a família Giraffidae. O ocapi vive em florestas na região do Congo, na África. A girafa é encontrada nas savanas desse continente. Ambos devem ter evoluído a partir de um ancestral comum durante o período Mioceno, que durou de 23,3 milhões a 5,2 milhões de anos atrás. Há vários fósseis de animais aparentados com as girafas que possuem pescoço menor, entre eles Climacoceras, Canthumeryx, Paleomeryx, Palaeotragus e

Mas as idéias evolucionistas acabaram sendo aprovadas pelos cientistas porque com elas é possível explicar um imenso número de fatos.

A evolução por seleção natural O mecanismo da evolução proposto por Darwin resume-se em seis etapas: • Os indivíduos de uma mesma espécie mostram muitas variações na forma e na fisiologia. • Boa parte dessas variações é transmitida aos descendentes. • Se todos os indivíduos de uma espécie se reproduzissem, as populações cresceriam de forma acelerada, em progressão geométrica. • Como os recursos naturais são limitados, os indivíduos de uma população lutam por sua sobrevivência e pela de sua prole. • Apenas alguns – chamados por Darwin de mais aptos – sobrevivem e deixam filhos (seleção natural). A sobrevivência e a possibilidade de reprodução dependem das características desses indivíduos, que, por serem hereditárias, serão transmitidas a seus filhos. • Pela seleção natural, as espécies serão representadas por indivíduos adaptados ao ambiente em que vivem. Veja como seria uma explicação darwinista para a língua comprida do camaleão (ou do tamanduá): em uma população inicial de camaleões, alguns indivíduos possuíam língua mais comprida que outros. Essa característica seria hereditária e os indivíduos com língua maior passaram a ter maiores chances de capturar insetos. O processo repetiu-se ao longo das gerações e a freqüência de animais de língua mais comprida aumentou de maneira gradativa.

SamotheriIum. Este último teria sido o ancestral mais recente da girafa e do ocapi. A explicação clássica para o aumento do pescoço da girafa é que um pescoço longo permitia ao animal comer folhas no alto das árvores nas épocas de seca, quando as plantas rasteiras perdem as folhas. No entanto, alguns pesquisadores observaram que, durante essas épocas, as girafas se alimentam na maior parte do tempo de folhas de arbustos baixos ou de árvores de altura inferior ao tamanho de seu pescoço. Então, os pesquisadores Robert E. Simmons e Lue Scheepers propuseram a hipótese de que o aumento do pescoço ao longo das gerações se deve à vanta-

Capítulo 9 • Evolução: as primeiras teorias

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cado como conseqüência da seleção natural, que fixa mutações que reduzem ou evitam a competição. Desse modo, há uma partilha de recursos do ambiente entre as espécies, o que evita a competição. Assim, devemos concluir que não é simples descobrir a suposta vantagem adaptativa de determinada característica. Para isso são necessárias muitas pesquisas que envolvam a anatomia de um organismo, sua fisiologia e ecologia, entre outros fatores (figura 9.7). Fontes: CAMERON, E. & TOIT, J. T. du. Winning by a neck: tall giraffes avoid competing with shorter browsers. American Naturalist, 169: 130-5, jan. 2007. SIMMONS, R. E. & SCHEEPERS, L. Winning by a neck: sexual selection in the evolution of the giraffe. American Naturalist, 148: 771-86, 1996. WOOLNOUGH, A. P. & TOIT, J. T. du. Vertical zonation of browse quality in tree canopies exposed to a size-structured guild of Africa browsing ungulates. Oecologia, 129: 585-90, 2001.

John Reader/Science Photo Library/LatinStock

William Ervin/Science Photo Library/LatinStock

Joe McDonald/Corbis

gem que ele confere quando dois machos lutam em disputa pelas fêmeas. Na luta, os machos usam o pescoço para golpear o adversário, o que provoca lesões que levam um deles a desistir da luta. Outros autores apontam que a primeira e a segunda vértebras no pescoço da girafa estão posicionadas de modo a permitir a extensão completa do pescoço e que as girafas comem folhagens a mais de 5 m de altura, na extensão máxima de seu pescoço. Em 2007 os pesquisadores Elissa Cameron e Johan T. du Toit publicaram um artigo em que mostram que as girafas geralmente comem folhas das partes mais altas das árvores, inacessíveis a outros herbívoros, e que suas observações apóiam a hipótese de que o aumento do pescoço conferiu uma vantagem seletiva por evitar a competição com herbívoros que se alimentam das partes mais baixas das árvores. O fenômeno é expli-

Fig. 9.7 Ocapi, girafa alimentando-se no alto da árvore, com o pescoço totalmente estendido, e girafas machos em

combate.

Problemas com o darwinismo Darwin considerou a existência de um parentesco generalizado entre as espécies, até mesmo a humana (o que foi difícil de ser aceito na época). Para ele, as espécies estavam relacionadas evolutivamente, ou seja, compartilhavam um ancestral em algum ponto de sua história evolutiva. Mas o principal problema dessa idéia era a falta de uma teoria que explicasse a origem e a transmissão das variações. Darwin não sabia explicar como novos indivíduos (uma girafa com um pescoço maior que o de seus pais, por exemplo) poderiam surgir, visto que os genes, a mutação e a recombinação genética – resultante da meiose e da fecundação no pro-

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Unidade II • Evolução

cesso de reprodução sexuada – não eram conhecidos na época. Argumentava-se contra Darwin, por exemplo, que, de acordo com a teoria da herança misturada, aceita na época, uma nova característica, mesmo vantajosa, tenderia a se misturar com a característica antiga ao longo das gerações em virtude dos cruzamentos entre indivíduos diferentes. Darwin não conseguiu responder satisfatoriamente às críticas, pois desconhecia a mutação e as leis da hereditariedade de Mendel. Apenas com a descoberta dessas leis e o conhecimento sobre mutações é que esses problemas puderam ser resolvidos. Hoje sabemos, por exemplo, que os alelos de


um gene são transmitidos às gerações seguintes sem se “misturarem”. Em linguagem atual, a teoria de Darwin pode ser resumida assim: a partir do momento em que os seres vivos apresentam variações hereditárias (surgidas por meio de mutações e da reprodução sexuada) e que algumas dessas variações afetam a chance de sobrevivência ou a capacidade de reprodução do ser vivo, haverá evolução e a população passará a ser formada por indivíduos adaptados ao ambiente. Além de produzir as adaptações, a evolução pode originar também outras espécies. Atualmente, sabemos que a evolução não é provocada apenas pela seleção natural. Apesar disso, a teoria da evolução deve mais a Darwin do que a qualquer outro cientista, e a teoria atual, que promove uma síntese entre as idéias de Darwin e as novas descobertas, é chamada de neodarwinismo ou teoria sintética da evolução.

Darwin e Wallace As conclusões de Darwin não foram logo publicadas. Ele continuou recolhendo provas e trabalhando em sua teoria por mais vinte anos após a viagem a bordo do Beagle. A esse respeito afirmou:

“A única maneira justa e legítima de considerar a questão é tentando provar se a minha teoria da evolução explica várias classes amplas de fatos”. As “classes amplas” de fatos a que Darwin se referia incluíam, entre outros, a adaptação, a transformação das espécies, a existência de fósseis e a semelhança dos organismos que vivem em ilhas com os que vivem no continente próximo. Em 1858, Darwin recebeu um pequeno manuscrito do cientista inglês Alfred Russel Wallace (1823-1913), intitulado A tendência das variedades de se afastarem indefinidamente do tipo original. Para sua surpresa, Wallace tinha chegado às mesmas conclusões que ele. Um resumo do trabalho de Darwin e o ensaio de Wallace foram publicados em conjunto por uma instituição científica, a Linnean Society of London, mas não despertaram muita atenção. Em 1859 saiu a primeira edição do livro de Darwin, A origem das espécies por meio da seleção natural. Embora alguns cientistas prefiram falar em teoria de Darwin-Wallace, Darwin tem o mérito de ter apresentado imensa série de evidências a favor de sua teoria e, por isso, a teoria da evolução é mais identificada com o nome dele que com o de Wallace.

Evolução e religião Várias religiões (entre elas a católica) aceitam a teoria da evolução. Uma pessoa pode ser religiosa e aceitar que Deus criou o universo e também o processo de evolução. Segundo essa linha de pensamento, a teoria da evolução não entra em conflito com a religião porque a ciência trabalha com hipóteses que podem ser testadas experimentalmente, com fenômenos que podem ser detectados e medidos por instrumentos. A existência de Deus, da alma e do livre-arbítrio e outros temas tratados pela religião não podem ser testados dessa forma; portanto, não podem ser provados nem negados cientificamente. Eles estão fora da abordagem científica e constituem questões de fé. Assim, o ser humano pode ter surgido de outros animais, mas suas características mais importantes seriam espirituais, em vez de materiais, e teriam origem divina. A ciência pode descrever os fenômenos que envolvem matéria e energia e explicar como as coisas são, mas não pode dizer como as coisas deveriam ser, isto é, não nos dá valores éticos.

sociedade

Biologia & No livro Pilares do tempo, o paleontólogo norte-americano Stephen Jay Gould (19412002) considera que ciência e religião são “magistérios não-interferentes”. Para ele, a ciência desenvolve teorias para explicar o universo natural. A religião tenta explicar o universo moral, trabalhando em uma esfera diferente, a dos significados e valores humanos. Essa é a mesma opinião do biólogo americano Francis Collins (1950-), diretor do Projeto Genoma: “O que deve ficar claro é que as sociedades necessitam tanto da religião como da ciência. Elas não são incompatíveis, mas sim complementares. A ciência investiga o mundo natural. Deus pertence a outra esfera. Deus está fora do mundo natural. Usar as ferramentas da ciência para discutir religião é uma atitude imprópria e equivocada” (Ciência não exclui Deus, Veja, n. 1 992, 24 jan. 2007). Para Collins, a teoria da evolução é compatível com a religião, pois “Deus escolheu usar o mecanismo da evolução para criar a diversidade de vida que existe no planeta, para produzir criaturas que à sua imagem tenham livre-arbítrio, alma e capacidade de discernir entre o bem e o mal”.

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Não se deve confundir conhecimento científico e ética. Esse foi um dos erros do movimento conhecido como “darwinismo social” no século XIX, segundo o qual deveríamos adotar uma economia que deixasse perecer os mais fracos em nossa sociedade. Nesse caso, o primeiro erro é supor que a genética e a seleção natural sejam os únicos fatores que influenciam o ser humano, esquecendo que a cultura e as influências sociais são fatores importantes na nossa espécie. O segundo erro é confundir um fenômeno natural, a evolução, com a esfera ética – que trata do que deve ser e não do que é –, extrapolando dos fatos para os princípios éticos e para a complexidade da cultura humana. Assim, se, por exemplo, descobrirmos que os seres humanos têm uma tendência genética para serem agressivos com estranhos, isso não significa que essa tendência seja boa nem que os comportamentos sociais decorrentes dela não possam ser mudados e, principalmente, não devam ser mudados. Pelo contrário, devemos estimular mecanismos para aumentar a cooperação e diminuir as disputas entre os povos. Alguns grupos religiosos, no entanto, discordam da teoria da evolução e defendem, por exemplo, a idéia de que os seres vivos foram criados por Deus exatamente como está escrito na Bíblia, ou seja, eles defendem o criacionismo. Mas a maioria dos cientistas acha que há provas suficientes para aceitar que as espécies evoluíram e que essa evolução ocorreu, em linhas gerais, da forma como a teoria atual a explica. Isso não quer dizer que a teoria da evolução não possa ser cor-

rigida e modificada, como qualquer outra teoria científica. Em seu livro Bilhões e bilhões: reflexões sobre vida e morte na virada do milênio (São Paulo: Companhia das Letras, 1998), o astrônomo Carl Sagan (19351996) afirma que, “se grande parte do universo pode ser compreendida em termos de algumas leis simples da natureza, aqueles que desejam acreditar em Deus podem com certeza atribuir essas belas leis a uma razão que sustenta toda a natureza”. A compatibilidade entre religião e teoria da evolução é defendida nos seguintes livros, entre outros: •F  rancis S. Collins, A linguagem de Deus: um cientista apresenta evidências de que Ele existe, São Paulo: Gente, 2007; • Stephen J. Gould, Pilares do tempo. Ciência e religião na plenitude da vida, Rio de Janeiro: Rocco, 2002; • John F. Haught, Deus após Darwin: uma teologia evolucionista, Rio de Janeiro: José Olympio, 2002; • Kenneth R. Miller, Finding Darwin’s God: a scientist’s search for common ground between God and evolution, New York: Cliff Street Books, 1999; •A  rthur R. Peacocke, Evolution: the disguised friend of faith?, West Conshohocken: Templeton Foundation, 2004; • J ohn C. Polkinghorne, Science and providence: God’s interaction with the world, West Conshohocken: Templeton Foundation, 2005; • Michael Ruse, Can a Darwinian be a Christian: the relationship between science and religion, Cambridge: Cambridge University, 2001.

Aplique seus conhecimentos Leia o texto abaixo e responda às questões.

Interpretando Darwin No seu livro A origem das espécies, Charles Darwin refere que “[...] uma mudança acidental no tamanho e na forma do corpo, ou na curvatura e tamanho da probóscide, pequena demais para ser notada por nós, poderia favorecer a abelha ou outro inseto, de tal maneira que um indivíduo com essa característica poderia conseguir seu alimento mais rapidamente e

ter maior chance de sobreviver e deixar descendentes. Esses descendentes provavelmente herdariam essa tendência. [...] Assim, posso compreender como uma flor e a abelha podem, lentamente [...], modificar-se e tornar-se adaptadas uma à outra através da constante preservação de indivíduos que apresentam ligeiras modificações em sua estrutura”.

1. Que fenômeno origina o que Darwin chama de “uma mudança acidental no tamanho e na forma do corpo”? Ele sabia explicar como mudanças desse tipo aparecem?

2. A que processo Darwin se refere no trecho “[...] um indivíduo com essa característica poderia conseguir seu alimento mais rapidamente e ter maior chance de sobreviver e deixar descendentes”?

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Unidade II • Evolução


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