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O Homem Bom Roberto Menezes Hoje, quem diria, vou me casar. Já tinha perdido a esperança. Quando você passa dos cinquenta esse negócio se torna uma besteira, coisa de jovenzinha ridícula. Hoje acordei ridicularmente feliz por jájá poder entrar na igreja e dizer sim, e todas essas outras coisas. Quem diria. Quando eu saí de Mari, com dezessete anos, e vim pro Valentina, grávida de dois meninos, achei que minha vida seria essa mesma, de dona de casa, senhora de bem, um senhorinha de bem, que ia engordar, ficar larga até não caber mais nenhuma roupa em mim. O pai dos meus meninos, Mauro, gostava da minha sopa, bebia três pratos todo dia que chegava do trabalho. Mauro era cobrador de prestação, passava o dia pelos lados de Mangabeira, Geisel, Grotão. Não bebia, dizia que ia ser crente um dia, o único defeito dele era correr demais, Mauro parecia um ator de cinema quando acelerava a Yamaha nas ladeiras. E tinha medo, mas ia. Isso era a única aventura que tinha com ele. Mauro era queto demais. Quando ele morreu, quando a moto dele entrou embaixo do Setusa, eu não senti muita falta dele não. Talvez só do sexo e das colchas chenille que sempre trazia de graça. Pra ser sincera, tenho saudade mais das colchas. Mas o homem bom que eu quero falar não é Mauro, não quero falar mal de quem já se foi, mas ele só fez a sua obrigação. Quem mandou me comer? Eu tava queta na casa de minha mãe, aí ele foi assobiar pra mim de cima da moto. Tem mulher que resista a uma moto? Mauro não só fez mais do que sua obrigação. Ele morreu e deixou os gêmeos pra eu criar. Se pra criar um, pobre é ruim, criar dois de uma tacada só é uma desgraça. Deve ser por isso que os índios matam um dos gêmeos. Pobre é besta, gosta de sofrer, adoram fantasiar os gêmeos com a mesma roupa e mostrar pelas ruas de bairro. Nem bolsa família existia nessa época. Se tivesse, pelo menos com eles dois, eu ganharia dobrado. O que eu passei foi uns maus bocados, pelo menos a casa era minha, lutei até onde pude pra não precisar vender, nem trabalhar eu podia com duas desgraças em casa pra criar. Se eu me arrependo dos meus filhos? Na época, sim, hoje não. Toda mãe tem que amar os filhos, né? Então, tive que amar de todo jeito até pegar o jeito e começar a amar de verdade. Não sou uma pessoa boa. Pessoa boa, um homem bom era Antônio. Reconheci


isso quando bati os olhos, no dia que fui me oferecer pra ser empregada na casa dele lá no Expedicionário. A primeira bondade foi em me aceitar mesmo sabendo dos dois pirralhos. Eu tinha que deixar eles na creche lá em Jaguaribe, era a única na cidade que pegava criança sem ter dois anos ainda. Não vou aqui enumerar as bondades de Antônio, nem tempo eu teria pra tanto. Naquela casa, tinha muito trabalho pra fazer, e eu fazia com gosto. Não por causa da mulher dele, Isolda, a coitada, só vivia doente, e com medo de sair na rua pra não ser assaltada. Inda bem que sou uma pessoa morena, não pareço gringa feito ela. Ela tinha razão pra não sair de casa. Ficava vendo revista de moda e criando a filhinha dela, a linda Sandrinha, a cara da mãe. Foi uns dois anos depois que Antônio se assanhou pro meu lado. Ele tava me dando uma carona pra eu pegar os meninos na casa de minha comadre num dia que não tinha creche. Minha comadre ficou até preocupada com a minha demora. É, né?, duas horas no Motel passam tão rápido que a gente nem percebe. Dei uma surra de buceta em Antônio e ele se viciou em mim. Também com ele era fácil, pense num homem bom de cama. É uma coisa viu, quem vê a cara dele nunca iria saber o quanto ele era bom, melhor assim! Naquele dia, eu tava doida, eu não tinha ido com outro homem depois que o falecido faleceu. Continuei trabalhando como se nada tivesse acontecido. De vez em quando, a gente dava uma fujida, isso com todo respeito à Isolda, bichinha, que Deus a tenha. Me tornei da casa, até trazia os meninos pra brincar com Sandrinha, Antônio gostava, dava presente, levou até pra ver o filme dos Trapalhões no cinema. “Ele queria era um filho homem”, um dia me confessou Isolda. Não, não, acho que não era isso. É o que o coração de Antônio é grande demais pra um filho só. Quando os meninos chegaram na idade de ir pra escola, ele conseguiu duas bolsas de estudo, foi o que ele disse, acho que não exista bolsa nenhum, acho que foi ele mesmo que pagava tudo. Os meninos foram estudar junto com Isolda no Pio Onze. Ele comprou farda, bolsa, lancheira, livro, material escolar. Eu, é óbvio, agradecia tentando fazer o melhor que eu fazia. Eu era uma boa lavadora de prato, um ótima passadora de roupa, mas a minha especialidade sempre foi fazer um homem gemer sem sentir dor. Então é isso, Antônio não enjoou de mim, nem Isolda da minha sopa. Fiquei lá até os meninos se formarem. Sandrinha fez


vestibular pra Arquitetura. Os meninos quiseram virar bombeiros, eu queria que fossem médicos, Antônio aprovou a decisão deles. Meus filhos são felizes, cada homão, cada um com uma lapa de braço. Foi nessa época mesmo que Isolda pegou lá a doença dela, nem durou um ano. Antônio entrou de luto. Eu saí do emprego. Com as casas, troquei a casa por uma no Ipês. Os meninos davam a metade do que ganhavam pra mim. Fiquei assim por um tempo. Eu sabia que Antônio... dei um tempo a ele, eu sabia que ele viria me procurar. Não deu outra. Toda terça e quinta no começo da tarde ele chegava. Eu já deixava a cama preparada. Comprava os óleos que ele gostava. Vixe, que viúvo gostoso. Ele me dava dinheiro pra eu me cuidar, pagou a academia. Comecei a puxar ferro todo dias, endureci as coxas. Antônio gosta que fique por cima, e mande ver no agachamento. E com ele, tem que ter preparo, ele não gosta de coisa lenta. Ele também pagou a lipoaspiração, depois o silicone. “Pra que isso, mãe?”, os meninos não gostaram, quero lá saber. Todo dia eu só acordava pra isso: academia, praia, salão. Tem coisa melhor do que isso? Nas horas vagas, eu leio. Tenho que me cuidar com isso também. A japonesa baixinha da aula de Moai Tai me disse uma coisa interessante. Que toda mulher tem que ler muito e fazer muito sexo. Tem que fazer a máquina funcionar! Ler muito pra não pegar Alzheimer, muito sexo pra não ter câncer. “Tem que deixar o caminho livre de mato, tem que usar o caminho”. Japonesa inteligente. Acho que todos os japoneses são inteligentes. Eu soube que eles leem muito, e adoram uma putaria. Assim é fácil passar dos cem anos de idade. Quero viver mais de cem anos. Não quero ser igual Isolda, a coitada, não trepava, e só lia coluna social. Eu leio, acredita, cinco livros por mês. E faço uso do sexo todo dia. Bato uma siririca quase sempre quando me acordo. Não tenho mais filho pra acordar, pra perturbar o juízo. Coloco o DVD de Daniel e bato uma siririca gostosa. Gosto da manhã, quando vou dormir não faço não. É que fico muito agitada depois. Gosto de dormir ouvindo a voz de Antônio no celular dizendo se eu tou bem, como foi o meu dia. Por que ele quis casar agora, depois de todo tempo? Essa é a pergunta? É fácil, a gente fez um acordo. Eu lá, ele cá, até que um venha precisar um do outro. Mais fácil assim. Ele não precisa ter a obrigação de ter uma mulher em casa. Mulher, eu sei, enche o saco de qualquer


homem, perturbando no juízo dele, desde a hora que ele entra em casa, até ele sair. É um prazer, sei lá, eu nunca quis isso. Sou uma mulher moderna. Gosto de ler. Ver novela. Academia. Fazer unhas e só. Homem não entra nisso. Agora vou me casar porque ele quer, sabe. Talvez ele precise de mim mais perto dele por algum motivo. Quem sou eu pra questionar o desejos de Antônio? Só tou assim meio ansiosa porque eu não queria deitar na mesma cama que a mulher dele deitou, ainda tou vendo isso.


O Homem Bom - Roberto Menezes