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MEDOS

( Páginas 24 a 26)

“Às vezes a Lia diz: vocês já notaram como a Beatriz tá ficando

parecida com a Letícia? Vou ao

espelho pra ver se ele acha a mesma coisa, mas ele não acha nada. Pego as fotografias de minha mãe no quarto da Rosana e fico procurando eu nela e ela em mim. Se ela não tivesse entrado no redemoinho.... Se desse pra ir desmanchando a vida, que nem a minha vó desmancha um chapéu que fica torto, ou uma blusa de linha que não deu certo, eu ia desmanchando, desmanchando a vida da Letícia , até voltar lá pra antes de tudo aquilo acontecer. Nunca que eu ia deixar ela ser um passarinho que cai dentro de uma flor carnívora. Eu não tinha nascido, como é que eu ia deixar ou não deixar, meu Deus? A vida é que não tinha que ter deixado. Mas, a vida deixa tanta coisa acontecer, que nem sei. O maior medo que eu tenho é da vida me deixar sozinha. Morrerem todos aqui em casa e só sobrar eu. O que é que eu ia fazer? Eu tinha que trabalhar na casa da Lides pra não morrer de fome. Ia ter que parar de estudar porque a Lides não gosta de empregado que estude, diz que estudo atrasa o serviço, que escola é só pra uns. Melhor era sair pelo mundo que


nem os personagens das histórias que a minha vó conta procurar um destino qualquer pra mim, que destino de escravo ninguém merece, muito menos quem fica sozinho na vida. Penso na Cláudia, da terceira série, que perdeu a família inteira num acidente e foi se criar com a madrinha. Se eu tivesse uma madrinha de fora, não aqui de casa, e ficasse sozinha, eu ia com ela. Mas a minha madrinha é a Rosana. Se todo mundo que tá perto da gente morresse só de velhice, a gente não precisava ter medo de ficar sozinho na vida. Sempre ia ter alguém por perto. Mas, como diz a Leonor, pra morrer basta estar vivo. Tem mais perigo no mundo do que outra coisa. Toda hora é hora de perigo. Bala perdida. Quantos que morrem assim, principalmente na cidade. Até raio. O tio da Siloé não morreu de raio? Até uma máquina de cortar grama. Não se foi o pai do Vitinho, eletrocutado na máquina, às quatro horas da tarde? Até uma guitarra. Teve um músico que também morreu eletrocutado quando foi tocar a guitarra. E no banheiro? Quantos caem e batem a cabeça no piso e morrem no meio do banho? O marido da dona Glassi não foi assim? E de assalto, então? Às vezes matam a família inteira. Ah, meu Deus, e se eu tô na escola e vêm os bandidos e


matam a minha família!

Eu chego e vejo a casa

arrasada, eu sozinha, o que que eu faço? _Cada um tem a sua hora de partir

- a minha vó

diz. _ Mas, se essa

hora de partir for a mesma pra

todos aqui em casa, menos pra mim, hein? O que será que será da minha vida? Salve rainha, mãe de misericórdia, eu decorei só a primeira linha, mas, mesmo assim, salve a minha família. Todos os santos do oratório da minha vó salvem. Os anjos do quarto da Rosana, os gordinhos e também os magrinhos, salvem. As bruxas e os oráculos da Leonor, salvem. Cigana Joana, madrinha da vila, salve. Tudo que é coisa que existe e tem o poder de salvar, salve a minha família da chegada da Hora e me livre de ficar sem ninguém no mundo e cair na mão de gente malvada”.

MEDOS - trecho do livro Beatriz em trânsito  

Beatriz em trânsito, de Eloí Bocheco (Dimensão, 2006) Ilustrações de João Lin

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