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CAPÍTULO I CONSEGUI UMA VAGA! “Eu queria estudar na classe da Letícia, mas caí na turma de outra professora. Falei pra supervisora que eu queria ir pra sala da Letícia e ela, a supervisora, disse: _ Ah, Luís, a tua profe é bem legal! _ Mas a Letícia é mais! Deixa eu estudar com ela? A supervisora disse que ia ver se a sala

não estava muito

cheia. Não estava. Mudei correndo antes que ela me chamasse de volta. As aulas da Letícia mudam bastante de jeito. Uma hora é pra contar da gente. Outra hora é pra inventar. Tem dias que são para “sair de casa” e visitar coisas que nem museus, planetários, feiras de livros. Tem horas que é pra ouvir. Tem vezes que é pra ler em voz alta pra aprender a ouvir a própria voz. Sabem que é legal esse negócio de ouvir a própria voz? Eu nunca tinha me ouvido e gostei. Parece que a gente aumenta de tamanho ouvindo a própria voz. Todo mês a Letícia faz mutirão poético. É assim: a nossa turma vai nas outras classes ler poesia. Só nas salas onde o professor diz que não, aí a gente não entra, e aquela turma fica sem poesia. Quando a gente aparece na porta com os livros de poesia na mão, todo mundo já faz cara de contente e se apronta pra ouvir a leitura. No final, até aplaudem e, às vezes, pedem pra ler de novo. No começo, a diretora da escola não gostou muito dessa história de mutirão, disse que dava muita bagunça; ela prefere aula na sala com todo mundo quieto, mas a Letícia tem muita paciência para explicar mil vezes um assunto para quem não entende, e


convenceu a diretora que poesia não causa bagunça na escola; mas a falta de poesia, sim. Disse que escola sem poesia é que nem uma casa sem pão. Depois do primeiro mutirão, a diretora parece que começou a achar graça em poesia. Não sei como alguém pode não achar graça em poesia! A Letícia tem um balaio que foi feito pelos índios guaranis do Morro dos Cavalos. É o maior balaio que eu já vi na vida. Esse balaio é cheio de livros e fica num canto da sala. Todos os alunos da Letícia pegam livros no balaio pra ler nas horas de leitura ou pra levar pra casa. Quando a biblioteca abrir e tiver uma pessoa para cuidar, vamos pegar livros de lá também. Houve um dia em

que escrevemos cartas para os escritores

que a gente leu. Escrevi pra Cora Coralina, que já – eu ia dizer morreu, mas a minha mãe fala para dizer faleceu, que é mais respeitoso. Querida escritora Cora Coralina, A história do prato azul-pombinho foi muito bem contada por você. O prato guardou doces que eu nunca provei e nem sabia que existiam. Cocada-de-fita eu conheço e, inclusive, vendo essa cocada nas ruas. Eu sei que não foi você que quebrou o prato, e todos que lerem a história vão ficar sabendo que você é inocente. Que lance mais sinistro esse de pendurar o caco da louça quebrada no pescoço né? A minha mãe leu a história e disse que, na casa da minha vó, também faziam isso com quem quebrava a louça.


Tem uma parte onde você diz que ouvia com os olhos, com o nariz, com a boca a lenda que a tua bisavó contava, e que estava desenhada no fundo do prato azul-pombinho. Acho que eu também ouvia as histórias do meu tio assim, e quase viro no avesso pra ouvir as histórias que a Letícia conta. Eu queria ser escritor, mas a minha mãe diz que preciso comer muito pirão de farinha pra conseguir isso. Acho que preciso é comer muita história legal, tipo esta do prato azul-pombinho, e ouvir as histórias com olhos, ouvidos e boca que nem você. Tenho um prato que ganhei de minha madrinha, que é apanhadora de maçãs nos pomares. Sempre olho o desenho que tem no fundo desse prato, mas não é desenho de lenda, não. O fundo dele é de maçãs, e ela deve ter escolhido esse tipo de fundo porque vive apanhando maçãs. Ainda bem que a tua bisavó contou a história da princesa Lui antes de quebrar o prato. A história termina bem, mas o prato não né? Espero que no céu tenha bastante livros de histórias pra você ler com olhos, ouvidos e boca e ficar feliz para sempre. Beijos e abraços de seu amigo e leitor: Luís Ângelo de Oliveira”


COMENTÁRIOS SOBRE OLHA A COCADA!

"Olha a Cocada é envolvente, emocinante, facinante! E que narrador! Dá vontade de "trocar umas ideias" com ele, sobre Cecília Meireles, Lygia Bojunga, Cora Coralina... Só

a

sensibilidade

de

alguém

que

vivenciou

intensamente a relação professor, aluno, escola, sociedade, de ambos os lados, poderia ter dado vida a ele". Minhas reverências. Heliete Millack (http://leituracatarinense.blogspot.com/)

"A tua linguagem é muito fluente, altamente oral e apuradamente

despretenciosa

(sem

nenhum

beletrismo), prende o leitor e de certa forma lhe dá a liberdade imensa e gratificante de achar que ele é o autor do livro". Dirce Waltrick do Amarante ( UFSC) ( www.centopeia.net)


"Ah, Eloí, como teu texto é elegante na imaginativa simplicidade das coisas. Lindo de se ler, de se ouvir, de se degustar. Adorei teu livro, tuas personagens. Quando ele chegou em minha casa, o livro, deixei-o em repouso esperando um momento especial. E... separei-o para a viagem. Vim degustando-o, devagar, ruminando as palavras para que elas rendessem, para que o livro não terminasse. E, ao terminar (q pena!!!!!), em verdade não termina, fica em ecos, latejante de lirismo, beleza, poeticidade, vida do avesso e do direito". Maria Salete Daros de Souza (UNIFEBE)

"Acabei de ler: é doce, delicado e gostoso como uma boa cocada. Recomendo". Georgina Martins (http://versoeprosa.ning.com/profile)

"É com os olhos rasos d'água que termino a leitura de Olha a Cocada! Obrigado por escrever um livro tão belo". Walther Moreira Santos ( http://wmsbooks.blogspot.com/)


O diário do menino do Morro da Neblina que vende cocada é puro encantamento". Lícia Brancher ( http://contraponto.tv/produtora.equipe.php)

"Um livro delicioso para se ler em voz alta. Diria mesmo que é um livro oral, muito bem escrito. Leitura prazerosa para pequenos e grandes. Chorei ao "ouvir" a voz das crianças. É comovente e poético". Neusa Maria Delavecchia

"Me encanta a linguagem do livro. O livro voa, a linguagem voa, e as crianças voam através das palavras, pois é com o poder das palavras que elas promovem a superação". Rita Kretzer de Souza

"Um livro que dói e grita. - literário do começo ao fim. Delicado e forte. Adorei!" Fabrício Pegoraro


"Amei Olha a Cocada! pela verdade da história, pelas nossas cidades ali representadas, pela saída dada aos personagens. Encontrei no livro a essência de Eloí". Helena Maria Werner

"Cada livro que você escreve é melhor. Amei. Disse muito com linguagem refinada e acessível. Você falou do preconceito que domina toda gente, inclusive eu. Ainda tenho alguns preconceitos. Eu também corria na frente das colegas, lá no Uruguai, para que não ouvissem a gritaria do meu pai. É incrível você escrever tudo o que nós sentimos, mas calamos". Ana Schirley Favero

I capítulo do livro OLHA A COCADA!, de Eloí Bocheco  

OLHA A COCADA! ( Movimento, 2011)

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