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abril | 2013

Índice Palavra do Dirigente

Histórias da ATUPO

Palavra do Dirigente 02

02

«Os acarajés da Baiana»

Doutrina de Umbanda «Heranças»

03

Entrevista

04 05

«Pai Cláudio de Oxalá»

Reportagem «A magia do som divino: a voz dos Orixás»

06 07

Uma Lenda «Nanã»

08

Sem folha não há Orixá «Cana-do-brejo»

08

Saudações Irmãos! Esses dias, em função do que tenho visto, acompanhado e vivido, escrevi uma analogia sobre o guerreiro militar e o Homem (guerreiro do dia a dia). Procura diferenciar o guerreiro do covarde e lembro que não pretendo ofender ninguém e sim fazer com que reflitam, pois também eu refleti e, por vezes, me vi no papel de ambos! Mas a isto chama-se querer evoluir, crescer e assumir nossas posturas a fim de sermos verdadeiramente o "Guerreiro"! Guerreiros lutam! Vençam ou percam, serão sempre guerreiros, pois não desistem. Por vezes, seremos guerreiros caídos e teremos um companheiro de guerra para nos dar a mão e ajudar-nos a levantar. Outras vezes, estes mesmos companheiros e amigos de luta estarão tão concentrados em suas lutas, que não se aperceberão que estamos caídos e a precisarmos de ajuda. Deveremos contar sempre connosco e não culparmos nenhum companheiro de não nos ter ajudado no momento em que precisávamos, pois houve vezes em que eles também estavam caídos e nós não demos a mão. Não porque não queríamos, mas sim porque estávamos ocupados em nossas lutas. São assim os Guerreiros... Mas aqueles que se vestem de Guerreiros, se dizem guerreiros e nunca lutam, não ajudam seus companheiros, mas ainda assim se proclamam Guerreiros de boca cheia, na verdade são apenas "covardes" que fogem de suas lutas e ainda querem que lutem por eles as suas próprias batalhas!! Que papai Oxalá nos dê discernimento para encontrarmos o seu e o nosso mundo de Luz!!! Pai Cláudio

Histórias da A.T.U.P.O. Ficha Técnica

Equipa técnica: Diretor do Jornal Cláudio Ferreira

Revisão Mary Nogueira

Diretor de Conteúdos Cláudio Ferreira

Fotografia Fernando Silva Miguel Faria Paulo Fernandes

Diretor Comercial Frederico Castro Chefe de Redação Mary Nogueira Redação Cláudio Ferreira Bernardo Cruz Fernanda Moreira Frederico Castro Frederico Marques Leonel Lusquinhos Mary Nogueira Vitorino Camelo Anabela Loureiro

Edição Gráfica Bernardo Cruz Paulo Fernandes Contacto fundamento@atupo.com

A redação do Jornal Fundamento segue as normas do novo acordo ortográfico, salvaguardando as opções ortográficas dos autores convidados.

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Os acarajés da Baiana O

Sr. Coquinho é um baiano que gosta muito de contar pequenas histórias para chegar ao coração das pessoas pois, como ele diz, “uma história perdura e é passada aos outros, uma conversa por mais interessante que seja é mais facilmente esquecida! Ainda nas palavras dele, “O conhecimento deve ser transmitido aos outros porque se assim não for, morre com a pessoa. A evolução dá-se pela passagem de testemunhos. Claro que nem todos são bons, mas isso cabe a cada um de nós utilizar o conhecimento, conforme o nosso livre arbítrio!” A mais recente história contada por Sr. Coquinho foi a história da Baiana que amava fazer acarajés (bolinhos de feijão fradinho): “ Há algum tempo atrás, numa localidade da Bahia, vivia uma baiana que tinha um negócio caseiro de confeção de acarajés. Ela era uma senhora muito humilde e alegre e, enquanto

preparava todos os ingredientes para fazer os seus bolinhos, adorava cantar e todas as pessoas a conheciam pela alegria e satisfação com que os fazia. Apesar de ter bastante clientela, não poupava no preço das cebolas, pois segundo ela, estas deveriam ser as mais suculentas e saborosas, mesmo que o preço fosse um pouco mais elevado, nem de escolher os alimentos mais frescos e saborosos, tão pouco nas quantidades ou no amor com que os fazia. Todos os dias, colocava o feijão fradinho a demolhar em água e, quando prontos, para lhes tirar a “pele”, descascava - os um a um. No decorrer desse trabalho, a baiana cantava com amor e nunca se sentia saturada ou cansada perante tal tarefa minuciosa. Por fim amassava num pilão o feijão fradinho, moldando a massa em pequenos bolinhos, fritando-os de seguida em azeite. O negócio foi prosperando, pois, como ela gostava de apregoar, os seus acarajés eram os melhores da região e quiçá até do mundo inteiro. E tinha razão. Tinha clientes não só da sua região como de outras regiões, tal era a fama que aqueles acarajés tinham. Em cada um, ela punha todo o seu amor e alegria e as pessoas gostavam de

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ser atendidas pela baiana, pois os vendia com a mesma alegria com que os fazia, contagiando a todos que a procuravam. A baiana foi amealhando um dinheirito e conseguiu pôr o seu único filho a estudar na Capital para ser doutor. Quando este terminou o curso, regressou à sua terra natal, e ao ver o tamanho dos acarajés que a mãe fazia e o tempo que ela perdia na sua confecção, começou a explicar-lhe que estavam em tempo de crise e que também ela deveria fazer algumas poupanças. Deveria comprar as cebolas mais pequenas e baratas pois, segundo ele, o sabor seria o mesmo e os clientes não iriam notar. Que, em vez de picar o feijão no pilão, deveria comprar uma dessas máquinas mais modernas que picam uma quantidade maior de feijão, sem haver a necessidade de os descascar um a um. A mãe que amava muito o seu filho acabou por fazer o que ele queria. Notou que, de facto, com as ideias do filho, ela não perdia tanto tempo a fazer os acarajés. Pouco a pouco, a baiana foi deixando de cantar e de pôr toda aquela alegria a que

estava habituada enquanto descascava o feijão; os acarajés grandes e apetitosos começaram a ficar cada vez mais pequenos e sem aquele sabor tão agradável de anteriormente o que, com o passar do tempo, levou a que os clientes deixassem de comprar os seus acarajés. E o negócio faliu. Quando as suas vizinhas lhe perguntavam o que havia acontecido, a baiana respondia, “Afinal o meu filho, que é Doutor das economias, é que tinha razão! A crise é que acabou com o meu negócio e os fregueses deixaram de comprar, porque não têm dinheiro” Sr. Coquinho, depois de terminada a história, disse, “a baiana deixou de acreditar nela mesma, influenciada pelo filho, pois como ela dizia, afinal ele é que sabia das coisas, afinal ele estudou na capital para ser doutor das economias e sabe destas coisas. Nunca parou para pensar que o que arruinou mesmo o seu negócio foi o facto de ela deixar de acreditar em si mesma. Ao deixar de cantar, deixou de manifestar a sua alegria que tanto contagiava os que por ali passavam, que não lhe compravam os

Heranças A

palavra herança tem um conceito muito vasto. Designa um conjunto de bens, direitos e obrigações que, à morte de uma pessoa, são transmitidos aos respetivos herdeiros, pela via da sucessão. Desde uma casa, um objeto ou uma sucessão ao trono tudo herdamos. Quando nascemos, ouvimos comentários de que “herdou o sorriso da mãe” ou “os olhos do pai”. Pode então também ser de ordem genética, que se processa através da hereditariedade. O conjunto de valores transmitidos de geração em geração que resulta de interações de ordens várias, através do contacto com outros povos, outras culturas, e que leva a modificações na

The Golden Rule de Norman Rockwell, 1961-pintura a óleo

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acarajés apenas para os comerem, mas pelo amor com que ela os fazia!” Não esqueçamos então que se nos guiarmos pela nossa fé e continuarmos a lutar pelos nossos sonhos com alegria, com determinação, com amor, contagiaremos tudo à nossa volta e faremos da tempestade uma brisa que nos ajudará a rumar em direção ao arco-íris! Anabela Loureiro

Doutrina de Umbanda

identidade de um grupo de uma cultura, de uma religião é a chamada herança cultural. A Umbanda, tão rica em fundamentos e rituais, é a religião herdeira, por excelência! No decorrer do processo de colonização do Brasil, da fusão entre africanos, europeus e indígenas, surge essa religião que, embora com identidade própria, assimila também um conjunto de heranças culturais, linguísticas, sociais e religiosas. Dos africanos, herdou o canto, a dança, os instrumentos, termos em iorubá, a figura do preto-velho, símbolo do negro escravizado, do sofrimento humano e da sua libertação e o panteão dos Orixás. Dos índios, recebeu o uso das ervas e do fumo, a figura do Caboclo, símbolo da vida em comunhão, harmonia com a natureza e o seu culto; dos europeus, por um lado, do kardecismo, que por sua vez herdou da filosofia oriental, o conceito de evolução espiritual, de kharma e reencarnação, o aprendizado mediúnico público; por outro lado, os princípios do cristianismo, o conceito do livre-arbítrio, o conceito do bem e do mal. Dessas heranças, advém não só o sincretismo entre os Orixás africanos e os santos católicos, mas também um sincretismo entre os deuses cultuados pelos índios, que representavam as diferentes manifestações da natureza e os Orixás das diversas nações africanas que, embora cultuados como forças da natureza, eram também divindades

associadas a antepassados ancestrais deificados, depois da sua morte. Este sincretismo resulta da convivência entre negros e índios nos quilombos, lugar de refúgio dos escravos negros fugidos das senzalas, mas onde a presença de índios era significativa, tendo-lhes transmitido os seus conhecimentos e o seu culto à natureza, permitindo-lhes assim aprender a sobreviver no mato. Hoje, na Umbanda, todas essas heranças se manifestam quer nos seus princípios, quer nos seus fundamentos, quer nos seus rituais, onde os Orixás não são cultuados só enquanto divindades, como acontece nos vários cultos e religiões afro descendentes, mas energias, manifestações da natureza, irradiações divinas enquanto geradas, criadas por Deus! Deste poli-sincretismo, deste conjunto de heranças resulta a Umbanda, uma religião tão diversificada e universal, uma vez que abraça princípios decorrentes de tantas outras religiões e cultos, mas detendo os seus próprios princípios, fundamentos, rituais! Contudo, apesar de tão diversificada, de tão rica, Ela é única, singular, indo de encontro às dúvidas e anseios de cada um que a procura, sem distinção de raça, cor ou credo, tratando a todos como iguais, mas ao mesmo tempo únicos e especiais! Mary Nogueira www.atupo.com


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09 abril | 10 | 2010 2013 Setembro| Outubro | 2010

PAI CLÁUDIO DE OXALÁ

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Fundamento esteve à conversa com Pai Cláudio de Oxalá, sacerdote, médium, dirigente espiritual do Templo de Umbanda Pai Oxalá, sito no distrito de Braga, norte de Portugal, a fim de conhecer e divulgar mais sobre si, sobre o tipo de apoio espiritual e social prestado pela sua Casa a uma comunidade umbandista que tem vindo a crescer! F: Como surgiu a ATUPO? PC: Bom,a A ATUPO nasce com a minha vinda do Brasil. Quando eu chego aqui, sinto da parte de algumas pessoas próximas, familiares, alguns amigos a necessidade de algum esclarecimento, de algum aconselhamento, a necessidade de um encontro com algo maior e começo a fazer um trabalho de Umbanda na casa de minha mãe. F: Que idade tinha na altura? PC: Tinha 21 anos. F: Uma responsabilidade grande para um jovem de 21 anos… PC: Mas eu já era pai pequeno na casa de meu Pai de Santo João Carlos, perto da estação de metrô Bresser, em S. Paulo, no Brasil. E quando vim para Portugal, começo a chamar o S. Pé de Vento, o baiano que trabalha comigo, começam a aparecer muitas pessoas e o trabalho vai crescendo… Depois encontro com um grupo numa linha mais espírita, mas que tinha um preto velho na sua corrente. Quando souberam do meu trabalho, quiseram conhecer-me, estudar mais um pouco da Umbanda e começamos então a trabalhar juntos. No início, os trabalhos feitos foram no sentido de os preparar, desenvolvê-los, ensinar aquilo que eu sabia do culto da Umbanda e depois disso, como disse, começamos a trabalhar juntos. F: Cresceu de tal forma que foi necessário criar-se uma associação. E enquanto associação, que papel, que importância ela tem na comunidade onde se insere? PC: Ela ajuda quem a procura, enquanto pronto-socorro, quando a pessoa tem problemas que não consegue ou não sabe como resolver e acaba procurando a nossa Casa. Outras pessoas vão por curiosidade, outras movidas pela vontade de saber o que é uma religião espiritualista e outras ainda para saber um pouco mais sobre a sua espiritualidade. A Atupo insere-se também na comunidade através da sua ação social, prestando ajuda a famílias que estão desempregadas. Essa ajuda se manifesta através da Cesta Básica, que se traduz na entrega mensal de alimentos e na www.umbanda.pt

tentativa de reinserir as pessoas no mercado de trabalho, através da Bolsa de Emprego e com um grupo chamado “Convivendo com o Mundo”, cujo objetivo é ouvir as pessoas para ver quais são os seus reais problemas, a fim de poder ajudá-las. Então, o líder de cada grupo da ação social vai tentando aproximar-se das pessoas que estão à frente das famílias, o marido ou a esposa, para ver qual a verdadeira dificuldade deles em encontrar emprego, se é porque não querem, ou se realmente deixaram de acreditar na vida, na possibilidade de, através do seu esforço, conseguirem ultrapassar os seus problemas. Muita gente deixa de acreditar nisso… F: Então podemos dizer que é um trabalho paralelo à ajuda espiritual que é prestada… PC: Não! Não é um trabalho paralelo. É espiritual do mesmo jeito, porque todos os planos estão interligados. Senão vejamos, as pessoas buscam auxílio para diversas situações: em questões materiais, porque têm dificuldades diárias que vão encontrando para subsistir, para viver; em questões emocionais, onde as pessoas não conseguem se valorizar, amar-se a si próprias. Então nós, enquantos Umbandistas, temos a função de ensiná-las a encontrar o seu amorpróprio, para que depois possam ser amadas ou que possam amar, abrindo-se para o mundo, acreditando nelas próprias, levá-las ao autoconhecimento, e, consequentemente, ao seu equilíbrio! Através desse equilíbrio, elas aprendem a amar não só a si , mas também ao próximo, a partilharem. Costumo dizer que o lema da Casa é “Tudo o que fazer, fazer com Amor para o Mundo ser Melhor!” Acreditamos que se a pessoa que nos procura, levar com ela uma semente de fé, uma semente de amor, de partilha, de verdade e se ela sentir que Aquilo que nós damos é realmente honesto e sincero, essa pessoa vai conseguir refletir essa mensagem lá para fora. F: Para fazer esse trabalho, com quantos médiuns conta? Tem as pessoas suficientes? PC: Tenho! Hoje temos um corpo mediúnico de mais ou menos oitenta pessoas, onde treze, catorze médiuns são de incorporação. Os médiuns da Casa são formados através de muita doutrina, giras de desenvolvimento e, para estarem prontos para trabalhar com pessoas (consulentes), têm de ter os seus guias bem firmados na sua coroa, ou seja, têm de estar em plena harmonia com o Ser espiritual, caboclo, preto-velho, baiano, com as suas entidades. Só após dois ou três anos, eles podem estar a trabalhar, dentro da corrente, como médiuns de incorporação, prontos e preparados para atender as pessoas que vêm em busca de ajuda. F: Já está a responder de certa forma à próxima questão que é, enquanto dirigente, quais as suas principais preocupações com a formação e desenvolvimento de seus médiuns? PC: A Fé para o médium é uma das coisas mais importantes. Essa harmonia entre o médium e o Divino tem de ser muito forte. É um trabalho de entrega, de amor pelo próximo e não de

Entrevista vaidade. Vemos muitas vezes médiuns cuja principal preocupação é receber a sua entidade, saber o seu nome; a preocupação de ouvir o que as pessoas têm a dizer sobre essa entidade, se o que ela falou foi bonito, interessante, como é que ela andava, como foi o brado do caboclo… Mas não é isso que me interessa, se o caboclo vem de uma maneira ou de outra …o que me interessa é saber se realmente o médium partilha com o seu guia o princípio da responsabilidade, do trabalho a ser feito naquela Casa, a consciência de que há pessoas que vão chegar com diversos problemas, umas que perderam filhos, outras que perderam o emprego, outras que perderam os seus amores, outras que procuram a sua espiritualidade e não sabem como encontrar…tem de haver uma comunhão entre essa Entidade e esse médium, em que o médium comungue disso tudo, para que a ação do Guia na Terra seja plena, objetiva e totalmente solidária com o problema da pessoa que procura a Casa. F: É nesse sentido então que dirige a formação e desenvolvimento dos seus médiuns. São já muitas as pessoas que procuram a Umbanda. Mas sente que, tal como no Brasil, exista em Portugal um sentimento de intolerância e preconceito em relação à Umbanda? Como vê a aceitação da religião pelo povo português? PC: Eu vejo uma aceitação totalmente natural. Não vejo esse preconceito, essa intolerância como há no Brasil. Não temos, como vi agora na minha curta estadia lá, grupos de expressão ou uma mídia que ataquem a Umbanda. Como qualquer outra religião, as pessoas falam bem ou falam mal, mas acho que tudo muito equilibrado e quando digo que sou da Umbanda, não sinto qualquer tipo de preconceito. Sinto é, muitas vezes, por parte de uma determinada classe, olharem para mim e questionarem o facto de eu acreditar numa religião, de acreditar em Deus, num mundo onde Deus, o Divino parece estar cada vez mais distante. Mas eu sou otimista, acho que os princípios, os que vêm do religioso, estão presentes em todo o mundo, mesmo naqueles que dizem que não acreditam em nenhuma religião. Então, o único preconceito que eu vejo é com a religião, mas num todo, não discriminando esta ou aquela. F: Fala-se muito sobre diversidade na Umbanda. Qual a sua visão sobre essa diversidade? Pode ser benéfica para a expansão e aceitação da religião? Ou, antes pelo contrário, deve haver a aceitação de uma só codificação da mesma, uma uniformização? PC: A diferença, a divergência, ela existe e nós não a podemos mudar, ninguém pode. Ela existe porque eu, dentro da minha Umbanda, aprendi a rezar a Prece de Cáritas, outros o PaiNosso, outros orações em africano. Cada um tem a sua maneira dentro da religião, dependendo da sua raíz. Uns têm uma raiz mais oriental, outros mais africana, outros mais indígena, outros católica, kardecista e essas raízes cresceram connosco. Eu acho que o próprio tempo www.atupo.com


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fará com que talvez se tornem mais parecidas, que a Umbanda se uniformize mais, principalmente com a globalização. Se isso vai ser bom ou mau, eu não sei, mas acredito que aconteça devido a essa globalização, por causa da internet, das redes sociais, por haver mais literatura. Você vai vendo alguns umbandistas que falam com uma linguagem de determinado escritor, mas se a gente lhes falar desse escritor, por vezes nem o conhecem. Porém, usam aquela linguagem que foi a que aprenderam. Temos também algumas linhas com que a gente trabalha mais. Possivelmente, uma Casa que trabalhe mais com caboclo tem um ritual mais indígena e outra que trabalhe mais com pretos velhos, uma raíz mais africana ou até mais católica. Vai depender até da raíz da própria entidade e daquilo que ela passa. F: Portanto, o que acha desta tentativa de alguns para codificar a Umbanda? PC: Não sei se existe uma tentativa para haver uma só codificação, mas todos tentam codificar a sua! A diversidade, ela existe, e uma coisa que a gente vê na nossa religião e não sei se isso será certo ou errado, é que cada um acha que a sua é melhor! Será melhor dentro daquilo que tem. Agora dizer que esta é melhor ou pior… Olha por exemplo, a minha para mim é a melhor, para o Pai de Santo da zona norte à maneira dele será melhor, da zona leste à maneira dele será melhor. Então, cada um de nós pensa e acredita que a nossa seja melhor. E cada um de nós faz a codificação de acordo com a própria Casa. F: Mas isso não significa que a codificação traga oposição ou significa? PC: Infelizmente, traz! Infelizmente, as pessoas criticam a Casa dos outros pela sua forma de trabalhar, pela Umbanda que fazem. Mas cada um é cada um. Agora, numa coisa eu acredito: cada vez mais, com a globalização, internet, redes sociais, livros, há pessoas com pensamentos e rituais muito parecidos, com Umbandas mais parecidas e vão adaptando à sua maneira o que viram na “casa do vizinho”. Eu mesmo faço isso. Se eu vejo numa Casa de um outro irmão , pai de santo, algo muito interessante, acabo por adaptar para mim: um ponto cantado que eu ache muito bonito, um ritual de amaci diferente. Soma, e porque não ir à Casa do meu irmão e somar na minha e viceversa? Esse momento em que os umbandistas vão-se unindo, tornando-se mais próximos uns dos outros, onde começam a visitar mais as casas uns dos outros, mais a globalização, as redes sociais, vai com certeza fazendo com que a codificação se faça de uma forma natural. Agora, como iniciativa de uma Federação, seria um choque para a própria raiz das pessoas, onde eu seria obrigado a mudar montes de coisas em minha Casa e que os meus filhos sempre viram e aprenderam de uma maneira e de repente mudar tudo porque foi codificado. Isso seria um choque. Há coisas que eu estou adaptando em minha Casa, até de livros que leio e coisas que acho que fazem todo o sentido, de outras doutrinas de Umbanda e mesmo essas têm de entrar devagarinho, harmoniosamente, porque eu tenho de acreditar nelas. Acho que são válidas e acreditar é começar a trabalhá-las, a senti-las e não simplesmente dizer, “Olha, tens www.umbanda.pt

de fazer assim!” Seria um choque, seria traumatizante! F: Não poderíamos deixar de o questionar sobre Exu, uma das entidades que mais controvérsia e preconceito suscita dentro da religião. Como se explica que isso ainda hoje aconteça? PC: Bom, na Nossa Casa Exu é o Guardião, para nós é um Executor Cármico, é o Divino mais próximo da nossa humanidade, é Aquele que talvez melhor nos conheça, porque Exu está no meio de todos, está na Terra, convive com o homem, faz a comunicação entre o plano terrestre e o plano divino. Então, Exu é aquele que consegue conhecer bem o mundo material e ao mesmo tempo tem uma porta aberta para o mundo astral, sem contar que Ele é o início e dentro do início, existe muito mistério, todo o início, o mistério da vida, o porquê. Num pensamento mais espiritual, vamos dizer que Exu acaba por ser o mistério da Vida, porque Ele é o início, onde começa, Ele é o fecundador, o que fecunda para que a vida se crie, Ele é o Fogo que fecunda a terra e através dessa fecundação geram-se os vapores, formando-se depois nuvens que se transformam em água, onde surge a vida. Atualmente, não faz sentido falar de preconceito em relação a Exu. Se no início, quando comecei, eram feitas comparações de Exu com os demónios da Cabala em alguns livros, cujo autor não mencionarei, as suas imagens eram imagens diabólicas, Exu era considerado um diabinho que cobrava tudo e mais alguma coisa, hoje já existe muita informação sobre Exu, existem muitos livros escritos sobre Exus Guardiões, cursos, onde se mostra a verdade natureza desses grandes Guerreiros da Luz divina! Exu não é um vendedor de sonhos em troca de dinheiro, como alguns irmãos a Ele se referiam e ainda referem. Na minha conceção, há sim uma troca, mas é uma troca cármica e não uma recompensa material. Vejo Ele como um Executor , numa visão mais cármica de “quem deve paga, quem merece recebe! É por aqui o teu caminho! As tuas ações irão gerar reações!” Exu é o braço esquerdo de Deus. É quem executa ou complica a nossa vida em determinados aspetos, para que a gente possa crescer e evoluir. Ele passa para um plano astral muito superior: cada Orixá na Umbanda corresponde determinados sentidos da vida, Fé, Amor, Vida, Justiça… Porém Exu, enquanto Executor, trabalha com todos estes princípios, com todos estes sentidos, porque lida com o homem e o homem lida com eles no seu aprendizado na Terra. F: Para terminar, gostava de lhe perguntar sobre projetos futuros no que concerne ao crescimento da ATUPO e da Umbanda. PC: Os projetos são muitos, diversos. Um dos meus projetos é que haja mais sacerdotes dentro da ATUPO, pois temos pessoas aptas a abrir Casa já amanhã. Quiça o façam no futuro! Eu gostaria que os filhos da ATUPO abrissem mais Casas dentro de Portugal, com sacerdotes e médiuns devidamente formados, passando a nossa filosofia, levando a espiritualidade, aquilo em que acreditamos, que é realmente criarmos e contribuirmos pra um mundo melhor! Deste modo, permitir-nos-ia aumentar as

fronteiras de todas as frentes de batalha que já temos, nomeadamente alargar a nossa ação social a mais famílias, a nossa bolsa de emprego e o nosso trabalho de espiritualização. F: Falando em Casas de Umbanda, esteve há pouco tempo no Brasil, onde visitou vários templos e esteve com vários Pais de Santo… PC: De uma maneira geral, pois foram muitas as Casas onde eu fui, vim com o coração cheio, vim feliz porque encontrei Casas que trabalhavam com caridade, com amor, com muita alegria. Como já não ia ao Brasil há muito tempo e apesar de estar atualizado em relação a algumas questões da religião lá, não tinha uma perceção real, em campo, das coisas. Tinha medo de encontrar Umbandas comerciais, que tivessem como prioridade a questão financeira e não espiritual. Contudo, e felizmente, tive a sorte de todas as Casas onde estive comungarem dos mesmos princípios em que eu acredito. Para além de ter sido muito bem recebido, senti-me muito feliz por ver os trabalhos de Umbanda que meus irmãos fazem no Brasil! F: Para finalizar, quando começou o seu trabalho de Umbanda em Portugal, pensou que iria chegar onde chegou? PC: Não, porque nunca tinha pensado nisso. Foi um trabalho que foi crescendo aos poucos, devagarinho. Nem sequer era uma responsabilidade que queria abraçar. Gostava de o fazer enquanto filho de santo, fazer parte de uma Casa, ajudar no que fosse preciso. Foi preciso que assim fosse, tive que tomar a frente, tive que abrir um trabalho, tinha todas as capacidades para o fazer e o resultado é que o nosso grupo mediúnico de origem continua todo na Casa. Passaram-se dezasseis anos e o nosso grupo fundador é o mesmo. Ou seja, a harmonia entre a gente existe! Também existem brigas, cobranças, mas existe muita harmonia e objetivos comuns que são chegar ao nosso irmão lá fora, fora do templo e dizer para ele que tem que acreditar nele próprio, em Deus e nos Orixás, mas sobretudo nele próprio e que deve aprender a respeitar e amar o seu próximo, não pensando só em si, mas naquele que está a seu lado. O sorriso de uma criança quando chega perto de mim, com os olhos brilhando todo feliz, porque entregou uma flor ao pai de santo ou a sua carinha querendo um abraço, faz-nos sentir a responsabilidade que temos perante essas pessoas, daquilo que temos que dar! E você sente que tem que dar, mas dar devidamente. Mas ao mesmo tempo sente que tem que derrubar as muralhas do seu ego, porque a gente acaba por se deixar levar com muita facilidade. Essas muralhas nunca podem ser maiores do que as do amor, da verdade e da confiança que as pessoas depositam em si e você não pode falhar! Tem que sentir que está fazendo a coisa certa. Então o olhar dessas pessoas à espera do que pode lhes dar, o amor que depositam em si é uma responsabilidade muito grande e às vezes essas pessoas até se esquecem que você é como qualquer outro ser humano, com erros e falhas, que também está aprendendo, que também está caminhando! Fernanda Moreira www.atupo.com


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Reportagem

A

música, do grego musiké téchne – a arte das musas, é uma forma de expressão e comunicação humana que se confunde com a nossa própria história. A sua evolução ao longo dos tempos está associada ao desenvolvimento da inteligência e da cultura humana. Todas as culturas, passadas e presentes, desde as altamente organizadas às que apresentam uma organização tribal, têm manifestações musicais nas suas histórias, cada uma com características muito próprias. Mitologicamente, segundo os gregos, a música terá nascido do desejo dos Olímpos (deuses gregos) em cantar as suas vitórias contra os Titãs, tendo estes solicitado a Zeus que criasse divindades responsáveis por propagar tais façanhas. Assim, juntamente com Mnemosine (deusa da memória), Zeus criou as nove musas. Outra das divindades gregas associadas à música é Apolo, líder das musas, cuja função passava por elevar a alma humana até as esferas superiores através da música. Foi ele quem ensinou esta arte aos mortais. Há, ainda, outras divindades menores associadas à música, como Museo que tinha o dom de curar através da música. À semelhança da civilização grega, todos os povos da Terra possuíram deuses ligados à música e a sua importância era manifesta, estando frequentemente associada à criação do universo. Historicamente, esta forma de arte teve origem provável no Paleolítico, tendo surgido muito anteriormente à comunicação escrita. A sua inspiração inicial terá resultado da observação dos sons da Natureza pelos nossos antepassados. Estudos recentes sugerem mesmo a possibilidade de a música ter surgido antes da linguagem. Embora não haja evidências irrefutáveis da presença de música na pré-história, temos nos dias de hoje exemplos de povos que ainda vivem no equivalente ao período Neolítico (relativo à história europeia), nomeadamente as tribos indígenas no Brasil, onde a música assume um papel religioso, magístico e ritualístico, marcado pelo bater de palmas e dos pés em ritmos definidos, assim como o uso de instrumentos rudimentares de percussão. É possível encontrar arte rupestre que sugere haver pessoas a cantar, a dançar e a tocar

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A MAGIA DO SOM DIVINO:

A voz dos Orixás instrumentos. No Egipto, há cerca de seis mil anos, a música era usada pelos militares, nos templos e na corte dos faraós em festas e rituais diversos. Na China, consideravam que a música possuía poderes mágicos e que refletia a ordem presente no Universo. Por sua vez, na Índia considerava-se que a música estava intimamente ligada ao processo da vida, ou seja, era parte integrante na formação do ser humano. Já os gregos acreditavam que o próprio Universo cantava. Pitágoras, músico, filósofo e matemático grego acreditava que a música, a astronomia e a matemática estavam ligadas e seriam as chaves para os segredos do Universo, para o Conhecimento derradeiro do Cosmos. Durante a Idade Média, nomeadamente através da influência da Igreja Católica, a música foi ganhando complexidade nas suas composições. Foi nesta época que nasceu o canto gregoriano, criado para o Papa Gregório, o Grande. No Renascimento, a música deixou o seu caráter sacro (religioso) quase exclusivo e passou a assumir também um papel profano (secular) mais comum. Entre os séculos XVII e XVIII, a música barroca veio render o estilo renascentista, imprimindo às suas composições um gosto mais elaborado, emocional e mesmo dramático, como é exemplo o surgimento da ópera durante este período. Brilhantismo, vivacidade, expressão refinada e educada de emoções marcaram o período que se seguiu, o da música clássica. Atualmente, a música assume estilos diversos e é uma fonte geradora de subculturas, influenciando os jovens na forma de vestir, pensar e comportarem-se em sociedade, conseguindo mesmo unir ou segregar os seus elementos face à cultura dominante. A beleza e encanto da música passa, em boa parte, pela sua subjetividade pois, dependendo do contexto histórico-socio-cultural onde se insere, esta terá significados e funções diferentes como são exemplo os hippies, os punks e, mais recentemente, a cultura pop. Podemos mesmo dizer que a intenção do autor e a interpretação do ouvinte podem ser antagónicas, sem por isso perdermos o intuito da música: comunicar e expressar o que nos vai na alma. Não há consenso para uma definição universal de música. Será arte? Ou uma forma de comunicação e expressão? Segundo Pasquale Bona, música é “a arte de manifestar os afetos da alma, a t r a v é s d o s o m ”. Independentemente da definição que adoptarmos, algo na música consegue tocar fundo no nosso coração, despertando em nós um sem fim de sensações e emoções que muitas vezes não somos capazes de explicar por palavras. Um dos contextos, ao longo da história, onde a música sempre

se fez sentir foi no ritual religioso, sendo que cada culto possui formas e objetivos distintos e específicos. Não é, então, de estranhar uma declaração de S. Agostinho que diz que “não será de todo indiferente que a descoberta de Deus (a fé) esteja em muitos casos ligada a manifestações musicais”. Nos tempos primitivos, o uso de instrumentos era fortemente de caráter religioso, tendo por função afastar espíritos e forças malignas, curar doenças e outros males. A este estilo particular chamamos música religiosa, litúrgica ou ritualística. Assim, temos como exemplo a música litúrgica cristã, que terá surgido apenas na época medieval com a música o canto gregoriano transmutando-se mais recentemente nas manifestações pentecostais como a música gospel. A música ritualística judaica está representada pelo canto dos salmos de Davi e pensa-se que Jesus e seus discípulos usavam esta forma de ligação com o sagrado, enquanto que a música religiosa islâmica foi influenciada pela música erudita árabe, persa e indiana, sendo cantada em árabe e acompanhada por instrumentos de percussão. Cantar em louvação a Deus parece ser algo que nos é natural. Na Bíblia encontram-se também referências de música com caráter sacro. Assim manifestamos o nosso amor, respeito e fé ao Criador e a toda a sua obra. Os escravos negros cantavam os seus lamentos e louvações aos deuses como forma de manter viva a sua fé e a esperança no fim do sofrimento. A presença da música enquanto meio de comunicação com o sagrado tem especial expressão nos cultos afro-brasileiros, como são exemplo o Candomblé e a Umbanda, onde se assume como um importante canal de mediação entre o sagrado e o terreno, acompanhando e marcando os rituais, apelando ao imaginário, ao mito e à magia no inconsciente coletivo dos adeptos de fé. Dentro da hierarquia de um terreiro de Umbanda e/ou Candomblé, os responsáveis pela percussão dos instrumentos e do canto são os Ogãs/Curimbeiros. Convém aqui re s s a lva r q u e n o C a n d o m b l é o O gã desempenha diversas funções, sendo um posto “genérico” dentro da hierarquia. Na Umbanda adotou-se o termo e não as funções inerentes, com exceção do toque dos atabaques, devendo contudo ser designado por curimbeiro. A Curimba será, portanto, o grupo de indivíduos responsável pelo toque dos instrumentos musicais, como são exemplo os atabaques, o agogô e o afoxé, assim como pelo canto dos pontos cantados. Esta função reveste-se de grande importância em ambos os cultos, o que motiva a necessidade de uma preparação e formação daqueles que desempenham este papel. Enquanto no Candomblé o Ogã é um médium escolhido pelo Orixá para ficar lúcido durante o xiré, na Umbanda o dirigente poderá ser responsável pela escolha. Em qualquer um dos casos, esta é uma posição de elevada www.atupo.com


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responsabilidade, pois a coordenação dos trabalhos ficará ao encargo do Curimbeiro/Ogã quando o/a Dirigente/Babalaô está incorporado/a. Não será, por isso, difícil perceber o porquê de uma Entidade saudar a curimba quando chega no terreiro. Ao fazê-lo, está a saudar toda uma corrente espiritual que trabalha com a magia do som, auxiliando na manipulação das energias durante os trabalhos. Assim, num templo de Umbanda, a Curimba é um dos assentamentos fundamentais, juntamente com o Peji (Altar) e a Tronqueira que contribuem para a firmeza da casa. No decorrer da gira, é uma fonte geradora de energias que permite, entre outras situações, ajudar à concentração dos médiuns, seja para incorporação ou para manter a firmeza da corrente, saudar as entidades que vêm trabalhar, louvar aos Orixás, dissolver energias negativas, combater demandas e fomentar as energias positivas, criando desta forma condições para o bom desenvolvimento dos trabalhos espirituais. É também uma forma das entidades trabalharem com o sentimento e as emoções dos adeptos e filhos de fé. Quem nunca chorou ao ouvir aquele ponto cantado de Iemanjá ou de Oxum? Ou que se sentiu capaz de carregar o mundo às costas quando se canta para Ogum ou para Xangô? Quem não sente o despertar de intensos sentimentos de fé a todos os níveis ao ouvir uma louvação a Oxalá? Onde havia medo, resistência e bloqueios passa a haver um filho que do seu íntimo clama por Deus, abrindo a porta do seu coração para que este ocupe o seu lugar dentro de cada um de nós. Um dos elementos mais carismáticos desta orquestra sagrada é o atabaque. O uso de tambores em rituais religiosos vem desde a nossa ancestralidade, sendo utilizado nas culturas xamânicas e indígenas para comunicarem e cultuarem os deuses bem como agradecerem à Mãe Natureza. Para estes ancestrais, o tambor era não apenas um meio de comunicação entre os povos, mas também uma forma de proteger o ambiente, um instrumento de cura e resgate de almas perdidas, de conexão com o Eu interior e de ampliação da consciência e harmonização com os ritmos planetários e cósmicos pois o seu som era considerado a repercussão do bater do coração e do útero da Mãe Terra. O responsável pelo toque era, neste contexto, um comunicador e um curador por excelência e o www.umbanda.pt

tambor uma forma e manifestação da arte religiosa e espiritual. Pela sua facilidade de construção e exe c u ç ã o é p o s s íve l encontrar diferentes tipos de tambores em todas as civilizações. Os primeiros tambores descobertos são datados do período neolítico. Há também achados na Morávia datados de 6000 A.C., no Egipto de 4000 A.C. e na Suméria de 3000 A.C. O uso deste instrumento sagrado no ritual umbandista não está presente na sua génese, pois na Umbanda anunciada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas o recurso aos mesmos não estaria contemplado por se acreditar que o som do atabaque levaria o médium a um transe anímico, dificultando o trabalho das entidades. Para o trabalho que se iniciava seria importante manter-se um estado de lucidez e consciência, pois só assim se poderia conhecer Deus. Por outras palavras, o uso de atabaques geraria um ambiente pernicioso à concentração e disciplina exigida para o desenvolvimento dos médiuns e execução dos trabalhos. No entanto, com a diáspora da Umbanda aumentou o interesse dos neófitos e estudiosos em conhecer os cultos que estiveram na base do seu aparecimento. Assim, houve quem viajasse para África à procura de mais conhecimentos sobre os antigos cultos aos Orixás levados para o Brasil. Os atabaques acabaram por surgir na Umbanda por influência dos cultos de origem africana, em especial os de origem Bantu (Angola), em contraponto à Umbanda Esotérica cujas origens estavam associadas às antigas culturas orientais. O animismo será, por isso, uma manifestação da ausência de preparação do médium e não do toque dos atabaques. Em boa verdade, as entidades não precisam dos atabaques ou dos pontos cantados para a incorporação, mas para o médium serve de ponto de firmeza. É o sentimento de amor e respeito que aproxima Guias e médiuns. Através da música abre-se um portal entre o íntimo da pessoa e o mundo espiritual. Desta forma, o longe torna-se perto! Quando entoados com alma e coração, os pontos cantados e o som dos instrumentos sagrados facilitam o trabalho de assistência espiritual em vários sentidos. Tocar, cantar e bater palmas é uma forma de harmonizar o trabalho, auxiliando à concentração de todos os presentes no templo, fazendo-os focar num ponto comum para dar mais força e energia ao trabalho. Além disso, quem canta seus males espanta e com isso os pensamentos verdadeiramente perniciosos e as preocupações quotidianas poderão ser colocados de lado. E assim a magia do som divino trabalha… Frederico Marques

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abril | 2013

Um Itan de Nanã Dizem que quando Olorum encarregou Oxalá de fazer o mundo e modelar o ser humano, tentou vários caminhos. Tentou fazer o homem de ar, como ele. Não deu certo, pois o homem logo se desvaneceu. Tentou fazê-lo de pau, mas a criatura ficou dura. De pedra, mas a tentativa foi ainda pior. Fez de fogo e o homem se consumiu. Tentou azeite, água e até vinho de palma, e nada. Foi então que Nanã veio em seu socorro e deu a Oxalá a lama, o barro do fundo da lagoa onde ela morava, a lama sob as águas, que é Nanã. Oxalá então criou o homem, modelado no barro. Com o sopro de Olorum, o homem caminhou. Com a ajuda dos Orixás povoou a Terra. Mas um dia o homem tem que morrer. O seu corpo tem que voltar à terra, voltar à natureza de Nanã. Ela deu a matéria no começo, mas quer de volta, no final, tudo o que é seu. in Mitologia dos Orixás, Reginaldo Prandi

E

sta lenda revela claramente o que a energia de Nanã representa: Ela é a Divindade Suprema que junto com Oxalá fez parte da criação, sendo ela responsável pelo barro, elemento que deu forma ao primeiro homem e a todos os seres viventes da terra e, tal como narrado no itan, no momento da morte, deverá retornar aos seus domínios. A energia do barro está presente na estagnação das águas dos lagos e pântanos que livre de impurezas se evapora, retornando à atmosfera e contribuindo para a continuação do ciclo das águas. Essa energia está ainda presente no lodo do fundo dos lagos, que servirá de alimento à terra, tornando-a

Sem folha não há Orixá

N

esta edição dedicamos este espaço a uma planta conhecida por todos e utilizada em banhos e infusões, a ALFAVACA. Cientificamente denominada de Ocimum basilicum e conhecida como alfavaca-cheirosa, alfavaca d´américa, alfavaca doce, basílico-grande, erva real, manjericão anão, manjericão branco, manjericão de folha larga, manjericão doce, manjericão dos cozinheiros, remédio de vaqueiro, entre outros, é das plantas de uso medicinal mais antigas. Tem sua origem na Ásia tropical. Envolta de misticismo e lendas, a alfavaca é considerada sagrada na Índia, pois uma das suas espécies é consagrada a Krishna e Vishnu e é plantada nos túmulos, sendo considerada pelos Hindus como um passaporte para o paraíso. O seu nome é uma derivação da palavra grega basileus que significa Rei. Na Itália, é utilizada como oferenda à pessoa amada, representando a fidelidade. CARATERÍSTICAS: É uma planta com caule quadrangular bastante ramificado com cerca de 60 cm de altura. As suas folhas têm cerca de 2,5 – 7,5 cm de comprimento e 1,5 – 4 cm de largura. As www.umbanda.pt

Nanã fértil e propícia ao renascimento das plantas e seres vivos. Também o homem renasce continuamente, através da morte, onde passa por uma nova encarnação, um novo nascimento, uma transmutação. É a energia de Nanã que permite que cada ser humano passe por esse processo de regeneração, estando presente tanto na fase anterior à reencarnação, preparando o espírito para o regresso ao mundo material, como na fase final da vida na carne, novamente preparando o seu retorno ao plano espiritual. Seu filho Omulu rege o momento do desencarne, a passagem do ser do plano material para o plano espiritual, recebendo o corpo que será devolvido à terra e o espírito acabado de regressar ao mundo espiritual. Age sobre a memória do espírito, levando-o, progressivamente, a tomar consciência de tudo o que é e de todas as suas vivências. Simultaneamente, Nanã inicia o processo de purificação do espírito, atuando sobre este para que se liberte de todo o negativismo acumulado durante a sua vida terrena ou impedindo que o mesmo se desequilibre ainda mais, já após o regresso ao plano espiritual. Tal qual as águas paradas do lago, que permitem que lentamente se depositem no fundo as impurezas em si contidas, assim atua Nanã sobre o espírito desencarnado. Nanã forma ainda par com seu filho Obaluaiê. Enquanto Ele atua na passagem do plano espiritual para o material (encarna-

Alfavaca

suas flores são tipo cacho terminal, com 6 flores em cada ramo e de cor branca ou ligeiramente violeta com cerca de 0,8cm de comprimento. CULTIVO: A alfavaca reproduz-se por meio de sementes ou por estaca. Tem preferência por clima quente e solos bem drenados. Pode ser plantada durante todo o ano. Contudo, deve ser preferencialmente cultivada na primavera. O espaçamento deve ser de 50 cm entre plantas. Reage bem à adubação orgânica. Não é adepta de solos húmidos. Deve ser regada apenas em tempo de pouca chuva. A colheita das folhas e ramos terminais deve ser no início da floração. PARTES UTILIZADAS: folhas, flores, raízes, óleo essencial e sementes. MEIOS DE UTILIZAÇÃO: - Uso Interno: chá - Uso Externo: banhos, emplastros, etc INDICAÇÕES TERAPEUTICAS: A alfavaca é utilizada no tratamento das seguintes patologias: aftas, amigdalite, angina, cólicas, dispepsia (azia), doença das vias respiratórias, dor de cabeça de origem nervosa, dor de garganta, enxaqueca, febre, flatulência, inflamação das vias urinárias,

Uma Lenda ção), envolvendo o espírito numa irradiação especial, que reduz o corpo energético ao tamanho do feto já formado dentro do útero materno onde está a ser gerado, ao qual já está ligado desde que ocorreu a fecundação, Nanã adormece a sua memória, preparandoo para uma nova vida na carne, onde não se lembrará de nada do que já vivenciou. Nanã é assim associada à senilidade, à velhice, fase da vida em que a pessoa começa a esquecerse de muitas das coisas que viveu na sua vida carnal, sendo a “memória” dos seres um dos Seus campos de atuação. Durante a caminhada na vida terrena, a energia de Nanã surge ainda associada à menopausa, momento em que a mulher já mais madura colhe os frutos de toda uma vida. No início desta linha está Oxum, estimulando a sexualidade feminina; no meio está Yemanjá, estimulando a maternidade; e no fim está Nanã, paralisando tanto a sexualidade, quanto a geração de filhos. Este grande Orixá, mãe e avó, protetora dos homens e criaturas idosas, é responsável pela continuidade da existência humana, dando a oportunidade a cada um de nós de nos redimirmos, de evoluirmos, tornandonos cada vez mais próximos do Nosso Criador! Saluba Nanã, “Dona do Pote da Terra”! Mary Nogueira

estados gripais, reumatismo. É também utilizada em caso de mães com pouco leite, uma vez que estimula a lactação e em feridas de difícil cicatrização. PROPRIEDADES TERAPEUTICAS: Esta planta é considerada analgésica, antiemética, antipirética, anti-séptica, aromática, calmante, carminativa, digestiva, diurética, expectorante e hidratante. CONTRA INDICAÇÕES: O uso desta planta em doses elevadas pode originar, sudorese intensa palpitações, hipoglicemia grave, confusão, tonturas, cefaleias. Não deve ser utilizada durante a gravidez. Fontes: http://www.plantasquecuram.com.br/ervas/alfavaca.html http://www.hortomedicinaldohu.ufsc.br/planta.php?id=161 http://www.jardineiro.net/plantas/manjericao-ocimumbasilicum.html http://www.plantamed.com.br/plantaservas/especies/Ocim um_basilicum.htm

Leonel Lusquinhos

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Jornal Fundamento_12  

Jornal Fundamento_edição 12, propriedade de ATUPO - Templo de Umbanda Pai Oxalá, Portugal

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