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017 (APARECEM DUAS PRETAS VELHAS A PITAR SEU CACHIMBO E APOIADAS EM SUAS BENGALAS) ( DUAS CRIANÇAS AJUDAM-NAS A SENTAR) UMA PRETA VELHA DIZ: - Eh, eh, zi �ia, nega véia vai explicar! DOUTRINADORA: - Adorei as almas! PRETA VELHA: - A Calunga grande é o mar onde a vida teve origem, é a casa de Iemanjá, a Senhora da Geração! A calunga pequena é a morada de nosso Pai Omulu, o Senhor da Morte, que acolhe em seu domínio todos aqueles que desencarnaram. E os dois se complementam, porque a vida e a morte são como dois lados da mesma moeda: quando nascemos, deixamos o plano astral e quando morremos na carne, voltamos ao plano espiritual. CRIANÇA: - Oh vóvó, e porque vocês são a linha das almas se os baianos e os marinheiros também são espíritos? PRETA VELHA: - Todos os espíritos, zi �io, que trabalham na

Umbanda são almas. Mas nós somos como que aqueles que preparam as almas, que as guiam, as preparadas e as que se perderam; por isso que a gente está muito ligada a nosso Pai Omulu. A linha das almas é a linha que prepara o espírito, que doutrina, mas sempre com humildade, com paciência. CRIANÇA: - Então é por isso que a minha mãe diz que devemos sempre respeitar os avós, porque eles são sábios. A SEGUNDA VÓVÓ: - Eh, zi �io, nega véia sabe, sim. Todos os negovéios vêm na Umbanda mostrar que não é por ser negro ou por ser velho que é ignorante. Nego veio vem mostrar que por ser negro e velho carrega em si uma sabedoria ancestral e que a dor e a�lição sofrida na carne fez com que hoje possamos ensinar a humildade, a paciência, a perseverança, porque, mesmo enquanto escravos, nunca desistimos de viver nem deixamos de acreditar e ainda que tudo pareça não ter

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08 conserto, preto velho sempre tem uma mironga pá consertar! Eh, eh! DUAS CRIANÇAS PEGAM-SE, FAZEM BARULHO, PORQUE UMA PEGOU NO LÁPIS DA OUTRA E NÃO QUER DEVOLVER. A DOUTRINADORA CHAMA A ATENÇÃO, MAS NÃO SURTE EFEITO E OLHA PARA A PRETA VELHA, COM AR DE QUEM NÃO SABE O QUE FAZER. PRETA VELHA: - Eh, zi �ia, tem que ter paciência. Criança é assim, briga, faz barulho, dá gargalhada, mas muitas vezes ela carrega a mesma sabedoria que um nego véio, �ia! Por isso que a linha das crianças é das linhas mais forte na nossa Umbanda. Ela representa a Inocência, a Cura através da Fé, da alegria de viver! Ela sabe quando tu tá triste ou sorrindo, mesmo que tu não diga nada; porque ela sente em seu coração e não duvida, não! PRETA VELHA LEVANTA-SE E VIRADA PARA A ASSISTÊNCIA DIZ: - Por isso eu digo, zi �ios e �ias, da próxima vez que uma criança falar e tu não liga ou quer ouvir, lembra que pode ser a voz de Zambi falando através dela! Eh, eh! PRETAS VELHAS SAEM, APOIADAS EM SEU CAJADO. (Ouve-se um ponto) DOUTRINADORA: - Bom, o nosso tempo está quase a terminar… É INTERROMPIDA POR UM BRADO DE UM CABOCLO: …kiooooooo! (TODOS OLHAM E VEEM UM CABOCLO E UMA CABOCLA A CHEGAREM) TODOS EM CORO: - Okê, caboclo! CABOCLO: -Tu não podia terminar sem falar na linha Daquele que veio fundar a nossa Umbanda, que veio dizer que a Umbanda é de todos e para todos, que mostrou que espíritos de pretos velhos e os índios de nossa terra podiam trabal-

har em bene�ício de seus irmãos encarnados sem olhar a cor, raça, credo ou posição social: o Caboclo das Sete Encruzilhadas. CABOCLA: -E o Caboclo é hoje na Umbanda o homem nativo, aquele que foi massacrado pelo colonizador branco por achar que por sermos simples éramos inferiores, aquele que sempre viveu em contato com a Natureza e que traz dentro de si um profundo amor e respeito por todos os seres e elementos à sua volta, pela terra, pela água, pelas folhas, plantas e animais, pelas pedras, pelo sol, pela lua.

CABOCLO: Vimos mostrar que viver com simplicidade não é ser ignorante ou inferior, é sim viver livre de preconceitos, sem vaidade nem arrogância, partilhando com os demais o que a terra nos dá. Todos nós somos parte de um Todo, todos nós somos �ilhos do mesmo Deus ou Zambi ou Tupã! E assim devemos viver, em comunhão uns com os outros e em harmonia com o Divino! CABOCLOS VÃO EMBORA, RÁPIDO COMO UMA FLECHA POR ENTRE AS PESSOAS! DOUTRINADORA -Salve os caboclos! TODOS: -Okê caboclo! DOUTRINADORA: - Bem, podíamos �icar aqui a falar das outras linhas que existem na Umbanda, dos boiadeiros, dos ciganos, mas já o sol já se foi e é hora de ir embora! CRIANÇA: - Gostamos muito da doutrina! Aprendemos tanta coisa com os guias e guardei tanta coisa no meu coração, que me vai servir para a vida! DOUTRINADORA -Que bom, (nome da criança). É pena que as pessoas que com eles falam também não o façam do mesmo jeito e que, logo que saem do templo, começam a brigar com este ou a falar mal daquele, esquecendo que a Umbanda é um templo vivo que devemos carregar todos os dias no coração! Boa noite, meus queridos! CRIANÇAS: - Boa noite! TODOS SE LEVANTAM E AGRADECEM. NO MEIO DAS PALMAS, DE REPENTE, NO FUNDO DA SALA, DE UMA PARTE ESCURA, OUVE-SE UMA VOZ: -Boa noite! AS PESSOAS OLHAM E VEEM ALGUÉM A CAMINHAR PELO MEIO DAS PESSOAS, DIZENDO BOA NOITE E BRINCANDO COM UNS E OUTROS. DOUTRINADORA (RINDO): - Salve Exu Mirim! CRIANÇAS: - Laroiê Exu! EXU MIRIM: - Tia, tu ia acabar sem falar de nós, do Povo da Rua? Num pode não, tia! FAZ UM AR TRISTE E COMEÇA A ANDAR EM CÍRCULO, NO MEIO DAS PESSOAS, E PITANDO UM PITO.PÁRA E COMEÇA A FALAR, SEMPRE ANDANDO EM CÍRCULOS: - Onde tem o dia, tem a noite! Onde tem a luz, tem a escuridão, onde tem direita, tem esquerda! E a linha da esquerda somos nós, os Exus e Pombagiras! E nós fazemos falta na Umbanda. Somos os guardiões dos templos! Somos quem desce nas trevas para levar a luz! Somos o espelho onde se re�lete a vossa imagem, mostrando-vos as falhas para que as possam corrigir! Somos a Voz da consciência, fazendo-vos re�letir sobre as vossas verdadeiras intenções. (VIRA-SE PARA UMA PESSOA E DIZ) E se elas forem sinceras, verdadeiras, eu tiro todos os entraves de tua vida, eu te ajudo a chegar onde tem que chegar! (PAUSA) Mas se elas não forem boas… tu tá tramado, tio! E é isso! (e vai embora cantando )…

Mary Nogueira

FIM

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Jornal Fundamento_edição 17, propriedade de ATUPO - Templo de Umbanda Pai Oxalá, Portugal

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