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Acr€ticos conformados: uma forte tend•ncia na Igreja brasileira.

Por Ruy Marinho Um perigoso bloqueio intelectual est€ sendo inserido na mente dos crist•os da igreja brasileira. Trata-se de uma onda de conformismo acr‚tico, ou seja, a aceitaƒ•o c„moda de n•o criticar as palavras e atitudes das pessoas no ambiente eclesi€stico, impossibilitando o crente de provar pensamentos e atitudes de maneira biblicamente racional. O ap…stolo Paulo adverte que a nossa f† n•o deve ser irracional: “Rogo-vos, pois, irmÄos, pelas misericÅrdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifÇcio vivo, santo e agradÉvel a Deus, que Ñ o vosso culto racional” (Rm 12:1, negrito meu).1 O reformador Calvino alertou que “a fÑ nÄo consiste na ignorÖncia, senÄo no conhecimento; e este conhecimento hÉ de ser nÄo somente de Deus, senÄo tambÑm de sua divina vontade.”2 Excluindo o senso racional, o crist•o ficar€ intelectualmente enfraquecido e mais prop‚cio a aceitar os enganos dos falsos profetas que Cristo nos alertou: “levantar-se-Äo muitos falsos profetas e enganarÄo a muitos” (Mt 24:11). Em primeira an€lise, percebemos que este bloqueio intelectual † resultante dos famosos terrorismos espirituais, causados por clich‰s como “n•o toqueis nos ungidos de Deus” e “n•o devemos julgar”, que infelizmente s•o ensinados e defendidos por muitos l‚deres. Por†m, † importante salientar que na verdade trata-se de conceitos teol…gicos err„neos, dos quais tem como objetivo impossibilitar a pessoa de desenvolver suas faculdades mentais de racioc‚nio l…gico, facilitando o falso l‚der a ter um controle manipul€vel dos membros de sua respectiva comunidade. Aqueles que s•o resignados a esta condiƒ•o acr‚tica, acomodam-se na posiƒ•o irracional de “crente manipulado”, bloqueando qualquer aƒ•o iniciativa e inibindo o desejo de evoluir teologicamente. Ou seja, o crente estar€ sujeito Š restriƒ•o de qualquer quest•o doutrin€ria e/ou moral, aprisionando sua mente ao ponto de n•o conseguir discernir mais o certo do errado. Neste caso, as verdades absolutas est•o enganosamente contidas nas palavras de seus respectivos l‚deres e n•o na B‚blia. Com isso, n•o h€ entendimento b‚blico correto dos textos sagrados, fazendo com que nos ambientes eclesiais os falsos conceitos ensinados sejam tidos como verdades espirituais absolutas e inquestion€veis. Para as pessoas nessas condiƒ‹es, uma exortaƒ•o vinda de algu†m sobre o perigo eminente decorrente de algum erro teol…gico, praticamente n•o possui efeito, pois a comodidade e a cegueira espiritual † um impedimento para tais pessoas crescerem e se 1 2

A traduƒ•o b‚blica utilizada no artigo † a Almeida Revista e Atualizada – SBB. CALVINO, Jo•o. As Institutas Vol. 3. Casa Ed. Presbiteriana. S•o Paulo, 1985. P. 25.

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aprofundarem nas verdades b‚blicas, bem como desenvolver a verdadeira f† crist• com discernimento e senso cr‚tico. Afinal, a mentira dita v€rias vezes pelo falso l‚der torna-se verdade absoluta e a ideia ap…crifa do “ungido de Deus incritic€vel” † facilmente implantada. Na verdade, seguir este conceito † um tremendo engano, pois a B‚blia mostra exatamente o contr€rio! Um exemplo claro est€ em Atos 17:11, onde narra que os crentes de Ber†ia eram pessoas nobres, porque conferiram nas Escrituras o que ouviram de Paulo, para ver se, de fato, era verdade. Caro leitor, seja sincero! Voc‰ tem o costume de conferir na B‚blia tudo o que ouve e v‰? Se a resposta for n•o, voc‰ pode estar vivendo algo parecido com o que descrevi acima. Neste caso, † necess€rio uma atitude urgente, voltando-se para a B‚blia antes que seja tarde, pois se a mesma † a nossa •nica regra de f† e conduta, devemos t‰-la como b•ssola para todas as nossas atitudes. Caso contr€rio, estaremos inconscientemente negando a B‚blia e depositando a nossa esperanƒa em homens. O primeiro passo † desmistificar os dois pontos principais que causam o comodismo acr‚tico, citados no comeƒo desse artigo. 1 – Nƒo toqueis nos ungidos de Deus! As passagens b‚blicas utilizadas para defender que n•o devemos “tocar nos ungidos de Deus” s•o 1Sm 24:6 “E disse [Davi] aos seus homens: o Senhor me guarde de que eu faÜa tal coisa ao meu senhor, isto Ñ, que eu estenda a mÄo contra ele, pois Ñ o ungido do Senhor. Dizendo: NÄo toqueis nos meus ungidos, nem maltrateis os meus profetas.” e Sl 105:15 “NÄo toqueis nos meus ungidos, nem maltrateis os meus profetas”. Baseado nesses dois vers‚culos, muitos l‚deres tendenciosos criaram uma classe especial de crentes que, segundo eles, seriam absolutamente incritic€veis ou inquestion€veis, como se fossem mediadores exclusivos entre o homem e Deus. Isso † um tremendo engano, pois o nosso •nico mediador † Jesus Cristo (1Tm 2:5). Biblicamente, ungir significa “derramar …leo sobre”. Na cultura judaica antiga, era a forma de oficializar um of‚cio de sacerdote, ou de reis, para credenci€-los a serem mediadores entre Deus e a humanidade. Por esta raz•o, Jesus † chamado de Cristo ou Messias, palavras que significam “ungido”. Em 1Sm 24:6, Davi est€ falando exclusivamente de Saul, que era ungido como rei. Em Sl 105:15, o salmista fala dos patriarcas Abra•o, Isaque e Jac…. Em ambos os casos, o sentido de “tocar”, segundo o contexto, significa utilizar de viol‰ncia f‚sica, maltratar, estender a m•o contra. Em momento algum estas passagens s•o direcionadas contra questionamentos e/ou cr‚ticas. Se fosse assim, invalidaria a repreens•o do profeta Natan a Davi (2 Sm 12:1-15), a cr‚tica e repreens•o de Paulo para com Pedro em seu erro doutrin€rio (Gl. 2:11-16) e at† mesmo o pr…prio Jesus em v€rias cr‚ticas e repreens‹es que o mesmo fez aos fariseus (Mateus 23:23 e Lucas 11:23). No Novo Testamento, o termo “unƒ•o” (grego=chrisma) aparece apenas tr‰s vezes, dentro de uma mesma passagem, 1 Jo 2:20 e 27, na qual afirma que todos n…s recebemos e temos conhecimento da “unÜÄo que vem do Santo“, ou seja, todos n…s somos capacitados pelo Esp‚rito Santo (2Co 1:21-22). Em comparaƒ•o, a palavra “ungido” (grego=Christos) †

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direcionada exclusivamente para Cristo, nunca para os l‚deres da igreja, nem mesmo aos ap…stolos.3 Portanto, n•o existe qualquer possibilidade exeg†tica que d‰ margem para aplicar as passagens veterotestament€rias em quest•o aos l‚deres da igreja, tornando-os incritic€veis e imunes a repreens‹es. 2 – Nƒo devemos julgar! A primeira passagem B‚blica que devemos analisar, talvez seja a mais usada para afirmar que n•o devemos julgar aqueles que ensinam conceitos contr€rios as Escrituras. Tratase de Mateus 7:1 “NÄo julgueis, para que nÄo sejais julgados.” Pegando este vers‚culo isolado, de fato, a interpretaƒ•o ser€ absoluta para “n•o julgar”. Por†m, jamais devemos interpretar textos b‚blicos de maneira isolada, retirando as passagens de seus respectivos contextos. E o contexto direto da passagem nos diz claramente que Jesus n•o proibiu o julgamento em si, mas um tipo de julgamento espec‚fico. Vejamos: “Pois, com o critÑrio com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirÄo tambÑm. Por que vás tu o argueiro no olho de teu irmÄo, porÑm nÄo reparas na trave que estÉ no teu prÅprio? Ou como dirÉs a teu irmÄo: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? HipÅcrita! Tira primeiro a trave do teu olho e, entÄo, verÉs claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmÄo.” (Mt 7:2-5) No vers‚culo 1, Jesus disse aos judeus que eles n•o deveriam julgar. J€ do vers‚culo 2 em diante, Cristo d€ a raz•o pela qual eles n•o poderiam julgar: o julgamento hip…crita! Os judeus estavam condenando os pecados dos irm•os, por†m eles pr…prios estavam praticando as mesmas coisas (e at† piores). Imagine como exemplo, uma mulher que abortou uma crianƒa criticando um bandido que matou algu†m em um assalto! Por fim, no vers‚culo 5, Cristo diz que devemos primeiramente corrigir os nossos pr…prios pecados, para somente depois ajudar o nosso irm•o, corrigindo-o de seu erro. Outra passagem bastante utilizada pelos l‚deres manipuladores † Romanos 14:10, onde diz: “Mas tu, por que julgas teu irmÄo? Ou tu, tambÑm, por que desprezas teu irmÄo? Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo“. Da mesma forma que Jesus, Paulo n•o est€ condenando o julgamento em si, mas sim um julgamento espec‚fico. Segundo o contexto, alguns irm•os rec†m convertidos eram legalistas, com isto os crist•os mais experientes estavam ficando impacientes. Paulo faz uma exortaƒ•o para que os mesmos sejam mais tolerantes e n•o julguem os d†beis (fracos) na f†, acolhendo-os com aceitaƒ•o, pois com o tempo o amadurecimento viria naturalmente. Vale lembrar que, o que estava em quest•o n•o eram assuntos que comprometiam a ortodoxia crist•, mas sim pontos secund€rios da f†. Se fosse algo que comprometesse a f† crist•, Paulo com certeza teria outra atitude (Gl 1:6-7, 3:1-5, Fp 3:2, 18-19). A B‚blia claramente instrui os crist•os a julgar todas as coisas. Prova disto est€ em Jo•o 7:24: “NÄo julgueis segundo a aparáncia, e sim pela reta justiÜa”. No contexto da passagem, Cristo est€ confrontando os judeus que questionaram sua doutrina, e tinham-no acusado de ter um diabo (vs 20) e de quebrar o dia do S€bado curando um homem (Jo 5:1-16). A quest•o colocada por Jesus † o ato de julgar de maneira exterior e superficial, ou seja, sem 3

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conhecer realmente os fatos, tornando o julgamento injusto. O ato de julgar “pela reta justiƒa” tem como premissa a lei de Deus como padr•o pelo qual discernimos as coisas, pois a B‚blia † a nossa •nica regra de f† e pr€tica. 1• Cor‚ntios 5 tamb†m † uma base b‚blica importante a respeito do nosso dever de julgar. No vers‚culo 3 Paulo declara, sob a inspiraƒ•o do Esp‚rito, que ele tinha julgado um membro da igreja em Corinto que estava vivendo no pecado de fornicaƒ•o. Seu julgamento a tal pessoa foi “seja entregue a SatanÉs para destruiÜÄo da carne, para que o espÇrito seja salvo no Dia do Senhor Jesus”. J€ nos vers‚culos 9 a 13, Paulo lembra aos santos do seu dever de julgar as pessoas que est•o dentro da igreja, se elas est•o ou n•o obedecendo Š lei de Deus. Aqueles que alegam ser crist•os e s•o membros da igreja, mas que s•o julgados como sendo desobedientes a qualquer mandamento da lei de Deus (vs 9-10), devem ser exclu‚dos da comunh•o da Igreja. Paulo, sob a inspiraƒ•o do Esp‚rito, diz para a igreja n•o tolerar pecadores impertinentes. Outras passagens b‚blicas tamb†m indicam que † de nossa responsabilidade julgar. Jesus pergunta Šs pessoas em Lucas 12:57: “E por que nÄo julgais tambÑm por vÅs mesmos o que Ñ justo?”. Paulo orou para que o amor dos crentes em Filipos “aumentasse mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepÜÄo” (Fl 1:9). Ele disse aos Corintos: “Falo como a criteriosos; julgai vÅs mesmos o que digo” (1 Co 1:15). Os crist•os s•o solicitados a examinar tudo e reter o bem (1 Ts 5:21). Eles tamb†m s•o obrigados a provar se os esp‚ritos s•o de Deus: “IrmÄos, nÄo deis crÑdito a qualquer espÇrito; antes, provai os espÇritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas tem saÇdo pelo mundo afora” (1 Jo 4:1). Mesmo nas reuni‹es crist•s eles devem “julgar” o que ouvem: “Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou trás, e os outros julguem” (1 Co 14:29). Os Crentes de Corinto receberam ordens para julgar imediatamente a imoralidade existente entre os seus membros (1 Co 5:1-8). Mesmo o estrangeiro de passagem n•o deve ser hospedado se for verificado que n•o se trata de uma pessoa alicerƒada na verdadeira f† ( 2Jo 10,11). Deve ser considerado como an€tema (maldiƒ•o) Šqueles que apresentarem algum tipo diferente de evangelho (Gl 1:9). Portanto, conclu‚mos que biblicamente † dever de todo Crist•o Julgar, fazendo ju‚zo atrav†s de suas faculdades mentais de racioc‚nio. Se algu†m ensinar algo em desacordo com as Escrituras – mesmo partindo do l‚der de sua igreja, esta pessoa deve ser confrontada com a B‚blia, obviamente com respeito e submiss•o. Ningu†m, absolutamente, † intoc€vel ou incritic€vel, pois n•o h€ respaldo b‚blico para afirmar que exista um n‚vel de “unƒ•o especial” que anule o racioc‚nio para o entendimento de qualquer coisa falada, ensinada e praticada. Tudo deve ser conferido na B‚blia. Por fim, alerto que este ato de julgar n•o significa fazer inj•rias ou cal•nias, com comportamentos de sarcasmo e desprezo sobre a pessoa que est€ no erro, mas sim deve ser feito com linguagem sadia e irrepreens‚vel, no Žmbito teol…gico e moral (Tito 2:7-8, 1Pe 3:1516). Se algu†m est€ desviando-se do Evangelho e pregando heresias, a nossa obrigaƒ•o † alertar, repreender, exortar e conduzir o pecador ao entendimento b‚blico (2Tm 4:2-4). Caso a disciplina seja indispens€vel, a mesma deve ser aplicada com seriedade, amor e tristeza, sempre objetivando o arrependimento, e n•o a condenaƒ•o eterna do pecador, algo que cabe exclusivamente a Deus. Soli Deo Gloria! bereianos.blogspot.com

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Bereianos | ApologÄtica CristÅ Reformada_______________________________________ Publicado originalmente em: http://www.bereianos.blogspot.com.br/2012/07/acriticos-conformados-umaforte.html

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