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Geografia dos sentidos Tudo o que possuímos são sensações e memórias. Excertos de vivências, toques dispersos, sons e imagens resplandecentes, olhares tímidos e uma infinidade de pequenos pormenores relevantes. Somos tudo e isto e mais alguma coisa. Orientamos corpo e mente a partir dos sentidos. Porém, tal orientação não significa organização. Trata-se da única geografia que, apesar de não ser ensinada na escola, cada um aprende e desenvolve de forma especial. Ninguém tira negativa por não saber ver como é lindo ver uma onda a partir, ou por não gostar de sentir o cheiro a terra molhada. Não vivemos como se estivéssemos permanentemente numa curta-metragem de Chaplin. A elegância clássica do preto e branco é artisticamente bonita, mas omite a verdadeira essência da vida: a naturalidade da cor. Simples e infinita. Misturam-se tons, conferem-se formas, tornamos autênticos os contrastes e ficamos maravilhados com combinações. A visão dá-nos a possibilidade de saber, por experiência própria, que o mar não é vermelho, a lua não é verde e a relva muito menos é preta. Porém, ninguém tem a obrigação de dar cor fixa e óbvia ao que cria. Imaginar e concretizar. O olfacto invisível, quase real, representado a tinta, espalmado nas folhas de uma árvore inversa, de uma cidade em miniatura, nas penas cinzentas e imaginárias de um pássaro-memória. Uma semi-flor que desenvolve as suas pétalas de forma desequilibrada. O cheiro de um segredo debaixo da língua? Cadeado: boas ou más recordações? A dúvida, curiosidade despertada. Temos influências de um bulício citadino, trechos do quotidiano, que pairam sobre nuvens instáveis e regulares. A tentativa de captar o tacto com braços humanos (possuindo várias tonalidades consoante as diferentes sensações que se provocam), patas de galinha e de porco. Um amor carnal consumido com pureza na nudez e rostos indefinidos, ao acaso, como quem prova um doce e tentador morango, não lhe reconhecendo qualquer maldade. Pendentes estão corações que revestem toda a cena de um clima romântico e afastado da realidade. “Por que é que o pássaro não está pintado?” Situa-se no centro, desenhado a carvão. Não lhe concedo uma simbologia específica. Imaginemos uma gigante memória fruto do passado, temos sempre a sua presença imponente. Sempre bela e frágil, mas ao mesmo tempo indestrutível e marcante. Algo verdadeiramente genial e transcendente como a audição da Sinfonia nº9 do Beethoven. Melhor bússola de um espírito perdido. Números, rectas, semicircunferências, planos e pontos no topo. Não existe ordem. A imensidão e distracção neste ou naquele ponto é o objectivo. Não seguir regras esteticamente bonitas ou lógicas. Dar um significado concreto e despir a beleza da criatividade mental. Desenha-se como se sente. De 5 mil maneiras diferentes. 2


Don Giovanni, o feminista Por detrás de uma lenda misteriosa e mais falada do que o cão de água português do Presidente Obama, existe sempre algo desconhecido, incógnito e vedado á sociedade. Don Giovanni, como a maioria da população mundial sabe, era o mítico mulherengo barato, cruel sedutor que apenas procurava várias relações carnais e que tinha uma colecção de cadernos Moleskin (organizados por ordem alfabética) das suas conquistas amorosas, quer fossem passageiras ou duradouras. Durante vários séculos pensou-se exactamente isto que está escrito no parágrafo anterior (a parte dos cadernos Moleskin mantém-se). E aqui vai a notícia que chocará a Humanidade e as gerações vindouras: a verdade é que este homem, de suposto carácter sujo e pecador, não era nada mais nada menos do que um bom feminista. Sim, um feminista. E era tão bom que disfarçou mesmo bem depois de morto. Só tem esta fama toda porque no séc. XVII não tinha piada existir um activista feminista italiano solitário num mundo machista e charlatão. Quando descobriram os seus cadernos nunca pensaram que era uma lista de mulheres pró-revolucionárias. E aliás, o que era da história sem um bom conquistador depravado? Don Giovanni era realmente apaixonado pelas mulheres. Mas por todas, feias ou bonitas, quadradas ou redondas. Era um conquistador do coração de todas as jovens. “Não há nada mais sexy do que um homem feminista”. Falava horas e horas com várias e admirava profundamente a beleza interior de cada uma. Aprendeu a cozinhar, a limpar a casa, tratar dos animais, começou a ver a sic mulher (o programa da Oprah dava-lhe vontade de chorar) e até arranjou um part-time na Parfois, aconselhando os acessórios mais elegantes para cada jovem ou adulta que aparecia. Mas isto não é ser feminista, é ser parcialmente feminino e sensível. Embora esteja a mentir, porque nem a Parfois ou a sic mulher fazem parte desta história revolucionária. Don Giovanni desenvolveu um espírito de indignação pela situação da mulher na sociedade do séc.XVII (ou eu quero imaginar que sim), defendia a igualdade de direitos, um movimento libertário do machismo e sem opressões pela diferenciação de géneros. Coisas dessas. O rapaz revelouse mesmo uma promessa na vida social em relação ao lado feminino. Ajudava velhinhas no minipreço, jovens com problemas em falar com a família, outras na fase do crescimento e com aqueles complexos corporais, mulheres que se queriam divorciar e não sabiam o que isso era, raparigas que queriam o mesmo salário que os maridos e que os pais. Até queriam votar! O jovem começou a ser pressionado pelos grandes senhores que viam as suas filhas a perderem a “submissão paterna”, e respectivas mulheres a revoltarem-se contra eles. Ora, escusado será dizer que Don Giovanni era visto como um herói progressista. Andou muito tempo escondido pelas montanhas italianas que estou a inventar, em grutas, sótãos de pouca qualidade, deixou crescer a barba e até mudou de nome para Don Juan. E como todo o bom herói morre (para dar mais impacto dramático) o meu Don Juan foi descoberto e enforcado por uma multidão do sexo masculino. Depois veio um grupo de mulheres armadas cheias de raiva com paus e foices que começaram a espancar os homens. Há um banho de sangue mesmo típico de um filme do Tarantino. Séculos mais tarde descobrem-se os cadernos, estudam-se documentos pouco fiáveis que falam dele, julga-se que o rapaz era simplesmente um tarado e desavergonhado e cria-se uma lenda em torno da sua personalidade. E acaba assim a história.

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Um encontro com o primo Basílio no Metro Num verão extremamente abafado e seco, encontrava-se Luísa na estação de Metro do Chiado. Estava tão cansada e melancólica de andar a distribuir currículos de emprego que nem reparou que ao seu lado se encontrava o jovem Matteo, também ele tinha perdido o emprego. “Trinta anos de vida e ainda não fiz nada de que me orgulhe”, pensava ela enquanto pisava, distraída, um cigarro dobrado no chão. Reflectia sobre a sua vida inútil, desperdiçada e aborrecida. E como tudo era mau e sempre tinha sido. Aquele calor insuportável só lhe agudizava a tristeza. Sabia que quando chegasse a casa não teria Jorge à sua espera. Tinha ido ao Alentejo tratar de uns assuntos importantes de família. Era um bom marido. Calmo, agradável e simpático. Porém, Luísa estava farta dele e há 4 meses que andavam com problemas conjugais. Sentia que tinha que fazer algo diferente na sua miserável existência, as coisas tinham de mudar, e desta vez era a sério. Ia para começar a ler um romance interessantíssimo de Eça de Queirós que a amiga Leopoldina lhe tinha emprestado, quando o metro chegou. Abriram-se as portas. Gente apressada saía em todas as direcções e rapidamente se afastaram da vista da jovem, somente parou diante de si um homem alto e forte. Luísa, que tinha os olhos postos no chão, fixou os seus pés e lentamente desviou o seu olhar para a cara do indivíduo que estava à sua frente. Era o primo Basílio. Cliché! Os dois olharam-se por instantes. Como o tempo tinha passado. Luísa guardou o livro. Que iria aprender com tanta página imaginária? Basílio, apesar de Luísa ser sua prima, sempre sentira uma grande atracção física por esta desde jovens adolescentes. Não se viam há 7 anos. Ela tinha permanecido em Lisboa e o jovem tinha ido viver para o Brasil com o pai. Estava de regresso e prometia dar escândalo do tamanho de um drama realista queirosiano na capital portuguesa. Era vaidoso, sem escrúpulos, tinha fama de engatatão e tal como um Don Giovanni vivia segundo o princípio do prazer fácil. Os dois apanharam o metro para o Campo Grande e falaram sobre as suas vidas e o que tinha acontecido no tempo em que estiveram separados. Luísa desabafou com o primo todos os problemas pelos quais andava a passar: cansaço matrimonial, falta de emprego, sonhos ou objectivos por concretizar, falta de desafios e de excitação. Uma vida demasiado passiva e angustiante, segundo ela. E o metro prosseguia. O jovem Matteo que estava em pé, de jornal dobrado debaixo do braço e cabelo penteado com gel, seguia a conversa atentamente. Basílio ouvindo a prima sentiu o seu alarme de conquista feminina a disparar. Até que o desligou e perguntou-lhe sem rodeios “Luísa, o que achas de cometermos um pequeno adultério? Ia fazer-te bem!”. E o metro parou. Matteo dirigiu-se para um prédio e foi ter com Gonçalo M.Tavares. Curioso. Luísa ficou em silêncio e assim permaneceu até saírem do subterrâneo, subirem as íngremes escadas e de se dirigirem a um café. Basílio esperava ansiosamente pela resposta da parente. “Queres saber o que acho sobre o quão previsível foi ter-me encontrado contigo no metro depois de 7 anos sem te ver, quando a minha vida estava desprovida de emoções e paz, para além do facto de estar sensível e desejosa de uma aventura proibida numa cidade agitada?” O primo respondeu que sim. Afinal de contas, era só um “pequeno adultério”. Uma aventura passageira, um affaire engraçado, capricho delicioso e sem consequências. Além do mais, estava na moda e tinha o seu quê de sensualidade. Era sua prima, mas não via problema nisso. Porque não? Relações com familiares só aumentam a dimensão trágica da coisa. Olhem o exemplo de “Os Maias”. Luísa disse que sim. Despediu-se dele, deu-lhe um beijo e foi sonhar com os seus futuros encontros promíscuos com o seu querido primo Basílio. Nota: Não foi assim mas podia ter sido.

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Uma Família Moderna Inglesa Em Junho, nas vésperas da grande festa do S. João, Carlos Whitestone vinha no comboio intercidades a chegar à sua cidade invicta. Desligou o mp3 e mandou uma mensagem a Jenny, sua irmã mais nova, a dizer-lhe que já estava em Campanhã. Carlos regressava dos seus estudos em Coimbra, onde tinha feito sucesso como conquistador nato e aventureiro. O seu pai, Richard Whitestone era um homem rico e bem visto no Porto, que estava constantemente ausente em viagens de negócios. Carlos era um jovem boémio, libertino e sem escrúpulos. As suas especialidades eram: comer tripas todos os domingos pela manhã e ir ao Palácio de Cristal aborrecer os patos. Revelava sérios distúrbios em manter-se responsável. Estouvado mas simpático, fisicamente bonito e bem constituído, gostava de ouvir Bryan Adams e ainda fazia trabalhos como modelo. Tinha o hábito irritante e egocêntrico de se tratar na 3ª pessoa. A sua irmã, Jenny, era mais reservada e tida como o elo de harmonia da família. Não se importava de fazer todo o trabalho doméstico, desde que o pai a compensasse com maratonas de compras em Santa Catarina durante uma tarde inteira. Lia a iHola! espanhola e gostava de pintar as unhas dos pés em degradê. Tinha grande habilidade de persuasão e um espírito vivo. Dava-se surpreendentemente bem com o irmão. Os dois combinaram os preparativos para ir ao S. João. Apesar da cumplicidade mútua, o amor fraterno não incluía terem os mesmos planos festivos. E a festa decorreu normalmente: muita comida, martelos de vários tamanhos, formas e cores, noite de calor, músicas populares dispersas, estradas vazias, uma gargalhada constante, cheiro a alho porro e cada um celebrava o S. João como lhe agradava mais. Foi de tal modo banal que ao outro dia ninguém estranhou a ressaca gigante que Carlos tinha. Dormiu durante uma manhã inteira, quando acordou lembrou-se de uma maravilhosa rapariga que tinha conhecido na noite anterior. Tinha apontado o seu número de telemóvel mas entretanto perdera-o. Os dois falaram muito, mas por alguma razão (alcoólica provavelmente) o jovem não se recordava das suas feições, somente de um curto e simples beijo que trocaram. Quando se levantou deixou cair um alfinete pequenino em forma de zebra que tinha a inicial C gravada com uma data de nascimento. Carlos sentiu-se na obrigação de contar o sucedido a Jenny. Esta quando soube do que se tinha passado ignorou-o, mas Carlos vendo a reacção despreocupada da irmã soltou uma frase esganiçada, tremida, embora verdadeira “Não gozes comigo, mas acho que estou apaixonado...”. E ainda se riu do alfinete encontrado. Durante dias e dias não pensou em mais nada, não comia, ouvia Celine Dion compulsivamente e gastava 1 rolo de kleanex em 4 horas. No fundo, sentia-se traído pelo seu orgulho adolescente, ou então era aquela coisa lamechas do amor que lhe tinha acertado como um taco de beisebol. Um dos dois era. Três dias depois do S. João, Jenny recebeu a visita da sua melhor amiga, Cecília. Uma jovem peculiar de quem Mr.Whitestone não gostava nada. Usava roupas velhas, tinha 7 furos numa orelha, punha rímel azul-marinho abundantemente e cheirava a uma plantação colombiana de cannabis. Era inteligente, boa pessoa e divertida. Cecilia entrou rapidamente em casa de Jenny, fez um ar enjoado, deitou-se ao contrário na cama e disse-lhe “Não gozes comigo, mas acho que estou apaixonada. Não me lembro dele, nem sei o que se passou, mas só sei que falámos sobre coisas interessantes e acabei por perder o meu alfinete.” Na versão de Júlio Dinis, os jovens acabam por se casar. Na minha não vou contar. Final Feliz Textos de Mónica Marques 7


PALAVRAS HÁ MUITAS, MAS POUCAS ME DESCREVEM TAL COMO EU SOU

Gostava de me saber apresentar. De simplesmente dizer às pessoas algo, que lhes permitisse saber o que podem esperar de mim. Mas não consigo, porque nem eu sei o que esperar de mim. O meu nome é Beatriz, tenho 16 anos, muitos sonhos e muitas ilusões. Ando sobre as nuvens e bebo a água da chuva. Abraço-me ao sol e amo a vida com todas as minhas forças. Respiro a água salgada do mar e adoro roçar os pés na areia. Gosto de correr até ao fim do arco-íris e viver histórias imaginárias. Choro para me libertar dos pesadelos e rio-me para chamar a felicidade. Chamo-me Beatriz e percorro o caminho para a Felicidade, sozinha ou acompanhada e não posso parar de andar. Não agora, só quando a encontrar. 16 de Fevereiro de 2011: Cabelos ao vento e sorriso rasgado. Simples e bela como só as pequenas coisas são capazes de ser. Oh bela rapariga! Sempre capaz de amparar as quedas, sempre pronta a distribuir sorrisos e abraços. Como és bela! Avanças decidida pelo teu caminho e nunca deixas de sorrir. Apoias os teus amigos e eles gostam de ti. Continuas a avançar bonita, elegante e sorridente. Pára rapariga, pára! Levas o coração a arrastar. Não paraste... Oh minha pequena bailarina! Como choras! Onde está a tua beleza? Onde está o teu sorriso? Sentas-te no meio da rua, as lágrimas formam uma poça à tua frente e o teu coração está preso apenas por um fio. Onde está o calor que partilhas com os outros? Porque é que não me ouves? Porque não deixas ninguém ajudar-te? Porque é que não me vês? Escuta-me! Pára de olhar para os teus problemas e para as tuas tristezas e sai do passeio as pessoas querem passar e o mundo não é todo teu. Oh banal rapariga! Sorri para mim, volta a animar o mundo!

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Hanna Não sei por onde hei-de começar a contar a minha história. O meu nome é Hanna e quando era pequena ambicionava ser bailarina.

Agora quando me olho ao espelho não me reconheço. O que antes foram os meus gestos hábeis e sintonizados agora transformaram-se em gestos de velha desequilibrada. Os meus pais sempre me prometeram um futuro brilhante, diziam que eu ia ser uma grande empresária e que ia ter um futuro fantástico. Verdade seja dita que a minha mãe nunca fez grande coisa por mim, a não ser ter-me posto neste mundo cruel. Solto o cabelo, ponho rímel e pinto os lábios procurando dar vivacidade a mim mesma. Gostava muito do meu pai, tratava-me bem e fazia-me todas as vontades. Não posso dizer que tive uma infância muito feliz. A minha mãe começou a beber e num dia em que eu estava na escola matou o meu pai, matando-se de seguida. Fui viver para casa dos meus tios e eles lá trataram-me muito bem, ou, pelo menos, assim o pensava na altura.

Fui submetida durante muitos anos a uma profissão cruel e indigna. Davam-me comer e até me arranjaram um trabalho fácil. Só tinha de fazer o que uns homens me mandavam.

Tinha de deixar o meu corpo ser tratado como um objecto e servir de alimento ao prazer dos homens. Agora fico enjoada quando me olho ao espelho. Queria poder dizer que tudo isto foi provocado pela passagem do tempo, mas não o posso dizer sem estar a mentir. Gostava que não me tivessem privado da vida e da minha condição de humana. Queria poder ter crescido, lutado pelos meus sonhos e viver uma vida diferente da que me foi destinada. Mas em vez disso fui atirada para a VIDA FÁCIL. Agora que finalmente me deixei dessa actividade não tenho sequer forças para me revoltar e explicar ao mundo o que muitas mulheres são obrigadas a fazer. Não devemos esperar pela idade adulta para agarrarmos a vida, porque a vida pode agarrar-nos antes. O meu nome é Hanna, quando era pequena ambicionava ser bailarina, mas fui prostituta.

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Impressão da minha visão da vida

" - NÃO! NÃO! LARGA-ME! PORCO! TARADO! " Apesar de todos os insultos, apesar de te pontapear violentamente, apesar de te arranhar o corpo tu não paraste. Arrancaste-me do corpo o vestido vermelho, que eu tinha vestido para a "nossa noite especial." Seguraste-me na cara e beijaste-me furiosamente. Cuspi-te para a cara. Agarraste em mim e fizeste tudo o que querias. Tornaste-me tua e violentaste-me, apesar de dizeres que me amavas. Não me deixaste falar. Fugiste, tão rápido como tinhas aparecido. Viste o sangue nos lençóis e pensaste que me tinhas tirado a virgindade. Nunca soubeste que aquele sangue que viste era o que restava do meu filho.

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Entendes os meus gritos? Entendes os meus gritos? Entendes quando eu imploro para parares? Apertas-me o pescoço e sufocas-me. Porque não me deixas falar? Sorris. Como se todos os teus gestos apagassem o mal que me fazes. Não, não me abraces. Tu magoas-me tanto. Não pelo que fazes. Não pelo que dizes. Mas pelo que és. Oh cruel desconhecido! Como é que posso ser feliz se tu me persegues? Como posso dormir descansada se me sorris em sonhos? Como posso sorrir se me esmagas o coração? Como posso libertar-me do passado se vens acorrentado a mim? Se me transformas o presente num pesadelo? E me fazes temer o futuro? Dizem-me para avançar e eu recuo. Nem tu, nem ninguém compreende os meus pensamentos Ninguém te vê como eu. Ninguém te teme como eu. E ninguém, nem mesmo eu compreende de onde apareceram estas palavras.

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“Hinnerk” Hoje, dia 24 de Agosto, encontro-me sentada no cemitério a observar-te. Passaram-se dois anos da tua morte e eu continuo a vir visitar-te. Farias o mesmo por mim? Não! Toda a tua vida te achaste o maior. Quando te olhavas ao espelho não vias uma pessoa, vias um Deus capaz de fazer tudo a que tinha direito e o que não tinha direito. Durante alguns, muitos, anos rebaixaste os outros, bateste nos mais fracos e ameaçaste os indefesos. Ou seja , fizeste com que a tua presença se tornasse um inferno para os outros. Morreste triste e desiludido com a vida. Todo o mal que fizeste aos outros “caiu-te” em cima. Os teus amigos desapareceram e a tua família abandonou-te. Agora, como nos últimos anos da tua vida, só cá estou eu. Eu que te amei apesar de todos os teus defeitos, que te apoiei quando mais precisaste, que te felicitei pelas tuas conquistas, que te tentei corrigir os defeitos e que tu sempre desprezaste. Depois de tudo o que fiz por ti tiveste coragem de me dizeres no último dia da tua vida «Estragaste-me a vida cabra». Podes ter estragado a vida a muita gente, mas também nunca tiveste um dia de felicidade. Porque por baixo de todos os teus sorrisos falsos e de todas as palavras de vitórias, guardavas uma grande tristeza por nunca teres encontrado a felicidade. Descansa em paz no inferno Hinnerk!

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“Os loucos” Hoje, finalmente, saí de casa. Estava farta daquelas quatro paredes brancas e dos sucessivos telefonemas da minha mãe a perguntarme se estava melhor. Fui caminhar sem rumo, por becos e ruelas. Quando quis voltar para casa apercebi-me que me tinha perdido. Ao fim de algum tempo a andar ao acaso e quando já me estava a preparar para gritar por socorro, encontrei uma pessoa. Era uma rapariga jovem, que se ria e falava muito alto enquanto empurrava um baloiço vazio. Fiquei a observá-la durante algum tempo, até que me aproximei. “- Olá” – disse-me ela sem nunca deixar de empurrar o baloiço. – “És bonita. Também já fui como tu. Mas os meus pais bateram-me muito e fizeram-me nódoas negras. Os médicos dizem que não vou crescer mais e que vou ficar assim para sempre. Estás a ver isto que tenho na cara? É uma queimadura. Fi-la uma vez quando o meu pai me atirou com um cigarro à cara. Este é o meu filho, chama-se Kaas.” – Ao dizer isto apontou para o baloiço vazio – “Um dia quando ele estava a andar neste baloiço eu virei-me de costas, porque me pareceu ouvir dizerem o meu nome. Por ter largado o baloiço ele caiu e bateu com a cabeça. Desde aí, sempre que vimos a este parque, eu não largo o baloiço para ele não cair. O meu marido chama-se Ernest saiu para comprar cigarros há quatro anos. Todos os dias vou à procura dele à tabacaria, mas dizem-me sempre que ele não apareceu por lá. Eu continuo a acreditar que ele vai aparecer, ele é um bom homem e não me ia abandonar. O meu nome é Mylia e chamam-me louca.” Ao dizer isto desapareceu dando a mão a uma criança imaginária. Uma rajada de vento trouxe-me uma folha de jornal aos pés. A notícia de primeira página dizia “Louca perigosa, de nome Mylia, fugiu do hospício quem a encontrar é favor telefonar à polícia .

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uma carta de amor 24 de Novembro de 2010 Estou aterrada, mal consigo pensar. Nunca imaginei que alguém me pudesse roubar assim o coração. Nunca pensei que só com um olhar me quebrassem a alma. Muito sinceramente, sempre pensei que era mais forte, que tinha forças suficientes para suportar tudo e mais alguma coisa. Mas pelos vistos enganei-me e de que maneira. Não só não sou forte, como sou fraca, muito fraca. Há quem acredite no amor à primeira vista. Eu estou a tentar convencer-me de que isso não existe. Não se pode amar alguém, sem se conhecer a pessoa. O amor à primeira vista não é um amor provocado pela pessoa, mas sim pela imagem da pessoa. Não consigo fechar os olhos sem a tua imagem me vir à memória. Não consigo ouvir música sem pensar em ti de imediato. Persegues-me. Já não te chegava roubares-me o coração como ainda tens de estar presente em tudo o que faço e em tudo o que penso? Porquê? Porquê a mim? Estava tudo a correr tão bem, tinha finalmente conseguido livrar-me de todas as barreiras que me tinham aparecido à frente, tinha enfrentado todas as minhas inseguranças, tinha decidido viver a vida e deixar as tristezas para trás. Mas para quê? Para depois tu chegares e me levares tudo? Para me deixares sem forças e indefesa? E o pior, o pior além disto tudo, é o facto de me fazeres sofrer tanto e nem sequer saberes disso. Ignorares completamente a minha existência, não saberes quem sou, nem em quem penso. Por isso, é completamente impossível pedir-te para parares e para me devolveres o coração. Só queria um pouco de descanso, mas agora, agora não sei como ultrapassar isto. Estou completamente indefesa e a minha única esperança é que com o passar do tempo a tua imagem me abandone e eu possa continuar com a minha felicidade.

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"HAVERÁ

LIMITES

PARA

O

AMOR?" Tudo tinha começado com esta pergunta. Miss Olga tinha lançado

o

desafio, primeiro para todos em geral, depois para mim em particular. E depois tinha ficado com uma expressão cómica, óculos na ponta do nariz, os olhos muito abertos e mão na anca. Quando ela fez a pergunta pensei em tudo o que tínhamos passado para ficarmos juntos, para depois de tantos sacrifícios os teus pais te terem levado para o fim do mundo, para um local onde a tecnologia ainda não tinha chegado. Amávamo-nos e provavelmente nunca mais nos íamos ver. Nunca me hei-de esquecer o que disseste quando nos separámos: "Eu amo-te, tu amas-me. E nada vai mudar isso, nem a distância nem outra coisa qualquer. O nosso amor supera tudo, nós somos vencedores e agora que conseguimos conquistar o Amor não vamos deixar que nos derrotem, prometo." Mas era tão difícil continuar a viver sem ti que talvez fosse melhor esquecer-te. Porém, isso seria ainda mais difícil, era como retirar o coração mas continuar a viver. Miss Olga batia o pé impacientemente, conseguia ouvi-la a produzir estalidos com a língua como fazia quando estava nervosa. Ansiava pela resposta e parecia não tencionar perguntar a outro aluno. -Não, não há. Não há limites para o Amor. Ou melhor, encontraremos pequenas barreira ao longo da nossa conquista, mas não o poderemos considerar limites, porque se é o que queremos então essas barreiras são facilmente superadas. - Muito bem, menina. - A cara de satisfação da professora dizia tudo, era isso que ela queria ouvir. Miss Olga nunca soube a verdadeira resposta, a resposta que me coçava a língua, mas que eu não deixei sair: O único limite para o amor é o cérebro, que apesar de nos fazer ver as coisas com clareza me impedia de fazer o que o meu coração realmente desejava.

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Entretanto, uma nova luz submergiu, algo mudou… Cabelos compridos, pele branca e olhos tristes. Uma bela rapariga encontrava-se ao frio, sozinha no meio da noite. Vestia unicamente uma túnica e encontrava-se descalça. Depois de todos os amores frustrados, depois de todos os olhares sem resposta, depois de todos os desgostos ela decidiu que queria acabar com a vida. As luzes da sua vida tinham-se apagado e a esperança, que tinha aparecido com a chegada dele, desapareceu. Tinha sido numa noite como aquela: fria. Mas nesse dia a rapariga estava alegre, tão alegre quanto era possível na sua profissão. Quando a abordou… Não foi a primeira vez que um homem dos negócios a “solicitou”, mas dessa vez foi diferente. Ele passou a “frequentá-la” com bastante assiduidade. Certo dia, ela perguntou-lhe se ele a podia amar. Com uma voz fria, distante e antipática, respondeu-lhe que não. Colocou as notas em cima da mesa e foi-se embora, deixando-a lá, nua, fria e frágil. Abandonou o passado com o pensamento, embora este a perseguisse. Agora, encontrava-se num penhasco e preparava-se para dar um passo, na tentativa da fuga eterna. Sim, estava decidida mas preferiu, antes, reavivar os momentos em que sorria, os momentos em que não era uma prostituta que vagueava nas noites, faminta de dinheiro. Um sorriso surgiu-lhe quando lembrou o sorriso da sua mãe. Entretanto, uma nova luz submergiu, algo mudou. Parece que o dia tinha acabado de nascer.

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Morrer.

É impressionante como é algo que toda a gente teme, mas toda a gente alcança. É o 2º processo mais natural que existe, porque o primeiro é nascer, mas é algo ninguém

deseja receber.

Seria complicado viver sem morrer. Eu creio que passados alguns milhares de anos já estaríamos todos

fartos

de andar por aqui e o

Planeta Terra ia desejar

nunca nos ter conhecido, mas isso é outra história. Voltando ao início, é tão natural e básico, mas é tão doloroso para todos. É doloroso para a família do doente que o viu

sofrer

durante meses. É dolorodo para a namorada do

rapaz que foi atropelado pelo homem que ia em exesso de

velocidade.

É doloroso para o

desconhecido que tentou salvar a rapariga, que acabou por se afogar. Seria tudo mais simples se víssemos a morte como um “ até

Por isso, até já Fernando Pessoa.

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já” e não um “adeus”.


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Fernando Pessoa e eu

Hoje andei perdida por Lisboa. Sim, perdida é mesmo o termo. Parei ao pé de um café porque fiquei fascinada com a personagem, que estava sentada numa das mesas da esplanada. Chapéu castanho com abas largas, óculos redondos, um pequeno bigode e um laço ao peito. Era um homem vulgar e escrevia. Sentei-me numa cadeira donde pude ver sobre o que ele escrevia. Escrevia uma carta de Amor! E como eram belas as palavras e como elevava as frases à mais alta poesia. A mulher que ia receber aquela carta era uma sortuda, certamente. Dei por mim a suspirar e a arrepender-me de não conseguir fazer o mesmo que este maravilhoso senhor. Devo ter sido muito pouco discreta porque senhor virouse para trás e disse-me: “Avançar mais seria entrar no domínio onde começa o ciúme, o sofrimento, a excitação. Nesta antecâmara da emoção há toda a suavidade do amor sem a sua profundeza (...) ”. Ao dizer isto dobrou a carta, guardou-a no bolso e foi-se embora. Oh meu querido Fernando Pessoa só tu me compreendes.

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Rumos traçados As pessoas seguem um caminho e um rumo na sua vida. Percorrem inúmeros momentos, alturas e ultrapassam diversos obstáculos. Procuram mil e uma coisas na sua vida, pois o ser humano não é saciável. Um sorriso não chega, meia dúzia de palavras não o completam. Queremos sempre mais. E passamos a nossa vida à procura disso. Dessa coisa que nos fará completos e cheios. Os dias vão passando, e a vida vai ficando mais curta, o tempo urge. No entanto, as pessoas só entendem que não aproveitaram a vida quando tudo acaba. Compreendem que não deram o devido valor às pequenas coisas. Que não riram nem choraram o suficiente. Que não aproveitaram as discussões, que não se apaixonaram com a intensidade devida. Percebem que deram mais valor do que deviam ao trabalho e menos às relações. Que não leram o suficiente, que não viram teatro, que não saborearam o cinema e a música. Que não viajaram, que não provaram ou conheceram tudo. Entendem que provavelmente não beijaram o suficiente os seus entes queridos e não lhes disseram tudo o que podiam e gostariam. Que não deram o devido valor aos conselhos e avisos, e que o deviam ter feito. Apercebem-se que deviam ter realizado tudo o que não fizeram, pois estavam tão ocupados à procura daquela coisa que os faria viver, que na verdade se esqueceram de aproveitar a vida. Quando esse momento chega as pessoas arrependem-se, lamentam-se, reclamam, sofrem. Mas nada voltará atrás. Sim, porque a vida não volta atrás. O tempo continua a correr, a avançar, e novos caminhos são traçados. Novos rumos são completados, e muitos terminados. “É assim a vida”, dizemos muitas vezes. Não tem necessariamente que ser assim. A vida é o que queremos que ela seja. Baseado no livro de poemas de Manuel Alegre, no poema do português errante.

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Catarina Catarina, Diz-me, onde é que estás? Sim, em Londres, eu sei, mas tu Catarina, a Catarina que eu em tempos conheci, essa onde está? Há já anos que não sei dela. Aquela que falava comigo sobre literatura e política e problemas fundamentais da sociedade. Aquela que me enviava cartas e postais, e me ligava e ia à minha casa de campo. Aquela que passeava alegremente pelas ruas de Lisboa e aquela que eu me orgulhava de conhecer. Que lhe aconteceu, Catarina? Tenho saudades dela. Podes fazer com que ela volte? Tentei esquecer-me disto, de ti e de nós, tive outros relacionamentos como é óbvio, mas há sempre algo que me remete para ti, minha querida Catarina. Agora, questiono-me como é que a vida de alguém pode mudar tão repentinamente. Ontem estavas aqui e hoje estás aí, não sei bem onde. Ouvi dizer que a nova Catarina não fala sobre literatura, não sorri, não anda alegremente por essas ruas, algures em Londres e envergou por um caminho incerto e doloroso. Podes partilhar essa dor comigo, eu estou aqui para ti, mesmo depois de tudo. Podíamos ter evitado isto, os dois. Não penses que não tenho peso na consciência. Eu não te devia ter deixado ir tão facilmente, mas pensei que saberias sempre o que fazer. Pensava que tu, Catarina, nunca te ias perder. Enganei-me. Agora sei, enganei-me.

Não preciso de ti. Não preciso de ninguém. Sabes o que é sentir que por mais que caminhes voltas sempre ao ponto de início, só que mais exausto ainda do que quando começaste? Vivo num mundo diferente do teu, do vosso aí. Acostumei-me a coisas a que vocês chamam de errado e eu aqui chamo de rotina. Nunca me irás perceber. Eu sou a Catarina, quer queiras quer não. Não há outra. Acho que não vai haver mais, não é que goste do que sou, mas não desgosto, aliás, aprendi a gostar. Também não me esqueci de nós. Foste importante mas passou. Não vou mentir, gostava de ter mais um abraço teu, mas tu eras incapaz de suportar a minha dor. Pára de tentar disfarçar o óbvio, eu e tu já não temos nada em comum.

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É Carnaval todo o ano Máscaras. Todos as temos: Eu tenho, tu tens e até o teu primo da província as tem. Uma máscara para usares quando a tua mãe te fala num assunto constrangedor, Uma máscara para quando te fazem um convite que desejavas que não te tivessem feito, Uma máscara se te esqueceste daquele dia especial, Uma máscara dá jeito para aquelas situações em que chegas atrasado a algum lado só porque adormeceste, Uma máscara é indispensável quando uma pessoa de quem tu não gostas nada te interpela no meio da rua, Uma máscara faz parte do prato principal quando conheces pela primeira vez a mãe dum amigo teu, E até em situações banais, como a de pedir um ice tea e uma sandes de presunto, tu usas aquela máscara que melhor te convém. Pois é, Chego a perguntar-me se até enquanto espalho o creme para as borbulhas em frente ao espelho do meu quarto uso uma máscara. Falamos do actor, do teatro, do fingimento, da intenção mas, no final de contas, todos usamos aquela máscara que melhor nos convém, naquele sítio, naquele momento e com aquela pessoa. Pois é amigo, quando estiveres confortavelmente sentado na cadeira a admirar a técnica e a convicção com que aquele ‘’fingidor’’ interpreta tão bem determinada personagem, lembra-te que o maior mascarado és tu.

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Caixa quadrada Deram-me um presente. Era uma caixa quadrada. O embrulho era simples. Nada desvendava o seu interior. Abanei-a e nada! Desapertei o laço, Motivada pela curiosidade. Dentro deste estranho embrulho, Encontrei um cubo. Quadrado e geometricamente perfeito. Misterioso presente! No interior do cubo Encontrei o vazio E um bilhete. “É assim que me sinto desde que foste embora.” Toda a curiosidade pelo misterioso presente dissipou-se. A caixa deixou de estar vazia. Juntamente com o teu bilhete, Ficaram as minhas lágrimas.

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A partir de “O Pecado de João Agonia”, de Bernardo Santareno. João Agonia, um rapaz de 25 anos, alto e bonito, vivia em constante agonia, pois ultimamente questionava-se com frequência sobre a sua sexualidade. Para ele, isto era um grande problema, pois tinha namorada há dois anos e tivera muitas namoradas durante o seu percurso de vida. João tinha um amigo de longa data, chamado Tiago com quem passava bastante tempo. Eram amigos desde que andavam no secundário e tornaram-se inseparáveis. Com o passar do tempo, João começou a aperceber-se que aquilo que sentia quando estava perto de Tiago não era algo a que ele estava habituado. O tempo foi passando. Com o tempo passou também a relação que João tivera com a sua namorada e o que sentia do Tiago era claro. Ele agora sabia que era homossexual e depois de ter conseguido processar essa informação não se escondeu mais. Assumiu quem era realmente, quem era o verdadeiro João Agonia, contando a seus pais quem era realmente. Esta novidade não foi bem recebida, uma vez que os pais eram muito católicos e condenavam a homossexualidade. Eles diziam que era pecado, que o seu filho era um pecador. João foi condescendente e percebeu que os seus pais tinham muito que assimilar, por isso deu-lhes tempo. Não ficou parado e contou aquilo que sentia à pessoa que o conhecia melhor, Tiago. Contoulhe que era homossexual, que tinha conhecido um rapaz e que tinha começado a sentir algo por ele. Era claro que era uma mentira, pois João gostava de Tiago, mas achou ser demasiada informação de uma vez tinha receio de perder Tiago como amigo. Tiago tentou aceitar ao máximo as preferências do amigo, tentando compreendê-lo e ficar do seu lado. Para João ficou claro que o que sentia não era correspondido, tendo nunca revelado a verdade. Para os seus pais, João passou a ser um pecador. Eles nunca conseguiram compreender as escolhas do filho, mas João continuava a acreditar que os pais um dia o iam aceitar, tal como era.

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Livro: quem és tu? Livro: quem és tu? Vejo-te na mesa-de-cabeceira. Pergunto-me o que te fez chegar aí. A curiosidade? O teu nome? A tua contracapa? O teu corpo é volumoso, bem constituído. Pego em ti: nem pesado, nem leve. Pergunto: Que me trazes, Livro? Sentimentos, respondes. És sempre tão céptico em relação a ti. Fascina-me essa tua simplicidade de respostas. Adoras que eu te folheie, que te olhe profundamente e descubra a essência da tua alma. Nunca sei o que és. Talvez um grande mistério que a minha curiosidade procura desvendar. Motivar, isso sabes tu. Sabes fazer-me ficar o dia inteiro a pensar no que me dirás à noite, a pensar nas palavras que eu quero que digas, a pensar como esta história irá acabar. Invades o meu pensamento e não sais de lá enquanto eu não for ao teu encontro. Chamas-me de noite e, sem licença, entras nos meus sonhos. És como o amor. Trazes sentimentos, ora felizes, ora tristes. Trazes-me lágrimas e sorrisos. Fazes-me rir ao mesmo tempo que me fazes ficar enojada das realidades que me mostras. Abres os meus olhos para o mundo, mostras-me no irreal o real. Fazes-me pensar num final feliz, e dás-me um final triste. Queres que sonhe, mas também que permaneça de pés assentes na terra. Exercitas a minha imaginação, às vezes com pormenores que nem eu pensaria. Depois, não me deixas parar. Leio, leio, leio e não me travas. Cativas-me, tentas-me e eu caio na tentação. Ups, um ponto final. Sim, cheguei ao fim. Fico triste, desanimada. Grito: «Quero mais!», tal como fazem as crianças. Mas não há mais folhas e descubro-te por completo. Quer dizer, depende. Às vezes deixas a história à minha imaginação, para fazer-me sofrer mais. Pego em ti: nem pesado, nem leve. Pergunto: Que me trazes Livro? Sentimentos, respondes. Tenho impressão que hoje a história é diferente. Será feliz? Triste? Ou será cómica? Bem, não há nada como descobrir. Pego em ti, abro-te. E sigo viagem.

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Pedro Paixão - Imagens Proibidas Somos, antes de tudo, criaturas de desejo e de morte. Nada há mais instável do que a realidade e o que temos, por mais seguro que seja, revela-se, tarde, ou cedo, o mais precário. O corpo é nosso sem nos pertencer. Nunca pensaste nisto? É como se vivêssemos nele, como se fosse alugado. É muito estranho e fica cada vez mais estranho. E já agora o que é que tu achas: uma carta é da pessoa a quem é dirigida ou da pessoa que a escreveu? As fotografias pertencem ao fotógrafo ou ao fotografado? Ou pertencerão à firma que produziu a máquina que as tirou? Qualquer imagem é difícil de descrever. Por isso é difícil narrar um sonho, que é só quase um perfeito e mágico encadeado de imagens. Ora, o problema dos sonhos é tenderem a transformarem-se em pesadelos. E foi isso que aconteceu. Desde que apareceste que vivo numa inconstância tremenda. Uma vez li por aí, 'na inconstância do mundo, não sabemos de onde vimos nem o que vem ao nosso encontro, mas podemos decidir responder, ou não, ao desconhecido; e o mais desconhecido é sempre o amor'. Sou um ser humano, não preciso de dizer o que escolhi. Menti-te tantas vezes, inutilmente claro. O problema é que quando se começa a mentir tem que se continuar a mentir, sem nunca poder olhar para trás. Por isso estou sempre a contar histórias. Aliás, nós precisamos de contar histórias sempre diferentes a pessoas diferentes, por ser a maneira que temos de escapar ao absoluto vazio do tempo que tudo nivela e anula. Precisamos continuamente de nos enganar, para podermos continuar. Constantemente tecemos histórias com a vida que vamos tendo ou imaginando ter, pela simples razão da vida, por si, não ter qualquer sentido. O sentido vem só com o que fazemos dela. A vida é um mercado, e tu adquiriste a minha, provavelmente num mercado negro. A vida é como um sonho e nós inconscientes sonâmbulos, estado do qual nunca verdadeiramente saímos, não conseguindo acordar. Chego à conclusão que tudo é efémero, uma coisa sempre a passar por outra e nada nos pertence. A vida altera-nos constantemente e não é necessário esperar pela morte: a perfeita felicidade tende a transformar-se naturalmente num duradouro tormento. O saber é o único poder que não nos pode ser retirado. E eu sei muitas coisas, sobre ti e sobre mim. O que melhor sei é que não somos nada: realidade e fantasia para sempre misturadas.

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Para além de uma porta (a partir de uma frase do livro: Os passos em volta, Herberto Helder ) "Não, não está ninguém junto à porta." E a pergunta que se instalava nela era se alguém, algum dia, iria estar. Já se tinha habituado à solidão, era um facto. Não queria sair, estava frio lá fora. A esperança era a única que a fazia aproximar-se da porta e a desilusão a principal razão pela qual se afastava. Tudo se resumia a passos. Para a frente e para trás. Por um sorriso, para uma lágrima. Isso poderia torná-la forte, mas cada vez a tornava mais frágil. Abraçava-se a si própria, porque não tinha ninguém para abraçá-la; desabafava consigo, porque ninguém estava disposto a ouvir a sua história; esperava uma entrada, mas ninguém abria a porta. Os dias eram vazios, os pensamentos preenchidos. E o movimento permanecia. Até que um dia nasceu o sol e a luz ultrapassou os velhos vidros da janela. Deslocou-se até à janela e viu que tinha parado de chover. Por breves momentos, o sorriso iluminou a sua cara desgastada. Sentiu uma força que a empurrou para o movimento habitual. Apenas uma coisa mudou: desta vez, saiu.

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Catalepsia Patológica

Compraram-lhe um caixão negro à última da hora, forrado por dentro com cetim vermelho e aparentemente já com o perfume dos lírios impregnado na madeira envernizada e em todo o lado. As mulheres choraram-no de braços dados, horas a fio, enquanto ele jazia frente ao altar da pequena capela. Os homens aparentavam a quase indiferença habitual e ainda se ouviu um ou outro comentário ao jogo da noite anterior. E ele, estava "teso que nem um carapau", imóvel e descolorado. Morto. Ou pelo menos assim se pensou. Porque ao fim de 10 anos debaixo de terra - quando alguém decidiu reclamar as ossadas e todas essas tretas que já são costume - deram com a madeira arranhada no interior do caixão e um par de unhas cravado na tampa. Sinal de que alguém tentou sair e não conseguiu. Mas no final de tudo, ficou efectivamente morto. E isso é que é importante, que não se gaste dinheiro em vão.

E também das tuas mãos nos meus pulsos

Logo hás-de chegar desajeitadamente e sem aviso, hás-de libertar as roupas no chão e aclarar a garganta (para nada dizeres). Já te sei de cor. Já sei que me vais beijar as costas, que vais contar as minhas costelas, pressionando-as uma de cada vez - como se não soubesses já quantas são. E depois (só depois) vamos falar da morte. Ou talvez hoje falemos do fim da vida. Vamos deixar-nos levar pelos copos de whiskey, que já se adivinham; e vamos discutir a metafísica como se isso fosse algo discutível. Depois é provável que a (nossa) libido - como Freud no-la mostrou - fale mais alto e o sexo termine como tão bem sabemos - a achar que aqueles movimentos são perpétuos e que o tempo é um conceito utópico. Um maço de tabaco depois, caímos nos (a)braços de Morfeu. E o amanhã não existe.

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Também pode ser morte

Quatro mãos. Dois pares de mãos. Mãos bêbedas, embriagadas pelo desejo; percorriam dois corpos simultânea & violentamente, agarrando pele, carne & ossos. Uma viagem de mentes deterioradas por curvas perfeitas em corpos vazios, dizia-se nas ruas, entre dentes. O que buscavam ao certo, no meio de tanta brutalidade, não é de conhecimento comum. Sobriedade, digo eu; contudo, em tom de incerteza. Em busca de sobriedade, entre espasmos de prazer, gemidos mal contidos & fluidos mornos. Um mau sítio para se a procurar, acrescente-se. Mas ao certo-certo ninguém sabe dizer o que foi. Sabe-se apenas de uma libido encontrada a boiar nos esgotos, estupidamente descarregada sanita abaixo, por todas as vezes que se rompeu algo que era suposto permanecer intacto; uma contradição a tudo o resto, afinal! Gastou-se demasiado no tal dia, digo eu. E entre o saber & o não saber, não escolho nenhum. Escolho não querer saber & continuar a contar pedras de calçada despreocupadamente. Novecentas e trinta e sete, novecentas e trinta e oito...

Um post-it para colar no Moleskine do Pessoa

Quando temos as coisas não conseguimos recordar que já não as tivemos e quando as não temos, não conseguimos recordar que já as tivemos. Assim, estamos sempre insatisfeitos porque a nossa memória se assemelha à de um ignóbil peixe de aquário e o nosso grau de exigência a um grande oito deitado. E não damos valor a nada, "não há valor em nada". Já matei tantas pessoas, que não sei como é que a minha pele ainda não se tingiu de encarnado. Já morreu tanto às minhas mãos, que não sei como é que a vida ainda não é p'ra mim um conceito utópico. Então, por cá ficamos e por aí ficais, desaprendendo de valorizar as coisas. Ricardo, perdes vida.

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(Im)possibilidades Ambos foram despejar o lixo. Encontraram-se por acaso, ignoraram-se por antipatia. Quando as pessoas são idênticas, agem de forma semelhante. De qualquer forma, que sentido faz cumprimentar um completo desconhecido? Ele abriu o contentor do lixo, fez o que tinha a fazer e, antipaticamente, voltou a baixar a grande tampa verde. Virou costas. "Abre a tampa do lixo novamente, acho que deixaste cair o relógio lá dentro!", gritou ela, porque ele já ia longe. Voltou o homem atrás para procurar o dito relógio e no momento em que abriu a tampa do contentor, ela enfiou lá para dentro o seu enorme saco preto. "Idiota, tens o relógio no pulso". Virou costas. "Hey, acho que consigo ouvir um bebé chorar aqui dentro!", disse ele, agora preocupado. "Eu sei! Não parava de chorar lá em cima e eu quero dormir!". Ela ganhou três horas de sono, ele ganhou um filho. E viveram felizes para sempre.

São coisas

Diz-se que é pianista. Eu digo que é bandido. E ninguém me leva a sério porque já se sabe que as meias-palavras de um analfabeto são muito pouco credíveis. Mas é bandido, vão por mim. De pianista não tem nada. Quando começarem a ouvir notas mortas, não se espantem. O analfabeto avisou.

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Gato preto é azar Ela perguntou-me se te podia matar esta noite. Eu disse-lhe que não, que não porque a casa é minha e se o chão ficasse sujo de sangue quem teria que limpar seria eu; e todos sabemos o quão difícil é tirar manchas de sangue de um chão de madeira velho, como este. Ficou desiludida. Perdeu aquele brilho que traz/trazia sempre no olhar, sabes? E eu achei que a faria feliz se lhe espetasse o punhal que trazia na mão, no peito. E espetei. E tinha razão! Ficou mesmo feliz, hã? Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas miudinhas. Brilharam! E agora tenho o chão todo sujo na mesma. Que chatice! Só espero que o gato não venha. Só espero que o gato não venha para me patinhar isto tudo.

Bom orgasmo e que arranjes muito tabaco

Alberto, não sei se já te disse mas temos o quarto assombrado. Sempre que sais de madrugada para ir às meninas, fico eu na nossa cama, enterrada em cobertores, enquanto espíritos idiotas vagueiam pelo quarto, lendo mudamente definições manhosas de Insónia. Eu acho que eles não gostam de ti, ou caso contrário não aguardariam a tua saída para me acompanhar. Isso também não é importante. Aquilo que importa para agora - e aquilo que te quero dizer - é que enquanto matas a fome à tua libido com um orgasmo ou dois, eu reflicto sobre o revólver que guardas na mesa-decabeceira. Apaixonei-me

por

um

fantasma

e

a

vida

não

é

uma

solução.

Deixo-te sopa de feijão para uma semana no frigorífico. Depois disso, morre à fome - as prostitutas não sabem cozinhar.

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Sogras Podemos falar? Quero tão desesperadamente matar a tua mãe e nunca consigo. Nunca consigo porque sempre que me preparo para o fazer, a velha estúpida pergunta-me se quero que me faça bolo de cenoura "para levar para casa" e tu já sabes como sou com o bolo de cenoura da tua mãe; completamente louca. Não consigo dizer que não. Não consigo mandá-la enfiar o bolo naquele sítio que toda a gente sabe e espetar-lhe um balázio na testa em dois segundos. Portanto, mata-a tu por favor. Mata a tua mãe, que eu não posso engordar mais.

Crónica do verbo jazer

Estava na varanda a regar a roseira morta quando vi a Beatriz lá em baixo, a passear na rua, espalhando pedaços de sorriso. Vestido curto, leve, demasiado transparente. O contorno dos seus seios e o desenho do seu mamilo esquerdo deram-me vontade de tocar piano. Criar a minha melhor composição de sempre. De repente apareceu o Analfabeto a correr, gritando mudamente coisas que só o Surdo Pedinte conseguiu ouvir. Atrás dele, corria o Bandido, de revólver em punho. Ai desgraça! Que o Analfabeto morre já aqui, debaixo dos meus olhos! Acudam! Fez-se pum e o vestidinho branco da outra galdéria tingiu-se de vermelho. Caiu a moça por terra e todos nos rimos. De facto, teve piada. Piadas de homens. Olha! Lá vem a Raquel. E que belo vestidinho traz hoje.

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Objectos Era uma simples folha de papel, que estava arrumada ao fundo de uma secretária. Encontrava-se amarelada, dobrada, rasgada e já não tinha os cantos. Não tinha uso, e provavelmente a detentora daquele pedaço de papel nem se lembraria dele. Porque haveria de fazer tal coisa? Era só uma folha, muitas desse género há em cadernos, talvez não tão amarelas. Mas por algum motivo, crença, ou razão emocional e quase irracional, aquela mulher guardou-o. Numa tarde, sentou-se à secretária, atarefada com tudo o que tinha para fazer ainda. Para conseguir completar esta árdua tarefa, levou consigo uma caneca de café, no entanto, esta escaldava. Então largou-a. Entornou o líquido por toda a secretaria, mas principalmente sobre aquele pedaço de papel. Ficou perplexa. Não sabia que pensar. Riu, riu às gargalhadas, e chorou. Era a única ligação que tinha tido a uma única fase da sua vida, uma fase que já passara, e que não voltaria mais, mas que podia sempre relembrar, ou melhor, poderia ter relembrado, caso não fosse tão ocupada. Pois é, os objectos para além da função que lhes foi destinada, guardam sempre algum segredo consigo. Alguma memória, de risos, choros, gargalhadas, e meiguices. Tenho certeza que todas as pessoas guardam um objecto, por mais básico que seja, em algum recanto à espera de ser recordado. É obvio que a senhora retomou a sua vida com normalidade, e continuou a seguir o seu rumo, mas, provavelmente, não iria recordar a dita fase do seu passado com tanta nitidez depois de o ter mergulhado em café e leite. O seu arrependimento? Podiam ser muitos, mas provavelmente o maior seria o facto de não ter retirado um pouco do seu tempo para recordar o que merecia ser recordado. É que muitas vezes as pessoas esquecem-se que a vida não é só o futuro, é o passado também. Se não fosse o passado, e as coisas que já aconteceram, provavelmente o presente não seria o mesmo, daí termos, de tempos em tempos, a breve mas absoluta necessidade de o reviver. Caso contrário, como teríamos chegado onde chegámos?

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XXXIV Passamos pelas coisas sem as ver, Gastos como animais envelhecidos; Se alguém chama por nós não respondemos, Se alguém nos pede amor não estremecemos: Como frutos de sombra sem sabor vamos caindo ao chão apodrecidos. As mãos e os frutos, Eugénio de Andrade Texto escrito a partir da minha interpretação dos poemas: Sentia-se só. Caminhava sozinho e sem rumo. A sua única companheira, já de longa data, tinha partido e nada a fazia voltar. A sua razão para viver tinha sido enterrada e já nada lhe importava. Era uma pessoa dada à solidariedade, gostava de ajudar, sempre que via alguém a pedir, prestava-se sempre a acudir com um sorriso. A sua mulher elogiava-o por isso, o que o tornava muito feliz. Agora, tudo é passado, tudo mudou. Uma enorme mudança se verificou nele. Tornou-se fechado, vazio, revoltado e sem ânimo. Passeava na rua, ignorando qualquer pessoa, qualquer obstáculo. Aprisionou-se na sua própria casa, escura, longe da luz do sol e da animosidade que traria a primavera. Só desejava, de um momento para o outro, cair para o chão, frio, duro, morto.

Existência questionável Vejo o meu reflexo na água – distorcido. Não sei, não sei o que é de mim. Não sei para onde fui, não sei que caminho segui. Revejo outra pessoa em mim que não eu. Sentimentos que me abraçaram e não me largam. Desconhecidos. Será a mudança ou sempre fui assim? Sento-me à beira-rio e olho a água transparente, pura, a seguir aquele caminho que alguns chamam vida. Vejome lá, mas sei que não sou assim, pura, transparente. Que é feito da inocência que me envolvia? Para onde corri nos dias felizes? Canso-me de pensar no que sou. Canso-me da perdição constante do meu pensamento. Canso-me de ser eu. Tenho pequenos diamantes dentro de mim e não consigo encontrá-los. Esporádica hipótese não fazia com que eu os mostrasse. Egoísmo ou modéstia? Só sei que nada sei. Sim, é verdade. E cada vez mais o labirinto se abre em mim, sem saídas. Terei eu alguma saída senão a morte?

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O livro será apenas um objecto? Ela sentava-se à beira-mar e lia. Um ritual que fazia questão de não perder. Quando era pequena, fazia-o com a sua mãe. Agora, na casa dos setenta, a rotina continuava e tudo permanecia, excepto uma coisa – o livro. O livro mudava: o tema, as personagens, o enredo - nunca era o mesmo. E ela apreciava isso porque gostava de coisas novas, gostava de viajar para novos lugares, gostava que os seus sonhos não tivessem restrições. Essa mudança também a mudava a ela. A sua rotina era eterna e igual mas ela, ela não continuava a mesma. O seu interior enriquecia-se cada vez que desfolhava páginas, como se fossem a sua vida. Tudo lhe dava imaginação e força para o amanhã e ela apreciava esse facto. A leitura já fazia parte de si. As emoções, as personagens, a história – tudo era seu. Tudo lhe pertencia através de um pequeno objecto que conhecera ainda criança e que permanecia a seu lado enquanto dormia – o livro. Certo dia, perguntaram-lhe se um livro poderia mudar a vida de alguém. Pergunta impertinente, claro que pode!, respondeu sorridente. E a verdade soubesse quando lhe perguntaram o porquê. -Quando se está sozinha, o livro pode ser a companhia que nos faz continuar vivos e acreditar em finais felizes. Sorriu, e foi-se embora.

A criança que não gostava de dicionários Numa noite sossegada, amena e estrelada, o menino de 7 anos decidiu pegar no dicionário e ver qual o significado de livro. “Reunião de cadernos, manuscritos ou impressos, cosidos ordenadamente, formando um volume encadernado ou brochado” era a sua definição. Desde sempre, ele odiava dicionários. Pensava que eram demasiado limitados e em algumas definições, tinha razão. Defendia a sua tese: quando as palavras são difíceis de definir, basta colocar lá que a sua definição é tão alargada, versátil, subjectiva que é incapaz de ser definida. O dicionário teria de admitir que não sabia tudo. Até Camões já tinha tentado encontrar uma definição para o amor e conseguiu defini-lo melhor que o dicionário, embora fosse uma mínima definição para aquilo que o amor é. Mas há outra razão para o menino de 7 anos não gostar de dicionários. Era criança e como tal gostava de sonhar, gostava de tentar alcançar o infinito e nunca conseguir. E via o dicionário como algo que o fazia, mas mal. Via-o como uma tentativa frustrada de alcançar o infinito do mundo das palavras. Queria acreditar que as palavras eram como os números – infinitas, - mas o entrave para essa crença era o dicionário. Um dia, pensou em queimar todos os dicionários, mas o pai não deixou. Primeiro, porque o fogo queimava e depois porque precisava de o usar para compreender melhor o que lhe era dito. O menino de 7 anos aborrecia-se com estas justificações. Então, decidia ir para a biblioteca e ler. Lia, lia muito e gostava de ler, principalmente livros grandes. Quase se sentia a nadar por entre palavras, linhas, pensamentos, doce imaginação! Adorava bibliotecas, adorava livros mas sobretudo adorava ser criança – não conhecia nada, tudo era novo, tudo podia ser imaginado, tudo podia ser um sonho que lhe dava ânimo, sorriso de criança. E era isso que ele gostava: de descobrir. Por isso, não gostava de dicionários.

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Partida Era o momento do ponto final, era o momento da despedida das palavras, mas ela nunca soube pontuar bem as suas frases, tinha medo de parágrafos e escondia os seus medos, porque sabia que havia sempre uma oportunidade de apagá-las. Agora queria rescrever e gritava. Não sabia o que era ter de continuar a escrever sem poder agarrar as palavras que lhe viravam as costas. Que agonia era aquela! Não havia maneira de esconder as suas emoções, mais cedo ou mais tarde cairia no chão em lágrimas com a caneta na mão. Pedia ao futuro que lhe desse um fim, ou que lhe desse sentido. Até as palavras a abandonaram. Deixaramlhe, para recordação, os pontos, as virgulas… mas as lindas letras com formas incríveis que lhe queimavam os olhos só de as observar, o som que elas provocavam nos seus lábios eram fantasias passadas que outrora lhe davam o poder de viver, o conto de fadas que queria. Bastava juntar um príncipe, uma princesa e um amor ardente no meio daquelas frases compridas e dali podia começar a sonhar. Agora, viriam pesadelos sem o amor das palavras para a reconfortar. Já estava no chão, caiam-lhe lágrimas como num dia cinzento. Daqueles dias em que ela escrevia só para poder dar reviravoltas na história e ter um final feliz, mais emocionante! Mas os dias cinzentos desistiram dos finais felizes, preferiram dias a preto e branco em vez de falsos arco-íris. Encolhia-se e olhava a caneta com tristeza, sabia que as únicas leituras que teria eram as dos livros escritos por aqueles que tinham possibilidade de reescrever as suas frases, daqueles que pensavam duas vezes, não eram como ela que se atirava às palavras sempre com segurança. Com demasiada segurança. Era assim, impulsiva, sem pensar no futuro, nunca imaginaria um futuro como este e se a avisassem de algo parecido a esta tragédia não acreditaria e continuaria a apagar e voltar a escrever. As palavras fartaram-se dela, era brincadeira a mais com elas. Afinal, que respeito tinha por elas? Elas queriam ser respeitadas e ensinar-lhe que esta era a vida, não podia simplesmente reescrever, teria de pensar duas vezes como os autores dos outros livros. Continuava no chão ainda com o som da ida das palavras na cabeça. Ficaria ali até que esse som fosse interrompido pelo som do seu regresso. Não sabia lidar com este episódio, este não fora escrito por ela, portanto passaria por aquela fase de entorpecimento da espera. Esperava o quê? O que o futuro lhe desse. Ali deitada, de cabelos sujos e molhados das lágrimas, de olhos inchados, de mãos na cabeça, de corpo abraçado pelo vazio, continuava a recordar o som dos risos das palavras. Eram risos leves. Esses risos perderamse na monotonia. Passavam dias e dias sempre a serem apagadas e rescritas, romances substituídos por tragédias, terrores substituídos por comédias e assim as suas obras perdiam-se, ela já nem sabia ao certo pelo que tinha optado no final. Arrependeu-se de ter substituído a comédia pelo terror. Talvez com o terror nas palavras percebesse a fúria que estas tinham quando eram rescritas. Tremia, estava doida por ler, por escrever. Ela tinha possibilidade de escrever mas não podia apagar, o que seria da sua vida sem apagar as palavras mal delineadas? O que seria de si sem as brincadeiras com os contos de fadas, sem as experiências malucas entre o príncipe e o sapo? Era com estas fantasias que ela ia aprendendo. Achava ela que reescrever era aprender, mas a lição que tinha de aprender não a aprendeu e acabou por perder duas coisas: o mundo e a lição para vingar nele. Entre os soluços, pensava agora nisso. Como já eram muitas coisas que a tinham deixado e como estavam interligadas, perder as palavras implicava perder o mundo, porque as palavras eram o seu mundo e era isso que tornava os dias monótonos. Ela e as palavras eram como uma só, havia uma grande cumplicidade, contudo, sem notar, ela traiu-as mais vezes do que elas podiam permitir, e a revolta levou à sua partida. Era o início do fim, mas preferia lembrar-se do princípio, do dia em que as palavras a abraçaram. Esse foi o dia em que ela esqueceu que havia um mundo, tinha deixado de sair de casa, talvez daí que lhe chamassem “a doida”, contudo o poder que ela tinha na sua própria escrita abafava os comentários. Se as pessoas percebessem o que é escrever, seriam todos doidos e não haveria ninguém para falar sobre a clausura, das velhotas como ela. Pensou como ficariam as ruas desertas se todos descobrissem o prazer de escrever. Lembrava-se vagamente do mundo lá fora. No início, ainda saía para passear com as palavras e sentava-se no jardim em longas conversas com elas. Eventualmente, com a clausura começou a monotonia e ela endoideceu com o poder de escrever. Havia dias em que tinha falta de inspiração, dava folga às palavras e elas iam dar os passeios que ela não dava, mas voltavam, sempre mais bem-dispostas e prontas a facilitar a tarefa que ela se propunha a fazer todos os dias. Voltavam sempre, mas a partir de hoje não voltariam mais, “o princípio do fim” recordava-se. Quem lhe dera ter passeado mais com as palavras no jardim, talvez quebrasse a monotonia, não que lhe interessasse grandes saídas, quem precisa de jardim quando descobre o amor das palavras? Ninguém. Mas será que ela não merecia ter reescrito tudo aquilo que reescreveu? Lembrava-se de um ou dois casos que a fizeram pensar e até

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lhe bloquearam a imaginação durante algumas semanas, longos passeios devem ter dado as palavras. Contudo, com a saudade do som que elas produziam acabou por reescrevê-las e assunto tratado. Mais um final feliz para juntar às centenas de papeis que tinha atulhados pela casa. O escritório era onde tinha mais concentração de finais felizes. Soltou um risinho quando se apercebeu que grande parte dos terrores que tinha escrito estavam na casa-debanho, que grande ironia! Pensou nisso e no mesmo segundo caiu-lhe mais uma lágrima ao perceber que já não tinha de se preocupar em arranjar espaço para mais finais felizes. Agora, poderia guardar dentro de si a tragédia que a atingira. Tinha à sua frente uma dúzia de manuscritos e decidiu lê-los para afogar a mágoa. Estava a descobrir algo que lhe era estranhamente novo, mas, por outro lado, aquelas palavras não lhe eram completamente novas. Olhou para a capa e viu o seu nome escrito naquela folha cheia de pó. O pó era uma coisa que não a incomodava, nem as palavras reclamavam, tinham tanto em comum, tinham tudo em comum. Elas eram aquilo que ela quisesse, mas essa disponibilidade esgotou-se... Devorou os primeiros parágrafos, ler rapidamente e bem era uma das suas qualidades, uma qualidade que aprendeu com as palavras, que saudades tinha! Ela tinha escrito aquilo, mas não se recordava de alguma vez ter lido tais frases, não se lembrava de ter lido alguma vez o seu trabalho, era disso que elas falavam no adeus, mencionaram como nunca reparou nas suas antigas palavras... Realmente, não se recordava de alguma vez ter lido o que escrevera, o que significava que ela não conhecia a sua própria escrita. As palavras eram tão viciantes que o que ela queria era escrever mais e mais, reescrever mais e mais. Aqui via mais um motivo para a partida delas. Ela estava realmente a ficar aquela velha doida e obcecada, como lhe chamavam. Horrorizada, encolheu-se. Era demasiado nova para ser intitulada com aqueles nomes. Mas seriam as palavras que lhe permitiam ser de qualquer idade ou o facto de não se ver ao espelho há anos e anos, que a mantinha com a mesma idade em que conheceu as palavras? Não iria comprovar, o medo queimava-lhe tudo por dentro, arrepios de grande densidade percorriam-lhe toda pele. Saber se era a velhota doida ou não implicava mais um motivo para a partida das palavras e já eram motivos a mais. Cada motivo era como uma facada, um choque na cabeça e a dor… Bem, a dor nem ela sabia o que achar da dor. Incrivelmente, a dor a ela, naquele momento, fazia-lhe bem, era um castigo por se ter tornado assim. Ela queria aquele castigo, mas era duro demais, não a fazia pensar em mais nada senão em tudo o que estivesse envolvido com as palavras. Neste momento, a sua cabeça rodava velozmente naquela divisão, que divisão era aquela afinal? Nem olhou, os seus sentidos estavam bloqueados. Ela não queria dormir, não queria comer, nem se queria mexer. Encostou-se a um canto e chorou o mais que pôde, enquanto isso, ia pensando para que servia chorar, por que é que as pessoas choravam quando esta dor aguda lhes preenchia o corpo? Cientificamente ela não tinha respostas, sempre foi uma mulher de letras. Na verdade sempre fora a mulher do vai e vem, a mulher do nada. Era uma rapariga normal, não era boa nem má, era indiferente. Tinha amigas, tinha amigos e durante muito tempo isso serviu-lhe, antes das palavras teve outras paixões, nenhuma comparada a esta, talvez só uma que se pudesse aproximar desta. Ele tinha sido uma paixão antiga, que lhe provocava quase a mesma sensação de felicidade e desejo, de vida que as doces palavras lhe provocavam, mas ela não se lembrava do que acontecera para aquele amor ter desaparecido, ela nunca se lembrava dos finais infelizes, era por isso que escrevia poucos e os guardava nos sítios menos felizes, bloqueava as más imagens, bloqueou o final com ele e bloquearia também o afastamento das palavras. Os pensamentos atropelavam-se e voltou a recordar-se da viciante vontade de reescrever. Este vício era tão perigoso e não havia ninguém que a pudesse ajudar. Não existia nenhum grupo de ajuda para este tipo de problemas. Continuaria ali abraçada pelo vazio até que lhe fosse dado um fim ou um sentido. Mas como seria um futuro com a cabeça sempre repleta de memórias das palavras? Para ela seria miserável. Realmente, preferia um fim.

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Nota final: Este livro de turma é constituído por um conjunto de textos de reflexão e pequenos contos, inspirados em obras, frases, imagens, personagens, títulos… do Projecto Individual de Leitura, no âmbito da disciplina de Literatura Portuguesa. O título Geografia dos Sentidos surgiu em conversa, enquanto a professora de Literatura e algumas alunas assistiam ao filme “Mistérios de Lisboa”, do realizador chileno Raul Ruiz a partir da obra homónima de Camilo Castelo Branco. Ainda longe de se imaginar que iria ser o eleito para designar esta colectânea, ficou no ouvido da aluna Mónica Marques, inspirando-a para a ilustração, que figura na capa, e para a criação do texto que abre este livro. Os textos não seguem uma sequência lógica, estão colocados de forma aleatória, até porque são excertos dispersos de sensações, de vivências, “olhares tímidos” sobre “uma infinidade de pequenos pormenores relevantes”. M.B.

. Textos da autoria das alunas, do 11º H: Andreia Rodrigues Beatriz Melo Carolina Barbosa Catarina Santos Constança Gambini Maria Melo Mónica Marques Rita Machado Tatiana Simões . Ilustrações / colagens: Mónica Marques . Fotografia (páginas 30-34): Carolina Barbosa . Outras imagens em http://www.google.pt/imghp?hl=pt-PT&tab=wi

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Livro de turma